{"id":8079,"date":"2018-05-15T11:20:40","date_gmt":"2018-05-15T14:20:40","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=8079"},"modified":"2018-05-15T11:13:47","modified_gmt":"2018-05-15T14:13:47","slug":"o-mundo-de-hoje-e-fruto-do-amor-e-do-odio-a-marx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/05\/15\/o-mundo-de-hoje-e-fruto-do-amor-e-do-odio-a-marx\/","title":{"rendered":"O mundo de hoje \u00e9 fruto do amor e do \u00f3dio a Marx"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fernando Horta<\/strong> &#8211;\u00a0\u00c9 exatamente por ter dado certo que Marx permanece assustando a todos os exploradores e rompendo as amarras de todos os explorados que aceitam o desafio de ler e pensar para al\u00e9m do idealismo.<\/p>\n<p>Karl Marx nasceu no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, mais precisamente em 1818. E n\u00e3o \u00e9 injusto dizer que ele criou o mundo que conhecemos. Sem Marx o s\u00e9culo XX n\u00e3o existiria da forma como o conhecemos, e mesmo o capitalismo, que no s\u00e9culo XIX iniciaria sua expans\u00e3o como sistema mundial, n\u00e3o teria sido nem parecido com o que temos hoje. As ideias de Marx influenciaram desde a economia, hist\u00f3ria e ci\u00eancia pol\u00edtica, at\u00e9 a psican\u00e1lise ou a psicologia. Existem poucos nomes na hist\u00f3ria da humanidade que tenham sido t\u00e3o debatidos, criticados, exaltados ou cujas ideias tenham tido tanta absor\u00e7\u00e3o e import\u00e2ncia. O s\u00e9culo XX \u00e9 fruto do amor e do \u00f3dio \u00e0 Marx como, talvez, somente o s\u00e9culo V d.C. tenha alguma semelhan\u00e7a, em virtude da import\u00e2ncia das ideias de um outro revolucion\u00e1rio, este nascido na Galileia.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso que se diga, contudo, que Marx n\u00e3o chancelaria a afirma\u00e7\u00e3o inicial deste texto. A ess\u00eancia das explica\u00e7\u00f5es marxistas no campo da hist\u00f3ria \u00e9 que todo homem \u00e9 fruto das condi\u00e7\u00f5es materiais em que ele \u00e9 criado. Marx e seu materialismo hist\u00f3rico, lembrar-nos-ia que ele, Marx, \u00e9 fruto do acirramento das contradi\u00e7\u00f5es e disputas dentro do desenvolvimento capitalista e, provavelmente, caso o sujeito Karl Marx n\u00e3o tivesse existido, outro tomaria o seu lugar em demonstrar e criticar os mecanismos capitalistas. Esta linha estrutural que rege os acontecimentos humanos e que \u2013 de alguma forma \u2013 n\u00e3o se sujeita aos homens \u00e9 caracter\u00edstica de todos os pensadores do s\u00e9culo XIX. N\u00e3o apenas o estruturalismo marxista, mas tamb\u00e9m o evolucionismo, a que Marx agradece a Charles Darwin j\u00e1 na primeira edi\u00e7\u00e3o d\u2019<em>O Capital<\/em>, s\u00e3o, paradoxalmente, os pontos mais utilizados e mais criticados de pensamento marxista.<\/p>\n<p>N\u00e3o poderia ser diferente, mas Marx partilha da no\u00e7\u00e3o de superioridade do discurso cient\u00edfico para compreender a realidade. A diferen\u00e7a do pensamento de Marx, j\u00e1 no s\u00e9culo XIX, \u00e9 afirmar que a filosofia (e a ci\u00eancia em geral) n\u00e3o podem se contentar apenas em explicar o mundo, mas devem tamb\u00e9m mud\u00e1-lo. E, enquanto quase todas as ci\u00eancias foram se aninhando dentro das universidades e do discurso de \u201cneutralidade\u201d e \u201cobjetividade\u201d, Marx, de 1818 at\u00e9 1883, ano de sua morte, caminhou para dentro da sociedade e deixava clara a sua posi\u00e7\u00e3o em defesa da transforma\u00e7\u00e3o radical do mundo. Em defesa, pois, da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/fb_marxflickr.jpg?w=640\" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>Marx \u201cdeu certo\u201d. E \u00e9 exatamente por ter dado certo que ele permanece assustando a todos os exploradores e rompendo as amarras de todos os explorados<\/em><\/p>\n<section class=\"noticias-relevantes cf\">\n<h4 class=\"subtitle\"><\/h4>\n<\/section>\n<p>Ao contr\u00e1rio, entretanto, do que a maioria das pessoas pensam, Marx era um cr\u00edtico voraz da viol\u00eancia. Em seus estudos sobre a Fran\u00e7a do s\u00e9culo XIX, em diversas passagens ele condena as \u201cbarricadas\u201d e o \u201cenfrentamento de rua\u201d sem que existam \u201cmeios materiais\u201d que permitam a vit\u00f3ria. Karl Marx se impressionou com o n\u00edvel de viol\u00eancia que o capital estava disposto a perpetrar para evitar qualquer mudan\u00e7a, e o resultado sangrento da chamada \u201cPrimavera dos Povos\u201d (1848), na Europa, convenceu-lhe ainda mais sobre o acerto de sua postura contra a viol\u00eancia. Em suas discuss\u00f5es com Bakunin, no centro da primeira Internacional Comunista, fica evidente que Marx apenas aceitava a viol\u00eancia como parte da mudan\u00e7a e justa e precisamente na quantidade necess\u00e1ria para que a revolu\u00e7\u00e3o acontecesse. N\u00e3o mais.<\/p>\n<p><strong>Te\u00f3rico e pr\u00e1tico<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o deve existir diferen\u00e7a, segundo Marx, entre teoria e pr\u00e1tica, assim como a for\u00e7a da filosofia marxista surge quando ela arremete contra Hegel afirmando que nenhuma ideia pode existir sem que tenha efeitos materiais na exist\u00eancia humana. E nenhuma ideia existe para al\u00e9m de seus efeitos concretos. Assim, se a obra escrita mais conhecida de Marx (<em>O Capital<\/em>) tem apenas o seu primeiro volume publicado por Marx em vida, em 1867, a sua pr\u00e1tica pol\u00edtica leva \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores, conhecida como \u201cPrimeira Internacional,\u201d j\u00e1 em 1862. A primeira organiza\u00e7\u00e3o internacional de trabalhadores que encarna a luta pol\u00edtica do proletariado \u00e9 t\u00e3o importante quanto a teoria de Marx e seu parceiro Engels.<\/p>\n<p>Teoria e pr\u00e1tica iam formando uma dan\u00e7a dial\u00e9tica na hist\u00f3ria do pensamento marxista. A dial\u00e9tica que oferecia tr\u00eas princ\u00edpios b\u00e1sicos para compreens\u00e3o da a\u00e7\u00e3o humana: (1) a soma das partes nunca \u00e9 igual ao todo, que tamb\u00e9m \u00e9 conhecida pela lei da transforma\u00e7\u00e3o da quantidade em qualidade; (2) a ideia de que todo ente ou a\u00e7\u00e3o traz consigo vetores e caracter\u00edsticas da sua pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o e (3) a chamada \u201cnega\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o\u201d que afirma que humanidade incorpora as contradi\u00e7\u00f5es em uma eterna mudan\u00e7a positiva, imposs\u00edvel de ser contida.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica pol\u00edtica gera perguntas (reflex\u00e3o te\u00f3rica) que v\u00e3o se acumulando e transformando a realidade de forma qualitativa, esta transforma\u00e7\u00e3o (s\u00edntese) enseja ainda mais contradi\u00e7\u00f5es dentro da realidade, que voltam a se acumular e a serem sintetizadas em uma nova realidade, que novamente acumula contradi\u00e7\u00f5es&#8230; Marx acreditava, quando jovem, que este movimento era evolutivo. Que havia uma acumula\u00e7\u00e3o gradativa das contradi\u00e7\u00f5es para ent\u00e3o a s\u00edntese, em moto cont\u00ednuo. Mais ao final de sua vida, Marx admitiria que a dial\u00e9tica pode trabalhar aos \u201csaltos\u201d e n\u00e3o por acumula\u00e7\u00e3o gradativa.<\/p>\n<p>A dial\u00e9tica marxista, diferentemente da hegeliana, assumia que todas as suas etapas aconteciam dentro do substrato material de exist\u00eancia humana. A dualidade hegeliana entre a materialidade e seu par ideal \u00e9 radicalmente transformada por Marx e Engels quando eles afirmam que (no primeiro cap\u00edtulo de \u201cA ideologia alem\u00e3\u201d) a filosofia da \u00e9poca testemunhava o apodrecimento da no\u00e7\u00e3o de \u201cesp\u00edrito\u201d. O termo \u201cmaterial\u201d para Marx representava tudo o que tinha origem, funcionamento e exist\u00eancia na realidade emp\u00edrica dos seres.<\/p>\n<p>Assim, a ideia de \u201cliberdade\u201d n\u00e3o existe como tal e somente pode ser compreendida a partir da real liberdade que gozam os sujeitos dentro de determinado tempo e sociedade. A moral, os sentidos de valores, planos ideais ou religiosos (que eram todos agrupados na no\u00e7\u00e3o de \u201cesp\u00edrito\u201d, da filosofia anterior ao s\u00e9culo XIX) s\u00e3o arrastadas por Marx, sem nenhum remorso ou piedade, para a dentro da realidade humana. Todo o resto seria chamado pelo alem\u00e3o de \u201cfilosofia do charlatanismo\u201d. Aquelas ideias que existem como mera representa\u00e7\u00e3o da vontade imaterializada e sem efeito no concreto.<\/p>\n<blockquote><p><em>Desde que os jovens [fil\u00f3sofos disc\u00edpulos] de Hegel consideram conceitos, pensamentos e ideias como produtos da consci\u00eancia, consci\u00eancia esta a que eles atribuem uma exist\u00eancia independente [do homem] e que \u00e9 sua verdadeira natureza, \u00e9 evidente que estes disc\u00edpulos precisam lutar [lidar, questionar e entender] apenas com estas ilus\u00f5es. Contudo, desde que, de acordo com esta fantasia, a rela\u00e7\u00e3o entre os homens, seus feitos, suas correntes, suas limita\u00e7\u00f5es s\u00e3o produtos APENAS de sua consci\u00eancia eles colocam a humanidade dentro de uma pris\u00e3o moral em que para a mudan\u00e7a real acontecer seria necess\u00e1ria apenas uma mudan\u00e7a na consci\u00eancia presente dos homens que acabasse com suas limita\u00e7\u00f5es. (&#8230;) Eles [os novos fil\u00f3sofos hegelianos] esquecem, contudo, que est\u00e3o apenas trocando argumentos e de maneira nenhuma est\u00e3o combatendo [dialogando, criticando, pensando] o mundo real (Cap\u00edtulo I de A Ideologia Alem\u00e3, 1845).<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Para Marx, n\u00e3o existe uma \u201cfome\u201d descarnada, como uma ideia externa, mas a fome que o ser humano sente materialmente, advinda das suas necessidades b\u00e1sicas. \u00c9 na condi\u00e7\u00e3o real do sujeito que est\u00e3o as \u201ccoisas\u201d do mundo. A mesma ideia se aplica para todo e qualquer conceito que s\u00f3 se faz existir dentro das \u201ccondi\u00e7\u00f5es materiais de vida\u201d dos seres humanos. \u00c9 ali, no meio dos sujeitos, que o mundo precisa ser compreendido. E compreendido para ser modificado.<\/p>\n<p>De posse desta chave (o materialismo hist\u00f3rico) e do m\u00e9todo dial\u00e9tico, Marx se coloca a compreender os fen\u00f4menos do mundo. Entre 1844 e 1867, ano da publica\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>Capital<\/em>, ele vai escrever sobre filosofia e pol\u00edtica (<em>Manuscritos Econ\u00f4micos e filos\u00f3ficos<\/em>,\u00a0<em>A pobreza da Filosofia<\/em>), vai se propor a fazer an\u00e1lises hist\u00f3ricas nacionais e internacionais (<em>A luta de classes na Fran\u00e7a 1848-1850<\/em>,\u00a0<em>O dezoito Brum\u00e1rio de Napole\u00e3o Bonaparte<\/em>,\u00a0<em>A diplomacia secreta do s\u00e9culo XVIII<\/em>), vai se debru\u00e7ar sobre a economia pol\u00edtica e os atritos e antagonismos no mundo (<em>Uma contribui\u00e7\u00e3o para a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica<\/em>,<em>Grundrisse<\/em>) e vai desenvolver sua cr\u00edtica \u00e0s teorias econ\u00f4micas da \u00e9poca (<em>Valor, pre\u00e7o e lucro<\/em>) at\u00e9 chegar n\u2019<em>O Capital<\/em>. Este caminho \u00e9 essencial para se compreender o pensamento de Marx porque ele explica tanto a no\u00e7\u00e3o de que a economia (a forma como o homem organiza-se para retirar da natureza o seu sustento) acaba sendo a base sobre a qual Marx argumenta, quanto tamb\u00e9m explica porque em Marx a no\u00e7\u00e3o do conflito (luta de classes) \u00e9 essencialmente positiva. Ao afirmar que a hist\u00f3ria da humanidade \u00e9 a hist\u00f3ria do conflito de classes, Marx n\u00e3o estava \u2013 como fazem alguns que desconhecem a sua obra \u2013 emprestando \u00e0 no\u00e7\u00e3o de \u201cconflito\u201d um car\u00e1ter negativo. Dentro da dial\u00e9tica marxista o conflito gerado pelas contradi\u00e7\u00f5es \u00e9 necess\u00e1rio para o moto-cont\u00ednuo que alcan\u00e7a a s\u00edntese das realidades hist\u00f3ricas e \u00e9 a chave da mudan\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>A quest\u00e3o da propriedade privada<\/strong><\/p>\n<p><em>O Capital<\/em>\u00a0\u00e9 fruto, pois, de um longo caminho que come\u00e7a pela cr\u00edtica ao idealismo de Hegel, passa pelos estudos reais dos conflitos europeus da \u00e9poca e chega \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o da causa essencial destes conflitos: a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o. Outro erro comum aos opositores pol\u00edticos de Marx, especialmente os jovens sem tempo ou interesse por leituras, \u00e9 afirmar que Marx era contra a propriedade privada. S\u00f3 h\u00e1 sentido na cr\u00edtica de Marx para a propriedade DOS MEIOS DE PRODU\u00c7\u00c3O. Marx nunca prop\u00f4s dividir as panelas, a cama ou o iPhone como forma de resolver o conflito do mundo. O sentido da argumenta\u00e7\u00e3o em\u00a0<em>O Capital<\/em>\u00a0\u00e9 diferenciar os objetos pela sua inser\u00e7\u00e3o no processo produtivo. Se algu\u00e9m usa uma panela para cozinhar para si e para os seus, esta n\u00e3o \u00e9 uma \u201cpropriedade privada\u201d contra a qual Marx vai se insurgir. Agora, se algu\u00e9m usa uma s\u00e9rie de panelas para aproveitar-se do trabalho de uma s\u00e9rie de cozinheiros e acumular riqueza, o sentido mudo: o mesmo objeto \u2013 a panela \u2013 tem fun\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas distintas nos dois casos. E o segundo uso que questiona Marx, a panela que se torna um \u201cmeio de produ\u00e7\u00e3o\u201d e tem sua EXPLORA\u00c7\u00c3O privada.<\/p>\n<p>Na transi\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica da an\u00e1lise do mundo real, Marx vai dizer que a base econ\u00f4mica de uma sociedade cria toda uma s\u00e9rie de ideias, teorias, pensamentos, costumes, pr\u00e1ticas individuais ou coletivas que t\u00eam n\u00e3o apenas uma liga\u00e7\u00e3o direta (de forma gen\u00e9tica) com as formas econ\u00f4micas de produ\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m JUSTIFICAM e REPRODUZEM o processo de acumula\u00e7\u00e3o de riqueza. Assim, a \u201cideologia\u201d seria um grupo de no\u00e7\u00f5es cujo sentido emanaria das formas de produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4micas e serviria para proteger estas formas e replic\u00e1-las, de tal forma que os homens n\u00e3o seriam capazes de compreender a realidade material sen\u00e3o pelos c\u00f3digos, licen\u00e7as e limites da ideologia. Em Marx, n\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico homem ou mulher e qualquer a\u00e7\u00e3o destes que n\u00e3o seja ideol\u00f3gica. Contudo, \u00e9 apenas ao descobrir este mecanismo que os sujeitos seriam capazes de opor a ele um PENSAMENTO CR\u00cdTICO, de questionamento da sua realidade. A este momento, Marx chamou de \u201cconsci\u00eancia\u201d que, quando atingir o n\u00edvel do entendimento do seu espa\u00e7o no processo produtivo, seria chamada de \u201cconsci\u00eancia de classe\u201d. A filosofia de Marx \u00e9, portanto, uma filosofia de emancipa\u00e7\u00e3o. De compreens\u00e3o do mundo pelos olhos cr\u00edticos do sujeito que se percebe inserido dentro de sua realidade, como parte do processo produtivo.<\/p>\n<p>Este caminho de den\u00fancia vai atingir a todos os pensamentos e teorias (chamadas por Marx de superestruturas) que aprisionam o ser dentro de uma nuvem de sentidos que lhe causam confus\u00e3o. Estado, religi\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o, o direito, a pr\u00f3pria filosofia n\u00e3o cr\u00edtica, os escritos econ\u00f4micos n\u00e3omaterialistas, os valores mesquinhos de posse, amor-posse, individualismo s\u00e3o denunciados como formas de mascarar a realidade. Ningu\u00e9m fica rico \u201cpor Deus quer\u201d, mas por um processo longo de explora\u00e7\u00e3o do trabalho de uma s\u00e9rie de pessoas. N\u00e3o existe no\u00e7\u00e3o de \u201clei\u201d ou \u201cjusti\u00e7a\u201d que n\u00e3o seja constru\u00edda socialmente e que n\u00e3o sirva ao controle que uma minoria faz sobre a grande massa das pessoas. N\u00e3o h\u00e1 educa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja uma educa\u00e7\u00e3o para reprodu\u00e7\u00e3o de certas no\u00e7\u00f5es e sentidos que servem \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da realidade como est\u00e1, e de suas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas de explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Nem tudo \u00e9 novo<\/strong><\/p>\n<p>Algumas destas ideias n\u00e3o s\u00e3o novas. A den\u00fancia do papel de controle da educa\u00e7\u00e3o e do Estado pode ser vista em Rousseau. A explica\u00e7\u00e3o do Estado como reprodutor e garantidor do modo econ\u00f4mico \u00e9 uma premissa de Adam Smith. A cr\u00edtica da desigualdade econ\u00f4mica humana como geradora de conflitos e viol\u00eancia aparece em diversos pensadores do s\u00e9culo XVIII como Hobbes e o pr\u00f3prio Rousseau. Marx operacionaliza todas essas no\u00e7\u00f5es numa s\u00e9rie de conceitos encadeados que formam uma teoria simples e elegante. Simples porque as mesmas categorias podem ser usadas para analisar diversos fen\u00f4menos, sem a necessidade de novos argumentos ou condicionantes, e elegante porque n\u00e3o recorre a rebuscadas formas de pensamento, geralmente obscuras demais para o entendimento da popula\u00e7\u00e3o em geral.<\/p>\n<p>O pensamento de Marx vai ser apropriado por quase todas as \u00e1reas do conhecimento humano, exatamente porque ele tem um m\u00e9todo e uma epistemologia, al\u00e9m de teorias gerais e espec\u00edficas. Conceitos como \u201cmais-valia\u201d, \u201caliena\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cexplora\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cideologia\u201d, \u201cconsci\u00eancia de classe\u201d, \u201cclasse\u201d, \u201cluta de classes\u201d se tornaram parte do l\u00e9xico cient\u00edfico e pol\u00edtico do s\u00e9culo XIX, XX e XXI. E, ainda que existam cr\u00edticas muito bem formuladas a determinados pontos do pensamento marxista, ele \u00e9 simplesmente muito grande para ser \u201crefutado\u201d. Toda uma escola de pensadores, com Horkheimer, Habermas, Adorno, Marcuse e etc. \u2013 chamada de \u201cEscola de Frankfurt\u201d \u2013, se dizia \u201cp\u00f3s-marxista\u201d. No entanto, todos reafirmavam que n\u00e3o haviam \u201cderrubado\u201d as teorias de Marx, mas apenas seguido para objetos e rela\u00e7\u00f5es que o fil\u00f3sofo alem\u00e3o do s\u00e9culo XIX n\u00e3o poderia ter pensado e analisado. Portanto, mesmo os p\u00f3s-marxistas n\u00e3o s\u00e3o \u201cantimarxistas\u201d, mas, nas palavras de Habermas, \u201cavan\u00e7am as no\u00e7\u00f5es centrais de Marx para objetos, tempos e rela\u00e7\u00f5es que materialmente n\u00e3o lhe estariam dispon\u00edveis\u201d. Emancipa\u00e7\u00e3o, cr\u00edtica (como oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o simples da realidade), opress\u00e3o, ideologia s\u00e3o conceitos e no\u00e7\u00f5es marxistas presentes no chamado \u201cp\u00f3s-modernismo\u201d.<\/p>\n<p><strong>Marx e a pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>Se do ponto de vista intelectual Marx continua vivo, do ponto de vista pol\u00edtico sua necessidade \u00e9 ainda mais premente. Marx predisse que o capitalismo levaria a um sistema de concentra\u00e7\u00e3o de renda t\u00e3o violento, desumano, desigual que colocaria em xeque a sua (do capitalismo) pr\u00f3pria exist\u00eancia. Os dados do s\u00e9culo XXI d\u00e3o total raz\u00e3o a Marx. Thomas Piketty, em seu estudo sobre\u00a0<em>O Capital<\/em>\u00a0no s\u00e9culo XXI, afirma, j\u00e1 na introdu\u00e7\u00e3o, que de todas as teorias econ\u00f4micas do s\u00e9culo XIX e XX, a de Marx \u00e9 a que chegou mais perto de descrever a realidade atual.<\/p>\n<p>Marx afirmava que o capitalismo continha em si a semente da sua destrui\u00e7\u00e3o. A desigualdade extrema n\u00e3o apenas implicaria na impossibilidade econ\u00f4mica da reprodu\u00e7\u00e3o do capitalismo, como geraria um ambiente de viol\u00eancia social extremada e insuport\u00e1vel. O capitalismo, entretanto, teria uma forma de se curar: as guerras. Nas guerras o capital via seus lucros aumentarem e a massa de trabalhadoras (que formam 100% dos ex\u00e9rcitos) ser diminu\u00edda em lutas fratricidas. Nas guerras tamb\u00e9m, o capital teria acesso a novos mercados e a novas mat\u00e9rias-primas.<\/p>\n<p>Quando Marx e Engels postulam o seu famoso \u201cOper\u00e1rios do mundo, uni-vos\u201d, eles est\u00e3o exatamente usando o brado da coletividade em favor da paz e n\u00e3o da guerra. Dentro do pensamento marxista, os prolet\u00e1rios da Fran\u00e7a, do Equador, de Cingapura e da Austr\u00e1lia teriam mais coisas em comum do que os prolet\u00e1rios franceses e os burgueses franceses, uma vez que o Estado seria uma forma de fazer reproduzir ideias (como, por exemplo, o nacionalismo) cuja fun\u00e7\u00e3o seria manter as rela\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o e o controle sobre as massas empobrecidas. Existe, por exemplo, toda uma abordagem do direito penal e constitucional que nasce desta ideia. Na d\u00e9cada de 70, Foucault vai pesquisar as formas de controle social em seu famoso\u00a0<em>Vigiar e Punir<\/em>\u00a0e, apesar de alguns argumentarem por uma oposi\u00e7\u00e3o entre Marx e Foucault, \u00e9 poss\u00edvel ver as categorias marxistas em trabalhos que avan\u00e7am para no\u00e7\u00f5es que no s\u00e9culo XIX n\u00e3o se poderiam ter pensado.<\/p>\n<p>A parte mais critic\u00e1vel do pensamento de Marx \u00e9 tamb\u00e9m sua maior fortaleza. A utopia comunista \u00e9 muito pouco desenvolvida nos escritos de Marx e parece mesmo contradit\u00f3ria \u00e0 sua teoria. Segundo o fil\u00f3sofo, no comunismo os conflitos de classe seriam suprimidos.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que, como vimos, o conflito \u00e9 em Marx positivo. Sem conflito, como haver\u00e1 dial\u00e9tica e como haver\u00e1 o \u201cprogresso\u201d (como no\u00e7\u00e3o evolutiva mesmo)? Marx n\u00e3o resolve estas quest\u00f5es e tampouco poderia. Se atentarmos para as premissas do pensamento de Marx, todo o homem \u00e9 fruto de suas condi\u00e7\u00f5es sociais, condi\u00e7\u00f5es deixadas \u2013 na maioria das vezes \u2013 pelos seus antepassados.<\/p>\n<p>Assim, como um homem nascido numa sociedade capitalista poderia antever uma sociedade comunista em sua completude e at\u00e9 mesmo explic\u00e1-la? Imposs\u00edvel. Exatamente por esta quest\u00e3o evolutiva que, entre o capitalismo e o comunismo, Marx colocou uma fase preparat\u00f3ria chamada de \u201cditadura do proletariado\u201d. A ditadura do proletariado teria por fun\u00e7\u00e3o acabar com as amarras burguesas, as ideias de controle da propriedade privada, as democracias representativas de brancos, homens e ricos, a educa\u00e7\u00e3o que visa a reprodu\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a emancipa\u00e7\u00e3o etc.<\/p>\n<p>Neste momento, isto teria que ser feito por meio de ditadura, uma vez que a burguesia n\u00e3o destruiria de bom grado seu controle material e ideol\u00f3gico sobre as massas. \u00c9 apenas dentro desse momento de transi\u00e7\u00e3o, chamado de \u201csocialismo\u201d, que poderiam se formar as primeiras vis\u00f5es de uma sociedade mais justa, mais igualit\u00e1ria em que o fruto do trabalho social fosse socialmente dividido: uma sociedade comunista. \u201cDe cada qual segundo suas capacidades, para cada um segundo suas necessidades\u201d, s\u00e3o as exatas palavras de Marx. O que n\u00e3o significa uma igualdade formal, mas sim tratar os desiguais desigualmente.<\/p>\n<p>\u00c9 somente neste momento que se pode falar em alguma no\u00e7\u00e3o de m\u00e9rito como base da sociedade. Somente quando todos tiverem um come\u00e7o igual puderem ter suas necessidades b\u00e1sicas atendidas \u00e9 que se pode dizer que o produto do esfor\u00e7o pessoal \u00e9 realmente m\u00e9rito. N\u00e3o \u00e9 fazer uma prova \u201cigual para todos\u201d e colocar o estudante de periferia, que trabalha oito horas por dia antes de come\u00e7ar a estudar, a \u201clutar\u201d por uma vaga com o filho de um juiz que recebe do Estado \u201caux\u00edlio\u201d para pagar a sua escola.<\/p>\n<p><strong>Igualdade em primeiro lugar<\/strong><\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de igualdade marxista \u00e9 dar aqueles que precisam mais, mais. O fim do sistema de explora\u00e7\u00e3o e concentra\u00e7\u00e3o privada de riqueza faria com que todo o lucro (fruto do trabalho social) fosse canalizado para o Estado e para a coletividade. Com esta ideia, a URSS conseguiu sair de uma condi\u00e7\u00e3o feudal em 1917 para uma pot\u00eancia nuclear em 1949. E isto tendo lutado duas guerras mundiais e uma guerra civil. A mesma no\u00e7\u00e3o fez Cuba ter o melhor sistema de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica (contando os EUA). A mesma ideia fez a China, que tinha na d\u00e9cada de 60 o mesmo PIB do Brasil, ser hoje a segunda maior economia do mundo e certamente passar\u00e1 os EUA em dez anos, no m\u00e1ximo.<\/p>\n<p>Como teoria e pr\u00e1tica s\u00e3o indissoci\u00e1veis para os marxistas, \u00e9 poss\u00edvel dizer que o marxismo \u201cdeu certo\u201d em tudo o que se prop\u00f4s a fazer. N\u00e3o somente Marx \u00e9 o pensador mais importante dos \u00faltimos tr\u00eas s\u00e9culos, como todos os que aprofundam suas ideias t\u00eam tido um impacto relevante na sociedade.<\/p>\n<p>Contudo, assim como a f\u00edsica pode ser usada para construir uma bomba at\u00f4mica ou para criar meios para salvar vidas, o marxismo pode ser usado para legitimar a opress\u00e3o ou para promover a liberta\u00e7\u00e3o. Neste ponto, as cr\u00edticas aos modelos, conceitos e teorias marxistas ocorrem desde praticamente a sua g\u00eanese. Ningu\u00e9m foi mais violenta na cr\u00edtica \u00e0s teorias revolucion\u00e1rias de Marx do Rosa de Luxemburgo. Ningu\u00e9m foi mais criativo na transposi\u00e7\u00e3o das ideias marxistas para o s\u00e9culo XX e XXI do que Habermas ou Adorno. Ningu\u00e9m foi um melhor operador da mudan\u00e7a do que L\u00eanin, e muitas vezes reinterpretando Marx. O p\u00f3s-colonialismo e mesmo o p\u00f3s-modernismo s\u00e3o tribut\u00e1rios da no\u00e7\u00e3o marxista cr\u00edtica de emancipa\u00e7\u00e3o, de aliena\u00e7\u00e3o e de ideologia, como formadoras dos sujeitos.<\/p>\n<p>Marx est\u00e1 cada vez mais atual, mas \u00e9 claro que n\u00e3o se poderia esperar que um fil\u00f3sofo do s\u00e9culo XIX antecipasse todo o s\u00e9culo XX e XXI. Marx antecipou muita coisa. Sua explica\u00e7\u00e3o do capitalismo continua v\u00edvida e pulsante. Suas considera\u00e7\u00f5es sobre as guerras e crises econ\u00f4micas regenerativas est\u00e3o na ess\u00eancia das argumenta\u00e7\u00f5es hoje. Sua divis\u00e3o do mundo entre exploradores e explorados, embora tenha ganho algumas tonalidades diferentes, se mant\u00e9m.<\/p>\n<p>O estruturalismo marxista caiu, como todos os estruturalismos do mundo. O evolucionismo marxista tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o se sustenta com a for\u00e7a de outrora, mas sua utopia permanece. Marx continua amedrontando a todos os que n\u00e3o conseguem compreender a sua realidade e a todos os que vivem explorando aqueles que n\u00e3o compreendem a sua realidade.<\/p>\n<p><strong>Marx \u201cdeu certo\u201d<\/strong><\/p>\n<p>O fantasma que rondava a Europa, hoje, ronda todo o mundo e at\u00e9 mesmo no centro do capitalismo mundial um candidato que se diz \u201csocialista\u201d tem enorme apelo pol\u00edtico e popular. Marx dizia que o medo da \u201caboli\u00e7\u00e3o da propriedade privada\u201d era irreal uma vez que para 9\/10 da popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o existia propriedade alguma para defender. Hoje s\u00e3o 99 pessoas em cada 100 que nada possuem.<\/p>\n<p>Marx \u201cdeu certo\u201d. E \u00e9 exatamente por ter dado certo que ele permanece assustando a todos os exploradores e rompendo as amarras de todos os explorados que aceitam o desafio de ler e pensar para al\u00e9m do idealismo. \u00c9 nas condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, econ\u00f4micas e materiais que se encontram os problemas e as solu\u00e7\u00f5es para a humanidade. E \u00e9 l\u00e1 que voc\u00ea vai encontrar Marx.<\/p>\n<p>N\u00e3o se preocupe, voc\u00ea pode ler Marx usando seu iPhone. Ningu\u00e9m quer toma-lo de voc\u00ea, at\u00e9 porque ele \u00e9 seu, segundo as palavras do pr\u00f3prio Marx: \u201cSe a classe trabalhadora a tudo produz, a ela tudo pertence\u201d.<\/p>\n<p>http:\/\/operamundi.uol.com.br\/conteudo\/geral\/49340\/o+mundo+de+hoje+e+fruto+do+amor+e+do+odio+a+marx+.shtml<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando Horta &#8211;\u00a0\u00c9 exatamente por ter dado certo que Marx permanece assustando a todos os exploradores e rompendo as amarras de todos os explorados que aceitam o desafio de ler e pensar para al\u00e9m do idealismo. Karl Marx nasceu no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, mais precisamente em 1818. 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