{"id":84,"date":"2016-04-26T15:33:07","date_gmt":"2016-04-26T18:33:07","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=84"},"modified":"2016-04-26T09:35:05","modified_gmt":"2016-04-26T12:35:05","slug":"a-cara-do-pmdb","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/04\/26\/a-cara-do-pmdb\/","title":{"rendered":"A CARA DO PMDB"},"content":{"rendered":"<p><strong>CONSUELO DIEGUEZ<\/strong> &#8211; Quem \u00e9, de onde veio e o que quer o chefe do maior partido brasileiro e candidato a vice-presidente de Dilma Rousseff<\/p>\n<p>O deputado Michel Temer, do PMDB, recebeu, em meados de abril de 1998, um jovem advogado, cuja fam\u00edlia conhecia de longa data, para um almo\u00e7o na resid\u00eancia oficial da presid\u00eancia da C\u00e2mara dos Deputados. Mal haviam come\u00e7ado a comer quando o rapaz criticou a nomea\u00e7\u00e3o do senador Renan Calheiros para o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a. \u201cN\u00e3o sei como o presidente Fernando Henrique p\u00f4de fazer uma escolha t\u00e3o desastrosa\u201d, disse. Temer olhou com um pouco mais de interesse o interlocutor e, sem alterar a express\u00e3o e a voz, respondeu: \u201cO Renan foi escolhido pelo PMDB; portanto, \u00e9 uma escolha minha.\u201d E levantou-se logo em seguida, alegando que precisava dar um telefonema. N\u00e3o voltou. Um mordomo pediu ao mo\u00e7o que se retirasse, dizendo que Temer estava ocupado e n\u00e3o poderia continuar o almo\u00e7o. O PMDB \u00e9 isso: lealdade.<\/p>\n<p>Passados sete anos, Renan Calheiros chamou Temer ao seu gabinete. Era uma conversa crucial para o deputado. Ele se lan\u00e7ara candidato \u00e0 presid\u00eancia da C\u00e2mara pela segunda vez. Precisava do apoio do companheiro de partido, que tinha ascend\u00eancia sobre um grupo de parlamentares e era respeitado pelo governo petista. O senador garantiu que diria ao presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva que Temer era a escolha do PMDB. Naquela mesma noite, Temer soube que, na reuni\u00e3o com Lula, ao inv\u00e9s do seu nome, Calheiros defendera o de seu principal oponente: Aldo Rebelo, do Partido Comunista do Brasil. Com o apoio do Planalto, o deputado do pcdob elegeu-se presidente da C\u00e2mara. O PMDB \u00e9 isso: trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Michel Temer chegou \u00e0 presid\u00eancia do partido no in\u00edcio de 2007. Pouco depois, a jornalista M\u00f4nica Veloso trombeteou que tivera um affaire e uma filha com Renan. Tamb\u00e9m revelou que quem pagava a pens\u00e3o da crian\u00e7a, em dinheiro vivo, em nome do senador, era a empreiteira Mendes J\u00fanior. Parlamentares de v\u00e1rios partidos entraram com um pedido de cassa\u00e7\u00e3o de Renan, ent\u00e3o presidente do Senado. Temer marcou um jantar na casa do senador e, assim que entrou, apertou a m\u00e3o que o apunhalara e disse: \u201cO PMDB n\u00e3o vai te abandonar.\u201d Renan teve que sair da presid\u00eancia do Senado, mas o partido garantiu os votos que lhe impediram a cassa\u00e7\u00e3o. O PMDB \u00e9 isso: reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na maior crise do governo Lula, a do mensal\u00e3o \u2013 o esquema de compra de votos de parlamentares em benef\u00edcio do Planalto, que veio a se tornar p\u00fablico em 2005 \u2013 o PMDB negociou o apoio ao presidente e mais que dobrou o seu plantel de ministros, que passaram a ser cinco. Em 2007, numa reuni\u00e3o de cinquenta minutos entre Michel Temer e Lula, o partido passou a integrar oficialmente o governo. Em troca, levou mais dois minist\u00e9rios e dezenas de cargos de dire\u00e7\u00e3o em empresas estatais. O PMDB \u00e9 isso: fisiologismo.<\/p>\n<p>O PMDB \u00e9 o grande partido brasileiro. Tem a maior bancada da C\u00e2mara, com 91 deputados, e a maior do Senado, com dezoito senadores. Governa nove estados, entre eles o Rio de Janeiro, que respondem por quase 30% do Produto Interno Bruto nacional. Controla 1 201 munic\u00edpios, inclusive seis capitais, e tem 3 500 vereadores e 2 milh\u00f5es de filiados. Os seis minist\u00e9rios hoje sob o seu comando, somados aos cargos em estatais e fundos de pens\u00e3o em seu poder, administram cerca de 250 bilh\u00f5es de reais ao ano.<\/p>\n<p>Depois de fechar o Congresso, extinguir todos os partidos e cassar centenas de parlamentares, em 1966 a ditadura militar enquadrou a pol\u00edtica institucional em duas agremia\u00e7\u00f5es: a Alian\u00e7a Renovadora Nacional, a Arena, e o Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro, o MDB. Como n\u00e3o podiam fazer campanha eleitoral, nem oposi\u00e7\u00e3o parlamentar, ambas serviam de adorno institucional ao regime. Em 1970, a vota\u00e7\u00e3o nos candidatos do MDB foi t\u00e3o p\u00edfia que o partido quase n\u00e3o conseguiu ter representa\u00e7\u00e3o no Congresso. Seus integrantes se dividiram em duas correntes internas. A majorit\u00e1ria era a dos \u201cmoderados\u201d: os que apoiavam o regime militar tal como ele era, para evitar que se tornasse mais ditatorial. A outra era a dos \u201caut\u00eanticos\u201d: aqueles que, por meio de um bem calibrado palavr\u00f3rio liberal, se propunham abrandar a ditadura.<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es de 1974, na esteira da crise do petr\u00f3leo e do fim do \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d, o MDB canalizou o descontentamento generalizado. Saiu das urnas com tr\u00eas quartos das vagas do Senado e dobrou a bancada na C\u00e2mara. Para dividi-lo, a ditadura permitiu, cinco anos depois, a cria\u00e7\u00e3o de novas organiza\u00e7\u00f5es. Mas obrigou que todas tivessem a designa\u00e7\u00e3o \u201cpartido\u201d antes do nome. O regime supunha que a corrente moderada criaria um novo agrupamento, e os aut\u00eanticos ficariam com os restos da agremia\u00e7\u00e3o extinta. Tancredo Neves liderou a cria\u00e7\u00e3o do Partido Popular. E o deputado Ulysses Guimar\u00e3es assenhorou-se do Partido do Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro, o PMDB.<\/p>\n<p>O arranjo n\u00e3o prosperou porque Tancredo Neves percebeu que o Partido Popular n\u00e3o tinha futuro e bandeou-se para o PMDB. Com o apoio de Ulysses e de uma parte do regime, Tancredo foi nomeado presidente da Rep\u00fablica por um col\u00e9gio eleitoral que, apesar de toda a ret\u00f3rica democr\u00e1tica, era uma institui\u00e7\u00e3o ditatorial. Tancredo Neves* n\u00e3o tomou posse porque adoeceu na v\u00e9spera da cerim\u00f4nia. Operou-se e agonizou por 39 dias antes de morrer. A Presid\u00eancia foi parar nas m\u00e3os do vice Jos\u00e9 Sarney, que sustentara com denodo os militares e deles se beneficiara largamente. Com Sarney no Planalto e Ulysses Guimar\u00e3es no Congresso, o PMDB chegou ao poder. Com m\u00e3o de gato, o partido logo mostrou o que viria a se tornar: o ocupante de cargos-chaves no Estado, que usaria para se associar a empres\u00e1rios e alimentar o caixa e a clientela que garantiriam a sua reprodu\u00e7\u00e3o eleitoral.<\/p>\n<p>O PMDB no poder foi um desastre total. Em cinco anos de governo, teve doze ministros. Dominou o Congresso que se autointitulou Constituinte e redigiu a Carta em vigor. Patrocinou pacotes econ\u00f4micos que provocaram hiperinfla\u00e7\u00e3o, desemprego em massa e o desmonte de servi\u00e7os p\u00fablicos j\u00e1 prec\u00e1rios. Com a popularidade no fundo de um abismo, Sarney saiu do Planalto sob vaias. Ulysses Guimar\u00e3es, o l\u00edder hist\u00f3rico do partido, candidatou-se a presidente e obteve um vexat\u00f3rio s\u00e9timo lugar, com 4,4% dos votos.<\/p>\n<p>Apenas tr\u00eas anos depois, no entanto, o partido derrotado nas urnas voltava ao Planalto. Dessa vez por meio de Itamar Franco, o senador do partido que fora vice do presidente destitu\u00eddo, Fernando Collor. A partir da\u00ed, o PMDB comp\u00f4s com todos os governos. Ficou com dois minist\u00e9rios no primeiro mandato do ex-emedebista Fernando Henrique Cardoso, e com quatro no segundo. Nas elei\u00e7\u00f5es de 2002, repetiu a coreografia da divis\u00e3o interna para melhor manter o mando: a banda do Senado apoiou a candidatura petista; a da C\u00e2mara, a tucana. S\u00f3 no segundo mandato de Lula o partido aderiu com homogeneidade ao governo do PT.<\/p>\n<p>O PMDB n\u00e3o lan\u00e7a candidato pr\u00f3prio \u00e0 Presid\u00eancia desde a derrota de Orestes Qu\u00e9rcia, em 1994*. O soci\u00f3logo Bol\u00edvar Lamounier acha que isso aconteceu porque o partido \u201cperdeu todos os seus l\u00edderes de envergadura como Tancredo, Ulysses e tamb\u00e9m Montoro e Mario Covas, que foram para o PSDB\u201d e n\u00e3o conseguiu se renovar na passagem de uma gera\u00e7\u00e3o para outra. \u201cSem uma lideran\u00e7a nacional, o partido ficou na m\u00e3o dos feudos regionais e dos clientelistas\u201d, disse Lamounier em sua casa, no Alto de Pinheiros, em S\u00e3o Paulo. \u201cO PMDB n\u00e3o tem um projeto nacional e n\u00e3o sei se quer ter. Sua briga \u00e9 por cargos.\u201d<\/p>\n<p>Um dos melhores postos da Rep\u00fablica \u00e9 o de vice-Presidente. \u00c9 ele que o PMDB quer ocupar a partir do ano que vem. Pela legisla\u00e7\u00e3o eleitoral, o tempo nos programas de campanha na televis\u00e3o e no r\u00e1dio \u00e9 dividido segundo o tamanho das bancadas partid\u00e1rias. E, mesmo tendo direito \u00e0 maior fatia da propaganda eleitoral, o PMDB decidiu n\u00e3o disputar diretamente o Planalto. Preferiu que o presidente da sigla, Michel Temer, fosse o candidato a vice na chapa de Dilma Rousseff.<\/p>\n<p>Nem Lula nem Dilma queriam Temer. Consideram-no ardiloso e voraz em demasia quando reivindica posi\u00e7\u00f5es para o partido, e uma nulidade em termos eleitorais. Para agradar o patronato, Lula convenceu Henrique Meirelles, que \u00e9 filiado ao PMDB, a continuar presidente do Banco Central, at\u00e9 que a possibilidade de ser vice se tornasse palat\u00e1vel ao partido. O PMDB n\u00e3o se entusiasmou. O presidente tentou tamb\u00e9m que o PMDB lhe oferecesse uma lista de tr\u00eas nomes, dos quais ele selecionaria um para vice. Temer n\u00e3o topou.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria republicana, 20% dos vices viraram presidente antes do t\u00e9rmino do mandato do titular. Itamar Franco, por exemplo, estava desgarrado do PMDB e n\u00e3o participou do governo Collor. Passou a fazer muxoxos quando o Presidente perdeu popularidade, e s\u00f3 foi para a oposi\u00e7\u00e3o quando a destitui\u00e7\u00e3o de Collor se tornou inevit\u00e1vel. Do ponto de vista de Fernando Henrique Cardoso, n\u00e3o houve vice melhor do que Marco Maciel, do Partido da Frente Liberal: ele entrou mudo e saiu calado do cargo.<\/p>\n<p>Lula conheceu Jos\u00e9 Alencar durante uma visita \u00e0 f\u00e1brica do empres\u00e1rio, a Coteminas. Segundo relembrou v\u00e1rias vezes, encantou-se com ele e logo pensou em faz\u00ea-lo seu vice. A chapa com ele e Alencar, no racioc\u00ednio de Lula, simbolizaria \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o a ideia de governo que o petista pretendia: a da concilia\u00e7\u00e3o de classes, da alian\u00e7a entre trabalho e capital.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Alencar estava no Partido Liberal, o pl, uma legenda evang\u00e9lica de aluguel. Houve uma reuni\u00e3o, na casa do deputado Paulo Rocha, do PT, em Bras\u00edlia, para acertar a alian\u00e7a entre eles. Ela ocorreu no dia 19 de junho de 2002. De um lado, estavam presentes Lula, Jos\u00e9 Dirceu e Del\u00fabio Soares, o tesoureiro da campanha do PT. De outro, Jos\u00e9 Alencar e o deputado Valdemar Costa Neto, chefe do pl. Tr\u00eas anos depois, quando estourou o mensal\u00e3o, Costa Neto contou que, no encontro, pediu 20 milh\u00f5es de reais para que o partido apoiasse Lula e Alencar fosse o seu vice. Com a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Alencar, acabou aceitando 10 milh\u00f5es de reais. Durante a campanha, o candidato a vice p\u00f4s 2 milh\u00f5es de reais do pr\u00f3prio bolso na m\u00e3o de Del\u00fabio.<\/p>\n<p>No cargo, Jos\u00e9 Alencar ajudou o governo. As suas cr\u00edticas \u00e0s altas taxas de juros, por exemplo, foram discutidas previamente com Lula, que o incentivou a faz\u00ea-las. Assim, o presidente pressionava indiretamente o Banco Central a reduzir os juros. Mais recentemente, Alencar defendeu que o Brasil tenha armas nucleares. N\u00e3o se tratou de uma boutade inconsequente, feita por quem n\u00e3o tem poder de fato, e sim da express\u00e3o do pensamento de um setor do governo e do PT. Por fim, a divulga\u00e7\u00e3o estrepitosa, em hor\u00e1rio nobre e na primeira p\u00e1gina de jornais, do tratamento de sa\u00fade do vice, e da bonomia com que enfrenta o c\u00e2ncer, lhe granjearam a admira\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>\u00c9 bem o contr\u00e1rio do que ocorre com Michel Temer. Ele n\u00e3o tem imagem p\u00fablica definida. No m\u00e1ximo, \u00e9 reconhecido como um pol\u00edtico profissional e an\u00f3dino. No interior da pol\u00edtica oficial, por\u00e9m, \u00e9 considerado a encarna\u00e7\u00e3o do pantagru\u00e9lico aparelho peemedebista. O historiador Luiz Felipe de Alencastro chamou a aten\u00e7\u00e3o para um problema em potencial do cons\u00f3rcio PT-PMDB. \u201cUma presidenci\u00e1vel desprovida de voo pr\u00f3prio na esfera nacional, sem nunca ter tido um voto na vida, estar\u00e1 coligada a um vice que maneja todas as alavancas do Congresso e da m\u00e1quina partid\u00e1ria peemedebista\u201d, disse Alencastro. \u201c\u00c9 uma chapa de algu\u00e9m que sabe tudo e tem sob seu comando a maior bancada do Congresso, com algu\u00e9m que vai come\u00e7ar a aprender.\u201d Acrescente-se que Dilma n\u00e3o tem ascend\u00eancia sobre o PT. Ela ficou no Partido Democr\u00e1tico Trabalhista, o PDT de Leonel Brizola, at\u00e9 2001. E nele desenvolvia uma pol\u00edtica de cunho provinciano-familiar: eleger seu marido governador do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>Perguntei a Alencastro, que \u00e9 titular da c\u00e1tedra de hist\u00f3ria do Brasil na Universidade Sorbonne, se Lula e o PT, por tr\u00e1s de Dilma, n\u00e3o poderiam estabelecer um equil\u00edbrio de for\u00e7as. \u201cNingu\u00e9m sabe onde Lula estar\u00e1 no pr\u00f3ximo governo e o PT n\u00e3o tem lideran\u00e7a no Parlamento\u201d, disse o professor. O \u00fanico que poderia assumir a lideran\u00e7a do partido, em sua opini\u00e3o, seria Jos\u00e9 Geno\u00edno. Mas o deputado se enfraqueceu demais quando um assessor de seu irm\u00e3o foi flagrado com d\u00f3lares na cueca. \u201cO Geno\u00edno n\u00e3o tem mais for\u00e7a para virar o jogo,\u201d completou.<\/p>\n<p>Autor de O Trato dos Viventes, Alencastro n\u00e3o acha que Temer possa ser um perigo, numa eventual Presid\u00eancia de Dilma Rousseff, apenas no caso de ela ter de se afastar do cargo. A ambi\u00e7\u00e3o do PMDB, avaliou Alencastro, poderia levar Temer a lan\u00e7ar m\u00e3o de uma proposta tentada durante o governo de Fernando Henrique Cardoso: a instaura\u00e7\u00e3o do regime parlamentarista. \u201cN\u00e3o digo que o Temer v\u00e1 fazer isso, mas, num contexto de crise, com o controle que ele tem do Congresso, \u00e9 poss\u00edvel uma manobra de vota\u00e7\u00e3o de uma emenda constitucional, instaurando o parlamentarismo\u201d, comentou. \u201cNo final dos anos 90, Temer defendeu a tese de que o Congresso tinha poderes para isso.\u201d Nesse cen\u00e1rio, o vice poderia vir a ser nomeado primeiro-ministro.<\/p>\n<p>Michel Temer me recebeu pouco antes do almo\u00e7o, na resid\u00eancia oficial da presid\u00eancia da C\u00e2mara. Cumprimentou-me com o sorriso met\u00e1lico que \u00e9 seu tra\u00e7o de express\u00e3o mais eloquente. N\u00e3o parecia \u00e0 vontade, suas m\u00e3os tremiam um pouco. Sentamo-nos na sala, cuja enorme porta de vidro se abre para o jardim e a piscina. Temer fala baixo, nunca usa g\u00edria e se expressa num portugu\u00eas que parece escrito previamente. Antes de iniciar uma frase, costuma acrescentar um \u201cVoc\u00ea sabe?\u201d, e levanta o dedo indicador.<\/p>\n<p>Perguntei-lhe o que achara do artigo de Luiz Felipe de Alencastro. \u201cEle faz uma prega\u00e7\u00e3o de que \u00e9 um risco eu ser vice\u201d, disse. \u201cEu, claro, n\u00e3o vejo dessa maneira. A minha presen\u00e7a s\u00f3 far\u00e1 aumentar a interlocu\u00e7\u00e3o do governo com o Congresso.\u201d Afirmou que n\u00e3o ser\u00e1 \u201cum vice que atrapalha\u201d. E recha\u00e7ou a tese de que sua influ\u00eancia no Congresso deixaria Dilma Rousseff vulner\u00e1vel: \u201cA ex-ministra conhece muito bem o pa\u00eds e os seus problemas por for\u00e7a dos cargos que ocupou.\u201d O PMDB no governo, sustentou, dar\u00e1 maior tranquilidade ao Planalto. \u201cN\u00f3s garantimos a estabilidade do real e, no governo Lula, apoiamos os programas sociais\u201d, completou. \u201cCito isso para me opor \u00e0 tese dos que dizem que o PMDB \u00e9 fisiol\u00f3gico.\u201d<\/p>\n<p>Temer tem 69 anos, \u00e9 magro e mede 1,70 metro. Ele tem o h\u00e1bito de engatar a ponta dos dedos e puxar as m\u00e3os como se quisesse separ\u00e1-las. Sua postura \u00e9 sempre ereta, e parece n\u00e3o relaxar nem quando se senta numa poltrona. Quando o entrevistei, vestia terno preto e gravata de seda azul. A camisa n\u00e3o tinha uma ruga, apesar de ele ter passado a manh\u00e3 em reuni\u00f5es no Congresso. \u201cVoc\u00ea sabe, sou uma pessoa formal\u201d, avisou sem que eu perguntasse. \u201cDisseram que eu preciso mudar meu jeito, que sou muito cerimonioso. Mas como? Tenho inveja de quem faz blague. Eu n\u00e3o sei fazer isso. Se fizer, vai ser um desastre. N\u00e3o sou eu.\u201d<\/p>\n<p>Indaguei se fora educado para se comportar dessa forma. Disse que n\u00e3o. Enganchou as m\u00e3os novamente, puxou-as e arriscou uma explica\u00e7\u00e3o: \u201cVoc\u00ea sabe, eu tinha um irm\u00e3o que era muito formal e elegante no trato com as pessoas. Ele serviu um pouco de modelo. As pessoas gostavam dele. Eu acho que n\u00e3o se pode confundir cerim\u00f4nia com antipatia.\u201d<\/p>\n<p>O deputado \u00e9 o ca\u00e7ula de oito irm\u00e3os. Seus pais, os libaneses March e Miguel Elias migraram para o Brasil em 1930. O casal, com tr\u00eas filhos nascidos no L\u00edbano, foi morar numa ch\u00e1cara, em Tiet\u00ea, no interior de S\u00e3o Paulo, onde beneficiavam arroz e caf\u00e9. A diferen\u00e7a de idade de Temer e os irm\u00e3os mais velhos era de mais de vinte anos. Quatro deles foram estudar em S\u00e3o Paulo, na Faculdade de Direito do Largo S\u00e3o Francisco.<\/p>\n<p>Sozinho na ch\u00e1cara, que ficava a certa dist\u00e2ncia da cidade, ele lia para passar o tempo. \u201cPegava os livros na biblioteca da cidade e lia de tudo, romances e poesias\u201d, disse. Tamb\u00e9m adorava cinema. Aos 9 anos, viu um filme sobre a vida de Chopin que permaneceu para sempre em sua mem\u00f3ria: \u00c0 Noite Sonhamos. \u201cFiquei t\u00e3o impressionado quando uma gota de sangue pingou no teclado enquanto Chopin tocava uma Polonaise, que pedi para o meu pai me deixar ter aulas de piano.\u201d O pai, no entanto, o matriculou num curso de datilografia. \u201cEu dedilhava as teclas da m\u00e1quina de escrever como se fossem de piano\u201d, disse, rindo. \u201cCom isso, aprendi a datilografar usando os dez dedos.\u201d<\/p>\n<p>Um de seus irm\u00e3os, Elias, sabendo do interesse do ca\u00e7ula pela leitura, costumava lhe trazer de S\u00e3o Paulo o jornalzinho do centro acad\u00eamico da faculdade. Num dos exemplares, vieram publicados dois poemas. Um se chamava \u201cA mulher que eu n\u00e3o queria\u201d e o outro \u201cFilosofia de um diretor de circo\u201d. Os dois tinham sido escritos por um estudante chamado Ant\u00f4nio Malanga. \u201cGostei tanto daqueles versos que os decorei pelo resto da vida.\u201d Pedi que ele me recitasse um trecho. Ele come\u00e7ou:<\/p>\n<p><em>Possui os cabelos sedosos<\/em><\/p>\n<p><em>Uma boca perfeita, um primor,<\/em><\/p>\n<p><em>E trazia nos olhos formosos,<\/em><\/p>\n<p><em>Mil promessas e sonhos de amor.<\/em><\/p>\n<p>E prosseguiu, por outros dez versos. Depois engatou com a segunda poesia, de outros catorze versos, que terminava assim:<\/p>\n<p><em>Mas por ser t\u00e3o medonha e teimosa<\/em><\/p>\n<p><em>Numa jaula, fechei-a.<\/em><\/p>\n<p><em>Nesse dia ficou sendo uma fera famosa<\/em><\/p>\n<p><em>Ficou sendo a mulher que eu queria.<\/em><\/p>\n<p>Adulto, Michel Temer foi apresentado por acaso ao autor das poesias que sabia de cor. \u201cComecei a declamar os seus poemas, e ele ficou muito espantado\u201d, contou o deputado. \u201cE me disse que tinham sido as duas \u00fanicas coisas que havia escrito na vida.\u201d<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m estudou direito na Universidade de S\u00e3o Paulo. J\u00e1 no primeiro ano de faculdade, em 1959, foi eleito segundo-tesoureiro do centro acad\u00eamico. A diretoria foi convidada para almo\u00e7ar pelo ent\u00e3o governador paulista, Ademar de Barros, o do lema \u201cRouba, mas faz\u201d. O chefe de gabinete do governador o apresentou e informou o cargo de Temer. O governador se interessou. \u201c\u2018Segundo-tesoureiro? Ent\u00e3o voc\u00ea \u00e9 o homem do caixinha? Senta aqui ao meu lado.\u2019 Eu fiquei vermelho, morto de vergonha\u201d, contou o deputado.<\/p>\n<p>O escrit\u00f3rio do advogado Homar Cais fica no 1\u00ba andar de um pr\u00e9dio na rua Haddock Lobo, nos Jardins. Sua sala \u00e9 decorada com fotos emolduradas dos amigos de faculdade. Cais e Temer dividiam o mesmo quarto na rep\u00fablica em que moraram durante os estudos. Uma das divers\u00f5es era jogar \u00e1gua da janela em quem passava na rua. \u201cSer\u00e1 que eu posso contar essa hist\u00f3ria? Ser\u00e1 que n\u00e3o fica chato?\u201d, perguntou-me apreensivo. Disse-lhe que n\u00e3o, que todo jovem j\u00e1 tinha feito isso na vida. \u201cMas e jogar \u00e1gua na Sele\u00e7\u00e3o Brasileira?\u201d, retrucou Cais. Quando a Sele\u00e7\u00e3o desfilou por S\u00e3o Paulo, comemorando a vit\u00f3ria na Copa de 1962, um grupo de estudantes, Temer entre eles, fizeram canos com jornais, encheram de \u00e1gua e despejaram nos jogadores.<\/p>\n<p>No come\u00e7o dos anos 60, o movimento estudantil come\u00e7ou a virar \u00e0 esquerda. Na faculdade da Arcadas, por\u00e9m, o pensamento liberal continuou a imperar. Em 1962, Temer lan\u00e7ou-se \u00e0 presid\u00eancia do centro acad\u00eamico pelo partido Academia Independente e perdeu. No ano seguinte, foi indicado candidato \u00e0 presid\u00eancia do Diret\u00f3rio Central dos Estudantes da usp. Jos\u00e9 Serra, o presidente da Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes, integrava a A\u00e7\u00e3o Popular, organiza\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica de esquerda que era contra a chapa de Temer. Um militante da ap, o hoje deputado tucano Arnaldo Madeira, foi incumbido de convencer Temer a abrir m\u00e3o da candidatura, para que os estudantes se unissem em torno de um nome. Temer contou que, na sua primeira elei\u00e7\u00e3o para a presid\u00eancia da C\u00e2mara, em 1997, Madeira e Serra o procuraram e falaram que votariam nele. \u201cN\u00f3s vamos te apoiar porque estamos em d\u00e9bito com voc\u00ea: te tiramos a presid\u00eancia do dce,\u201d disse-lhe Serra.<\/p>\n<p>Formado, Temer montou um escrit\u00f3rio de advocacia com Celso Bandeira de Mello, Dalmo Dallari e Geraldo Nogueira. N\u00e3o apoiou nem resistiu ao golpe de 1964. Passou a dar aulas de direito constitucional na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo, a puc, em 1968. Lan\u00e7ou um livro de direito constitucional que \u00e9 at\u00e9 hoje um dos mais usados em cursos universit\u00e1rios. E se aproximou de Franco Montoro, um professor da puc ligado ao mdb. Quando Montoro foi eleito governador, em 1982, nomeou-o procurador-geral do estado. \u201cEu tinha 41 anos e achava o m\u00e1ximo para a minha carreira ter mil procuradores sob o meu comando\u201d, disse. \u201cEstava feliz naquela posi\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Numa manh\u00e3 de 1984, Montoro lhe telefonou e avisou: \u201cVoc\u00ea vai ser meu secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a.\u201d Temer gelou: seria o terceiro secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a em apenas um ano de governo. Argumentou que n\u00e3o entendia nada de direito penal e sequer sabia onde ficava a Secretaria. A resposta de Montoro foi: \u201cPassa l\u00e1 na casa do Jos\u00e9 Carlos Dias [ent\u00e3o secret\u00e1rio da Justi\u00e7a] e acerta tudo com ele.\u201d Temer ficou uma semana no cargo, sem saber o que fazer.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o conhecia nada, n\u00e3o tinha contatos\u201d, contou. \u201cO clima estava pesado, com crise entre as pol\u00edcias civil e militar.\u201d Pensava em desistir quando, num fim de semana, viu na televis\u00e3o uma entrevista de Gianfrancesco Guarnieri, secret\u00e1rio municipal de Cultura. O ator explicava como se adaptara ao terno e \u00e0 gravata. \u201cGuarnieri falou: \u2018A vida \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o e voc\u00ea tem que representar o papel que a vida te entrega&#8217;\u201d, contou Temer. \u201cA\u00ed eu pensei: a vida me deu o papel de secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a. Se renunciar agora, o governo Montoro pode cair e eu me destruo.\u201d<\/p>\n<p>Na segunda-feira seguinte, Temer chamou o delegado-geral da Pol\u00edcia Civil e o comandante da Pol\u00edcia Militar e come\u00e7ou a exercer seu papel. \u201cO Montoro me disse que n\u00e3o era para eu ser policial, e sim para unir as pol\u00edcias. A coisa da hierarquia funcionava, meu jeito cerimonioso impunha certo respeito. O comandante e o delegado se entrosaram, e entrosaram as duas pol\u00edcias.\u201d<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Oswaldo Vieira era o delegado-geral e hoje est\u00e1 aposentado. Perguntei-lhe se Temer tinha sido crucial para unir as pol\u00edcias. Vieira respondeu que, \u201cinfelizmente, existe at\u00e9 hoje essa dicotomia entre as pol\u00edcias civil e militar, e isso n\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel, n\u00e3o \u00e9 inteligente.\u201d<\/p>\n<p>Quando Temer era secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a, 400 estudantes da Universidade de S\u00e3o Paulo ocuparam o pr\u00e9dio da reitoria, no centro da cidade. Temer conversou com o comandante da Pol\u00edcia Militar, que lhe disse que a \u00fanica maneira de invadir o pr\u00e9dio seria entrando pelo telhado. Era uma opera\u00e7\u00e3o arriscada, com consequ\u00eancias imprevis\u00edveis. Ele decidiu ir falar com os estudantes. \u201cBati \u00e0 porta, eles abriram e me olharam com espanto\u201d, lembrou. Argumentou com eles que a Justi\u00e7a havia expedido mandado de reintegra\u00e7\u00e3o de posse. Como estavam num estado de direito, eles teriam que cumprir a lei. Os estudantes fizeram uma assembleia que durou mais de seis horas. Temer ficou esperando. Ao final, concordaram em desocupar o pr\u00e9dio, desde que o governador recebesse uma comiss\u00e3o. \u201cLiguei para o Montoro e ele concordou\u201d, contou. \u201cSa\u00edmos todos juntos cantando o hino nacional.\u201d<\/p>\n<p>Tempos depois, um grupo de sem-teto invadiu um pr\u00e9dio do estado. Montoro lhe telefonou logo cedo. \u201cTemer, vai l\u00e1 nos sem-teto e faz a mesma coisa que fez com os estudantes.\u201d Temer riu ao lembrar da hist\u00f3ria. \u201cEu falei: \u2018Governador, uma coisa \u00e9 negociar com estudante, outra, com sem-teto. Entrar num pr\u00e9dio ocupado desse jeito n\u00e3o \u00e9 brincadeira.&#8217;\u201d Montoro insistiu: \u201cVai l\u00e1, que n\u00e3o tem perigo, n\u00e3o\u201d, contou o deputado imitando a voz e o jeito suaves de Montoro. Acabou indo junto com um grupo da Secretaria de Promo\u00e7\u00e3o Social. Ap\u00f3s horas de conversa, os sem-teto concordaram em ir para abrigos.<\/p>\n<p>Michel Temer gostou da pol\u00edtica e se candidatou a deputado em 1986, pelo PMDB de Franco Montoro. N\u00e3o se elegeu, mas entrou na vaga de suplente e, dois anos depois, participou da Constituinte. Ao final do mandato, voltou para a Secretaria de Seguran\u00e7a, dessa vez a convite de um quercista, o governador Luiz Ant\u00f4nio Fleury Filho, logo ap\u00f3s o massacre no Carandiru, onde 111 presos foram assassinados pela Pol\u00edcia Militar. No final dos anos 80, Jos\u00e9 Serra, Fernando Henrique e Mario Covas romperam com Orestes Qu\u00e9rcia e o PMDB, ao qual acusaram de leni\u00eancia com a corrup\u00e7\u00e3o e o fisiologismo \u2013 e fundaram o Partido da Social Democracia Brasileira. Temer ficou com os quercistas. Concluiu que teria mais chance de se destacar permanecendo onde estava. \u201cO PSDB tinha muito cacique\u201d, justificou.<\/p>\n<p>Sua ascens\u00e3o no PMDB foi r\u00e1pida. Foi eleito duas vezes l\u00edder do partido. Na primeira, em 1995, disputou o cargo com o deputado baiano Jo\u00e3o Almeida, hoje no PSDB. \u201cN\u00f3s come\u00e7amos a fazer a campanha do Michel, mas ele estava de f\u00e9rias com a namorada, em Trancoso\u201d, contou o deputado federal Geddel Vieira Lima. \u201cEu liguei e ele me disse para fazer a campanha porque ele estava namorando.\u201d Ou seja, Temer era candidato, mas n\u00e3o queria comprar briga com seu oponente. Depois de eleito, disse a Jo\u00e3o Almeida que s\u00f3 sa\u00edra candidato por insist\u00eancia da bancada paulista. \u201cO Michel s\u00f3 \u00e9 ousado nas conquistas amorosas. Na pol\u00edtica ele \u00e9 muito ponderado\u201d, me disse Vieira Lima.<\/p>\n<p>Temer est\u00e1 no seu terceiro casamento. Do primeiro, com Maria C\u00e9lia, teve tr\u00eas filhas: Maristela, de 40 anos, Luciana, 37, e Clarissa, 35. Casou-se a seguir com Neuza, mas n\u00e3o teve filhos. Depois, teve um \u201crelacionamento est\u00e1vel\u201d, como ele diz, mas n\u00e3o chegou a casar. Na mesma \u00e9poca, namorou uma jornalista, em Bras\u00edlia, com quem teve um filho, hoje com 10 anos. D\u00e1 uma pens\u00e3o ao menino, mas o v\u00ea pouco. Est\u00e1 casado h\u00e1 nove anos com Marcela, mais jovem que ele 42 anos, com quem tem um filho de 1 ano. \u201cO Michelzinho \u00e9 a minha paix\u00e3o\u201d, admitiu. Conheceu Marcela, uma jovem loura e esguia, quando ela estava com 18 anos e, ele, 60. Disse que a viu no restaurante do tio dela, durante uma campanha eleitoral, e a achou muito bonita. Recebeu um e-mail dela, cumprimentando-o pela vit\u00f3ria. Temer ligou para a mo\u00e7a e a convidou para sair. \u201cEla foi com a m\u00e3e\u201d, contou o deputado. Quatro meses depois estavam casados.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 2007, na elei\u00e7\u00e3o para a presid\u00eancia do PMDB, o governo petista apoiou a candidatura de Nelson Jobim, o nome lan\u00e7ado pela bancada do partido no Senado, capitaneada por Jos\u00e9 Sarney e Renan Calheiros. Ganhou Michel Temer, da C\u00e2mara. Numa conversa num caf\u00e9 em Bras\u00edlia, pedi ao ex-deputado Wellington Moreira Franco, peemedebista de longa data e vice-presidente da Caixa Econ\u00f4mica Federal, que explicasse a diferen\u00e7a entre o PMDB-Senado e o PMDB-C\u00e2mara. Enquanto saboreava um sorvete de chocolate, Moreira Franco disse que \u201co Lula compreendeu, depois da tentativa fracassada da elei\u00e7\u00e3o do Jobim, que o pessoal do Senado estava vendendo terreno na lua. O Sarney n\u00e3o \u00e9 PMDB, nem o Renan\u201d, disse. \u201cO Sarney faz um esfor\u00e7o grande, mas toda institui\u00e7\u00e3o tem sua cultura. Ele foi obrigado a ser PMDB para ser vice do Tancredo. Mas a rela\u00e7\u00e3o forte dele era com a Arena.\u201d Inclinou-se sobre a mesa e me falou em tom de confid\u00eancia: \u201cO Sarney \u00e9 h\u00e1bil, \u00e9 astuto, mas n\u00e3o conhece as bases do partido como n\u00f3s, da C\u00e2mara, conhecemos.\u201d<\/p>\n<p>Eram 13h30 quando Michel Temer me convidou para a mesa de almo\u00e7o. O card\u00e1pio era salada, bife com pur\u00ea, moqueca de peixe e pir\u00e3o. Enquanto se servia, contou como se deu a aproxima\u00e7\u00e3o com Lula. \u201cLogo ap\u00f3s a minha elei\u00e7\u00e3o para a presid\u00eancia do partido, o ministro Tarso Genro me chamou para uma conversa com o presidente.\u201d Temer chegou ao Pal\u00e1cio do Planalto acompanhado de mais tr\u00eas integrantes da executiva do partido. Na antessala da Presid\u00eancia, pediu que o deixassem a s\u00f3s com Lula por cinco minutos. \u201cAssim que entrei, eu falei: \u2018Presidente, quis entrar antes para furar um tumor. Acho que n\u00f3s vamos acabar fazendo uma grande coaliz\u00e3o, mas n\u00e3o podem ficar m\u00e1goas pessoais. Sei que dizem que o senhor n\u00e3o vai com a minha cara e sei que lhe dizem que eu tenho desapre\u00e7o pelo senhor.&#8217;\u201d A rea\u00e7\u00e3o do presidente teria sido positiva. \u201cEle foi gentil e me agradeceu por ter esclarecido aquela quest\u00e3o\u201d, disse-me.<\/p>\n<p>Segundo Temer, ele apresentou a Lula pontos program\u00e1ticos do partido que serviriam de base para o acordo com o governo. \u201cVoc\u00ea sabe, o PMDB tem fama de fisiol\u00f3gico. N\u00e3o me interessava ouvir o presidente dizer que nos queria no governo e que, para isso, faria mais tantos minist\u00e9rios. N\u00e3o est\u00e1vamos atr\u00e1s de cargos.\u201d<\/p>\n<p>Os pontos acordados foram bastante vagos: o crescimento do pib a um ritmo anual de 5%, uma tentativa de reforma tribut\u00e1ria e a manuten\u00e7\u00e3o dos programas sociais. J\u00e1 a discuss\u00e3o de cargos foi bastante concreta. O PMDB ganhou o Minist\u00e9rio da Integra\u00e7\u00e3o Nacional, que foi para Geddel Vieira Lima, e o da Agricultura, atribu\u00eddo a Reinhold Stephanes. A vice-presid\u00eancia da Caixa ficou com Moreira Franco. A indica\u00e7\u00e3o para a presid\u00eancia de Furnas coube ao deputado Eduardo Cunha, do Rio de Janeiro. Quase uma centena de postos em \u00f3rg\u00e3os de minist\u00e9rios, estatais e fundos de pens\u00e3o foram devidamente loteados.<\/p>\n<p>Segundo Temer, desde ent\u00e3o a sua rela\u00e7\u00e3o com Lula s\u00f3 tem melhorado. \u201cSinto que ele tem grande considera\u00e7\u00e3o por mim e eu passei a admir\u00e1-lo\u201d, disse. Perguntei o que o fez mudar de opini\u00e3o. \u201cEle conseguiu satisfazer o sistema financeiro e, ao mesmo tempo, tirou 20 milh\u00f5es de pessoas da pobreza\u201d, respondeu. Temer tamb\u00e9m elogiou a rapidez com que o governo reagiu \u00e0 crise financeira mundial: \u201cLula soube aproveitar a crise e levou a classe m\u00e9dia ao para\u00edso com a desonera\u00e7\u00e3o fiscal dos autom\u00f3veis e dos eletrodom\u00e9sticos.\u201d Outro feito do governo, na sua avalia\u00e7\u00e3o, foi a liquida\u00e7\u00e3o da d\u00edvida com o Fundo Monet\u00e1rio Internacional, o fmi. \u201cN\u00e3o esque\u00e7o a imagem da Ana Maria Jull, representante do Fundo, vindo fiscalizar as contas brasileiras nos anos 80. Era uma humilha\u00e7\u00e3o\u201d, comentou.<\/p>\n<p>Alcancei o deputado Geddel Vieira Lima na entrada do plen\u00e1rio da C\u00e2mara. Estava afobado: acabara de voltar de uma reuni\u00e3o no Minist\u00e9rio da Integra\u00e7\u00e3o Nacional, do qual abdicara dias antes para concorrer ao governo da Bahia. Geddel \u00e9 baixo, gorducho, tem uma cara redonda e sorridente. Vestia um terno verde-claro cintilante. Foi um dos primeiros peemedebistas a aderir ao governo. Nas elei\u00e7\u00f5es de 2006, fez campanha na Bahia para o candidato do PT ao governo, Jaques Wagner. \u201cO \u00faltimo a aderir foi o Michel\u201d, contou. \u201cEu fiz a ponte entre ele e o presidente.\u201d A aproxima\u00e7\u00e3o, disse, foi lenta porque \u201co Lula n\u00e3o gostava dele. Achava-o aristocr\u00e1tico. Dizia que ele olhava os outros de cima para baixo. N\u00e3o \u00e9 nada disso. O Michel \u00e9 t\u00edmido.\u201d<\/p>\n<p>Uma das resist\u00eancias do governo ao nome de Temer \u00e9 a sua forte liga\u00e7\u00e3o com o deputado Eduardo Cunha, do Rio \u2013 conhecido no Congresso por sua voracidade por cargos e pelas artimanhas que usa para consegui-los. Evang\u00e9lico, surgiu na pol\u00edtica pelas m\u00e3os de Paulo C\u00e9sar Farias, o tesoureiro de Fernando Collor. Depois, ligou-se ao ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho. Foi um dos principais art\u00edfices para a elei\u00e7\u00e3o de Temer a presidente da C\u00e2mara. \u201cO Eduardo Cunha tem l\u00e1 o jeito dele\u201d, disse-me Temer. \u201cMas ele \u00e9 competente, trabalhador, dedicado e tem uma intelig\u00eancia privilegiada. S\u00f3 recentemente descobri que ele n\u00e3o \u00e9 advogado, e conhece o direito tanto quanto eu. Toda medida provis\u00f3ria, todo projeto importante o Eduardo Cunha conhece em detalhes.\u201d Admitiu que o colega \u00e9 malfalado e relativizou a m\u00e1 fama: \u201cN\u00e3o vou me impressionar com as cr\u00edticas a ele porque teria que me impressionar com as feitas a todos os outros. Eu administro os conflitos.\u201d<\/p>\n<p>Eram quase 15 horas, quando, sem que fosse anunciado ou aguardado, Eduardo Cunha entrou na resid\u00eancia do presidente da C\u00e2mara com o deputado Henrique Alves. Temer ficou um pouco constrangido. Os dois instalaram-se na sala de estar. Pouco depois, um assessor o alertou para um compromisso na C\u00e2mara. Temer combinou com os deputados de encontr\u00e1-los l\u00e1. No carro, a caminho do Congresso, ele me perguntou: \u201cO que eu posso fazer se o Eduardo Cunha aparece aqui em casa? N\u00e3o deix\u00e1-lo entrar? Ele se imp\u00f5e.\u201d Explicou que um dos motivos do sucesso da sua gest\u00e3o como presidente da C\u00e2mara \u00e9 deixar a porta aberta para todos os deputados.<\/p>\n<p>A \u00e1rea de interesse de Cunha \u00e9 a menina dos olhos da ex-ministra Dilma Rousseff: o setor de energia. Com ajuda de Temer, instalou o deputado Bernardo Ariston na presid\u00eancia da Comiss\u00e3o de Minas e Energia da C\u00e2mara. Entre outras atribui\u00e7\u00f5es, a Comiss\u00e3o trata da regula\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e da constru\u00e7\u00e3o de usinas el\u00e9tricas. Cunha controla um grupo de vinte deputados, a maioria evang\u00e9licos, com capacidade de infernizar a vida do governo. Para conseguir a nomea\u00e7\u00e3o de Luiz Paulo Conde para a presid\u00eancia de Furnas, por exemplo, ele protelou o que p\u00f4de a vota\u00e7\u00e3o da emenda que prorrogava a cpmf, da qual era relator.<\/p>\n<p>Conseguiu colocar Conde em Furnas, mas se envolveu numa briga com os funcion\u00e1rios e aposentados da estatal por causa do fundo de pens\u00e3o, o Real Grandeza, que conta com um patrim\u00f4nio de 6,5 bilh\u00f5es de reais. O deputado foi acusado de tramar a queda da dire\u00e7\u00e3o do fundo para poder controlar o seu caixa. O temor dos funcion\u00e1rios era que, sob o comando do grupo de Cunha, o Real Grandeza sofresse os mesmos problemas do Prece, o fundo da companhia de \u00e1gua do Rio de Janeiro, tamb\u00e9m sob sua influ\u00eancia, que teve um rombo de 153 milh\u00f5es de reais em 2006.<\/p>\n<p>Eduardo Cunha tem uma explica\u00e7\u00e3o singela para as cr\u00edticas. \u201cEm pol\u00edtica n\u00e3o existe lugar vazio\u201d, disse. \u201cEsses coment\u00e1rios s\u00e3o coisa de gente que n\u00e3o trabalha, que tem pregui\u00e7a e fica com inveja dos que trabalham.\u201d Negou que tivesse qualquer influ\u00eancia no setor el\u00e9trico: \u201cA \u00fanica nomea\u00e7\u00e3o que eu fiz foi a de Conde, h\u00e1 tr\u00eas anos, e ele nem est\u00e1 mais em Furnas.\u201d Segundo ele, \u201cnem a Dilma nem o PT t\u00eam qualquer resist\u00eancia ao meu nome. Fa\u00e7o parte da comiss\u00e3o de negocia\u00e7\u00e3o do PT e do PMDB, onde todas essas quest\u00f5es s\u00e3o discutidas. Existe zero de resist\u00eancia ao meu nome. Pergunte ao pessoal do PT.\u201d<\/p>\n<p>Perguntei ao deputado Jos\u00e9 Geno\u00edno o que pensava da alian\u00e7a do seu partido com o PMDB. \u201cO PT aprendeu na porrada que sozinho n\u00e3o ganha elei\u00e7\u00e3o e n\u00e3o governa\u201d, disse-me. \u201cPrecisamos de um aliado que tenha for\u00e7a e que ajude a dar estabilidade para o governo.\u201d Geno\u00edno elogiou Michel Temer. \u201cEle n\u00e3o \u00e9 trator, n\u00e3o passa por cima.\u201d<\/p>\n<p>Na entrada principal do Congresso, Temer foi cercado por jornalistas que queriam saber sobre o jantar que ele teria, naquela noite, com Dilma Rousseff. \u201cO jantar vai ser \u00e0s 9 horas\u201d, informou. \u201cOnde?\u201d, quis saber uma rep\u00f3rter. \u201cN\u00e3o sei onde \u00e9 a casa dela. Nunca fui l\u00e1.\u201d Temer tem a simpatia de deputados de todos os partidos. \u201cEle fez com que o Congresso voltasse a exercer o seu papel\u201d, disse Miro Teixeira, do PDT do Rio. \u201cTemer negocia, ele ouve\u201d, disse Chico Alencar, do Partido Socialismo e Liberdade. \u201cQuando tem demandas de movimentos populares, ele costuma me chamar para ajud\u00e1-lo.\u201d Rodrigo Maia, do Democratas, o considera \u201cum craque\u201d, porque conseguiu unir o PMDB, \u201co que n\u00e3o acontecia desde a \u00e9poca do Ulysses\u201d.<\/p>\n<p>Temer deixou o plen\u00e1rio pouco antes das 21 horas. O jantar fora marcado para que Dilma Rousseff o conhecesse melhor, j\u00e1 que nunca haviam conversado a s\u00f3s por mais de alguns minutos. Dilma o recebeu acompanhada de dois assessores que ele n\u00e3o conhecia. Na hora do jantar, sentaram sozinhos \u00e0 mesa. Foi servido um caldo, seguido de uma salada, que ele recusou, ela n\u00e3o. O prato principal foi um peixe com molho de maracuj\u00e1. Ele tomou \u00e1gua de coco e, ela, \u00e1gua. O deputado achou a comida \u201cmuito boa, delicada\u201d.<\/p>\n<p>Durante o jantar, Temer disse \u00e0 ex-ministra que seria referendado como candidato a vice na conven\u00e7\u00e3o do partido, marcada para o dia 12 de junho. Deixou claro que o PMDB queria ser protagonista e n\u00e3o apenas coadjuvante do governo. Informou que o partido elaborava um programa econ\u00f4mico com ajuda do ex-ministro Mangabeira Unger, do ex-deputado Moreira Franco e do deputado Henrique Alves. Dilma, segundo Temer, n\u00e3o se op\u00f4s a ouvir as propostas do PMDB. \u201cFicou acertado que n\u00f3s discutiremos tudo na campanha\u201d, contou-me. \u201cTeremos liberdade para dizer um ao outro o que queremos e o que n\u00e3o queremos, do que gostamos e do que n\u00e3o gostamos.\u201d<\/p>\n<p>O jantar, disse ele, foi sobretudo para aparar arestas. \u201cA ministra me garantiu que n\u00e3o tem qualquer resist\u00eancia ao meu nome\u201d, afirmou. Comentou tamb\u00e9m que se impressionara com a disposi\u00e7\u00e3o de Dilma: \u201cEla estava com uma apar\u00eancia muito saud\u00e1vel. Acho que a pol\u00edtica revigora. Isso acontece comigo.\u201d O encontro durou menos de duas horas.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o de Temer com sua companheira de chapa era t\u00e3o remota que, no come\u00e7o deste ano, o ex-ministro M\u00e1rcio Thomaz Bastos, amigo dos dois, iniciou um trabalho de aproxima\u00e7\u00e3o. \u201cEu conversei com eles e falei para pararem com as formalidades\u201d, me disse Bastos em seu escrit\u00f3rio, em S\u00e3o Paulo. \u201cSugeri que, pelo menos, deixassem de lado o senhor e senhora.\u201d Perguntei a Temer se essa barreira havia ca\u00eddo. Ele disse que ambos aceitaram a sugest\u00e3o, com um adendo: em p\u00fablico, ele s\u00f3 a chamaria de ministra.<\/p>\n<p>M\u00e1rcio Thomaz Bastos \u00e9 advogado da empreiteira Camargo Corr\u00eaa, acusada de financiar campanhas pol\u00edticas com dinheiro de caixa dois. O nome de Temer est\u00e1 na lista dos beneficiados. Uma opera\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal levantou que, entre 1995 e 1998, os pagamentos a pol\u00edticos chegaram a 178 milh\u00f5es de reais, em valores da \u00e9poca. Segundo o levantamento da PF, Temer recebeu mais de meio milh\u00e3o de reais da construtora. \u201cO governo est\u00e1 preocupado que, durante a campanha, surjam mais den\u00fancias contra Temer, o que poderia prejudicar o desempenho de Dilma\u201d, me disse um parlamentar do PT.<\/p>\n<p>No PMDB, n\u00e3o existe constrangimento com a investiga\u00e7\u00e3o da PF. E menos ainda com o pouco entrosamento entre Temer e Dilma. O deputado Moreira Franco ironizou quando eu lhe disse que os dois protagonizavam um casamento arranjado. \u201cSe na \u00cdndia d\u00e1 certo, por que n\u00e3o poderia dar certo entre eles?\u201d, perguntou-me. \u201c\u00c0s vezes, \u00e9 melhor um casamento arranjado, quando o casal vai se conhecendo e aprendendo a se gostar, do que aquele nascido da paix\u00e3o que depois acaba.\u201d<\/p>\n<p>No dia subsequente ao jantar com Dilma, Temer recebeu uma delega\u00e7\u00e3o chinesa para um almo\u00e7o no restaurante da C\u00e2mara. \u00c0 tarde embarcou para S\u00e3o Paulo. O escrit\u00f3rio dele na cidade fica num casar\u00e3o rosado no alto de Pinheiros. No dia seguinte, pela primeira vez em uma semana, Temer n\u00e3o usava terno. Estava com cal\u00e7a cinza e camisa listrada. Um dos quartos da casa foi transformado em sala de reuni\u00e3o e mobiliado com uma grande mesa de madeira e cadeiras de escrit\u00f3rio. Nelas se sentaram o seu assessor de imprensa, M\u00e1rcio Freitas, e o marqueteiro Gaud\u00eancio Torquato. Parecia um pouco mais \u00e0 vontade. Reclamou que, naquele dia, os jornais n\u00e3o atribu\u00edram a ele a responsabilidade pela aprova\u00e7\u00e3o do projeto Ficha Limpa. \u201cAcho uma injusti\u00e7a\u201d, disse, \u201cporque o projeto s\u00f3 foi a vota\u00e7\u00e3o porque eu o banquei desde o come\u00e7o.\u201d<\/p>\n<p>Temer deixou o escrit\u00f3rio para almo\u00e7ar no restaurante Senzala, vizinho ao casar\u00e3o, onde o ma\u00eetre veio cumpriment\u00e1-lo. \u201cH\u00e1 anos frequento esse lugar, aqui todo mundo vota em mim\u201d, disse. Enquanto comia, falou da amizade com o ministro do Supremo Tribunal Federal, Carlos Ayres Britto. Durante o almo\u00e7o, o deputado atendeu a um telefonema da mulher. Tapou o bocal e perguntou, abaixando a voz: \u201cO Michelzinho melhorou da tosse?\u201d<\/p>\n<p>De volta ao escrit\u00f3rio, sua filha Clarissa chegou de carro. \u201cComo n\u00e3o nos vemos tanto quanto eu gostaria, tenho que aproveitar essas oportunidades\u201d, explicou-me ela. Enquanto o deputado recebia um grupo de prefeitos, ela disse que sua preocupa\u00e7\u00e3o com o pai aumentou com a possibilidade de ele se tornar vice-Presidente: \u201cSei que ele se preparou a vida toda para isso, mas \u00e9 um cargo em que ele vai ficar muito exposto. Como filha, acho p\u00e9ssimo, mas como brasileira acho \u00f3timo ter uma pessoa como ele no governo.\u201d<\/p>\n<p>Clarissa \u00e9 psic\u00f3loga. Ela disse que, na intimidade, o pai \u00e9 afetuoso e engra\u00e7ado. Quando eram crian\u00e7as, ele costumava contar hist\u00f3rias para as filhas e dizer poesias. \u201cEle adorava recitar \u2018Navio negreiro\u2019, do Castro Alves e \u2018O oper\u00e1rio em constru\u00e7\u00e3o\u2019, do Vinicius de Moraes\u201d, contou. Ela elogiou a formalidade do pai: \u201cUm homem p\u00fablico tem que passar uma imagem de seriedade, de respeito. Um pol\u00edtico tem que ter um discurso cuidadoso. N\u00e3o pode sair falando o que d\u00e1 na cabe\u00e7a. \u00c9 at\u00e9 desrespeitoso.\u201d<\/p>\n<p>Outro na fam\u00edlia que se preocupa com as atividades pol\u00edticas de Temer \u00e9 seu \u00fanico irm\u00e3o vivo, Adib, de 75 anos. O escrit\u00f3rio de advocacia dele fica num pr\u00e9dio acanhado no centro da cidade. Adib costuma passar as tardes ali, embora j\u00e1 esteja praticamente aposentado. Tem os cabelos completamente brancos e a pele bronzeada. Como o irm\u00e3o, mant\u00e9m a postura ereta. O escrit\u00f3rio \u00e9 decorado com muitos bichos de pel\u00facia: cachorros, passarinhos, gatos expostos na estante, e v\u00e1rios porta-retratos de pl\u00e1stico com fotos dos irm\u00e3os, dos pais e da mulher.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o conseguimos nos ver muito. N\u00e3o sei por que ele continua nisso\u201d, disse Adib. \u201cEu vivo dizendo para ele deixar essa vida. Falo para ele: \u2018Michel, voc\u00ea j\u00e1 tem tudo, tem uma fam\u00edlia linda, suas filhas, sua mulher, e agora seu filhinho, para que continuar com essa coisa de pol\u00edtica?\u2019 Mas ele n\u00e3o me ouve.\u201d Adib acha que o irm\u00e3o faria muito melhor se largasse tudo e fosse aproveitar a vida. \u201cAdoro quando ele me chama para ir \u00e0 casa dele aos domingos\u201d, continuou. \u201c\u00c9 quando temos tempo para conversar. Mas isto est\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil. Quando n\u00e3o d\u00e1, e a saudade aperta, ligo a tv C\u00e2mara e fico vendo ele.\u201d<\/p>\n<p>Temer ainda estava reunido com o grupo de prefeitos quando a filha deixou o escrit\u00f3rio. No fim da tarde, voltou \u00e0 sala onde est\u00e1vamos. Foi at\u00e9 um arm\u00e1rio e me trouxe uma pasta com uma centena de guardanapos de companhias a\u00e9reas, anotados a caneta. Contou que, nas viagens entre S\u00e3o Paulo e Bras\u00edlia, aproveita para escrever poesias e aforismos. Faz isso h\u00e1 tr\u00eas anos. Come\u00e7ou a selecionar os que mais gostava e pretende public\u00e1-los. Uma parte deles foi passada para o computador. Leu o seguinte:<\/p>\n<p><em>Ando \u00e0 procura de mim.<\/em><\/p>\n<p><em>S\u00f3 encontro outros que, em mim,<\/em><\/p>\n<p><em>Ocuparam o meu lugar.<\/em><\/p>\n<p>Numa folha havia um poema maior, que ele escrevera para um irm\u00e3o morto. \u201cRecordo-me agora, toda vez que o violino toca\u2026\u201d, come\u00e7ou Temer, mas a voz lhe faltou e os olhos se encheram de l\u00e1grimas. Passou para outro:<\/p>\n<p><em>Eu desencantado<\/em><\/p>\n<p><em>desfigurado,<\/em><\/p>\n<p><em>desanimado<\/em><\/p>\n<p><em>desconstru\u00eddo<\/em><\/p>\n<p><em>derru\u00eddo<\/em><\/p>\n<p><em>destru\u00eddo.<\/em><\/p>\n<p>Perguntei-lhe se havia escrito aquilo quando sofrera a derrota para presid\u00eancia da C\u00e2mara. Disse que n\u00e3o lembrava as datas. Quis saber se ainda continuava escrevendo. Disse-me que n\u00e3o tinha tido muito tempo ultimamente. Escolhi um dos pap\u00e9is e li em voz alta:<\/p>\n<p><em>Lamentavelmente,<\/em><\/p>\n<p><em>Tudo anda bem.<\/em><\/p>\n<p><em>Por isso, andam mal<\/em><\/p>\n<p><em>Os meus escritos.<\/em><\/p>\n<p>Perguntei-lhe se era essa a raz\u00e3o de ele ter abandonado a poesia. Ele sorriu, guardou os pap\u00e9is e fechou a pasta.<\/p>\n<p>* Corre\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 edi\u00e7\u00e3o impressa<\/p>\n<p>http:\/\/revistapiaui.estadao.com.br\/materia\/a-cara-do-pmdb\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CONSUELO DIEGUEZ &#8211; Quem \u00e9, de onde veio e o que quer o chefe do maior partido brasileiro e candidato a vice-presidente de Dilma Rousseff O deputado Michel Temer, do PMDB, recebeu, em meados de abril de 1998, um jovem advogado, cuja fam\u00edlia conhecia de longa data, para um almo\u00e7o na resid\u00eancia oficial da presid\u00eancia [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-84","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-politica"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A CARA DO PMDB - Controversia<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/04\/26\/a-cara-do-pmdb\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_PT\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A CARA DO PMDB - Controversia\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"CONSUELO DIEGUEZ &#8211; Quem \u00e9, de onde veio e o que quer o chefe do maior partido brasileiro e candidato a vice-presidente de Dilma Rousseff O deputado Michel Temer, do PMDB, recebeu, em meados de abril de 1998, um jovem advogado, cuja fam\u00edlia conhecia de longa data, para um almo\u00e7o na resid\u00eancia oficial da presid\u00eancia [&hellip;]\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/04\/26\/a-cara-do-pmdb\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Controversia\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/\" \/>\n<meta property=\"article:author\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2016-04-26T18:33:07+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/michel-temer.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"640\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"374\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Ricardo Alvarez\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:creator\" content=\"@https:\/\/twitter.com\/contro_versia\" \/>\n<meta name=\"twitter:site\" content=\"@contro_versia\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Ricardo Alvarez\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Tempo estimado de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"38 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2016\\\/04\\\/26\\\/a-cara-do-pmdb\\\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2016\\\/04\\\/26\\\/a-cara-do-pmdb\\\/\"},\"author\":{\"name\":\"Ricardo Alvarez\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2\"},\"headline\":\"A CARA DO PMDB\",\"datePublished\":\"2016-04-26T18:33:07+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2016\\\/04\\\/26\\\/a-cara-do-pmdb\\\/\"},\"wordCount\":7695,\"commentCount\":0,\"publisher\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2016\\\/04\\\/26\\\/a-cara-do-pmdb\\\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/i0.wp.com\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2016\\\/04\\\/michel-temer.jpg?fit=640%2C374&ssl=1\",\"articleSection\":[\"Pol\u00edtica\"],\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2016\\\/04\\\/26\\\/a-cara-do-pmdb\\\/#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2016\\\/04\\\/26\\\/a-cara-do-pmdb\\\/\",\"url\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2016\\\/04\\\/26\\\/a-cara-do-pmdb\\\/\",\"name\":\"A CARA DO PMDB - Controversia\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#website\"},\"primaryImageOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2016\\\/04\\\/26\\\/a-cara-do-pmdb\\\/#primaryimage\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2016\\\/04\\\/26\\\/a-cara-do-pmdb\\\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/i0.wp.com\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2016\\\/04\\\/michel-temer.jpg?fit=640%2C374&ssl=1\",\"datePublished\":\"2016-04-26T18:33:07+00:00\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2016\\\/04\\\/26\\\/a-cara-do-pmdb\\\/#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2016\\\/04\\\/26\\\/a-cara-do-pmdb\\\/\"]}]},{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2016\\\/04\\\/26\\\/a-cara-do-pmdb\\\/#primaryimage\",\"url\":\"https:\\\/\\\/i0.wp.com\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2016\\\/04\\\/michel-temer.jpg?fit=640%2C374&ssl=1\",\"contentUrl\":\"https:\\\/\\\/i0.wp.com\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2016\\\/04\\\/michel-temer.jpg?fit=640%2C374&ssl=1\",\"width\":640,\"height\":374},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2016\\\/04\\\/26\\\/a-cara-do-pmdb\\\/#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"A CARA DO PMDB\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/\",\"name\":\"Controversia\",\"description\":\"Um site de leitura e debate\",\"publisher\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2\"},\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-PT\"},{\"@type\":[\"Person\",\"Organization\"],\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2\",\"name\":\"Ricardo Alvarez\",\"image\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/05\\\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png\",\"url\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/05\\\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png\",\"contentUrl\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/05\\\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png\",\"width\":1015,\"height\":1024,\"caption\":\"Ricardo Alvarez\"},\"logo\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/05\\\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png\"},\"description\":\"Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controv\u00e9rsia e escreve semanalmente.\",\"sameAs\":[\"http:\\\/\\\/controversia.com.br\",\"https:\\\/\\\/www.facebook.com\\\/Controversiascontemporaneas\\\/\",\"https:\\\/\\\/www.linkedin.com\\\/in\\\/controversia\\\/\",\"https:\\\/\\\/x.com\\\/https:\\\/\\\/twitter.com\\\/contro_versia\"]}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"A CARA DO PMDB - Controversia","robots":{"index":"index","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"canonical":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/04\/26\/a-cara-do-pmdb\/","og_locale":"pt_PT","og_type":"article","og_title":"A CARA DO PMDB - Controversia","og_description":"CONSUELO DIEGUEZ &#8211; Quem \u00e9, de onde veio e o que quer o chefe do maior partido brasileiro e candidato a vice-presidente de Dilma Rousseff O deputado Michel Temer, do PMDB, recebeu, em meados de abril de 1998, um jovem advogado, cuja fam\u00edlia conhecia de longa data, para um almo\u00e7o na resid\u00eancia oficial da presid\u00eancia [&hellip;]","og_url":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/04\/26\/a-cara-do-pmdb\/","og_site_name":"Controversia","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/","article_author":"https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/","article_published_time":"2016-04-26T18:33:07+00:00","og_image":[{"width":640,"height":374,"url":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/michel-temer.jpg","type":"image\/jpeg"}],"author":"Ricardo Alvarez","twitter_card":"summary_large_image","twitter_creator":"@https:\/\/twitter.com\/contro_versia","twitter_site":"@contro_versia","twitter_misc":{"Escrito por":"Ricardo Alvarez","Tempo estimado de leitura":"38 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2016\/04\/26\/a-cara-do-pmdb\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2016\/04\/26\/a-cara-do-pmdb\/"},"author":{"name":"Ricardo Alvarez","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#\/schema\/person\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2"},"headline":"A CARA DO PMDB","datePublished":"2016-04-26T18:33:07+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2016\/04\/26\/a-cara-do-pmdb\/"},"wordCount":7695,"commentCount":0,"publisher":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#\/schema\/person\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2"},"image":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2016\/04\/26\/a-cara-do-pmdb\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/michel-temer.jpg?fit=640%2C374&ssl=1","articleSection":["Pol\u00edtica"],"inLanguage":"pt-PT","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/controversia.com.br\/2016\/04\/26\/a-cara-do-pmdb\/#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2016\/04\/26\/a-cara-do-pmdb\/","url":"https:\/\/controversia.com.br\/2016\/04\/26\/a-cara-do-pmdb\/","name":"A CARA DO PMDB - Controversia","isPartOf":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#website"},"primaryImageOfPage":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2016\/04\/26\/a-cara-do-pmdb\/#primaryimage"},"image":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2016\/04\/26\/a-cara-do-pmdb\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/michel-temer.jpg?fit=640%2C374&ssl=1","datePublished":"2016-04-26T18:33:07+00:00","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2016\/04\/26\/a-cara-do-pmdb\/#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-PT","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/controversia.com.br\/2016\/04\/26\/a-cara-do-pmdb\/"]}]},{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-PT","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2016\/04\/26\/a-cara-do-pmdb\/#primaryimage","url":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/michel-temer.jpg?fit=640%2C374&ssl=1","contentUrl":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/michel-temer.jpg?fit=640%2C374&ssl=1","width":640,"height":374},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2016\/04\/26\/a-cara-do-pmdb\/#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/controversia.com.br\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"A CARA DO PMDB"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#website","url":"https:\/\/controversia.com.br\/","name":"Controversia","description":"Um site de leitura e debate","publisher":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#\/schema\/person\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2"},"potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/controversia.com.br\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-PT"},{"@type":["Person","Organization"],"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#\/schema\/person\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2","name":"Ricardo Alvarez","image":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-PT","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png","url":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png","contentUrl":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png","width":1015,"height":1024,"caption":"Ricardo Alvarez"},"logo":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png"},"description":"Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controv\u00e9rsia e escreve semanalmente.","sameAs":["http:\/\/controversia.com.br","https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/","https:\/\/www.linkedin.com\/in\/controversia\/","https:\/\/x.com\/https:\/\/twitter.com\/contro_versia"]}]}},"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/michel-temer.jpg?fit=640%2C374&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=84"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":85,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84\/revisions\/85"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=84"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=84"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=84"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}