{"id":8118,"date":"2018-05-21T17:00:20","date_gmt":"2018-05-21T20:00:20","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=8118"},"modified":"2018-05-21T16:06:45","modified_gmt":"2018-05-21T19:06:45","slug":"neoliberalismo-esta-moribundo-mas-nao-sabemos-para-onde-vamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/05\/21\/neoliberalismo-esta-moribundo-mas-nao-sabemos-para-onde-vamos\/","title":{"rendered":"&#8216;Neoliberalismo est\u00e1 moribundo, mas n\u00e3o sabemos para onde vamos&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><strong>Autoria:\u00a0Eduardo Maretti<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Enquanto a China exerce papel cada vez mais relevante na economia global, Brasil n\u00e3o consegue nem mesmo negociar com o gigante oriental. &#8220;Temer e Meirelles n\u00e3o t\u00eam no\u00e7\u00e3o do que est\u00e3o falando&#8221;<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Fernando Henrique Cardoso destruiu parte importante da ind\u00fastria brasileira, sobretudo as cadeias produtivas&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>No jogo econ\u00f4mico e geopol\u00edtico global de hoje, as principais cartas est\u00e3o colocadas por um gigante do Oriente. &#8220;A escalada da China n\u00e3o tem como ser contida. A n\u00e3o ser que se tente fazer uma coisa de enorme viol\u00eancia&#8221;, diz o economista Luiz Gonzaga Belluzzo.<\/p>\n<p>&#8220;O que a China fez foi se encaixar de maneira adequada na globaliza\u00e7\u00e3o, proposta pela expans\u00e3o americana financeira e produtiva&#8221;, diz. Prova disso \u00e9 que os chineses est\u00e3o comprando empresas em todo o mundo. Inclusive no Brasil, nos setores estrat\u00e9gicos de energia e petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>Por outro lado, os Estados Unidos continuam a possuir uma carta fundamental no jogo da economia e finan\u00e7as globais: o d\u00f3lar. &#8220;\u00c9 o ativo em que o mercado confia.&#8221; O resultado da complexa disputa pelo protagonismo mundial ou por posi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas n\u00e3o est\u00e1 claro, considerando que o mundo passa por uma transi\u00e7\u00e3o que parece apontar para o fim da hegemonia neoliberal, mas sem horizontes muito claros.<\/p>\n<p>&#8220;Acho que estamos num momento de passagem, n\u00e3o sabemos bem para onde. Eu diria que o arranjo internacional est\u00e1 moribundo, est\u00e1 sendo fundamentalmente sustentado pela exce\u00e7\u00e3o chinesa, que \u00e9 uma parte do conjunto&#8221;, diz Belluzzo. &#8220;Acho que esse arranjo proposto l\u00e1 atr\u00e1s, nos anos 80, que o pessoal chama de neoliberalismo, est\u00e1 moribundo, mas n\u00e3o morre.&#8221;<\/p>\n<p>Enquanto isso, o Brasil \u00e9 hoje apenas formalmente parte integrante do Brics \u2013 bloco em que est\u00e1 ao lado de R\u00fassia, \u00cdndia, China e \u00c1frica do Sul \u2013, pois na pr\u00e1tica perdeu completamente o protagonismo e caminha por uma op\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica equivocada, ao reaproximar-se da esfera norte-americana.<\/p>\n<p>&#8220;Estamos fazendo uma aproxima\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica errada. Os chineses est\u00e3o entrando aqui e n\u00e3o estamos exigindo ou negociando nada com eles.&#8221; E, no Brics, o Brasil de Michel Temer &#8220;n\u00e3o faz nada&#8221;.<\/p>\n<p>Principalmente porque, segundo Belluzzo, sob o governo de Michel Temer e seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, o pa\u00eds est\u00e1 sem comando.\u00a0&#8220;Eles n\u00e3o t\u00eam no\u00e7\u00e3o de nada, n\u00e3o t\u00eam no\u00e7\u00e3o do que est\u00e3o falando&#8221;, diz o economista, em entrevista \u00e0\u00a0<strong>RBA<\/strong>.\u00a0&#8220;Conhe\u00e7o bem o presidente da Rep\u00fablica. Ele tem uma intelig\u00eancia bem restrita&#8221;, garante Belluzzo.<\/p>\n<p><strong>Recentemente o FMI informou que a d\u00edvida global chegou a 225% do PIB mundial, com valor de U$ 164 trilh\u00f5es. Como interpreta esse dado?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Depois da crise de 2008-2009, os bancos centrais entraram firmemente para impedir que a crise se espalhasse de maneira incontrol\u00e1vel e bloqueasse os mercados interbanc\u00e1rios, que ficaram paralisados. Sem a presen\u00e7a dos bancos e dos mercados financeiros numa economia como a de hoje, haveria um colapso de grandes propor\u00e7\u00f5es. Vamos olhar as d\u00edvidas p\u00fablicas. A do Jap\u00e3o, por exemplo, \u00e9 de mais de 200% do PIB, o que j\u00e1 vem dos anos 90 pelas opera\u00e7\u00f5es que fizeram, para segurar a economia japonesa, depois da crise iniciada em 1989.<\/p>\n<p>Em 2006, antes da crise, a d\u00edvida p\u00fablica dos Estados Unidos estava em torno de 60% do PIB, e hoje est\u00e1 em torno de 110%. Por que subiu a d\u00edvida p\u00fablica? O governo americano gastou mais em infraestrutura, obras p\u00fablicas? N\u00e3o. Foi porque o tesouro foi obrigado a socorrer os bancos, com t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica, o t\u00edtulo considerado mais seguro, a c\u00faspide do sistema financeiro internacional. \u00c9 o ativo em que o mercado confia. Quando h\u00e1 inseguran\u00e7a maior, todo mundo corre para o t\u00edtulo da d\u00edvida p\u00fablica americana.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o aumentou a d\u00edvida p\u00fablica americana por causa dessa opera\u00e7\u00e3o. Em seguida, por causa das taxas de juros muito baixas, os fundos e bancos de investimento come\u00e7aram a se realavancar. H\u00e1 uma tremenda expans\u00e3o do cr\u00e9dito intrafinanceiro e tamb\u00e9m para as empresas transnacionais.<\/p>\n<p>O excesso de liquidez \u2013 muito dinheiro considerado confi\u00e1vel, o d\u00f3lar americano \u2013 for\u00e7ou o endividamento das empresas da periferia. No Brasil, por exemplo, as empresas privadas come\u00e7aram a tomar muita d\u00edvida em d\u00f3lar, sobretudo porque era barato, a taxa de juros baixa. Ent\u00e3o h\u00e1 um endividamento elevado das empresas brasileiras em d\u00f3lar. Isso foi percebido agora, porque o d\u00f3lar come\u00e7ou a ficar caro e isso afeta o estoque de d\u00edvida das empresas.<\/p>\n<p><strong>Isso globalmente&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Globalmente: Turquia, Brasil, \u00cdndia, v\u00e1rios pa\u00edses que fizeram endividamentos altos. Quando se desvaloriza o d\u00f3lar, o Federal Reserve (banco central americano) deu sinal de que poderia come\u00e7ar a diminuir a compra de ativos privados, o seu papel de\u00a0<em>market maker,<\/em>\u00a0como comprador e vendedor nos mercados secund\u00e1rios. Quando ele come\u00e7ou a dar o sinal, correu todo mundo pra sair das posi\u00e7\u00f5es nos pa\u00edses que estavam com moeda valorizada. Esse \u00e9 o fen\u00f4meno da extrema depend\u00eancia que os pa\u00edses t\u00eam dos movimentos da pol\u00edtica monet\u00e1ria americana. Ela d\u00e1 um solu\u00e7o l\u00e1, isso afeta todo mundo.<\/p>\n<p>Essa discuss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 feita no Brasil, porque os economistas de bancos n\u00e3o querem saber dessa hist\u00f3ria. Eles querem dizer que o Brasil tem essa vulnerabilidade, a despeito das reservas altas (U$ 380 bilh\u00f5es), porque a situa\u00e7\u00e3o fiscal \u00e9 ruim. A situa\u00e7\u00e3o fiscal \u00e9 ruim no mundo inteiro, porque todas as moedas se desvalorizaram em rela\u00e7\u00e3o ao d\u00f3lar. Todas. Menos algumas, como o yuan chin\u00eas, porque eles t\u00eam uma pol\u00edtica de controle de c\u00e2mbio.<\/p>\n<p><strong>Est\u00e1 existindo uma fuga de investidores de pa\u00edses emergentes?<\/strong><\/p>\n<p>Isso \u00e9 um pouco mais complicado, porque voc\u00ea opera nos mercados futuros. Voc\u00ea muda a posi\u00e7\u00e3o de estar vendido em d\u00f3lar para ficar comprado. \u00c9 uma mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o dos seus estoques de riqueza. Por exemplo, quando o investidor percebe que vai haver uma desvaloriza\u00e7\u00e3o do real ele deixa de apostar no real e passa a apostar no d\u00f3lar&#8230;<\/p>\n<p><strong>Mas est\u00e1 acontecendo isso?<\/strong><\/p>\n<p>Claro que est\u00e1. Mas o Brasil tem uma prote\u00e7\u00e3o (as reservas). A quest\u00e3o central \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o pode ter um pre\u00e7o t\u00e3o fundamental, como o c\u00e2mbio, sujeito a essas flutua\u00e7\u00f5es, a essas incertezas. Quem fez um projeto de aumento da produ\u00e7\u00e3o em cima do aumento das importa\u00e7\u00f5es, quando d\u00e1 uma paulada dessa no d\u00f3lar, ele fica a perigo, da mesma maneira que o exportador, quando faz um projeto de exporta\u00e7\u00e3o com uma taxa de c\u00e2mbio a R$ 3,70 e ela cai para R$ 3,20, por exemplo, os planos dele ficam amea\u00e7ados. Essa volatilidade do c\u00e2mbio, uma caracter\u00edstica da economia atual, sempre nos deu problema, e nos deu mais problemas quando est\u00e1vamos mais desprotegidos.<\/p>\n<p>Vamos lembrar do Fernando Henrique Cardoso, que ningu\u00e9m lembra. Ele fez a estabiliza\u00e7\u00e3o com c\u00e2mbio fixo, destruiu uma parte da ind\u00fastria brasileira. Lembro do (Jos\u00e9) Mindlin me falando que ia vender a Metal Leve, porque n\u00e3o aguentava mais. Hoje ningu\u00e9m fala nada, eles (os empres\u00e1rios) levam na cabe\u00e7a e devem achar bom, viraram rentistas tamb\u00e9m. Mas o Fernando Henrique fez essa aposta, valorizou o c\u00e2mbio, destruiu uma parte da ind\u00fastria brasileira importante, sobretudo as cadeias produtivas, danou o setor de bens de capital e carregou isso ao longo dos anos 90, meados de 94 at\u00e9 98, quando houve uma sucess\u00e3o de crises cambiais \u2013 M\u00e9xico em 94, \u00c1sia em 97, depois R\u00fassia, Brasil e Argentina. Mas para os economistas da banca n\u00e3o aconteceu nada, era s\u00f3 para os pa\u00edses que estavam com suas situa\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas ruins.<\/p>\n<p>Viemos de uma d\u00edvida p\u00fablica, que Collor deixou, de aproximadamente 30%, e chegou a cerca de 70% . A economia cresceu pouco, taxa m\u00e9dia de 2,5%, e s\u00f3 fomos nos recuperar a partir de 2003&#8230;<\/p>\n<p><strong>Com Lula..<\/strong>.<\/p>\n<p>Com Lula. Na \u00e9poca, houve um choque brutal de\u00a0<em>commodities<\/em>\u00a0e de demanda na economia mundial. Isso beneficiou muito os pa\u00edses que tinham um setor de agroneg\u00f3cio muito forte, como Argentina e Brasil. A Argentina cresceu at\u00e9 mais que o Brasil, 8,5%, 9% nesse per\u00edodo. Lula pegou esse momento e fez as pol\u00edticas corretas de inclus\u00e3o, foi muito h\u00e1bil nisso. Colocou 40 milh\u00f5es de pessoas para dentro da economia, n\u00e3o \u00e9 pouca coisa, \u00e9 um prod\u00edgio. Mas isso tem a ver com ciclo de commodities, ainda que ele tenha mantido a tend\u00eancia de valoriza\u00e7\u00e3o do c\u00e2mbio. A ind\u00fastria continuou a perder peso. A ind\u00fastria brasileira tinha uma participa\u00e7\u00e3o de 25% do PIB no in\u00edcio dos 80 e passou a ter 12% (dados recentes do IBGE).<\/p>\n<p>Passamos a d\u00e9cada de 80 inteira, a &#8220;d\u00e9cada perdida&#8221;, tentando resolver o problema dos efeitos da d\u00edvida externa, efeitos fiscais \u2013 porque houve estatiza\u00e7\u00e3o de d\u00edvida pelo Tesouro \u2013, incapacidade\u00a0 de pagamento, v\u00e1rias cartas de inten\u00e7\u00e3o com o FMI. A economia tinha momentos de crescimento e queda sucessivos. Sa\u00edmos da crise em 94, com o Plano Real. Por qu\u00ea? Porque t\u00ednhamos 40 bilh\u00f5es de reserva. \u00a0A\u00ed come\u00e7a o neg\u00f3cio de privatiza\u00e7\u00e3o. A economia mundial j\u00e1 estava se tornando o que ela \u00e9 hoje, muito inclinada a tirar proveito da propriedade, que \u00e9 o rentismo, em vez da produ\u00e7\u00e3o. Vieram para c\u00e1 e compraram as empresas brasileiras.<\/p>\n<p><strong>Mais ou menos como hoje?<\/strong><\/p>\n<p>Sem d\u00favida. Dizem: &#8220;vamos melhorar a efici\u00eancia das empresas&#8221;. Mentira. Pergunta se o setor el\u00e9trico melhorou a efici\u00eancia ou se aumentou as tarifas brutalmente. N\u00e3o tem nada a ver com efici\u00eancia.<\/p>\n<p>Na verdade, no caso da energia el\u00e9trica, \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de um insumo universal. Todo mundo usa. Na China e nos pa\u00edses asi\u00e1ticos, os setores que produzem insumos universais s\u00e3o p\u00fablicos para ajudar o setor privado, permitir custos baixos. Aqui n\u00e3o se faz a discuss\u00e3o das interrela\u00e7\u00f5es entre privado e p\u00fablico. Isso \u00e9 que \u00e9 o capitalismo!<\/p>\n<p><strong>O Brasil ainda est\u00e1 no pr\u00e9-capitalismo, ent\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil j\u00e1 fez capitalismo em alguns momentos (risos). Tentou fazer com Get\u00falio, Juscelino, at\u00e9 com os militares, independentemente das tropelias que eles fizeram.<\/p>\n<p><strong>Como a economia de um pa\u00eds grande como o Brasil pode se sustentar com a ind\u00fastria na situa\u00e7\u00e3o atual?<\/strong><\/p>\n<p>Virou uma esp\u00e9cie de consenso entre os economistas do mercado ou pr\u00f3ximos a ele que a ind\u00fastria n\u00e3o \u00e9 importante. Voc\u00ea pode produzir banana e produzir computadores que \u00e9 a mesma coisa. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma regress\u00e3o na estrutura produtiva, \u00e9 uma regress\u00e3o mental, achar que tudo \u00e9 a mesma coisa.<\/p>\n<p>Os chineses disseram em Davos que &#8220;quem acredita que vai fazer dinheiro se houver uma crise na China est\u00e1 equivocado&#8221;. Eles est\u00e3o bastante seguros de sua posi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Eles est\u00e3o crescendo em torno de 6,5%, 7%. A taxa m\u00e9dia de crescimento deles era 10% nos anos 90 e mesmo no come\u00e7o dos 2000. Mas eles fizeram agora um Congresso do Partido Comunista. S\u00e3o muito prudentes, administram de acordo com as circunst\u00e2ncias. Est\u00e3o fazendo uma transi\u00e7\u00e3o, saindo de uma economia que era muito dependente do saldo da balan\u00e7a de transa\u00e7\u00f5es correntes. Quando voc\u00ea vende mais do que compra, essa diferen\u00e7a \u00e9 importante. Quando esse saldo \u00e9 positivo, voc\u00ea vende mais do que compra, injeta demanda na economia.<\/p>\n<p>O resultado das exporta\u00e7\u00f5es menos as importa\u00e7\u00f5es teve um papel muito importante no crescimento deles. Eles tinham uma capacidade de est\u00edmulo ao investimento muito grande, com bancos p\u00fablicos e taxas de juros muito baixas. Tinham taxas de juros muito baixas porque n\u00e3o tinham que prestar contas ao capital de curto prazo que queria especular. \u00c9 como disse um chin\u00eas: &#8220;n\u00f3s abrimos, mas botamos uma tela, para s\u00f3 entrar o que interessa, n\u00e3o entrar mosquito&#8221;.<\/p>\n<p>Eles t\u00eam projetos important\u00edssimos tanto na \u00e1rea financeira quanto na produtiva, articulando as duas coisas. As finan\u00e7as para eles s\u00e3o muito importantes, uma coisa importante do capitalismo, desde que controlada, para financiar o gasto produtivo. \u00c9 o contr\u00e1rio dos emergentes, onde o sistema financeiro \u00e9 perverso, s\u00f3 serve pra perturbar.<\/p>\n<p><strong>A chamada nova rota da seda est\u00e1 assustando os Estados Unidos, por exemplo&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Para ser claro: essa escalada da China n\u00e3o tem como ser contida. A n\u00e3o ser que se tente fazer uma coisa de enorme viol\u00eancia. O capitalismo \u00e9 um sistema autotransformador. Se voc\u00ea tiver a embocadura certa no momento em que a transforma\u00e7\u00e3o est\u00e1 ocorrendo, voc\u00ea vai se beneficiar. O que a China fez foi se encaixar de maneira adequada na globaliza\u00e7\u00e3o, proposta pela expans\u00e3o americana financeira e produtiva. Eles se beneficiaram porque perceberam a articula\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Agora eles est\u00e3o na segunda etapa. Na primeira, at\u00e9 meados de 2000, at\u00e9 a crise, eles tinham 4 trilh\u00f5es de d\u00f3lares de reservas, que acumularam com as exporta\u00e7\u00f5es l\u00edquidas e com a entrada de capitais produtivos. Hoje eles t\u00eam 3 trilh\u00f5es. Mas eles n\u00e3o jogaram reservas fora. Eles precisam tamb\u00e9m diminuir a press\u00e3o que tinham no seu mercado financeiro da entrada de dinheiro estrangeiro, que n\u00e3o era especulativo, e em segundo lugar est\u00e3o mudando a composi\u00e7\u00e3o da riqueza deles, do portf\u00f3lio. Eles sa\u00edram dos t\u00edtulos e est\u00e3o comprando empresa em tudo quanto \u00e9 lugar. Veja quantas empresas de energia eles est\u00e3o operando hoje no Brasil.<\/p>\n<p><strong>E na \u00e1rea de petr\u00f3leo&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Sim, mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no Brasil. Compraram empresas na Europa, na \u00c1frica&#8230;<\/p>\n<p><strong>No futuro vamos ser todos chineses?<\/strong><\/p>\n<p>Se deixar, vamos.<\/p>\n<p><strong>E a quest\u00e3o do Brasil nos Brics hoje?<\/strong><\/p>\n<p>Estamos no Brics, mas o Brasil n\u00e3o faz nada. Conhe\u00e7o bem o presidente da Rep\u00fablica. Ele \u00e9 um provinciano, para n\u00e3o dizer outra coisa. O m\u00ednimo que ele pode dizer \u00e9 o seguinte: que n\u00f3s regredimos 20 anos em dois (risos). Ele tem uma intelig\u00eancia bem restrita. Frequentava meu grupo pol\u00edtico no tempo da faculdade. N\u00e3o era capaz de dizer uma coisa interessante, e continua do mesmo jeito. Nunca teve protagonismo. Virou presidente da Rep\u00fablica. S\u00e3o os fen\u00f4menos brasileiros.<\/p>\n<p>Temos presen\u00e7a nos Brics, mas n\u00e3o temos projeto, n\u00e3o apresentamos nada. O Banco Central fez o favor de tirar o nosso vice-presidente l\u00e1, o Paulo Nogueira Batista, que tem capacidade de entender essas coisas, porque eles acham que t\u00eam que fazer uma aproxima\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos, que n\u00e3o \u00e9 uma economia desprez\u00edvel nem decadente, mas n\u00e3o promete dinamismo para n\u00f3s. O Trump nunca se referiu ao Brasil.<\/p>\n<p>Estamos fazendo uma aproxima\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica errada. Os chineses est\u00e3o entrando aqui e n\u00e3o estamos exigindo ou negociando nada com eles.<\/p>\n<p><strong>Como comparar os pa\u00edses ib\u00e9ricos Espanha e Portugal, que est\u00e1 fazendo pol\u00edticas mais sociais do que a Espanha e est\u00e1 dando certo?<\/strong><\/p>\n<p>Portugal fez uma trajet\u00f3ria de um compromisso de centro-direita e centro-esquerda que est\u00e1 levando ao abandono das pol\u00edticas de austeridade, que melhorou muito a situa\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos anos. J\u00e1 a Espanha sofreu uma crise imobili\u00e1ria muito grave em 2007 e 2008. Continua com uma taxa de desemprego alt\u00edssima. Est\u00e1 mais ou menos estagnada. Portugal \u00e9 um pa\u00eds peculiar, porque \u00e9 muito pequeno, tem dez milh\u00f5es de habitantes. A Espanha tinha um super\u00e1vit fiscal de 2,5% nominal e uma d\u00edvida p\u00fablica de 25% do PIB. \u00c9 nada. Em compensa\u00e7\u00e3o, uma tremenda d\u00edvida privada que vinha pelo lado imobili\u00e1rio.<\/p>\n<p>Quem financiava a Espanha eram os bancos alem\u00e3es e franceses. Para ver como s\u00e3o essas conex\u00f5es. Ent\u00e3o, a Espanha tinha super\u00e1vit fiscal, um endividamento privado brutal, maior que o dos EUA, se medir\u00a0<em>per capita<\/em>, e um d\u00e9ficit em conta corrente de 8% do PIB. Ou seja, virou uma importadora l\u00edquida. Quando deu a crise global, levou uma paulada, o d\u00e9ficit p\u00fablico subiu \u00e0s alturas, os endividados espanh\u00f3is quebraram.<\/p>\n<p><strong>Como v\u00ea a situa\u00e7\u00e3o argentina? O Brasil pode ir pelo mesmo caminho?<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil est\u00e1 mais defendido, com o colch\u00e3o (das reservas), que n\u00e3o impede que voc\u00ea tenha flutua\u00e7\u00f5es indesej\u00e1veis no c\u00e2mbio. A volatilidade do c\u00e2mbio \u00e9 t\u00e3o danosa quanto o c\u00e2mbio valorizado, que deixamos durante anos, inclusive no per\u00edodo de bonan\u00e7a que tivemos entre 2002 a 2010. O Brasil reagiu muito bem \u00e0 crise de 2009, conseguiu se colocar numa posi\u00e7\u00e3o melhor que muitos outros pa\u00edses. Mas a Argentina tem uma recorr\u00eancia de crises cambiais. Eu citaria v\u00e1rias. A crise da divida externa dos anos 70, por exemplo, quando o pa\u00eds viveu de maneira imprudente porque n\u00e3o sofreu tanto como o Brasil com o choque do petr\u00f3leo, j\u00e1 que a Argentina era produtora de petr\u00f3leo. Mas o Mart\u00ednez de Hoz, um economista bem convencional, resolveu endividar a Argentina.<\/p>\n<p><strong>Tens\u00f5es geopol\u00edticas, como no Oriente M\u00e9dio, por exemplo, poderiam desencadear uma crise econ\u00f4mica global grave?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que estamos num momento de passagem, n\u00e3o sabemos bem para onde. Eu diria que o arranjo internacional est\u00e1 moribundo, est\u00e1 sendo fundamentalmente sustentado pela exce\u00e7\u00e3o chinesa, que \u00e9 uma parte do conjunto. Ent\u00e3o, acho que esse arranjo proposto l\u00e1 atr\u00e1s, nos anos 80, que o pessoal chama de neoliberalismo, est\u00e1 moribundo, mas n\u00e3o morre. Do ponto de vista geopol\u00edtico e geoecon\u00f4mico, que s\u00e3o insepar\u00e1veis, as transforma\u00e7\u00f5es da economia global foram muito importantes e tiveram implica\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas. E o que aparece agora como geopol\u00edtico \u00e9 o protagonismo da China, mas isso nasce de um arranjo geoecon\u00f4mico.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o aparecer essa dimens\u00e3o pol\u00edtica. N\u00e3o existe a economia tal como os economistas a concebem hoje, como um conjunto de abstra\u00e7\u00f5es; a economia est\u00e1 colada ao social e ao pol\u00edtico. Essa coisa do Oriente M\u00e9dio est\u00e1 inscrita dentro disso. Na verdade os Estados Unidos produziram o Estado Isl\u00e2mico, ao dizimar o Iraque, dizimar a S\u00edria. Isso \u00e9 uma coisa de hosp\u00edcio, uma coisa absurda, voc\u00ea destruir as estruturas sem saber qual a sua hist\u00f3ria, sua natureza.<\/p>\n<p><strong>Quando se v\u00ea Michel Temer e Meirelles falarem da economia, n\u00e3o d\u00e1 impress\u00e3o de que eles est\u00e3o fora da realidade?<\/strong><\/p>\n<p>Mas isso \u00e9 t\u00edpico do Temer e do Meirelles. Eles n\u00e3o t\u00eam no\u00e7\u00e3o de nada, n\u00e3o t\u00eam no\u00e7\u00e3o do que est\u00e3o falando. Isso acontece na hist\u00f3ria da humanidade. Voc\u00ea est\u00e1 na m\u00e3o de dois sujeitos que est\u00e3o no planeta Netuno, n\u00e3o t\u00eam nada a ver com a realidade do seu pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Mas n\u00e3o existem for\u00e7as por tr\u00e1s deles?<\/strong><\/p>\n<p>Claro, \u00e9 evidente que existem. Falo disso num livro que escrevi com o Gabriel Gal\u00edpolo, que chama\u00a0<em>Manda quem Pode, Obedece quem tem Preju\u00edzo<\/em>. \u00c9 a estrutura de poder concentrada exatamente nos mercados financeiros. Temer e Meirelles s\u00e3o a express\u00e3o f\u00edsica disso, que eles refletem sem saber. Veja o que a imprensa diz o tempo inteiro dos atuais candidatos \u00e0 presid\u00eancia. &#8220;Fulano de tal ser\u00e1 bem recebido pelos mercados?&#8221; Onde est\u00e1 o poder real?<\/p>\n<p>As pessoas n\u00e3o percebem, mas s\u00e3o vitimadas por um sistema que concentra o poder e entrega a esses cidad\u00e3os que estou mencionando, que s\u00e3o provincianos, t\u00eam uma vis\u00e3o tola de como as coisas funcionam. Se tivessem uma vis\u00e3o mais clara, mais profunda, eles n\u00e3o proporiam essas coisas que prop\u00f5em. Outro dia o Meirelles disse que a economia voltou a se expandir. Em que mundo ele est\u00e1? N\u00e3o sei.<\/p>\n<p><strong>Fonte:\u00a0http:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/economia\/2018\/05\/belluzzo-neoliberalismo-esta-moribundo-mas-nao-sabemos-para-onde-vamos<\/strong><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autoria:\u00a0Eduardo Maretti Enquanto a China exerce papel cada vez mais relevante na economia global, Brasil n\u00e3o consegue nem mesmo negociar com o gigante oriental. &#8220;Temer e Meirelles n\u00e3o t\u00eam no\u00e7\u00e3o do que est\u00e3o falando&#8221; &#8220;Fernando Henrique Cardoso destruiu parte importante da ind\u00fastria brasileira, sobretudo as cadeias produtivas&#8221; No jogo econ\u00f4mico e geopol\u00edtico global de hoje, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5696,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[5,2],"tags":[49],"class_list":["post-8118","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia","category-politica","tag-conjuntura"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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