{"id":7924,"date":"2018-04-28T12:35:02","date_gmt":"2018-04-28T15:35:02","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=7924"},"modified":"2018-04-27T16:29:56","modified_gmt":"2018-04-27T19:29:56","slug":"a-economia-da-desigualdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/04\/28\/a-economia-da-desigualdade\/","title":{"rendered":"A Economia da Desigualdade"},"content":{"rendered":"<p><strong>Adriano dos Reis Miranda Laureno Oliveira <\/strong>&#8211; Considera\u00e7\u00f5es gerais: Um dos economistas mais influentes da atualidade, Thomas Piketty conseguiu com o lan\u00e7amento de seu livro \u201cO Capital no S\u00e9culo XXI\u201d (2013 em franc\u00eas, 2014 em portugu\u00eas e ingl\u00eas) alcan\u00e7ar o posto de popstar acad\u00eamico e reformular o escopo do debate p\u00fablico, que aumentou sua preocupa\u00e7\u00e3o em discutir e entender as desigualdades.<\/p>\n<p>Embora tenha se tornado um best-seller, tenha um texto flu\u00eddo e seja bastante agrad\u00e1vel de ler, as mais de 600 p\u00e1ginas de \u201cO Capital no S\u00e9culo XXI\u201d \u2013 que contam com a cont\u00ednua apresenta\u00e7\u00e3o de uma base de dados densa e por vezes cansativa \u2013 podem afastar muitos leitores. \u00c9 natural, assim, que eles busquem alternativas mais compactas e simples para entender as teorias do autor. \u00c0 primeira vista, o livro \u201cA Economia da Desigualdade\u201d (relan\u00e7ado em 2014, na Fran\u00e7a, e 2015, no Brasil) seria a alternativa ideal, j\u00e1 que nele Thomas Piketty trata do mesmo tema em pouco mais de 100 p\u00e1ginas.<\/p>\n<p>O livro do qual tratamos aqui, por\u00e9m, foi lan\u00e7ado pela 1\u00aa vez muitos anos antes, em 1997, e a maior parte dos dados n\u00e3o foram atualizados nas vers\u00f5es subsequentes. Mais importante que isso, a argumenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi atualizada e, portanto, n\u00e3o reflete os avan\u00e7os te\u00f3ricos nem as descobertas motivadas pelas pesquisas do pr\u00f3prio Piketty nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>O livro apresenta uma exposi\u00e7\u00e3o completa, agrad\u00e1vel e coerente das principais teorias e recomenda\u00e7\u00f5es de pol\u00edticas p\u00fablicas debatidas pela teoria econ\u00f4mica tradicional nos anos 90. Como se esperaria de um economista ligado \u00e0 esquerda francesa, com um PhD na London School of Economics e que acabara de ser professor no MIT, Piketty mostra dom\u00ednio abrangente dos principais avan\u00e7os que vinham sendo feitos nos centros de pesquisa mais importantes da \u00e9poca, e reconhece a import\u00e2ncia de falhas e rigidez nos mercados \u2013 se afastando de uma ortodoxia ultraliberal.<\/p>\n<p>Apesar disso e de j\u00e1 se mostrar preocupado em colher evid\u00eancias emp\u00edricas para avaliar a maioria das teorias apresentadas, h\u00e1 uma diferen\u00e7a substancial entre o jovem Piketty de 1997 e o popstar dos anos 2010. Em sua obra mais recente e famosa, Piketty apresenta um m\u00e9todo muito mais hist\u00f3rico e indutivo, preocupado em ser interdisciplinar e mais distante da economia tradicional \u2013 embora a use como ponto de partida. Al\u00e9m disso, Piketty parece ter se tornado muito mais cr\u00edtico ao sistema capitalista ao longo dos anos, passando a reconhecer nele uma tend\u00eancia a se tornar patrimonialista e concentrador de riqueza, quando governo e a sociedade n\u00e3o agem em sentido contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Para o bem ou para o mal, o fato \u00e9 que \u201cA Economia da Desigualdade\u201d n\u00e3o deve ser visto como um \u201csubstituto\u201d de \u201cO Capital no S\u00e9culo XXI\u201d e, ao manter uma linha te\u00f3rica muito mais tradicional, n\u00e3o desperta rea\u00e7\u00f5es t\u00e3o extremadas como as que seguiram a publica\u00e7\u00e3o do best-seller (que chegou a ser chamado de panfleto comunista). Entretanto, al\u00e9m de seu valor te\u00f3rico intr\u00ednseco, o livro nos d\u00e1 a possibilidade de observar as mudan\u00e7as de opini\u00e3o e desenvolvimento te\u00f3rico de um dos economistas mais influentes da atualidade.<\/p>\n<p><b>Conte\u00fado do livro<\/b><\/p>\n<p>Mais do que defender pol\u00edticas universalmente adequadas para combater as desigualdades, o principal objetivo de Piketty em \u201cA Economia da Desigualdade\u201d \u00e9 mostrar o qu\u00e3o essencial \u00e9 estudarmos e entendermos os mecanismos socioecon\u00f4micos que as geram em cada contexto. Isso porque diferentes entendimentos sobre esses mecanismos implicam em diferentes instrumentos de redistribui\u00e7\u00e3o serem os mais apropriados em cada situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para Piketty, a discuss\u00e3o sobre desigualdades costuma misturar uma s\u00e9rie de quest\u00f5es de naturezas diferentes, e que devem ser tratadas separadamente, para entendermos onde est\u00e3o as verdadeiras discord\u00e2ncias, e onde existem converg\u00eancias. O debate sobre quais instrumentos usar para reduzir as desigualdades, por exemplo, n\u00e3o deveria se confundir com o tamanho da distribui\u00e7\u00e3o realizada ou a extens\u00e3o dos direitos que todos devem ter. Da mesma forma, ele considera haver certo consenso sobre os ideais de \u201cjusti\u00e7a social\u201d dos diferentes grupos pol\u00edticos, que parecem concordar ser fun\u00e7\u00e3o do Estado melhorar a vida das pessoas que enfrentam as caracter\u00edsticas n\u00e3o-control\u00e1veis de suas vidas mais adversas \u2013 algo que poder\u00edamos chamar de igualdade de oportunidades.<\/p>\n<p>O ponto focal do livro, portanto, \u00e9 entender (i) em que contextos as desigualdades s\u00e3o geradas por inefici\u00eancias do mercado \u2013 que exigem \u201credistribui\u00e7\u00f5es eficientes\u201d que intervenham diretamente na estrutura do processo produtivo e dos mecanismos de mercado que produzem as desigualdades \u2013, e (ii) em que situa\u00e7\u00f5es as desigualdades podem ser combatidas com \u201credistribui\u00e7\u00f5es puras\u201d \u2013 que permitem ao mercado operar livremente, e redistribuem os recursos atrav\u00e9s de transfer\u00eancias fiscais.<\/p>\n<p><b>*<\/b><\/p>\n<p>No primeiro cap\u00edtulo, o autor apresenta os principais dados que as teorias sobre desigualdade precisariam levar em conta. Focando especialmente nas estat\u00edsticas francesas, o autor as compara com a evolu\u00e7\u00e3o das desigualdades de sal\u00e1rio e renda em outros pa\u00edses da OCDE, principalmente EUA e Reino Unido \u2013 que sofreram uma escalada na desigualdade salarial a partir dos anos 70. Al\u00e9m disso, fica claro que as desigualdades nos pa\u00edses n\u00f3rdicos e na Alemanha s\u00e3o significativamente menores que na Fran\u00e7a, enquanto se mant\u00eam em n\u00edvel bem mais elevado nos EUA.<\/p>\n<p>Interessante, tamb\u00e9m, \u00e9 a observa\u00e7\u00e3o que a desigualdade entre um europeu de 1990 e um europeu de 1870 \u00e9 similar \u00e0 observada entre um europeu de 1990 e um indiano de 1990 \u2013 demonstrando que em nosso mundo a desigualdade temporal de um s\u00e9culo e a desigualdade espacial s\u00e3o relativamente similares (o europeu de 1990 tem renda cerca de 10x superior aos outros dois).<\/p>\n<p>O principal \u00edndice que Piketty usa para avaliar a amplitude das desigualdades \u00e9 a raz\u00e3o P90\/P10. Assim sendo, Piketty compara a renda (sal\u00e1rio ou capital) necess\u00e1ria para se estar entre os 10% mais ricos da popula\u00e7\u00e3o, com a renda (sal\u00e1rio ou capital) necess\u00e1ria para se estar entre os 10% mais pobres. Sua escolha por esse \u00edndice \u00e9 por ser mais intuitivo, simples e de interpreta\u00e7\u00e3o mais f\u00e1cil que o \u00edndice de Gini, por exemplo. De fato, um P90\/P10 de 3 significa, simplesmente, que a pessoa na fronteira dos 10% mais ricos da popula\u00e7\u00e3o ganha 3x mais que aquela na fronteira dos 10% mais pobres da popula\u00e7\u00e3o. Outra vantagem, n\u00e3o citada, desse \u00edndice \u00e9 dar peso menor \u00e0 m\u00e9dia da distribui\u00e7\u00e3o que o Gini \u2013 o que se prova interessante quando nossas principais preocupa\u00e7\u00f5es s\u00e3o os muito ricos e os muito pobres.<\/p>\n<p>A partir da d\u00e9cada de 50 ganhou for\u00e7a a ideia (Lei de Kuznets) de que os pa\u00edses capitalistas passariam por um ciclo inicial de aumento das desigualdades nos primeiros est\u00e1gios do seu desenvolvimento, seguido de um per\u00edodo de estabilidade das desigualdades, e de sua queda, uma vez que o pa\u00eds j\u00e1 estivesse desenvolvido. Piketty nega que esse seja um processo natural e, embora tenha se verificado em alguns pa\u00edses, teria sido resultado de pol\u00edticas espec\u00edficas (impostos progressivos) e circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas espec\u00edficas (grandes desastres).<\/p>\n<p>Essa rejei\u00e7\u00e3o, que nega a exist\u00eancia de uma tend\u00eancia de longo prazo de redu\u00e7\u00e3o das desigualdades no capitalismo, ganha peso quando observamos que nos pa\u00edses que adotaram pol\u00edticas mais liberais a desigualdade salarial voltou a crescer nos anos 80 (essa rejei\u00e7\u00e3o seria ainda mais refor\u00e7ada com os novos dados apresentados n\u2019O Capital no S\u00e9culo XXI).<\/p>\n<p><b>*<\/b><\/p>\n<p>Embora reconhe\u00e7a que pa\u00edses isoladamente podem sofrer alguma perda de investimentos quando estabelecem taxa\u00e7\u00f5es sobre o capital, Piketty se posiciona claramente a favor desses impostos e contra a posi\u00e7\u00e3o ortodoxa mais tradicional. Segundo ela, o melhor para os trabalhadores seria n\u00e3o haver redistribui\u00e7\u00e3o \u2013 uma vez que a queda do incentivo a acumular capital causado pelos impostos geraria quedas na produtividade que, no longo prazo, prejudicaria a todos, incluindo os mais pobres.<\/p>\n<p>Piketty mostra, entretanto, que os investimentos n\u00e3o caem de forma significativa quando a remunera\u00e7\u00e3o do capital \u00e9 um pouco reduzida. Al\u00e9m disso, quando pensamos na transmiss\u00e3o dessa riqueza acumulada, Piketty considera que os rendimentos que essa riqueza traz aos benefici\u00e1rios de heran\u00e7as, por exemplo, seriam um benef\u00edcio injusto para indiv\u00edduos com pais ricos, em rela\u00e7\u00e3o aos que dependem apenas de sua for\u00e7a de trabalho \u2013 mas em nada, al\u00e9m da sorte, ficam devendo em esfor\u00e7o ou contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 sociedade \u00e0queles que receberam algum tipo de heran\u00e7a.<\/p>\n<p>Outro problema da desigualdade de capital seria a imperfei\u00e7\u00e3o do mercado de cr\u00e9dito, isto \u00e9, a constata\u00e7\u00e3o que projetos de empreendimentos lucrativos nem sempre conseguem o financiamento necess\u00e1rio para sa\u00edrem do papel. Com isso, indiv\u00edduos que tem capital pr\u00f3prio ou garantias para seus empr\u00e9stimos seriam capazes de empreender, enquanto os mais pobres n\u00e3o teriam essa oportunidade.<\/p>\n<p>Os melhores instrumentos para combater essa desigualdade na propriedade do capital dependem, para o autor, do quanto capital e trabalho podem ser substitu\u00eddos um pelo outro na produ\u00e7\u00e3o. Ou seja, do quanto \u00e9 poss\u00edvel reduzir o n\u00famero de trabalhadores empregados, quando se aumenta a quantidade de m\u00e1quinas na produ\u00e7\u00e3o \u2013 sem alterar a quantidade de bens produzidos.<\/p>\n<p>Segundo Piketty essa substitutibilidade \u00e9 razo\u00e1vel e, por isso, mecanismos de distribui\u00e7\u00e3o que atuam diretamente na aloca\u00e7\u00e3o de rendimentos determinada pelo mercado (como o aumento de sal\u00e1rios) poderiam, em princ\u00edpio, causar substitui\u00e7\u00e3o de trabalho por mais capital \u2013 gerando desemprego. Assim sendo, em sua opini\u00e3o o melhor seria seguir as aloca\u00e7\u00f5es do sistema de pre\u00e7os e taxar diretamente os rendimentos do capital, ou o estoque de capital, redistribuindo essa renda para os trabalhadores (redistribui\u00e7\u00e3o pura).<\/p>\n<p>Em termos pr\u00e1ticos, entretanto, a esquerda seria c\u00e9tica em rela\u00e7\u00e3o a essas pol\u00edticas. Isso porque, embora no longo-prazo seja o crescimento o principal respons\u00e1vel pela melhora das condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores, no curto-prazo a hist\u00f3ria parece corroborar que quando os sindicatos ganharam mais for\u00e7a as condi\u00e7\u00f5es de vida de fato melhoraram.<\/p>\n<p>Por conta disso, os sindicalizados tendem a entender que a press\u00e3o pelo aumento de seus sal\u00e1rios garante uma redistribui\u00e7\u00e3o de renda mais r\u00e1pida. Mas n\u00e3o \u00e9 apenas a velocidade dessa transi\u00e7\u00e3o que eles buscam: Piketty reconhece que, na pr\u00e1tica, nunca foi poss\u00edvel convencer o governo a redistribuir renda na propor\u00e7\u00e3o desejada por esses trabalhadores, usando a via \u2013 teoricamente mais eficiente \u2013 dos impostos. O descontentamento com o governo, e a discord\u00e2ncia sobre o tamanho da redistribui\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, ali\u00e1s, seriam historicamente os principais respons\u00e1veis pelo pr\u00f3prio surgimento dos sindicatos.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 corre\u00e7\u00e3o das falhas do mercado de cr\u00e9dito, Piketty se coloca explicitamente contra as pol\u00edticas de cr\u00e9dito subsidiado dos bancos p\u00fablicos, afirmando \u2013 embora n\u00e3o apresente dados nem evid\u00eancias \u2013 que elas teriam sido desastrosas em todos os casos, exceto na agricultura. Ele sugere como alternativa um imposto geral sobre a riqueza, que garantisse a todo cidad\u00e3o que chegasse na idade adulta um \u201ccheque investimento\u201d, dando a possibilidade de todos investirem ou emprestarem da forma que lhes parecesse mais vantajosa \u2013 uma ideia que n\u00e3o parece ter tido muita repercuss\u00e3o no debate p\u00fablico.<\/p>\n<p>Terminando o cap\u00edtulo, o autor analisa a evolu\u00e7\u00e3o da renda relativa entre pa\u00edses. Ao contr\u00e1rio do esperado pela teoria econ\u00f4mica mais tradicional, n\u00e3o estaria havendo uma aproxima\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses mais pobres ao n\u00edvel de renda dos mais ricos. Somente pa\u00edses de renda m\u00e9dia estariam conseguindo fazer essa aproxima\u00e7\u00e3o. Embora o principal componente sugerido para isso seja a diferen\u00e7a de capital humano entre as na\u00e7\u00f5es, Piketty lembra, ainda, que o fluxo esperado de investimento dos pa\u00edses ricos para os pa\u00edses pobres (onde teoricamente as possibilidades de lucro seriam maiores) n\u00e3o estaria ocorrendo. Pelo contr\u00e1rio, em termos l\u00edquidos o fluxo de capital parece ser no sentido de os pa\u00edses mais pobres perderem capital para os mais desenvolvidos.<\/p>\n<p><b>*<\/b><\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de \u201cO Capital do S\u00e9culo XXI\u201d, onde a desigualdade de riqueza assumem papel preponderante na narrativa de Piketty, aqui o autor deixa claro acreditar serem as rendas do trabalho as principais respons\u00e1veis pela desigualdade. Ainda, ele defende que as tentativas de redistribuir capital teriam capacidade limitada, com custos sobre o est\u00edmulo \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o de capital e um hist\u00f3rico de experi\u00eancias desastrosas no sec XX.<\/p>\n<p>(nota: de forma quase contradit\u00f3ria, por\u00e9m, o \u00faltimo par\u00e1grafo do 2\u00ba cap. \u2013 claramente uma das poucas adi\u00e7\u00f5es recentes ao texto \u2013 cita \u201cO Capital no sec XXI\u201d e a necessidade e import\u00e2ncia de um imposto sobre capital.)<\/p>\n<p>Para Piketty as desigualdades salariais seriam, principalmente, causadas por diferen\u00e7as de produtividade entre trabalhadores \u2013 ligadas \u00e0 diferen\u00e7a de capital humano (forma\u00e7\u00e3o e habilidades individuais) entre eles. Apesar de aceitar essa ideia, o autor discorda de Gary Becker e seus colegas da Universidade de Chicago, segundo os quais essa desigualdade de capital humano seria incontorn\u00e1vel, por ser produto do ambiente familiar. Na vis\u00e3o deles, por exemplo, n\u00e3o geraria resultados investir mais recursos em escolas da periferia, pelas limita\u00e7\u00f5es que as pr\u00f3prias fam\u00edlias dessas crian\u00e7as causariam.<\/p>\n<p>De fato, o ambiente e a forma\u00e7\u00e3o familiar dos colegas tem alta influ\u00eancia no desenvolvimento das crian\u00e7as e, por isso, Piketty defende que se obrigue a conviv\u00eancia entre filhos de diferentes classes sociais \u2013 exigindo que alguns filhos de bairros mais ricos tamb\u00e9m estudem em escolas da periferia.<\/p>\n<p>Uma explica\u00e7\u00e3o recorrente sobre o aumento das desigualdades salariais \u00e9 a globaliza\u00e7\u00e3o: ao competirem com trabalhadores de pa\u00edses pobres, os trabalhadores n\u00e3o-qualificados teriam precisado reduzir seu n\u00edvel de sal\u00e1rio. Embora aprove a l\u00f3gica dessa explica\u00e7\u00e3o, Piketty n\u00e3o acha que ela seja capaz de explicar o fen\u00f4meno, uma vez que somente 10% das importa\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses ricos nos anos 90 vinham dos pa\u00edses pobres.<\/p>\n<p>Uma terceira explica\u00e7\u00e3o, aprovada com ressalvas pelo autor, \u00e9 a de que o avan\u00e7o da tecnologia teria passado a exigir habilidades n\u00e3o-massificadas pelo sistema educacional. Esse talento, que sempre foi desigual, teria passado a ser cada vez mais valorizado \u2013 trazendo um pr\u00eamio desproporcional ao sal\u00e1rio dos trabalhadores que o possuem.<\/p>\n<p>De forma similar ao cap\u00edtulo anterior, Piketty coloca que a principal quest\u00e3o para determinar quais as melhores pol\u00edticas para redistribuir renda \u00e9 saber o quanto trabalhos com diferentes tipos de qualifica\u00e7\u00e3o s\u00e3o substitutos entre si. A evid\u00eancia apresentada nos mostra ser poss\u00edvel substituir certo n\u00famero de trabalhadores com menor n\u00edvel educacional por um n\u00famero menor de trabalhadores mais treinados. Por conta disso, para n\u00e3o causar desemprego entre os menos treinados, o melhor seria deixar os sal\u00e1rios serem determinados pelo mercado, mas financiar transfer\u00eancias aos mais pobres tributando sal\u00e1rios altos.<\/p>\n<p>No mercado de trabalho, por\u00e9m, Piketty se mostra mais aberto a medidas mais intervencionistas, que corrijam inefici\u00eancias do mercado.<\/p>\n<p>Para reduzir as desigualdades de capital humano, Piketty defende a necessidade de pol\u00edticas educacionais e de capital humano. Aqui, novamente, ele diverge de Gary Becker \u2013 que acredita que qualquer investimento produtivo em forma\u00e7\u00e3o ser\u00e1 financiado pelo mercado financeiro e realizado espontaneamente pelas pessoas. Tanto a imperfei\u00e7\u00e3o do mercado de cr\u00e9dito quanto a impossibilidade de jovens julgarem o retorno de seus investimentos em forma\u00e7\u00e3o justificariam, para Piketty, pol\u00edticas paternalistas do governo na \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o (sem que isso distorcesse de forma relevante os incentivos para as pessoas se qualificarem por conta pr\u00f3pria).<\/p>\n<p>Quando trata da discrimina\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho, Piketty observa que a mera cren\u00e7a de um empregador que um determinado tipo (negros, mulheres, homossexuais) de candidato a certo emprego teria uma chance menor de ter as caracter\u00edsticas desejadas, \u00e9 capaz de desincentivar esses grupos a adquirirem as capacita\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias e, de fato, causar uma menor capacita\u00e7\u00e3o desses grupos (profecia auto-realiz\u00e1vel). Em casos como esse, Piketty defende que cotas e pol\u00edticas afirmativas, que interferem diretamente na estrutura produtiva, podem ser a\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias e eficientes. Apesar disso, ele teme que pol\u00edticas de cotas tenham refor\u00e7ado o preconceito de empregadores contra negros, fazendo empregadores s\u00f3 contrat\u00e1-los quando obrigados a isso.<\/p>\n<p>Mesmo as grades salariais obrigat\u00f3rias, com tabelamento de sal\u00e1rios resultado da a\u00e7\u00e3o de sindicatos, podem trazer efici\u00eancia econ\u00f4mica, segundo o autor. Isso porque firmas passam a poder treinar seus empregados, sem medo de que concorrentes se aproveitem disso pagando um valor superior; e os trabalhadores passam a ter um retorno mais seguro e sal\u00e1rio esperado menos incerto, quando investem em sua pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Da mesma forma, pol\u00edticas de sal\u00e1rio m\u00ednimo poderiam, em circunst\u00e2ncias de falta de competi\u00e7\u00e3o entre empregadores no mercado de trabalho, ou de baixa mobilidade geogr\u00e1fica dos empregados, melhorar a efici\u00eancia do mercado e, at\u00e9, aumentar o n\u00edvel de emprego da economia \u2013 ao contr\u00e1rio do normalmente previsto pela teoria econ\u00f4mica tradicional.<\/p>\n<p><b>*<\/b><\/p>\n<p>Tendo provado seu principal ponto, de que diferentes mecanismos produtores de desigualdades devem ser tratados com diferentes tipos de instrumentos, Piketty se dedica a explicar como medir o n\u00edvel de redistribui\u00e7\u00e3o fiscal \u2013 via impostos e transfer\u00eancias \u2013 operada pelo Estado (o instrumento que, em geral, \u00e9 o mais apropriado para redu\u00e7\u00e3o de desigualdades em sua vis\u00e3o).<\/p>\n<p>Conclui que, na Fran\u00e7a de 1996, n\u00e3o haveria redistribui\u00e7\u00e3o fiscal significativa entre trabalhadores ativos \u2013 fazendo das diferen\u00e7as de renda pr\u00f3ximas \u00e0s diferen\u00e7as de sal\u00e1rios. Al\u00e9m de defender uma mudan\u00e7a desse panorama, Piketty deixa claro que os pretensos efeitos desmotivadores que impostos adicionais teriam na acumula\u00e7\u00e3o de riqueza dos ricos n\u00e3o s\u00e3o observados na pr\u00e1tica. Por outro lado, o incentivo maior ao trabalho nos n\u00edveis mais baixos de renda teria efeitos positivos significativos, ao tirar jovens e mulheres casadas de casa.<\/p>\n<p>J\u00e1 sobre as interven\u00e7\u00f5es do governo diretamente nos mecanismos de mercado, Piketty defende, ainda, a import\u00e2ncia de seguros sociais governamentais (seguro sa\u00fade, seguro desemprego e aposentadoria), pela incapacidade do mercado privado em oferecer esses servi\u00e7os satisfatoriamente.<\/p>\n<p>Por fim, o livro cont\u00e9m uma \u00faltima sess\u00e3o, bastante deslocada e fr\u00e1gil teoricamente, em que Piketty avalia a aplica\u00e7\u00e3o de redistribui\u00e7\u00f5es por pol\u00edticas de demanda keynesiana. Aqui o autor coloca que o efeito distributivo dessas a\u00e7\u00f5es pode ser duvidoso, e seu benef\u00edcio depende de situa\u00e7\u00f5es bastante particulares de cada caso. Chama a aten\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, o fato de o autor supor implicitamente que a economia est\u00e1 funcionando em pleno emprego, em sua an\u00e1lise, algo evidentemente contr\u00e1rio \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o usual proposta para esse tipo de pol\u00edtica.<\/p>\n<p>http:\/\/fazdiferenca.com\/a-economia-da-desigualdade\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adriano dos Reis Miranda Laureno Oliveira &#8211; Considera\u00e7\u00f5es gerais: Um dos economistas mais influentes da atualidade, Thomas Piketty conseguiu com o lan\u00e7amento de seu livro \u201cO Capital no S\u00e9culo XXI\u201d (2013 em franc\u00eas, 2014 em portugu\u00eas e ingl\u00eas) alcan\u00e7ar o posto de popstar acad\u00eamico e reformular o escopo do debate p\u00fablico, que aumentou sua preocupa\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5801,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[5],"tags":[46,70,39],"class_list":["post-7924","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia","tag-desigualdade-social","tag-neoliberalismo","tag-tributacao-regressiva"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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