{"id":7757,"date":"2018-04-11T15:07:25","date_gmt":"2018-04-11T18:07:25","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=7757"},"modified":"2018-04-09T19:10:27","modified_gmt":"2018-04-09T22:10:27","slug":"aos-que-defendem-a-volta-da-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/04\/11\/aos-que-defendem-a-volta-da-ditadura\/","title":{"rendered":"Aos que defendem a volta da ditadura"},"content":{"rendered":"<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<p id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo\"><span class=\"autor-nombre\"><strong>ELIANE BRUM<\/strong> &#8211;\u00a0<\/span>Eles eram 400 nas ruas de S\u00e3o Paulo, no primeiro s\u00e1bado de dezembro, pedindo interven\u00e7\u00e3o militar. Quatrocentos n\u00e3o \u00e9 pouco. Um \u00e9 muito.<\/p>\n<\/div>\n<\/header>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p>Quando escuto brasileiros fazendo\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/12\/06\/politica\/1417905520_747784.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">manifesta\u00e7\u00e3o pela volta da ditadura<\/a>, penso que eles n\u00e3o podem saber o que est\u00e3o dizendo. Quem sabe, n\u00e3o diz. Mas esse primeiro pensamento \u00e9 uma mistura de arrog\u00e2ncia e de ingenuidade. O mais prov\u00e1vel \u00e9 que uma parte significativa desses homens e mulheres que t\u00eam se manifestado nas ruas desde o final das elei\u00e7\u00f5es, orgulhosos de sua falta de pudor, pe\u00e7am a volta dos militares ao poder exatamente porque sabem o que dizem. Mas talvez seja preciso manter n\u00e3o a arrog\u00e2ncia, mas a ingenuidade de acreditar que n\u00e3o sabem, porque quem sabe n\u00e3o diria, n\u00e3o poderia dizer. N\u00e3o seria capaz, n\u00e3o ousaria. \u00c9 para estes, os que desconhecem o seu dizer, estes, que talvez nem existam, que amplio aqui a voz das crian\u00e7as torturadas, de v\u00e1rias maneiras, pela ditadura.<\/p>\n<p>Crian\u00e7as. Torturadas. De v\u00e1rias maneiras.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Botavam meu pai no pau de arara e, para o fazerem falar, simulavam me torturar com uma corda. Eu tinha dois anos<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Como Ernesto Carlos Dias do Nascimento. Ele tinha dois anos e tr\u00eas meses. Foi considerado terrorista, \u201cElemento Menor Subversivo\u201d, banido do pa\u00eds por decreto presidencial. Foi preso em 18 de maio de 1970, em S\u00e3o Paulo, com sua m\u00e3e, Jovelina Tonello do Nascimento. O pai, Manoel Dias do Nascimento, militante da Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria (VPR), organiza\u00e7\u00e3o comandada por Carlos Lamarca, havia sido preso horas antes. Ernesto \u00e9 quem conta:<\/p>\n<p>\u201cMe levaram diversas vezes \u00e0s sess\u00f5es de tortura para ver meu pai preso no pau de arara. Para o fazerem falar, simulavam me torturar, com uma corda, na sala ao lado, separados apenas por um biombo\u201d.<\/p>\n<p>O menino de dois anos dizia: \u201cN\u00e3o pode bater no papai. N\u00e3o pode\u201d.<\/p>\n<p>E batiam.<\/p>\n<p>Libertado quase um m\u00eas depois, passou os primeiros anos com pavor de policiais de farda e grupos com mais de quatro pessoas. Entrava em p\u00e2nico, escondia-se debaixo da cama ou dentro do arm\u00e1rio, mordia quem se aproximava e urinava nas cal\u00e7as. Ernesto foi uma crian\u00e7a com pesadelos recorrentes. O mais comum era com um asno, uma corda e uma agulha. \u201cO asno usava um bon\u00e9 militar, a agulha tinha olhos arregalados e uma risada aguda sarc\u00e1stica e corria atr\u00e1s de mim, eu apavorado tentava fugir. O asno me cercava, me dava coices ou chutava coisas sobre mim. A corda parecia boazinha, disfar\u00e7ada de linha se estendia at\u00e9 mim, mas quando eu a segurava ela\u00a0 machucava minhas m\u00e3os e me deixava cair em um abismo.\u201d<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Perto do parto, o l\u00edquido amni\u00f3tico descia pelas minhas pernas e as baratas me atacavam em bandos. Eu gritava na cela\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Ernesto \u00e9 um dos 44 adultos torturados na inf\u00e2ncia \u2013 f\u00edsica e psicologicamente, mas tamb\u00e9m de outras maneiras \u2013 que contam sua hist\u00f3ria em um livro lan\u00e7ado em novembro pela Comiss\u00e3o da Verdade do Estado de S\u00e3o Paulo \u201cRubens Paiva\u201d.\u00a0<em>Inf\u00e2ncia roubada \u2013 crian\u00e7as atingidas pela Ditadura Militar no Brasil<\/em>\u00e9 a mem\u00f3ria do inomin\u00e1vel que precisa ser nomeado para que cada um deles possa viver, para que o crime de Estado n\u00e3o se repita. A maioria dos depoimentos foi registrada em audi\u00eancias na Comiss\u00e3o da Verdade de S\u00e3o Paulo. Algumas pessoas, que n\u00e3o puderam comparecer ou n\u00e3o conseguiam falar sobre o assunto, foram entrevistadas depois.<\/p>\n<p>O que dizer sobre crian\u00e7as torturadas pelo Estado? E torturadas ontem, em par\u00e2metros hist\u00f3ricos, bem aqui? Os relatos desse livro s\u00e3o alheios aos adjetivos. S\u00e3o sil\u00eancios que falam. E solu\u00e7am. Como Jo\u00e3o Carlos Schmidt de Almeida Grabois, o Joca, antes mesmo de nascer. Ele estava na barriga da m\u00e3e, Crimeia, quando ela levou choques el\u00e9tricos, foi espancada em diversas partes do corpo e agredida a socos no rosto. Enquanto ela era assim brutalizada, os agentes da repress\u00e3o amea\u00e7avam sequestrar seu beb\u00ea t\u00e3o logo nascesse. Quando os carcereiros pegavam as chaves para abrir a porta da cela e levar Crimeia \u00e0 sala de tortura, o beb\u00ea come\u00e7ou a solu\u00e7ar dentro da barriga. Joca nasceu na pris\u00e3o e, anos depois, j\u00e1 crescido, quando ouvia o barulho de chaves, voltava a solu\u00e7ar. A marca da ditadura nele \u00e9 um solu\u00e7o.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Torturado por agentes da repress\u00e3o ainda beb\u00ea, ele nunca se libertou do pavor. Suicidou-se aos 40 anos<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Perto da hora do parto, em vez de levarem Crimeia para a enfermaria, a colocaram numa cela cheia de baratas. Como o l\u00edquido amni\u00f3tico escorria pelas pernas, elas a atacavam em bandos. Isso durou quase um dia inteiro. S\u00f3 no fim da tarde, com outros presos gritando junto com ela, a levaram para o hospital. O obstetra disse que, como n\u00e3o estava de plant\u00e3o, s\u00f3 faria a cesariana no dia seguinte. Crimeia alertou que seu filho poderia morrer. O m\u00e9dico respondeu: \u201c\u00c9 melhor! Um comunista a menos\u201d. O pai de Joca foi assassinado pelo regime militar meses depois de o menino nascer. A primeira vez que ele viu o rosto do pai foi aos 18 anos, numa foto nos arquivos do DOPS (Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social) de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Carlos Alexandre Azevedo, o Cac\u00e1, n\u00e3o suportou a lembran\u00e7a. Talvez porque ele nunca p\u00f4de transform\u00e1-la em mem\u00f3ria. Era nele algo vivo e sem palavras, um sil\u00eancio que n\u00e3o conseguia se dizer. E um sil\u00eancio que n\u00e3o consegue se dizer \u00e9 um pavor. Ele tinha um ano e oito meses quando sua casa foi invadida por policiais do DOPS\/SP, em janeiro de 1974. Como come\u00e7ou a chorar, os policiais deram-lhe um soco na boca que de imediato sangrou. Passou mais de 15 horas em poder da repress\u00e3o, nas m\u00e3os de funcion\u00e1rios do Estado, enquanto l\u00e1 fora gente demais vivia suas vidas fingindo que nada acontecia. Seus pais ouviram relatos de que nesse per\u00edodo o menino, pouco mais que um beb\u00ea, teria levado choques el\u00e9tricos. Cac\u00e1 se matou aos 40 anos, em 2013. Seu pai diria: \u201cEle ficou apavorado. E esse pavor tomou conta dele. Entendo que a morte dele foi o limite da ang\u00fastia\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_4|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Testemunhei o assassinato do meu pai. N\u00e3o posso nem quero esquecer, porque\u00a0a \u00fanica lembran\u00e7a que tenho dele \u00e9 a da sua morte<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>\u00c2ngela Telma de Oliveira Lucena escolheu lembrar. Tinha tr\u00eas anos e meio quando executaram o pai diante dela. \u00c2ngela diz:<\/p>\n<p>\u201cEu lembro como ele estava vestido. Eu lembro exatamente como tudo se desenrolou naquele dia. Eu estava no colo da minha m\u00e3e, e quando fui crescendo, durante muitos anos ficava pensando se tinha sonhado aquilo ou se era realmente um fato que tinha ocorrido. Eu vivia um conflito entre apagar, riscar aquilo da minha vida, mas, ao mesmo tempo, sabia que, se fizesse isso, estaria riscando a hist\u00f3ria da minha fam\u00edlia. (&#8230;) As pessoas sempre colocam em d\u00favida se eu realmente consigo lembrar da morte do meu pai. (&#8230;) Eu gostaria muito de poder apagar esse momento do assassinato do meu pai da minha vida. Mas eu n\u00e3o posso, eu n\u00e3o quero e eu n\u00e3o consigo. Porque a \u00fanica mem\u00f3ria que tenho do meu pai \u00e9 exatamente o momento da sua morte\u201d.<\/p>\n<p>Houve Paulo Fonteles Filho, cujo parto da m\u00e3e foi uma tortura iniciada por policiais, completada pelo m\u00e9dico. Aos cinco meses de gesta\u00e7\u00e3o, Hecilda era espancada com socos e pontap\u00e9s, aos gritos de: \u201cFilho dessa ra\u00e7a n\u00e3o deve nascer\u201d. Era mantida acordada a noite inteira com uma luz forte no rosto, no que se chamava de \u201ctortura dos refletores\u201d. Depois, sentada numa cadeira, os fios subiam pelas pernas e eram amarrados nos seios, causando calor, frio, asfixia. Mais tarde, foi colocada numa cela cheia de baratas. Ela j\u00e1 n\u00e3o conseguia ficar nem em p\u00e9 nem sentada. Como n\u00e3o tinha colch\u00e3o, deitou-se no ch\u00e3o. As baratas come\u00e7aram a ro\u00ea-la. Ela s\u00f3 conseguiu tirar o suti\u00e3 e tapar a boca e os ouvidos. Levaram-na ent\u00e3o para o Hospital da Guarni\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito, em Bras\u00edlia. Ela lembra da irrita\u00e7\u00e3o extrema do m\u00e9dico, que induziu o parto e fez o corte sem anestesia. Hecilda n\u00e3o chorou. Ela conta no livro\u00a0<em>Luta, Substantivo Feminino: Mulheres Torturadas, desaparecidas e mortas na resist\u00eancia \u00e0 ditadura<\/em>, publicado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos: \u201cDepois disso ficavam dizendo que eu era fria, sem emo\u00e7\u00e3o, sem sentimentos. Todos queriam ver quem era a \u2018fera\u2019 que estava ali\u201d. Assim \u00e9 contado o nascimento de Paulo, assim \u00e9 como ele come\u00e7a a se contar. Nascido entre feras \u2013 nenhuma delas a sua m\u00e3e. Nascido entre humanos, os mais brutais entre as feras.<\/p>\n<section id=\"sumario_5|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">E houve as crian\u00e7as que n\u00e3o nasceram, porque suas m\u00e3es abortaram durante a tortura<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>E h\u00e1 aqueles que n\u00e3o nasceram. Como o filho de Isabel F\u00e1vero que, aos dois meses de gravidez foi colocada numa sala e torturada com choques, pau de arara, amea\u00e7a de estupro e insultos verbais. No quinto dia, abortou. Isabel foi trancada num quarto fechado, onde ficou incomunic\u00e1vel. Ou N\u00e1dia Lucia do Nascimento, gr\u00e1vida de seis meses, colocada na temida \u201ccadeira do drag\u00e3o\u201d. Depois de ter a roupa arrancada, levou choques el\u00e9tricos por todo o corpo. Abortou. Teve hemorragias e dores, nenhum atendimento m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a mem\u00f3ria das crian\u00e7as da ditadura. \u00c9 a lembran\u00e7a de parto de suas m\u00e3es. N\u00f3s, que n\u00e3o fomos torturados, n\u00e3o temos como alcan\u00e7ar como \u00e9 viver com essa marca \u2013 ou tentar fazer marca do que ainda \u00e9 horror \u2013 num momento hist\u00f3rico em que \u2013 depois de tudo \u2013 alguns brasileiros perderam a vergonha de pedir a volta da ditadura. Podemos tentar nos colocar no lugar desses homens e mulheres, hoje adultos com seus pr\u00f3prios filhos, alguns j\u00e1 av\u00f3s, nascidos ou presos nos por\u00f5es em que seus pais foram torturados e alguns deles assassinados. \u00c9 fundamental tentar vestir o outro, mas n\u00e3o alcan\u00e7amos. N\u00e3o h\u00e1 como alcan\u00e7ar. Como \u00e9 passar pela Avenida Paulista, como aconteceu algumas vezes nas \u00faltimas semanas, ouvindo os gritos de gente \u2013 gente, certamente gente \u2013 gritando por interven\u00e7\u00e3o militar e volta da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/dictadura_brasilena\/a\/\">ditadura militar no Brasil<\/a>. Como \u00e9?<\/p>\n<section id=\"sumario_6|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">De Grenaldo Mesut a ditadura subtraiu sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Entre as dezenas de relatos desse livro, h\u00e1 um que destoa. Este eu conheci de perto. Testemunhei. Ao contr\u00e1rio da maioria, Grenaldo Erdmundo da Silva Mesut n\u00e3o tinha lembran\u00e7a da repress\u00e3o. Sequer sabia o que era ditadura para al\u00e9m de um nome vago, uma hist\u00f3ria que n\u00e3o lhe dizia respeito. Alguns poderiam supor que talvez fosse melhor assim, mas isso \u00e9 desconhecer o quanto a aus\u00eancia da mem\u00f3ria \u00e9 brutal, um buraco que se pressente, mas n\u00e3o se sabe como apalpar.<\/p>\n<p>Sobre ele, a jornalista Tatiana Merlino, que o escutou e assina a edi\u00e7\u00e3o e a organiza\u00e7\u00e3o primorosa desse livro, diz: \u201cA ditadura deixou in\u00fameras marcas nos filhos das v\u00edtimas; dos desaparecidos, assassinados, presos: desde nascimento na pris\u00e3o, serem levados aos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o, clandestinidade, ex\u00edlio, banimento, etc. H\u00e1 hist\u00f3rias de horror, de crian\u00e7as que viram os pais torturados, que foram sequestradas&#8230; Mas a hist\u00f3ria do Grenaldo me toca por uma brutalidade especial a qual ele foi submetido, que \u00e9 o desaparecimento, o apagamento, promovido pela ditadura, da sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. A ele foi negado at\u00e9 o direito de vivenciar a dor da verdade de ser filho de um assassinado pelo regime. Para al\u00e9m da subtra\u00e7\u00e3o da vida, do corpo, a mentira, a subtra\u00e7\u00e3o da verdade. Quais s\u00e3o os impactos desse crime na constru\u00e7\u00e3o da identidade do Grenaldo? \u00c9 essa lacuna, que s\u00e3o se pode mensurar, que me toca profundamente\u201d.<\/p>\n<p>Meu caminho se cruzou com o de Grenaldo de uma forma que s\u00f3 acontece na vida real. Se fosse fic\u00e7\u00e3o, a hist\u00f3ria seria considerada t\u00e3o fantasiosa que soaria de m\u00e1 qualidade. Na campanha eleitoral de 2002, eu trabalhava na revista \u00c9poca e minha atribui\u00e7\u00e3o era contar o ent\u00e3o candidato Luiz In\u00e1cio Lula da Silva pela sua trajet\u00f3ria pessoal e familiar. Fiz v\u00e1rias reportagens e, no in\u00edcio do seu mandato como presidente, escrevi sobre a morte de sua primeira mulher, Maria de Lourdes, num parto em que ela e o beb\u00ea perderam a vida. Era mais uma das dores de Lula, dono de uma biografia que continha o DNA do Brasil, pa\u00eds que naquele momento ele come\u00e7ava a governar com a promessa de mudar o destino dos mais pobres e estat\u00edsticas como as da mortalidade materna.<\/p>\n<p>Durante a investiga\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica, descobri uma curiosa coincid\u00eancia. O m\u00e9dico que assinou o atestado de \u00f3bito de Maria de Lourdes era um dos legistas acusados de ter forjado laudos para a ditadura. S\u00e9rgio Belmiro Acquesta, absolvido pelo Conselho Regional de Medicina um ano antes de morrer, era ent\u00e3o gerente do departamento m\u00e9dico da Villares, metal\u00fargica em que Lula trabalhava como oper\u00e1rio, e tamb\u00e9m funcion\u00e1rio do Instituto M\u00e9dico Legal de S\u00e3o Paulo. Numa das p\u00e1ginas da reportagem havia a foto de dois casos em que ele teria atuado para apagar a responsabilidade do regime militar. Um dos retratos, em tamanho 3X4, era de um marinheiro, Grenaldo de Jesus Silva, que em 1972 sequestrou sozinho um avi\u00e3o da Varig. Depois de ter liberado todos os passageiros e a maior parte da tripula\u00e7\u00e3o, ele foi detido, imobilizado e morto no Aeroporto de Congonhas, em S\u00e3o Paulo, aos 31 anos. No dia seguinte, jornais estamparam a vers\u00e3o do regime: \u201cEncurralado, terrorista suicidou-se\u201d.<\/p>\n<p>Tr\u00eas d\u00e9cadas depois, minha reportagem de capa foi publicada e essa pequena foto, mais do que toda a hist\u00f3ria de Lula e Lourdes, moveu lembran\u00e7as insepultas. Dias depois, um homem que se apresentou como ex-sargento especialista da Aeron\u00e1utica, Jos\u00e9 Barazal Alvarez, ent\u00e3o com 63 anos, procurou a revista. Quando o sequestro acabou, ele tinha sido o encarregado de fazer o relat\u00f3rio e recolher os pertences do morto. Ao examinar o corpo de Grenaldo, contou ter encontrado no peito uma carta ensanguentada e um segundo tiro. Nessa esp\u00e9cie de carta testamento, Grenaldo contava as raz\u00f5es do sequestro para o filho e prometia buscar a fam\u00edlia t\u00e3o logo chegasse ao Uruguai. Jos\u00e9 manteve segredo do que viu por 30 anos, n\u00e3o mencionou nada nem mesmo \u00e0 pr\u00f3pria mulher. Mas era assombrado pela carta, porque sabia que em algum lugar havia um filho que nunca recebera a palavra do pai, um gesto que, por n\u00e3o ter se completado, teria de ter causado estrago. Era desse pesadelo que Jos\u00e9 queria se libertar quando conversamos pela primeira vez. Ao ver a foto do marinheiro \u201csuicidado\u201d na reportagem, ele decidiu buscar o filho sem pai \u2013 e a liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<section id=\"sumario_7|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Em um reportagem sobre a primeira mulher de Lula, o ex-militar reencontrou o rosto que o assombrava havia 30 anos, o filho a face desconhecida do pr\u00f3prio pai<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Eu procurei o filho. Mas mesmo entre as organiza\u00e7\u00f5es de mortos e desaparecidos pol\u00edticos da ditadura, a trajet\u00f3ria, as circunst\u00e2ncias e a inten\u00e7\u00e3o do marinheiro que sequestrou um avi\u00e3o tinha muitas lacunas. Grenaldo foi um dos 1.509 marinheiros expulsos em 1964 por se alinhar com o presidente Jo\u00e3o Goulart. Destes, 414 foram condenados \u00e0 pris\u00e3o. Grenaldo recebeu a pena mais alta: cinco anos e dois meses. Fugiu e iniciou uma vida na clandestinidade. Dele era tudo o que se sabia at\u00e9 ressurgir num avi\u00e3o da Varig.<\/p>\n<p>Tentei v\u00e1rios caminhos para encontrar seu filho, n\u00e3o consegui. Quando o telefone da minha mesa na reda\u00e7\u00e3o tocou, eu ainda o procurava, mas j\u00e1 tinha escassas esperan\u00e7as. No outro lado, uma mulher me disse que o filho do marinheiro queria conversar comigo. As linhas finalmente se cruzavam e, por um breve instante, esqueci de respirar. O que tinha se passado era algo t\u00e3o prosaico, um clich\u00ea. Uma mulher folheava distra\u00edda uma revista velha no consult\u00f3rio do dentista, quando se deparou com o nome bastante raro. De imediato ligou para a irm\u00e3: \u201cLeila, tem um homem aqui com o mesmo nome do seu marido. Ser\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 o pai dele?\u201d.<\/p>\n<p>O marido de Leila n\u00e3o falava do pai. Ele era sobrevivente de uma inf\u00e2ncia arruinada, na qual o legado do pai era um \u201csangue ruim\u201d. Sua m\u00e3e nunca soube das a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do marido e, quando ele sumiu e reapareceu na capa dos jornais como \u201cterrorista\u201d, ela n\u00e3o p\u00f4de entender. M\u00f4nica Mesut j\u00e1 conhecera o marido na clandestinidade, na cidade paulista de Guarulhos, sem jamais ter sido informada de que ele tivera outra vida. Enquanto esteve com ela, Grenaldo foi vigia da construtora Camargo Corr\u00eaa e teve pelo menos dois neg\u00f3cios fracassados. Em 1971, come\u00e7ou a receber cartas que o deixavam muito nervoso. Um dia saiu de casa prometendo voltar para dar a fam\u00edlia uma vida melhor e s\u00f3 voltou a aparecer num avi\u00e3o da Varig. O filho tinha quatro anos.<\/p>\n<p>At\u00e9 a vida adulta, do pai ele s\u00f3 sabia que era \u201cladr\u00e3o\u201d e \u201cterrorista\u201d. A fam\u00edlia era muito pobre, sem nenhuma forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e prec\u00e1ria educa\u00e7\u00e3o. Grenaldo, o filho, cresceu num cen\u00e1rio em que tudo faltava, entre uma m\u00e3e alco\u00f3latra, um tio violento e uma av\u00f3 devastada. Christina, a av\u00f3, e M\u00f4nica, a m\u00e3e, j\u00e1 eram elas mesmas sobreviventes de uma outra guerra. Ao fugir da Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial, Christina encontrou um beb\u00ea nos bra\u00e7os de uma mulher morta. Sem leite ou comida, rasgou o pulso e alimentou-o com sangue. Era M\u00f4nica, a m\u00e3e de Grenaldo, que em 1972 n\u00e3o suportou ver o marido e pai do seu filho como terrorista e suicida nas capas dos jornais. Acreditou na ditadura e na imprensa. Em uma fam\u00edlia na qual o passado j\u00e1 era trevas, mais um apagamento fazia todo o sentido.<\/p>\n<p>Quando Grenaldo ainda era crian\u00e7a, M\u00f4nica literalizou a destrui\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria ao sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) que a reduziu a quase nada. Morreria s\u00f3 anos depois. Enquanto viveu, Grenaldo e a m\u00e3e eram espancados primeiro pelo padrasto, depois pelo tio. O nome do pai s\u00f3 emergia pelo \u00f3dio, na boca de todos, por qualquer motivo e antes de cada surra: \u201cSeu filho de ladr\u00e3o!\u201d. E ent\u00e3o, quando ele tinha 35 anos, j\u00e1 professor de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica e pai de fam\u00edlia, apareceu aquele nome numa reportagem, com uma hist\u00f3ria diferente. Na mesma p\u00e1gina de revista, Jos\u00e9 reencontrou o rosto que o assombrava, Grenaldo deparou-se com a face desconhecida do pr\u00f3prio pai.<\/p>\n<p>O filho do marinheiro marcou um encontro comigo numa pizzaria de S\u00e3o Paulo. Eu carregava v\u00e1rios livros sobre a ditadura para dar a ele e um enorme temor. Como contar a um filho quem era seu pai? Como dar a um filho not\u00edcias do pai? Como se faz algo assim t\u00e3o enorme, com que palavras? Me senti t\u00e3o insuficiente. Cheguei mais cedo, como sempre fa\u00e7o, e esperei. Vi aquele homem enorme chegar, com o rosto transtornado por algo que era medo e era expectativa e era, me parecia, um pedido de compaix\u00e3o. Era como se ele suplicasse com aqueles olhos arregalados, quase infantis, que eu tivesse cuidado, que eu possu\u00eda ali o poder de acabar com o delicado equil\u00edbrio que ele havia alcan\u00e7ado com um esfor\u00e7o imposs\u00edvel de mensurar. Percebi que ele n\u00e3o tinha a menor ideia do que ia ouvir. Naquele momento, Grenaldo come\u00e7ou uma travessia em busca de um pai e de um pa\u00eds. Os dois, ao mesmo tempo. E eu era a ponte imperfeita e aqu\u00e9m diante dele. Quando voltei desse encontro, lembro de ter deitado na cama de roupa e ficado ali de olhos estalados at\u00e9 o dia amanhecer, porque era t\u00e3o grande aquilo, grande demais.<\/p>\n<section id=\"sumario_8|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Grenaldo iniciou, aos 35 anos, uma travessia em busca do pai \u2013 e do pa\u00eds<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Dias depois, marquei um encontro entre Grenaldo, o filho, e Jos\u00e9, o ex-militar. A cena era impressionante. Grenaldo caiu de joelhos diante de Jos\u00e9. E Jos\u00e9 libertou-se de um pesadelo de 30 anos. Todos naquela sala choravam. Naquele momento, a vida n\u00e3o cabia em n\u00f3s.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 encerrava ali tr\u00eas d\u00e9cadas de um pesadelo recorrente, o de um homem assassinado, amontoado como um saco de lixo, num Opala preto da repress\u00e3o. E Grenaldo iniciava uma s\u00e9rie de noites agitadas, em que sonhava ser um detetive em busca de pistas.<\/p>\n<p>Com a ajuda de um advogado, Grenaldo e eu passamos semanas, meses, buscando a carta que era sua. Numa noite, lembro de outra cena: as fotos do inqu\u00e9rito militar espalhadas pelo ch\u00e3o da sala da casa de Grenaldo. As imagens do pai morto, sangue, e n\u00f3s dois tentando desvendar aquele quebra-cabe\u00e7a macabro. Eu pensava: como ele vai suportar esse destino transtornado de um dia para o outro?<\/p>\n<p>Grenaldo tinha \u2013 tem \u2013 algo que poderia ser definido como uma pureza resistente, algo que ele manteve intacto mesmo no inferno que foi sua inf\u00e2ncia, algo que eu j\u00e1 vi em outros sobreviventes, e algo que naquele momento o salvava de novo. Consegui localizar a \u00faltima pessoa a encontrar seu pai com vida no avi\u00e3o e provar que ele foi assassinado. Testemunhas lembravam do estranho caso do homem \u201csuicidado com um tiro na nuca\u201d. A granada que supostamente o marinheiro portava durante o sequestro era, segundo Jos\u00e9, um carretel de pescaria enrolado com fita crepe.<\/p>\n<p>Grenaldo, o pai, foi reconhecido como um dos executados pela ditadura, e o filho p\u00f4de receber uma indeniza\u00e7\u00e3o do Estado. Meses depois, ele reencontrou a av\u00f3 paterna no Maranh\u00e3o e resgatou os la\u00e7os perdidos com uma fam\u00edlia que n\u00e3o sabia que tinha. Ele soube ent\u00e3o que, depois de deixar a casa de Guarulhos e antes de sequestrar o avi\u00e3o, o marinheiro perseguido pela repress\u00e3o tinha visitado a m\u00e3e, para dar a not\u00edcia de que ela tinha um neto e lhe deixar uma foto do menino. Atr\u00e1s do retrato estava escrito: \u201cS\u00e3o tr\u00eas anos que completo, sou um menin\u00e3o. Um dia vou crescer, visitar o Maranh\u00e3o. Naldinho. 9\/6\/71\u201d. Passaram-se mais de tr\u00eas d\u00e9cadas at\u00e9 ele desembarcar no aeroporto de S\u00e3o Lu\u00eds, onde a av\u00f3 o esperava. Viveram uma rela\u00e7\u00e3o de afeto pungente at\u00e9 a morte dela.<\/p>\n<p>Nunca conseguimos encontrar a carta, e o gesto do pai jamais ser\u00e1 completado. \u00c9 enorme a trag\u00e9dia de uma carta que n\u00e3o encontra seu destinat\u00e1rio. Essa letra perdida ser\u00e1 sempre um buraco que Grenaldo ter\u00e1 de sustentar, mas um buraco que ele vai preenchendo com a constru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria. Hoje ele tem um pai \u2013 e tem um pa\u00eds. E \u00e9 com os peda\u00e7os faltantes de ambos que precisa lidar. Grenaldo se prepara agora para contar para sua filha mais velha a hist\u00f3ria do av\u00f4. E \u00e0s vezes, quando um dos dois filhos diz que n\u00e3o consegue fazer alguma coisa, ele diz: \u201cN\u00e3o fale que voc\u00ea n\u00e3o consegue, essa palavra n\u00e3o pode existir. Voc\u00ea \u00e9 neto do Grenaldo!\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quem s\u00e3o os brasileiros que gritam nas ruas pedindo a volta da ditadura. Desconhe\u00e7o as pessoas que clamam por interven\u00e7\u00e3o militar como se isso n\u00e3o fosse uma vergonha, uma indignidade, e sim a prerrogativa de \u201ccidad\u00e3os de bem\u201d. Acho que nunca tive tanto medo desse deformado discurso \u201cdo bem\u201d quanto hoje, essa \u00e9poca em que todo o pudor foi perdido e a ignor\u00e2ncia da Hist\u00f3ria \u00e9 ostentada como um trof\u00e9u. Sei que s\u00e3o pessoas, porque s\u00f3 humanos s\u00e3o capazes de algo t\u00e3o brutal.<\/p>\n<p>Dizem que eram \u201capenas\u201d 400 no primeiro s\u00e1bado de dezembro, em S\u00e3o Paulo. Alegam que 400 pedindo interven\u00e7\u00e3o militar \u00e9 pouco. Eu digo que um \u00e9 muito. Respeito o direito que t\u00eam de se expressar, porque ao faz\u00ea-lo refor\u00e7am a express\u00e3o m\u00e1xima da democracia, na grandeza de acolher a voz at\u00e9 mesmo de quem exige o seu fim. Mas me reservo o direito de, por um momento, escolher a ingenuidade. Prefiro acreditar que voc\u00eas n\u00e3o sabem do que falam nem o que pedem. N\u00e3o podem saber. Se soubessem, n\u00e3o ousariam.<\/p>\n<p>https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/12\/08\/opinion\/1418042130_286849.html<\/p>\n<\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ELIANE BRUM &#8211;\u00a0Eles eram 400 nas ruas de S\u00e3o Paulo, no primeiro s\u00e1bado de dezembro, pedindo interven\u00e7\u00e3o militar. Quatrocentos n\u00e3o \u00e9 pouco. Um \u00e9 muito. Quando escuto brasileiros fazendo\u00a0manifesta\u00e7\u00e3o pela volta da ditadura, penso que eles n\u00e3o podem saber o que est\u00e3o dizendo. Quem sabe, n\u00e3o diz. 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