{"id":7769,"date":"2018-04-13T09:37:30","date_gmt":"2018-04-13T12:37:30","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=7769"},"modified":"2018-04-11T18:40:05","modified_gmt":"2018-04-11T21:40:05","slug":"reflexoes-sobre-a-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/04\/13\/reflexoes-sobre-a-crise\/","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es sobre a crise"},"content":{"rendered":"<p><strong>Roberto Savio<\/strong> &#8211; \u00c9 poss\u00edvel separar os pontos importantes de reflex\u00e3o e debate, para que possamos nos concentrar neles, com a esperan\u00e7a de que nos conduzam a outras reflex\u00f5es e pontos de vista.<\/p>\n<p>Agora j\u00e1 est\u00e1 claro que estamos num per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, embora ainda sem saber para onde vamos. O que parece evidente \u00e9 que o sistema pol\u00edtico, econ\u00f4mico e social que nos vem acompanhando desde o final da II Guerra Mundial n\u00e3o pode mais se sustentar. As desigualdades que crescem de forma exponencial nos fizeram regredir aos n\u00edveis do Reino Unido da \u00e9poca da Rainha Vit\u00f3ria, mas agora a n\u00edvel global, segundo a Anistia Internacional. H\u00e1 10 anos, 652 personas possu\u00edam a mesma riqueza que o conjunto de 2,3 bilh\u00f5es de pessoas. Hoje, apenas 8 pessoas conseguem ter esse mesmo poder nas m\u00e3os. Segundo as proje\u00e7\u00f5es da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT), os jovens que agora t\u00eam 18 anos se aposentar\u00e3o com uma pens\u00e3o mensal de 632 euros em m\u00e9dia. Apesar dos discursos oficiais, os governos alimentam a indiferen\u00e7a geral sobre os dois grados cent\u00edgrados de aumento m\u00e1ximo da temperatura do planeta, em compara\u00e7\u00e3o com os n\u00edveis de 1854, considerado o limite para que o nosso planeta evite mudan\u00e7as clim\u00e1ticas irrevers\u00edveis. As finan\u00e7as j\u00e1 sa\u00edram da economia e criaram seu pr\u00f3prio mundo, no qual atuam sem organismos internacionais de controle, e, com isso, as transa\u00e7\u00f5es financeiras de um s\u00f3 dia podem chegar a ser 40 vezes superiores \u00e0 produ\u00e7\u00e3o mundial de bens e servi\u00e7os. Entre 2009 e este ano, os bancos mais importantes do mundo j\u00e1 pagaram algo como 800 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em multas por opera\u00e7\u00f5es ilegais. A participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica caiu de 86% em 1960 a 63.7% nos dias de hoje.<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise profunda de todos esses fatos seria muito complexa, visto que inclui todos os aspectos da nossa vida. Contudo, \u00e9 poss\u00edvel separar os pontos importantes de reflex\u00e3o e debate, para que possamos nos concentrar neles, com a esperan\u00e7a de que nos conduzam a outras reflex\u00f5es e pontos de vista, j\u00e1 que a crise global tamb\u00e9m afeta a todos esses aspectos. As reflex\u00f5es s\u00e3o sempre sugestivas. As que se apresentam a seguir surgem a partir de fatos dos quais participei, mas que s\u00e3o, por enquanto, somente fatos.<\/p>\n<p><b>Reflex\u00e3o N\u00ba 1<\/b><\/p>\n<p>As ra\u00edzes da crise v\u00eam de tempos atr\u00e1s. Em 1973, a Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas adotou por unanimidade um plano de governabilidade global que visava a redu\u00e7\u00e3o das desigualdades entre seus membros, o que foi chamado de Nova Ordem Econ\u00f4mica Mundial. O plano nasce com o apoio dos Estados Unidos (embora o projeto tenha sido elaborado por M\u00e9xico e Arg\u00e9lia). O sistema internacional p\u00f3s-guerra, assim como as Na\u00e7\u00f5es Unidas, nascem por iniciativa dos Estados Unidos, vencedor principal da II Guerra Mundial que tem interesse na preserva\u00e7\u00e3o da paz e do desenvolvimento, ap\u00f3s uma guerra na que perderam cerca de meio milh\u00e3o de soldados, sobre uma popula\u00e7\u00e3o de 140 milh\u00f5es (a Alemanha perdeu 15 milh\u00f5es, dos 78 milh\u00f5es de habitantes que tinha, sem contar os dois milh\u00f5es de civis mortos, contra nenhum dos Estados Unidos e os vinte milh\u00f5es de mortos da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica). As Na\u00e7\u00f5es Unidas nascem com o compromisso de Washington de contribuir com o 25% do seu or\u00e7amento, o que hoje Trump amea\u00e7a com retirar. At\u00e9 a C\u00fapula de Canc\u00fan de 1981, que reuniu os 22 chefes de Estado mais importantes do mundo (com exce\u00e7\u00e3o dos l\u00edderes do campo comunista), se vivia com a ilus\u00e3o do final das desigualdades, sobre a base de uma democracia mundial na qual a maioria dos pa\u00edses decidiria o curso a seguir em prol do bem comum.<\/p>\n<p>Em Canc\u00fan, estava presente o rec\u00e9m eleito presidente Reagan, para anunciar que os Estados Unidos n\u00e3o aceitariam mais se sujeitar \u00e0s regras de uma abstrata democracia mundial. \u201cOs Estados Unidos n\u00e3o s\u00e3o um pa\u00eds como os demais e voltar\u00e3o a decidir suas pol\u00edticas internacional e comercial. Na mesma reuni\u00e3o estava Margaret Thatcher, que se tornou o lado europeu de Reagan. Nascia ent\u00e3o uma nova vis\u00e3o do mundo. \u201cA sociedade n\u00e3o existe, existem os indiv\u00edduos\u201d, dizia Thatcher. \u201cAs f\u00e1bricas n\u00e3o contaminam, s\u00e3o as \u00e1rvores\u201d, dizia Reagan. \u201cA pobreza produz pobreza e a riqueza produz riqueza\u201d. Dessa m\u00e1xima nasce a ideia de que \u00e9 preciso reduzir os impostos aos ricos, porque assim eles distribuiriam sua riqueza.<\/p>\n<p><b>Reflex\u00e3o N\u00ba 2<\/b><\/p>\n<p>Alguns anos depois de Canc\u00fan, em 1989, a queda do muro de Berlim aponta para o fim das ideologias, das camisas de for\u00e7a que nos levaram ao nazismo e ao comunismo. A ideia \u00e9 que todos devem ser pragm\u00e1ticos. A pol\u00edtica deve resolver problemas concretos, n\u00e3o andar buscando utopias. Entretanto, a solu\u00e7\u00e3o de um determinado problema sem que esteja inserido na vis\u00e3o final da sociedade (de direita ou de esquerda, pouco importa), na verdade se chama \u201cutilitarismo\u201d, e a pol\u00edtica destinada \u00e0 administra\u00e7\u00e3o e n\u00e3o \u00e0s ideias, nos afasta da participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e aumenta a corrup\u00e7\u00e3o. Sem programas com ideais, aumenta a import\u00e2ncia do personalismo na pol\u00edtica. O marketing e n\u00e3o as ideias \u00e9 o que passa a ser o instrumento principal das campanhas eleitorais.<\/p>\n<p><b>Reflex\u00e3o N\u00ba 3<\/b><\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, aparece um s\u00f3 pensamento sem alternativa, ou TINA (por sua sigla em ingl\u00eas, retirada da express\u00e3o thatcheriana\u00a0<i>There Is No Alternative<\/i>): a globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal. \u00c9 curioso perceber que antes da queda do muro de Berlim, o termo globaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o aparece nos meios de comunica\u00e7\u00e3o. A ideia se fundamenta no modelo socioecon\u00f4mico e pol\u00edtico do chamado \u201cConsenso de Washington\u201d, o paradigma do desenvolvimento imposto pelo Fundo Monet\u00e1rio Internacional, o Banco Mundial e o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, que estabelece a ado\u00e7\u00e3o das seguintes reformas: estabiliza\u00e7\u00e3o macroecon\u00f4mica, liberaliza\u00e7\u00e3o (comercial, financeira e dos investimentos), privatiza\u00e7\u00e3o e desregula\u00e7\u00e3o. Elimina as barreiras alfandeg\u00e1rias de prote\u00e7\u00e3o nacionais em todos os lados do mundo, reduz os gastos n\u00e3o produtivos (educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, assist\u00eancia social) e promove a libre concorr\u00eancia entre os Estados. Famosa \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o que faz Kissinger do \u201cnovo paradigma da supremacia norte-americana\u201d. Os pa\u00edses em desenvolvimento vivem submetidos \u00e0s regras econ\u00f4micas ditadas pelo Norte. Kissinger n\u00e3o viu que, uma vez aberta a via da livre concorr\u00eancia, pa\u00edses como a China e outras na\u00e7\u00f5es poderiam emergir.<\/p>\n<p><b>Reflex\u00e3o N\u00ba 4<\/b><\/p>\n<p>As rea\u00e7\u00f5es da esquerda contra o pensamento \u00fanico chegam atrav\u00e9s da chamada Terceira Via, uma proposta de Tony Blair que teve bastante sucesso, ao abandonar as velhas ideias da esquerda, cavalgando na globaliza\u00e7\u00e3o e aceitando a falta de alternativas. A social democracia, de Blair a Mateo Renzi, busca se transformar num partido transversal que inclua tamb\u00e9m o centro, com uma pol\u00edtica proativa baseada em fatos concretos, sem jaulas ideol\u00f3gicas j\u00e1 superadas. Ali\u00e1s, a esquerda perde seus aderentes e a crise de 2008, que se deu por causa da aus\u00eancia de controles sobre os bancos norte-americanos, desembarca logo na Europa (com governos de esquerda quase em todos os pa\u00edses) e elimina sua capacidade de distribuir os excedentes. Crises para os oper\u00e1rios e para classe m\u00e9dia, v\u00edtimas da globaliza\u00e7\u00e3o que buscam novos defensores e come\u00e7am a votar pela extrema direita, pelos Le Pen, os Farage, os Wilder, e v\u00e3o seguindo esse caminho at\u00e9 chegar, agora, nos Salvini e nos 5 Estrelas.<\/p>\n<p><b>Reflex\u00e3o N\u00ba 5<\/b><\/p>\n<p>Muitos historiadores sustentam que a cobi\u00e7a e o medo s\u00e3o alguns dos principais motores das mudan\u00e7as na hist\u00f3ria. Ricardo Petrella, em seu \u00faltimo livro \u201cEm nome da humanidade\u201d, pensa que estes motores foram utilizados a partir de tr\u00eas alavancas: em nome de Deus, em nome da na\u00e7\u00e3o e em nome do lucro. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que, desde a queda do Muro, os valores da globaliza\u00e7\u00e3o (concorr\u00eancia, lucro, individualismo, exalta\u00e7\u00e3o da riqueza), assim como a desapari\u00e7\u00e3o do debate pol\u00edtico sobre a justi\u00e7a social (solidariedade, transpar\u00eancia, equidade, etc.) criaram uma \u00e9tica fundamentada na cobi\u00e7a. Vinte anos depois, em 2009, a crise econ\u00f4mica e financeira nos Estados Unidos com a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, e logo na Europa com os bonos soberanos, abre um segundo ciclo, o do medo.<\/p>\n<p><b>Reflex\u00e3o N\u00ba 6<\/b><\/p>\n<p>O ciclo do medo, no qual nos encontramos plenamente (sem ter abandonado a cobi\u00e7a, ao mesmo tempo em que as armadilhas em nome de Deus, das Na\u00e7\u00f5es e do lucro voltam a estar vigentes), creia uma nova direita sem ideias e sustentada em emo\u00e7\u00f5es. O Brexit e Trump s\u00e3o fen\u00f4menos que demonstram isso facilmente. Mas o fen\u00f4meno \u00e9 muito mais profundo. Vivemos numa sociedade l\u00edquida, sem estrutura de ideologias ou de classes. Nesta sociedade, \u00e9 f\u00e1cil para os dirigentes montar em cima do medo e da cobi\u00e7a para saltar \u00e0 cena p\u00fablica. Junto com a crise de 2009 surge a imigra\u00e7\u00e3o massiva proveniente dos pa\u00edses invadidos pelo ocidente para depor os ditadores e instaurar automaticamente a democracia \u2013 a segmenta\u00e7\u00e3o da antiga Iugosl\u00e1via, um pa\u00eds moderno e europeu, logo ap\u00f3s a morte de Tito, devia ter sido uma advert\u00eancia. A democracia n\u00e3o chega, mas sim o caos, a guerra civil, o sangue e a destrui\u00e7\u00e3o. Em 2003, George W. Bush inicia a invas\u00e3o do Iraque. Em 2011, come\u00e7a a guerra civil na S\u00edria, que se transforma em um ponto de conflito entre as pot\u00eancias \u00e1rabes, europeias, a norte-americana e a russa \u2013 com seis milh\u00f5es de pessoas afetadas e desabrigadas, al\u00e9m de meio milh\u00e3o de mortos. Em 2011, Sarkozy inicia a invas\u00e3o da L\u00edbia. Das ru\u00ednas do Iraque nasce o ISIS (Estado Isl\u00e2mico), o terrorismo em nome de Deus que propunha um retorno o isl\u00e3 original (o wahabismo, financiado no mundo pela Ar\u00e1bia Saudita com 80 bilh\u00f5es de d\u00f3lares nos \u00faltimos vinte anos). Tudo isso depois de que as for\u00e7as veteranas da guerra financiada pelos Estados Unidos contra a ocupa\u00e7\u00e3o russa no Afeganist\u00e3o se uniram dentro da Al Qaeda, h\u00e1 15 anos, sob o comando de Osama Bin Laden, que planejou e realizou o primeiro ataque da hist\u00f3ria em solo norte-americano. Como diz o famoso caricaturista espanhol Andr\u00e9s \u201cEl Roto\u201d Rabago: \u201cn\u00f3s mandamos bombas e eles nos mandam refugiados\u201d. Os refugiados que chegam fortalecem duas das armadilhas citadas: as ret\u00f3ricas em nome de Deus e em nome da p\u00e1tria. Na Europa de hoje, os partidos de extrema direita e dos soberanistas representam a segunda for\u00e7a pol\u00edtica, na frente dos socialistas. Nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es europeias, a direita radical obteve 40 milh\u00f5es de votos, e conquistou governos na Hungria, na Pol\u00f4nia, na Rep\u00fablica Tcheca, na Eslov\u00e1quia e na \u00c1ustria, al\u00e9m de conseguir bons resultados nos pa\u00edses n\u00f3rdicos, na Holanda e at\u00e9 na Alemanha. Na Hungria, Viktor Orb\u00e1n lan\u00e7ou o que ele chama de \u201cdemocracia n\u00e3o-liberal\u201d, enquanto a Pol\u00f4nia denuncia o laicismo da Uni\u00e3o Europeia e promove uma grande marcha com os populistas soberanistas de toda a Europa, com gritos \u201cem nome de Deus\u201d. O Grupo de Visegrad (Hungria, Rep\u00fablica Tcheca, Eslov\u00e1quia Pol\u00f4nia e agora \u00c1ustria) denuncia a entrega da Europa ao Isl\u00e3, o que cria uma fratura entre o Leste e o Oeste da Europa, a mesma que se existe entre o Norte e o Sul sob a mesma perspectiva da economia: austeridade ou solidariedade. Por\u00e9m, aparece uma novidade: os Estados Unidos interv\u00eam na Europa abertamente, apoiando partidos nacionalistas de direita e xen\u00f3fobos que n\u00e3o s\u00f3 miram a Trump, como tamb\u00e9m a Putin. Como resultado, numa Europa que envelhece rapidamente (por exemplo, na It\u00e1lia os jovens entre 18 e 25 anos representam apenas 3% dos eleitores), a imigra\u00e7\u00e3o se torna uma grande bandeira da direita populista e xen\u00f3foba. Enquanto isso, o Fundo Monet\u00e1rio Internacional lan\u00e7ou uma advert\u00eancia: a Europa necessita absorver, no curto prazo, 20,5 milh\u00f5es de imigrantes, para sustentar seu sistema previdenci\u00e1rio e a produtividade das suas empresas. As estat\u00edsticas demonstram que os imigrantes mais contribuem do que encarecem o sistema. Constituem a maioria das novas pequenas empresas, cujo sonho \u00e9 se integrar rapidamente ao sistema. Mas n\u00e3o existe um debate sobre a migra\u00e7\u00e3o e que tipo de imigrantes se deve aceitar e receber. Agora, todos s\u00e3o vistos como invasores perigosos com inten\u00e7\u00f5es de destruir a identidade europeia, de aumentar a criminalidade, de ocupar os postos de trabalho dos cidad\u00e3os europeus, v\u00edtimas do desemprego que aumenta. Ainda assim, o magnata Donald Trump, que lidera um pa\u00eds integrado por imigrantes, tem feito do controle de migra\u00e7\u00e3o um dos seus cavalos de batalha. Um fen\u00f4meno tr\u00e1gico \u00e9 que os jovens j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o ativos politicamente, inclusive menos que os aposentados. No curso da hist\u00f3ria, os jovens sempre foram os que irrompiam nos cen\u00e1rios pol\u00edticas, para mudar o mundo que encontraram. Se tivessem votado, o Brexit n\u00e3o haveria acontecido. Mas o sistema pol\u00edtico dos velhos os ignora. O governo Renzi na It\u00e1lia gastou 30 bilh\u00f5es de euros para salvar quatro bancos. O or\u00e7amento total anual dedicado aos jovens italianos \u00e9 de 2 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Desde a cria\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, em 1945, passamos de 2,5 bilh\u00f5es de habitantes a 7,5 bilh\u00f5es hoje em dia. O crescimento da popula\u00e7\u00e3o s\u00f3 ser\u00e1 freado em 2050, quando sejamos 9,5 bilh\u00f5es. Durante o mesmo per\u00edodo, a \u00c1frica se duplicar\u00e1. Ou encontramos um muito necess\u00e1rio acordo de governabilidade e de imigra\u00e7\u00e3o ou logo estaremos falando em matar migrantes, como alguns prop\u00f5em.<\/p>\n<p><b>Reflex\u00e3o N\u00ba 7<\/b><\/p>\n<p>Os intelectuais e os cientistas pol\u00edticos est\u00e3o sempre surpresos pela passividade dos cidad\u00e3os que parecem completamente anestesiados e j\u00e1 n\u00e3o reagem a nada, embora a pol\u00edtica v\u00e1 contra dos seus interesses. A hist\u00f3ria do Brexit tem sido objeto de muitas an\u00e1lises. Como \u00e9 poss\u00edvel que as zonas mais deprimidas e que tanto recebem da Europa sejam as que votaram a favor da sa\u00edda? Como \u00e9 poss\u00edvel que a Pol\u00f4nia, o maior benefici\u00e1rio dos fundos europeus (tr\u00eas vezes o Plano Marshall) vote contra a Europa? Como \u00e9 poss\u00edvel que Trump, que deveria drenar os p\u00e2ntanos dos grandes interesses a favor do povo ignorado pelos grandes poderes, governe se aliando com os grandes capitais e o ex\u00e9rcito (al\u00e9m dos seus pr\u00f3prios familiares), e seus eleitores continuem fieis a ele? Cerca de 92% dos seus apoiadores afirma estar disposto a reelege-lo em 2020. Existem muitas interpreta\u00e7\u00f5es sobre esta situa\u00e7\u00e3o paradoxal, mas como dizia Talleyerand \u201ccada na\u00e7\u00e3o tem o governo que merece\u201d. Devemos reconhecer que desde a crise de 2009, a classe pol\u00edtica \u00e9 a que mais tem ca\u00eddo no descr\u00e9dito. A sensa\u00e7\u00e3o de distanciamento do poder pol\u00edtico a partir de um ref\u00fagio no espa\u00e7o virtual \u00e9 alimentada por um individualismo fruto da frustra\u00e7\u00e3o e da falta de debate sobre as ideias. O exemplo macrosc\u00f3pico desta anestesia geral \u00e9 a crise clim\u00e1tica. Os cidad\u00e3os comuns observam ela todos os dias em sua vida cotidiana: fotos impressionantes da desapari\u00e7\u00e3o de glaciares, nevadas no Saara, furac\u00f5es, inc\u00eandios, tormentas\u2026 Todos conhecem os dados que a comunidade cient\u00edfica mostrou em Paris a todos os governos de todo o mundo, que levou os l\u00edderes globais a um acordo insuficiente e sem controles. N\u00e3o necessitam estudar para saber essas informa\u00e7\u00f5es. Sabem e observam como os governos falam disso, mas n\u00e3o fazem nada. Continuam gastando para financiar tr\u00eas vezes mais na ind\u00fastria f\u00f3ssil que o que investem em energias renov\u00e1veis. Ali\u00e1s, a It\u00e1lia convocou um referendo para continuar com a explora\u00e7\u00e3o dos campos petroleiros no Sul. Nestes dias, o governo espanhol combate as ind\u00fastrias el\u00e9tricas que querem clausurar suas centrais de carv\u00e3o. Na Espanha, os aposentados fizeram uma marcha impressionante para defender suas pens\u00f5es. Por\u00e9m, nenhum pa\u00eds jamais convocou uma marcha sobre o clima. Poderia escrever muito sobre a aus\u00eancia de rea\u00e7\u00f5es dos cidad\u00e3os sobre problemas vitais. E isso constitui a base da mudan\u00e7a de \u00e9poca que estamos vivendo.<\/p>\n<p><b>Reflex\u00e3o N\u00ba 8<\/b><\/p>\n<p>Sobre o impacto da tecnologia, \u00e9 preciso considerar as consequ\u00eancias que dever\u00e3o chegar com a IV Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, que j\u00e1 est\u00e1 acontecendo. Recordemos que a I Revolu\u00e7\u00e3o foi no come\u00e7o do S\u00e9culo XIX, quando a mecaniza\u00e7\u00e3o substituiu o trabalho individual \u2013 os teares mec\u00e2nicos tornando obsoletos os operados manualmente, por exemplo. Naquele ent\u00e3o, foi f\u00e1cil reciclar os trabalhadores que passaram dos telares de casa aos da f\u00e1brica. A II Revolu\u00e7\u00e3o Industrial foi j\u00e1 no final do mesmo s\u00e9culo, gra\u00e7as \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas ativadas por energias mec\u00e2nicas com origem em novas fontes, como o vapor. Nascem as redes ferrovi\u00e1rias, a constru\u00e7\u00e3o de embarca\u00e7\u00f5es a vapor e velozes meios de comunica\u00e7\u00e3o com importantes descobrimentos nos campos qu\u00edmico, m\u00e9dico, a cadeia de produ\u00e7\u00e3o, a eletricidade, o telefone, etc. Ainda naquele momento, gra\u00e7as ao \u00eaxodo do trabalho \u2013 do campo \u00e0 f\u00e1brica \u2013, o ser humano continua sendo pe\u00e7a vital para a produ\u00e7\u00e3o. Surgem batalhas pol\u00edticas por um reconhecimento equitativo do trabalho, e assim se molda a pol\u00edtica moderna. A III Revolu\u00e7\u00e3o tarda menos, e acontece no final da II Guerra Mundial, com o progresso da tecnologia e, depois, com o advento da internet, que muda a forma de trabalhar. Agora, como consequ\u00eancia desses avan\u00e7os, chegamos \u00e0 IV Revolu\u00e7\u00e3o, que se fundamenta na intelig\u00eancia artificial e na robotiza\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 produzem 17% dos bens e servi\u00e7os, mas se calcula que em 2030 j\u00e1 ser\u00e3o respons\u00e1veis por 30%. S\u00f3 a autonomia do transporte castigar\u00e1 a Europa com seis milh\u00f5es de desocupados, entre taxistas, caminhoneiros e motoristas, transformando totalmente o sistema de transporte, a ind\u00fastria automobil\u00edstica, as seguradoras, etc. A quest\u00e3o \u00e9: desta vez, os taxistas e caminhoneiros que perder\u00e3o seu trabalho saber\u00e3o se reciclar, em uma sociedade que privilegia o conhecimento tecnol\u00f3gico em detrimento do trabalho tradicional? Estamos alimentando um problema estrutural que a pol\u00edtica atual, pautada pelas solu\u00e7\u00f5es de curto prazo, ainda ignora. Tudo isso pode nos levar ao risco do aumento do desemprego, do medo e das tens\u00f5es sociais e pol\u00edticas? \u00c9 s\u00f3 um exemplo de como a dist\u00e2ncia entre a pol\u00edtica, a tecnologia, as finan\u00e7as e a globaliza\u00e7\u00e3o est\u00e3o se ampliando dramaticamente.<\/p>\n<p><b>Reflex\u00e3o N\u00ba 9<\/b><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m estamos vivendo uma crise do multilateralismo. Das ru\u00ednas da II Guerra Mundial nasceu a consci\u00eancia de que s\u00f3 atrav\u00e9s da coopera\u00e7\u00e3o multilateral se poderia buscar uma paz duradoura, ap\u00f3s a trag\u00e9dia provocada pelo nacionalismo e pelas ideias de dom\u00ednio de uma cultura sobre as demais. Nasceram tamb\u00e9m organiza\u00e7\u00f5es internacionais como as Na\u00e7\u00f5es Unidas, com todas as suas ag\u00eancias e fundos, da Unicef (defesa dos direitos das crian\u00e7as) \u00e0 FAO (combate \u00e0 fome), da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade \u00e0 de Regula\u00e7\u00e3o da Energia At\u00f4mica. Na Europa, surgiu o grande projeto da Comunidade Europeia, enquanto as Am\u00e9ricas viram surgir a Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA) e o Mercosul, entre outros. Tudo isso sob o sistema multilateral hoje em crise. As guerras comerciais de Trump est\u00e3o destruindo o sistema de interc\u00e2mbios comerciais. Passamos pela democracia mundial de Roosevelt e pelo livre interc\u00e2mbio e concorr\u00eancia de Reagan, e agora chegamos \u00e0 hegemonia dos interesses norte-americanos.\u00a0<i>America first<\/i>. As guerras monet\u00e1rias despontam no horizonte. A ideia que vai se impondo \u00e9 a de competir e n\u00e3o cooperar, a cobi\u00e7a como o valor que substitui o da coopera\u00e7\u00e3o em favor dos mais fracos e controlando os fortes, que est\u00e1 se extinguindo. Assim como Kissinger n\u00e3o viu que um dia a livre concorr\u00eancia se voltaria contra os Estados Unidos, Trump n\u00e3o v\u00ea que uma pol\u00edtica de enfrentamentos poder\u00e1 se reverter um dia. R\u00fassia, China e Estados Unidos come\u00e7am a rearmar uma Guerra Fria que parecia j\u00e1 desaparecida. O presente e o futuro imediato se assemelham a uma perigosa reedi\u00e7\u00e3o dos Anos 30. Os que votam pelos nacionalismos t\u00eam consci\u00eancia disso? Como disse o Papa Francisco, j\u00e1 estamos numa fracionada III Guerra Mundial\u2026 j\u00e1 superamos o n\u00famero de refugiados daquele ent\u00e3o. Al\u00e9m das guerras em nome da p\u00e1tria na \u00c1frica, tamb\u00e9m h\u00e1 as que se travam em nome de Deus em Myanmar, e a dos terroristas isl\u00e2micos. Passamos d\u00e9cadas derrubando muros e agora estamos construindo mais que antes\u2026 Parece que o futuro corre contra os interesses da humanidade, que agora conhece amea\u00e7as planet\u00e1rias que n\u00e3o existiam nos Anos 30, a do clima e a nuclear, num processo de darwinismo social e econ\u00f3mico que j\u00e1 sabemos aonde conduz\u2026<\/p>\n<p><b>Reflex\u00e3o N\u00ba 10<\/b><\/p>\n<p>Evidentemente, a reflex\u00e3o final \u00e9 sobre a necessidade de encontrar uma governabilidade da globaliza\u00e7\u00e3o e da IV Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. N\u00e3o \u00e9 verdade que carecemos de ideologias. A globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal \u00e9 uma ideologia de for\u00e7a sem precedentes que tem produzido novos fen\u00f4menos, como as finan\u00e7as globais, um sistema multinacional mais forte que os governos nos quais o exemplo de uso do Facebook para usar os cidad\u00e3os como mercadoria e para influir em suas prefer\u00eancias pol\u00edticas e comerciais demonstra que estamos imersos numa profunda crise de democracia. Entramos num mundo inimagin\u00e1vel, descrito pelos pioneiros da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, como Orwell e Clark, fundamentado nas m\u00e1quinas e no poder de poucos. H\u00e1 somente dez anos, na China, era impens\u00e1vel a ascens\u00e3o ao poder total, como a de Xi Jinping, ou de Erdogan na Turquia, o de Putin na R\u00fassia. Eram impens\u00e1veis o Brexit e Trump. Era impens\u00e1vel que os para\u00edsos fiscais acumulariam a cifra colossal de 80 trilh\u00f5es de d\u00f3lares. Era impens\u00e1vel que oito pessoas possu\u00edssem a riqueza de 2,3 bilh\u00f5es. Era impens\u00e1vel que a Noruega tivesse um inverno com temperaturas parecidas com as de uma primavera. H\u00e1 dez anos, a crise financeira abria um per\u00edodo de profundas e dram\u00e1ticas transforma\u00e7\u00f5es. A este ritmo de acelera\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, onde estaremos ap\u00f3s os pr\u00f3ximos dez anos? \u00c9 imperativo buscar uma solu\u00e7\u00e3o, e encontrar rapidamente um di\u00e1logo entre todos os que desejam fundamentar esse redescobrimento dos valores comuns, a constru\u00e7\u00e3o da paz e da coopera\u00e7\u00e3o, do direito internacional como base das rela\u00e7\u00f5es entre os Estados, e reencontrar o sentido do ato de compartilhar, de defender a paz e a justi\u00e7a social como bases da conviv\u00eancia, que restabele\u00e7a o ser humano, e n\u00e3o o capital, como o centro da sociedade, superando a esta era da cobi\u00e7a e do medo. Poderemos encontrar o caminho para esta mudan\u00e7a?<\/p>\n<p>Concluo aqui as 10 reflex\u00f5es para observar de onde viemos e para onde vamos. Esta \u00e9 s\u00f3 uma proposta para pensar. Vivemos numa sociedade que se barbariza, na qual se dialoga e se l\u00ea cada vez menos. Em que se gasta duas vezes mais em publicidade que em educa\u00e7\u00e3o. O eleitor n\u00e3o tem b\u00fassola. Se algum leitor se sente animado a outras reflex\u00f5es, seja bem vindo. O que importa agora \u00e9 refletir!<\/p>\n<p>https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Politica\/Reflexoes-sobre-a-crise\/4\/39848<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roberto Savio &#8211; \u00c9 poss\u00edvel separar os pontos importantes de reflex\u00e3o e debate, para que possamos nos concentrar neles, com a esperan\u00e7a de que nos conduzam a outras reflex\u00f5es e pontos de vista. Agora j\u00e1 est\u00e1 claro que estamos num per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, embora ainda sem saber para onde vamos. 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