{"id":7844,"date":"2018-04-20T12:42:45","date_gmt":"2018-04-20T15:42:45","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=7844"},"modified":"2018-04-17T10:45:38","modified_gmt":"2018-04-17T13:45:38","slug":"facebook-usa-inteligencia-artificial-para-prever-o-comportamento-de-usuario-para-anunciantes%ef%bb%bf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/04\/20\/facebook-usa-inteligencia-artificial-para-prever-o-comportamento-de-usuario-para-anunciantes%ef%bb%bf\/","title":{"rendered":"FACEBOOK USA INTELIG\u00caNCIA ARTIFICIAL PARA PREVER O COMPORTAMENTO DE USU\u00c1RIO PARA ANUNCIANTES\ufeff"},"content":{"rendered":"<p><strong>Sam Biddle<\/strong> &#8211; Desde o in\u00edcio\u00a0do esc\u00e2ndalo\u00a0da Cambridge Analytica, em mar\u00e7o, o Facebook\u00a0vem tentando tomar uma\u00a0posi\u00e7\u00e3o\u00a0em defesa da privacidade dos usu\u00e1rios, distanciando-se das pr\u00e1ticas inescrupulosas da consultoria brit\u00e2nica. \u201cProteger as informa\u00e7\u00f5es das pessoas \u00e9 um princ\u00edpio fundamental de tudo o que fazemos\u201d, escreveu Paul Grewal, vice-diretor do departamento jur\u00eddico da empresa, poucas semanas antes de o fundador e CEO da empresa, Mark Zuckerberg, fazer garantias semelhantes no Capit\u00f3lio, dizendo aos parlamentares: \u201cAcreditamos que temos a responsabilidade de n\u00e3o apenas criar ferramentas, mas de garantir que essas ferramentas sejam usadas para o bem.\u201d Por\u00e9m, um documento confidencial do Facebook a que o The Intercept teve acesso mostra que as duas empresas s\u00e3o muito mais parecidas do que a rede social tenta fazer parecer.<\/p>\n<p>O documento, recente e classificado como \u201cconfidencial\u201d, descreve um novo servi\u00e7o de publicidade que aprofunda a venda de informa\u00e7\u00f5es de usu\u00e1rios do Facebook para empresas: em vez de fornecer um servi\u00e7o de direcionamento de an\u00fancios com base em dados demogr\u00e1ficos e prefer\u00eancias de consumo, a rede social oferece \u00e0s empresas a possibilidade de segmentar seu p\u00fablico-alvo com base no comportamento, nos h\u00e1bitos de consumo e nos posicionamentos\u00a0<em>futuros<\/em>\u00a0dos usu\u00e1rios. Isso \u00e9 poss\u00edvel gra\u00e7as a um software de previs\u00e3o que usa uma intelig\u00eancia artificial capaz de evoluir sozinha, lan\u00e7ado pelo Facebook em 2016 e batizado de \u201cFBLearner Flow\u201d.<\/p>\n<blockquote class=\"stylized pull-right\" data-shortcode-type=\"pullquote\" data-pull=\"right\"><p>O Facebook pode fazer uma varredura em toda a sua base de usu\u00e1rios \u2013 de mais de 2 bilh\u00f5es de pessoas \u2013 e identificar milh\u00f5es de indiv\u00edduos que estariam \u201csob risco\u201d de trocar uma determinada marca pela concorr\u00eancia.<\/p><\/blockquote>\n<p>Um slide do documento alardeia a capacidade do Facebook de \u201cprever comportamentos futuros\u201d, permitindo a cria\u00e7\u00e3o de campanhas publicit\u00e1rias baseadas em decis\u00f5es que o p\u00fablico-alvo ainda n\u00e3o tomou. Isso, potencialmente, daria a terceiros a possibilidade de alterar essas decis\u00f5es. O texto afirma que o Facebook pode fazer uma varredura em toda a sua base de usu\u00e1rios \u2013 de mais de 2 bilh\u00f5es de pessoas \u2013 e identificar milh\u00f5es de indiv\u00edduos que estariam \u201csob risco\u201d de trocar uma determinada marca pela concorr\u00eancia. De posse dessas informa\u00e7\u00f5es, uma empresa poderia se antecipar e direcionar uma intensa campanha publicit\u00e1ria para esses usu\u00e1rios com o intuito de dissuadi-los \u2013 algo que o Facebook chama de\u00a0<em>improved marketing eficiency\u00a0<\/em>(\u201cefici\u00eancia de marketing aprimorada\u201d, em portugu\u00eas). N\u00e3o se trata aqui de mostrar an\u00fancios da Chevrolet quando voc\u00ea passa a semana lendo mat\u00e9rias sobre a Ford \u2013 uma velha t\u00e1tica do marketing online \u2013, e, sim, de usar informa\u00e7\u00f5es da sua vida para adivinhar que em breve voc\u00ea estar\u00e1 cansado do seu carro. O Facebook chama esse servi\u00e7o de\u00a0<em>loyalty prediction<\/em>\u00a0(\u201cprevis\u00e3o de fidelidade\u201d).<\/p>\n<p>A ideia por tr\u00e1s desse servi\u00e7o de marketing do Facebook tem muito a ver com a pr\u00e1tica controversa da consultoria pol\u00edtica Cambridge Analytica de tra\u00e7ar \u201cperfis psicogr\u00e1ficos\u201d de eleitores, usando dados corriqueiros sobre seus h\u00e1bitos de consumo (em que voc\u00ea est\u00e1 interessado, onde voc\u00ea mora) para prever comportamentos pol\u00edticos. Mas, diferentemente da Cambridge Analytica e similares, que devem se contentar com os poucos dados que conseguem extrair das interfaces p\u00fablicas da rede social, o Facebook tem acesso irrestrito a uma mina de ouro, com gigantescos bancos de dados sobre prefer\u00eancias e comportamentos dos usu\u00e1rios, \u00e0 sua inteira disposi\u00e7\u00e3o \u2013 um relat\u00f3rio de 2016 da ProPublica revelou que\u00a0<a href=\"https:\/\/www.propublica.org\/article\/facebook-doesnt-tell-users-everything-it-really-knows-about-them\">os usu\u00e1rios podem ser classificados em cerca de 29 mil categorias diferentes<\/a>.<\/p>\n<p>Zuckerberg tem tentado dissociar sua empresa da Cambridge Analytica, cuja contribui\u00e7\u00e3o para a campanha de Donald Trump foi baseada em dados do Facebook. Zuckerberg disse \u00e0 imprensa recentemente que a sua rede social \u00e9 uma zelosa guardi\u00e3 de informa\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA grande maioria das informa\u00e7\u00f5es que o Facebook possui sobre os usu\u00e1rios foram compartilhadas voluntariamente. Certo? N\u00e3o \u00e9 rastreamento. Existem outras empresas de internet, corretores de dados e pessoas que tentam rastrear e vender dados, mas n\u00f3s n\u00e3o compramos nem vendemos\u2026Por algum motivo n\u00e3o conseguimos desfazer essa no\u00e7\u00e3o errada, que circula h\u00e1 anos\u2026 As pessoas ainda acham que vendemos dados a anunciantes. N\u00e3o \u00e9 verdade. Nunca fizemos isso. Isso vai de encontro ao que promovemos. Mesmo que quis\u00e9ssemos, n\u00e3o faria sentido.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>O documento tamb\u00e9m afirma que a empresa protege os dados dos usu\u00e1rios: \u201cTodas as informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o agregadas e anonimizadas [para proteger] a privacidade dos usu\u00e1rios\u201d, ou seja, o Facebook n\u00e3o est\u00e1 vendendo informa\u00e7\u00f5es de usu\u00e1rios, mas alugando o acesso a elas. Mas essa tentativa de se distanciar de outros mineradores de dados \u00e9 ilus\u00f3ria, pois n\u00e3o importa quem est\u00e1 usando os dados do Facebook; no fim das contas, a empresa est\u00e1 monetizando informa\u00e7\u00f5es extremamente \u00edntimas de seus usu\u00e1rios \u2013 e agora de forma muito mais avan\u00e7ada, atrav\u00e9s de uma iniciativa de\u00a0<em>machine learning<\/em>\u00a0(\u201caprendizado autom\u00e1tico\u201d). Embora Zuckerberg esteja teoricamente correto quando afirma que\u00a0o Facebook n\u00e3o vende seus dados, o que eles est\u00e3o realmente vendendo \u00e9 muito mais valioso, o tipo de percep\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo 21 que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel para uma empresa com recursos ilimitados. A verdade \u00e9 que ela tem muito mais a ver com empresas como Equifax e Experian do que qualquer outra empresa que se diz voltada para o cliente. O Facebook \u00e9 basicamente um atacadista de dados, e ponto.<\/p>\n<p>O documento n\u00e3o entra em detalhes sobre que informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o inclu\u00eddas no algoritmo de previs\u00e3o, mas menciona algumas delas, como localiza\u00e7\u00e3o, informa\u00e7\u00f5es do dispositivo usado para acessar o site, redes de telefone e wi-fi, visualiza\u00e7\u00f5es de v\u00eddeos, afinidades e certos detalhes sobre amizades, como as similaridades entre o usu\u00e1rio e seus contatos. Todos esses dados podem alimentar o FBLearner Flow, que os utiliza para simular alguma faceta da vida do usu\u00e1rio; os resultados da simula\u00e7\u00e3o podem ent\u00e3o ser vendidos para um cliente. A empresa se refere a essa pr\u00e1tica como \u201ca expertise do Facebook em\u00a0<em>machine learning<\/em>\u201d usada por \u201cdesafios em \u00e1reas estrat\u00e9gicas de neg\u00f3cios\u201d.<\/p>\n<p>Especialistas consultados pelo The Intercept afirmam que os sistemas descritos no documento levantam uma s\u00e9rie de quest\u00f5es \u00e9ticas, como o uso dessa tecnologia para manipular usu\u00e1rios, influenciar elei\u00e7\u00f5es ou favorecer empresas. Segundo Tim Hwang, diretor da Ethics and Governance of AI Initiative, das universidades de Harvard e do Massachusetts Institute of Technology, o Facebook tem a \u201cobriga\u00e7\u00e3o \u00e9tica\u201d de revelar como est\u00e1 usando a intelig\u00eancia artificial para monetizar nossos dados, embora seja do interesse da empresa manter essa tecnologia em segredo. \u201cContar \u00e0s pessoas que seu comportamento pode ser previsto pode influenciar os resultados\u201d, diz.<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-bleed xtra-large-bleed width-auto\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"size-article-large wp-image-182673 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2018\/04\/GettyImages-143135048-1523633916.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"FOREST CITY, NC - APRIL 19: Outside air inlets are seen during a tour of the new Facebook Data Center on April 19, 2012 in Forest City, North Carolina. The company began construction on the facility in November 2010 and went live today, serving the 845 million Facebook users worldwide. (Photo by Rainier Ehrhardt\/Getty Images)\" \/><\/p>\n<p class=\"caption\">As entradas de ar externas s\u00e3o vistas durante uma visita ao novo Facebook Data Center em 19 de abril de 2012 em Forest City, Carolina do Norte.<\/p>\n<\/div>\n<p><u>O FACEBOOK TEM SE ENVOLVIDO<\/u>\u00a0em um n\u00famero quase c\u00f4mico de controv\u00e9rsias e esc\u00e2ndalos de privacidade ao longo de seus 14 anos de hist\u00f3ria. Apesar dos repetidos pedidos oficiais de desculpas, nada muda de verdade. Talvez seja por isso que a empresa esteja dando tanto destaque aos usos positivos e inofensivos de seus projetos de intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p>O FBLearner Flow foi anunciado como um kit de ferramentas internas que ajudaria o Facebook a se ajustar \u00e0s prefer\u00eancias do usu\u00e1rio cada vez que ele se conectasse. \u201cMuitas experi\u00eancias e intera\u00e7\u00f5es que as pessoas t\u00eam no Facebook atualmente s\u00f3 s\u00e3o poss\u00edveis gra\u00e7as \u00e0 intelig\u00eancia artificial\u201d, escreveu Jeffrey Dunn, um engenheiro do Facebook,\u00a0<a href=\"https:\/\/code.facebook.com\/posts\/1072626246134461\/introducing-fblearner-flow-facebook-s-ai-backbone\/\">em um post de introdu\u00e7\u00e3o de um blog sobre o FBLearner Flow<\/a>.<\/p>\n<p>Quando Stacey Higginbotham, da revista\u00a0<em>Fortune<\/em>,\u00a0<a href=\"http:\/\/fortune.com\/facebook-machine-learning\/\">perguntou<\/a>\u00a0em 2016 qual era a meta do projeto de aprendizado autom\u00e1tico do Facebook para os pr\u00f3ximos cinco anos, o\u00a0vice-presidente\u00a0de Tecnologia da empresa, Mike Schroepfer, disse que o objetivo era fazer com que \u201ccada instante que voc\u00ea passe na internet seja com o conte\u00fado e com as pessoas que voc\u00ea quiser\u201d. Nenhuma men\u00e7\u00e3o ao uso dessa tecnologia na publicidade. Um\u00a0<a href=\"https:\/\/techcrunch.com\/2017\/04\/21\/machine-intelligence-is-the-future-of-monetization-for-facebook\/\">artigo<\/a>\u00a0de 2017 no portal\u00a0<em>TechCrunch<\/em>\u00a0declarava: \u201cA intelig\u00eancia artificial \u00e9 o futuro da monetiza\u00e7\u00e3o para o Facebook\u201d. Mas os executivos citados pela mat\u00e9ria n\u00e3o entraram em detalhes. \u201cQueremos saber se o seu interesse por determinada coisa \u00e9 gen\u00e9rico ou constante. As pessoas fazem certas coisas em ciclos, semanalmente ou apenas em certos momentos; \u00e9 de grande utilidade conhecer essas varia\u00e7\u00f5es\u201d, disse o vice-presidente de Engenharia de An\u00fancios do Facebook, Mark Rabkin. A empresa tamb\u00e9m foi vaga sobre a fus\u00e3o do\u00a0<em>machine learning\u00a0<\/em>com an\u00fancios em um artigo de 2017 na Wired sobre sua aplica\u00e7\u00e3o\u00a0da intelig\u00eancia artificial, que fazia alus\u00e3o aos esfor\u00e7os de \u201cmostrar an\u00fancios mais relevantes\u201d usando o\u00a0<em>machine learning e\u00a0<\/em>antecipando em quais an\u00fancios os consumidores estariam mais propensos a clicar, um uso j\u00e1 bem estabelecido de intelig\u00eancia artificial. Mais recentemente, durante seu depoimento no Congresso, Zuckerberg elogiou a intelig\u00eancia artificial como uma ferramenta para reduzir o risco de \u00f3dio e terrorismo.<\/p>\n<p>Mas, com base no documento, esse servi\u00e7o oferecido pelo Facebook com ajuda da intelig\u00eancia artificial parece ir muito al\u00e9m de descobrir \u201cse o seu interesse por determinada coisa \u00e9 gen\u00e9rico ou constante\u201d. Para Frank Pasquale, professor de Direito da Universidade de Maryland e pesquisador do Information Society Project, um projeto sobre \u00e9tica dos algoritmos da Universidade de Yale, esse tipo de servi\u00e7o parece transformar o Facebook em uma esp\u00e9cie de mil\u00edcia da era digital, que cobra uma \u201ctaxa de seguran\u00e7a\u201d de seus clientes corporativos. \u201cPodemos considerar o Facebook como uma entidade vigilante e protetora da concorr\u00eancia pela aten\u00e7\u00e3o dos consumidores (\u2026) Ele pode monitorar as tentativas de capta\u00e7\u00e3o de clientes de um rival e entrar em a\u00e7\u00e3o para evitar que ela se realize\u201d, conjetura.<\/p>\n<p>O termo \u201cintelig\u00eancia artificial\u201d j\u00e1 foi banalizado, assim como tantas outras palavras do mundo digital. Por\u00e9m, em sua acep\u00e7\u00e3o mais ampla, ele abarca tecnologias como o aprendizado autom\u00e1tico, atrav\u00e9s da qual computadores podem aprender sozinhos e se tornar mais eficientes em uma grande variedade de tarefas, do reconhecimento facial \u00e0 detec\u00e7\u00e3o de fraudes financeiras. Ao que tudo indica, o FBLearner Flow vai ficando mais preciso a cada dia que passa.<\/p>\n<p>O Facebook est\u00e1 longe de ser a \u00fanica firma na corrida para converter os avan\u00e7os da intelig\u00eancia artificial em fonte de lucros, mas est\u00e1 em uma posi\u00e7\u00e3o vantajosa. Nem mesmo o Google, com seu dom\u00ednio absoluto na \u00e1rea de buscas e e-mails e or\u00e7amento igualmente ilimitado, tem acesso ao tesouro de Mark Zuckerberg: uma lista de 2 bilh\u00f5es de pessoas, seus gostos, ideias e contatos. O Facebook pode contratar os melhores especialistas do ramo e investir um sem-fim de recursos em sua capacidade de processamento computacional.<\/p>\n<p>O departamento de intelig\u00eancia artificial do Facebook\u00a0<a href=\"https:\/\/code.facebook.com\/posts\/1072626246134461\/introducing-fblearner-flow-facebook-s-ai-backbone\/\">tem empregado diversas t\u00e9cnicas de aprendizado autom\u00e1tico<\/a>. Uma delas se chama\u00a0<em>gradient boosted decision trees<\/em>, ou GBDT (\u201c\u00e1rvores de decis\u00e3o com aumento de gradiente\u201d, em portugu\u00eas), que, segundo o documento, \u00e9 usada para fins publicit\u00e1rios. Um\u00a0<a href=\"http:\/\/proceedings.mlr.press\/v70\/si17a.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">artigo publicado em 2017<\/a>\u00a0no site\u00a0<em>Proceedings of Machine Learning Research<\/em>\u00a0descreve a GBDT como \u201cuma potente t\u00e9cnica de aprendizado autom\u00e1tico que tem uma ampla gama de aplica\u00e7\u00f5es comerciais e acad\u00eamicas, produzindo resultados de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o para muitos problemas de minera\u00e7\u00e3o de dados\u201d. Essa t\u00e9cnica vem se popularizando cada vez mais no setor de minera\u00e7\u00e3o de dados.<\/p>\n<p>O grande interesse do Facebook em ajudar clientes a lucrarem com os dados dos usu\u00e1rios talvez ajude a explicar por que a empresa n\u00e3o condenou o que a Cambridge Analytica fez com os dados pessoais dos usu\u00e1rios. O alvo da indigna\u00e7\u00e3o do Facebook foi apenas o ardil da empresa na hora de obter essas informa\u00e7\u00f5es. Gra\u00e7as, em parte, \u00e0 equipe de comunica\u00e7\u00e3o do Facebook, o debate girou em torno do \u201cacesso indevido\u201d da empresa aos dados do Facebook, e n\u00e3o da motiva\u00e7\u00e3o da Cambridge Analytica por tr\u00e1s disso. No fim das contas, a n\u00e3o ser na maneira de acessar essas informa\u00e7\u00f5es, a Cambridge Analytica e o Facebook t\u00eam muito em comum \u2013 uma empresa parece a irm\u00e3 mais nova e menos ambiciosa da outra.<\/p>\n<p>A extrema precis\u00e3o demogr\u00e1fica do Facebook j\u00e1 causou muitos problemas \u00e0 empresa no passado, em parte porque seus sistemas de publicidade contam com um espantoso grau de automatiza\u00e7\u00e3o \u2013 jornalistas da ProPublica conseguiram at\u00e9\u00a0<a href=\"https:\/\/www.propublica.org\/article\/facebook-enabled-advertisers-to-reach-jew-haters\">direcionar an\u00fancios personalizados para grupos de \u00f3dio contra judeus<\/a>. Seja nas m\u00e3os de equipes de campanha tentando influenciar eleitores indecisos ou por meio de espi\u00f5es russos querendo apenas criar confus\u00e3o, a tecnologia de publicidade do Facebook \u00e9 constantemente usada para fins duvidosos \u2013 e ainda falta resolver se devemos ou n\u00e3o permitir que uma s\u00f3 entidade seja capaz de vender o acesso a 2 bilh\u00f5es de pares de olhos no mundo inteiro. Enquanto isso, o Facebook parece estar aprofundando \u2013 em vez de moderar \u2013 a caixa-preta de seu modelo de neg\u00f3cios. Quando se trata de uma empresa t\u00e3o criticada por depender de algoritmos secretos para operar seu neg\u00f3cio, a decis\u00e3o de usar a intelig\u00eancia artificial e o aprendizado autom\u00e1tico na minera\u00e7\u00e3o de dados n\u00e3o \u00e9 nada animadora.<\/p>\n<p><u>O FATO DE O FACEBOOK<\/u>\u00a0estar disposto a vender sua capacidade de prever nossas a\u00e7\u00f5es \u2013 e nossa fidelidade \u2013 se tornou ainda mais preocupante depois das elei\u00e7\u00f5es americanas de 2016, quando a equipe de campanha digital de Donald Trump usou as ferramentas de direcionamento do Facebook com resultados impressionantes. A empresa colabora regularmente com campanhas pol\u00edticas em todo o mundo e gaba-se de ser capaz de influenciar a taxa de comparecimento \u00e0s urnas. Um artigo na se\u00e7\u00e3o de \u201c<a href=\"https:\/\/theintercept.com\/2018\/03\/14\/facebook-election-meddling\/\">hist\u00f3rias de sucesso<\/a>\u201d do Facebook afirma que a colabora\u00e7\u00e3o com o Partido Nacional Escoc\u00eas teria contribu\u00eddo para \u201cuma vit\u00f3ria esmagadora\u201d. Depois que Mark Zuckerberg negou vergonhosamente que o Facebook pudesse influenciar elei\u00e7\u00f5es \u2013 mesmo\u00a0<a href=\"https:\/\/theintercept.com\/2018\/03\/14\/facebook-election-meddling\/\">tendo divulgado<\/a>\u00a0esse servi\u00e7o \u2013, a empresa tem tido dificuldades para se redimir. O Facebook ainda n\u00e3o sabe lidar com a pr\u00f3pria capacidade de influenciar o mundo com base no que sabe sobre as pessoas; ser\u00e1 que ele deveria realmente come\u00e7ar a influenciar o mundo com base em suas\u00a0<em>previs\u00f5es<\/em>\u00a0sobre elas?<\/p>\n<p>Jonathan Albright, diretor de Pesquisa do Tow Center for Digital Journalism, da Universidade de Columbia, disse ao The Intercept que, assim como qualquer algoritmo \u2013 principalmente os do Facebook \u2013 a segmenta\u00e7\u00e3o de an\u00fancios via intelig\u00eancia artificial \u201csempre pode virar uma arma\u201d. Albright, um cr\u00edtico veemente da liberdade do Facebook para influenciar a pol\u00edtica, est\u00e1 preocupado com os poss\u00edveis usos dessas t\u00e9cnicas em \u00e9poca de elei\u00e7\u00e3o. \u201cVoc\u00ea pode identificar pessoas que podem ser convencidas a n\u00e3o votar, por exemplo\u201d, diz.<\/p>\n<p>Uma parte do documento ressalta como o Facebook ajudou um cliente a lucrar em cima de um grupo racial indeterminado, embora n\u00e3o fique claro se isso foi feito com o FBLearner Flow ou com m\u00e9todos mais convencionais \u2013 o Facebook\u00a0<a href=\"https:\/\/www.axios.com\/facebook-disabling-multicultural-affinity-group-advertising-tool-1513307261-2f8e9392-66dc-4ed2-a795-a72801ff5e87.html\">eliminou a possibilidade de direcionar an\u00fancios a grupos \u00e9tnicos<\/a>\u00a0no fim do ano passado, depois da publica\u00e7\u00e3o de um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.propublica.org\/article\/facebook-lets-advertisers-exclude-users-by-race\">relat\u00f3rio da ProPublica<\/a>.<\/p>\n<blockquote class=\"stylized pull-right\" data-shortcode-type=\"pullquote\" data-pull=\"right\"><p>\u201cUma vez feita a previs\u00e3o, a firma tem um interesse financeiro na sua realiza\u00e7\u00e3o\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Em entrevista ao The Intercept, Frank Pasquale diz que o projeto de previs\u00e3o comportamental do Facebook \u00e9 \u201cassustador\u201d. Ele est\u00e1 preocupado com a possibilidade de as previs\u00f5es do algoritmo serem transformadas pela empresa em profecias autorrealiz\u00e1veis. \u201cPorque, uma vez feita a previs\u00e3o, a firma tem um interesse financeiro na sua realiza\u00e7\u00e3o\u201d, afirma. Ou seja, quando o Facebook diz a um cliente que tal pessoa far\u00e1 tal coisa daqui a um m\u00eas, a empresa precisa garantir que a previs\u00e3o se realize, ou pelo menos mostrar que foi ajudou a evitar a sua realiza\u00e7\u00e3o \u2013 mas ainda n\u00e3o se sabe como o Facebook poderia provar para um cliente que foi capaz de mudar o futuro.<\/p>\n<p>Os est\u00edmulos gerados pela intelig\u00eancia artificial j\u00e1 s\u00e3o problem\u00e1ticos o suficiente quando se trata de incentivar uma compra, e usar a tecnologia para angariar votos \u00e9 ainda mais delicado. Rumman Chowdhury, diretor da Reponsible AI Initiative, da Accenture, diz que, assim como os algoritmos de sugest\u00f5es da Netflix e da Amazon, projetos mais ambiciosos poderiam n\u00e3o s\u00f3 adivinhar o comportamento do usu\u00e1rio como tamb\u00e9m refor\u00e7\u00e1-lo. \u201cOs algoritmos de recomenda\u00e7\u00e3o s\u00e3o feitos para que voc\u00ea clique nas sugest\u00f5es, e n\u00e3o necessariamente para fornecer informa\u00e7\u00f5es relevantes\u201d, explica.<\/p>\n<blockquote class=\"stylized pull-left\" data-shortcode-type=\"pullquote\" data-pull=\"left\"><p>Facebook afirmou que usa o \u201cFBLearner Flow para gerenciar v\u00e1rios tipos diferentes de fluxos de trabalho\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>O Facebook n\u00e3o respondeu\u00a0a pedidos de resposta sobre\u00a0exatamente que tipo de dados dos usu\u00e1rios s\u00e3o usados para prever comportamentos ou se essa tecnologia poderia ser usada em contextos mais delicados, como campanhas pol\u00edticas ou\u00a0assist\u00eancia m\u00e9dica. Em vez disso, a equipe de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas da empresa afirmou que ela usa o \u201cFBLearner Flow para gerenciar v\u00e1rios tipos diferentes de fluxos de trabalho\u201d e que o \u201c<em>machine learning\u00a0<\/em>\u00e9 um tipo de fluxo que pode ser gerenciado\u201d. O Facebook negou que o FBLearner Flow seja usado com fins de marketing (uma \u201cdescaracteriza\u00e7\u00e3o\u201d) e disse que \u201cdeixou publicamente claro que usa o machine learning para an\u00fancios\u201d, em refer\u00eancia ao artigo da Wired.<\/p>\n<p>Outro problema \u00e9 a relut\u00e2ncia do Facebook em discutir abertamente\u00a0como monetariza a intelig\u00eancia artificial. Para Albright, essa resist\u00eancia \u00e9 um sintoma \u201cdo conflito inerente\u201d entre o Facebook e a \u201cpresta\u00e7\u00e3o de contas\u201d. \u201c[O Facebook] n\u00e3o pode simplesmente divulgar os detalhes dessas coisas, porque o modelo de neg\u00f3cios deles depende justamente disso\u201d, acredita.<\/p>\n<p>Mas o Facebook nunca esteve disposto a revelar nada al\u00e9m do que \u00e9 exigido pela Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios dos EUA e suas equipes de gest\u00e3o de crise. A empresa j\u00e1 provou repetidas vezes que \u00e9 capaz de adulterar os fatos e, quando a verdade vem \u00e0 tona, dar um jeito de se safar com declara\u00e7\u00f5es vacilantes e t\u00edmidos posts de Zuckerberg.<\/p>\n<p>Apesar disso, o n\u00famero de usu\u00e1rios do Facebook no mundo n\u00e3o para de crescer, assim como o lucro da empresa. Um esc\u00e2ndalo,\u00a0por exemplo, de uma rede de fast-food afundada em acusa\u00e7\u00f5es de descaso com seus clientes sofreria s\u00e9rios desgastes em sua imagem, mas o Facebook parece gozar de uma imunidade incomum nesse sentido \u2013 pelo menos at\u00e9 o esc\u00e2ndalo da Cambridge Analytica. Talvez as pessoas n\u00e3o deem tanta import\u00e2ncia \u00e0 pr\u00f3pria privacidade a ponto de pressionarem o Facebook fazer mudan\u00e7as significativas. Talvez muitos usu\u00e1rios pressuponham que, ao criar uma conta, tenham assinado automaticamente um pacto com o Grande Dem\u00f4nio Digital; talvez eles j\u00e1 tenham aceitado jogar suas vidas privadas nessa m\u00e1quina de publicidade operada por algoritmos.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o podemos esquecer a hist\u00f3ria disso tudo; a ind\u00fastria da publicidade se baseia h\u00e1 d\u00e9cadas na previs\u00e3o do comportamento, tanto de indiv\u00edduos quanto de grupos. De certa forma, esse \u00e9 o prop\u00f3sito da publicidade\u201d, afirma Hwang. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o podemos esperar que os usu\u00e1rios do Facebook \u2013 ou de qualquer outra tecnologia \u2013 sejam capazes de identificar sozinhos o que \u00e9 ou n\u00e3o perigoso quando s\u00e3o mantidos deliberadamente em uma ignor\u00e2ncia quase completa. Uma rede de fast-food \u00e9 obrigada por lei a revelar os ingredientes \u2013 e as quantidades \u2013 da comida que serve \u00e0 sua clientela. Mas n\u00e3o h\u00e1 nenhum mecanismo que obrigue o Facebook a explicar o que \u00e9 feito exatamente com os dados do usu\u00e1rio; basta divulgar uma pol\u00edtica de privacidade arbitr\u00e1ria, que, no m\u00e1ximo, declara o que o Facebook se reserva o direito de fazer. Sabemos que o Facebook j\u00e1 se envolveu nas mesmas pr\u00e1ticas indecorosas da Cambridge Analytica,\u00a0<a href=\"https:\/\/theintercept.com\/2018\/03\/14\/facebook-election-meddling\/\">pois eles pr\u00f3prios alardeavam isso em seu site<\/a>; mas agora os links foram retirados do ar sem nenhuma explica\u00e7\u00e3o, e voltamos a ficar no escuro.<\/p>\n<p>O que \u00e9 feito de nossos dados pessoais continua sendo tratado como segredo industrial pelo Facebook, mas, pelo lado positivo, Mark Zuckerberg afirma que sua empresa tem \u201ca responsabilidade de proteger seus dados, e, se n\u00e3o pudermos faz\u00ea-lo, n\u00e3o merecemos prestar nossos servi\u00e7os a voc\u00eas\u201d. S\u00f3 que Zuckerberg \u00e9 o CEO de uma empresa que usa dados pessoais para alimentar um algoritmo de previs\u00e3o que ser\u00e1 usado para direcionar an\u00fancios e lucrar com o que os usu\u00e1rios possam vir a fazer no futuro. Pode parecer dif\u00edcil conciliar esses dois lados de Zuckerberg; talvez por ser imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>https:\/\/theintercept.com\/2018\/04\/13\/facebook-inteligencia-artificial\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sam Biddle &#8211; Desde o in\u00edcio\u00a0do esc\u00e2ndalo\u00a0da Cambridge Analytica, em mar\u00e7o, o Facebook\u00a0vem tentando tomar uma\u00a0posi\u00e7\u00e3o\u00a0em defesa da privacidade dos usu\u00e1rios, distanciando-se das pr\u00e1ticas inescrupulosas da consultoria brit\u00e2nica. \u201cProteger as informa\u00e7\u00f5es das pessoas \u00e9 um princ\u00edpio fundamental de tudo o que fazemos\u201d, escreveu Paul Grewal, vice-diretor do departamento jur\u00eddico da empresa, poucas semanas antes de 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