{"id":8095,"date":"2018-05-17T16:27:19","date_gmt":"2018-05-17T19:27:19","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=8095"},"modified":"2018-05-17T14:30:54","modified_gmt":"2018-05-17T17:30:54","slug":"o-lado-obscuro-do-milagre-economico-da-ditadura-o-boom-da-desigualdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/05\/17\/o-lado-obscuro-do-milagre-economico-da-ditadura-o-boom-da-desigualdade\/","title":{"rendered":"O lado obscuro do \u2018milagre econ\u00f4mico\u2019 da ditadura: o boom da desigualdade"},"content":{"rendered":"<p><strong>Autoria:\u00a0BEATRIZ SANZ e\u00a0HELO\u00cdSA MENDON\u00c7A<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo com o forte crescimento e cria\u00e7\u00e3o de empregos no per\u00edodo militar, os sal\u00e1rios foram achatados e a dist\u00e2ncia entre ricos e pobres cresceu.<\/p>\n<p>O Brasil polarizado tem reproduzido uma frase que estava na boca de alguns saudosistas de tempos em que not\u00edcias sobre viol\u00eancia e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/c\/071a4b6187f91ee5b5ba2e60718c4b42\">economia em marcha<\/a>\u00a0lenta pareciam raras. \u201cNa \u00e9poca dos militares era melhor\u201d, tornou-se bord\u00e3o de quem viveu aqueles anos, e ignora a repress\u00e3o e a presen\u00e7a de censores nos jornais da \u00e9poca para filtrar not\u00edcias negativas \u00e0 ditadura.\u00a0 A ideia ressurgiu inclusive entre jovens que se anunciam eleitores do pr\u00e9-candidato \u00e0 presid\u00eancia\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/jair_messias_bolsonaro\/a\">Jair Bolsonaro<\/a>, por acreditar que no tempo do r<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/dictadura_brasilena\/a\">egime militar<\/a>\u00a0o Brasil era mais alentador do que os dias atuais. Bolsonaro alimenta essa ideia tecendo elogios ao per\u00edodo. Entre os argumentos mais utilizados pelo candidato e pelos defensores da interven\u00e7\u00e3o para mostrar a efic\u00e1cia do regime est\u00e1 a conquista do &#8220;milagre econ\u00f4mico&#8221;, que ocorreu no Brasil entre 1968 e 1973. De fato, nesta \u00e9poca, o pa\u00eds conseguiu crescer exponencialmente, cerca de 10% ao ano, e atingiu, em 1973, uma marca recorde do Produto Interno Bruto (PIB), que aumentou 14%. O avan\u00e7o veio acompanhado tamb\u00e9m de uma forte queda de infla\u00e7\u00e3o. A taxa, medida na \u00e9poca pelo \u00cdndice Geral de Pre\u00e7o (IGP), caiu de 25,5% para 15,6% no per\u00edodo.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o se explica diante desse n\u00famero, entretanto, \u00e9 o fato de o crescimento ter sido muito bom para empres\u00e1rios, e ruim para os trabalhadores. Para que o plano de crescimento funcionasse, os militares resolveram conter os sal\u00e1rios, mudando a f\u00f3rmula que previa o reajuste da remunera\u00e7\u00e3o pela infla\u00e7\u00e3o, o que levou a perdas reais para os trabalhadores. A ado\u00e7\u00e3o de uma medida t\u00e3o impopular s\u00f3 foi poss\u00edvel atrav\u00e9s do aparato repressivo do regime sobre os sindicatos, que diminui o poder dos movimentos e de negocia\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios. Os militares tamb\u00e9m interferiram em diversos sindicatos, muitas vezes substituindo seus dirigentes. \u201cFoi um crescimento \u00e0s custas dos trabalhadores\u201d, explica Vinicius M\u00fcller, professor de hist\u00f3ria econ\u00f4mica do Insper. O arrocho salarial acabou aliviando os custos dos empres\u00e1rios e permitiu reduzir a infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A melhora na atividade econ\u00f4mica se explicava, \u00e0 \u00e9poca, por uma combina\u00e7\u00e3o de fatores. Uma conjuntura mundial mais favor\u00e1vel naqueles anos permitiu cr\u00e9dito externo farto e barato, por exemplo. O Brasil, por sua vez, criou regras que facilitaram a entrada de capital estrangeiro e investiu num programa de desenvolvimento do parque industrial al\u00e9m de reformas estruturais. O crescimento foi acompanhado pela abertura de novos postos de emprego no mercado formal e da expans\u00e3o do consumo interno. Economistas ouvidos pelo EL PA\u00cdS explicam que o milagre aconteceu principalmente regado a dinheiro internacional que aterrissou atrav\u00e9s da entrada de multinacionais que encontraram no Brasil um terreno prop\u00edcio para a expans\u00e3o sob a tutela dos militares, e tamb\u00e9m por empr\u00e9stimos advindos de fundos internacionais. Era um ambiente oposto ao do per\u00edodo anterior ao golpe de 1964, quando a grande convuls\u00e3o pol\u00edtica, em plena guerra fria, no pa\u00eds tornava o ambiente econ\u00f4mico incerto e afugentava o investidor.<\/p>\n<p><strong>Problemas sociais<\/strong><\/p>\n<p>Como a distribui\u00e7\u00e3o dos resultados do crescimento econ\u00f4mico foi bastante desigual, a concentra\u00e7\u00e3o de renda tamb\u00e9m aumentou muito no per\u00edodo, especialmente entre a popula\u00e7\u00e3o que possu\u00eda um grau maior de instru\u00e7\u00e3o. Isso fez com que a desigualdade social conhecesse n\u00edveis nunca vistos antes. Em 1960, antes da ditadura, o \u00edndice de Gini, utilizado para medir a concentra\u00e7\u00e3o de renda estava em 0,54 (o coeficiente de Gini vai de 0 a 1, quanto mais perto de 1, mais desigual) e pulou para 0,63 em 1977. Os economistas foram un\u00e2nimes em dizer que os empres\u00e1rios e a classe m\u00e9dia que possu\u00eda maior n\u00edvel de instru\u00e7\u00e3o foram beneficiados em detrimento da parte mais pobre da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os altos \u00edndices de crescimento do PIB vividos enquanto a ditadura esteve instalada no pa\u00eds tamb\u00e9m n\u00e3o foram acompanhados de uma melhora nos indicadores sociais. Foi exatamente o oposto do que aconteceu.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, como o governo militar fez uma escolha de investir maci\u00e7amente na industrializa\u00e7\u00e3o, inclusive do campo, muitas pessoas decidiram abandonar o sert\u00e3o com o sonho de tentar uma vida melhor na cidade, incentivando um\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/07\/23\/album\/1500833290_860968.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00eaxodo rural sem planejamento<\/a>\u00a0e nunca revertido. Segundo o IBGE apenas 16% da popula\u00e7\u00e3o morava no interior do pa\u00eds em 2010.<\/p>\n<p>O crescimento econ\u00f4mico durante a ditadura come\u00e7ou a ser alavancado durante o Governo de Castelo Branco, que adotou um ambicioso programa de reformas para equilibrar as contas p\u00fablicas, controlar a infla\u00e7\u00e3o e desenvolver o mercado de cr\u00e9ditos. Batizado de Plano de A\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica do Governo (PAEG), ele foi respons\u00e1vel por reformas fiscais, tribut\u00e1rias e financeiras. Castello Branco implementou diversas medidas no sentido de incentivar um maior grau de abertura da economia brasileira ao com\u00e9rcio e ao movimento de capitais com o exterior. A partir de 1964, tamb\u00e9m foram introduzidos na legisla\u00e7\u00e3o brasileira diversos mecanismos de incentivos \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas foi no Governo do general Em\u00edlio Garrastazu de M\u00e9dici, sob o comando do ent\u00e3o ministro da Fazenda, Antonio Delfim Netto, que o projeto econ\u00f4mico teve como princ\u00edpio o crescimento r\u00e1pido, com expressivo aumento da produ\u00e7\u00e3o \u2013 com destaque para ind\u00fastria automobil\u00edstica- e grandes obras de infraestrutura. \u201cO Governo apostou em grandes obras e investimento estimulando o setor privado e usando o crescimento como propaganda para legitimar o regime durante a \u00e9poca mais repressiva da ditadura. Era muito importante que ele tivesse apoio de uma parte da sociedade\u201d, explica Muller.<\/p>\n<p>Foi nessa \u00e9poca que nasceu o primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento (IPND). O plano investiu principalmente na constru\u00e7\u00e3o de estradas e obras de infraestrutura, como por exemplo, a Ponte Rio-Niter\u00f3i (come\u00e7ou em 1969 e foi inaugurada em 1974) e a nunca terminada rodovia Transamaz\u00f4nica.<\/p>\n<p><strong>Crise do petr\u00f3leo<\/strong><\/p>\n<p>Na crista do ciclo do crescimento, a economia brasileira t\u00e3o dependente de empr\u00e9stimos estrangeiros, passou a enfrentar certa dificuldade quando uma forte crise econ\u00f4mica abalou o cen\u00e1rio internacional: o choque do petr\u00f3leo. Conflitos entre pa\u00edses membros da Organiza\u00e7\u00e3o dos Pa\u00edses Exportadores de Petr\u00f3leo (Opep) derrubaram a oferta do insumo entre 1973 e 1974, fazendo os pre\u00e7os quase quadruplicarem no per\u00edodo (o barril subiu de tr\u00eas d\u00f3lares para11,60), afetando pa\u00edses importadores como o Brasil.<\/p>\n<p>\u201cCom a crise internacional de 1973, temos uma quebra deste modelo econ\u00f4mico baseado no alto endividamento externo e, com isso, a economia vai perdendo for\u00e7a\u201d, afirma o historiador Pedro Henrique Pedreira Campos, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Como a estabilidade econ\u00f4mica era um argumento essencial para a manuten\u00e7\u00e3o do governo militar, os economistas que faziam parte do regime optaram por n\u00e3o abrir m\u00e3o do modelo e decidiram que o pa\u00eds deveria continuar crescendo a qualquer custo, mesmo que continuasse se endividando cada vez mais.<\/p>\n<p>Foi nesse contexto que surgiu o segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (IIPND), este ainda mais ousado que o primeiro, que investiu especialmente na cria\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o de empresas estatais. A\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/petrobras\/a\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Petrobras<\/a>\u00a0ganhou subsidi\u00e1rias, a usina hidrel\u00e9trica de Itaipu foi constru\u00edda, mostrando o quanto a gera\u00e7\u00e3o de energia era uma bandeira importante naquele momento em que o Brasil ainda n\u00e3o tinha uma matriz energ\u00e9tica estabelecida e necessitava da importa\u00e7\u00e3o desse bem.<\/p>\n<p>Muller destaca que \u201cos militares tinham planejamento a longo prazo\u201d e que a ideia inicial era de que o pa\u00eds ficasse independente da importa\u00e7\u00e3o de energia e come\u00e7asse a gerar renda com a sua produ\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, essa renda seria utilizada para saldar a d\u00edvida externa. O plano deles, entretanto, n\u00e3o contava com a retra\u00e7\u00e3o das maiores economias que, em determinado momento, chegaram para cobrar a fatura. A crise se prolongou mais do que o Governo imaginava.<\/p>\n<p>Mas a conta do crescimento desenfreado baseado em um alto grau de endividamento ficou para a redemocratiza\u00e7\u00e3o. Ao deixarem o poder em 1984, a d\u00edvida representava 54% do PIB segundo o Banco Central, quase quatro vezes maior do que na \u00e9poca que eles tomaram o poder em 1964, quando o valor da d\u00edvida era de 15,7% do PIB. A infla\u00e7\u00e3o, por sua vez, chegou a 223%, em 1985. Quatro anos depois, o pa\u00eds ainda n\u00e3o tinha conseguido se recuperar e ostentava um \u00edndice de infla\u00e7\u00e3o de 1782%. No jarg\u00e3o econ\u00f4mico, costuma-se dizer que os militares deixaram uma \u201cheran\u00e7a maldita\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEmbora o regime tenha aparelhado muito bem grande parte do nosso parque industrial, melhorado em aspectos t\u00e9cnicos e tecnol\u00f3gicos a infraestrutura, quando veio a conta, a conta veio muito alta\u201d, explica Guilherme Grandi, professor da Faculdade de Economia e Administra\u00e7\u00e3o da USP (FEA\/USP)\u201d<\/p>\n<p><strong>Os militares e a corrup\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Outra percep\u00e7\u00e3o recorrente \u00e9 a de que no per\u00edodo da ditadura n\u00e3o havia corrup\u00e7\u00e3o. \u201cV\u00e1rios estudos j\u00e1 comprovaram que existia corrup\u00e7\u00e3o e era mais f\u00e1cil que esses malfeitos ocorressem porque n\u00e3o havia investiga\u00e7\u00e3o\u201d, ressalta Grandi. Segundo ele, a rela\u00e7\u00e3o prom\u00edscua entre interesses privados e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos foi aprimorada nesse per\u00edodo.<\/p>\n<p>Pedreira Campos \u00e9 autor do livro\u00a0<em>Estranhas Catedrais: as empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, 1964-1988<\/em>\u00a0que analisa mais profundamente essa rela\u00e7\u00e3o. \u201cHouve v\u00e1rios casos de corrup\u00e7\u00e3o na ditadura, principalmente no per\u00edodo da abertura envolvendo agentes do estado que foram acusados de se apropriar de recursos p\u00fablicos\u201d.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de not\u00edcias sobre corrup\u00e7\u00e3o no per\u00edodo tem tamb\u00e9m outra explica\u00e7\u00e3o. O Brasil viveu sob um regime de censura que foi estabelecida nos meios de comunica\u00e7\u00e3o que estavam orientados a publicar not\u00edcias que fossem favor\u00e1veis ao governo. E \u00e9 por conta dessa propens\u00e3o a maquiar a realidade que not\u00edcias denunciando esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o estampavam a manchete dos jornais. \u201cUm cen\u00e1rio como esse \u00e9 ideal para a pr\u00e1tica da corrup\u00e7\u00e3o, os ind\u00edcios indicam que havia mais corrup\u00e7\u00e3o naquele per\u00edodo\u201d, completa Pedreira Campos.<\/p>\n<p><strong>Fonte:\u00a0https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/09\/29\/economia\/1506721812_344807.html<\/strong><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autoria:\u00a0BEATRIZ SANZ e\u00a0HELO\u00cdSA MENDON\u00c7A Mesmo com o forte crescimento e cria\u00e7\u00e3o de empregos no per\u00edodo militar, os sal\u00e1rios foram achatados e a dist\u00e2ncia entre ricos e pobres cresceu. 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