{"id":7919,"date":"2018-04-27T15:30:56","date_gmt":"2018-04-27T18:30:56","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=7919"},"modified":"2018-04-26T17:27:04","modified_gmt":"2018-04-26T20:27:04","slug":"a-nova-roupa-da-direita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/04\/27\/a-nova-roupa-da-direita\/","title":{"rendered":"A nova roupa da direita"},"content":{"rendered":"<p><strong>Marina Amaral\u00a0<\/strong>\u2014 Rede de conservadores dos EUA financia jovens latino-americanos para combater governos de esquerda da Venezuela ao Brasil e defender velhas bandeiras com um nova linguagem.<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">\u201cO corpo \u00e9 a primeira propriedade privada que temos; cabe a cada um de n\u00f3s decidir o que quer fazer com ele\u201d, brada em espanhol a loirinha de voz firme, enquanto se movimenta com gra\u00e7a no palco do F\u00f3rum da Liberdade, ornado com os logotipos dos patrocinadores oficiais \u2013 Souza Cruz, Gerdau, Ipiranga e\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"RBS\" href=\"http:\/\/cartacapital.com.br\/tags\/RBS\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">RBS<\/a>\u00a0(afiliada da Rede Globo). O audit\u00f3rio de 2 mil lugares da PUC-RS, em Porto Alegre, completamente lotado, explode em risos e aplausos para a guatemalteca Gloria \u00c1lvarez, 30 anos, filha de pai cubano e m\u00e3e descendente de h\u00fangaros.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Gloria ou @crazyglorita (55 mil seguidores no\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"Twitter\" href=\"http:\/\/cartacapital.com.br\/@@search?Subject%3Alist=Twitter\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Twitter<\/a>\u00a0e 120 mil em sua fanpage do Facebook) ascendeu ao estrelato entre a juventude de direita latino-americana no final do ano passado, quando um v\u00eddeo em que ataca o \u201cpopulismo\u201d na Am\u00e9rica Latina durante o Parlamento Iberoamericano da Juventude em Zaragoza (Espanha) viralizou na internet. No principal f\u00f3rum da direita brasileira, Gloria e o ex-governador republicano da Carolina do Sul David Bensley s\u00e3o os \u00fanicos entre os 22 palestrantes, brasileiros e estrangeiros, escalados para os keynote \u2013 palestras-chave que norteiam os debates nos tr\u00eas dias do evento, batizado de \u201cCaminhos da Liberdade\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\">Radialista h\u00e1 dez anos, hoje com um programa na TV, Gloria \u00e9 uma show-woman cativante. Conduz com desenvoltura a plateia formada majoritariamente por estudantes da PUC ga\u00facha, uma das melhores e mais caras universidades do Sul do pa\u00eds. \u201cQuem aqui se declara liberal ou libertarista que levante a m\u00e3o?\u201d, pede ao p\u00fablico, que responde com m\u00e3os erguidas. \u201cAh, ok\u201d, relaxa. Sua miss\u00e3o \u00e9 ensinar a seus pares ideol\u00f3gicos como \u201cseduzir e enamorar os p\u00fablicos de esquerda\u201d e vencer \u201cos barbudos de boina de Che\u201d, explica a jovem l\u00edder do Movimiento C\u00edvico Nacional (MCN), uma pequena organiza\u00e7\u00e3o que surgiu em 2009 na Guatemala na esteira dos movimentos que pediam \u2013 sem \u00eaxito \u2013 o\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"Impeachment\" href=\"http:\/\/cartacapital.com.br\/tags\/impeachment\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">impeachment<\/a>\u00a0do presidente social-democrata \u00c1lvaro Colom.<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">A primeira li\u00e7\u00e3o \u00e9 utilizar nas redes sociais o hashtag criado por ela, \u201crep\u00fablica x populismo\u201d, para superar \u201ca divis\u00e3o obsoleta entre direita e esquerda\u201d. \u201cUm esquerdista intelectualmente honesto tem de reconhecer que a \u00fanica sa\u00edda \u00e9 o emprego, e um direitista do s\u00e9culo 21, que j\u00e1 se modernizou, tem de reconhecer que a sexualidade, a moral, as drogas s\u00e3o um problema de cada um; ele n\u00e3o \u00e9 a autoridade moral do universo\u201d, continua, sob uma chuva de aplausos. Nada de culpa, nem moral nem social, ensina. A mensagem \u00e9 liberdade individual, \u201cempoderamento\u201d da juventude, impostos baixos, Estado m\u00ednimo \u2013 a plataforma da direita liberal (em termos econ\u00f4micos) no mundo todo: \u201cA riqueza n\u00e3o se transfere, senhores, a riqueza se cria a partir da cabecinha de cada um de voc\u00eas\u201d, diz. Da mesma maneira, Gloria rebate programas sociais de assist\u00eancia aos mais pobres, pol\u00edtica de cotas para mulheres, negros, deficientes e at\u00e9 mesmo a exist\u00eancia de minorias: \u201cN\u00e3o h\u00e1 minorias, a menor minoria \u00e9 o indiv\u00edduo, e a ele o que melhor serve \u00e9 a meritocracia\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">\u201cH\u00e1 uma verdade que todo ser humano deve alcan\u00e7ar para ter paz, se n\u00e3o quiser viver como um hip\u00f3crita. Todos n\u00f3s, 7 bilh\u00f5es e meio de seres humanos que habitamos este planeta, somos ego\u00edstas. \u00c9 essa a verdade, meus queridos amigos do Brasil, todos somos ego\u00edstas. E isso \u00e9 ruim? \u00c9 bom? N\u00e3o, \u00e9 apenas a realidade\u201d, diz, definitiva. \u201cH\u00e1 pessoas que n\u00e3o aceitam essa verdade e saem com a maravilhosa ideia: \u2018N\u00e3o! [imita a voz de um homem], eu vou fazer a primeira sociedade n\u00e3o ego\u00edsta\u2019. Cuidem-se, brasileiros; cuide-se, Am\u00e9rica<\/span>Latina! Esses espertinhos s\u00e3o como St\u00e1lin, na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, como Kim Jong-il, Kim Jong-un, na Coreia do Norte, Fidel Castro, em Cuba, Hugo Ch\u00e1vez, na Venezuela.\u201d E por que \u201cseguimos como carneirinhos\u201d atr\u00e1s desses \u201chip\u00f3critas\u201d? Porque [faz careta e vozinha de velha] \u201cnos ensinam que \u00e9 feio ser ego\u00edsta e que pensar em n\u00f3s mesmos \u00e9 pecado. Quantos de voc\u00eas j\u00e1 n\u00e3o viram algu\u00e9m dizer \u2018ah, necessitamos de um homem bom, que n\u00e3o pense s\u00f3 em si\u201d, diz, encurvando-se \u00e0 medida que fala para em seguida recuperar a postura altiva: \u201cMira, se\u00f1ores, a menos que seja um marciano, esse homem n\u00e3o existe, nunca existiu, nem existir\u00e1 jamais\u201d. Aplausos fren\u00e9ticos.<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Mas, explica, os \u201cdefensores da liberdade\u201d tamb\u00e9m tem sua parcela de responsabilidade. Eles n\u00e3o sabem comunicar suas ideias, usar a tecnologia para \u201cempoderar os cidad\u00e3os\u201d e \u201clibertar\u201d a Am\u00e9rica Latina. \u201cSe ficarmos discutindo macroeconomia, PIB etc., vamos perder a batalha. Temos que aprender com os populistas a falar o que as pessoas entendem, fazer com que se identifiquem\u201d, ela diz. \u201cE aqui vou lhes dar outro conselho porque dizem que n\u00f3s, os liberais, somos malditos exploradores\u201d, ironiza. \u201cEncontrei u<\/span>m maneira muito bonita de definir o conceito de propriedade privada. E com esse conceito de propriedade privada os esquerdistas fazem assim: \u00d4ooooo! [inclina o corpo para tr\u00e1s].\u201d A propriedade privada, diz, \u00e9 o que acumulamos em toda uma vida, a partir de nossas primeiras propriedades: corpo e mente. O passado, afirma, n\u00e3o \u00e9 igual para ningu\u00e9m, esse ac\u00famulo \u00e9 pessoal. \u201cIsso nos humaniza, d\u00e1 um cora\u00e7\u00e3ozinho a n\u00f3s, liberais, t\u00e3o desgra\u00e7ados.\u201d Risos. Aplausos.<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">\u201cH\u00e1 pessoas que querem o direito \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, ao trabalho, \u00e0 moradia. A ONU agora quer at\u00e9 o direito universal \u00e0 internet\u201d, desdenha, embora tenha acabado de dizer que a tecnologia \u00e9 a chave para mudar o mundo. \u201cImaginem que, nesse audit\u00f3rio, alguns queiram o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, outros o direito \u00e0 sa\u00fade, outros o direito \u00e0 moradia. Ent\u00e3o, se eu dou a voc\u00eas a educa\u00e7\u00e3o, todos aqui v\u00e3o pagar por isso, e voc\u00eas v\u00e3o ser VIPs, e eles, cidad\u00e3os de segunda categoria. Se eu dou a eles a sa\u00fade, todos neste audit\u00f3rio v\u00e3o pagar pela sa\u00fade deles, e eles v\u00e3o ser VIPs. Se eu dou a esses as moradias, vou ter que tirar de todos voc\u00eas para dar moradia a eles, e eles v\u00e3o ser esses VIPs. Isso n\u00e3o \u00e9 justi\u00e7a social, \u00e9 desigual<\/span>dade perante a lei\u201d, conclui, novamente sob risos e aplausos.<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">\u201cSe cada um na Am\u00e9rica Latina tiver direito \u00e0 vida, liberdade e propriedade privada, ent\u00e3o cada um que v\u00e1 atr\u00e1s da educa\u00e7\u00e3o que queira, da sa\u00fade que queira, da casa onde quer morar, sem precisar de super-Ch\u00e1vez, super-Morales, super-Correa\u201d. Ova\u00e7\u00e3o. Assobios. Antes de encerrar os 40 minutos de exposi\u00e7\u00e3o, Gloria convida os presentes a contrapor a vis\u00e3o de mundo que \u201cvitimiza os latino-americanos\u201d, \u201cjoga a culpa nos ianques\u201d, mina a \u201cautoestima\u201d e a coragem de assumir riscos que exige o esp\u00edrito empreendedor. A plateia aplaude de p\u00e9.<\/span><\/p>\n<p class=\"s1\"><strong><span class=\"s1\">Neoliberais e libertaristas<\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">Gloria \u00c1lvarez n\u00e3o representa nada exatamente novo. A grande diferen\u00e7a \u00e9 a linguagem. O MCN (movimento a que ela pertence) recebe \u201cfundos de algumas das maiores empresas da elite empresarial tradicional, conta o jornalista investigativo Mart\u00edn Rodr\u00edguez Pellecer, diretor do site guatemalteco N\u00f3mada, parceiro da P\u00fablica. \u201cPor fontes pr\u00f3ximas, soube que uma das ind\u00fastrias que os apoiam para campanhas de massa e lobby no Congresso \u00e9 a Az\u00facar de Guatemala, um cartel poderos\u00edssimo de treze empresas (a Guatemala \u00e9 o quarto maior exportador mundial de a\u00e7\u00facar) e as usinas guatemaltecas t\u00eam, inclusive, investimentos em usinas no Brasil.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\">O mesmo pode-se dizer em rela\u00e7\u00e3o a suas ideias. Apesar do t\u00edtulo sedutor, os libertarians \u2013 libertaristas em portugu\u00eas \u2013 \u201cs\u00e3o um segmento minorit\u00e1rio entre as correntes que ganharam influ\u00eancia no p\u00f3s-guerra em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas intervencionistas de inspira\u00e7\u00e3o keynesiana\u201d, explica o economista Luiz Carlos Prado, da Universidade Federal no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p class=\"p1\">A partir da crise do petr\u00f3leo dos anos 1970, economistas pr\u00f3-mercado como o austr\u00edaco Friedrich Hayek (Pr\u00eamio Nobel de 1974), monetaristas da Escola de Chicago de Milton Friedman (Pr\u00eamio Nobel de 1976) e os novo-cl\u00e1ssicos associados a Robert Lucas (Pr\u00eamio Nobel de 1995) passaram a dominar o pensamento econ\u00f4mico global e se tornaram conhecidos do grande p\u00fablico sob um \u00fanico r\u00f3tulo: \u201cneoliberal\u201d. Seus conceitos foram trazidos para a Am\u00e9rica Latina pelo setor mais conservador americano, representado principalmente pelos think tanks ligados a Ronald Reagan, que depois de ter perdido as prim\u00e1rias republicanas em 1968 e 1976, se elegeu presidente em 1980, tendo Friedman como principal conselheiro. Tamb\u00e9m predominaram no governo de Margaret Thatcher (1979-1991) na Inglaterra. \u201cOs defensores do liberalismo cl\u00e1ssico eram tamb\u00e9m defensores da liberdade pol\u00edtica, mas a corrente chamada de \u2018neoliberal\u2019 defendia essencialmente a n\u00e3o interven\u00e7\u00e3o do Estado na economia sem uma preocupa\u00e7\u00e3o particular com a quest\u00e3o da liberdade pol\u00edtica, chegando, em alguns casos, a apoiar sem constrangimentos governos ditatoriais como o de Pinochet no Chile\u201d, observa Luiz Carlos Prado.<\/p>\n<p class=\"p1\"><img decoding=\"async\" class=\"image-inline lazyloading\" title=\"Gerdau\" src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/politica\/a-nova-roupa-da-direita-4795.html\/gerdau\" alt=\"O \u201cher\u00f3i\u201d do F\u00f3rum , Kim Kataguiri, encontra o patrocinador da festa, Jorge Gerdau.\" data-src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/politica\/a-nova-roupa-da-direita-4795.html\/gerdau\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">A Guatemala de Gloria \u00c1lvarez \u00e9 um bom exemplo de como as ideias libertarians se traduziram na Am\u00e9rica Latina. Em 1971,\u201cuma parte muito representativa da elite econ\u00f4mica guatemalteca assumiu como projeto pol\u00edtico o libertarismo de direita, quando fundou a Universidade Francisco Marroqu\u00edn (UFM)\u201d, conta o jornalista Mart\u00edn Rodr\u00edguez Pellecer. \u201cO fundador da universidade, Manuel Ayau, conhecido como El Muso, em alus\u00e3o a Mussolini, se uniu ao projeto fascista anticomunista da MLN. Desde ent\u00e3o, a UFM vem formando quadros pol\u00edticos e acad\u00eamicos para desacreditar o Estado e a justi\u00e7a social e converter a Guatemala no pa\u00eds que arrecada menos impostos na Am\u00e9rica Latina (11% em rela\u00e7\u00e3o ao PIB) e o que menos redistribui\u201d, explica. Foi nessa universidade que Gloria estudou e \u201cse converteu em uma libertarista um tanto menos conservadora que seus professores, uma mistura de neoliberais e Opus Dei. \u00c1lvarez se declara ateia e a favor do aborto e, embora tenha se tornado uma estrela da direita latino-americana, na Guatemala \u00e9 uma refer\u00eancia menor para a direita, n\u00e3o tem base pol\u00edtica nem vai ser candidata. Eu a vejo mais como uma enfant terrible libertarista\u201d, diz Mart\u00edn.<\/p>\n<p class=\"p1\">Os libertarians ressurgiram com for\u00e7a nos Estados Unidos depois da crise de 2008 \u2013 e ao clamor subsequente pela regulamenta\u00e7\u00e3o do mercado \u2013 e em decorr\u00eancia da ascens\u00e3o do democrata Barack Obama ao poder. Pregam a predomin\u00e2ncia do indiv\u00edduo sobre o Estado, a liberdade absoluta do mercado, a defesa irrestrita da propriedade privada. Afirmam que a crise econ\u00f4mica que jogou 50 milh\u00f5es de pessoas na pobreza n\u00e3o se deveu \u00e0 falta de regula\u00e7\u00e3o do mercado financeiro, mas pela prote\u00e7\u00e3o do governo a alguns setores da economia. E rejeitam enfaticamente os programas sociais do governo Obama. No entanto, uma parte significativa dos libertaristas tem se distanciado do tradicionalismo da direita no campo do comportamento, defendendo posi\u00e7\u00f5es associadas \u00e0 esquerda, como a defesa da libera\u00e7\u00e3o das drogas e a toler\u00e2ncia aos homossexuais, em nome da liberdade do individual. O senador republicano Rand Paul, pr\u00e9-candidato \u00e0 presid\u00eancia, \u00e9 um de seus representantes mais conhecidos.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cOs libertarians que est\u00e3o com os conservadores no Tea Party (a corrente radical de direita no Partido Republicano americano) est\u00e3o em think tanks como o Cato Institute e comp\u00f5em a direita p\u00f3s-moderna, representada, por exemplo, por Cameron, na Inglaterra, que modernizou a agenda da redu\u00e7\u00e3o do estado do bem-estar social\u201d, resume o professor. Ele acha gra\u00e7a quando falo em libertarians brasileiros, seguidores da escola austr\u00edaca de economia de Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. \u201cA escola austr\u00edaca \u00e9 uma corrente muito minorit\u00e1ria mesmo na academia\u201d, diz. \u201cQuem s\u00e3o esses libertarians? O que temos no Brasil s\u00e3o economistas sofisticados que seguem correntes como a dos novo-cl\u00e1ssicos do pr\u00eamio Nobel Robert Lucas e outras similares, pol\u00edticos de direita pouco elaborados como o Ronaldo Caiado (senador do DEM-GO) e essa classe m\u00e9dia conservadora que l\u00ea Rodrigo Constantino na Veja\u201d, resume.<\/p>\n<p class=\"p1\">Caiado e Constantino s\u00e3o participantes veteranos do F\u00f3rum da Liberdade em Porto Alegre. A novidade \u00e9 que os libertarians do Tea Party mostraram-se enfim capazes de se apresentar como a face convidativa da direita para a juventude brasileira.<\/p>\n<p><strong>Vem pra rua, ciudadano<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">Na v\u00e9spera do F\u00f3rum, no dia 12 de abril, Gloria \u00c1lvarez discursou contra o \u201cpopulismo maldito\u201d vestida com uma camiseta de lantejoulas formando a bandeira do Brasil para cerca de 100 mil pessoas na avenida Paulista, em S\u00e3o Paulo, na segunda rodada de manifesta\u00e7\u00f5es \u201cFora Dilma\u201d. Do alto do caminh\u00e3o do Vem pra Rua, o l\u00edder do movimento, Rog\u00e9rio Chequer, a apresentou \u00e0 multid\u00e3o como \u201cuma das maiores representantes da batalha contra o populismo do Foro de S\u00e3o Paulo\u201d e se manteve o tempo todo ao seu lado. Gloria, que havia anunciado antecipadamente sua presen\u00e7a nos protestos em uma entrevista no programa de Danilo Gentili no SBT, tinha dado uma palestra no Instituto Fernando Henrique Cardoso, assistida pelo pr\u00f3prio ex-presidente, tr\u00eas dias antes.<\/p>\n<p class=\"p1\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"image-inline lazyloaded\" title=\"Gloria \u00c1lvarez FHC\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.cartacapital.com.br\/politica\/a-nova-roupa-da-direita-4795.html\/gloria-alvarez-fhc\/%40%40images\/f9087b4a-a990-41d8-9d11-55207b4573a5.jpeg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"Em palestra no Instituto FHC, Gloria fala para o ex-presidente, sentado \u00e0 sua frente.\" data-src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/politica\/a-nova-roupa-da-direita-4795.html\/gloria-alvarez-fhc\/@@images\/f9087b4a-a990-41d8-9d11-55207b4573a5.jpeg\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">Entre os que lideraram os protestos de mar\u00e7o e abril contra o governo, o movimento de Chequer foi um dos \u00faltimos a assumir a bandeira do impeachment, o que lhe valeu um pito p\u00fablico do vetusto Olavo de Carvalho, que o acusou de \u201cpaumolice tucana\u201d. O Movimento Brasil Livre, conhecido principalmente atrav\u00e9s da figura de Kim Kataguiri, assumiu desde o in\u00edcio a bandeira do impeachment e rompeu publicamente com Chequer, divulgando fotos dele ao lado do senador Jos\u00e9 Serra (PSDB-SP) na campanha de A\u00e9cio Neves \u2013 tachado de \u201ctraidor\u201d pela hesita\u00e7\u00e3o em pedir o impeachment da presidente eleita. Voltaram \u00e0s boas depois que a comiss\u00e3o de senadores liderada por A\u00e9cio e Ronaldo Caiado (DEM-GO) fez sua controversa expedi\u00e7\u00e3o a Caracas.<\/p>\n<p class=\"p1\">Caiado, ali\u00e1s, estava no debate de abertura da edi\u00e7\u00e3o do F\u00f3rum deste ano. Sem a gra\u00e7a irreverente de Glorita, o senador ruralista conservador arrancou aplausos da plateia com frases de efeito contra a corrup\u00e7\u00e3o do governo, men\u00e7\u00f5es ao \u201cForo de S\u00e3o Paulo\u201d, pedido de \u201cren\u00fancia\u201d \u00e0 presidente Dilma e ataques ao BNDES. Curiosamente, as acusa\u00e7\u00f5es de Caiado foram feitas sob os logotipos da Gerdau e Ipiranga \u2013 do grupo Ultra \u2013, que est\u00e3o entre os maiores tomadores de empr\u00e9stimos do BNDES segundo os dados levantados pela Folha de S.Paulo. Ambos obtiveram individualmente mais de R$ 1 bilh\u00e3o de recursos do banco apenas entre 2008 e 2010.<\/p>\n<p class=\"p1\">O empres\u00e1rio ga\u00facho Jorge Gerdau \u00e9 um dos idealizadores do F\u00f3rum da Liberdade, que surgiu em 1988 com a inten\u00e7\u00e3o de promover o debate entre diversas correntes de pensamento. Em suas primeiras edi\u00e7\u00f5es, o F\u00f3rum incluiu o ex-presidente Lula, o ex-ministro Jos\u00e9 Dirceu e o falecido ex-governador Leonel Brizola entre os debatedores, sem prejudicar sua identidade como principal f\u00f3rum conservador do pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"p1\">Foi ali que, em 2006, foi lan\u00e7ado oficialmente o principal think tank da direita no Brasil, o Instituto Millenium. Arm\u00ednio Fraga (escolhido para ser ministro da Fazenda de A\u00e9cio Neves se ele vencesse as elei\u00e7\u00f5es) \u00e9 sua figura mais conhecida no campo econ\u00f4mico. Seus mantenedores s\u00e3o a Gerdau, a editora Abril e a Pottencial Seguradora, uma das empresas de Salim Mattar, dono da locadora de ve\u00edculos Localiza. A Suzano, o Bank of America Merrill Lynch e o grupo \u00c9vora (dos irm\u00e3os Ling) tamb\u00e9m s\u00e3o parceiros. William Ling participou da funda\u00e7\u00e3o do Instituto de Estudos Empresariais (IEE) em 1984, que, formado por jovens l\u00edderes empresariais, organiza o F\u00f3rum desde a primeira edi\u00e7\u00e3o; seu irm\u00e3o, Wiston Ling, \u00e9 fundador do Instituto Liberdade do\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"Rio Grande do Sul\" href=\"http:\/\/cartacapital.com.br\/tags\/Rio%20Grande%20do%20Sul\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Rio Grande do Sul<\/a>; o filho, Anthony Ling, \u00e9 ligado ao grupo Estudantes pela Liberdade, que criou o MBL. O empres\u00e1rio do grupo Ultra, H\u00e9lio Beltr\u00e3o, tamb\u00e9m est\u00e1 entre os fundadores do Millenium, embora tenha o pr\u00f3prio instituto, o Mises Brasil.<\/p>\n<p class=\"p1\">A rede de think tanks liberais e libertaristas no Brasil se completa com mais duas entidades: o Instituto Ordem Livre \u2013 que realiza semin\u00e1rios para a juventude \u2013 e o Centro Interdisciplinar de \u00c9tica e Economia Personalista, do Rio de Janeiro, ligado ao Opus Dei. O jurista Ives Gandra, autor do controverso parecer sobre a exist\u00eancia de base jur\u00eddica para o impeachment da presidente Dilma, faz parte de seu conselho.<\/p>\n<p class=\"p1\">A exemplo do Millenium, a grande maioria desses institutos foi criada recentemente. A semente original foi o Instituto Liberal, criado em 1983 pelo engenheiro civil carioca Donald Stewart Jr., falecido em 1999. De acordo com a tese de doutorado do historiador Pedro Henrique Pedreira Campos, da Universidade Federal Fluminense (UFF), \u201cA ditadura dos empreiteiros (1964-1985)\u201d, a Ecisa (Engenharia Com\u00e9rcio e Ind\u00fastria S.A.), empresa de Stewart Jr., foi uma das maiores empreiteiras durante a ditadura militar e Stewart Jr. se associou \u00e0 construtora norte-americana Leo A. Daly para construir escolas no Nordestepara a Sudene. A participa\u00e7\u00e3o de companhias dos EUA nas obras era exig\u00eancia dos financiamentos da Usaid \u2013 a ag\u00eancia de desenvolvimento americana que funcionava como bra\u00e7o da CIA durante as ditaduras latino-americanas.<\/p>\n<p class=\"p1\">Donald Stewart Jr. tamb\u00e9m era um velho amigo de um personagem crucial nessa hist\u00f3ria, o argentino radicado nos Estados Unidos Alejandro Chafuen, 61 anos, ambos membros da seleta Mont Pel\u00e8rin Society, fundada pelo pr\u00f3prio Hayek em 1947 na Su\u00ed\u00e7a e sediada nos Estados Unidos, que re\u00fane os mais fi\u00e9is libertarians. El Muso, o fundador da universidade onde estudou Gloria \u00c1lvarez, foi o primeiro latino-americano a presidir aMont Pel\u00e8rin, e seu atual reitor, Gabriel Calzada, participa da diretoria com a brasileira Margaret Ts\u00e9, CEO do Instituto da Liberdade, o suporte ideol\u00f3gico do IEE. O atual presidente da Mont Pel\u00e8rin Society \u00e9 o espanhol Pedro Schwartz Gir\u00f3n, semeador de think tanks vinculados \u00e0 FAES, a funda\u00e7\u00e3o do Partido Popular (PP) presidida por Jos\u00e9 Mar\u00eda Aznar, que promoveu o Parlamento Iberoamericano da Juventude, de onde Gloria \u00c1lvarez foi catapultada para a fama. Pedro Schwartz, Alejandro Chafuen e o colombiano Plinio Apuleyo Mendoza, coautor do livro Manual do perfeito idiota latino-americano, um hit da juventude de direita, participaram do painel \u201cAm\u00e9rica Latina\u201d, no F\u00f3rum da Liberdade. Chafuen tamb\u00e9m participou discretamente dos protestos de 12 de abril em Porto Alegre. N\u00e3o resistiu, por\u00e9m, a postar em seu Facebook uma foto em que aparece vestido com a camisa da CBF abra\u00e7ado ao jovem cientista pol\u00edtico F\u00e1bio Ostermann, da coordena\u00e7\u00e3o do Movimento Brasil Livre \u2013 nome que assumiu nas ruas o grupo Estudantes pela Liberdade (EPL).<\/p>\n<p class=\"p1\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"image-inline lazyloading\" title=\"Rodrigo Constantino\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.cartacapital.com.br\/politica\/a-nova-roupa-da-direita-4795.html\/rodrigo-constantino\/%40%40images\/730a8597-6e80-4161-8771-223bdc505a89.jpeg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"Rodrigo Constantino autografa livro para f\u00e3s durante o F\u00f3rum.\" data-src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/politica\/a-nova-roupa-da-direita-4795.html\/rodrigo-constantino\/@@images\/730a8597-6e80-4161-8771-223bdc505a89.jpeg\" \/><\/p>\n<p>O ga\u00facho Ostermann, o mineiro Juliano Torres e o ga\u00facho Anthony Ling s\u00e3o fundadores do EPL, a vers\u00e3o local do Students for Liberty, uma organiza\u00e7\u00e3o-chave na articula\u00e7\u00e3o entre os\u00a0<em>think tanks<\/em>conservadores americanos \u2013 especialmente os que se definem como libert\u00e1rios \u2013 e a juventude \u201cantipopulista\u201d da Am\u00e9rica Latina. Mr. Chafuen, presidente da Atlas Network desde 1991, \u00e9 o seu mentor.<\/p>\n<p>A Atlas Network\u00a0(nome fantasia da Atlas Economic Research Foundation desde 2013) \u00e9 uma esp\u00e9cie de\u00a0<em>metathink tank<\/em>, especializada em fomentar a cria\u00e7\u00e3o de outras organiza\u00e7\u00f5es libertaristas no mundo, com recursos obtidos com funda\u00e7\u00f5es parceiras nos Estados Unidos e\/ou canalizados dos\u00a0<em>think tanks<\/em>empresariais locais para a forma\u00e7\u00e3o de jovens l\u00edderes, principalmente na Am\u00e9rica Latina e Europa oriental. De acordo com o formul\u00e1rio 990, que todas as organiza\u00e7\u00f5es filantr\u00f3picas tem de entregar ao IRS (Receita nos EUA),\u00a0<a href=\"http:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Atlas-Network-2013-21.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a receita da Atlas em 2013 foi de US$ 11,459 milh\u00f5es<\/a>. Os recursos destinados para atividades fora dos Estados Unidos foram de US$ 6,1 milh\u00f5es: dos quais US$ 2,8 milh\u00f5es para a Am\u00e9rica Central e US$ 595 mil para a Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Com exce\u00e7\u00e3o do Instituto Fernando Henrique Cardoso, todas as organiza\u00e7\u00f5es citadas at\u00e9 agora comp\u00f5em a rede da Atlas Network no Brasil, incluindo o MCN de Gloria \u00c1lvarez, a Universidade Francisco Marroqu\u00edn e o Estudantes pela Liberdade, uma organiza\u00e7\u00e3o que nasceu dentro da Atlas em 2012. Como veremos, al\u00e9m dos recursos citados h\u00e1 projetos bem mais vultosos financiados por outras funda\u00e7\u00f5es e executados pela Atlas.<\/p>\n<p class=\"p2\"><strong>Students For Liberty e o Movimento Brasil Livre<\/strong><\/p>\n<h1 class=\"p2\">\u00a0<img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"image-inline lazyloading\" title=\"Doa\u00e7\u00f5es MBL\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.cartacapital.com.br\/politica\/a-nova-roupa-da-direita-4795.html\/doacoes-mbl\/%40%40images\/84092c15-a1bb-43e6-ab0b-3f722e60fd2f.png?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"Doa\u00e7\u00f5es MBL\" data-src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/politica\/a-nova-roupa-da-direita-4795.html\/doacoes-mbl\/@@images\/84092c15-a1bb-43e6-ab0b-3f722e60fd2f.png\" \/><\/h1>\n<p class=\"p2\">Juliano Torres, o diretor executivo do Estudantes pela Liberdade (EPL), foi mais claro sobre a liga\u00e7\u00e3o entre o EPL e o Movimento Brasil Livre (MBL), uma marca criada pelo EPL para participar das manifesta\u00e7\u00f5es de rua sem comprometer as organiza\u00e7\u00f5es americanas que s\u00e3o impedidas de doar recursos para ativistas pol\u00edticos pela legisla\u00e7\u00e3o da receita americana (IRS). \u201cQuando teve os protestos em 2013 pelo Passe Livre, v\u00e1rios membros do Estudantes pela Liberdade queriam participar, s\u00f3 que, como a gente recebe recursos de organiza\u00e7\u00f5es como a Atlas e a Students for Liberty, por uma quest\u00e3o de imposto de renda l\u00e1, eles n\u00e3o podem desenvolver atividades pol\u00edticas. Ent\u00e3o a gente falou: \u2018Os membros do EPL podem participar como pessoas f\u00edsicas, mas n\u00e3o como organiza\u00e7\u00e3o para evitar problemas. A\u00ed a gente resolveu criar uma marca, n\u00e3o era uma organiza\u00e7\u00e3o, era s\u00f3 uma marca para a gente se vender nas manifesta\u00e7\u00f5es como Movimento Brasil Livre. Ent\u00e3o juntou eu, F\u00e1bio [Ostermann], juntou o Felipe Fran\u00e7a, que \u00e9 de Recife e S\u00e3o Paulo, mais umas quatro, cinco pessoas, criamos o logo, a campanha de Facebook. E a\u00ed acabaram as manifesta\u00e7\u00f5es, acabou o projeto. E a gente estava procurando algu\u00e9m para assumir, j\u00e1 tinha mais de 10 mil likes na p\u00e1gina, panfletos. E a\u00ed a gente encontrou o Kim [Kataguiri] e o Renan [Haas], que afinal deram uma guinada incr\u00edvel no movimento com as passeatas contra a Dilma e coisas do tipo. Inclusive, o Kim \u00e9 membro da EPL, ent\u00e3o ele foi treinado pela EPL tamb\u00e9m. E boa parte dos organizadores locais s\u00e3o membros do EPL. Eles atuam como integrantes do Movimento Brasil Livre, mas foram treinados pela gente, em cursos de lideran\u00e7a. O Kim, inclusive, vai participar agora de um torneio de p\u00f4quer filantr\u00f3pico que o Students For Liberty organiza em Nova York para arrecadar recursos. Ele vai ser um palestrante. E tamb\u00e9m na confer\u00eancia internacional em fevereiro, ele vai ser palestrante\u201d, disse em entrevista por telefone na sexta-feira passada.<\/p>\n<p class=\"p2\">Remunerado por seu cargo na EPL, Juliano conta que tem duas reuni\u00f5es online por semana com a sede americana e que ele e outros brasileiros participam anualmente de uma confer\u00eancia internacional, com as despesas pagas, e de um encontro de lideran\u00e7as em Washington. O budget do Estudantes pela Liberdade no Brasil deve alcan\u00e7ar R$ 300 mil este ano. \u201cNo primeiro ano, a gente teve mais ou menos R$ 8 mil, o segundo foi para R$ 20 e poucos mil, de 2014 para 2015 cresceu bastante. A gente recebe de outras organiza\u00e7\u00f5es externas tamb\u00e9m, como a Atlas. A Atlas, junto com a Students for Liberty, s\u00e3o nossos principais doadores. No Brasil, as principais organiza\u00e7\u00f5es doadoras s\u00e3o a Friederich Naumann, que \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o alem\u00e3, que n\u00e3o s\u00e3o autorizados a doar dinheiro, mas pagam despesas para a gente. Ent\u00e3o houve um encontro no Sul e no Sudeste, em Porto Alegre e Belo Horizonte. Eles alugaram o hotel, a hospedagem, pagaram a sala do evento, o almo\u00e7o e o jantar. E tem alguns doadores individuais que fazem doa\u00e7\u00e3o para a gente.\u201d<\/p>\n<p class=\"p2\">A funda\u00e7\u00e3o da EPL no Brasil veio depois de Juliano ter participado de um semin\u00e1rio de ver\u00e3o para trinta estudantes patrocinado pela Atlas em Petr\u00f3polis, em 2012. \u201cAli mesmo a gente fez um rascunho, um planejamento e da\u00ed, depois, a gente entrou em contato com a Students for Liberty para oficialmente fazer parte da rede\u201d, diz.<\/p>\n<p class=\"p2\">Depois disso, ele passou por quase todo tipo de treinamento na Atlas. \u201cTem um que eles chamam de MBA, tem um treinamento em Nova York tamb\u00e9m, treinamentos online. A gente recomenda para todas as pessoas que trabalham em posi\u00e7\u00f5es de mais responsabilidade que passem pelos treinamentos da Atlas tamb\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p class=\"p2\">Os resultados obtidos pelos brasileiros t\u00eam impressionado a sede nos Estados Unidos. \u201cEm 2004, 2005 tinha uma dez pessoas no Brasil que se identificavam com o movimento libert\u00e1rio. Hoje, dentro da rede global do Students for Liberty, os resultados que a gente tem s\u00e3o muito bons. Uma das maneiras de medir o desempenho das regi\u00f5es \u00e9 o n\u00famero de coordenadores locais. Em todas as regi\u00f5es, contando a Am\u00e9rica do Norte, a \u00c1frica, a Europa, a gente tem mais coordenadores que qualquer regi\u00e3o separadamente. Nos Estados Unidos, a organiza\u00e7\u00e3o existe h\u00e1 oito anos; na Europa, h\u00e1 quatro; aqui, h\u00e1 tr\u00eas anos. Ent\u00e3o, a gente est\u00e1 tendo mais resultado em muito pouco tempo que acaba traduzindo em maior influ\u00eancia na organiza\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p class=\"p2\">H\u00e1 dois brasileiros no International Board do Students for Liberty (entre dez membros), e o relat\u00f3rio deste ano dedica uma p\u00e1gina especialmente \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es do MBL no Brasil. A brasileira Elisa Martins, formada em Economia na Universidade de Santa Maria (RS), \u00e9 a respons\u00e1vel pelos programas internacionais de bolsas de estudo e treinamento de lideran\u00e7as jovens na Atlas Network.<\/p>\n<p class=\"p2\">Os programas s\u00e3o realizados em parceria com outras funda\u00e7\u00f5es, principalmente o Cato Institute, a Charles G. Koch Charitable Foundation e o Institute of Human Studies \u2013 funda\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 fam\u00edlia Koch, uma das mais ricas do mundo. Juntas, as 11 funda\u00e7\u00f5es dos Koch despejaram 800 milh\u00f5es de d\u00f3lares nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas na rede americana de funda\u00e7\u00f5es conservadoras. Outra parceira importante \u00e9 a John Templeton Foundation, de outro bilion\u00e1rio americano. Essas funda\u00e7\u00f5es t\u00eam or\u00e7amentos bem maiores do que a Atlas e desenvolvem programas de fellowships em que entram com recursos e a Atlas, com a execu\u00e7\u00e3o. Um exemplo desses projetos \u00e9 o financiamento da expans\u00e3o da Rede Students for Liberty com recursos da John Templeton, fechado em 2014 com mais de US$ 1 milh\u00e3o de or\u00e7amento.<\/p>\n<p class=\"p1\">Por isso, embora apare\u00e7a em terceiro lugar entre as financiadoras do Students for Liberty, a Atlas levanta um volume bem maior de recursos para a organiza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de suas parceiras. Todos os maiores doadores do Students for Liberty tamb\u00e9m s\u00e3o doadores da Atlas. Nem sempre \u00e9 poss\u00edvel saber a origem do dinheiro, apesar da obriga\u00e7\u00e3o legal de publicar os formul\u00e1rios 990 \u2013 entregues ao IRS (Receita). As funda\u00e7\u00f5es conservadoras americanas escoam dinheiro por uma grande multiplicidade de canais, o que torna imposs\u00edvel, ao final, saber qual a origem inicial do dinheiro que chega a cada um dos receptores.<\/p>\n<p class=\"p1\">Al\u00e9m disso, preocupadas com a vigil\u00e2ncia que exercem sobre elas projetos como o Transparency Conservative e \u00f3rg\u00e3os de imprensa, que j\u00e1 revelaram uma s\u00e9rie de esc\u00e2ndalos envolvendo o uso desses recursos para lobbies no Congresso e nos governos estaduais, bem como para causas controversas como a nega\u00e7\u00e3o do aquecimento global, em 1999 as funda\u00e7\u00f5es criaram dois fundos de investimento filantr\u00f3pico \u2013 Donors Trust e Donors Capital Management \u2013 que dispensam os doadores de ter o nome exposto em formul\u00e1rios 990. O Donors Trust \u00e9 o maior doador do Donors Capital Management (e vice-versa). Como se v\u00ea no quadro, o primeiro est\u00e1 entre os maiores doadores da Atlas, e o segundo \u00e9 o maior doador do Students for Liberty. As funda\u00e7\u00f5es Koch s\u00e3o as maiores suspeitas de despejar dinheiro nesses fundos.<\/p>\n<p class=\"p1\">O relat\u00f3rio 2014-2015 da Students for Liberty mostra uma arrecada\u00e7\u00e3o de fundos impressionante: US$ 3,1 milh\u00f5es comparados a apenas US$ 35,768 mil d\u00f3lares obtidos em 2008, quando a organiza\u00e7\u00e3o foi fundada. Desses, US$ 1,7 milh\u00e3o veio de funda\u00e7\u00f5es, segundo o relat\u00f3rio que n\u00e3o detalha o volume doado por cada institui\u00e7\u00e3o. O Charles Koch Institute consta no relat\u00f3rio da Students for Liberty, mas, segundo o formul\u00e1rio, doa bolsas apenas para estudantes americanos, enquanto a Charles Koch Foundation, que doa bolsas para estudantes em uma s\u00e9rie de funda\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 citada no relat\u00f3rio.\u00a0 O Institute of Human Studies (IHS) \u2013 outra funda\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia Koch \u2013 \u00e9 um dos principais respons\u00e1veis pelos programas de Fellowship para estudantes. S\u00f3 em 2012 foram distribu\u00eddos 900 mil d\u00f3lares em doa\u00e7\u00f5es de acordo com o formul\u00e1rio entregue ao IRS.<\/p>\n<p class=\"p1\">A Atlas \u00e9 uma das principais parceiras do IHS. O curr\u00edculo de F\u00e1bio Ostermann, por exemplo, coordenador do MBL, diz que ele foi Koch Summer Fellow na Atlas Economic Research Foundation. Ostermann \u00e9 assessor do deputado Marcel van Hattem (PP-RS), apontado por Kim Kataguiri como o \u00fanico pol\u00edtico a abra\u00e7ar totalmente as convic\u00e7\u00f5es do MBL. O jovem deputado, que foi eleito com doa\u00e7\u00f5es da Gerdau e do grupo \u00c9vora \u2013 do pai de Anthony Ling, fundador do EPL \u2013, tamb\u00e9m participou de cursos na Acton Institute University, a mais religiosa das funda\u00e7\u00f5es libertaristas que comp\u00f5em a rede de fellowship da Atlas e da Koch Foundation. Entre os seus princ\u00edpios consta o \u201cpecado\u201d, por exemplo, relacionado de maneira singular com a necessidade de reduzir o Estado.<\/p>\n<p class=\"mceContentBody documentContent template-folder_listing portaltype-plone-site site-Plone icons-on userrole-authenticated userrole-member userrole-manager userrole-editor userrole-reader userrole-contributor userrole-reviewer\"><strong>A festa do mate<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">O F\u00f3rum da Liberdade, afinal, se encerrou como as manifesta\u00e7\u00f5es de rua que o antecederam: aos gritos de \u201cFora Dilma\u201d, \u201cFora PT\u201d. O deputado Marcel van Hattem fez uma apresenta\u00e7\u00e3o exaltada, depois de ter agradecido ao f\u00f3rum o cargo \u2013 \u201cSe eu sou deputado hoje, devo tamb\u00e9m ao F\u00f3rum da Liberdade\u201d \u2013 e fez uma interessante distin\u00e7\u00e3o entre as manifesta\u00e7\u00f5es de 2013 \u2013 pluripartid\u00e1ria e desorganizada \u2013 e as deste ano \u2013 \u201cquando t\u00ednhamos pauta\u201d.<\/p>\n<p>O programa foi modificado com a chegada de Kim Kataguiri, que n\u00e3o constava como palestrante. Foi abra\u00e7ado pelos patrocinadores, como Jorge Gerdau e H\u00e9lio Beltr\u00e3o, posou para fotos com diversos f\u00e3s e, com o amigo Bene Barbosa, que lan\u00e7ava um livro pela libera\u00e7\u00e3o das armas de fogo para qualquer cidad\u00e3o, foi para o audit\u00f3rio, novamente lotado de estudantes.<\/p>\n<p>Sentadinho no sof\u00e1, Kim esperou Van Hattem desfiar as acusa\u00e7\u00f5es de praxe \u2013 contra o Foro de S\u00e3o Paulo, o poder totalit\u00e1rio do PT e \u201co maior esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o do universo\u201d \u2013, arrancando aplausos a cada frase de efeito. Tamb\u00e9m despertou entusiasmo mostrando sua identifica\u00e7\u00e3o com a plateia: \u201cA vanguarda, hoje, n\u00e3o \u00e9 esquerdista, \u00e9 liberal. O jovem bem informado vai para as ruas e pede menos Marx, mais Mises. Curte Hayek, n\u00e3o L\u00eanin. Levanta cartazes\u00a0<em>hashtag<\/em>\u00a0\u2018Olavo tem raz\u00e3o\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Van Hattem saiu do p\u00falpito e, caminhando pelo palco, foi em dire\u00e7\u00e3o a Kim. \u201cO pr\u00f3ximo passo depende de voc\u00eas, mas \u00e9 dif\u00edcil. O sistema brasileiro \u00e9 refrat\u00e1rio a novas ideias. Hoje mesmo, Kim, o deputado comunista Juliano Roso te chamou de fascista\u201d, disse. E por fim: \u201cEu s\u00f3 quero concluir dizendo aquilo que as ruas est\u00e3o dizendo: \u2018Fora PT\u2019. Aplausos, gritos. A plateia canta em coro: \u201cOl\u00ea, ol\u00ea, ol\u00ea, ol\u00ea, estamos na rua s\u00f3 pra derrubar o PT\u201d.<\/p>\n<p>Foi a deixa para a entrada de Kim. De t\u00eanis, andando pelo palco, Kim conclamou \u201cos institutos liberais \u201ca sair da nossa bolha liberal, da nossa bolha libert\u00e1ria, da nossa bolha conservadora e tomar o pa\u00eds.\u201d E afirmou: \u201cChegou a hora da gente tirar o monop\u00f3lio da esquerda da juventude. A gente tem que acabar com essa imagem de que quem defende o livre mercado \u00e9 aquele tioz\u00e3o de coturno que defende o regime militar. A oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 a gente. A gente quer privatizar a Petrobras. A gente quer o Estado m\u00ednimo. Bras\u00edlia n\u00e3o vai pautar o povo. \u00c9 o povo que vai pautar Bras\u00edlia\u201d.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias depois do F\u00f3rum, Kim Kataguiri partia para sua Marcha pela Liberdade em dire\u00e7\u00e3o a Bras\u00edlia, com minguada ades\u00e3o, enquanto Gloria \u00c1lvarez \u00a0empreendia um p\u00e9riplo que a levaria da Argentina a Venezuela noticiado efusivamente em suas redes sociais. Na Argentina, passou por Buenos Aires e pela cidade de Azul, convidada pela Sociedade Rural de Argentina. Em Tucum\u00e1n, suas palestras na Universidade Nacional foram organizadas pela Fundaci\u00f3n Federalismo y Libertad, que tem em seu conselho internacional a Atlas Foundation, a Heritage Foundation, Cato Institute, o Hispanic American Center for Economic Research, o CEDICE Libertad (Venezuela) e o Instituto Ecuatoriano de Econom\u00eda Pol\u00edtica (Equador).<\/p>\n<p>Todas essas organiza\u00e7\u00f5es fazem parte da Atlas Network, assim como\u00a0as outras funda\u00e7\u00f5es que encomendaram o passeio de Glorita: Estudiantes pela Libertad (Bol\u00edvia e do Equador), o Cedice, na Venezuela, e a Fundaci\u00f3n Para El Progresso, no Chile.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio mais interessante de sua viagem, por\u00e9m, n\u00e3o foi registrado em suas redes sociais, nem mesmo nos jornais do Chile. No dia 23 de abril, ela e a blogueira cubana Yaoni Sanchez, encontraram-se com o ex-presidente conservador Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era depois de terem realizado palestras na Universidade Adolfo Iba\u00f1ez em Vi\u00f1a del Mar.<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">O encontro com o ex-presidente \u2013 que tamb\u00e9m \u00e9 a \u00fanica foto em que aparecem juntas \u2013 foi noticiado pelo twitter do economista Cristi\u00e1n Larroulet, ex-ministro de Pi\u00f1era com a legenda \u201cO Presidente Pi\u00f1era com Yoani S\u00e1nchez e Gloria \u00c1lvarez, dois exemplos de mulheres latino-americanas que lutam pela liberdade\u201d. Larroulet,\u00a0 \u00e9 fundador do think tank Libertad y Desarrollo, obviamente parceiro da Atlas Network.<\/span><\/p>\n<p>https:\/\/www.cartacapital.com.br\/politica\/a-nova-roupa-da-direita-4795.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marina Amaral\u00a0\u2014 Rede de conservadores dos EUA financia jovens latino-americanos para combater governos de esquerda da Venezuela ao Brasil e defender velhas bandeiras com um nova linguagem. \u201cO corpo \u00e9 a primeira propriedade privada que temos; cabe a cada um de n\u00f3s decidir o que quer fazer com ele\u201d, brada em espanhol a loirinha de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7920,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[2],"tags":[28],"class_list":["post-7919","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-politica","tag-direita"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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