{"id":8435,"date":"2018-06-25T20:55:09","date_gmt":"2018-06-25T23:55:09","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=8435"},"modified":"2018-06-25T20:49:34","modified_gmt":"2018-06-25T23:49:34","slug":"a-sociedade-dos-empregos-de-merda%ef%bb%bf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/06\/25\/a-sociedade-dos-empregos-de-merda%ef%bb%bf\/","title":{"rendered":"A sociedade dos empregos de merda\ufeff"},"content":{"rendered":"<p><b>David Graeber &#8211;\u00a0<\/b>Como o capitalismo contempor\u00e2neo cria sem cessar ocupa\u00e7\u00f5es in\u00fateis, enquanto remunera muito mal as mais necess\u00e1rias. Quais as alternativas? Garantia de trabalho? Ou Renda Cidad\u00e3 Universal?<\/p>\n<p>Em 1930, o economista brit\u00e2nico John Maynard Keynes previu que, no final do s\u00e9culo 20, pa\u00edses como os Estados Unidos teriam \u2013 ou deveriam ter \u2013 jornadas de trabalho de 15 horas semanais. Por que? Em grande medida, a tecnologia tiraria de nossas m\u00e3os tarefas sem sentido. Claro, isso nunca ocorreu. Ao contr\u00e1rio, muit\u00edssimas pessoas, em todo o mundo, est\u00e3o submetidas a longas jornadas como advogados corporativos, consultores, operadores de telemarketing e outras ocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><i>Mas enquanto muitos de n\u00f3s julgamos nossos trabalhos muito aborrecidos, algumas ocupa\u00e7\u00f5es n\u00e3o fazem sentido algum, segundo o escritor anarquista David Graeber. Em seu novo livro, \u201cBullshit Jobs: A Theory\u201d [\u201cTrabalhos de Merda: Uma Teoria\u201d], o autor argumenta que os seres humanos consomem suas vidas, muito frequentemente, em atividades assalariadas in\u00fateis. Graeber, que nasceu nos EUA e que j\u00e1 havia escrito, entre outras obras,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.estantevirtual.com.br\/livros\/david-graeber\/divida-os-primeiros-5-000-anos\/2719376416\">D\u00edvida: Os Primeiros 5000 anos<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/books\/2015\/may\/06\/the-utopia-of-rules-on-technology-stupidity-and-the-secret-joys-of-bureaucracy-david-graeber-review\">The Utopia of Rules<\/a>\u00a0[ainda sem edi\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas] \u00e9 professor de Antropologia na London School of Economics e uma das vozes mais conhecidas do movimento Occupy Wall Street (atribui-se a ele a frase \u201cSomos os 99%\u201d).<\/i><\/p>\n<p><i>A \u201cVice\u201d encontrou-se h\u00e1 pouco com Graeber para conversar sobre o que ele define como \u201cemprego de merda\u201d; por que os trabalhos socialmente \u00fateis s\u00e3o t\u00e3o mal pagos, e como uma renda b\u00e1sica assegurada a todos poderia resolver esta enorme injusti\u00e7a.<\/i><\/p>\n<p><b>Em primeiro lugar, o que s\u00e3o empregos de merda e por que existem?<\/b><\/p>\n<p><strong>David Graeber:<\/strong>\u00a0Basicamente, um emprego de merda \u00e9 aquele cujo executor pensa secretamente que sua atividade ou \u00e9 completamente sem sentido, ou n\u00e3o produz nada. E tamb\u00e9m considera que se aquele emprego desaparecesse, o mundo poderia inclusive converter-se num lugar melhor. Mas o trabalhador n\u00e3o pode admitir isso \u2013 da\u00ed o elemento de merda. Trata-se, portanto, em ess\u00eancia, de fingir que se est\u00e1 fazendo algo \u00fatil, s\u00f3 que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma s\u00e9rie de fatores contribuiu para criar esta situa\u00e7\u00e3o estranha. Um deles \u00e9 a filosofia geral de que o trabalho \u2013 n\u00e3o importa qual \u2013 \u00e9 sempre bom. Se h\u00e1 algo em que a esquerda e a direita cl\u00e1ssicas frequentemente est\u00e3o de acordo \u00e9 no fato de ambas concordarem que mais empregos s\u00e3o uma solu\u00e7\u00e3o para qualquer problema. N\u00e3o se fala em \u201cbons\u201d trabalhos, que de fato signifiquem algo. Um conservador, para o qual precisamos reduzir impostos para estimular os \u201ccriadores de emprego\u201d, n\u00e3o falar\u00e1 sobre que tipo de ocupa\u00e7\u00f5es quer criar. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m partid\u00e1rios da esquerda insistindo em como precisamos de mais ocupa\u00e7\u00f5es para apoiar as fam\u00edlias que trabalham duro. Mas e as fam\u00edlias que desejam trabalhar moderadamente? Quem as apoiar\u00e1?<\/p>\n<p><b>At\u00e9 mesmo os empregos de merda garantem a renda necess\u00e1ria para que as pessoas sobrevivam. No fim das contas, por que isso \u00e9 ruim?<\/b><\/p>\n<p>Mas a quest\u00e3o \u00e9: se a sociedade tem os meios para sustentar todo mundo \u2013 o que \u00e9 verdade \u2013 por que insistimos em que os trabalhadores passem sua vida cavando e em seguida tapando buracos? N\u00e3o faz muito sentido, certo? Em termos sociais, parece sadismo.<\/p>\n<p>Em termos individuais, isso pode ser visto como uma boa troca. Mas, na verdade, as pessoas obrigadas a tais trabalhos est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel. Podem considerar: \u201cestou ganhando algo por nada\u201d. Bem, as pessoas que recebem sal\u00e1rios bons, muitas vezes de n\u00edvel executivo, certamente de classe m\u00e9dia, quase sempre passam o dia em jogos de computador ou atualizando seus perfis de Facebook. Quem sabe, atendendo o telefone duas vezes por dia. Deveriam estar felizes por ser malandros, certo? Mas n\u00e3o s\u00e3o.<\/p>\n<p>As pessoas contratadas para tais trabalhos relatam, regularmente, que est\u00e3o deprimidas. E se lamentar\u00e3o, e praticar\u00e3o bullying umas contra as outras, e se apavorar\u00e3o com prazos finais porque s\u00e3o de fato muito raras. Por\u00e9m, se pudessem buscar uma raz\u00e3o social no trabalho, uma boa parte de suas atividades desapareceria. As doen\u00e7as psicossom\u00e1ticas de que as pessoas padecem simplesmente somem, no momento em que elas precisam realizar uma tarefa real, ou em que se demitem e partem para um trabalho de verdade.<\/p>\n<p><b>Segundo seu livro, a sociedade pressiona os jovens estudantes para buscar alguma experi\u00eancia de emprego, com o \u00fanico objetivo de ensin\u00e1-los a fingir que trabalham<\/b><\/p>\n<p>\u00c9 interessante. Chamo de trabalho real aquele em que o trabalhador realiza alguma coisa. Se voc\u00ea \u00e9 estudante, trata-se de escrever. Preparar projetos. Se voc\u00ea \u00e9 um estudante de Ci\u00eancias, faz atividades de laborat\u00f3rio. Presta exames. \u00c9 condicionado pelos resultados e precisa organizar sua atividade da maneira mais efetiva poss\u00edvel para chegar a eles.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, os empregos oferecidos aos estudantes frequentemente implicam n\u00e3o fazer nada. Muitas vezes, s\u00e3o fun\u00e7\u00f5es administrativas onde eles simplesmente rearranjam pap\u00e9is o dia inteiro. Na verdade, est\u00e3o sendo ensinados a n\u00e3o se queixar e a compreender que, assim que terminarem os estudos, n\u00e3o ser\u00e3o mais julgados pelos resultados \u2013 mas, essencialmente, pela habilidade em cumprir ordens.<\/p>\n<p><b>E os empregos tecnol\u00f3gicos ou na m\u00eddia. Seriam, tamb\u00e9m, de merda?<\/b><\/p>\n<p>Certamente. Por meio do Twitter, pedi \u00e0s pessoas que me relatassem seus empregos mais sem sentido. Obtive centenas de respostas. Havia um rapaz, por exemplo, que desenhava b\u00e2ners publicit\u00e1rios para p\u00e1ginas web. Disse que havia dados demonstrando que ningu\u00e9m nunca clica nestes an\u00fancios. Mas era preciso manipular os dados para \u201cdemonstrar\u201d aos clientes que havia visualiza\u00e7\u00f5es \u2013 para que as pessoas julgassem o trabalho importante.<\/p>\n<p>Na m\u00eddia, ha um exemplo interessante: revistas e jornais internos, para grandes corpora\u00e7\u00f5es. H\u00e1 bastante gente envolvida na produ\u00e7\u00e3o deste material, que existe principalmente para que os executivos sintam-se bem a respeito de si pr\u00f3prios. Ningu\u00e9m mais l\u00ea estas publica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><b>A automa\u00e7\u00e3o \u00e9 vista, muitas vezes, como algo negativo. Voc\u00ea discorda deste ponto de vista, n\u00e3o?<br \/>\n<\/b>Certamente. N\u00e3o o compreendo. Por que n\u00e3o dever\u00edamos eliminar os trabalhos desagrad\u00e1veis? Em 1900 ou 1950, quando se imaginava o futuro, pensava-se: \u201cAs pessoas estar\u00e3o trabalhando 15 horas por semana. \u00c9 \u00f3timo, porque os rob\u00f4s far\u00e3o o trabalho por n\u00f3s\u201d. Hoje, este futuro chegou e dizemos: \u201dOh, n\u00e3o. Os rob\u00f4s est\u00e3o chegando para roubar nossos trabalhos\u201d. Em parte, \u00e9 porque n\u00e3o podemos mais imaginar o que far\u00edamos conosco mesmo se tiv\u00e9ssemos um tempo razo\u00e1vel de lazer.<\/p>\n<p>Como antrop\u00f3logo, sei perfeitamente que tempo abundante de lazer n\u00e3o ir\u00e1 levar a maioria das pessoas \u00e0 depress\u00e3o. As pessoas encontram o que fazer. Apenas n\u00e3o sabemos que tipo de atividade seria, porque n\u00e3o temos tempo de lazer suficiente para imaginar.<\/p>\n<p>Pergunto: por que as pessoas agem como se a perspectiva de eliminar o trabalho desnecess\u00e1rio fosse um problema? Dever\u00edamos pensar que um sistema eficiente \u00e9 aquele em que se pode dizer: \u201cBem, temos menos necessidade de trabalho. Vamos redistribuir o trabalho necess\u00e1rio de maneira equitativa\u201d. Por que isso \u00e9 dif\u00edcil? Se as pessoas simplesmente assumem que \u00e9 algo completamente imposs\u00edvel, parece-me claro que n\u00e3o estamos em um sistema eficiente.<\/p>\n<p><b>Um dos pontos mais interessantes do livro s\u00e3o suas observa\u00e7\u00f5es sobre como os empregos socialmente valiosos s\u00e3o quase sempre menos bem pagos que os empregos de merda.<\/b><\/p>\n<p>Foi uma das coisas que, pessoalmente, mais me chocou na fase da pesquisa. Comecei a tentar descobrir se algum economista havia observado o fen\u00f4meno e tentado explic\u00e1-lo. Houve antecedentes, na verdade. Alguns eram economistas de esquerda; outros, n\u00e3o. Alguns eram totalmente\u00a0<i>mainstream.<\/i><\/p>\n<p>Mas todos chegaram \u00e0 mesma conclus\u00e3o. Segundo eles, h\u00e1 uma tend\u00eancia: quanto mais benef\u00edcios sociais um emprego produz, menor tende a ser a remunera\u00e7\u00e3o \u2013 e tamb\u00e9m a dignidade, o respeito e os benef\u00edcios. \u00c9 curioso. H\u00e1 poucas exce\u00e7\u00f5es e n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o excepcionais como se poderia pensar. Os m\u00e9dicos, \u00e9 claro, s\u00e3o um caso not\u00f3rio: \u00e9 evidente que s\u00e3o pagos com justi\u00e7a e oferecem benef\u00edcios sociais.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, h\u00e1 um argumento recorrente: \u201cN\u00e3o seria bom que pessoas interessadas apenas em dinheiro ensinassem as crian\u00e7as. N\u00e3o se deve pagar demais aos professores. Se o fiz\u00e9ssemos, ter\u00edamos gente gananciosa na profiss\u00e3o, em vez de professores que se sacrificam\u201d. H\u00e1 tamb\u00e9m a ideia de que se um trabalhador sabe que sua atividade produz benef\u00edcios, isso pode ser o bastante. \u201cComo, voc\u00ea quer dinheiro, al\u00e9m de tudo?\u201d As pessoas tendem a discriminar qualquer um que tenha escolhido um emprego altru\u00edsta, sacrificante ou apenas \u00fatil.<\/p>\n<p><b>Aparentemente, voc\u00ea \u00e9 pouco favor\u00e1vel \u00e0 ideia de\u00a0<i>garantia de trabalho,\u00a0<\/i>defendida entre outros por Bernie Sanders [candidato de esquerda \u00e0 presid\u00eancia dos EUA], por preferir a\u00a0<i>garantia de renda cidad\u00e3.<\/i><\/b><\/p>\n<p>Sim. Sou algu\u00e9m que n\u00e3o quer criar mais burocracia e mais empregos de merda. H\u00e1 um debate sobre\u00a0<i>garantia de trabalho\u00a0<\/i>\u2013 que Sanders, de fato, prop\u00f5e, nos EUA. Significa que os governos deveriam assegurar que todos tenham acesso ao menos a algum tipo de trabalho. Mas a ideia por tr\u00e1s da\u00a0<i>renda universal da cidadania\u00a0<\/i>\u00e9 outra: simplesmente assegurar \u00e0s pessoas meios suficientes para viver com dignidade. Al\u00e9m desse patamar, cada um pode definir quanto mais deseja.<\/p>\n<p>Acredito que a garantia de trabalho certamente criaria mais empregos de merda. Historicamente, \u00e9 o que sempre acontece. E por que dever\u00edamos querer que os governos decidissem o que podemos fazer? Liberdade implica em nossa capacidade de decidir por n\u00f3s mesmos o que quremos e como queremos contribuir para a sociedade. Mas vivemos como se tiv\u00e9ssemos nos condicionado a pensar que, embora vejamos na liberdade o valor mais alto, na verdade n\u00e3o a desejamos. A renda b\u00e1sica da cidadania ajudaria a garantir exatamente isso. N\u00e3o seria \u00f3timo dizer: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o tem mais que se preocupar com a sobreviv\u00eancia. V\u00e1 e decisa o que quer fazer consigo mesmo\u201d?<\/p>\n<p>https:\/\/outraspalavras.net\/destaques\/a-sociedade-dos-empregos-de-merda\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>David Graeber &#8211;\u00a0Como o capitalismo contempor\u00e2neo cria sem cessar ocupa\u00e7\u00f5es in\u00fateis, enquanto remunera muito mal as mais necess\u00e1rias. Quais as alternativas? Garantia de trabalho? Ou Renda Cidad\u00e3 Universal? 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