{"id":8409,"date":"2018-06-21T19:15:26","date_gmt":"2018-06-21T22:15:26","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=8409"},"modified":"2018-06-21T19:11:10","modified_gmt":"2018-06-21T22:11:10","slug":"o-brazil-nao-conhece-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/06\/21\/o-brazil-nao-conhece-o-brasil\/","title":{"rendered":"\u201cO Brazil n\u00e3o conhece o Brasil\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>William Nozaki e Jess\u00e9 de Souza<\/strong> &#8211;\u00a0Ou, porque as camadas populares n\u00e3o s\u00e3o como as elites e as classes m\u00e9dias gostariam que elas fossem.<\/p>\n<p><strong>O cotidiano dos batalhadores da periferia de S\u00e3o Paulo<\/strong><br \/>\nO pensamento social moderno tem como ponto de partida uma premissa fundamental: enquanto, por assim dizer, os intelectuais buscam a verdade dos fatos, os indiv\u00edduos em geral se ocupam de perseguir o sentido das coisas. Noutras palavras, verdade e realidade n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f4nimos e confundir esses dois conceitos redunda em um positivismo raso que promove um sem fim de desentendimentos, erros anal\u00edticos e equ\u00edvocos cr\u00edticos. O trabalho de um pensamento social cr\u00edtico \u00e9 justamente o de tentar compreender como as pessoas conferem \u201csentido\u201d para suas vidas, entendendo a palavra na sua dupla acep\u00e7\u00e3o: sentido como norte e sentido como significado.<\/p>\n<p>A vida de um morador ou de uma moradora da periferia de S\u00e3o Paulo, via de regra, \u00e9 marcada pela dureza e pela vira\u00e7\u00e3o do cotidiano: acorda-se em m\u00e9dia as seis da manh\u00e3; gasta-se cerca de 5h30 em transportes p\u00fablicos, somando a ida e a volta do trabalho, em geral nas regi\u00f5es centrais, o smartphone muitas vezes \u00e9 a \u00fanica companhia; sobretudo no setor de servi\u00e7os as jornadas, com hora extra, podem alcan\u00e7ar at\u00e9 doze horas de trabalho, muitas vezes imersos em lojas abarrotadas de mercadorias ou em centrais de telemarketing atendendo a classe m\u00e9dia com suas peculiares grosserias, como o cl\u00e1ssico \u201cvoc\u00ea sabe com quem est\u00e1 falando?\u201d ou com seu t\u00edpico desd\u00e9m covarde expresso na mentirinha, que, no fundo \u00e9 uma desfa\u00e7atez, do \u201cvolto depois\u201d, alimentando a ansiedade de quem precisa da comiss\u00e3o de uma pequena venda; na hora do almo\u00e7o, ombreando em filas de self service precisam comer r\u00e1pido, quase sempre de olho numa televis\u00e3o que passa notici\u00e1rios enviesados e apresentadores histri\u00f4nicos transformando trag\u00e9dias em espet\u00e1culos; entre O cotidiano dos batalhadores da periferia de S\u00e3o Pauloaqueles que se desdobram para estudar a noite h\u00e1 ainda um turno de pelo menos mais quatro horas, muitas vezes em cursos de direito e de administra\u00e7\u00e3o de empresas que reproduzem as l\u00f3gicas do bacharelismo e repetem o mantra de que o Estado \u00e9 pior do que o mercado; no caso das mulheres h\u00e1 ainda a injusta sobrecarga com o trabalho dom\u00e9stico; ao final do dia, ao retornar para casa, n\u00e3o raro por volta da meia noite, enfim, se pode sentar no sof\u00e1 comprado a presta\u00e7\u00e3o, enquanto se espera a comida esquentar no microondas, zapeando a TV entre reality shows ou notici\u00e1rios que v\u00e3o reiterar os mesmos discursos liberais e conservadores entoados pelos professores da faculdade de baixo padr\u00e3o e endossados pelo senso comum. Quando se \u00e9 poss\u00edvel descansar, o shopping e o com\u00e9rcio do bairro s\u00e3o as op\u00e7\u00f5es priorit\u00e1rias, e quando se \u00e9 poss\u00edvel sonhar, a casa pr\u00f3pria, o carro, o descanso e melhores condi\u00e7\u00f5es para a fam\u00edlia s\u00e3o a regra, da\u00ed a vontade de empreender, ter o pr\u00f3prio neg\u00f3cio, muitas vezes, \u00e9 a \u00fanica chance de morar perto de casa ou de poder levar os filhos juntos na falta de ter com quem deixar. Sobretudo no caso dos jovens acessar mais e melhores marcas \u00e9 um desejo proeminente.<\/p>\n<p><strong>Para al\u00e9m do equ\u00edvoco da suposta \u201cnova classe m\u00e9dia\u201d<\/strong><br \/>\nUma parcela das camadas populares brasileira saiu da invisibilidade nos \u00faltimos anos, e at\u00e9 que esse processo fosse abruptamente interrompido pela crise pol\u00edtica, econ\u00f4mica, moral e institucional que se abateu sobre o pa\u00eds, tais trabalhadores foram tratados de forma equivocada como uma \u201cnova classe m\u00e9dia\u201d e a maior parte dos int\u00e9rpretes que se afian\u00e7aram nesse conceito ex\u00f3tico incorreu em pelo menos dois erros:<\/p>\n<p>(i) H\u00e1 uma associa\u00e7\u00e3o superficial entre renda individual e classe social. O fato, por exemplo, de um trabalhador industrial qualificado e um professor universit\u00e1rio auferirem a mesma renda pode ser encarado como um indicador macroecon\u00f4mico de redu\u00e7\u00e3o da desigualdade. Mas, sociologicamente, diz muito pouco, ou quase nada, sobre seus estilos de vida distintos e seus h\u00e1bitos de consumo diferentes. Tais ganhos, certamente, ser\u00e3o utilizados a partir de refer\u00eancias culturais e entre redes sociais que n\u00e3o garantem nenhum la\u00e7o de pertencimento de classe, pelo contr\u00e1rio: o mais prov\u00e1vel \u00e9 que a realiza\u00e7\u00e3o do consumo revele status sociais ainda muito desiguais. Nesse sentido, h\u00e1 muitas diferen\u00e7as entre o estilo de vida da classe m\u00e9dia estabelecida e os trabalhadores precarizados e superexplorados que est\u00e3o longe de ser transpostas.<\/p>\n<p>(ii) H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o inadequada entre renda m\u00e9dia e estrato m\u00e9dio. Na maior parte das vezes, os estudos que abordam o assunto referem-se \u00e0 m\u00e9dia em seu sentido alg\u00e9brico, ou seja: m\u00e9dia \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica daquilo que est\u00e1 igualmente distante dos pontos extremos. Como a distribui\u00e7\u00e3o de renda no pa\u00eds \u00e9 historicamente severa, como h\u00e1 uma dist\u00e2ncia muito grande entre os muito ricos e os extremamente pobres, o agrupamento intermedi\u00e1rio orbita numa vasta faixa de rendimentos que vai, aproximadamente, de R$ 1000 a R$ 5000, dependendo do crit\u00e9rio utilizado pelo pesquisador. Essa zona de estratifica\u00e7\u00e3o dilatada impede an\u00e1lises mais criteriosas. Sendo assim, as denomina\u00e7\u00f5es \u201cclasse C\u201d e \u201cnova classe m\u00e9dia\u201d s\u00e3o infelizes, posto que transmitem a impress\u00e3o de que o Brasil est\u00e1 se tornando aquilo que n\u00e3o \u00e9: um pa\u00eds em que os remediados s\u00e3o a maioria e no qual a pobreza vai tornando-se um problema residual.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, essas no\u00e7\u00f5es trazem consigo a ideia conservadora de que a sociedade \u00e9 apenas uma cole\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos e a vis\u00e3o liberal de que h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es para que todos possam ascender socialmente, ao mesmo tempo, pelo m\u00e9rito e pelo trabalho.<br \/>\nPara compreender essas mudan\u00e7as em sua inteireza \u00e9 preciso empreender uma an\u00e1lise que ultrapasse as leituras baseadas nas informa\u00e7\u00f5es de renda e rendimentos, \u00e9 preciso incorporar outras vari\u00e1veis como estrutura ocupacional, acesso a mercadorias privadas e a servi\u00e7os p\u00fablicos, padr\u00f5es de consumo, entre outros. Esses s\u00e3o os elementos que nos permitem uma aproxima\u00e7\u00e3o, ainda que muito preliminar, sobre as prefer\u00eancias econ\u00f4micas e pol\u00edticas desse novo grupo social, para al\u00e9m do capital econ\u00f4mico, \u00e9 fundamental que se leve em considera\u00e7\u00e3o o papel exercido pelo capital cultural e pelo capital social quando incorporados em determinados grupos.<\/p>\n<p><strong>Para al\u00e9m das simplifica\u00e7\u00f5es do \u201ceconomicismo\u201d<\/strong><br \/>\nA ideia de classe social \u00e9 mal conhecida por boas raz\u00f5es. Primeiro porque ela, acima de qualquer outra ideia, nos d\u00e1 a chave para compreender tudo aquilo que \u00e9 cuidadosamente posto embaixo do tapete pelas pseudo-ci\u00eancias e pela imprensa enviesada. Como o pertencimento de classe prefigura e pr\u00e9-determina, pelo menos em grande medida, todas as chances que os indiv\u00edduos de cada classe espec\u00edfica vai ter na sua vida em todas as dimens\u00f5es, negar a classe equivale tamb\u00e9m a negar tudo de importante nas formas modernas de produzir injusti\u00e7a e desigualdade.<\/p>\n<p>Afinal, sem que se reconstrua a pr\u00e9-hist\u00f3ria de classe de cada um de n\u00f3s, temos apenas indiv\u00edduos competindo em condi\u00e7\u00f5es de igualdade pelos bens e recurso escassos em disputa na sociedade. Tudo muito \u201cmerecido\u201d e \u201cjusto\u201d. Sem a id\u00e9ia de classe e o desvelamento das injusti\u00e7as que ela produz desde o ber\u00e7o, temos a legitima\u00e7\u00e3o perfeita para o engodo da meritocracia individual do indiv\u00edduo competitivo.<\/p>\n<p>A forma mais eficaz e mais comum de se negar a import\u00e2ncia do pertencimento de classe social para a vida de todos n\u00f3s \u00e9 (n\u00e3o) perceb\u00ea-la apenas como realidade econ\u00f4mica. Essa \u00e9 a forma principal como 99% das pessoas (n\u00e3o) percebem a classe social e sua import\u00e2ncia. Peguemos como exemplo a divis\u00e3o da sociedade entre \u201cfaixas de renda\u201d A, B, C, D e E. \u00c9 assim que\u00a0 (n\u00e3o) se debate na imprensa\u00a0 de todos os dias o tema da classe. A ideia \u201cbrilhante\u201d por tr\u00e1s desse forma, na realidade arbitr\u00e1ria e rid\u00edcula, de se segmentar a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que o \u201ccomportamento diferencial\u201d \u2013 afinal \u00e9 isto que se quer descobrir &#8211; entre os indiv\u00edduos deve se explicado pelo tamanho de seu bolso.<\/p>\n<p>Assim, todas as escolhas individuais obedeceriam a uma esp\u00e9cie de \u201cc\u00e1lculo\u201d de chances e oportunidades universalmente compartilhado por todos. Todas as pessoas s\u00e3o percebidas como produto em s\u00e9rie rigorosamente igual se diferenciando unicamente pelo que possui no bolso. Ningu\u00e9m se escandaliza com tamanha pobreza anal\u00edtica porque um leitor de classe m\u00e9dia percebe apenas a homogeneidade de sua pr\u00f3pria classe. Melhor, de sua pr\u00f3pria fra\u00e7\u00e3o de classe. Como este tipo de sujeito e de padr\u00e3o de consumo \u00e9 t\u00edpico das classes m\u00e9dias \u2013 a classe tamb\u00e9m da esmagadora maioria dos pesquisadores e intelectuais \u2013 o que temos aqui \u00e9 universaliza\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o de comportamento da classe m\u00e9dia para todas as outras classes. O que fica nas sombras nesse tipo fajuto de an\u00e1lise social \u00e9 o mais importante: por que existem algumas pessoas com 500 reais no bolso no final do m\u00eas e outras com 500 mil ou at\u00e9 500 milh\u00f5es? Como \u00e9 produzida tamanha diferen\u00e7a? Afinal, ningu\u00e9m \u201cescolhe\u201d ganhar 500 reais se pode aspirar a 500 mil. Como sempre \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o da \u201cg\u00eanese da injusti\u00e7a\u201d que \u00e9 tornada invis\u00edvel.<\/p>\n<p>Como se n\u00e3o bastasse, mesmo pessoas que ganham sal\u00e1rio semelhante, imaginemos um trabalhador da ind\u00fastria automobil\u00edstica e um professor universit\u00e1rio em in\u00edcio de carreira com seus eventuais oito mil reais de sal\u00e1rio mensal. Por conta da incorpora\u00e7\u00e3o diferencial de capital cultural de car\u00e1ter \u201ct\u00e9cnico\u201d de um trabalhador qualificado e de capital cultural mais \u201cliter\u00e1rio\u201d de um professor de ci\u00eancias humanas, por exemplo, todas as escolhas individuais em cada caso tendem a ser distintas. Desde o padr\u00e3o de consumo, do filme que se assiste, ao tipo de lazer, de se vestir, de escolher amizades e parceiros er\u00f3ticos, todo um \u201cestilo de vida\u201d enfim, tendem a ser, e s\u00e3o de fato, muito diferentes. O que se ganha se associando pessoas t\u00e3o diferentes a um mesmo n\u00edvel de renda? Quer exemplo melhor de que o bolso n\u00e3o explica o comportamento diferencial das pessoas?<\/p>\n<p>Como uma leitura t\u00e3o arbitr\u00e1ria e t\u00e3o tosca da realidade \u00e9 t\u00e3o difundida e transformada em \u201ccren\u00e7a social\u201d compartilhada?\u00a0 Ora, 90% do que se passa por ci\u00eancia e que vai ser a subst\u00e2ncia do (falso) debate midi\u00e1tico \u00e9, na verdade, justifica\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica, sob o uso legitimador do \u201cprest\u00edgio cient\u00edfico\u201d, de rela\u00e7\u00f5es f\u00e1ticas de domina\u00e7\u00e3o. Para que n\u00e3o se compreenda como o mundo social funciona dando a impress\u00e3o de que sabemos tudo e que somos adequadamente informados. Infelizmente a leitura de esquerda, influenciada pelo marxismo n\u00e3o \u00e9 muito melhor que a leitura liberal da renda como fator determinante.<\/p>\n<p>A leitura inspirada pelo marxismo \u00e9 um pouco melhor que a leitura liberal dominante, que se concentra na mera diferen\u00e7a de renda, posto que foca no lugar ocupado na produ\u00e7\u00e3o. Enquanto a leitura liberal, como sempre, s\u00f3 leva em considera\u00e7\u00e3o a \u201cdistribui\u00e7\u00e3o e o consumo\u201d, a leitura inspirada pelo marxismo e dominante na esquerda entre n\u00f3s, se concentra na \u201cprodu\u00e7\u00e3o e na ocupa\u00e7\u00e3o\u201d. A \u00eanfase na produ\u00e7\u00e3o e na ocupa\u00e7\u00e3o funcional permite ver aspectos completamente fora de vis\u00e3o quando se toma apenas a distribui\u00e7\u00e3o e o consumo. A principal vantagem \u00e9 que o foco na produ\u00e7\u00e3o e na ocupa\u00e7\u00e3o permite perceber a distribui\u00e7\u00e3o e consumo como vari\u00e1veis dependentes da inst\u00e2ncia de produ\u00e7\u00e3o. Ou seja, dependendo do seu lugar na produ\u00e7\u00e3o de mercadorias tem-se acesso diferenciado a dada renda por exemplo. O foco na produ\u00e7\u00e3o de fato aprofunda o v\u00ednculo gen\u00e9tico que esclarece a raz\u00e3o da renda diferencial que \u00e9 o que importa saber e descobrir para que se entenda as lutas entre as classes.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a vers\u00e3o marxista e liberal compartilham do mesmo ponto de partida. Ambas s\u00e3o \u201ceconomicistas\u201d, ou seja, est\u00e3o firmemente convencidas que a \u00fanica motiva\u00e7\u00e3o do comportamento humano \u00e9 econ\u00f4mica \u201cem \u00faltima inst\u00e2ncia\u201d, o que \u00e9 uma grande bobagem como veremos em breve. E a vers\u00e3o marxista de perceber as classes, apesar de um pouco melhor que a vers\u00e3o liberal, n\u00e3o consegue explicar o principal: por que algumas pessoas \u201cescolhem\u201d certo tipo de ocupa\u00e7\u00e3o ou de lugar na produ\u00e7\u00e3o? O v\u00ednculo gen\u00e9tico para na ocupa\u00e7\u00e3o. Parte dela como dado absoluto e n\u00e3o explica o principal: por que algumas classes s\u00e3o produzidas secularmente para desempenhar certo tipo de fun\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es produtivas?<\/p>\n<p>\u00c9 preciso partir do literalmente do \u201cber\u00e7o\u201d, ou seja, da socializa\u00e7\u00e3o familiar prim\u00e1ria, para que se compreenda as classes e sua forma\u00e7\u00e3o e como elas ir\u00e3o definir todas as chances relativas de cada um de n\u00f3s na luta social. As classes s\u00e3o reproduzidas no tempo pela fam\u00edlia e pela transmiss\u00e3o afetiva de uma dada \u201ceconomia emocional\u201d pelos pais aos filhos.<\/p>\n<p>O sucesso escolar depender\u00e1, por exemplo, se disciplina, pensamento prospectivo \u2013 a capacidade de renuncia no presente em nome do futuro \u2013 e capacidade de concentra\u00e7\u00e3o\u00a0 s\u00e3o transmitidas aos filhos. Sem isso os filhos se tornam no m\u00e1ximo analfabetos funcionais como veremos. \u00c9 esse \u201cpatrim\u00f4nio de disposi\u00e7\u00f5es\u201d para o comportamento pr\u00e1tico, que \u00e9 um privil\u00e9gio de classe entre n\u00f3s, que vai esclarecer tanto a ocupa\u00e7\u00e3o quanto a renda diferencial mais tarde. Como cada classe social tem um tipo de socializa\u00e7\u00e3o familiar espec\u00edfica, \u00e9 nela que as diferen\u00e7as entre as classes t\u00eam que ser encontradas e refletidas.<\/p>\n<p>Os batalhadores da periferia de S\u00e3o Paulo n\u00e3o disp\u00f5em de capital de origem, de capital de ber\u00e7o, e justamente por isso seguem lutando pela sua subsist\u00eancia e exist\u00eancia, e, na falta de uma disputa de valores e de uma narrativa mais \u00e0 esquerda, muitas vezes esse grupo social incorpora os sentidos para sua pr\u00f3pria vida tomando de empr\u00e9stimo as refer\u00eancias dos mais ricos e privilegiados.<\/p>\n<p>Evidentemente, isso n\u00e3o acontece como \u201cescolha\u201d racional, volunt\u00e1ria e consciente, na busca por conferir sentido \u00e0 vida as pessoas encontram seus significados nos discursos que lhes s\u00e3o apresentados. Inserir as camadas populares nos mercados de trabalho e de consumo sem construir junto uma narrativa que confira sentido \u00e0 mobilidade social \u00e9 como deixar o lobo cuidando das ovelhas.<\/p>\n<p>Nesse sentido, as igrejas evang\u00e9licas identificaram um novo mercado religioso no Brasil: o acolhimento dos pobres que passam por dificuldades e humilha\u00e7\u00f5es cotidianas pela sociedade. Esses subcidad\u00e3os, at\u00e9 ent\u00e3o invis\u00edveis, carecem de autoestima e autoconfian\u00e7a dadas as faltas de oportunidades para a competi\u00e7\u00e3o social, as igrejas oferecem justamente esse esteio, seu segredo est\u00e1 em ensinar a disciplina e o auto-controle demandado por esse grupo das classes populares sob forma de prega\u00e7\u00e3o religiosa. Para al\u00e9m dos dogmas, a teologia da prosperidade consiste num conjunto de ensinamentos pr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Em meio a esse turbilh\u00e3o de fatores h\u00e1 ainda que se considerar o processo de coloniza\u00e7\u00e3o do discurso p\u00fablico pelas agendas midi\u00e1ticas e o modo como a grande imprensa veio vocalizando nos \u00faltimos anos os discursos de judicializa\u00e7\u00e3o e a criminaliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, contribuindo assim para a amplifica\u00e7\u00e3o de uma ideia de que o Estado, os governos e os pol\u00edticos s\u00e3o todos esp\u00farios. Tal pasteuriza\u00e7\u00e3o s\u00f3 serve \u00e0 demoniza\u00e7\u00e3o do Estado e ao endeusamento do mercado, em doses cavalares, a prop\u00f3sito, tal postura da grande imprensa tem contribu\u00eddo para a gesta\u00e7\u00e3o de um proto-fascismo tropical. Sem criar mecanismos eficientes de contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 grande imprensa hegem\u00f4nica impera a reprodu\u00e7\u00e3o de discursos de vi\u00e9s liberal.<\/p>\n<p><strong>As camadas populares n\u00e3o s\u00e3o como elite e classe m\u00e9dia gostariam que ela fosse<\/strong><br \/>\nAo n\u00e3o conseguir compreender essa nova configura\u00e7\u00e3o social, as for\u00e7as pol\u00edticas democr\u00e1ticas e populares foram incapazes de oferecer uma narrativa progressista capaz de disputar o significado da mobilidade social desse grupo.<\/p>\n<p>A chamada \u201cnova esquerda das ruas\u201d que se deixou seduzir pela catarse das jornadas de junho de 2013 ficou at\u00f4nita diante do golpe de 2016 e foi incapaz de oferecer qualquer resist\u00eancia efetiva; em igual medida, a chamada \u201cvelha esquerda institucional\u201d que se deixou burocratizar nas institui\u00e7\u00f5es tradicionais de poder e ficou embevecida com as conquistas do lulismo at\u00e9 2010 tampouco foi capaz de organizar e mobilizar uma resist\u00eancia contundente ao golpe de 2016.<\/p>\n<p>Nos dois casos, sobraram convic\u00e7\u00f5es mas faltaram interpreta\u00e7\u00f5es adequadas do que ocorria, apaixonados que estavam pelas suas pr\u00f3prias certezas, e ensimesmados nas suas \u201cbolhas fechadas\u201d, nem a nova e nem a velha esquerda estabeleceram canais consistentes de di\u00e1logo com os de baixo, por isso ambos foram incapazes de mobilizar os desejos das camadas populares que tiveram sua trajet\u00f3ria ascensional bruscamente interditada.<\/p>\n<p>Viver nas periferias de S\u00e3o Paulo exige for\u00e7a e persist\u00eancia, numa intensidade desconhecida para partedos intelectuais acomodados de classe m\u00e9dia, seria muito dif\u00edcil se levantar a cada novo dia e enfrentar essa verdadeira batalha cotidiana sem se apoiar em algum esteio, da\u00ed a import\u00e2ncia da igreja, quase sempre contando com a ajuda de Deus e da f\u00e9, pedindo por seguran\u00e7a e sa\u00fade para si e para a fam\u00edlia, rezando ou orando para que ningu\u00e9m se \u201cdesvie\u201d do caminho do bem. Mais ainda, da\u00ed a centralidade da ideia de m\u00e9rito, sem acreditar que a trajet\u00f3ria de estudo, trabalho, qualifica\u00e7\u00e3o e esfor\u00e7o podem levar a um lugar melhor a vida se tornaria praticamente intrag\u00e1vel, o mesmo vale para os la\u00e7os de ajuda m\u00fatua que se formam para enfrentar a dureza do dia a dia, como evidencia a recente pesquisa da Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, corroborando outros estudos sobre os batalhadores brasileiros.<\/p>\n<p>Como se pode constatar, a vida dessas pessoas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, enfrentar essa rotina exige t\u00f4nus e coragem, caracter\u00edsticas, vale reiterar, nem sempre compartilhadas pela classe m\u00e9dia estabelecida, como nunca conheceram o peso do trabalho bra\u00e7al romantizam a exist\u00eancia de uma suposta solidariedade que seria intr\u00ednseca aos \u201cde baixo\u201d, como nunca passaram pelo aperto de se ter o dinheiro contado tratam as dificuldades da subsist\u00eancia como um id\u00edlio de resist\u00eancia. Confundem, portanto, suas pr\u00f3prias verdades pr\u00e9-concebidas com a realidade concreta dos mais pobres; abordam casos de exce\u00e7\u00e3o como se fossem regras v\u00e1lidas para todas as periferias, tratam os mais pobres apenas como um objeto de estudo para chamar de seu, n\u00e3o tem nenhum compromisso sincero com a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade, buscam mais o reconhecimento entre os pares do que o conhecimento da sociedade.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o esquerdismo voluntarista \u00e9 o g\u00eameo siam\u00eas do liberalismo oportunista, pois, nos dois casos, ao inv\u00e9s de se tentar compreender como o outro confere sentido \u00e0 sua exist\u00eancia e realidade, busca-se impor para eles o sentido que essa classe m\u00e9dia gostaria que eles tivessem. Nos dois casos ficam alvoro\u00e7ados quando percebem que suas verdades n\u00e3o explicam a complexidade da realidade, muitas vezes por tr\u00e1s do desejo de emancipa\u00e7\u00e3o se cria uma confus\u00e3o entre como as coisas s\u00e3o e como se acha que elas deveriam ser. Desse modo, por tr\u00e1s do \u201clibertarianismo\u201d acaba se reproduzindo um tra\u00e7o do pensamento autorit\u00e1rio, qual seja: o de sempre ter respostas prontas sem se esmerar na feitura de perguntas bem talhadas.<\/p>\n<p>Parte dessa classe m\u00e9dia intelectualizada est\u00e1 muito ocupada acariciando suas pr\u00f3prias certezas por isso tem pouco tempo para compreender as incertezas em que vivem os moradores e moradoras da periferia de S\u00e3o Paulo e de outras cidades, com isso metem os p\u00e9s pelas m\u00e3os, pois n\u00e3o sabem a diferen\u00e7a entre verdade e realidade, entre resist\u00eancia e subsist\u00eancia, com isso explicitam sua imensa dificuldade de compreender o modo como os batalhadores brasileiros t\u00eam passado por uma mudan\u00e7a objetiva e subjetiva, constituindo-se como indiv\u00edduos modernos no sentido forte da express\u00e3o buscam sua autodetermina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa \u201csub-gente\u201d, produto hist\u00f3rico da constru\u00e7\u00e3o da subcidadania no Brasil, experimentou no per\u00edodo recente de crescimento econ\u00f4mico a busca pela autoconfian\u00e7a, pelo auto-respeito e pela autoestima. No momento atual de crise econ\u00f4mica e de bloqueio da mobilidade social resta saber como se comportar\u00e1 politicamente essa camada social, certamente n\u00e3o ser\u00e1 como desejam os pensamentos pr\u00e9-formatados. Os batalhadores da periferia de S\u00e3o Paulo n\u00e3o s\u00e3o como desejam os arrivistas de direita ou os bovaristas de esquerda.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><br \/>\nBOURDIEU, Pierre. A distin\u00e7\u00e3o: cr\u00edtica social do julgamento. S\u00e3o Paulo: Edusp, 2006.<\/p>\n<p>SOUZA, Jess\u00e9. A constru\u00e7\u00e3o social da subcidadania. Belo Horizonte: UFMG, 2012.<\/p>\n<p>SOUZA, Jess\u00e9. Os batalhadores brasileiros. Belo Horizonte: UFMG, 2010.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"6dEJqxz5hP\"><p><a href=\"https:\/\/fpabramo.org.br\/2017\/04\/20\/o-brazil-nao-conhece-o-brasil\/\">Artigo: \u201cO Brazil n\u00e3o conhece o Brasil\u201d<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Artigo: \u201cO Brazil n\u00e3o conhece o Brasil\u201d&#8221; &#8212; Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo\" src=\"https:\/\/fpabramo.org.br\/2017\/04\/20\/o-brazil-nao-conhece-o-brasil\/embed\/#?secret=zGujDzwmaa#?secret=6dEJqxz5hP\" data-secret=\"6dEJqxz5hP\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>William Nozaki e Jess\u00e9 de Souza &#8211;\u00a0Ou, porque as camadas populares n\u00e3o s\u00e3o como as elites e as classes m\u00e9dias gostariam que elas fossem. 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