{"id":8360,"date":"2018-06-10T12:45:56","date_gmt":"2018-06-10T15:45:56","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=8360"},"modified":"2018-06-10T12:43:08","modified_gmt":"2018-06-10T15:43:08","slug":"o-novo-tipo-de-golpe-de-estado-um-seriado-em-tres-temporadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/06\/10\/o-novo-tipo-de-golpe-de-estado-um-seriado-em-tres-temporadas\/","title":{"rendered":"O novo tipo de golpe de estado: um seriado em tr\u00eas temporadas"},"content":{"rendered":"<p><strong>SUELY ROLNIK<\/strong> &#8211; O capitalismo financeirizado tenta destruir todas as conquistas democr\u00e1ticas e republicanas, dissolver seu imagin\u00e1rio e erradicar da cena seus protagonistas.<\/p>\n<p>Uma paisagem sinistra instaurou-se no planeta com\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/10\/13\/economia\/1444760736_267255.html\">a tomada de poder mundial pelo regime capitalista<\/a>\u00a0em sua nova dobra \u2013 financeirizada e neoliberal \u2013, poder que leva seu projeto colonial \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, sua realiza\u00e7\u00e3o globalit\u00e1ria. Junto com este fen\u00f4meno, um outro, simult\u00e2neo, tamb\u00e9m contribui para o ar t\u00f3xico da presente paisagem:\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/06\/18\/internacional\/1466240994_234917.html\">a ascens\u00e3o ao poder de for\u00e7as conservadoras<\/a>\u00a0por toda parte, cujo teor de viol\u00eancia e barb\u00e1rie nos lembra os anos 1930 que antecederam a segunda guerra mundial e os anos mais recentes das\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/dictadura\/a\">ditaduras que persistiram at\u00e9 os anos 1980.<\/a>\u00a0Como se tais for\u00e7as jamais houvessem desaparecido de fato, mas apenas tivessem feito um recuo estrat\u00e9gico tempor\u00e1rio \u00e0 espreita de condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para sua volta triunfal.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/neoliberalismo\/a\">Neoliberalismo<\/a>\u00a0e neoconservadorismo s\u00e3o sintomas de for\u00e7as reativas radicalmente distintos, originados em distintos tempos hist\u00f3ricos e que coexistem em nossa contemporaneidade. \u00c0 primeira vista, a simultaneidade entre eles nos parece paradoxal, o que turva nossa compreens\u00e3o: o alto grau de complexidade, flexibilidade, sofistica\u00e7\u00e3o e refinamento perverso pr\u00f3prio do modo de exist\u00eancia neoliberal e suas estrat\u00e9gias de poder est\u00e1 a anos luz do arca\u00edsmo tacanho e da rigidez das for\u00e7as abrutalhadas deste neoconservadorismo \u2013 que s\u00f3 merece o prefixo \u201cneo\u201d por articular-se com condi\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-pol\u00edtico-econ\u00f4micas distintas daquelas em que havia estado no poder na hist\u00f3ria recente. Por\u00e9m, passada a perplexidade inicial, torna-se evidente que o capitalismo financeirizado precisa destas subjetividades rudes no poder. S\u00e3o como capangas que se incumbir\u00e3o do trabalho sujo: destruir todas as conquistas democr\u00e1ticas e republicanas, dissolver seu imagin\u00e1rio e erradicar da cena seus protagonistas \u2013 o que inclui as esquerdas em todos seus matizes, mas n\u00e3o s\u00f3 elas.<\/p>\n<p>A alian\u00e7a entre neoconservadores e neoliberais \u00e9 facilitada pela coincid\u00eancia de seus interesses em rela\u00e7\u00e3o a este objetivo espec\u00edfico. Tal interesse por parte dos neoconservadores, acrescido do fato de que sua torpe subjetividade\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/03\/16\/politica\/1521234891_106346.html\">seja arraigadamente classista e racista,<\/a>\u00a0os leva a cumprir o papel de capangas sem qualquer barreira \u00e9tica e numa velocidade estonteante. Quando nem bem nos damos conta de uma de suas tacadas, uma outra j\u00e1 est\u00e1 em vias de acontecer, geralmente decidida pelo congresso na calada da noite. O exerc\u00edcio desta tarefa lhes proporciona um gozo narc\u00edsico perverso, a tal ponto inescrupuloso, que chega a ser obsceno. Com o trabalho sujo destes capangas do neoliberalismo, prepara-se o terreno para o livre fluxo do capital transnacional. \u00c9 neste cen\u00e1rio que se d\u00e1 o novo tipo de golpe, criado pela atual vers\u00e3o do capitalismo: um seriado que se desenrola em tr\u00eas temporadas.<\/p>\n<p>Na primeira temporada, se estabelece uma alian\u00e7a entre, de um lado, os poderes Legislativo, Judici\u00e1rio e Policial e, de outro, os grupos que det\u00e9m o poder da m\u00eddia. Sustentados por esta alian\u00e7a, os capangas do capitalismo financeirizado d\u00e3o o golpe que\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/proceso_destitucion\/a\">expulsa do governo seus l\u00edderes<\/a>\u00a0mais \u00e0 esquerda. Mas o golpe n\u00e3o se encerra por aqui: uma vez conclu\u00eddo este primeiro trabalho sujo, tem in\u00edcio sua segunda temporada. Trata-se agora do desmonte da constitui\u00e7\u00e3o, sobretudo das leis que garantem direitos aos mais desfavorecidos, bem como a privatiza\u00e7\u00e3o dos bens e empresas estatais mais rent\u00e1veis. E o Estado vai sendo assim rapidamente reduzido ao m\u00ednimo para, ao final do seriado, passar a cumprir a mera fun\u00e7\u00e3o de facilitador de investimentos do capital transnacional.<\/p>\n<p>Enquanto se desenrola esta opera\u00e7\u00e3o, os pr\u00f3prios capangas do capitalismo globalit\u00e1rio ser\u00e3o os\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/09\/14\/politica\/1505409607_914172.html\">novos alvos das den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o<\/a>, preparando-se o terreno para sua eje\u00e7\u00e3o t\u00e3o logo sua tarefa esteja conclu\u00edda. No final da \u00faltima temporada do seriado do golpe, o novo regime os jogar\u00e1 no lixo da hist\u00f3ria, sem o menor constrangimento. Paralelamente, ainda nesta segunda temporada, o mesmo se faz com o empresariado nacional, cuja perman\u00eancia em cena interessa ao neoliberalismo apenas enquanto precise de sua cumplicidade para as privatiza\u00e7\u00f5es e para o exterm\u00ednio de tais leis (<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/reformas_laborales\/a\">principalmente as trabalhistas<\/a>, o que no Brasil n\u00e3o se limitar\u00e1 \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o mas chegar\u00e1 ao c\u00famulo de legalizar o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/10\/19\/politica\/1508447540_501606.html\">trabalho escravo<\/a>). E em pleno processo de seu desmonte pelo congresso, o empresariado j\u00e1 come\u00e7a a tornar-se tamb\u00e9m ele alvo de den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o, cujo objetivo \u00e9 tir\u00e1-lo do comando das obras p\u00fablicas, assim que as privatiza\u00e7\u00f5es estiverem consumadas.<\/p>\n<p>Com esta dupla eje\u00e7\u00e3o e j\u00e1 tendo se instaurado no pa\u00eds uma grave\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/c\/9ee51b56a07c53428c6e49c56b289628\">crise institucional<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/c\/071a4b6187f91ee5b5ba2e60718c4b42\">econ\u00f4mica,<\/a>\u00a0intensificada pela paralisia das obras p\u00fablicas ap\u00f3s as condena\u00e7\u00f5es do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/07\/05\/politica\/1499263738_058697.html\">empresariado nacional,<\/a>\u00a0o terreno estar\u00e1 totalmente pronto para a chegada dos investimentos sem entraves do capital transnacional. Nesta segunda temporada do seriado do golpe, s\u00e3o particularmente importantes as cenas do ringue entre distintas m\u00e1fias de pol\u00edticos s\u00f3rdidos, assim como entre eles e as m\u00e1fias do empresariado. \u201cPremiados\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/03\/23\/politica\/1458692541_715457.html\">por suas dela\u00e7\u00f5es<\/a>, eles se destroem mutuamente diante da sociedade que, noite ap\u00f3s noite, assiste perplexa ao espet\u00e1culo grotesco da derrocada de ambos nas telas da TV \u2013 espet\u00e1culo ao qual se tem acesso igualmente pelas redes sociais que se pode buscar a qualquer hora, assim como pelos jornais, que parte das classes m\u00e9dias e altas leem ao despertar. S\u00e3o imagens e mensagens, escritas ou faladas, de negocia\u00e7\u00f5es de falcatruas econ\u00f4micas e pol\u00edticas, clandestinamente captadas em telefonemas, e-mails e grava\u00e7\u00f5es, bem como em documentos entregues pelos delatores ou encontrados pela pol\u00edcia nas devassas de suas casas e escrit\u00f3rios. \u00c9 um verdadeiro show de psicopatia, que nos lembra os mais hil\u00e1rios filmes de s\u00e9rie B e seus canastr\u00f5es. A triste diferen\u00e7a \u00e9 que, neste caso, a narrativa ficcional \u00e9 baseada em elementos da realidade, cuja edi\u00e7\u00e3o visa provocar efeitos micropol\u00edticos nas subjetividades: a propaga\u00e7\u00e3o da inseguran\u00e7a e do medo de colapso.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o \u00e9 novo: o poder no regime colonial-capital\u00edstico atua na esfera micropol\u00edtica desde sua funda\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XV. Sua matriz nesta esfera \u00e9 o abuso da vida enquanto for\u00e7a de cria\u00e7\u00e3o e transmuta\u00e7\u00e3o \u2013 sua ess\u00eancia e tamb\u00e9m condi\u00e7\u00e3o para sua persist\u00eancia, na qual reside seu destino \u00e9tico. Isto inclui a pot\u00eancia vital em todas suas manifesta\u00e7\u00f5es e n\u00e3o apenas como for\u00e7a de trabalho, como se pensava no marxismo. O intuito do abuso \u00e9 desvi\u00e1-la de seu destino, convertendo a for\u00e7a de \u201ccria\u00e7\u00e3o\u201d de novos modos de exist\u00eancia, toda vez que a vida assim o exige, em for\u00e7a de \u201ccriatividade\u201d investida na composi\u00e7\u00e3o de novos cen\u00e1rios para o consumo e a acumula\u00e7\u00e3o de capital (econ\u00f4mico, pol\u00edtico, cultural e narc\u00edsico) e que reproduz e reacomoda a cartografia estabelecida. No entanto, na nova dobra do regime, a interven\u00e7\u00e3o nesta esfera refina-se e se intensifica. Isto pode ser constatado n\u00e3o s\u00f3 nas tecnologias de manipula\u00e7\u00e3o das subjetividades acima descritas, mas tamb\u00e9m no \u00faltimo trabalho sujo destes pat\u00e9ticos capangas do neoliberalismo, roteiro do final da segunda temporada do seriado do golpe, no qual o golpe incide mais direta e veementemente na esfera micropol\u00edtica.<\/p>\n<p>Trata-se da irrup\u00e7\u00e3o do surto conservador mencionado no in\u00edcio. Apelando \u00e0 moral religiosa,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/09\/21\/cultura\/1506018494_703601.html\">toma-se como como alvo a cultura,<\/a>\u00a0em seu sentido amplo que vai das produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas aos modos de exist\u00eancia \u2013 o que inclui todos aqueles que n\u00e3o se encaixam nas categorias machistas, homof\u00f3bicas, transf\u00f3bicas, racistas e xenof\u00f3bicas de sua alma capitalista-colonial-escravocrata. Com ampla divulga\u00e7\u00e3o pela m\u00eddia, certos tipos de pr\u00e1ticas passam a ser associadas ao dem\u00f4nio, como o eram nos s\u00e9culos da Inquisi\u00e7\u00e3o (e n\u00e3o s\u00f3) as pr\u00e1ticas de mulheres chamadas pejorativamente de bruxas, o que autorizava sua pris\u00e3o, tortura e morte.<\/p>\n<p>Fiquemos apenas em tr\u00eas exemplos. O primeiro \u00e9 a arte: certas pr\u00e1ticas art\u00edsticas passam a ser desqualificadas e criminalizadas. Nesta opera\u00e7\u00e3o, busca-se destruir a dignidade \u00e9tica de sua puls\u00e3o criadora, para neutralizar sua pot\u00eancia micropol\u00edtica: tornar sens\u00edveis as demandas da vida quando esta se v\u00ea sufocada nas formas vigentes de exist\u00eancia individual e coletiva. Materializadas em obras, tais demandas teriam o poder de cont\u00e1gio dos p\u00fablicos que a elas tem acesso, o que tenderia a mobilizar a for\u00e7a coletiva de transfigura\u00e7\u00e3o das formas da realidade e de transvalora\u00e7\u00e3o de seus valores. Ao atacar a arte, pretende-se desmobilizar a possibilidade de irrup\u00e7\u00e3o social de tal for\u00e7a. O segundo exemplo s\u00e3o os movimentos em torno das muta\u00e7\u00f5es das subjetividades, especialmente nos \u00e2mbitos da sexualidade e das rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero (movimentos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/feminismo\/a\">feministas,<\/a><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/lgtb\/a\">LGBTQ<\/a>, etc). Mobiliza-se a volta aos valores da heterossexualidade monog\u00e2mica da fam\u00edlia nuclear patriarcal como forma absoluta de erotismo e de la\u00e7o social, visando interromper o processo pulsional de cria\u00e7\u00e3o de novas formas, desencadeado pela urg\u00eancia da vida em livrar-se do sufoco em que se encontra nas formas dominantes nestes terrenos.<\/p>\n<p>O terceiro exemplo s\u00e3o as tradi\u00e7\u00f5es culturais africanas e ind\u00edgenas, fortemente presentes em todas as ex-col\u00f4nias: estas s\u00e3o sistematicamente perseguidas e humilhadas. No Brasil, opera-se uma\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/11\/03\/politica\/1509708790_213116.html\">destrui\u00e7\u00e3o em s\u00e9rie de terreiros<\/a>\u00a0de Candombl\u00e9 e a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/04\/22\/politica\/1524431588_065086.html\">expuls\u00e3o dos ind\u00edgenas de suas terras<\/a>, ao que se soma a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/12\/01\/politica\/1512148795_433241.html\">aboli\u00e7\u00e3o das leis<\/a>\u00a0que as haviam demarcado, fruto de uma \u00e1rdua luta das d\u00e9cadas anteriores \u2013 isto, quando os ind\u00edgenas n\u00e3o s\u00e3o literalmente exterminados num despudorado genoc\u00eddio. Se no \u00faltimo exemplo o objetivo destas opera\u00e7\u00f5es do poder \u00e9 mais obviamente macropol\u00edtico (o roubo dos terrenos do Candombl\u00e9 e das terras ind\u00edgenas), basta coloc\u00e1-lo lado a lado com os dois exemplos anteriores, para nos darmos conta de que h\u00e1 tamb\u00e9m nesta opera\u00e7\u00e3o um objetivo mais sutil, micropol\u00edtico. Nesta esfera, a meta \u00e9 a neutraliza\u00e7\u00e3o da alteridade e a desmobiliza\u00e7\u00e3o da pot\u00eancia de transfigura\u00e7\u00e3o da realidade coletiva de que a oportunidade de habitar a trama relacional tecida entre esses distintos modos de exist\u00eancia seria portadora.<\/p>\n<p>\u00c0 opera\u00e7\u00e3o macropol\u00edtica de desmonte do Estado e da economia, soma-se a opera\u00e7\u00e3o micropol\u00edtica de produ\u00e7\u00e3o de subjetividades. A fragiliza\u00e7\u00e3o resultante do medo inculcado pelo tom apocal\u00edptico da m\u00eddia em sua narrativa sobre a crise intensifica-se com o humilhante ataque \u00e0 dignidade dos modos de exist\u00eancia acima mencionados. Isto faz com as subjetividades tendam a agarrar-se a qualquer promessa de estabilidade e seguran\u00e7a, do que faz parte a proje\u00e7\u00e3o da causa de sua fragilidade nas figuras de bode expiat\u00f3rio constru\u00eddas em tais narrativas. Nestas estrat\u00e9gias defensivas, sua puls\u00e3o vital entrega-se ao abuso colonial-capital\u00edstico por seu pr\u00f3prio desejo. Com esta dupla opera\u00e7\u00e3o indissoci\u00e1vel, macro e micropol\u00edtica, prepara-se a sociedade para a terceira e \u00faltima temporada: a tomada do poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico pelo capitalismo globalit\u00e1rio. Ela estar\u00e1 enfim pronta para receb\u00ea-lo como o salvador \u201ccivilizado\u201d que sanear\u00e1 a economia de sua fal\u00eancia e restabelecer\u00e1 a dignidade da vida p\u00fablica, devolvendo ao pa\u00eds seu prest\u00edgio perdido e a serenidade a seus cidad\u00e3os. Fim do seriado. Golpe conclu\u00eddo.<\/p>\n<p>O novo tipo de golpe de Estado oculta-se, assim, sob a m\u00e1scara de legalidade democr\u00e1tica, sem fazer uso da for\u00e7a militar, nem expor seus verdadeiros agentes. A composi\u00e7\u00e3o da m\u00e1scara \u00e9 sutil e astuta. A segunda temporada do seriado do golpe come\u00e7a a ser veiculada pela m\u00eddia imediatamente ap\u00f3s o final da primeira. Os\u00a0<em>scripts<\/em>\u00a0s\u00e3o id\u00eanticos, s\u00f3 mudam os personagens que desempenham o papel de r\u00e9us acusados de corrup\u00e7\u00e3o: os l\u00edderes progressistas da primeira temporada s\u00e3o agora substitu\u00eddos pelos elementos mais inescrupulosos da classe pol\u00edtica e seus c\u00famplices da classe empresarial. havido um golpe de estado, j\u00e1 que n\u00e3o s\u00f3 os pol\u00edticos de esquerda foram punidos. Se na primeira temporada, parcelas significativas da popula\u00e7\u00e3o ainda viam claramente que se tratava de um golpe, cujo objetivo era aniquilar a imagem dos pol\u00edticos progressistas e tir\u00e1-los do poder, com a a substitui\u00e7\u00e3o dos personagens na segunda temporada, vence na maioria a ideia de que a expuls\u00e3o dos governantes progressistas havia sido, de fato,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/04\/10\/politica\/1523314362_879066.html\">uma a\u00e7\u00e3o imparcial e digna<\/a>, visando a necess\u00e1ria moraliza\u00e7\u00e3o da vida p\u00fablica. Tal ideia \u00e9 inclusive assumida por aqueles que tem menos acesso aos direitos \u2013 parcela majorit\u00e1ria da popula\u00e7\u00e3o \u2013 e que haviam sido favorecidos pelos governos progressistas.<\/p>\n<p>Em suma, o novo tipo de golpe, pr\u00f3prio do capitalismo globalit\u00e1rio, consiste num complexo conjunto de opera\u00e7\u00f5es micro e macropol\u00edticas, no qual mata-se v\u00e1rios coelhos numa cajadada s\u00f3 (todos os coelhos cuja exist\u00eancia estorva o livre fluxo de capital transnacional):\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/04\/08\/politica\/1523145272_467301.html\">os l\u00edderes de esquerda<\/a>\u00a0e o imagin\u00e1rio progressista a eles associado (o que facilita o desmantelamento da Constitui\u00e7\u00e3o,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/08\/26\/economia\/1503758227_512966.html\">as privatiza\u00e7\u00f5es<\/a>\u00a0e a entrega do pa\u00eds ao capital privado transnacional), os pol\u00edticos de alma escravocrata e pr\u00e9-republicana, os l\u00edderes do empresariado nacional e, por fim e n\u00e3o menos importante, a pr\u00f3pria pot\u00eancia coletiva de a\u00e7\u00e3o pensante criadora que se mobilizaria diante do intoler\u00e1vel. E o capitalismo transnacional globalit\u00e1rio sai vitorioso e de m\u00e3os aparentemente limpas. Esta ser\u00e1, provavelmente, a apote\u00f3tica cena final do seriado do golpe.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o estava previsto no\u00a0<em>script<\/em>\u00a0deste seriado \u00e9 que passados os primeiros cap\u00edtulos da segunda temporada , na qual se conseguiu instaurar a ilus\u00e3o de que n\u00e3o se tratou de golpe, seus cap\u00edtulos seguintes \u2013 onde se v\u00ea a destrui\u00e7\u00e3o das conquistas democr\u00e1ticas e a penaliza\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o cultural \u2013 n\u00e3o ter\u00e3o o mesmo \u00eaxito. Por colocarem a vida manifestamente em risco, diante de tais opera\u00e7\u00f5es o v\u00e9u da ilus\u00e3o tende a cair: instaura-se nas subjetividades um estado de urg\u00eancia que faz com que o desejo consiga deslocar-se de sua entrega ao abuso e passe a agir de modo a transfigurar o presente, impedindo que prossiga a carnificina. Uma resist\u00eancia micropol\u00edtica come\u00e7a ent\u00e3o a surgir por toda parte, de modo a enfrentar a nova modalidade de golpe, na qual ficou mais expl\u00edcito o fato de que sua estrat\u00e9gia n\u00e3o \u00e9 apenas macropol\u00edtica.<\/p>\n<p>Insurgir-se tamb\u00e9m nesta esfera \u00e9 o avan\u00e7o que nos trazem os movimentos que vem desestabilizando aqui e acol\u00e1 o poder mundial do capitalismo financeirizado \u2013 movimentos que se intensificaram ap\u00f3s o tsunami dos golpes de estado provocado pelo novo regime por toda parte. Este avan\u00e7o nos ajuda a ver que o horizonte do modo tradicional de resist\u00eancia das esquerdas reduz-se \u00e0 esfera macropol\u00edtica e que esta redu\u00e7\u00e3o seria uma das causas de sua impot\u00eancia frente ao atual estado de coisas. Tal entendimento tem o poder de nos tirar da paralisia melanc\u00f3lica fatalista na qual nos faria so\u00e7obrar a sombria paisagem que nos rodeia e tende, inclusive, a fortalecer a resist\u00eancia na esfera macropol\u00edtica.<\/p>\n<p>As pr\u00f3ximas temporadas do seriado do capitalismo globalit\u00e1rio \u2013 que come\u00e7a bem antes dos recentes golpes e certamente seguir\u00e1 ap\u00f3s os mesmos \u2013, ser\u00e3o delineadas coletivamente nos embates entre as for\u00e7as reativas que promovem o abuso da vida em sua pot\u00eancia pulsional de cria\u00e7\u00e3o e as for\u00e7as ativas que promovem sua afirma\u00e7\u00e3o transfiguradora. Imposs\u00edvel prever o desfecho (sempre provis\u00f3rio) deste embate. Mas h\u00e1 um alento no ar que cria condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para liberarmos a puls\u00e3o das sequelas de seu abuso abuso colonial-capitalista, de modo a imaginarmos novos cen\u00e1rios e agirmos em sua dire\u00e7\u00e3o. O alento nos vem da cren\u00e7a de que \u00e9 poss\u00edvel despoluir o ar ambiente de sua poeira t\u00f3xica e que isto depende de agregarmos \u00e0s estrat\u00e9gias de resist\u00eancia este trabalho coletivo de descoloniza\u00e7\u00e3o na esfera micropol\u00edtica.<\/p>\n<p>https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/05\/12\/actualidad\/1526080535_988288.html<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SUELY ROLNIK &#8211; O capitalismo financeirizado tenta destruir todas as conquistas democr\u00e1ticas e republicanas, dissolver seu imagin\u00e1rio e erradicar da cena seus protagonistas. 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