{"id":8015,"date":"2018-05-05T15:19:08","date_gmt":"2018-05-05T18:19:08","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=8015"},"modified":"2018-05-04T11:22:02","modified_gmt":"2018-05-04T14:22:02","slug":"carta-de-genebra-desigualdades-no-mundo-do-trabalho-europeu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/05\/05\/carta-de-genebra-desigualdades-no-mundo-do-trabalho-europeu\/","title":{"rendered":"Carta de Genebra: Desigualdades no mundo do trabalho europeu"},"content":{"rendered":"<p><strong>Eduardo Camin<\/strong> &#8211; Nos \u00faltimos tempos, o debate internacional, em grande parte, tem se dedicado ao aumento das desigualdades e seus efeitos negativos sobre a economia e as sociedades. Recentemente foi publicada um novo informe da OIT (Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho), organizado por Daniel Vaughan-Whitehead, principal economista do \u00f3rg\u00e3o, que \u201caborda as causas profundas das desigualdades, ao analisar as diversas pol\u00edticas do mercado de trabalho e dos sistemas de rela\u00e7\u00f5es de trabalho\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que este tema n\u00e3o \u00e9 novo, mas o interessante \u00e9 o \u00e2ngulo com o qual se analisa esta investiga\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a maior parte das investiga\u00e7\u00f5es recentes analisam a desigualdade de remunera\u00e7\u00e3o. Por outro lado, a publica\u00e7\u00e3o considera tamb\u00e9m outras formas de desigualdade, como as relacionadas com a distribui\u00e7\u00e3o do tempo de trabalho, o acesso \u00e0 forma\u00e7\u00e3o, \u00e0s oportunidades profissionais e \u00e0 cobertura de prote\u00e7\u00e3o social, assim como o acesso ao emprego ou \u00e0 reinser\u00e7\u00e3o no trabalho. Al\u00e9m disso, identifica as desigualdades entre homens e mulheres, segundo os grupos de idade, em mat\u00e9ria de renda e condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Compreende tamb\u00e9m investiga\u00e7\u00f5es sobre os trabalhadores de jornada parcial, os trabalhadores tempor\u00e1rios, os trabalhadores por conta pr\u00f3pria. Seu objetivo \u00e9 determinar as causas profundas das desigualdades no mundo do trabalho. Isso se esclarecemos que a mesma est\u00e1 baseada sobre as na\u00e7\u00f5es europeias.<\/p>\n<p>O informe destaca algumas cifras concretas sobre o aumento das desigualdades, no ano 2000, no conjunto dos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia, 10% dos lares mais ricos teve uma renda 7,9 vezes superior ao 10% no n\u00edvel inferior da escala. Dezesseis anos mais tarde, esta propor\u00e7\u00e3o chegou a 9,7%, um aumento de 23% de desigualdade de renda. Estas m\u00e9dias escondem grandes diferen\u00e7as entre os 28 pa\u00edses: na Su\u00e9cia \u2013 onde a desigualdade de renda era mais baixa \u2013 os 10% mais rico ganhavam 5,7% a mais que os 10% mais pobres, enquanto na Espanha e na Rom\u00eania a propor\u00e7\u00e3o era respectivamente de 15% e 20,7%. As transfer\u00eancias sociais dirigidas a reduzir a pobreza diminu\u00edram de 38% em 2005 a 33,6% em 2016. \u00c9 \u00f3bvio que naqueles pa\u00edses onde ainda aflora um pouco de cultura democr\u00e1tica, as rela\u00e7\u00f5es de trabalho entre patr\u00f5es e sindicatos ajudam a desacelerar o crescimento do setor de baixos sal\u00e1rios. Na Su\u00e9cia, na Dinamarca e na Finl\u00e2ndia, o papel ativo das rela\u00e7\u00f5es de trabalho contribui a impulsar as pol\u00edticas dirigidas a melhorar os equil\u00edbrios, o que faz com que os n\u00edveis de emprego mal remunerado sejam os mais baixos dos pa\u00edses da OCDE (Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico). O fortalecimento da negocia\u00e7\u00e3o coletiva permitiu \u00e0 B\u00e9lgica obter um dos tr\u00eas melhores resultados em termos de igualdade salarial. Em 2015, Alemanha introduziu um sal\u00e1rio m\u00ednimo nacional associado ao incentivo \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o coletiva, o que permitiu reverter o crescimento do n\u00famero de trabalhadores mal remunerados, observado na d\u00e9cada anterior.<\/p>\n<p>O Informe destaca o rol do sal\u00e1rio m\u00ednimo e de que maneira afeta a desigualdade. Os estudos por pa\u00eds mostram que o sal\u00e1rio m\u00ednimo contribui a reduzir as desigualdades, mas s\u00f3 se est\u00e1 acompanhado da negocia\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p>No o Reino Unido, o sal\u00e1rio m\u00ednimo tem ajudado a limitar o aumento dos empregos mal remunerados, mas devido \u00e0 falta de negocia\u00e7\u00e3o coletiva n\u00e3o foi poss\u00edvel trazer tamb\u00e9m um aumento nos n\u00edveis salariais. No setor privado, h\u00e1 espa\u00e7o apenas para negociar novos n\u00edveis de remunera\u00e7\u00e3o em \u00e2mbito setorial, e ainda assim s\u00e3o muito limitados, pois s\u00f3 16% dos trabalhadores est\u00e3o protegidos por conv\u00eanios coletivos. Esta situa\u00e7\u00e3o deu origem a diversos tipos de contratos, com diferentes n\u00edveis de remunera\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00f5es de trabalho que agravam as desigualdades. Na Irlanda, pelo contr\u00e1rio, o sal\u00e1rio m\u00ednimo tem contribu\u00eddo com a redu\u00e7\u00e3o das desigualdades, porque foi complementado por um di\u00e1logo social eficaz entre trabalhadores e empregadores a respeito dos contratos de trabalho e as condi\u00e7\u00f5es salariais.<\/p>\n<p>A negocia\u00e7\u00e3o coletiva tamb\u00e9m desempenha um papel central para garantir resultados mais equitativos para as mulheres e os jovens.<\/p>\n<p>A negocia\u00e7\u00e3o coletiva, devido a que estimula os sal\u00e1rios no n\u00edvel mais baixo da escala salarial, em geral beneficia as categorias de trabalhadores como as mulheres, os jovens e os migrantes, que s\u00e3o a grande maioria dos mal remunerados. Entretanto, esses grupos frequentemente s\u00e3o sub representados na negocia\u00e7\u00e3o coletiva. Por exemplo, os programas para estudantes \u2013 como os que foram introduzidos nos Pa\u00edses Baixos \u2013 se caracterizam por n\u00edveis salariais muito baixos, com um m\u00ednimo de horas de trabalho e exclu\u00eddos da cobertura da negocia\u00e7\u00e3o coletiva. A piora consider\u00e1vel da qualidade dos empregos como consequ\u00eancia da crise econ\u00f4mica tamb\u00e9m afeta pa\u00edses como It\u00e1lia, Espanha, Portugal, entre muitos outros.<\/p>\n<p>A negocia\u00e7\u00e3o coletiva contribui tamb\u00e9m a redistribuir as horas de trabalho de maneira mais equitativa, por exemplo, num contexto onde as horas de trabalho insuficientes para os trabalhadores a tempo parcial tamb\u00e9m pode agravar as desigualdades, como mostra o exemplo dos Pa\u00edses Baixos. O informe apresenta os conv\u00eanios coletivos setoriais em pa\u00edses como Fran\u00e7a, Finl\u00e2ndia, Irlanda e Espanha, que estabeleceram um n\u00famero m\u00ednimo de horas para os trabalhadores de meia jornada. O trabalho a tempo parcial involunt\u00e1rio, que constitui uma fonte importante de desigualdade de renda, est\u00e1 crescendo na maioria dos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia. Na Espanha, por exemplo, 60% do trabalho de meia jornada \u00e9 involunt\u00e1rio.<\/p>\n<p>Em diversos pa\u00edses, incluindo Eslov\u00eania e Alemanha, alguns conv\u00eanios melhoraram as condi\u00e7\u00f5es de trabalho dos trabalhadores cedidos pelas ag\u00eancias de trabalho tempor\u00e1rio. Um n\u00famero de conv\u00eanios coletivos a n\u00edvel regional \u2013 na Catalunha por exemplo \u2013 tamb\u00e9m ajudaram os trabalhadores tempor\u00e1rios a encontrar um emprego permanente, e favoreceu a flexibilidade dos hor\u00e1rios de trabalho.<\/p>\n<p>Caberia a pergunta: os representantes dos governos, os trabalhadores e os empregadores est\u00e3o prontos para enfrentar as mudan\u00e7as nas modalidades de emprego?<\/p>\n<p>O fortalecimento das capacidades das organiza\u00e7\u00f5es de empregadores e de trabalhadores os ajudar\u00e1 a enfrentar os novos tipos de trabalho. O aumento da terceiriza\u00e7\u00e3o, por exemplo, atrav\u00e9s da organiza\u00e7\u00e3o complexa dos servi\u00e7os e da produ\u00e7\u00e3o, pode ser uma fonte de desigualdades, sobretudo para os trabalhadores nos n\u00edveis mais baixos da escala. O informe extra\u00eddo do livro de Daniel Vaughan-Whitehead, apresenta conv\u00eanios coletivos inovadores que permitiram melhorar os sal\u00e1rios e as condi\u00e7\u00f5es de trabalho das empresas que oferecem m\u00e3o de obra terceirizada, e empregos com condi\u00e7\u00f5es de trabalho que, com frequ\u00eancia, s\u00e3o de baixa qualidade.<\/p>\n<p>Outros conv\u00eanios colocam em evid\u00eancia o papel dos interlocutores sociais no fortalecimento das compet\u00eancias. Dinamarca, Alemanha, Su\u00e9cia, Fran\u00e7a e Luxemburgo s\u00e3o alguns dos pa\u00edses que ajudam os empregadores a se prepararem para as transforma\u00e7\u00f5es no mundo do trabalho.<\/p>\n<p>O informe demonstra que, apesar da crise, as rela\u00e7\u00f5es de trabalho s\u00e3o s\u00f3lidas em numerosos pa\u00edses e desempenham um papel essencial na redu\u00e7\u00e3o das desigualdades. A negocia\u00e7\u00e3o coletiva, por exemplo, contribui a tornar realidade demanda por igualdade de remunera\u00e7\u00e3o por um trabalho de igual valor, como se pode constatar na Dinamarca, na Fran\u00e7a, na Eslov\u00eania e na Su\u00e9cia, onde a redu\u00e7\u00e3o da brecha salarial de g\u00eanero \u00e9 um objetivo de diversos conv\u00eanios coletivos.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo o informe ressalta o papel do Estado \u2013 um ator importante nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho \u2013 j\u00e1 que pode promover o di\u00e1logo social frut\u00edfero entre trabalhadores e empregadores, e contribuir para preservar e estimular as rela\u00e7\u00f5es profissionais. \u00c9 evidente que os sindicatos, os empregadores e os governos devem tomar medidas concertadas e criativas para que os mercados de trabalho sejam mais inclusivos e equitativos, ao estender os direitos do trabalho e a prote\u00e7\u00e3o social a todos os trabalhadores.<\/p>\n<p>Num mundo do trabalho em r\u00e1pida transforma\u00e7\u00e3o, a inova\u00e7\u00e3o \u00e9 uma tarefa urgente para estabelecer um di\u00e1logo social mais inclusivo, eficaz e decente.<\/p>\n<p>https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Cartas-do-Mundo\/Carta-de-Genebra-Desigualdades-no-mundo-do-trabalho-europeu\/45\/40076<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eduardo Camin &#8211; Nos \u00faltimos tempos, o debate internacional, em grande parte, tem se dedicado ao aumento das desigualdades e seus efeitos negativos sobre a economia e as sociedades. 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