{"id":796,"date":"2016-06-26T17:22:11","date_gmt":"2016-06-26T20:22:11","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=796"},"modified":"2016-06-19T21:43:37","modified_gmt":"2016-06-20T00:43:37","slug":"uma-certa-ideia-de-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/06\/26\/uma-certa-ideia-de-brasil\/","title":{"rendered":"Uma certa id\u00e9ia de Brasil"},"content":{"rendered":"<p><strong>C\u00e9sar Benjamin <\/strong>&#8211; Para o livro <em>Enciclop\u00e9dia de Brasilidade<\/em>,\u00a0organizado por Carlos Lessa<\/p>\n<blockquote><p>\u201cOs discursos de que n\u00e3o viu, s\u00e3o discursos. Os discursos de quem viu, s\u00e3o profecias.\u201d<br \/>\nAnt\u00f4nio Vieira, Serm\u00e3o da Terceira Dominga do Advento, 1669<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>1<\/strong><strong>. Muitos motivos se somaram<\/strong>, ao longo da nossa hist\u00f3ria, para dificultar a tarefa de decifrar, mesmo imperfeitamente, o enigma brasileiro. J\u00e1 independentes, continuamos a ser um animal muito \u00a0estranho \u00a0no \u00a0zool\u00f3gico \u00a0das \u00a0na\u00e7\u00f5es: \u00a0sociedade \u00a0recente, \u00a0produto\u00a0 da expans\u00e3o europ\u00e9ia, concebida desde o in\u00edcio para servir ao mercado mundial, organizada em torno de um escravismo prolongado e tardio, \u00fanica monarquia em um continente republicano, assentada em uma extensa base territorial situada nos tr\u00f3picos, com um povo em processo de forma\u00e7\u00e3o, sem um passado profundo onde pudesse ancorar sua Que futuro estaria reservado para uma na\u00e7\u00e3o assim?<\/p>\n<p>Durante muito tempo, as tentativas feitas para compreender esse enigma e constituir uma teoria do Brasil foram, em larga medida, infrut\u00edferas. N\u00e3o sab\u00edamos fazer outra coisa sen\u00e3o copiar saberes da Europa, onde predominavam os determinismos geogr\u00e1fico (\u201ca civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma conquista dos pa\u00edses frios, pois \u00e9 a vit\u00f3ria das sociedades contra as dificuldades \u00a0impostas \u00a0pelo ambiente\u201d) \u00a0e racial\u00a0 (\u201ca civiliza\u00e7\u00e3o \u00a0expressa \u00a0o potencial \u00a0de alguns subgrupos humanos mais aptos\u201d) que irremediavelmente nos condenavam. Enquanto o Brasil se olhou no espelho europeu s\u00f3 p\u00f4de construir uma imagem negativa e pessimista de si mesmo, ao constatar sua \u00f3bvia condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o-europ\u00e9ia.<\/p>\n<p><strong>2 &#8211; Houve muitos esfor\u00e7os merit\u00f3rios <\/strong>para superar esse impasse. Por\u00e9m, s\u00f3 na d\u00e9cada de\u00a01930, depois de mais de cem anos de vida independente, come\u00e7amos a puxar consistentemente o fio da nossa pr\u00f3pria meada. Devemos ao conservador Gilberto Freyre, em 1934, com <em>Casa-grande &amp; senzala<\/em>, uma revolucion\u00e1ria releitura do Brasil, visto a partir do complexo do a\u00e7\u00facar e \u00e0 luz da moderna antropologia cultural, disciplina que ent\u00e3o apenas engatinhava. Abandonando os enfoques da geografia e da ra\u00e7a, Freyre revirou tudo de ponta-cabe\u00e7a, realizando um tremendo resgate do papel civilizat\u00f3rio de negros e \u00edndios dentro\u00a0 \u00a0da \u00a0forma\u00e7\u00e3o\u00a0 \u00a0social\u00a0\u00a0 brasileira.\u00a0 \u00a0Dos \u00a0portugueses,\u00a0 \u00a0elogiou\u00a0 \u00a0a \u00a0miscibilidade,\u00a0 \u00a0a plasticidade e a mobilidade, caracter\u00edsticas que os distinguiam dos colonizadores de origem anglo -sax\u00e3.<\/p>\n<p>A coloniza\u00e7\u00e3o do Brasil, ele diz, n\u00e3o foi obra do Estado ou das demais institui\u00e7\u00f5es\u00a0formais, todas aqui muito fracas. Foi obra da fam\u00edlia patriarcal, em torno da qual constituiu- se um modo de vida completo e espec\u00edfico. O latif\u00fandio monocultor e o regime escravista de \u00a0produzir \u00a0afastavam, \u00a0separavam, \u00a0machucavam,\u00a0\u00a0 mas \u00a0a \u00a0fam\u00edlia \u00a0extensa, \u00a0cheia \u00a0de agregados, a poligamia num contexto de escassez de mulheres brancas e a presen\u00e7a de consider\u00e1vel escravaria dom\u00e9stica constitu\u00edam espa\u00e7os de interc\u00e2mbio, nos quais negros e negras, \u00a0\u00edndios \u00a0e \u00a0\u00edndias \u2013 \u00a0especialmente, \u00a0negras \u00a0e \u00a0\u00edndias \u00a0\u2013, muito \u00a0mais\u00a0 adaptados \u00a0aos tr\u00f3picos, \u00a0colonizaram \u00a0o\u00a0 colonizador, \u00a0ensinando-o \u00a0a \u00a0viver \u00a0aqui. \u00a0Mulatos, \u00a0cafusos \u00a0e mamelucos se multiplicaram, criando fissuras na dualidade radical que opunha senhores e escravos.<\/p>\n<p>Nada escapa ao abrangente olhar investigativo do antrop\u00f3logo: comidas, lendas,\u00a0roupas, cores, odores, festas, can\u00e7\u00f5es, arquitetura, sexualidade, supersti\u00e7\u00f5es, costumes, ferramentas e t\u00e9cnicas, palavras e express\u00f5es de linguagem. Cartas de bisav\u00f3s saem de velhos ba\u00fas. Escabrosos \u00a0relat\u00f3rios da Inquisi\u00e7\u00e3o\u00a0 s\u00e3o expostos com fina ironia por esse bisbilhoteiro \u00a0que \u00a0estava \u00a0interessado, \u00a0antes \u00a0de \u00a0tudo, \u00a0em \u00a0desvelar \u00a0a\u00a0 singularidade \u00a0da experi\u00eancia brasileira. Ela n\u00e3o se encontrava na pol\u00edtica nem na economia, muito menos nos \u00a0feitos \u00a0dos \u00a0grandes \u00a0homens. \u00a0Encontrava-se \u00a0na\u00a0 cultura, \u00a0obra \u00a0coletiva \u00a0de\u00a0 gera\u00e7\u00f5es an\u00f4nimas. Uma cultura de s\u00edntese, que afrouxou e diluiu a tens\u00e3o entre os c\u00f3digos morais e o \u00a0mundo-da-vida, \u00a0tens\u00e3o \u00a0constitutiva \u00a0das \u00a0sociedades \u00a0de\u00a0 tradi\u00e7\u00e3o \u00a0judaico-crist\u00e3. \u00a0Nossa alegria, diz Freyre, a devemos a \u00edndios e negros nunca completamente moralizados pelo cristianismo do colonizador. Um cristianismo, ali\u00e1s, que tamb\u00e9m precisou misturar-se.<\/p>\n<p><strong>3<\/strong><strong>. Devemos a S\u00e9rgio Buarque <\/strong>, em 1936, com <em>Ra\u00edzes do Brasil<\/em>, um instigante ensaio \u2013 \u201ccl\u00e1ssico de nascen\u00e7a\u201d, nas palavras de Ant\u00f4nio Candido \u2013 que tentava compreender como uma sociedade rural, de ra\u00edzes ib\u00e9ricas, experimentaria o inevit\u00e1vel tr\u00e2nsito para a modernidade urbana e \u201camericana\u201d do s\u00e9culo XX. Ao contr\u00e1rio do pernambucano Gilberto Freyre, o paulista S\u00e9rgio Buarque n\u00e3o sentia nostalgia pelo Brasil agr\u00e1rio que estava se desfazendo, mas tampouco acreditava na efic\u00e1cia das vias autorit\u00e1rias, em voga na d\u00e9cada de 1930, que prometiam acelerar a moderniza\u00e7\u00e3o pelo alto. Observa o tempo secular da hist\u00f3ria. \u00a0Considera \u00a0a\u00a0 moderniza\u00e7\u00e3o \u00a0um \u00a0 \u00a0Tamb\u00e9m \u00a0busca \u00a0a\u00a0 singularidade \u00a0do processo brasileiro, mas com olhar sociol\u00f3gico: somos uma sociedade transplantada, mas nacional, com caracter\u00edsticas pr\u00f3prias. A dimens\u00e3o privada e afetiva da vida sempre se sobrep\u00f4s \u2013 para o bem e para o mal \u2013 \u00e0 impessoalidade burocr\u00e1tica, n\u00e3o raro descambando para o passionalismo e a impulsividade t\u00edpicos do homem cordial, num quadro geral de aus\u00eancia de direitos formais.<\/p>\n<p>Nossa hist\u00f3ria, diz S\u00e9rgio Buarque, girou em torno do \u201ccomplexo ib\u00e9rico\u201d. Mas o \u00eaxito da coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa n\u00e3o decorreu de um empreendimento met\u00f3dico e racional, n\u00e3o emanou de uma vontade construtora e en\u00e9rgica; buscou a riqueza que custa ousadia, n\u00e3o a riqueza que custa trabalho. A \u00e9tica da aventura prevaleceu sobre a \u00e9tica do trabalho. \u00c9 uma heran\u00e7a atrasada, em via de supera\u00e7\u00e3o, mas foi a base da nacionalidade, constituiu as \u201cra\u00edzes do Brasil\u201d. N\u00e3o se pode nem se deve, simplesmente, recus\u00e1-la e neg\u00e1- la, mas sim transform\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u201cPrecisamos ousar inaugurar, de forma in\u00e9dita, o que nunca se fez nessas latitudes\u201d\u00a0\u2013 eis uma frase cheia de significados: dev\u00edamos encontrar o caminho para superar o nosso atraso e, ao mesmo\u00a0 tempo, afirmar a nossa identidade, potencializando as nossas virtudes. Teria de ser, necessariamente, um caminho cheio de especificidades, como s\u00e3o cheios de especificidades, quando aut\u00eanticos, os caminhos de todos os povos. Tremendo desafio, numa sociedade, ele diz, em que a intelig\u00eancia sempre foi um ornamento, um beletrismo \u00e1vido por importar as \u00faltimas modas, incapaz de produzir conhecimento\u00a0 e impulsionar qualquer mudan\u00e7a real.<\/p>\n<p>Mesmo assim, S\u00e9rgio Buarque \u00e9 otimista. Anuncia que \u201ca nossa revolu\u00e7\u00e3o\u201d est\u00e1 em marcha, com a dissolu\u00e7\u00e3o do complexo ib\u00e9rico de base rural e a emerg\u00eancia de um novo\u00a0ator decisivo, as massas urbanas. Crescentemente numerosas, libertadas da tutela dos senhores locais, elas n\u00e3o mais seriam demandantes de favores, mas de direitos. No lugar da comunidade dom\u00e9stica, patriarcal e privada, ser\u00edamos enfim levados a fundar a comunidade pol\u00edtica, de modo a transformar, ao nosso modo, o homem cordial em cidad\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>4 &#8211; Apenas seis anos depois <\/strong>, em seq\u00fc\u00eancia vertiginosa, Caio Prado Jr. publica <em>Forma\u00e7\u00e3o do Brasil contempor\u00e2neo<\/em>, a primeira grande s\u00edntese historiogr\u00e1fica brasileira em quase cem anos, se contarmos desde Varnhagen. Realiza nesse texto o definitivo desvendamento das nossas origens como \u00a0uma \u00a0empresa \u00a0colonial, \u00a0acompanhado \u00a0da\u00a0 hip\u00f3tese \u00a0forte de que a hist\u00f3ria do Brasil tem um sentido profundo, o da transforma\u00e7\u00e3o dessa empresa, que fomos, em uma na\u00e7\u00e3o, que seremos.<\/p>\n<p>Caio Prado percebe que a coloniza\u00e7\u00e3o do Brasil representou um problema novo, pois os padr\u00f5es mais conhecidos de domina\u00e7\u00e3o ao longo da Hist\u00f3ria humana \u2013 a pilhagem de riquezas acumuladas, a cobran\u00e7a de tributos e o estabelecimento de com\u00e9rcio desigual \u2013 n\u00e3o se aplicavam nestas terras sem metais preciosos (no s\u00e9culo XVI) e habitadas por tribos dispersas, que viviam no Neol\u00edtico. A solu\u00e7\u00e3o do problema demandou mais de trinta anos. Organizou-se finalmente uma empresa territorial de grande dimens\u00e3o, com administra\u00e7\u00e3o portuguesa, capitais holandeses e venezianos, m\u00e3o-de-obra ind\u00edgena e africana, tecnologia desenvolvida em Chipre e mat\u00e9ria-prima dos A\u00e7ores e da ilha da Madeira \u2013 a cana. Esses elementos foram articulados em uma\u00a0 <em>holding <\/em>multinacional movida por for\u00e7a de trabalho escrava, mas regida pelo c\u00e1lculo econ\u00f4mico e pela busca do lucro. Tudo o que existia aqui\u00a0\u2013 a paisagem,\u00a0 a fauna, a flora e as gentes \u2013 teve de ser decomposto e desfeito, depois recomposto\u00a0 \u00a0e\u00a0\u00a0 refeito,\u00a0 \u00a0de\u00a0 \u00a0outras\u00a0 \u00a0maneiras,\u00a0 \u00a0para\u00a0 \u00a0que\u00a0 \u00a0o\u00a0\u00a0 empreendimento\u00a0 \u00a0mercantil prosperasse.<\/p>\n<p>Na\u00a0 origem, \u00a0diz\u00a0 Caio \u00a0Prado, \u00a0n\u00e3o \u00a0fomos \u00a0uma \u00a0na\u00e7\u00e3o, \u00a0nem \u00a0propriamente \u00a0uma sociedade; \u00a0fomos \u00a0uma \u00a0empresa \u00a0territorial \u00a0voltada \u00a0para \u00a0fora \u00a0e\u00a0 controlada \u00a0de \u00a0fora. \u00a0A empresa-Brasil sempre deu certo: propiciou bons neg\u00f3cios e gerou alt\u00edssimo lucro. Nos s\u00e9culos XVI e XVII foi excelente o neg\u00f3cio do a\u00e7\u00facar, a primeira mercadoria de consumo de massas em escala planet\u00e1ria, em torno da qual se formou o moderno mercado mundial. Foi depois magn\u00edfico o neg\u00f3cio do ouro; gra\u00e7as a ele, a Inglaterra \u2013 que nunca teve minas de ouro \u00a0\u2013 \u00a0constituiu \u00a0as \u00a0enormes \u00a0reservas \u00a0que \u00a0lhe \u00a0permitiram \u00a0criar, \u00a0no \u00a0s\u00e9culo \u00a0XIX, \u00a0o\u00a0primeiro \u00a0padr\u00e3o \u00a0monet\u00e1rio \u00a0mundial \u00a0(o \u00a0padr\u00e3o \u00a0libra-ouro), \u00a0s\u00edmbolo \u00a0e \u00a0suporte \u00a0de \u00a0sua hegemonia. A partir de 1840, at\u00e9 bem entrado o s\u00e9culo XX, foi maravilhoso o neg\u00f3cio do caf\u00e9, \u00a0estimulante \u00a0de \u00a0baixo \u00a0custo \u00a0e\u00a0 f\u00e1cil \u00a0distribui\u00e7\u00e3o, \u00a0ofertado \u00a0\u00e0\u00a0 classe \u00a0trabalhadora \u00a0da Europa e dos Estados Unidos\u00a0 que precisava ser disciplinada para o trabalho fabril. Al\u00e9m disso, permeando toda a nossa hist\u00f3ria, foi sempre estupendo o neg\u00f3cio do endividamento perp\u00e9tuo dessa empresa-Brasil, induzido pelos seus controladores de fora.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a exist\u00eancia multi-secular da gigantesca e diversificada empresa territorial criou \u00a0paulatinamente \u00a0os \u00a0elementos \u00a0constitutivos \u00a0de \u00a0uma \u00a0nova \u00a0na\u00e7\u00e3o: \u00a0\u201cPovoou-se um territ\u00f3rio semideserto; organizou-se nele uma vida humana que diverge tanto daquela que havia \u00a0aqui, \u00a0dos \u00a0ind\u00edgenas \u00a0e \u00a0suas \u00a0na\u00e7\u00f5es, \u00a0como \u00a0tamb\u00e9m \u00a0da \u00a0dos \u00a0portugueses \u00a0que empreenderam a ocupa\u00e7\u00e3o. Criou-se no plano das realiza\u00e7\u00f5es humanas algo novo (&#8230;): uma popula\u00e7\u00e3o \u00a0bem \u00a0diferenciada \u00a0e \u00a0caracterizada, \u00a0at\u00e9 \u00a0etnicamente, \u00a0habitando \u00a0determinado territ\u00f3rio; uma estrutura material particular, constitu\u00edda na base de elementos pr\u00f3prios; uma organiza\u00e7\u00e3o \u00a0social definida por rela\u00e7\u00f5es espec\u00edficas; \u00a0finalmente,\u00a0 uma consci\u00eancia, \u00a0mais precisamente \u00a0uma \u00a0certa \u00a0\u2018atitude\u2019 \u00a0mental \u00a0coletiva \u00a0particular. \u00a0(&#8230;) \u00a0Esse \u00a0novo \u00a0processo hist\u00f3rico se dilatou e se arrasta . Ainda n\u00e3o chegou ao seu termo.\u201d<\/p>\n<p>Eis a\u00ed uma importante chave de leitura para compreendermos as tens\u00f5es que experimentamos at\u00e9 hoje: elas refletem o choque entre o Brasil empresa-para-os-outros, que ainda somos, e o Brasil na\u00e7\u00e3o-para-si, que desejamos ser. Completar esse processo, \u201cfaz\u00ea-lo chegar \u00a0ao \u00a0seu \u00a0termo\u201d \u2013 \u00a0ou, \u00a0ainda \u00a0na \u00a0linguagem \u00a0de \u00a0Caio \u00a0Prado, \u00a0realizar \u00a0a\u00a0 Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira \u2013 \u00e9 fazer desabrochar a \u00faltima grande nacionalidade do Ocidente moderno, uma nacionalidade tardia, cujos potenciais permanecem em grande medida incubados.<\/p>\n<p><strong>5<\/strong><strong>. Devemos em seguida a Celso Furtado <\/strong>uma brilhante s\u00edntese da <em>Forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Brasil<\/em>, um texto que tamb\u00e9m falava de Hist\u00f3ria para mostrar os desafios fundamentais da moderniza\u00e7\u00e3o brasileira no s\u00e9culo XX. Como os demais, Furtado escreve um ensaio de interpreta\u00e7\u00e3o, uma \u201chist\u00f3ria pensada\u201d, a partir do ponto de vista de um economista com s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o humanista. Descarta a ideia de que o Brasil teria reproduzido tardiamente uma sociedade de tipo Descreve as caracter\u00edsticas dos ciclos econ\u00f4micos baseados na produ\u00e7\u00e3o de bens prim\u00e1rios e impulsionados pela demanda externa, e aponta as insufici\u00eancias e os desequil\u00edbrios que deles decorrem. Olha as regi\u00f5es, estuda os casos de\u00a0decad\u00eancia sem transforma\u00e7\u00e3o. Mostra que em no ssa hist\u00f3ria, recorrentemente, a fonte de demanda aut\u00f4noma foram as exporta\u00e7\u00f5es de alimentos, mat\u00e9rias-primas e min\u00e9rios; que o mercado interno se atrofiou, induzindo a um baixo efeito multiplicador da renda gerada; que houve permanente vazamento de riqueza, em grande escala, para o exterior. Permanecemos na periferia do sistema-mundo que nos deu \u00e0 luz. Como poder\u00edamos sair dessa posi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Ao longo de toda sua obra, Furtado diz que o subdesenvolvimento \u00e9 um processo espec\u00edfico, que tende a reproduzir-se no tempo, e n\u00e3o uma etapa transit\u00f3ria, que conteria em si, mais ou menos naturalmente, as condi\u00e7\u00f5es de sua supera\u00e7\u00e3o. O fortalecimento do mercado interno, o desenvolvimento da ind\u00fastria e a forma\u00e7\u00e3o de um n\u00facleo end\u00f3geno de cria\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o de progresso t\u00e9cnico \u2013 necess\u00e1rios para a supera\u00e7\u00e3o da nossa condi\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o poderiam resultar de for\u00e7as espont\u00e2neas. Exigiam uma interven\u00e7\u00e3o consciente, voltada para produzir muta\u00e7\u00f5es. Tornou-se cl\u00e1ssica a sua an\u00e1lise sobre a ado\u00e7\u00e3o pelo Brasil, de maneira inovadora e pragm\u00e1tica, de eficazes pol\u00edticas antic\u00edclicas em plena crise de 1929-1933, antes mesmo que essas pol\u00edticas tivessem sido claramente modeladas pela moderna teoria econ\u00f4mica. Elas criaram uma situa\u00e7\u00e3o nova, que lan\u00e7ou as bases do nosso processo de industrializa\u00e7\u00e3o. Lev\u00e1- lo \u00e0s \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias era o desafio a vencer.<\/p>\n<p>Furtado \u00a0nunca \u00a0dissociou \u00a0conhecimento \u00a0e\u00a0 valores, \u00a0economia \u00a0e\u00a0 sociedade: \u00a0\u201cO processo de reprodu\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais exerce uma influ\u00eancia decisiva sobre as formas de utiliza\u00e7\u00e3o do excedente. Portanto, a composi\u00e7\u00e3o do excedente \u00e9 em grande parte um reflexo do sistema de domina\u00e7\u00e3o social, o que significa que sem um conhecimento das estruturas \u00a0de \u00a0poder \u00a0\u00e9\u00a0 imposs\u00edvel \u00a0avan\u00e7ar \u00a0no \u00a0estudo \u00a0do \u00a0desenvolvimento \u00a0das \u00a0for\u00e7as produtivas.\u201d Poucos s\u00e3o os econo mistas atuais capazes de conduzir an\u00e1lises desse tipo.<\/p>\n<p><strong>6<\/strong><strong>. Tribut\u00e1rias de diferentes influ\u00eancias <\/strong>\u2013 notadamente Franz Boas, Max Weber, Karl Marx e John M. Keynes, nessa ordem \u2013, essas quatro obras seminais lan\u00e7aram as bases da moderna ci\u00eancia social brasileira e permitiram o in\u00edcio de uma fecunda reinterpreta\u00e7\u00e3o do Brasil. Como pano de fundo estava em marcha o ciclo desenvolvimentista, com a for\u00e7a de processos estruturais (e estruturantes) que nos conduziam, acreditava-se, do passado (popula\u00e7\u00e3o rural, economia agr\u00edcola, territ\u00f3rio fragmentado) ao futuro (popula\u00e7\u00e3o urbana, economia industrial, territ\u00f3rio integrado). Sabendo falar sobre n\u00f3s mesmos, com a nossa\u00a0pr\u00f3pria\u00a0 \u00a0linguagem,\u00a0 \u00a0t\u00ednhamos\u00a0 \u00a0finalmente\u00a0 \u00a0uma\u00a0 \u00a0identidade\u00a0 \u00a0em\u00a0\u00a0 constru\u00e7\u00e3o.\u00a0 \u00a0Sabendo diferenciar passado e futuro, viv\u00edamos agora em um tempo orientado, condi\u00e7\u00e3o primeira para \u00a0se \u00a0constituir \u00a0um \u00a0projeto. \u00a0Os \u00a0impasses \u00a0do \u00a0Imp\u00e9rio \u00a0escravista \u00a0e\u00a0 a\u00a0 pasmaceira \u00a0da Rep\u00fablica Velha haviam ficado para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Tivemos muitos outros intelectuais vision\u00e1rios e homens de a\u00e7\u00e3o. Entre eles, Darcy Ribeiro talvez tenha sido o maior profeta da civiliza\u00e7\u00e3o brasileira. Inverteu radicalmente os velhos argumentos europeus contra n\u00f3s, afirmando as vantagens da mesti\u00e7agem tropical diante de uma pretensa pureza temperada e fria. Mostrou como, aos trancos e barrancos, conseguimos fazer um povo-novo a partir dos grupos humanos que o capitalismo mercantil encontrou \u00a0neste\u00a0 territ\u00f3rio \u00a0ou transplantou \u00a0para c\u00e1 \u00a0\u2013\u00a0 na origem, \u00a0\u00edndios \u00a0destribalizados, brancos \u00a0deseuropeizados \u00a0e\u00a0 negros \u00a0desafricanizados, \u00a0depois \u00a0gente \u00a0do \u00a0mundo \u00a0inteiro. Estudou as caracter\u00edsticas fundamentais desse contingente humano filho da modernidade, o maior\u00a0 \u00a0povo-novo\u00a0 \u00a0do\u00a0 \u00a0mundo\u00a0 \u00a0moderno.\u00a0 \u00a0Viu\u00a0 \u00a0que\u00a0 \u00a0ele\u00a0 \u00a0\u00e9\u00a0\u00a0 tamb\u00e9m\u00a0 \u00a0um\u00a0 \u00a0povo-na\u00e7\u00e3o, reconhecendo-se \u00a0como \u00a0tal,\u00a0 falando \u00a0uma \u00a0mesma \u00a0l\u00edngua, \u00a0habitando \u00a0um\u00a0 territ\u00f3rio \u00a0bem- definido e tendo criado o seu pr\u00f3prio Estado. Debru\u00e7ado em ampla vis\u00e3o da aventura humana, \u00a0falou \u00a0de \u00a0um \u00a0povo \u00a0que \u00a0ainda \u00a0est\u00e1 \u00a0no \u00a0come\u00e7o \u00a0de \u00a0sua \u00a0pr\u00f3pria \u00a0hist\u00f3ria, \u00a0e\u00a0 cuja identidade \u2013 por sua g\u00eanese e sua trajet\u00f3ria \u2013 n\u00e3o pode basear-se em ra\u00e7a, religi\u00e3o, voca\u00e7\u00e3o imperial, xenofobias ou vontade de isolar-se. Um povo que tem na cultura a sua \u00fanica raz\u00e3o de existir.<\/p>\n<p>A composi\u00e7\u00e3o ficava quase completa: \u00e9ramos um pa\u00eds miscigenado, sentimental e alegre, \u00a0moderno, \u00a0culturalmente \u00a0antropof\u00e1gico, \u00a0aberto \u00a0ao \u00a0outro \u00a0e\u00a0 ao novo, desejoso de desenvolver-se, \u00a0cheio de oportunidades \u00a0diante de si. O passado nos condenava,\u00a0 mas o futuro nos redimiria. A figura m\u00edtica de Macuna\u00edma e a figura real de Garrincha \u2013 figuras fora dos padr\u00f5es, que faziam tudo errado, para no fim dar tudo certo \u2013 nos divertiam e nos encorajavam.<\/p>\n<p><strong>7 &#8211; Produzimos assim<\/strong>, entre as d\u00e9cadas de 1930 e 1960, contornos n\u00edtidos de <em>uma certa\u00a0ideia\u00a0de Brasil. <\/em>N\u00e3o importa discutir se essa id\u00e9ia estava cem por cento correta ou errada, do ponto de vista de uma pretensa ci\u00eancia positiva, se era precisa em min\u00facias, se tudo podia explicar, pois a representa\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica de uma sociedade sobre si mesma cumpre a fun\u00e7\u00e3o de sinalizar valores, despertar esperan\u00e7as e mobilizar energias, e n\u00e3o de retratar\u00a0fielmente \u201co que existe\u201d. Em certo momento de sua hist\u00f3ria, depois de quatro s\u00e9culos em um \u00a0labirinto, \u00a0o \u00a0Brasil \u00a0reconheceu-se \u00a0assim \u00a0e \u00a0percebeu-se \u00a0portador\u00a0 de potencialidades insuspeitadas. \u00c9 imposs\u00edvel exagerar a import\u00e2ncia desse passo. Justo por isso, \u00e9 tamb\u00e9m imposs\u00edvel exagerar o devastador impacto de sua desconstru\u00e7\u00e3o, \u00a0realizada em troca de\u00a0nada.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que se pensa, nossa crise atual n\u00e3o \u00e9, simplesmente,\u00a0 uma crise econ\u00f4mica. Resulta, em primeiro lugar e antes de tudo, da progressiva perda da id\u00e9ia de Brasil, substitu\u00edda pelos chav\u00f5es daquela mesma intelig\u00eancia ornamental, in\u00fatil, farsesca, adepta da moda, a que S\u00e9rgio Buarque se referia. A moda hoje \u00e9 globaliza\u00e7\u00e3o, e a \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que os saberes \u2013 <em>h\u00e9las<\/em>! \u2013 n\u00e3o s\u00e3o mais importados da Europa, mas dos Estados Unidos. O efeito \u00e9 o mesmo: como pano de fundo, negatividade e desqualifica\u00e7\u00e3o do que somos e podemos vir a ser, compensadas agora com doses cavalares de <em>marketing<\/em>.<\/p>\n<p>O sofisticado debate sobre a nossa especificidade e os nossos caminhos foi deslegitimado. A mediocridade voltou a mover-se em cena com altivez espantosa, cada vez mais arrogante e orgulhosa de si. Ela n\u00e3o gosta de imagina\u00e7\u00e3o, qualidades, inven\u00e7\u00e3o de caminhos; \u00a0gosta \u00a0de\u00a0 r\u00f3tulos, \u00a0pede \u00a0mesmice. \u00a0Na \u00a0d\u00e9cada \u00a0de\u00a0 1990, \u00a0pela \u00a0boca \u00a0das \u00a0nossas maiores autoridades\u00a0 e de alguns dos nossos mais influentes intelectuais \u00a0\u2013 sobretudo os economistas \u00a0\u2013, \u00a0jogamos \u00a0fora \u00a0todo \u00a0o\u00a0 esfor\u00e7o \u00a0intelectual \u00a0anterior \u00a0e\u00a0 passamos \u00a0a\u00a0 nos reconhecer \u00a0como&#8230; \u00a0um \u00a0mercado \u00a0emergente. \u00a0Profunda \u00a0mudan\u00e7a \u00a0de\u00a0 ponto \u00a0de\u00a0 vista. \u00a0At\u00e9 ent\u00e3o, mesmo que f\u00f4ssemos uma na\u00e7\u00e3o incompleta e muito imperfeita, ainda viv\u00edamos num universo ideol\u00f3gico em que complet\u00e1- la e aperfei\u00e7o\u00e1-la, de uma forma ou de outra, eram as nossas refer\u00eancias comuns. Quando passamos a nos reconhecer apenas como mercado, tudo mudou. Mercado n\u00e3o \u00e9 lugar de cidadania, solidariedade, soberania, identidade. \u00c9 espa\u00e7o de fluxos, dominado pela concorr\u00eancia, onde sobrevivem os mais fortes, e ponto final.<\/p>\n<p><strong>8<\/strong><strong>. O fato mais not\u00e1vel dos \u00faltimos 25 anos<\/strong>, na Hist\u00f3ria do Brasil, \u00e9 a radical altera\u00e7\u00e3o das categorias que organizam e delimitam o nosso imagin\u00e1rio. Recuemos um pouco. No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, \u00a0sob \u00a0influ\u00eancia \u00a0do \u00a0positivismo, \u00a0o\u00a0 Brasil \u00a0dizia \u00a0buscar, \u00a0antes \u00a0de \u00a0tudo, civiliza\u00e7\u00e3o e progresso, conceitos que hoje podem soar equivocados ou ing\u00eanuos, mas que estavam explicitamente ligados a um futuro humano: a ideia de que progressos materiais pudessem sustentar-se em um vasto retrocesso social ou moral era ent\u00e3o inimagin\u00e1vel, pois\u00a0os \u00a0avan\u00e7os \u00a0nessas \u00a0v\u00e1rias \u00a0esferas \u00a0eram \u00a0concebidos \u00a0como \u00a0paralelos \u00a0e\u00a0 complementares. Depois, \u00a0como \u00a0vimos, \u00a0o \u00a0Brasil \u00a0passou \u00a0a \u00a0falar \u00a0em \u00a0moderniza\u00e7\u00e3o, \u00a0formulada \u00a0como \u00a0uma resposta ao atraso e \u00e0 pobreza; o esfor\u00e7o modernizador s\u00f3 era necess\u00e1rio e leg\u00edtimo porque eliminaria essas mazelas. As pessoas, os grupos sociais e a comunidade nacional, com sua diversidade e complexidade, permaneciam sendo a refer\u00eancia fundamental de um debate que nunca se dissociava de fins e destinos.<\/p>\n<p>Estamos agora esmagados pelo discurso da competitividade. Nem mesmo no plano das \u00a0inten\u00e7\u00f5es \u00a0ele \u00a0expressa \u00a0alguma \u00a0grandeza. \u00a0O \u00a0pensa mento \u00a0das \u00a0elites \u00a0dominantes comporta-se como se elas n\u00e3o mais devessem explica\u00e7\u00f5es a ningu\u00e9m. A competitividade segue a mesma l\u00f3gica da guerra \u2013 conquistar supremacia sobre o outro \u2013 e exige apenas um tipo de progresso, de natureza tecnol\u00f3gica. Um progresso dos meios, de alguns meios manejados por poucos, que nada diz sobre fins. Esse conceito vazio de conte\u00fados humanos e avesso a ju\u00edzos sociais abrangentes foi al\u00e7ado \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de articulador do nosso discurso e legitimador do modelo de sociedade que se deseja implantar. Com o agravante de que, agora, predomina a acumula\u00e7\u00e3o financeira \u2013 vol\u00e1til, esperta, sempre de olho no curto prazo, em grande medida fict\u00edcia, de natureza intrinsecamente especulativa, com enorme potencial destrutivo.<\/p>\n<p>O grande capital \u2013 pois ele \u00e9 que \u00e9 \u201ccompetitivo\u201d \u2013 apresenta-se como portador de uma racionalidade que seria generaliz\u00e1vel, sem media\u00e7\u00f5es, para a sociedade como um todo. Inversamente, todas as outras l\u00f3gicas \u2013 a dos pobres, a dos agentes econ\u00f4micos n\u00e3o capitalistas ou simplesme nte n\u00e3o competitivos, a da cidadania, a da soberania, a da cultura, a dos interesses nacionais de longo prazo \u2013 s\u00e3o consideradas irracionais ou desimportantes. Devem ser denunciadas, humilhadas e, progressivamente, silenciadas. N\u00e3o articulam linguagens, \u00a0mas\u00a0 ru\u00eddos; \u00a0n\u00e3o\u00a0 expressam \u00a0direitos, \u00a0mas\u00a0 custos; \u00a0n\u00e3o\u00a0 apontam \u00a0para \u00a0outras maneiras de organizar a sociedade, mas para a desordem e o caos na economia, acenados pelos poderosos como permanente amea\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>9 &#8211; Al\u00e9m de vasta cultura <\/strong>e honradez intelectual, Gilberto, S\u00e9rgio, Caio, Celso, Darcy e tantos outros, mesmo alinhando-se a correntes te\u00f3ricas e pol\u00edticas muito diferentes, mesmo propondo interpreta\u00e7\u00f5es diversas, tinham uma coisa fundamental em comum: gostavam do Brasil. Desejavam do fundo da alma que o pa\u00eds desse certo e a isso dedicaram suas vidas e\u00a0seus melhores esfor\u00e7os. Tal sentimento transparece em cada linha que escreveram, em cada gesto que fizeram, em cada palavra que disseram. Havia generosidade neles. Eis a\u00ed outra mudan\u00e7a \u00a0importante: \u00a0evidentemente, \u00a0manifestamente, cinicamente, quase explicitamente, os\u00a0 formuladores \u00a0e divulgadores \u00a0do\u00a0 novo \u00a0discurso \u00a0hegem\u00f4nico\u00a0 \u00a0<em>n\u00e3o \u00a0<\/em>gostam \u00a0do \u00a0Brasil. Gostam de <em>business<\/em>. O que estamos ouvindo deles, todo o tempo, \u00e9 que o Brasil, como sociedade, na\u00e7\u00e3o e projeto, n\u00e3o tem sentido nenhum. Atrapalha. A esperan\u00e7a-Brasil deu lugar ao risco-Brasil.<\/p>\n<p>Conferindo aos mais ricos riqueza cada vez maior, associada a padr\u00f5es culturais e de consumo cada vez mais distantes da realidade local, e condenando\u00a0 a maioria a um padr\u00e3o de vida em decl\u00ednio, essa op\u00e7\u00e3o alimenta for\u00e7as centr\u00edfugas que apontam para o rompimento dos v\u00ednculos hist\u00f3ricos e socioculturais que at\u00e9 aqui mantiveram, em algum n\u00edvel, juntos os cidad\u00e3os. Os grupos mais bem-posicionados para participar do mercado mundial ficam cada vez mais tentados a desfazer quaisquer la\u00e7os de solidariedade nacional, desligando \u00a0completamente \u00a0seu \u00a0padr\u00e3o \u00a0de \u00a0vida, \u00a0seus \u00a0valores, \u00a0a\u00a0 forma \u00a0de \u00a0denominar \u00a0e investir sua riqueza \u2013 e, portanto, o seu pr\u00f3prio destino \u2013 dos padr\u00f5es, valores e destino do pa\u00eds como um todo.<\/p>\n<p>Os fatos do cotidiano mostram como se debilitam rapidamente, entre n\u00f3s, as bases de uma sociabilidade civilizada: um regime comum de valores, caminhos de mobilidade social ascendente, a id\u00e9ia de um futuro em constru\u00e7\u00e3o. As conseq\u00fc\u00eancias disso, no longo prazo, \u00a0s\u00e3o \u00a0imprevis\u00edveis. \u00a0Os \u00a0segmentos \u00a0que \u00a0t\u00eam \u00a0pressa \u00a0de \u00a0ser \u00a0modernos \u00a0a\u00a0 todo pre\u00e7o pedem a cria\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es blindadas e de \u00e1reas de circula\u00e7\u00e3o restringida, onde a competitividade, a lucratividade, a velocidade e o pragmatismo, bem como o estilo de vida a eles associado, possam ostentar-se sem empecilhos. Mas essas institui\u00e7\u00f5es e \u00e1reas permanecem imersas em um territ\u00f3rio f\u00edsico e social muito maior, que cont\u00e9m popula\u00e7\u00e3o diferenciada, \u00a0necessidades \u00a0v\u00e1rias,\u00a0 comportamentos \u00a0m\u00faltiplos, \u00a0problemas \u00a0outros. \u00c9 uma ilus\u00e3o achar que elas possam desatar os la\u00e7os que as ligam ao contexto em que est\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>10<\/strong><strong>. Darcy Ribeiro mostrou <\/strong>como o primeiro passo no processo de submiss\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos ind\u00edgenas era a transforma\u00e7\u00e3o \u00a0do \u00edndio espec\u00edfico \u00a0\u2013 o gavi\u00e3o, \u00a0o urubu- kaapor, o xavante, o bororo, portador de uma hist\u00f3ria, integrante de uma comunidade, habitante de um espa\u00e7o cheio de significados \u00a0\u2013 naquilo que chamou de \u201c\u00edndio gen\u00e9rico\u201d,\u00a0um sem- lugar, cuja indianidade, inscrita no seu corpo mas n\u00e3o mais na sua cultura, passava a ser um signo negativo no mundo dos brancos, no qual ele se inseria sempre por baixo. Acredito que muito da ang\u00fastia de Darcy, no fim da vida, tenha vindo da percep\u00e7\u00e3o de que o povo brasileiro, como um todo, corria o risco de transformar-se em um povo gen\u00e9rico e inespec\u00edfico, ao qual tamb\u00e9m restaria eternizar uma inser\u00e7\u00e3o por baixo e tendencialmente declinante no sistema internacional.<\/p>\n<p>\u00c9 este o nosso maior desafio, que pode ser visto de v\u00e1rios \u00e2ngulos. Para retomar a terminologia de Caio Prado, estamos assistindo \u00e0 vit\u00f3ria \u2013 tempor\u00e1ria, porque a-hist\u00f3rica \u2013 da perspectiva do Brasil empresa-para-os-outros sobre o Brasil na\u00e7\u00e3o-para-si.\u00a0\u00a0 Imp\u00f5e-se, pois, uma dura luta pol\u00edtica e cultural. As alternativas s\u00e3o radicais para ambos os lados. H\u00e1 uma bifurca\u00e7\u00e3o no caminho. O pa\u00eds ter\u00e1 de decidir: ou aceita tornar-se apenas um espa\u00e7o de fluxos do capital internacional,\u00a0 o que significa ser expulso da Hist\u00f3ria, ou retoma seu processo de constru\u00e7\u00e3o em novas bases.<\/p>\n<p>Se quisermos a segunda op\u00e7\u00e3o, <em>temos de reencontrar uma id\u00e9ia de Brasil<\/em>. Por tr\u00e1s do poderio dos Estados Unidos h\u00e1 uma id\u00e9ia de Estados Unidos. Por tr\u00e1s da reconstru\u00e7\u00e3o do Jap\u00e3o h\u00e1 uma id\u00e9ia de Jap\u00e3o. Por tr\u00e1s da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia h\u00e1 uma id\u00e9ia de Europa. Por tr\u00e1s da ascens\u00e3o\u00a0 da China h\u00e1 uma id\u00e9ia de China. Se n\u00e3o reconstruirmos uma id\u00e9ia de Brasil, nenhum passo consistente poderemos dar. (O t\u00edtulo deste artigo, ali\u00e1s, \u00e9 retirado das <em>Mem\u00f3rias <\/em>do general De Gaulle. Oficial do estado- maior do Ex\u00e9rcito franc\u00eas, recusou-se a render-se aos alem\u00e3es, que na quela fase da guerra pareciam invenc\u00edveis, e protagonizou uma fuga espetacular para a Inglaterra, de onde liderou a Resist\u00eancia. Segundo escreveu, fez isso, afrontando naquele momento todas as probabilidades de \u00eaxito, porque tinha na cabe\u00e7a \u201cuma certa id\u00e9ia de Fran\u00e7a\u201d, e a vida sob ocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o cabia nela.)<\/p>\n<p><strong>11<\/strong><strong>. O esfor\u00e7o \u00a0dos \u00a0pensadores \u00a0<\/strong>que\u00a0 nos\u00a0 antecederam \u00a0deixou \u00a0pontos \u00a0de partida \u00a0muito valiosos. Mas devemos reconhecer que eles nos falaram de um pa\u00eds que, pelo menos em parte, deixou de existir. O Brasil de Gilberto Freyre girava em torno da fam\u00edlia extensa da casa-grande, \u00a0um \u00a0espa\u00e7o \u00a0integrador \u00a0dentro \u00a0da \u00a0monumental \u00a0desigualdade; o\u00a0 de \u00a0S\u00e9rgio Buarque apenas iniciava a aventura de uma urbaniza\u00e7\u00e3o que prometia associar-se a modernidade e cidadania; o de Caio Prado mantinha a perspectiva da liberta\u00e7\u00e3o nacional e do socialismo; o de Celso Furtado era uma economia din\u00e2mica, que experimentava uma\u00a0acelerada moderniza\u00e7\u00e3o industrial; o de Darcy Ribeiro \u2013 cujos \u00eddolos, como sempre dizia, eram An\u00edsio Teixeira e C\u00e2ndido Rondon \u2013 ampliava a escola p\u00fablica de boa qualidade e recusava o genoc\u00eddio de suas popula\u00e7\u00f5es mais fragilizadas.<\/p>\n<p>Os \u00a0elementos \u00a0centrais \u00a0com \u00a0que \u00a0todos \u00a0eles \u00a0trabalharam \u00a0foram \u00a0profundamente alterados \u00a0nas \u00a0\u00faltimas \u00a0d\u00e9cadas. A \u00a0economia \u00a0mais \u00a0din\u00e2mica \u00a0do \u00a0mundo, \u00a0que \u00a0dobrou seu produto cinco vezes seguidas em cinq\u00fcenta anos, caminha para experimentar \u00a0a terceira d\u00e9cada rastejante. Todos os mecanismos que garantiram mobilidade social na maior parte do \u00a0s\u00e9culo \u00a0XX \u00a0foram \u00a0impiedosamente \u00a0desmontados, \u00a0a \u00a0come\u00e7ar \u00a0da \u00a0escola \u00a0p\u00fablica. \u00a0A urbaniza\u00e7\u00e3o acelerada concentrou multid\u00f5es desenraizadas, enquanto a desorganiza\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho multiplicava exclu\u00eddos. Tornado ref\u00e9m do sistema financeiro, o Estado nacional \u00a0deixou \u00a0de \u00a0cumprir \u00a0fun\u00e7\u00f5es \u00a0estruturantes essenciais. \u00a0A \u00a0fronteira \u00a0agr\u00edcola \u00a0foi fechada, estabelecendo-se nas \u00e1reas de ocupa\u00e7\u00e3o recente uma estrutura fundi\u00e1ria ainda mais concentrada que a das \u00e1reas de ocupa\u00e7\u00e3o secular. Nesta sociedade urbanizada e estagnada, os meios \u00a0eletr\u00f4nicos \u00a0de \u00a0comunica\u00e7\u00e3o \u00a0de \u00a0massas \u00a0tornaram-se, \u00a0de \u00a0longe, \u00a0a \u00a0principal institui\u00e7\u00e3o\u00a0 \u00a0difusora \u00a0de desejos, \u00a0comportamentos\u00a0 \u00a0e \u00a0valores, \u00a0inoculando\u00a0 \u00a0diariamente, maci\u00e7amente,\u00a0 \u00a0irresponsavelmente\u00a0 \u00a0uma necessidade\u00a0 \u00a0de \u00a0consumo\u00a0 \u00a0desagregadora,\u00a0 \u00a0pois inacess\u00edvel. \u201cNunca foi t\u00e3o grande a dist\u00e2ncia entre o que somos e o que poder\u00edamos ser\u201d, disse recentemente Celso Furtado, antes de nos deixar.<\/p>\n<p>Todos esses processos est\u00e3o a\u00ed, a nos desafiar, exigindo de n\u00f3s um esfor\u00e7o de an\u00e1lise\u00a0talvez mais \u00e1rduo do que aquele realizado pelas gera\u00e7\u00f5es dos nossos mestres. Ainda n\u00e3o sabemos \u00a0bem \u00a0at\u00e9 \u00a0que \u00a0ponto \u00a0tais \u00a0processos \u00a0alteraram definitivamente\u00a0\u00a0 as \u00a0condi\u00e7\u00f5es sociol\u00f3gicas da nossa exist\u00eancia, e em que dire\u00e7\u00e3o. N\u00e3o temos uma teoria do Brasil contempor\u00e2neo. Estamos em voo cego, imersos em uma crise de destino, a maior da nossa exist\u00eancia. A Hist\u00f3ria est\u00e1 nos olhando nos olhos, perguntando: \u201cAfinal, o que voc\u00eas s\u00e3o? O que querem ser? Tem sentido existir Brasil? Qual Brasil?\u201d<\/p>\n<p>Temos hesitado em enfrentar quest\u00f5es t\u00e3o dif\u00edceis, t\u00e3o radicais. Preferimos brincar de\u00a0macroeconomia. Mas a disjun\u00e7\u00e3o est\u00e1 posta: o u o povo brasileiro, movido por uma ideia de si mesmo, assume pela primeira vez o comando de sua na\u00e7\u00e3o, para resgat\u00e1- la, reinvent\u00e1- la e desenvolv\u00ea- la, ou assistiremos neste s\u00e9culo ao desfazimento do Brasil. Se ocorrer, este \u00faltimo desfecho representar\u00e1 um dur\u00edssimo golpe nas melhores promessas da modernidade ocidental e ser\u00e1 um retrocesso no processo civilizat\u00f3rio de toda a humanidade. A inven\u00e7\u00e3o do futuro se tornar\u00e1 muito mais penosa, para todos.<\/p>\n<p>\u201cOs discursos de quem viu\u201d, dizia Vieira, \u201cs\u00e3o profecias\u201d.<\/p>\n<p>C\u00e9sar Benjamin \u00e9 autor, entre outros livros, de \u00a0<em>A op\u00e7\u00e3o brasileira <\/em>(Contraponto, 1998, nona edi\u00e7\u00e3o) e de <em>Bom combate <\/em>(Contraponto, 2004). Integra a coordena\u00e7\u00e3o nacional do Movimento Consulta Popular.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C\u00e9sar Benjamin &#8211; Para o livro Enciclop\u00e9dia de Brasilidade,\u00a0organizado por Carlos Lessa \u201cOs discursos de que n\u00e3o viu, s\u00e3o discursos. Os discursos de quem viu, s\u00e3o profecias.\u201d Ant\u00f4nio Vieira, Serm\u00e3o da Terceira Dominga do Advento, 1669 1. 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