{"id":8042,"date":"2018-05-08T09:20:19","date_gmt":"2018-05-08T12:20:19","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=8042"},"modified":"2018-05-08T09:14:33","modified_gmt":"2018-05-08T12:14:33","slug":"as-tres-criticas-de-marx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/05\/08\/as-tres-criticas-de-marx\/","title":{"rendered":"As tr\u00eas cr\u00edticas de Marx"},"content":{"rendered":"<p><strong>Esquerda.net<\/strong> &#8211; Nem filosofia da hist\u00f3ria, nem sociologia de classes, nem sistema de economia, o que \u00e9 ent\u00e3o a teoria de Marx? Excertos do livro &#8220;Marx, o Intempestivo&#8221;, de Daniel Bensa\u00efd.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de opor um Marx original e aut\u00eantico \u00e0s suas imita\u00e7\u00f5es, nem de restabelecer uma verdade h\u00e1 muito confiscada, mas de sacudir o sono pesado das ortodoxias. Uma obra t\u00e3o m\u00faltipla vive da diversidade e dos contrastes das suas interpreta\u00e7\u00f5es. A pluralidade contradit\u00f3ria dos \u00abmarxismos\u00bb institu\u00eddos encontra%u211se inscrita na indecidibilidade relativa de um texto que liga indissoluvelmente a decifragem cr\u00edtica dos hier\u00f3glifos sociais e a subvers\u00e3o pr\u00e1tica da ordem estabelecida. Relevando uma voz cr\u00edtica direta, uma voz pol\u00edtica \u00absempre excessiva, j\u00e1 que o excesso \u00e9 a sua \u00fanica medida\u00bb, e uma voz indireta do discurso cient\u00edfico, Maurice Blanchot nota que \u00aba disparidade preserva o conjunto\u00bb destes discursos: eles n\u00e3o s\u00e3o justapostos, mas entrela\u00e7ados, misturados. A diversidade dos registos n\u00e3o se confunde com o ecletismo vulgar e \u00abMarx n\u00e3o vive confortavelmente com essa pluralidade de linguagens que se chocam e se dissociam em si pr\u00f3prio\u00bb.<\/p>\n<p>Dividido entre o seu fasc\u00ednio pelo modelo f\u00edsico da ci\u00eancia positiva e a sua fidelidade \u00e0 \u00abci\u00eancia alem\u00e3\u00bb, entre o apelo das sereias do progresso e a recusa dos seus para\u00edsos artificiais, Marx discute com a sua pr\u00f3pria sombra e debate%u211se com os seus pr\u00f3prios espectros. Atravessado por contradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o resolvidas, o seu pensamento n\u00e3o \u00e9, certamente, homog\u00e9neo de uma ponta \u00e0 outra. O que n\u00e3o significa que seja incoerente ou inconsistente. O n\u00facleo do seu programa de investiga\u00e7\u00e3o permite, sempre, interrogar o nosso universo na perspetiva de mudar o mundo. N\u00e3o se coaduna com colagens ecl\u00e9ticas ou bricolages medi\u00e1ticos. N\u00e3o uma doutrina, portanto, mas a teoria de uma pr\u00e1tica suscet\u00edvel de v\u00e1rias leituras. N\u00e3o quaisquer leituras. Nem tudo \u00e9 permitido em nome da livre%u211interpreta\u00e7\u00e3o, nem tudo se vale. O texto e o contexto definem os limites, delimitam um campo de variantes compat\u00edveis com as suas pr\u00f3prias aporias, e invalidam por conseguinte o que releva do contrassenso.<\/p>\n<p>Por isso a teoria de Marx pode ser definida quer como uma filosofia da hist\u00f3ria, do seu sentido, do seu t\u00e9rmino; quer como uma sociologia das classes e como um m\u00e9todo de classifica\u00e7\u00e3o; quer, finalmente, como um ensaio de economia cient\u00edfica. Nenhuma destas teses resiste a uma leitura rigorosa. Se n\u00e3o \u00e9 facil dizer o que \u00e9 a teoria de Marx, \u00e9 poss\u00edvel, pelo menos, esclarecer aquilo que ela n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma filosofia especulativa da hist\u00f3ria. Desconstru\u00e7\u00e3o declarada da Hist\u00f3ria universal, ela abre caminho a uma hist\u00f3ria que n\u00e3o promete qualquer salva\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o vem for\u00e7osamente reparar a injusti\u00e7a, n\u00e3o nos faz sequer arrepiar. Esta \u00abhist\u00f3ria profana\u00bb aparece da\u00ed em diante como um devir incerto, determinado conjuntamente pela luta e pela necessidade. N\u00e3o se trata, portanto, de fundar uma nova filosofia da hist\u00f3ria de sentido \u00fanico, mas de explorar \u00abuma nova maneira de escrever hist\u00f3ria\u00bb, de que os\u00a0<i>Grundrisse<\/i>\u00a0prop\u00f5em o alfabeto.\u00a0<i>O Capital<\/i>\u00a0implementa assim, indissociavelmente, uma nova representa\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria e uma organiza\u00e7\u00e3o conceptual do tempo como rela\u00e7\u00e3o social: ciclos e rota\u00e7\u00f5es, ritmos e crises, momentos e contratempos estrat\u00e9gicos. A antiga filosofia da hist\u00f3ria extingue%u211se, deste modo, na cr\u00edtica do fetichismo mercantil, por um lado, e na subvers\u00e3o pol\u00edtica da ordem estabelecida, por outro lado.<\/p>\n<p>A teoria de Marx tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma sociologia emp\u00edrica das classes. Contra a racionalidade positiva, que ordena e classifica, que inventaria e repertoria, que apazigua e pacifica, ela apreende a din\u00e2mica do conflito social e torna intelig\u00edvel a fantasmagoria mercantil. N\u00e3o que os diversos antagonismos (sexuais, hier\u00e1rquicos, nacionais) sejam redut\u00edveis \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de classe. A diagonal da frente de classe liga%u211os entre si e condiciona%u211os sem os confundir. Nesta perspetiva, o outro (o estrangeiro pela sua religi\u00e3o, pelas suas tradi\u00e7\u00f5es, pela sua origem, pela sua capela ou pelo seu bairro) pode sempre tornar%u211se um outro eu, num processo de universaliza\u00e7\u00e3o real. \u00c9 por essa raz\u00e3o que as classes n\u00e3o s\u00e3o, nunca, objetos ou categorias de classifica\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica, mas a pr\u00f3pria express\u00e3o do devir hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, a teoria de Marx n\u00e3o \u00e9 uma ci\u00eancia positiva da economia, conforme ao paradigma ent\u00e3o dominante da f\u00edsica cl\u00e1ssica. Contempor\u00e2nea das ci\u00eancias da evolu\u00e7\u00e3o e dos progressos da termodin\u00e2mica, ela resiste \u00e0 racionalidade parcelar e unilateral da divis\u00e3o do trabalho cient\u00edfico. Tanto mais quanto a estranha coreografia das mercadorias e das moedas a orienta para l\u00f3gicas ainda desconhecidas dos sistemas e da informa\u00e7\u00e3o. Se, por um lado, seria anacr\u00f3nico consider\u00e1%u211la pioneira consciente da epistemologia mais recente, por outro lado \u00e9 claro que o comportamento irregular do capital a conduz para caminhos inexplorados. Marx encontra a\u00ed, paradoxalmente, as ambi\u00e7\u00f5es sint\u00e9ticas da velha metaf\u00edsica, que ele reivindica explicitamente como \u00abci\u00eancia alem\u00e3\u00bb (<i>deutsche Wissenschaft<\/i>). Essa tradi\u00e7\u00e3o ressuscitada permite%u211lhe abordar as l\u00f3gicas n\u00e3o%u211lineares, as leis tendenciais, as necessidades condicionais do que Gramsci designara subtilmente como \u00abuma nova iman\u00eancia\u00bb.<\/p>\n<p>Estas tr\u00eas cr\u00edticas \u2013 a da raz\u00e3o hist\u00f3rica, a da raz\u00e3o econ\u00f3mica e a da positividade cient\u00edfica \u2013 correspondem%u211se e completam%u211se. Elas inscrevem%u211se perfeitamente no \u00e2mbito das interroga\u00e7\u00f5es atuais sobre o fim da hist\u00f3ria e a representa\u00e7\u00e3o do tempo, sobre a rela\u00e7\u00e3o da luta de classes com os outros modos de conflitualidade, sobre o destino das ci\u00eancias duras, corro\u00eddas pelas incertezas das ci\u00eancias narrativas. Nem filosofia da hist\u00f3ria, nem sociologia de classes, nem sistema de economia, o que \u00e9 ent\u00e3o a teoria de Marx? Digamos, a t\u00edtulo provis\u00f3rio: n\u00e3o \u00e9 um sistema doutrin\u00e1rio, mas uma teoria cr\u00edtica da luta social e da mudan\u00e7a do mundo.<\/p>\n<p><b>Marx, teleologia e mercado<\/b><b><\/b><\/p>\n<p>Ao introduzir a hist\u00f3ria na economia da mesma forma que Hegel temporaliza a l\u00f3gica, Marx imagina uma economia rodopiante, cujos c\u00edrculos dos c\u00edrculos e figuras vertiginosas fascinam hoje os f\u00edsicos do caos: \u00abEfetivamente, os ciclos econ\u00f3micos, aproximadamente peri\u00f3dicos, foram observados. Em n\u00edveis ainda mais elevados do desenvolvimento tecnol\u00f3gico, \u00e9 poss\u00edvel ter uma sobreposi\u00e7\u00e3o de dois ou tr\u00eas n\u00edveis suficientemente elevados de desenvolvimento, devendo existir\u00a0<i>uma economia turbulenta com varia\u00e7\u00f5es irregulares e uma depend\u00eancia sensitiva das condi\u00e7\u00f5es iniciais.<\/i>\u00a0\u00c9 razo\u00e1vel afirmar que vivemos agora numa tal economia\u00bb. De forma que, \u00abse tentarmos fazer uma an\u00e1lise mais quantitativa, trope\u00e7amos imediatamente no facto de que os ciclos e outras flutua\u00e7\u00f5es da economia t\u00eam lugar sobre um fundo geral de crescimento\u00bb<sup><a href=\"https:\/\/www.esquerda.net\/dossier\/tres-criticas-de-marx\/54627#footnote-1\">[1]<\/a><\/sup>. N\u2019<i>O<\/i>\u00a0<i>Capital<\/i>, a organiza\u00e7\u00e3o conceptual do tempo p\u00f5e precisamente em evid\u00eancia esta sobreposi\u00e7\u00e3o de diferentes periodicidades (tempo de trabalho, distinto do tempo de produ\u00e7\u00e3o, ciclos ass\u00edncronos da produ\u00e7\u00e3o, da circula\u00e7\u00e3o, da reprodu\u00e7\u00e3o, rota\u00e7\u00f5es articuladas de capital fixo e capital circulante). Ela torna intelig\u00edveis as varia\u00e7\u00f5es irregulares duma economia turbulenta do desequil\u00edbrio, que contradiz permanentemente as quantifica\u00e7\u00f5es provis\u00f3rias do equil\u00edbrio, sob o efeito retroativo da determina\u00e7\u00e3o temporal do valor pelos pre\u00e7os.<\/p>\n<p>A economia din\u00e2mica de Marx apresenta%u211se j\u00e1 como um sistema inst\u00e1vel, sens\u00edvel \u00e0s condi\u00e7\u00f5es iniciais. Ela anuncia, nos seus pr\u00f3prios limites, a teoria geral dos sistemas, a ecodin\u00e2mica, o pensamento ecol\u00f3gico. O capital gira sobre si mesmo, fragmenta%u211se em tor\u00e7\u00f5es e flex\u00f5es. As rela\u00e7\u00f5es sociais exibem nessas formas fragmentadas a sua coreografia surpreendente<sup><a href=\"https:\/\/www.esquerda.net\/dossier\/tres-criticas-de-marx\/54627#footnote-2\">[2]<\/a><\/sup>. Estas raz\u00f5es ca\u00f3ticas s\u00e3o as da l\u00f3gica dial\u00e9tica d\u2019<i>O Capital.\u00a0<\/i>Como as \u00abfor\u00e7as diretrizes\u00bb de Claude Bernard, as suas leis tendenciais reabilitam as causalidades m\u00faltiplas (funcionais, estruturais, rec\u00edprocas, morfol\u00f3gicas, fechadas, acidentais, meton\u00edmicas, simb\u00f3licas) durante muito tempo desdenhadas unicamente em prol da causalidade mec\u00e2nica. As curvas de pre\u00e7os enrolam%u211se em torno de um valor virtual. A igualiza\u00e7\u00e3o do valor de mercado para alcan\u00e7ar o valor real \u00ab\u00e9 obtida pelas\u00a0<i>oscila\u00e7\u00f5es constantes\u00a0<\/i>do primeiro\u00bb. Diferentemente das leis abstratas da f\u00edsica cl\u00e1ssica, a lei do valor imp\u00f5e%u211se como \u00abliga\u00e7\u00e3o interna\u00bb e \u00abestrutura interna oculta\u00bb. \u00abOrdem da desordem\u00bb, a lei do valor rege assim, do interior, do jogo das apar\u00eancias, como uma esp\u00e9cie de atractor estranho que controlaria os desvios do mercado. Nos pontos singulares das bifurca\u00e7\u00f5es abertas \u00e0 esperan\u00e7a aplica%u211se a escolha estrat\u00e9gica, a mira do arqueiro h\u00e1bil a alcan\u00e7ar as realidades poss\u00edveis em pleno voo.<\/p>\n<p>A querela, muitas vezes obscura, em torno da teleologia ganha, assim, nova luz. Marx saudou calorosamente o \u00abgolpe mortal\u00bb infligido por Darwin \u00ab\u00e0 teleologia nas ci\u00eancias da natureza\u00bb. Este entusiasmo \u00e9 coerente com a sua admira\u00e7\u00e3o por Espinosa, cuja filosofia da subst\u00e2ncia exclui qualquer recurso \u00e0s causas finais: \u00abA natureza n\u00e3o tem nenhum fim que lhe esteja prescrito e todas as causas finais n\u00e3o s\u00e3o mais que fic\u00e7\u00f5es dos homens\u00bb.<\/p>\n<p>O que Marx apoia, em Darwin, \u00e9 o combate contra a velha teleologia religiosa, que atribui \u00e0 hist\u00f3ria do mundo um destino e um fim providenciais. Mas um comportamento sist\u00e9mico autoregulado, condicionado e orientado pela estabilidade de um estado final, pode ser chamada teleol\u00f3gico num sentido completamente diferente. A teoria dos sistemas traz nova luz a uma dificuldade antiga. A \u00abci\u00eancia alem\u00e3\u00bb nunca renunciou \u00e0 teleologia em benef\u00edcio exclusivo da causalidade mec\u00e2nica. Kant reivindica esta teleologia como estrita \u00abfinalidade interna\u00bb. Schelling evoca a natureza como \u00abum todo organizado a partir de si mesmo e organizando%u211se a si mesmo\u00bb. A doutrina hegeliana do conceito desenvolve a\u00a0<i>teleologia da vida:\u00a0<\/i>\u00abA teleologia encontra%u211se, por excel\u00eancia, em oposi\u00e7\u00e3o ao mecanicismo, no qual a determinidade colocada no objeto \u00e9 essencialmente \u2013 na medida em que \u00e9 exterior \u2013, uma determinidade em que n\u00e3o se manifesta nenhuma outra determina\u00e7\u00e3o [\u2026]. Podemos dizer da atividade teleol\u00f3gica que, nela, o fim \u00e9 o come\u00e7o, a consequ\u00eancia o fundamento, o efeito a causa, que ela \u00e9 um devir do que deveio [\u2026].\u00bb Concebida como a\u00e7\u00e3o orientada para um objetivo, inscrita na iman\u00eancia dos processos reais, trata%u211se agora de uma teleologia laicizada, cujo conte\u00fado \u00e9 renovado pelos contributos da ci\u00eancia contempor\u00e2nea sobre a auto%u211organiza\u00e7\u00e3o, a regula\u00e7\u00e3o em c\u00edrculo e os controlos homeost\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Em Marx, a rela\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os com o valor, o papel da moeda como pressuposto da pr\u00f3pria circula\u00e7\u00e3o, o papel do mercado como pressuposto do trabalho abstrato, s\u00e3o outros tantos sinais da passagem do ponto de vista mecanicista ao ponto de vista teleol\u00f3gico, assim compreendido. O capital enquanto sujeito, a troca org\u00e2nica, a autodetermina\u00e7\u00e3o do valor, surgem como momentos de uma totalidade cuja din\u00e2mica rigorosamente imanente n\u00e3o deixa subsistir qualquer exterioridade<sup><a href=\"https:\/\/www.esquerda.net\/dossier\/tres-criticas-de-marx\/54627#footnote-3\">[3]<\/a><\/sup>. Da mesma maneira, o lucro m\u00e9dio do capital individual n\u00e3o \u00e9 imediatamente determinado pelo trabalho excedente extra\u00eddo diretamente da produ\u00e7\u00e3o, mas\u00a0<i>a posteriori<\/i>, pela quantidade total de trabalho excedente extorquido pelo capital total. O capital individual recebe, assim, uma parte proporcional \u00e0 que det\u00e9m no capital total.<\/p>\n<p>Deste ponto de vista, a ordem do capital \u00e9 teleol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Ao eliminar as causas finais (bem como os conceitos de organiza\u00e7\u00e3o, de totalidade, de diretividade), o paradigma determinista cl\u00e1ssico foi extraordinariamente fecundo para as ci\u00eancias f\u00edsicas. O vitalismo, pelo contr\u00e1rio, continuava a ser suspeito de nostalgias teleol\u00f3gicas com laivos m\u00edsticos. Inerente \u00e0s ci\u00eancias da vida, essa tenta\u00e7\u00e3o explicava no entanto, \u00e0 sua maneira, o funcionamento retroativo e os efeitos de reciprocidade dos sistemas. A causalidade mec\u00e2nica, de sentido \u00fanico, n\u00e3o representa os comportamentos adaptativos regulados pela procura de um estado final. A teleologia reaparece assim, n\u00e3o como o cumprimento de um destino ou como a persegui\u00e7\u00e3o de um objetivo fixado exteriormente, mas como autoregula\u00e7\u00e3o imanente \u00e0 procura de um estado estacion\u00e1rio. Embora a interpreta\u00e7\u00e3o dos acontecimentos, \u00e0 luz deste estado final, seja prop\u00edcia \u00e0s fantasmagorias religiosas do melhor dos mundos poss\u00edveis, essa finalidade pode tomar um sentido diferente do antropom\u00f3rfico. Ind\u00edcio de uma \u201cdepend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao futuro\u00bb, ela significa ent\u00e3o um efeito de \u00abcausalidade inversa\u00bb, cujas condi\u00e7\u00f5es futuras determinam a orienta\u00e7\u00e3o do processo.<\/p>\n<p>Considerando o capital como uma rela\u00e7\u00e3o social din\u00e2mica em desequil\u00edbrio cr\u00f3nico, Marx vislumbra, sem poder ainda decifr\u00e1%u211los, \u00abos vest\u00edgios do caos sobre a areia do tempo<sup><a href=\"https:\/\/www.esquerda.net\/dossier\/tres-criticas-de-marx\/54627#footnote-4\">[4]<\/a><\/sup>\u00bb. Num caminho de preenchimentos e singularidades hist\u00f3ricas inacess\u00edveis ao aperfei\u00e7oamento exclusivo do c\u00e1lculo, a sua ci\u00eancia \u00e9, em primeiro lugar, uma cr\u00edtica das formas de mercado.<\/p>\n<p>Se j\u00e1 n\u00e3o se trata apenas de interpretar o mundo, trata-se de qu\u00ea?<\/p>\n<p>De mud\u00e1-lo, sem d\u00favida.<\/p>\n<p>Por vezes, Marx parece anunciar o devir ci\u00eancia da filosofia, como se a certeza positiva das Luzes devesse prevalecer definitivamente sobre as obscuras incertezas hermen\u00eauticas. O seu pref\u00e1cio d\u2019<i>OCapital\u00a0<\/i>come\u00e7a, assim, por prestar uma sentida homenagem \u00e0s leis naturais da f\u00edsica, mas termina sublinhando o car\u00e1ter pol\u00e9mico do conhecimento enquanto produ\u00e7\u00e3o social: \u00abSobre o terreno da economia pol\u00edtica, a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica livre encontra muitos mais inimigos que noutros campos de explora\u00e7\u00e3o.\u00bb Prisioneira das servid\u00f5es terrenas, esta investiga\u00e7\u00e3o livre, conforme \u00e0s imagens heroicizadas da ci\u00eancia e dos s\u00e1bios, permanece trivialmente sobre \u00abo campo de batalha\u00bb, onde encontra \u00abas paix\u00f5es mais vivas, as mais mesquinhas e as mais odiosas do cora\u00e7\u00e3o humano, todas as f\u00farias do interesse privado<sup><a href=\"https:\/\/www.esquerda.net\/dossier\/tres-criticas-de-marx\/54627#footnote-5\">[5]<\/a><\/sup>\u00bb. Cient\u00edfica em certo sentido e em certa medida, a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica \u00e9 assim condenada a enfrentar as ilus\u00f5es ideol\u00f3gicas da opini\u00e3o, sem poder fugir por completo ao engodo do fetichismo. Ela evoca e chama as subtilezas vindouras de \u00abmec\u00e2nica org\u00e2nica\u00bb, o conhecimento ondulante de uma desordem ordenada, em suma, uma outra forma de fazer ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Confrontado com os movimentos descont\u00ednuos e irregulares, em vez de se resignar e de renunciar a legiferar, o pensamento consegue agora, ao pre\u00e7o de um esfor\u00e7o colossal, conceber conjuntamente a ordem e a desordem, em vez de deixa%u211las exclu\u00edrem%u211se mutuamente. A desordem \u00e9 sempre a perturba\u00e7\u00e3o de uma ordem determinada, tal como a ordem \u00e9 sempre o regulador de uma desordem determinada. Os paradoxos da lei do valor ganham, assim, todo o seu sentido.<\/p>\n<p><i>Excertos do livro\u00a0<a href=\"https:\/\/combate.info\/?product=marx-o-intempestivo\">Marx, o Intempestivo,(link is external)<\/a>\u00a0de Daniel Bensa\u00efd, publicado pelas Edi\u00e7\u00f5es Combate.<\/i><\/p>\n<p><b><i>Daniel Bensa\u00efd (1946-2010)<\/i><\/b><i>, fil\u00f3sofo marxista, foi um dos dirigentes mais destacados do Maio de 68 e uma refer\u00eancia do pensamento marxista revolucion\u00e1rio do final do s\u00e9culo XX. Fundador da LCR francesa e depois do NPA (Novo Partido Anticapitalista), Bensaid acompanhou directamente a revolu\u00e7\u00e3o portuguesa colaborando com a LCI e PSR e participando em com\u00edcios e outras actividades pol\u00edticas nos anos de 1974 e 1975 e posteriores. Teve uma intensa coopera\u00e7\u00e3o com o Bloco de Esquerda desde a sua cria\u00e7\u00e3o. Publicou v\u00e1rios livros de ensaio pol\u00edtico, de debate e de filosofia, sobretudo sobre Karl Marx, Walter Benjamim e o pensamento socialista contempor\u00e2neo, e afirmou-se como um dos mais importantes pensadores revolucion\u00e1rios dos nossos tempos.<\/i><\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p><sup><a href=\"https:\/\/www.esquerda.net\/dossier\/tres-criticas-de-marx\/54627#footnote-marker-1-1\">^<\/a>\u00a0<\/sup><i>David Ruelle,\u00a0Hasard e chaos, Paris, Odile Jacob, 1991, p.110.<\/i><\/p>\n<p><sup><a href=\"https:\/\/www.esquerda.net\/dossier\/tres-criticas-de-marx\/54627#footnote-marker-2-1\">^<\/a>\u00a0<\/sup><i>\u00abAs turbul\u00eancias, os deslizamentos dos ciclones sobre os anticiclones, como sobre o mapa meteorol\u00f3gico. Os n\u00f3s de palha. Um conjunto de rela\u00e7\u00f5es. As nuvens de anjos que passam. Uma vez mais, a dan\u00e7a das chamas\u00bb (Michel Serres,\u00a0\u00c9claircissements, Paris, Flammarion, \u00abChamps\u00bb, p.180).<\/i><\/p>\n<p><sup><a href=\"https:\/\/www.esquerda.net\/dossier\/tres-criticas-de-marx\/54627#footnote-marker-3-1\">^<\/a>\u00a0<\/sup><i>Gramsci percebeu com acuidade esta ambival\u00eancia da teleologia: \u00abn\u00e3o haver\u00e1 na palavra e na conce\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o hist\u00f3rica uma raiz teleol\u00f3gica? De facto, em muitos casos, ela toma um valor equ\u00edvoco e m\u00edstico. Mas, noutros casos, tem uma significa\u00e7\u00e3o que, ap\u00f3s o conceito kantiano de teleologia, pode ser apoiada e justificado pela filosofia da praxis\u00bb. (Cahier de prison 11, op. cit., p.224).\u00a0<\/i><\/p>\n<p><sup><a href=\"https:\/\/www.esquerda.net\/dossier\/tres-criticas-de-marx\/54627#footnote-marker-4-1\">^<\/a>\u00a0<\/sup><i>Ian Stewart,\u00a0Dieu joue%u211t%u211il aux d\u00e8s?, op. cit.<\/i><\/p>\n<p><sup><a href=\"https:\/\/www.esquerda.net\/dossier\/tres-criticas-de-marx\/54627#footnote-marker-5-1\">^<\/a>\u00a0<\/sup><i>Karl Marx, pref\u00e1cio \u00e0 primeira edi\u00e7\u00e3o d\u2019O Capital,op.cit..<\/i><\/p>\n<p>https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Politica\/As-tres-criticas-de-Marx\/4\/40127<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esquerda.net &#8211; Nem filosofia da hist\u00f3ria, nem sociologia de classes, nem sistema de economia, o que \u00e9 ent\u00e3o a teoria de Marx? Excertos do livro &#8220;Marx, o Intempestivo&#8221;, de Daniel Bensa\u00efd. 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