{"id":78,"date":"2016-07-20T14:30:40","date_gmt":"2016-07-20T17:30:40","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=78"},"modified":"2016-07-20T14:27:40","modified_gmt":"2016-07-20T17:27:40","slug":"para-compreender-o-neoliberalismo-alem-dos-cliches","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/07\/20\/para-compreender-o-neoliberalismo-alem-dos-cliches\/","title":{"rendered":"Para compreender o neoliberalismo al\u00e9m dos clich\u00eas"},"content":{"rendered":"<p><strong>George Monbiot &#8211;\u00a0<\/strong>Friedrich Hayek preside, em 1947, a primeira reuni\u00e3o da Sociedade Monte P\u00e8lerin, no resort su\u00ed\u00e7o de mesmo nome. Lan\u00e7adas em 1938, em Paris, as ideias de Hayek e Von Mises entusiasmaram desde cedo milion\u00e1rios e suas funda\u00e7\u00f5es \u2014 principais financiadores do esfor\u00e7o de formula\u00e7\u00e3o do projeto neoliberal<\/p>\n<blockquote><p>Que \u00e9 a ideologia hegem\u00f4nica no Ocidente, h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas. Como surgiu, foi adotada pelas elites e tornou-se invis\u00edvel e difusa. Quais seus paradoxos. Por que esquerda fracassou, at\u00e9 agora, em enfrent\u00e1-la<\/p><\/blockquote>\n<p>Imagine se a popula\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica nunca tivesse ouvido falar de comunismo. A ideologia que domina nossas vidas n\u00e3o tem nome, para a maioria das pessoas. Mencione-o numa conversa e voc\u00ea ver\u00e1 que seu interlocutor d\u00e1 de ombros. Mesmo que tenha ouvido o termo antes, encontrar\u00e1 dificuldade para defini-lo. Neoliberalismo: voc\u00ea sabe o que \u00e9 isso?<\/p>\n<p>O anonimato \u00e9 tanto sintoma quanto causa de seu poder. Desempenhou um papel importante numa not\u00e1vel sequ\u00eancia de crises: o derretimento financeiro de 2007-8; o ocultamento de riqueza e poder de que os<em>Panama Papers<\/em> nos oferecem apenas um vislumbre; a lenta derrocada da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablicas; o ressurgimento da pobreza infantil; a epidemia de solid\u00e3o; o colapso dos ecossistemas; a ascens\u00e3o de Donald Trump. Mas respondemos a essas crises como se elas emergissem isoladas, aparentemente inconscientes de que foram todas ou catalisadas ou exacerbadas pela mesma filosofia coerente; uma filosofia que tem \u2013 ou tinha \u2013 um nome. Pode haver maior poder do que operar anonimamente?<\/p>\n<p>O neoliberalismo tornou-se t\u00e3o penetrante que raramente o reconhecemos sequer como ideologia. Parecemos aceitar a proposi\u00e7\u00e3o de que essa f\u00e9 ut\u00f3pica e milenar descreve uma for\u00e7a neutra; uma esp\u00e9cie de lei biol\u00f3gica, como a teoria da evolu\u00e7\u00e3o de Darwin. Mas essa filosofia surgiu como a tentativa consciente de remodelar a vida humana e mudar o <em>locus<\/em> do poder.<\/p>\n<p>O neoliberalismo v\u00ea a competi\u00e7\u00e3o como caracter\u00edstica definidora das rela\u00e7\u00f5es humanas. Ela redefine os cidad\u00e3os como consumidores, cujas escolhas democr\u00e1ticas s\u00e3o melhor exercidas ao comprar e vender \u2013 um processo que supostamente recompensa o m\u00e9rito e pune a inefici\u00eancia. Sustenta que o \u201cmercado\u201d assegura benef\u00edcios que jamais poderiam ser conseguidos pelo planejamento.<\/p>\n<p>Tentativas de limitar a competi\u00e7\u00e3o s\u00e3o tratadas como hostis \u00e0 liberdade. A ideologia afirma que impostos e regula\u00e7\u00e3o deveriam ser reduzidos; servi\u00e7os p\u00fablicos, privatizados. A organiza\u00e7\u00e3o do trabalho e a negocia\u00e7\u00e3o coletiva pelos sindicatos s\u00e3o retratadas como distor\u00e7\u00f5es do mercado, que impedem a forma\u00e7\u00e3o de uma hierarquia natural entre vencedores e perdedores. A desigualdade \u00e9 requalificada como virtuosa: um pr\u00eamio para a utilidade, ela \u00e9 geradora de uma riqueza que se espalha de cima para baixo, enriquecendo todo mundo. Os esfor\u00e7os para criar uma sociedade mais igualit\u00e1ria seriam ao mesmo tempo contraproducentes e moralmente corrosivos. O mercado asseguraria que todo mundo recebe o que merece.<\/p>\n<p>Internalizamos e reproduzimos estas cren\u00e7as. Os ricos se convencem de que adquiriram sua riqueza por m\u00e9rito, ignorando as vantagens \u2013 tais como educa\u00e7\u00e3o, heran\u00e7a e classe social \u2013 que podem ter ajudado a lhes garantir isso. Os pobres come\u00e7am a se culpar por seus fracassos, mesmo quanto pouco podem fazer para mudar as circunst\u00e2ncias de suas vidas.<\/p>\n<p>Esque\u00e7a o desemprego estrutural: se voc\u00ea n\u00e3o tem trabalho \u00e9 porque n\u00e3o \u00e9 empreendedor. Esque\u00e7a os custos imposs\u00edveis da moradia: se seu cart\u00e3o de cr\u00e9dito est\u00e1 no limite, voc\u00ea \u00e9 imprudente e imprevidente. Esque\u00e7a que seus filhos n\u00e3o t\u00eam mais uma quadra de esportes na escola: se ficam gordos, \u00e9 falha sua. Num mundo governado pela competi\u00e7\u00e3o, aqueles que ficam para tr\u00e1s passam a ser definidos e a se auto-definir como fracassados.<\/p>\n<p>Entre os resultados, como documenta Paul Verhaeghe no livro <em>What About Me?<\/em>, est\u00e3o epidemia de automutila\u00e7\u00e3o, dist\u00farbios alimentares, depress\u00e3o, solid\u00e3o, ansiedade por desempenho e fobia social. N\u00e3o surpreende que o Reino Unido, onde a ideologia neoliberal vem sendo aplicada com maior rigor, seja a capital da solid\u00e3o na Europa.<\/p>\n<p><strong>Agora somos todos neoliberais<\/strong><\/p>\n<p>O termo neoliberalismo foi cunhado numa reuni\u00e3o de 1938, em Paris. Entre os participantes, havia dois homens que definiriam a ideologia, Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. Ambos exilados da \u00c1ustria, eles consideraram a social democracia, caracterizada pelo <em>New Deal<\/em> de Franklin Roosevelt e o desenvolvimento gradual do Estado de bem-estar social da Gr\u00e3 Bretanha, como manifesta\u00e7\u00f5es de um coletivismo que ocupava o mesmo espectro do nazismo e do comunismo.<\/p>\n<div id=\"attachment_358866\" class=\"wp-caption alignnone\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-358866\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/160423-Neoliberalismo-485x267.jpg?resize=485%2C267\" alt=\"Milton Friedman, um dos ide\u00f3logos mais importantes do neoliberalismo, re\u00fane-se com o ditador Augusto Pinochet, no Chile, nos anos 1970. Hayek, outro integrante destacado do movimento, diria, sobre o fato: &quot;minha prefer\u00eancia pessoal inclina-se na dire\u00e7\u00e3o de uma ditadura liberal, ao inv\u00e9s de um governo democr\u00e1tico que n\u00e3o pratique o liberalismo\u201d\" width=\"485\" height=\"267\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><em>Milton Friedman, um dos ide\u00f3logos do neoliberalismo (ao centro), re\u00fane-se com ditador Augusto Pinochet, no Chile, nos anos 70. Hayek, outro guru do movimento, diria: \u201cminha prefer\u00eancia inclina-se na dire\u00e7\u00e3o de uma ditadura liberal, ao inv\u00e9s de um governo democr\u00e1tico que n\u00e3o pratique o liberalismo\u201d<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>Em <em>The Road to Serfdom (O Caminho da Servid\u00e3o)<\/em>, publicado em 1944, Hayek argumentava que o planejamento governamental, ao esmagar o individualismo, levaria inexoravelmente ao controle totalit\u00e1rio. Como o livro <em>Bureaucracy<\/em>, de Mises, <em>The Road to Serfdom\u00a0<\/em>foi amplamente lido. Chamou a aten\u00e7\u00e3o de algumas pessoas muito ricas, que viram na filosofia a oportunidade para libertar-se de impostos e regula\u00e7\u00e3o. Quando, em 1947, Hayek fundou a primeira organiza\u00e7\u00e3o que iria espalhar a doutrina do neoliberalismo \u2013 a Sociedade Monte Pel\u00e8rin \u2013, ela foi sustentada financeiramente por milion\u00e1rios e suas funda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Com tal apoio, ele come\u00e7ou a criar o que Daniel Stedman Jones descreve, em <em>Masters of the Universe, <\/em>como \u201cuma esp\u00e9cie de Internacional Neoliberal\u201d: uma rede global de acad\u00eamicos, homens de neg\u00f3cios, jornalistas e ativistas. Apoiadores ricos do movimento fundaram uma s\u00e9rie de thinktanks que iriam refinar e promover a ideologia. Entre elas est\u00e3o o American Enterprise Institute, a Heritage Foundation, o Cato Institute, o Institute of Economic Affairs, o Centre for Policy Studies e o Adam Smith Institute. Tamb\u00e9m financiaram departamentos acad\u00eamicos, particularmente nas universidades de Chicago e Virginia.<\/p>\n<p>Conforme evoluiu, o neoliberalismo tornou-se mais estridente. A vis\u00e3o de Hayek de que os governos deveriam regular a competi\u00e7\u00e3o para prevenir a forma\u00e7\u00e3o de monop\u00f3lios deu lugar \u2013 entre ap\u00f3stolos norte-americanos tais como Milton Friedman \u2013 \u00e0 cren\u00e7a de que o poder monopolista poderia ser visto como uma recompensa \u00e0 efici\u00eancia.<\/p>\n<p>Uma outra coisa aconteceu durante essa transi\u00e7\u00e3o: o movimento perdeu o seu nome. Em 1951, Friedman se satisfazia com a descri\u00e7\u00e3o de si mesmo como neoliberal. Mas, logo depois disso, o termo come\u00e7ou a desaparecer. Ainda desconhecido, mesmo \u00e0 medida em que a ideologia tornava-se mais n\u00edtida e o movimento mais coerente, o nome perdido n\u00e3o foi substitu\u00eddo por nenhuma alternativa.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, apesar de seu generoso financiamento, o neoliberalismo manteve-se nas margens. O consenso p\u00f3s-guerra era quase universal: as prescri\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas de John Maynard Keynes foram amplamente aplicadas. Pleno emprego e combate \u00e0 fome eram metas comuns nos EUA e na maior parte da Europa Ocidental. As aliquotas m\u00e1ximas do imposto eram altas e os governos buscavam resultados sociais elevados sem constrangimento, desenvolvendo novos servi\u00e7os p\u00fablicos e redes de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Nos anos 1970, contudo, quando as pol\u00edticas keynesianas come\u00e7aram a desmoronar e as crises econ\u00f4micas atingiram EUA e Europa, as ideias neoliberais come\u00e7aram a entrar no <em>mainstream<\/em>. Como Friedman ressaltou, \u201cquando chega a hora, \u00e9 preciso mudar \u2026 havia ali uma alternativa pronta para ser agarrada\u201d. Com a ajuda de jornalistas simp\u00e1ticos \u00e0 ideia e conselheiros pol\u00edticos, alguns elementos do neoliberalismo, principalmente suas prescri\u00e7\u00f5es de pol\u00edtica monet\u00e1ria, foram adotadas pelos governos de Jimmy Carter, nos EUA, e Jim Callaghan, na Gr\u00e3 Bretanha.<\/p>\n<p>Depois que Margaret Thatcher e Ronald Reagan assumiram o poder, o resto do pacote veio a galope: cortes maci\u00e7os nos impostos dos ricos, esmagamento dos sindicatos, desregula\u00e7\u00e3o, privatiza\u00e7\u00e3o, terceiriza\u00e7\u00e3o e competi\u00e7\u00e3o nos servi\u00e7os p\u00fablicos. Por meio do FMI, do Banco Mundial, do Tratado de Maastricht e da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Com\u00e9rcio, as pol\u00edticas neoliberais foram impostas \u2013 frequentemente sem consenso democr\u00e1tico \u2013 em grande parte do mundo. O mais not\u00e1vel \u00e9 que foram adotadas por partidos que no passado pertenceram \u00e0 esquerda: Trabalhista, na Inglaterra, e Democrata, nos Estados Unidos, por exemplo. Como observa Stedman Jones, \u201c\u00e9 dif\u00edcil pensar em outra utopia que tenha sido realizada t\u00e3o completamente.\u201d<\/p>\n<p>Pode parecer estranho que uma doutrina que promete escolhas e liberdade possa ter sido promovida sob o slogan \u201cn\u00e3o h\u00e1 alternativa\u201d. Mas, como observou Hayek em uma visita ao Chile de Pinochet \u2013 uma das primeiras na\u00e7\u00f5es em que o programa foi exaustivamente aplicado \u2013 \u201cminha prefer\u00eancia pessoal inclina-se na dire\u00e7\u00e3o de uma ditadura liberal, ao inv\u00e9s de um governo democr\u00e1tico que n\u00e3o pratique o liberalismo\u201d. A liberdade que o neoliberalismo oferece, que soa t\u00e3o fascinante quando expressa em termos gerais, acaba por significar a liberdade para a elite, n\u00e3o para os peixes pequenos.<\/p>\n<p>Liberdade em rela\u00e7\u00e3o aos sindicatos e \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o coletiva significa liberdade para reprimir sal\u00e1rios. Liberdade em rela\u00e7\u00e3o da regulamenta\u00e7\u00e3o significa liberdade de envenenar rios, colocar em risco os trabalhadores, cobrar taxas in\u00edquas de juros e criar instrumentos financeiros ex\u00f3ticos. Ficar livre de impostos significa ficar livre da distribui\u00e7\u00e3o de riqueza que tira as pessoas da pobreza.<\/p>\n<p>Como Naomi Klein documenta em The Shock Doctrine (A Doutrina do Choque), te\u00f3ricos neoliberais advogam o uso de crises para impor pol\u00edticas impopulares enquanto as pessoas estavam distra\u00eddas: por exemplo, a consequ\u00eancia do golpe de Pinochet, da guerra do Iraque e do Furac\u00e3o Katrina, que Frieman descreveu como \u201cuma oportunidade para reformar radicalmente o sistema educacional\u201d em New Orleans.<\/p>\n<p>Onde as pol\u00edticas neoliberais n\u00e3o podem ser impostas domesticamente, elas s\u00e3o impostas internacionalmente, atrav\u00e9s de tratados comerciais que incorporam os \u201cpain\u00e9is de disputa estado-investidor\u201d: tribunais globais em que as corpora\u00e7\u00f5es podem pressionar pela revoga\u00e7\u00e3o de leis e normas que protegem direitos sociais e ambientais. Quando parlamentares votaram para restringir as vendas de cigarro, proteger reservat\u00f3rios de \u00e1gua das companhias de minera\u00e7\u00e3o, congelar contas de energia ou prevenir empresas farmac\u00eauticas de esfolar o Estado, as empresas entraram com processos, muitas vezes bem sucedidos. A democracia reduz-se a um teatro.<\/p>\n<p>Outro paradoxo do neoliberalismo \u00e9 que a competi\u00e7\u00e3o universal apoia-se em compara\u00e7\u00e3o e quantifica\u00e7\u00e3o universal. O resultado \u00e9 que trabalhadores, desempregados e servi\u00e7os p\u00fablicos em geral ficam sujeitos a um sistema de avalia\u00e7\u00e3o e monitoramento sufocante e enganador, desenhado para identificar vencedores e punir perdedores. Ao inv\u00e9s de nos libertar do pesadelo burocr\u00e1tico do planejamento central, como prop\u00f4s Von Mises, ele criou um.<\/p>\n<p>O neoliberalismo n\u00e3o foi concebido como um projeto ego\u00edsta, mas rapidamente transformou-se nisso. O crescimento econ\u00f4mico tornou-se visivelmente mais lento na era neoliberal (desde 1980 na Gr\u00e3 Bretanha e nos EUA) do que era nas d\u00e9cadas precedentes; mas n\u00e3o para os ultra ricos. A desigualdade na distribui\u00e7\u00e3o de renda e riqueza, depois de 60 anos de queda, aumentou rapidamente na nova era, devido \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o dos sindicatos, \u00e0 redu\u00e7\u00e3o dos impostos, ao aumento dos alugu\u00e9is, \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o e \u00e0 desregula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A privatiza\u00e7\u00e3o ou mercantiliza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos tais como energia, \u00e1gua, ferrovias, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, estradas e pris\u00f5es habilitou as grandes empresas a colocar uma cabina de ped\u00e1gio diante de bens essenciais e cobrar rendas, seja dos cidad\u00e3os ou do governo, para seu pr\u00f3prio benef\u00edcio. Renda \u00e9 um eufemismo para dinheiro ganho sem esfor\u00e7o. Quando voc\u00ea paga um pre\u00e7o inflacionado pelo bilhete de metr\u00f4, somente parte da tarifa compensa os operadores por seus custos de combust\u00edvel, sal\u00e1rios e outros gastos. O resto reflete o fato de que voc\u00ea est\u00e1 nas m\u00e3os deles.<\/p>\n<p>As pessoas que possuem e administram os servi\u00e7os privatizados ou semi privatizados do Reino Unido fazem fortunas tremendas investindo pouco e cobrando muito. Na R\u00fassia e na \u00cdndia, os oligarcas adquiriram bens estatais atrav\u00e9s de leil\u00f5es. No M\u00e9xico, Carlos Slim teve garantido o controle de quase todos os servi\u00e7os de telefonia fixa e m\u00f3vel e logo tornou-se o homem mais rico do mundo.<\/p>\n<div id=\"attachment_358869\" class=\"wp-caption alignnone\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-358869\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/160423-HayekReagan-485x325.jpg?resize=485%2C325\" alt=\"Friedrich Rayek (direita) encontra-se com Ronald Reagan. Depois de experimentado no Chile de Pinochet, neoliberalismo difundiu-se a partir dos EUA e Gr\u00e3-Bretanha, a partir de um lema (&quot;n\u00e3o h\u00e1 alternativas&quot;) que desmente a suposta aposta dos defensores da doutrina na &quot;liberdade&quot;\" width=\"485\" height=\"325\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><em>Friedrich Rayek (direita) encontra-se com Ronald Reagan. Depois de experimentado no Chile de Pinochet, neoliberalismo difundiu-se a partir dos EUA e Gr\u00e3-Bretanha, sob um lema (\u201cn\u00e3o h\u00e1 alternativas\u201d) que desmente a suposta aposta dos defensores da doutrina na \u201cliberdade\u201d<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>A financeiriza\u00e7\u00e3o, como nota Andrew Sayer em <i>Why We Can\u2019t Afford the Rich<\/i>, teve impacto semelhante. \u201cComo a renda\u201d, diz ele, \u201cos juros s\u00e3o receita acumulada sem qualquer esfor\u00e7o\u201d. \u00c0 medida em que os pobres tornam-se mais pobres e os ricos mais ricos, o rico adquire controle crescente sobre outro bem crucial: dinheiro. Pagamentos de juros s\u00e3o, de modo devastador, transfer\u00eancia de dinheiro do pobre para o rico. Os pre\u00e7os dos im\u00f3veis e a redu\u00e7\u00e3o de investimentos estatais sobrecarregam as pessoas com d\u00edvidas; mas os bancos e os executivos nadam de bra\u00e7adas.<\/p>\n<p>Sayer argumenta que as \u00faltimas quatro d\u00e9cadas caracterizaram-se por uma transfer\u00eancia de riqueza n\u00e3o apenas do pobre para o rico, mas no interior das categorias de riqueza: daqueles que ganham dinheiro produzindo novos bens ou servi\u00e7os para aqueles que ganham dinheiro assumindo o controle de ativos j\u00e1 existentes e recolhendo rendas, juros ou ganhos de capital. O ganho produtivo foi superado pelo ganho improdutivo.<\/p>\n<p>As pol\u00edticas neoliberais est\u00e3o assoladas por falhas do mercado em todos os lugares. N\u00e3o apenas os bancos, mas tamb\u00e9m as corpora\u00e7\u00f5es encarregadas de entregar os servi\u00e7os p\u00fablicos s\u00e3o grandes demais para falir. Como Tony Judt apontou em <i>Ill Fares the Land<\/i>, Hayek esqueceu-se de que os servi\u00e7os p\u00fablicos vitais n\u00e3o podem entrar em colapso, o que significa que a competi\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode determinar seu curso. As empresas levam os lucros, o Estado fica com o risco.<\/p>\n<p>Quanto maior seu fracasso, mais extremada se torna a ideologia. Os governos usam as crises neoliberais tanto como desculpa quanto como oportunidade para baixar impostos, privatizar os servi\u00e7os p\u00fablicos restantes, abrir brechas na rede de prote\u00e7\u00e3o social, desregular as corpora\u00e7\u00f5es e re-regular os cidad\u00e3os. O Estado que se odeia afunda os dentes em cada \u00f3rg\u00e3o do setor p\u00fablico.<\/p>\n<p>Talvez o impacto mais perigoso do neoliberalismo n\u00e3o seja a crise econ\u00f4mica, mas a crise pol\u00edtica que causou. Conforme se reduz o dom\u00ednio do Estado, reduz-se tamb\u00e9m a possibilidade de mudar o curso de nossas vidas por meio do voto. Ao contr\u00e1rio, assegura a teoria neoliberal, as pessoas podem exercer a escolha pelo consumo. Mas alguns t\u00eam mais do que outros para gastar: na grande democracia do consumidor ou do acionista, os votos n\u00e3o s\u00e3o igualmente distribu\u00eddos. O resultado \u00e9 um desempoderamento dos pobres e das classes m\u00e9diass. Conforme os partidos de direita e a ex-esquerda adotam pol\u00edticas neoliberais semelhantes, o desempoderamento transforma-se em priva\u00e7\u00e3o dos direitos civis. Um grande n\u00famero de pessoas foi varrido da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Chris Hedges observa que \u201cmovimentos fascistas constroem suas bases n\u00e3o entre as pessoas politicamente ativas, mas entre as politicamente inativas, os \u2018perdedores\u2019 que sentem, frequentemente de modo correto, que n\u00e3o t\u00eam voz ou papel a desempenhar no establishment politico\u201d. Quando o debate pol\u00edtico n\u00e3o faz mais sentido para n\u00f3s, as pessoas tornam-se suscet\u00edveis a slogans, s\u00edmbolos e sensa\u00e7\u00f5es. Para os admiradores de Trump, por exemplo, fatos e argumentos parecem irrelevantes.<\/p>\n<p>Tony Judt explicou que quando a espessa rede de intera\u00e7\u00f5es entre as pessoas e o Estado \u00e9 reduzida a nada, a n\u00e3o ser autoridade e obedi\u00eancia, a \u00fanica for\u00e7a remanescente a nos unir \u00e9 o poder estatal. O totalitarismo temido por Hayek tem mais probabilidade de emergir quando os governos, tendo perdido a autoridade moral que emana da garantia de servi\u00e7os p\u00fablicos, s\u00e3o reduzidos a \u201cpersuadir, amea\u00e7ar e em \u00faltima an\u00e1lise coagir as pessoas a obedec\u00ea-los.\u201d<\/p>\n<p>Como o comunismo, o neoliberalismo \u00e9 o Deus que falhou. Mas esta doutrina zumbi continua sua escalada, e uma das raz\u00f5es para isso \u00e9 o anonimato. Ou antes, um conjunto de anonimatos.<\/p>\n<p>A doutrina invis\u00edvel da m\u00e3o invis\u00edvel \u00e9 promovida por investidores invis\u00edveis. Devagar, muito devagar, come\u00e7amos a descobrir o nome de alguns deles. Descobrimos que o Institute of Economic Affairs , que argumentou fortemente na m\u00eddia contra a regula\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria do tabaco, foi secretamente fundado, em 1963, pela British American Tobacco. Descobrimos que Charles e David Koch, dois dos homens mais ricos do mundo, fundaram o instituto que criou o movimento Tea Party. Descobrimos que Charles Koch, ao instalar um de seus thinktanks, observou que \u201cpara evitar cr\u00edticas indesej\u00e1veis, o modo como a organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 controlada e dirigida n\u00e3o deveria ser amplamente divulgada\u201d.<\/p>\n<p>As palavras usadas pelo neoliberalismo com frequ\u00eancia mais ocultam do que elucidam. \u201cO mercado\u201d soa como um sistema natural que pode nos pressionar por igual, como fazem a press\u00e3o atmosf\u00e9rica ou da gravidade. Mas est\u00e1 carregado de rela\u00e7\u00f5es de poder. O que \u201co mercado quer\u201d tende a significar o que as corpora\u00e7\u00f5es e seus patr\u00f5es querem. \u201cInvestimento\u201d, como nota Sayer, significa duas coisas bem diferentes. Uma \u00e9 o financiamento de atividades produtivas e socialmente \u00fateis; a outra \u00e9 a compra de bens existentes para deles extrair rendas, juros, dividendos e ganhos de capital. Ao usar a mesma palavra para atividades diferentes, \u201ccamuflam-se as fontes de riqueza\u201d, levando-nos a confundir extra\u00e7\u00e3o de riqueza com cria\u00e7\u00e3o de riqueza.<\/p>\n<p>H\u00e1 um s\u00e9culo, os novos ricos eram desprezados por aqueles que tinham herdado seu dinheiro. Empreendedores buscavam aceita\u00e7\u00e3o social transformando-se em rentistas. Hoje, a rela\u00e7\u00e3o foi invertida: os rentistas e herdeiros definem-se como empres\u00e1rios. Eles afirmam ter constru\u00eddo a riqueza pela qual n\u00e3o trabalharam.<\/p>\n<p>Esse anonimato e essas confus\u00f5es se misturam com o fato de o capitalismo moderno n\u00e3o ter nem nome nem lugar. O modelo de terceiriza\u00e7\u00f5es assegura que os trabalhadores n\u00e3o saibam para quem trabalham. As companhias s\u00e3o registradas atrav\u00e9s de um sistema secreto de rede de offshores, t\u00e3o complexo que nem mesmo a pol\u00edcia pode descobrir seus propriet\u00e1rios e beneficiados. Os arranjos fiscais logram os governos. Ningu\u00e9m entende os \u201cprodutos financeiros\u201d.<\/p>\n<p>O anonimato do neoliberalismo \u00e9 ferozmente salvaguardado. Aqueles que s\u00e3o influenciados por Hayek, Mises e Friedman tendem a rejeitar o termo, sustentando \u2013 com alguma justi\u00e7a \u2013 que ele \u00e9 hoje usado apenas pejorativamente. Mas n\u00e3o nos oferecem substitutos. Alguns descrevem-se como liberais ou ulta-liberais <i>(libertarians)<\/i> cl\u00e1ssicos, mas essas descri\u00e7\u00f5es s\u00e3o ambas enganosas e curiosamente autodissipadoras, uma vez que sugerem n\u00e3o haver nada de novo em <em>O Caminho da Servid\u00e3o (The Road to Serfdom), Bureocracy<\/em> ou o cl\u00e1ssico trabalho de Friedman, <em>Capitalismo e Liberdade (Capitalism and Freedom).<\/em><\/p>\n<p>Por tudo isso, h\u00e1 algo admir\u00e1vel sobre o projeto neoliberal, ao menos em seus est\u00e1gios iniciais. Era uma filosofia distinta e inovadora, promovida por uma rede coerente de pensadores e ativistas com um claro plano de a\u00e7\u00e3o. Era paciente e persistente.<em> O Caminho da Servid\u00e3o (The Road to Serfdom)<\/em> tornou-se o caminho para o poder.<\/p>\n<p>O triunfo do neoliberalismo reflete tamb\u00e9m o fracasso da esquerda. Quando a teoria do laissez-faire econ\u00f4mico levou \u00e0 cat\u00e1strofe em 1929, Keynes inventou uma extensa teoria econ\u00f4mica para substitu\u00ed-la. Quando o gerenciamento da demanda keynesiana bateu no teto, nos anos 70, havia, pronta, uma alternativa conservadora. Mas quando o neoliberalismo desmoronou, em 2008, n\u00e3o havia nada. \u00c9 por isso que o zumbi anda. Em 80 anos, a esquerda e o centro n\u00e3o produziram um novo sistema geral de pensamento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Toda invoca\u00e7\u00e3o de Lord Keynes \u00e9 uma admiss\u00e3o de fracasso. Propor solu\u00e7\u00f5es keynesianas \u00e0s crises do s\u00e9culo 21 \u00e9 ignorar tr\u00eas problemas \u00f3bvios. \u00c9 dif\u00edcil mobilizar as pessoas em torno de velhas ideias; as falhas expostas nos anos 1970 n\u00e3o desapareceram; e, mais importante, o projeto n\u00e3o tem nada a dizer sobre nosso problema mais grave: a crise ambiental. O keynesianismo funciona pelo est\u00edmulo da demanda de consumo para promover crescimento econ\u00f4mico. Demanda de consumo e crescimento econ\u00f4mico s\u00e3o os motores da destrui\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"7a2DhRRIjh\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/desigualdades-mundo\/para-compreender-o-neoliberalismo-alem-dos-cliches\/\">Para compreender o neoliberalismo al\u00e9m dos clich\u00eas<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Para compreender o neoliberalismo al\u00e9m dos clich\u00eas&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/desigualdades-mundo\/para-compreender-o-neoliberalismo-alem-dos-cliches\/embed\/#?secret=X0kghQ3qbV#?secret=7a2DhRRIjh\" data-secret=\"7a2DhRRIjh\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>George Monbiot &#8211;\u00a0Friedrich Hayek preside, em 1947, a primeira reuni\u00e3o da Sociedade Monte P\u00e8lerin, no resort su\u00ed\u00e7o de mesmo nome. 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