{"id":7916,"date":"2018-04-27T12:16:32","date_gmt":"2018-04-27T15:16:32","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=7916"},"modified":"2018-04-26T17:20:20","modified_gmt":"2018-04-26T20:20:20","slug":"do-lado-de-ca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/04\/27\/do-lado-de-ca\/","title":{"rendered":"DO LADO DE C\u00c1"},"content":{"rendered":"<p><strong>YASMIN SANTOS<\/strong> &#8211;\u00a0Por que votei em Marielle Franco na minha primeira elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na manha seguinte a\u0300 morte de Marielle, minha m\u00e3e acompanhava o notici\u00e1rio da televis\u00e3o em prantos. Uma negra sentindo as dores da outra.<\/p>\n<p>Na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica revela-se sempre maior do que no resto da cidade. Para meu desprazer, o sol estava fervendo naquela manh\u00e3 de outono, quando disputei um lugar \u00e0 sombra do pr\u00e9dio que abriga o cart\u00f3rio da 25\u00aa Zona Eleitoral, no bairro de Santa Cruz. Era 3 de maio de 2016. Como boa carioca, deixei para tirar meu t\u00edtulo de eleitor no pen\u00faltimo dia poss\u00edvel. Eu acabava de completar 18 anos e queria cumprir minhas obriga\u00e7\u00f5es c\u00edvicas \u2013 mas n\u00e3o muito.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s esperar duas horas e pouco na fila, descobri que me encontrava no lugar errado. Andei mais de 1 quil\u00f4metro at\u00e9 a reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica que de fato correspondia \u00e0 minha zona eleitoral. Voltei para casa exausta.<\/p>\n<p>Cinco meses depois, no dia 2 de outubro, levantei da cama com a certeza de que n\u00e3o usaria nenhum dos adesivos espalhados por minha escrivaninha. Praticamente todos exibiam o nome de Marcelo Freixo, ent\u00e3o candidato do PSOL \u00e0 prefeitura. Logo mais, eu pretendia votar nele e em Marielle Franco, que pleiteava uma vaga de vereadora pelo mesmo partido. N\u00e3o me arriscaria, por\u00e9m, a dar muita bandeira de minhas predile\u00e7\u00f5es. Nas \u00e1reas do Rio onde os milicianos imperam, adesivos a favor do pol\u00edtico que, em 2008, presidiu a CPI estadual das mil\u00edcias poderiam soar como uma afronta.<\/p>\n<p>N\u00e3o me sentia especialmente ansiosa ou nervosa quando sa\u00ed de casa rumo \u00e0 se\u00e7\u00e3o 218 da 246\u00aa Zona Eleitoral, localizada numa creche. Mesmo assim, respirei aliviada mal a urna eletr\u00f4nica soou o alarme e finalizou o primeiro voto da minha vida.<\/p>\n<p>Moro em Jardim Palmares, um sub-bairro de Paci\u00eancia, perto do munic\u00edpio de Nova Igua\u00e7u. Cento e quatro eleitores compareceram \u00e0 se\u00e7\u00e3o em que debutei. Ali Marielle Franco teve apenas um voto: o meu. Como v\u00e1rios integrantes do PSOL, a soci\u00f3loga e ativista n\u00e3o se provou t\u00e3o popular no sub\u00farbio quanto demonstrou ser nas regi\u00f5es mais ricas da cidade. Em outro Jardim, o Bot\u00e2nico, a se\u00e7\u00e3o 36 da 212\u00aa Zona atraiu 362 eleitores. Dezenove apostaram em Marielle. No fim das contas, minha candidata se elegeu com 46 502 votos. Ficou entre os cinco vereadores mais votados do Rio.<\/p>\n<p>Nunca estive num com\u00edcio de Marielle nem a abracei ou lhe pedi uma foto. Tamb\u00e9m n\u00e3o pesquisei muito sobre a trajet\u00f3ria dela. Eu a conheci exclusivamente pela internet. Meus colegas de universidade compartilhavam tanto os v\u00eddeos dela que a onda acabou me tragando. N\u00e3o queria desperdi\u00e7ar o primeiro voto com um pol\u00edtico que s\u00f3 aparece na periferia para promover festas e mutir\u00f5es em \u00e9poca de elei\u00e7\u00e3o. Enxerguei, naquela mulher negra e favelada, uma vontade genu\u00edna de mudan\u00e7as estruturais. Acreditei em Marielle e n\u00e3o me arrependi.<\/p>\n<p>A vereadora apresentou 116 proposi\u00e7\u00f5es \u00e0 C\u00e2mara em um ano e tr\u00eas meses de mandato. Dessas, dezesseis eram projetos de lei. Ela lutava para reduzir as desigualdades sociais e assegurar os direitos das minorias. Adotou como slogan de campanha um princ\u00edpio filos\u00f3fico africano, o Ubuntu, presente nas culturas zulu e xhosa: \u201cEu sou porque n\u00f3s somos.\u201d O lema a acompanhou at\u00e9 seus derradeiros minutos no banco daquele Chevrolet Agile de quatro portas.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">\u00c0<\/span>s 20h49 do \u00faltimo dia 14 de mar\u00e7o, quando eu estava prestes a descer do \u00f4nibus, meu celular tocou. Era da\u00a0<b>piau\u00ed<\/b>. \u201cVoc\u00ea conseguiu a vaga de estagi\u00e1ria\u201d, me avisaram. Fiquei radiante, mas o entusiasmo durou pouco. \u00c0s 22h16, um amigo me mandou um \u00e1udio no WhatsApp: \u201cViu que assassinaram a Marielle?\u201d Fui arremessada de um extremo para o outro.<\/p>\n<p>Em tempos de\u00a0<i>fake news<\/i>, preferi desconfiar da not\u00edcia. Na poltrona da sala, meu pai \u2013 vasca\u00edno \u2013 continuava secando o Flamengo durante a partida contra o Emelec, pela Libertadores da Am\u00e9rica. Tudo parecia estar como sempre esteve. \u00c0s 22h19, busquei o nome da vereadora no Google. A trag\u00e9dia j\u00e1 inundara os principais jornais cariocas. Devorei cada uma das mat\u00e9rias e conclu\u00ed, atordoada: mataram o meu voto. Pior, mataram o meu primeiro voto.<\/p>\n<p>Quando chorei a morte de Marielle, chorei a de todos n\u00f3s, mulheres e homens pretos. No WhatsApp, meus amigos do Bafros \u2013 um dos coletivos negros da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde estudo comunica\u00e7\u00e3o \u2013 suplicavam: parem de nos matar!<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, minha m\u00e3e acompanhava o notici\u00e1rio da televis\u00e3o em prantos. Uma negra sentindo as dores da outra. Ela sabia muito pouco sobre Marielle e, ainda assim, do\u00eda. Resolvi n\u00e3o ir \u00e0 faculdade, mas apareci no Museu de Arte do Rio, o mar, onde trabalhava at\u00e9 ent\u00e3o. Subi as escadas e me deparei com uma educadora preta. Nunca havia visto um olhar t\u00e3o pesaroso.<\/p>\n<p>O museu, de luto, fechou mais cedo e incentivou todos os funcion\u00e1rios a participarem do protesto em mem\u00f3ria da vereadora, programado para as 17 horas no Centro. Antes de partir, estendemos diante do mar uma faixa com quase 2 metros de comprimento: \u201cMarielle Presente.\u201d<\/p>\n<p>Evito frequentar manifesta\u00e7\u00f5es desde a marcha de 2013 em que prenderam o jovem negro Rafael Braga, sob a acusa\u00e7\u00e3o controversa de portar artefatos explosivos. Mas, depois de perder tanto, acabei perdendo at\u00e9 o medo. E decidi encarar as ruas.<\/p>\n<p>Na Pra\u00e7a XV, mulheres ocupavam os degraus da escada que leva \u00e0 Assembleia Legislativa. Juntas, entoavam cantos e gritavam palavras de ordem, repetidas pela multid\u00e3o \u00e0 frente delas. L\u00e1 encontrei alguns amigos pretos. Recebi e ofereci abra\u00e7os longos, apertados, como se o toque pudesse impedir que sucumb\u00edssemos \u00e0 desesperan\u00e7a.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">R<\/span>olei o\u00a0<i>feed<\/i>\u00a0do Instagram de Marielle e parei numa postagem: a do dia 16 de dezembro de 2017. A sequ\u00eancia de cinco fotos mostrava a festa em que a filha da vereadora, Luyara Santos, comemorava 19 anos. Quintal cheio de amigos e familiares, sorrisos por toda parte, latinhas de cerveja, copos pl\u00e1sticos coloridos, mesas de ferro iguais \u00e0s dos botequins, o ch\u00e3o desnivelado, de cimento aparente, e as paredes com manchas escuras, causadas pela chuva. Um jeito nosso, da periferia, de celebrar a vida. As cenas batiam com qualquer confraterniza\u00e7\u00e3o dos meus pr\u00f3prios parentes.<\/p>\n<p>Cerca de 50 quil\u00f4metros separam minha casa, em Jardim Palmares, daquela onde a Marielle morou, no Complexo da Mar\u00e9. L\u00e1, o territ\u00f3rio est\u00e1 nas m\u00e3os do tr\u00e1fico. Aqui, da mil\u00edcia. N\u00e3o \u00e9 novidade. Todo mundo sabe que o Estado n\u00e3o chega \u00e0 periferia.<\/p>\n<p>No meu bairro, j\u00e1 ouvi tiros e hist\u00f3rias de persegui\u00e7\u00f5es, mas nunca tive um fuzil apontado para mim. Policiais, traficantes ou paramilitares tampouco invadiram a minha casa. \u201cTudo em Palmares \u00e9 muito tranquilo. Na Vila Kennedy, as coisas s\u00e3o mais escancaradas\u201d, comentou uma amiga, referindo-se \u00e0 favela da Zona Oeste onde cresceu e que est\u00e1 sob o controle do Comando Vermelho, a maior das tr\u00eas fac\u00e7\u00f5es que dominam o com\u00e9rcio de drogas no Rio.<\/p>\n<p>Quando minha m\u00e3e chegou a Jardim Palmares, s\u00f3 havia mato, como contava minha av\u00f3 Alayde. Foi no segundo semestre de 1967. Gosto de olhar a foto que retrata o dia da mudan\u00e7a. Minha m\u00e3e, aos 2 anos, ainda est\u00e1 na casa antiga, sentada \u00e0 porta da cozinha, com as m\u00e3os sobre os joelhos. Seu irm\u00e3o, ao lado, tenta chamar a aten\u00e7\u00e3o dela. N\u00e3o d\u00e1 certo. Os olhos de minha m\u00e3e parecem distantes, alheios \u00e0 c\u00e2mera. Meu av\u00f4 Arlindo contratou um fot\u00f3grafo para registrar o momento. Era, afinal, uma grande data.<\/p>\n<p>Minha fam\u00edlia materna morava em Nova Igua\u00e7u, na Baixada Fluminense, antes de se mudar para Jardim Palmares. Natural de Minas Gerais, meu av\u00f4 ganhava a vida como cont\u00ednuo numa reparti\u00e7\u00e3o estadual. J\u00e1 a v\u00f3 Alayde era de Castelo, no interior capixaba. Come\u00e7ou a trabalhar ainda menina na Fazenda das Flores e n\u00e3o p\u00f4de estudar. Quando nasceu, em 1922, a senzala da fazenda continuava l\u00e1. Minha trisav\u00f3 materna tinha sido escravizada.<\/p>\n<p>V\u00f3 Alayde se casou pela primeira vez no Esp\u00edrito Santo. Gerou tr\u00eas filhos e perdeu os tr\u00eas. Sofreu viol\u00eancia dom\u00e9stica repetidas vezes at\u00e9 fugir e aportar na Baixada, onde conheceu meu av\u00f4. Eles n\u00e3o se casaram, mas tiveram quatro filhos. Todos permanecem vivos.<\/p>\n<p>A oportunidade de trocar Nova Igua\u00e7u por Jardim Palmares surgiu com a cria\u00e7\u00e3o de um conjunto habitacional para funcion\u00e1rios p\u00fablicos de baixa renda e ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial. A constru\u00e7\u00e3o come\u00e7ou em 1966, no fim do governo de Carlos Lacerda. Em outubro de 1967, o governador Negr\u00e3o de Lima inaugurou as casas. Minha fam\u00edlia materna chegou logo depois. Veio num caminh\u00e3o de laranja.<\/p>\n<p>Analfabeta, v\u00f3 Alayde sempre quis aprender a ler. Era \u00f3tima com n\u00fameros. Ningu\u00e9m conseguia engan\u00e1-la. Ela e meu av\u00f4 fizeram o poss\u00edvel e o imposs\u00edvel para que os filhos estudassem, e os quatro se formaram no ensino m\u00e9dio. J\u00e1 adulto, meu tio Ney passou no vestibular. Cursou hist\u00f3ria \u2013 um dos \u00fanicos negros da turma \u2013 e virou professor.<\/p>\n<p>Eu nasci em Niter\u00f3i, muito longe de Jardim Palmares, no Hospital Estadual Azevedo Lima. \u00c0 \u00e9poca, minha m\u00e3e, auxiliar administrativa num posto de sa\u00fade, tinha uma amiga obstetra. Como a amiga trabalhava naquele hospital, deu nisso: mal nasci e precisei enfrentar um longo percurso para chegar em casa. At\u00e9 hoje \u00e9 assim. Cinquenta e sete quil\u00f4metros me distanciam do Centro do Rio. Demoro mais de duas horas at\u00e9 a faculdade ou a reda\u00e7\u00e3o da\u00a0<b>piau\u00ed<\/b>.<\/p>\n<p>Meus padrinhos, velhos amigos da fam\u00edlia, bancaram as escolas particulares onde estudei a maior parte da vida, um privil\u00e9gio que meu \u00fanico irm\u00e3o n\u00e3o teve. Sou profundamente grata pela oportunidade. Encaro meus padrinhos como segundos pais. Com 17 anos, em 2015, prestei vestibular para jornalismo na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, a UFRRJ, e passei. Demorava s\u00f3 uma hora para desembarcar no campus de Serop\u00e9dica, outra cidade da Baixada Fluminense. Na minha sala, quase todos eram suburbanos. Me sentia em casa.<\/p>\n<p>No meio de 2015, por\u00e9m, decidi fazer uma \u201cloucura\u201d: riscar um R do meu curr\u00edculo acad\u00eamico. Usando a nota que tirei em 2014, no Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio, o Enem, pleiteei uma vaga na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Para minha surpresa, consegui. Troquei, ent\u00e3o, a UFRRJ pela UFRJ. De in\u00edcio, n\u00e3o pretendia deixar a Rural, mas uma amiga, tamb\u00e9m preta, virou para mim e disse: \u201c\u00c9 importante preenchermos todos os espa\u00e7os. Uma menina da periferia numa universidade de elite. Voc\u00ea precisa ir!\u201d<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">E<\/span>ntrei na UFRJ com o desejo de transformar o mundo. Semanas depois, tinha vontade de explodir a Escola de Comunica\u00e7\u00e3o, que fica na Urca, um dos bairros mais cinematogr\u00e1ficos do Rio. Sa\u00ed de minha zona de conforto para uma zona de frequente confronto. No trajeto at\u00e9 a faculdade, quando chegava \u00e0 Zona Sul, evitava olhar pela janela do \u00f4nibus porque n\u00e3o me sentia pertencente \u00e0quele lugar. N\u00e3o queria conhec\u00ea-lo, nem queria que ningu\u00e9m dali me conhecesse. Passear no Shopping Riosul, em Botafogo, era horr\u00edvel. Eu n\u00e3o sabia lidar com os brancos que me mediam dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a. De onde venho, \u00e9 comum ver gente preta em todo lugar.<\/p>\n<p>Quando li nas redes sociais a carta de Marielle para o Bastardos da PUC, coletivo que re\u00fane bolsistas da universidade privada carioca, pensei que a vereadora estivesse falando diretamente comigo, aquela menina de 17 anos que acabava de ingressar na UFRJ. \u201c\u00c9 necess\u00e1rio que o nosso hist\u00f3rico pessoal seja uma mola que impulsione a nossa vida acad\u00eamica\u201d, escreveu a parlamentar. \u201cSem perder de vista a nossa identidade, o lugar e a fam\u00edlia que nos gestaram, viver a PUC-Rio \u00e9 quase uma miss\u00e3o pol\u00edtica e social, j\u00e1 que o processo pedag\u00f3gico \u00e9 uma via de m\u00e3o dupla: quando nos transformamos, tamb\u00e9m modificamos tudo e todos \u00e0 nossa volta.\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 um prov\u00e9rbio iorub\u00e1 que afirma: \u201cSe posso colocar-me de p\u00e9, \u00e9 porque minhas costas est\u00e3o apoiadas em minhas ancestrais.\u201d Se meninas como eu, pretas e perif\u00e9ricas, podem hoje cursar uma universidade p\u00fablica, \u00e9 porque mulheres como Carolina Maria de Jesus, Chimamanda Ngozi Adichie, Victoria Santa Cruz, Elza Soares, Nina Simone, Sueli Carneiro, Maya Angelou, Rachel Maia, Katherine Johnson, Ta\u00eds Ara\u00fajo, bell hooks, Viola Davis, Dandara dos Palmares, Lupita Nyong\u2019o, Tia Ciata, Jarid Arraes, Audre Lorde, Marielle Franco e v\u00f3 Alayde vieram antes de n\u00f3s. Essas e tantas outras s\u00e3o as respons\u00e1veis por nos fazerem acreditar que \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>http:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/do-lado-de-ca\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>YASMIN SANTOS &#8211;\u00a0Por que votei em Marielle Franco na minha primeira elei\u00e7\u00e3o. Na manha seguinte a\u0300 morte de Marielle, minha m\u00e3e acompanhava o notici\u00e1rio da televis\u00e3o em prantos. Uma negra sentindo as dores da outra. Na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica revela-se sempre maior do que no resto da cidade. 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