{"id":806,"date":"2016-06-27T12:28:21","date_gmt":"2016-06-27T15:28:21","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=806"},"modified":"2016-06-21T10:30:35","modified_gmt":"2016-06-21T13:30:35","slug":"o-brasil-na-era-dos-esgotamentos-da-imaginacao-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/06\/27\/o-brasil-na-era-dos-esgotamentos-da-imaginacao-politica\/","title":{"rendered":"O Brasil na era dos esgotamentos da imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ricardo Machado<\/strong> &#8211; Entrevista com Vladimir Safatle<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Estamos em um momento de triplo esgotamento: de uma era hist\u00f3rica, de um modelo de desenvolvimento e da esquerda brasileira\u201d, analisa Vladimir Safatle.<\/p><\/blockquote>\n<p>A Nova Rep\u00fablica, inaugurada no Brasil p\u00f3s-ditadura, que se tornou um regime de acomoda\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o dos setores que haviam apoiado o regime militar, se esgotou. Ao inv\u00e9s de a esquerda romper com esse modelo, adotou como modo de governo a alian\u00e7a com os n\u00facleos empresariais, transformando-se em um grande modelo de gest\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o institucionalizada, o que levou ao pr\u00f3prio esgotamento.<\/p>\n<p>&#8220;Portanto, esse era o momento de a esquerda brasileira dar um passo atr\u00e1s e falar: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer dessa forma, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel justificar nada desta maneira e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel vir com essa hist\u00f3ria de que a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 um dado inerente ao sistema capitalista. Isso \u00e9 um desrespeito, n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, mas \u00e0 pr\u00f3pria hist\u00f3ria da esquerda\u201d, critica Vladimir Safatle em entrevista concedida pessoalmente \u00e0 IHU On-Line.<\/p>\n<p>Dos esgotamentos de diversos modelos, inclusive o de representatividade tal como est\u00e1 posto, emergiu uma na\u00e7\u00e3o de zumbis que t\u00eam na melancolia seu modo de vida. &#8220;O poder age internalizando uma experi\u00eancia melanc\u00f3lica, o poder nos melancoliza e essa \u00e9 sua fun\u00e7\u00e3o, fazer com que nos deparemos a todo momento com a cren\u00e7a da impot\u00eancia da nossa for\u00e7a\u201d, analisa. &#8220;Isso que acontece no Brasil \u00e9 s\u00f3 uma explicita\u00e7\u00e3o de um processo cultural, \u00e9 assim que ele se perpetua. A primeira quest\u00e3o para recuperarmos nossa imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 fazermos a cr\u00edtica aos afetos melanc\u00f3licos\u201d, complementa.<\/p>\n<p>&#8220;O problema \u00e9 que se reduziu o discurso intelectual no Brasil a uma l\u00f3gica de esconjura\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o n\u00e3o faz mais sentido nenhum esperar que se tenha uma forma\u00e7\u00e3o efetiva para preparar as pessoas para alguma forma de debate\u201d, pondera Safatle. &#8220;H\u00e1 uma s\u00e9rie de respons\u00e1veis, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o pensamento conservador. Mesmo no interior da esquerda h\u00e1 uma incapacidade da intelectualidade de se colocar como uma for\u00e7a cr\u00edtica, como se a ideia de cr\u00edtica j\u00e1 fosse um crime de lesa-majestade, j\u00e1 fosse um tipo de imposi\u00e7\u00e3o de classe\u201d, ressalta.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Como o senhor analisa a atual conjuntura?<\/p>\n<p>Vladimir Safatle \u2013 Estamos em um momento de triplo esgotamento: de uma era hist\u00f3rica, de um modelo de desenvolvimento e da esquerda brasileira.<\/p>\n<p>A era hist\u00f3rica \u00e9 a Nova Rep\u00fablica, que acabou em 2013, um momento hist\u00f3rico baseado em certa ideia de concilia\u00e7\u00e3o e redemocratiza\u00e7\u00e3o, mas uma redemocratiza\u00e7\u00e3o que durou 30 anos e nunca se realizou por completo, porque nunca existiu para se realizar por completo.<\/p>\n<p>Esgotamento da Nova Rep\u00fablica<\/p>\n<p>A Nova Rep\u00fablica nasceu da uni\u00e3o entre o PMDB e o PFL para a elei\u00e7\u00e3o de Tancredo Neves e essa uni\u00e3o selou toda a hist\u00f3ria do Brasil at\u00e9 hoje. Assim foi estabelecido um regime de governabilidade baseado na integra\u00e7\u00e3o de setores que haviam apoiado a Ditadura Militar. A integra\u00e7\u00e3o n\u00e3o significava s\u00f3 cham\u00e1-los para dentro do governo, significava adotar o seu modo de governo, seus modos de alian\u00e7a, seus modelos de rela\u00e7\u00e3o com os n\u00facleos empresariais e tudo que far\u00e1 com que a Nova rep\u00fablica se transforme em um grande modelo de gest\u00e3o de uma corrup\u00e7\u00e3o institucionalizada, que passar\u00e1 por todos os partidos.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 uma das coisas mais fant\u00e1sticas dos problemas de corrup\u00e7\u00e3o no Brasil, eles tocam todo mundo, percebemos isso muito claramente porque \u00e9 um modo de governo, n\u00e3o uma pr\u00e1tica espec\u00edfica. Com esse regime de governabilidade, foi instalado na Nova Rep\u00fablica um sistema de travas, essas travas significavam que n\u00e3o h\u00e1 como passar grandes reformas dentro de uma coaliz\u00e3o onde parte dela \u00e9 exatamente quem se beneficia do atraso.<\/p>\n<p>Uma das quest\u00f5es \u00e9 pensar por que tivemos por 13 anos um governo de esquerda e as pautas tradicionais do reformismo social-democrata sequer foram cogitadas. Um exemplo t\u00e1cito \u00e9 a n\u00e3o discuss\u00e3o da redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho, uma pauta tradicional do sindicalismo, pois vivemos em um pa\u00eds com uma jornada de trabalho de 44 horas semanais, enquanto boa parte do mundo civilizado tem 40 horas e alguns pa\u00edses t\u00eam menos de 35 horas.<\/p>\n<p>Sistema de pacifica\u00e7\u00e3o nacional<\/p>\n<p>Na Constitui\u00e7\u00e3o o \u00fanico imposto que \u00e9 constitucional \u00e9 o imposto sobre grandes fortunas. A Constitui\u00e7\u00e3o foi promulgada em 1988, e at\u00e9 hoje n\u00e3o teve uma lei para poder aplicar um imposto constitucional. S\u00e3o aberra\u00e7\u00f5es inacredit\u00e1veis, mas isso \u00e9 justific\u00e1vel dentro do modelo da Nova Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Por outro lado, esse modelo de travas foi um sistema de pacifica\u00e7\u00e3o nacional porque ele significa que todos os que fossem entrar no governo precisariam gerenciar o atraso e foi assim com Fernando Henrique, com o Lula e com a Dilma, mas em troca quem ganha a elei\u00e7\u00e3o governa. Isso funcionou at\u00e9 o momento em que, em 2013, ficou muito claro o descolamento da casta pol\u00edtica brasileira e as expectativas da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro nenhum outro momento da hist\u00f3ria brasileira em que houvesse uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o dram\u00e1tica quanto a ocasi\u00e3o em que uma massa de pessoas em Bras\u00edlia corria em dire\u00e7\u00e3o ao Congresso e tudo o que a pol\u00edcia conseguiu fazer foi empurrar a massa para o lado, para que os manifestantes tocassem fogo no Pal\u00e1cio Itamaraty. Esta \u00e9 uma das cenas mais impressionantes da hist\u00f3ria brasileira.<\/p>\n<p>O vazio p\u00f3s-2013<\/p>\n<p>Essa cena demonstrava muito claramente a que ponto t\u00ednhamos chegado. E, no entanto, nada ocorre depois de 2013, n\u00e3o h\u00e1 nenhum ator pol\u00edtico capaz de ouvir as demandas, tanto \u00e0 esquerda quanto \u00e0 direita. Ent\u00e3o, eu diria que desde 2013 este pa\u00eds vive em suspens\u00e3o, \u00e9 um pa\u00eds suspenso no ar \u00e0 &#8220;espera de\u201d, incapaz de incorporar demandas de justi\u00e7a social \u2013 no sentido mais fora do termo \u2013, ou seja, eu quero sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o &#8220;padr\u00e3o Fifa\u201d.<\/p>\n<p>&#8220;Esse era o momento de a esquerda brasileira dar um passo atr\u00e1s&#8221;<\/p>\n<p>Esgotamento do Lulismo<\/p>\n<p>Nesse ponto vem o segundo esgotamento, o esgotamento do modelo de desenvolvimento brasileiro conhecido como lulismo. O lulismo, por um lado, foi o \u00e1pice da Nova Rep\u00fablica, \u00e9 o que ele conseguiu fazer de melhor no sentido de aproveitar esse sistema de travas e de coaliz\u00e3o e passar a um programa m\u00ednimo de assist\u00eancia social que colocou 36 milh\u00f5es de pessoas em ascens\u00e3o. Isto \u00e9, tirou 36 milh\u00f5es de pessoas da mis\u00e9ria e da pobreza e colocou em ascens\u00e3o uma classe m\u00e9dia pobre, mas que tinha poder de compra.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi consolidado o aumento real do sal\u00e1rio m\u00ednimo, reorganizado o capitalismo de Estado brasileiro atrav\u00e9s do Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social \u2013 BNDES, e houve a perpetua\u00e7\u00e3o do modelo de coaliza\u00e7\u00e3o herdado da pol\u00edtica da Nova Rep\u00fablica. A esquerda conseguiu fazer essa perpetua\u00e7\u00e3o porque ressuscitou o \u00fanico modo de incorpora\u00e7\u00e3o das massas ao processo pol\u00edtico que o Brasil conhece, que \u00e9 o populismo.<\/p>\n<p>Quando o Lula vestiu o macac\u00e3o da Petrobras, colocou as m\u00e3os no petr\u00f3leo e repetiu a foto de Get\u00falio Vargas, ele sabia muito bem o que estava fazendo, pois n\u00e3o se repete uma das imagens mais paradigm\u00e1ticas da hist\u00f3ria brasileira impunemente; de fato, ele compreendia que ele funcionava no modelo varguista. O modelo varguista \u00e9 aquele modelo em que Vargas dizia: &#8220;meus problemas n\u00e3o s\u00e3o meus inimigos, meus problemas s\u00e3o meus aliados\u201d.<\/p>\n<p>Esse tipo de sistema de incorpora\u00e7\u00e3o funciona assim: incorpora-se a massa exclu\u00edda do processo pol\u00edtico, mas o pre\u00e7o disso \u00e9 colocar as demandas populares no mesmo n\u00edvel das demandas das oligarquias insatisfeitas e que iam, ent\u00e3o, entrar juntamente em uma coaliz\u00e3o contradit\u00f3ria. Uma coaliz\u00e3o que, por ser contradit\u00f3ria, durava s\u00f3 um tempo e explodia porque chegava um momento em que tinha que gerir insatisfa\u00e7\u00f5es em todos os lados. S\u00f3 que o Vargas morreu, ent\u00e3o ele n\u00e3o precisou ver isso, mas o Lula n\u00e3o, ele viu o processo se degradando.<\/p>\n<p>Sem alternativas<\/p>\n<p>Como n\u00e3o havia uma segunda alternativa, um segundo ciclo de pol\u00edticas, n\u00e3o havia nada desde 2010, toda a criatividade pol\u00edtica que foi colocada no governo paralisou, n\u00e3o teve nenhum programa novo, a n\u00e3o ser programas muito pontuais, como o Mais M\u00e9dicos e outros desse tipo. Entretanto, precis\u00e1vamos de um verdadeiro segundo ciclo de pol\u00edtica de combate \u00e0 desigualdade social, que nunca foi colocado sequer em pauta. Ent\u00e3o, o que aconteceu? Chegou 2013 e as pessoas perceberam que o Brasil estava paralisado, que elas tinham subido de renda, s\u00f3 que elas tinham produzido tamb\u00e9m novas necessidades e essas novas necessidades estavam corroendo a renda delas. Ent\u00e3o, o sujeito saiu da escola p\u00fablica e foi colocar seus filhos na escola privada e viu que estava perdendo parte do seu sal\u00e1rio para a escola privada de p\u00e9ssima qualidade; ele saiu do sistema SUS e foi comprar um plano de sa\u00fade e viu a mesma coisa; ele saiu do \u00f4nibus e comprou um carro parcelado e tamb\u00e9m viu a mesma coisa. Se juntarmos esses tr\u00eas gastos j\u00e1 se corr\u00f3i um ter\u00e7o do sal\u00e1rio dessa dita nova classe m\u00e9dia. Assim, juntaram-se duas coisas: o fim da Nova Rep\u00fablica e o esgotamento de um modelo de desenvolvimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Esgotamento da esquerda brasileira<\/p>\n<p>S\u00f3 que ainda teve um terceiro elemento, e a\u00ed sim foi explosivo: o esgotamento da esquerda brasileira, que era uma corrente pol\u00edtica, que desde 1945 sempre teve for\u00e7a, mesmo na Ditadura Militar. Na Ditadura a esquerda perdeu, mas n\u00e3o foi vencida porque conseguiu consolidar uma resist\u00eancia consider\u00e1vel em v\u00e1rios setores, formando uma parcela consider\u00e1vel da opini\u00e3o p\u00fablica, o que n\u00e3o deixa de ser impressionante. Ent\u00e3o, o que acontece? Essa esquerda ter\u00e1 um curto-circuito porque chega um momento em que este modelo de governabilidade come\u00e7ou a cobrar o seu pre\u00e7o, e o seu pre\u00e7o era a corrup\u00e7\u00e3o, entre outras coisas.<\/p>\n<p>Portanto, esse era o momento de a esquerda brasileira dar um passo atr\u00e1s e falar: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer dessa forma, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel justificar nada dessa maneira e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel vir com essa hist\u00f3ria de que a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 um dado inerente ao sistema capitalista. Isso \u00e9 um desrespeito, n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, mas \u00e0 pr\u00f3pria hist\u00f3ria da esquerda. De certa maneira, vai retirando legitimidade de enuncia\u00e7\u00e3o \u00e0 medida que se flexibilizam os julgamentos \u00e9ticos e morais a partir dos interesses imediatos, submetendo os julgamentos a um c\u00e1lculo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Todavia, com o Partido dos Trabalhadores &#8211; PT h\u00e1 uma diferen\u00e7a essencial: o partido passou 40 anos &#8220;enchendo o saco\u201d do pa\u00eds inteiro, dizendo que era um absurdo a corrup\u00e7\u00e3o, que de fato era uma imoralidade, e a\u00ed, de repente, passa a fazer a mesma coisa. \u00c9 claro que a bomba vai estourar no colo do PT e as pessoas v\u00e3o dizer &#8220;voc\u00ea eu n\u00e3o quero nunca mais\u201d.<\/p>\n<p>O pa\u00eds dos zumbis<\/p>\n<p>Os tr\u00eas processos se engatam e ao se engatar chegamos \u00e0 situa\u00e7\u00e3o atual, muito pr\u00f3xima daquilo que Freud comenta em A Interpreta\u00e7\u00e3o dos Sonhos (Porto Alegre:L&amp;PM Editores, 2012), que ao acordar sente uma profunda tristeza ao lembrar da cena do jantar em seu sonho, em que seu pai est\u00e1 sentado \u00e0 sua frente. Freud pensa o \u00f3bvio: &#8220;meu pai estava morto e eu n\u00e3o sabia\u201d. Essa \u00e9 a melhor descri\u00e7\u00e3o da nossa situa\u00e7\u00e3o, temos um pa\u00eds de zumbis, que n\u00e3o consegue nem mais mentir. Estamos em um processo de desconstru\u00e7\u00e3o cont\u00ednuo de tudo, onde fica muito claro que h\u00e1 uma oligarquia financeira que tomou de assalto o poder e vai impor um modelo de gest\u00e3o, que \u00e9 o modelo de terra arrasada, o que nunca passaria por nenhuma elei\u00e7\u00e3o. Por isso eles tentam impor isso \u00e0 for\u00e7a, porque n\u00e3o h\u00e1 outra maneira.<\/p>\n<p>Estamos em uma situa\u00e7\u00e3o tal, que n\u00e3o se consegue mais incorporar nenhuma for\u00e7a de oposi\u00e7\u00e3o, porque se tem um modelo de funcionamento da esquerda que precisaria ter sido abandonado e n\u00e3o foi, e, quase como um ato reflexo, tenta-se recolocar esse modelo, mas ele n\u00e3o funciona mais. Ent\u00e3o, temos essa situa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a pior situa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Isso me lembra um pouco a situa\u00e7\u00e3o mexicana, que \u00e9 um pa\u00eds que ficou parado durante 50 anos devido a uma contradi\u00e7\u00e3o que, inclusive, estava descrita muito claramente no nome do partido que governou o pa\u00eds nesse per\u00edodo, o Partido Revolucion\u00e1rio Institucional \u2013 PRI.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel vir com essa hist\u00f3ria de que a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 um dado inerente ao sistema capitalista&#8221;<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Esse esgotamento da esquerda, que tamb\u00e9m se manifesta com a falta de di\u00e1logo com 2013, \u00e9 uma crise do pensamento de esquerda?<\/p>\n<p>Vladimir Safatle \u2013 Tem uma esquerda para qual a \u00fanica possibilidade de exist\u00eancia se d\u00e1 sob a forma de representa\u00e7\u00e3o; se n\u00e3o consegue representar algo, esse algo n\u00e3o existe. Acho engra\u00e7ado, porque fizemos a cr\u00edtica da representa\u00e7\u00e3o da filosofia h\u00e1 mais de 100 anos, mas na pol\u00edtica foi imposs\u00edvel de fazer. \u00c9 como se falasse em cr\u00edtica da representa\u00e7\u00e3o como se fosse um convite ao autoritarismo, o que considero uma coisa sem p\u00e9 nem cabe\u00e7a. Para eles, se voc\u00ea n\u00e3o dramatiza os conflitos sociais nas formas tradicionais de representa\u00e7\u00e3o, ou seja, incorpora\u00e7\u00e3o em um partido, sindicato ou associa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o o processo n\u00e3o existe ou \u00e9 um protofascista.<\/p>\n<p>Agora tem outro lado da esquerda, que fazendo a cr\u00edtica da representa\u00e7\u00e3o, compreendendo que essas estruturas n\u00e3o d\u00e3o mais conta dos processos de mobiliza\u00e7\u00e3o, partiu para uma fragmenta\u00e7\u00e3o absoluta de pautas. Ent\u00e3o h\u00e1 pautas espec\u00edficas que s\u00f3 conseguem gerar mobiliza\u00e7\u00e3o durante um tempo, s\u00f3 que elas n\u00e3o conseguem construir uma constela\u00e7\u00e3o, e, com isso, o que acontece?<\/p>\n<p>Estamos nessa situa\u00e7\u00e3o surreal em que h\u00e1 mobiliza\u00e7\u00f5es fortes, como as ocupa\u00e7\u00f5es estudantis, as ocupa\u00e7\u00f5es dos artistas no Minist\u00e9rio da Cultura, a luta das feministas e toda uma s\u00e9rie de discuss\u00f5es, mas que n\u00e3o constituem uma constela\u00e7\u00e3o. A constela\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e o qu\u00ea? Que quem entra na constela\u00e7\u00e3o pode ocupar qualquer espa\u00e7o, circula em qualquer espa\u00e7o, isto \u00e9, quebra a ideia de lugares e de fala espec\u00edficos, o que \u00e9 uma oposi\u00e7\u00e3o sacrossanta para uma certa ideia de mobiliza\u00e7\u00e3o hoje. Estabelecem-se lugares de fala, mas n\u00e3o se percebe o qu\u00e3o isso \u00e9 autorit\u00e1rio e antipol\u00edtico.<\/p>\n<p>Pol\u00edtica<\/p>\n<p>O que h\u00e1 de pr\u00f3prio da pol\u00edtica \u00e9 que ela desconstitui todos os lugares e produz uma esp\u00e9cie de sujeito gen\u00e9rico que pode ocupar todos os lugares porque \u00e9 capaz de perceber as resson\u00e2ncias de todas as demandas. Ent\u00e3o, essa cr\u00edtica a uma certa universalidade criou um efeito terr\u00edvel, destrut\u00edvel em certo ponto da esquerda. Ao fazer a cr\u00edtica \u00e0 normatividade inerente a uma concep\u00e7\u00e3o de universalidade, esquece-se que a cr\u00edtica \u00e0 falsa universalidade \u00e9 feita tendo em vista uma verdadeira universalidade e que esse seria o objetivo te\u00f3rico maior da esquerda, que \u00e9 se questionar sobre o que seria uma verdadeira universalidade.<\/p>\n<p>Enquanto n\u00e3o houver capacidade de reorganizar demandas dentro de um sistema de constela\u00e7\u00e3o que permita a encarna\u00e7\u00e3o de todas essas demandas em um ponto, n\u00e3o haver\u00e1 mais esquerda com for\u00e7a de mobiliza\u00e7\u00e3o. Teremos algo semelhante ao que aconteceu na Alemanha h\u00e1 alguns anos, quando apareceu um partido chamado Pirata, que teve uma ascens\u00e3o fulminante, inclusive chegando em segundo lugar em algumas elei\u00e7\u00f5es, com uma \u00fanica pauta: transpar\u00eancia e liberdade de express\u00e3o na internet. Onde est\u00e1 este partido hoje? Este partido sumiu porque n\u00e3o se cria pol\u00edtica de pauta em pauta, a soma das pautas n\u00e3o \u00e9 maior que o todo. Portanto, perdeu-se uma vis\u00e3o de totalidade do processo, de estrutura sist\u00eamica, e isso bloqueia radicalmente a pot\u00eancia de transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Como escapar da melancolia do vazio da esquerda inaugurado em 2013?<\/p>\n<p>Vladimir Safatle \u2013 Essa \u00e9 uma das rea\u00e7\u00f5es naturais. Freud descreve as melancolias como uma forma de amor por objetos perdidos. A esquerda perdeu seus objetos, s\u00f3 que n\u00e3o foi capaz de, em fun\u00e7\u00e3o do luto, elaborar algo novo. Fixou-se no que foi perdido, e o que foi perdido \u00e9 internalizado no pr\u00f3prio \u00e2mago como uma sombra. Nesse contexto h\u00e1 duas consequ\u00eancias poss\u00edveis: ou se entra em um processo de autorreprimenda pelo que foi perdido, responsabilizando-se pela perda, levando-se a uma situa\u00e7\u00e3o de completa paralisia; ou se transforma a perda em agressividade como se o objeto perdido fosse uma esp\u00e9cie de traidor, que n\u00e3o poderia ter sido perdido. Portanto, de uma forma ou de outra, fica-se preso em um tempo passado. Isso se chama melancolia, uma fixa\u00e7\u00e3o no interior de uma experi\u00eancia atemporal que n\u00e3o tem mais nenhum tipo de implica\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 uma patologia cl\u00e1ssica de situa\u00e7\u00f5es em que h\u00e1 um processo de esgotamento sem outra alternativa \u00e0 vista.<\/p>\n<p>Uma das fun\u00e7\u00f5es da melancolia \u00e9 paralisar a capacidade de a\u00e7\u00e3o do sujeito. Por isso que o afeto fundamental do poder \u00e9 a melancolia, o poder n\u00e3o age coagindo as pessoas diretamente; n\u00e3o existe nenhum poder que se imponha por coer\u00e7\u00e3o por muito tempo, porque coer\u00e7\u00e3o \u00e9 uma coisa que precisa se fazer 24 horas. Por isso, ao inv\u00e9s desta coer\u00e7\u00e3o externa, precisa-se de uma coer\u00e7\u00e3o interna, que \u00e9 dada pela internaliza\u00e7\u00e3o de um princ\u00edpio disciplinar. O poder age internalizando uma experi\u00eancia melanc\u00f3lica, o poder nos melancoliza e essa \u00e9 sua fun\u00e7\u00e3o, fazer com que nos deparemos a todo momento com a cren\u00e7a da impot\u00eancia da nossa for\u00e7a. Isto \u00e9, uma experi\u00eancia de fraqueza cont\u00ednua que vai at\u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o depressiva de achar que &#8220;n\u00e3o tenho mais nada a fazer, \u00e9 melhor eu voltar aos meus afazeres e esquecer completamente a minha dimens\u00e3o social\u201d. Isso que acontece no Brasil \u00e9 s\u00f3 uma explicita\u00e7\u00e3o de um processo cultural, \u00e9 assim que ele se perpetua. A primeira quest\u00e3o para recuperarmos nossa imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 fazermos a cr\u00edtica aos afetos melanc\u00f3licos.<\/p>\n<p>&#8220;O poder age internalizando uma experi\u00eancia melanc\u00f3lica&#8221;<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 \u00c9 poss\u00edvel vislumbrar um novo corpo pol\u00edtico diante da conjuntura atual?<\/p>\n<p>Vladimir Safatle \u2013 Conhecemos o modelo de incorpora\u00e7\u00e3o, que \u00e9 esse modelo baseado no populismo, ou seja, incorpora v\u00e1rias demandas dentro de uma figura que de fato aparece como l\u00edder e essa lideran\u00e7a funciona como um significante vazio. Nunca se conseguiu transpor para dentro do Estado todos os conflitos da sociedade civil. Ent\u00e3o, os conflitos entre os monetaristas e os desenvolvimentistas, entre o Banco Central e o Minist\u00e9rio do Planejamento, entre o Minist\u00e9rio do Agroneg\u00f3cio e os ecologistas, entre o Minist\u00e9rio da Agricultura e o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, entre as For\u00e7as Armadas e os defensores de direitos humanos, e assim ad infinitum tornam-se objetos de manobra gerencial.<\/p>\n<p>O populismo e suas figuras aparecem como uma esp\u00e9cie de mediador universal que, quando se espera que o conflito exploda, d\u00e1 uma compensa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica ao perdedor, dizendo: eu de fato estou do seu lado, mas a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as n\u00e3o permite, mas a coisa mudar\u00e1 \u00e0 frente. S\u00f3 que as coisas nunca mudam e vai se perdendo ades\u00e3o paulatinamente. Conhecemos muito bem esse processo de incorpora\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina. O te\u00f3rico argentino Ernesto Laclau descreveu esse modelo de maneira fant\u00e1stica e ele funciona muito bem na nossa realidade.<\/p>\n<p>Outras incorpora\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>S\u00f3 que cabe a n\u00f3s pensar outra forma de incorpora\u00e7\u00e3o, essa forma de incorpora\u00e7\u00e3o de fato constitui o povo como uma categoria fundamental do pol\u00edtico, logo, o povo \u00e9 aquele que se incorpora no interior desse processo com as massas, e tem sempre o jogo do povo contra a elite. A\u00ed h\u00e1 todo o malabarismo ret\u00f3rico de tentar esconder que uma parte da elite est\u00e1 com voc\u00ea. Sabemos como isso se deu no peronismo at\u00e9 que n\u00e3o fosse poss\u00edvel mais nenhuma possibilidade de governo; vimos que isso aconteceu tamb\u00e9m no Brasil. O que temos como caracter\u00edstica desse modelo de incorpora\u00e7\u00e3o, em larga escala, \u00e9 uma gest\u00e3o de paralisia e que \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o do povo em categoria central, que pode descambar em v\u00e1rias coisas, entre elas, em um tipo de nacionalismo como elemento fundamental da esquerda, o que, diga-se de passagem, \u00e9 uma das coisas mais abstrusas poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Se a esquerda tem uma raz\u00e3o de exist\u00eancia, isso se deve ao seu cosmopolitismo e ao seu internacionalismo, o que n\u00e3o se pode entender em um esquema nacionalista. Esse neg\u00f3cio de falar em estado-na\u00e7\u00e3o em 2016 s\u00f3 pode ser piada. Seria muito mais importante estar discutindo institui\u00e7\u00f5es p\u00f3s-nacionais e estados p\u00f3s-nacionais do que esse tipo de recupera\u00e7\u00e3o de uma velharia, do ponto de vista mesmo da organiza\u00e7\u00e3o institucional, que n\u00e3o existe mais.<\/p>\n<p>Povo<\/p>\n<p>Isso tudo acontece porque o povo \u00e9 tomado como uma categoria central. Todavia, diria duas coisas: o povo n\u00e3o \u00e9 uma categoria fundamental da pol\u00edtica, \u00e9 uma categoria provis\u00f3ria. \u00c9 importante que ele se constitua em situa\u00e7\u00f5es provis\u00f3rias para dar forma a certos antagonismos fundamentais, mas \u00e9 imposs\u00edvel falar em povo sem falar em processo de exclus\u00e3o, em processo de identidade e em processo de unidade. Ao inv\u00e9s de nos prendermos \u00e0 dicotomia entre povo e indiv\u00edduo, dever\u00edamos estar tentando desenvolver um terceiro tipo, que n\u00e3o \u00e9 nem um e nem outro, nem associa\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos, tal como o liberalismo prop\u00f5e, cada um com seus m\u00faltiplos interesses, e esses interesses entrar\u00e3o em uma rela\u00e7\u00e3o contratual, em que estabele\u00e7o um contrato virtual.<\/p>\n<p>Falta a capacidade de sabermos o que significa uma associa\u00e7\u00e3o de sujeitos pol\u00edticos, isto \u00e9, s\u00e3o sujeitos que n\u00e3o est\u00e3o dotados de interesses e identidades, mas podem entrar em uma rela\u00e7\u00e3o de constela\u00e7\u00e3o sem constituir uma unidade. Esse \u00e9 um tipo de corpo pol\u00edtico de outra natureza, que n\u00e3o cabe nas ideias de na\u00e7\u00e3o, estado-na\u00e7\u00e3o, de povo, mas que consegue construir um tipo de implica\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica com o que \u00e9 heterog\u00eaneo, com a ideia de heterogeneidade b\u00e1sica, que acredito ser um elemento fundamental, ainda mais para a situa\u00e7\u00e3o de regress\u00e3o pol\u00edtica que vemos hoje n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas no mundo inteiro.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; A crise se tornou um modo de exist\u00eancia?<\/p>\n<p>Vladimir Safatle \u2013 Eu falei isso um tempo atr\u00e1s. Se fosse um marxista vulgar eu diria que desde o [Karl] Marx [1] a ideia fundamental \u00e9 que o capitalismo \u00e9 um sistema de gest\u00e3o de crises, ele faz da crise seu modo de exist\u00eancia. Isso porque h\u00e1 um processo de flexibiliza\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, que \u00e9 o resultado desse embate entre for\u00e7a produtiva e rela\u00e7\u00e3o social de produ\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9, em um modelo de desenvolvimento, que faz com que seja absolutamente necess\u00e1rio, decisivo e fundamental que as formas de vida e as rela\u00e7\u00f5es tradicionais sejam continuamente quebradas, o que ocorre por um princ\u00edpio fundamental, o do aumento geral de produtividade. Esse aumento geral da produtividade \u00e9 um objetivo em si.<\/p>\n<p>China e o capitalismo<\/p>\n<p>Uma quest\u00e3o interessante \u00e9: por que n\u00e3o apareceu o capitalismo na China inicialmente? Porque do ponto de vista tecnol\u00f3gico, a China, sob v\u00e1rios aspectos, estava \u00e0 frente da Europa nos s\u00e9culos XVII e XVIII, e o capitalismo n\u00e3o surge l\u00e1 porque n\u00e3o existe a ideia de excedente. N\u00e3o existe a ideia de que eu preciso fazer o processo funcionar para que o excedente de produ\u00e7\u00e3o apare\u00e7a e com esse excedente de produ\u00e7\u00e3o eu consiga estabelecer uma din\u00e2mica cada vez maior da produtividade, jogando os pre\u00e7os para baixo, desvalorizando o trabalho etc.<\/p>\n<p>Toda essa din\u00e2mica gera um processo cont\u00ednuo de desvaloriza\u00e7\u00e3o do trabalho que significa que h\u00e1 duas possibilidades: a intensifica\u00e7\u00e3o dos regimes de trabalho, que nos leva a trabalhar duas vezes mais que nossos pais para ganhar a mesma coisa e ter o mesmo padr\u00e3o de vida; ou gerir cat\u00e1strofes, como uma guerra, por exemplo, assim d\u00e1-se um jeito de sumir com uma parte da popula\u00e7\u00e3o para fora do processo de trabalho.<\/p>\n<p>&#8220;O sujeito reclama contra um negro que tem uma cota, contra o outro que recebe um aux\u00edlio de Bolsa Fam\u00edlia, mas, vagabundo por vagabundo, quem realmente n\u00e3o trabalha neste pa\u00eds? Quem de fato nunca precisou trabalhar?&#8221;<\/p>\n<p>Crise cont\u00ednua<\/p>\n<p>Dentro desse modelo, que s\u00f3 se intensificou para uma situa\u00e7\u00e3o na qual viveremos em crise cont\u00ednua, o discurso da crise ter\u00e1 duas fun\u00e7\u00f5es: a primeira \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, a segunda \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o moral, que \u00e9 a pior de todas. Tem uma fun\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica porque dir\u00e1 que a crise n\u00e3o passa e, por conta disso, faz-se uma esp\u00e9cie de flexibiliza\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de todas as regras e direitos trabalhistas. A\u00ed se faz uma Reforma da Previd\u00eancia hoje e daqui a cinco anos outra, daqui a dez anos mais uma e para sempre at\u00e9 n\u00e3o ter mais o sistema de previd\u00eancia, e isso tamb\u00e9m com os direitos trabalhistas, at\u00e9 n\u00e3o haver mais direito trabalhista algum.<\/p>\n<p>Crise moral<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o horizonte. Agora, tem uma quest\u00e3o que \u00e9 interessante: por que se tem uma passividade da popula\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a isso? Porque a crise \u00e9 um discurso moral. Um discurso moral \u00e9 mais ou menos um jogo de virtudes: s\u00f3 aquele que tem a virtude da coragem sobreviver\u00e1, ou seja, se tem coragem de assumir riscos, de ter sua for\u00e7a empreendedora de operar inova\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o a crise n\u00e3o o afetar\u00e1; a crise afeta aqueles que s\u00e3o paralisados \u2013 os covardes \u2013 ou aqueles que agem como crian\u00e7as mimadas e que esperam o amparo de algum tipo de Estado protetor ou Estado-provid\u00eancia.<\/p>\n<p>O sujeito que se v\u00ea fracassado economicamente se v\u00ea fracassado moralmente. Assim vai se criando uma situa\u00e7\u00e3o na qual a responsabilidade da impossibilidade de inser\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica \u00e9 colocada nas costas, \u00fanica e exclusivamente, dos indiv\u00edduos. N\u00e3o \u00e9 por outra raz\u00e3o que temos patologias da a\u00e7\u00e3o da disfun\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos, como a depress\u00e3o. O que \u00e9 interessante \u00e9 a incapacidade de desenvolver um trabalho sistem\u00e1tico para quebrar esse tipo de argumento.<\/p>\n<p>Patrimonialismo econ\u00f4mico<\/p>\n<p>Todos os dados que vemos nos \u00faltimos quatro ou cinco anos mostra qu\u00e3o patrimonialista \u00e9 o nosso modelo econ\u00f4mico; qu\u00e3o imperme\u00e1vel \u00e0 concorr\u00eancia ele \u00e9; qu\u00e3o impenetr\u00e1vel o empreendedorismo \u00e9. O fato \u00e9 que no sentido mais tradicional e tosco do termo, a entrada na vida social com capital vindo de heran\u00e7a do patrim\u00f4nio familiar \u00e9 decisiva. Isso porque chegamos a uma situa\u00e7\u00e3o em que \u00e9 muito f\u00e1cil n\u00e3o trabalhar quando se tem heran\u00e7a, sobretudo em um pa\u00eds que tem 14,75% de taxa de juros. Por exemplo, se tenho R$ 3 milh\u00f5es no banco e eu sei jogar um pouco com o sistema financeiro, eu n\u00e3o trabalho mais, eu n\u00e3o preciso. Isso tem um padr\u00e3o mundial. Se uma pessoa tem tr\u00eas ou quatro im\u00f3veis, pode se transformar, simplesmente, em um gestor dos pr\u00f3prios im\u00f3veis desse sistema e n\u00e3o precisar\u00e1 fazer mais nada, absolutamente nada.<\/p>\n<p>Acho engra\u00e7ado que um dos discursos mais cont\u00ednuos hoje do conservador brasileiro \u00e9 o prazer quase infantil que as pessoas t\u00eam de sair na rua e gritar ou chamar os outros de vagabundo. Sempre achei isso muito engra\u00e7ado, pois o sujeito reclama contra um negro que tem uma cota, contra o outro que recebe um aux\u00edlio de Bolsa Fam\u00edlia, mas, vagabundo por vagabundo, quem realmente n\u00e3o trabalha neste pa\u00eds? Quem de fato nunca precisou trabalhar?<\/p>\n<p>Rentismo<\/p>\n<p>Tenho amigos que nunca trabalharam porque fizeram uma coisa aqui, outra ali, trabalharam alguns anos e chegaram aos 50 anos e n\u00e3o trabalham mais. Todos n\u00f3s conhecemos pessoas assim, eles est\u00e3o presentes nas grandes cidades brasileiras, operando seu patrim\u00f4nio, esperando um parente morrer para sua renda aumentar. No Brasil o imposto sobre heran\u00e7a vai no m\u00e1ximo a 4%, enquanto nos Estados Unidos o imposto pode chegar a 40%, o que obriga \u00e0 filantropia, pois ningu\u00e9m vai dar 40% para o Estado podendo fazer marketing pessoal. Ou seja, em um pa\u00eds como o nosso, \u00e9 muito dif\u00edcil n\u00e3o ter a impress\u00e3o de que o sistema econ\u00f4mico \u00e9 constitu\u00eddo simplesmente para fazer a defesa do patrim\u00f4nio, nada mais do que isso. Se eu tiver tr\u00eas im\u00f3veis, consigo n\u00e3o declarar no Imposto de Renda se eu alug\u00e1-los. No entanto, se eu vir aqui e receber R$ 300 pela palestra e me esquecer de colocar isso no imposto, pode ter certeza de que serei multado.<\/p>\n<p>Fal\u00eancia do Estado brasileiro<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Como o senhor enxerga esse movimento dos jovens, que est\u00e1 sendo constitu\u00eddo pelos estudantes com as ocupa\u00e7\u00f5es nas escolas?<\/p>\n<p>Vladimir Safatle \u2013 Eu poderia dizer que se trata de uma juventude absolutamente fant\u00e1stica pela sua capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o, pela capacidade de estabelecer pautas absolutamente decisivas, mas eu queria insistir em outro aspecto. Eu vejo isso como uma vergonha profunda, porque um pa\u00eds que chega a um ponto em que seus estudantes precisam ocupar uma escola porque eles querem ter aula, porque eles n\u00e3o querem que a escola seja fechada e sucateada, enfim. Voc\u00eas conseguem imaginar o que isso significa? Isso n\u00e3o tem nada a ver com esquerda ou com direita, isso n\u00e3o \u00e9 uma discuss\u00e3o sobre esquerdismo ou pensamento conservador, isso \u00e9 uma discuss\u00e3o sobre fal\u00eancia completa do Estado brasileiro.<\/p>\n<p>Mesmo em um pa\u00eds governado por conservadores n\u00e3o se fecham escolas. Pode ser que cobrem nas universidades ou nos demais n\u00edveis de ensino, mas n\u00e3o conhe\u00e7o nenhum lugar que tenha fechado. Isso significa muito claramente como temos um sistema de defesa de casta, de casta pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Anti-intelectualismo<\/p>\n<p>As escolas s\u00e3o fechadas por duas raz\u00f5es: primeiro, porque a casta que nos governa \u00e9 uma casta que consegue se perpetuar, ela n\u00e3o tem mais nenhum tipo de medo \u2013 porque a rela\u00e7\u00e3o que o pol\u00edtico tem que ter com a sociedade \u00e9 de medo, se o pol\u00edtico n\u00e3o teme mais a sociedade, acabou. Por exemplo, em S\u00e3o Paulo temos a mesma casta governando h\u00e1 20 anos. Uma das coisas mais engra\u00e7adas que achei dessa situa\u00e7\u00e3o toda foi uma declara\u00e7\u00e3o do Paulo Maluf que falava: &#8220;eu nunca fechei escola, eu abri escola.\u201d E, de fato, \u00e9 uma maneira caricata de falar que estamos em uma situa\u00e7\u00e3o em que n\u00e3o tem nem mais esse discurso de que educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade s\u00e3o priorit\u00e1rias.<\/p>\n<p>H\u00e1 outro elemento, que vem justificado por certo anti-intelectualismo que \u00e9 muito forte na sociedade brasileira, e que desde o come\u00e7o da Nova Rep\u00fablica tornou-se uma esp\u00e9cie de &#8220;acordo\u201d para colocar esse anti-intelectualismo para fora. Sempre houve uma parcela da popula\u00e7\u00e3o que ficava falando que as universidades brasileiras n\u00e3o produzem nada, &#8220;s\u00e3o antros de marxismo\u201d. Entretanto, olha que engra\u00e7ado, fui fazer meu curso de filosofia na Universidade de S\u00e3o Paulo &#8211; USP e eu nunca tive uma aula de Marx, se pegar meu curr\u00edculo ver\u00e3o que \u00e9 verdade; tive aula sobre [Thomas] Hobbes, [2] sobre [John] Locke, [3] mas sobre o Marx eu n\u00e3o tive, logo, tem uma coisa estranha aqui.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 uma s\u00e9rie de respons\u00e1veis, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o pensamento conservador&#8221;<\/p>\n<p>A fantasia da genialidade<\/p>\n<p>Isso sempre esteve presente, porque faz parte de um imagin\u00e1rio de certa parcela da popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o consegue ser reconhecida na sua &#8220;genialidade\u201d, pois o sujeito pensa que tem uma genialidade inacredit\u00e1vel, ent\u00e3o se volta contra a universidade e contra a Constitui\u00e7\u00e3o. Esse tipo de l\u00f3gica do ressentimento todo mundo conhece. No entanto, isso ganhou o direito de cidade, de fala, direitos de express\u00e3o por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es.<\/p>\n<p>Porque, em \u00faltima inst\u00e2ncia, mesmo certos intelectuais conservadores fizeram um flerte inacredit\u00e1vel com os intelectuais mais toscos e prim\u00e1rios, a ponto de eles nos deixarem com saudade de uma \u00e9poca em que se tinha como pensamento conservador o Jos\u00e9 Guilherme Merquior, [4] que podia ter todos os defeitos que tinha, mas pelo menos lia o que criticava, o que j\u00e1 \u00e9 pedir demais nos dias hoje. Ou algu\u00e9m como Golbery do Couto e Silva, se f\u00f4ssemos \u00e0 biblioteca do sujeito encontrar\u00edamos os livros de quem ele criticava, porque partia-se do pressuposto que voc\u00ea tinha que entender seu inimigo.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que se reduziu o discurso intelectual no Brasil a uma l\u00f3gica de esconjura\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o n\u00e3o faz mais sentido nenhum esperar que se tenha uma forma\u00e7\u00e3o efetiva para preparar as pessoas para alguma forma de debate. H\u00e1 uma s\u00e9rie de respons\u00e1veis, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o pensamento conservador.<\/p>\n<p>Mesmo no interior da esquerda h\u00e1 uma incapacidade da intelectualidade de se colocar como uma for\u00e7a cr\u00edtica, como se a ideia de cr\u00edtica j\u00e1 fosse um crime de lesa-majestade, j\u00e1 fosse um tipo de imposi\u00e7\u00e3o de classe. Assim, d\u00e1-se a impress\u00e3o de que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma raz\u00e3o de fazer a defesa da forma dif\u00edcil, da experi\u00eancia complexa e daquilo que de certa maneira te tira do lugar.<\/p>\n<p>Discurso religioso<\/p>\n<p>Para finalizar, temos uma parcela dos discursos religiosos brasileiros, em especial dos evang\u00e9licos, que fazem um trabalho prim\u00e1rio nesse sentido, pois acreditam que s\u00f3 existe um livro para ser lido, que nenhum outro \u00e9 necess\u00e1rio e, al\u00e9m disso, que todos os demais devem ser criticados. No Brasil, essas igrejas ganharam for\u00e7a na Ditadura Militar n\u00e3o por acaso; se olharmos de onde v\u00eam os direitos de retransmiss\u00e3o de televis\u00e3o e r\u00e1dio, verificaremos que na \u00e9poca da Ditadura eles sobem vertiginosamente, porque era a maneira de utilizar o setor mais reacion\u00e1rio das igrejas norte-americanas que estavam vindo para c\u00e1 como uma contrabalan\u00e7a ao que eram as alas dos progressistas da Igreja.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos teremos, do ponto de vista pol\u00edtico e religioso, alas conservadoras e progressistas \u2013 basta lembrar que Martin Luther King era um pastor e uma pessoa que teve um papel absolutamente decisivo nos debates sobre direitos humanos. Certamente ele morreria de tristeza de ver o tipo de interven\u00e7\u00e3o que temos hoje em rela\u00e7\u00e3o a certos problemas ligados a direitos humanos vindos dessas igrejas. Ent\u00e3o, tudo isso foi se alimentando e retroalimentando, criando uma situa\u00e7\u00e3o como essa.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>[1] Karl Marx (Karl Heinrich Marx, 1818-1883): fil\u00f3sofo, cientista social, economista, historiador e revolucion\u00e1rio alem\u00e3o, um dos pensadores que exerceram maior influ\u00eancia sobre o pensamento social e sobre os destinos da humanidade no s\u00e9culo XX. Leia a edi\u00e7\u00e3o n\u00famero 41 dos Cadernos IHU ideias, de autoria de Leda Maria Paulani, que tem como t\u00edtulo A (anti)filosofia de Karl Marx. Tamb\u00e9m sobre o autor, confira a edi\u00e7\u00e3o n\u00famero 278 da IHU On-Line, de 20-10-2008, intitulada A financeiriza\u00e7\u00e3o do mundo e sua crise. Uma leitura a partir de Marx. Leia, igualmente, a entrevista Marx: os homens n\u00e3o s\u00e3o o que pensam e desejam, mas o que fazem, concedida por Pedro de Alc\u00e2ntara Figueira \u00e0 edi\u00e7\u00e3o 327 da IHU On-Line, de 03-05-2010. A IHU On-Line preparou uma edi\u00e7\u00e3o especial sobre desigualdade inspirada no livro de Thomas Piketty O Capital no S\u00e9culo XXI, que retoma o argumento central da obra de Marx O Capital. (Nota da IHU On-Line)<\/p>\n<p>[2] Thomas Hobbes (1588\u20131679): fil\u00f3sofo ingl\u00eas. Sua obra mais famosa, O Leviat\u00e3 (1651), trata de teoria pol\u00edtica. Neste livro, Hobbes nega que o homem seja um ser naturalmente social. Afirma, ao contr\u00e1rio, que os homens s\u00e3o impulsionados apenas por considera\u00e7\u00f5es ego\u00edstas. Tamb\u00e9m escreveu sobre f\u00edsica e psicologia. Hobbes estudou na Universidade de Oxford e foi secret\u00e1rio de Sir Francis Bacon. A respeito desse fil\u00f3sofo, confira a entrevista O conflito \u00e9 o motor da vida pol\u00edtica, concedida pela Profa. Dra. Maria Isabel Limongi \u00e0 edi\u00e7\u00e3o 276 da revista IHU On-Line, de 06-10-2008. (Nota da IHU On-Line)<\/p>\n<p>[3] John Locke (1632-1704): fil\u00f3sofo ingl\u00eas e ide\u00f3logo do liberalismo, sendo considerado o principal representante do empirismo brit\u00e2nico e um dos principais te\u00f3ricos do contrato social. Locke rejeitava a doutrina das ideias inatas e afirmava que todas as nossas ideias tinham origem no que era percebido pelos sentidos. A filosofia da mente de Locke \u00e9 frequentemente citada como a origem das concep\u00e7\u00f5es modernas de identidade e do &#8220;Eu&#8221;. O conceito de identidade pessoal, seus conceitos e questionamentos figuraram com destaque na obra de fil\u00f3sofos posteriores, como David Hume, Jean-Jacques Rousseau e Kant. Locke foi o primeiro a definir o &#8220;si mesmo&#8221; atrav\u00e9s de uma continuidade de consci\u00eancia. Ele postulou que a mente era uma lousa em branco (tabula rasa). Em oposi\u00e7\u00e3o ao Cartesianismo, ele sustentou que nascemos sem ideias inatas, e que o conhecimento \u00e9 determinado apenas pela experi\u00eancia derivada da percep\u00e7\u00e3o sensorial. O pensador escreveu o Ensaio acerca do Entendimento Humano, onde desenvolve sua teoria sobre a origem e a natureza do conhecimento. Suas ideias ajudaram a derrubar o absolutismo na Inglaterra. Dizia que todos os homens, ao nascer, tinham direitos naturais &#8211; direito \u00e0 vida, \u00e0 liberdade e \u00e0 propriedade. Para garantir esses direitos naturais, os homens haviam criado governos. Se esses governos, contudo, n\u00e3o respeitassem a vida, a liberdade e a propriedade, o povo tinha o direito de se revoltar contra eles. As pessoas podiam contestar um governo injusto e n\u00e3o eram obrigadas a aceitar suas decis\u00f5es. Dedicou-se tamb\u00e9m \u00e0 filosofia pol\u00edtica. No Primeiro Tratado sobre o Governo Civil, critica a tradi\u00e7\u00e3o que afirmava o direito divino dos reis, declarando que a vida pol\u00edtica \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o humana, completamente independente das quest\u00f5es divinas. No Segundo Tratado sobre o Governo Civil, exp\u00f5e sua teoria do Estado liberal e a propriedade privada. (Nota da IHU On-Line)<\/p>\n<p>[4] Jos\u00e9 Guilherme Alves Merquior (1941-1991): foi um cr\u00edtico liter\u00e1rio, ensa\u00edsta, diplomata e soci\u00f3logo brasileiro. Professor universit\u00e1rio, foi um pensador que se definia politicamente como um liberal social, mas seu pensamento se enquadra naquilo que \u00e9 correntemente compreendido como &#8220;social-liberalismo&#8221;. \u00c9 considerado um dos maiores divulgadores do liberalismo no Brasil. Escritor prol\u00edfico, foi membro da Academia Brasileira de Letras. (Nota da IHU On-Line)<\/p>\n<p>http:\/\/site.adital.com.br\/site\/noticia.php?lang=PT&#038;cod=89106<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ricardo Machado &#8211; Entrevista com Vladimir Safatle &#8220;Estamos em um momento de triplo esgotamento: de uma era hist\u00f3rica, de um modelo de desenvolvimento e da esquerda brasileira\u201d, analisa Vladimir Safatle. 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