{"id":7728,"date":"2018-04-05T16:15:05","date_gmt":"2018-04-05T19:15:05","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=7728"},"modified":"2018-04-05T16:10:20","modified_gmt":"2018-04-05T19:10:20","slug":"o-que-significa-reinventar-a-politica-em-tempos-pos-neoliberais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/04\/05\/o-que-significa-reinventar-a-politica-em-tempos-pos-neoliberais\/","title":{"rendered":"O que significa reinventar a pol\u00edtica em tempos p\u00f3s-neoliberais?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Patricia Fachin<\/strong> &#8211;\u00a0&#8220;Hoje, nenhum dos candidatos representa uma proposta estruturada para o que vai ser o Brasil nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, ou melhor, perante as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas&#8221;, afirma Diego Viana na entrevista.<\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\">Ao contr\u00e1rio do que se viu na\u00a0elei\u00e7\u00e3o de 1989, onde \u201cquem votasse em\u00a0Brizola,\u00a0Lula,\u00a0<b>Covas<\/b>,\u00a0Maluf\u00a0ou\u00a0Ulysses\u00a0sabia bem o que esperar desses candidatos\u201d, o cen\u00e1rio eleitoral deste ano n\u00e3o desperta a mesma confian\u00e7a, porque \u201choje, nenhum dos candidatos representa uma\u00a0<b>proposta estruturada<\/b>\u00a0para o que vai ser o\u00a0<b>Brasil<\/b>\u00a0nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, ou melhor, perante as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas\u201d, afirma\u00a0Diego Viana\u00a0na entrevista a seguir, concedida por e-mail \u00e0\u00a0<b>IHU On-Line<\/b>.<\/p>\n<p>Sobre as poss\u00edveis candidaturas \u00e0 presid\u00eancia, ele \u00e9 assertivo: \u201cBolsonaro\u00e9 uma aventura irrespons\u00e1vel,\u00a0<b>Lula<\/b>\u00a0\u00e9 uma tentativa de juntar os cacos,\u00a0Alckmin\u00a0foi um governador sem ideias e seria um presidente sem ideias,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/572771-psol-articula-boulos-para-presidencia\">Boulos<\/a>\u00a0tem o m\u00e9rito da coordena\u00e7\u00e3o dos sem-teto, uma lideran\u00e7a de esquerda que emerge desses novos movimentos; mas n\u00e3o parece ir muito al\u00e9m, pelo que demonstram suas declara\u00e7\u00f5es\u201d. E adverte: \u201c\u00c9 claro que a\u00a0<b>elei\u00e7\u00e3o<\/b>\u00a0\u00e9 um momento crucial e provoca modifica\u00e7\u00f5es importantes, mas o que tenho visto, e me deixa um pouco preocupado, \u00e9 que muita gente concentra todas as suas aten\u00e7\u00f5es no problema do que vai acontecer em outubro \u2014 principalmente pensando em evitar que aconte\u00e7a o pior. Mas por mais que a elei\u00e7\u00e3o possa precipitar eventos, acelerar tend\u00eancias ou fre\u00e1-las, para tentar entender as pr\u00f3prias tend\u00eancias \u00e9 preciso pensar al\u00e9m das elei\u00e7\u00f5es. Afinal, se temos um crescimento de\u00a0<b>candidaturas extremistas<\/b>, se temos um\u00a0<b>legislativo<\/b>\u00a0cada vez mais obscurantista, nada disso se explica por uma \u00fanica elei\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><b>Viana<\/b>\u00a0pontua ainda que a discuss\u00e3o sobre a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/562939-a-necessidade-de-resgatar-o-lado-solidario-e-amoroso-para-reinventar-a-politica\">reinven\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica<\/a>precisa antes de tudo compreender o que essa proposta significa, porque \u201co que temos visto ultimamente com o nome de \u2018<b>reinven\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica<\/b>\u2019 \u00e9 a ideia de rejuvenesc\u00ea-la, moraliz\u00e1-la e assim por diante\u201d. Se \u00e9 para reinvent\u00e1-la, sugere, \u201c\u00e9 para reinventar a fundo: o que \u00e9 a pol\u00edtica em tempos p\u00f3s-neoliberais, depois da derrocada das sociedades salariais e dos movimentos de massa do s\u00e9culo XX, depois do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/37033-o-esvaziamento-dos-partidos-politicos-entrevista-especial-com-pedro-ribeiro-de-oliveira-\">esvaziamento dos partidos tradicionais<\/a>? O que \u00e9 a\u00a0<b>pol\u00edtica<\/b>\u00a0quando n\u00e3o basta mais pensar simplesmente em comunidades humanas delimitadas por fronteiras geogr\u00e1ficas, mas precisamos incluir a\u00ed diferentes culturas, diferentes formas de vida e o sistema em geral de sustenta\u00e7\u00e3o da vida no planeta?\u201d, questiona.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"larguraBox\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2018\/03\/22_03_diegoviana_foto_arquivopessoal.JPG?resize=300%2C400\" width=\"300\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p><b>IHU On-Line &#8211; Como voc\u00ea entende o atual momento pol\u00edtico e social que o pa\u00eds vive? Quais s\u00e3o os principais fatores que contribu\u00edram para que se chegasse a esse cen\u00e1rio?<\/b><\/p>\n<p><b>Diego Viana &#8211;<\/b>\u00a0Para n\u00e3o dar uma resposta longa demais, eu gostaria de chamar a aten\u00e7\u00e3o para um ponto de converg\u00eancia que o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/eventos\/159-noticias\/entrevistas\/575456-o-estado-brasileiro-esta-sendo-atacado-em-seus-principios-entrevista-especial-com-maria-isabel-limongi\">momento atual<\/a>manifesta na\u00a0<b>trajet\u00f3ria do pa\u00eds<\/b>, tanto internamente quanto em sua inser\u00e7\u00e3o internacional. Chegamos ao que parece ser o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/185-noticias\/noticias-2016\/553973-o-final-de-um-ciclo-ou-o-esgotamento-do-pos-neoliberalismo-na-america-latina-artigo-de-francois-houtart\">fim de um ciclo pol\u00edtico<\/a>\u00a0no mesmo momento em que o mundo tamb\u00e9m parece estar entrando em transi\u00e7\u00e3o. Fim de ciclo pol\u00edtico porque as \u00faltimas d\u00e9cadas testemunharam a consolida\u00e7\u00e3o da disputa eleitoral entre\u00a0<b>PT<\/b>\u00a0e\u00a0<b>PSDB<\/b>, significando um descolamento entre a disputa eleitoral e o efetivo controle pol\u00edtico do pa\u00eds; e tamb\u00e9m porque a confian\u00e7a que podemos ter nas institui\u00e7\u00f5es da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/552732-fim-da-nova-republica\">Nova Rep\u00fablica<\/a>\u00a0depois do processo de impeachment est\u00e1 abalada, creio que definitivamente. E transi\u00e7\u00e3o porque os\u00a0<b>regimes de acumula\u00e7\u00e3o<\/b>\u00a0que conhecemos depois da\u00a0<b>Segunda Guerra<\/b>, o\u00a0<b>fordismo\/keynesianismo<\/b>\u00a0da era de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/555480-o-mundo-precisa-de-um-novo-acordo-de-bretton-woods\">Bretton Woods<\/a>\u00a0e a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/492\">financeiriza\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0a partir dos anos 80, parecem ter chegado a seu ponto de esgotamento.<\/p>\n<p>Momento de pessimismo<\/p>\n<p>Hoje, o que temos mais imediatamente dispon\u00edvel \u00e9 esse bando de oligarcas e parasitas, enquanto a sociedade civil se sente soterrada, tra\u00edda, desiludida, cansada<\/p>\n<p>Para dar um pouco mais de espessura ao que estou chamando de &#8220;momento&#8221;, podemos dizer que existe um princ\u00edpio din\u00e2mico que rege os\u00a0<b>eventos sociais e pol\u00edticos no Brasil<\/b>\u00a0desde algo como 2012 (ano em que se aprovou o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/169-noticias\/noticias-2015\/540525-especialista-diz-que-novo-codigo-florestal-retrocedeu-na-protecao-de-nascentes\">novo c\u00f3digo florestal<\/a>). Essa din\u00e2mica ficou mais evidente em\u00a0<a href=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/572064-o-levante-de-junho-de-2013-atacou-o-hard-power-brasileiro-entrevista-especial-com-giuseppe-cocco&amp;sa=U&amp;ved=0ahUKEwiD5KfU_f3ZAhXSzlkKHVj1DRwQFggFMAA&amp;client=internal-uds-cse&amp;cx=001663938647112038785:048jb5ntigg&amp;usg=AOvVaw1Q3xC-vj4rLtYzCflnTLJA\">2013<\/a>, com os protestos iniciados em\u00a0<b>junho<\/b>, e s\u00f3 se amplificou desde ent\u00e3o, com a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/171-noticias\/noticias-2013\/526243-conjuntura-da-semana-copa-do-mundo-2014-ameacada-uma-copa-ilegitima-elitista-privatista-e-anti-popular\">Copa<\/a>, a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/534689-eleicoes-2014-a-diferenca-entre-os-candidatos-esta-em-nuances-entrevista-especial-com-antonio-carlos-mazzeo\">elei\u00e7\u00e3o de 2014<\/a>, o processo que levou \u00e0\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/553801-entrevista-especial-com-ruda-ricci\">derrubada de Dilma<\/a>\u00a0e a ofensiva, em estilo prussiano, de todo tipo de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/574029-brasil-reserva-regional-de-conservadorismo-artigo-de-raul-zibechi\">conservadorismo<\/a>\u00a0no\u00a0<b>Brasil<\/b>\u00a0desde ent\u00e3o, incluindo a\u00a0<b>restaura\u00e7\u00e3o olig\u00e1rquica<\/b>, a campanha contra artistas e universidades, o militarismo disseminado.<\/p>\n<p>Note o contraste entre o esp\u00edrito das pessoas nesse per\u00edodo e no per\u00edodo imediatamente anterior: do otimismo ao pessimismo, da inclus\u00e3o social \u00e0 guerra social, da possivelmente ilus\u00f3ria ascens\u00e3o geopol\u00edtica do pa\u00eds \u00e0 paralisia diplom\u00e1tica conformada, inapetente, incompetente. N\u00e3o estou falando dos eventos objetivos, mas do esp\u00edrito generalizado no pa\u00eds. \u00c9 o mesmo tipo de contraste, mal comparando, entre a segunda metade da d\u00e9cada de 70 e a primeira metade da d\u00e9cada de 80. A diferen\u00e7a \u00e9 que, quando o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/574103-o-lado-obscuro-do-milagre-economico-da-ditadura-o-boom-da-desigualdade\">milagre econ\u00f4mico<\/a>\u00a0se revelou um engodo, que resultou em desastre completo, havia v\u00e1rias linhas de ideias novas para o pa\u00eds, que se consolidaram de um jeito ou de outro depois da\u00a0<b>redemocratiza\u00e7\u00e3o<\/b>. Havia tamb\u00e9m o otimismo da sociedade civil que acreditava poder construir, uma vez restaurada a democracia, um pa\u00eds melhor em v\u00e1rios sentidos. Hoje, o que temos mais imediatamente dispon\u00edvel \u00e9 esse bando de oligarcas e parasitas, enquanto a sociedade civil se sente soterrada, tra\u00edda, desiludida, cansada.<\/p>\n<p>Talvez seja assim porque as condi\u00e7\u00f5es objetivas levam a isso. Da\u00ed entram din\u00e2micas de mais longo prazo que ajudam a explicar por que o momento \u00e9 de tanto pessimismo. N\u00e3o podemos, por exemplo, subestimar o peso da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/576370-a-cegueira-estrategica-na-politica-industrial-brasileira-diante-da-revolucao-4-0-entrevista-especial-com-marco-antonio-rocha\">desindustrializa\u00e7\u00e3o<\/a>. Mesmo que a pr\u00f3pria ideia de ind\u00fastria hoje tenha que passar por uma profunda transforma\u00e7\u00e3o perante o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/186-noticias\/noticias-2017\/564316-antropoceno-a-forca-destruidora-de-uma-especie\">Antropoceno<\/a>, n\u00f3s, como pa\u00eds, tendo perdido a ind\u00fastria como um todo, n\u00e3o vamos nem sequer estar em posi\u00e7\u00e3o de passar por essa transforma\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, somos dominados por\u00a0<b>negacionistas<\/b>\u00a0que fazem terra arrasada das florestas, entopem os\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/574750-tragedia-de-mariana-desastre-com-barragem-acordou-monstro-de-poluentes-no-rio-doce-diz-perito\">rios com min\u00e9rio<\/a>\u00a0e nos contaminam com todo tipo de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/571288-agrotoxicos-sao-responsaveis-pelo-desaparecimento-das-abelhas-entrevista-especial-com-lionel-segui-goncalves\">agrot\u00f3xico<\/a>. Acontece que boa parte do otimismo do per\u00edodo anterior, sob\u00a0<b>Lula<\/b>, veio das tentativas, bem ou mal dirigidas, de mitigar o efeito da perda de dinamismo que vem com a\u00a0<b>perda da ind\u00fastria<\/b>, e em menor grau de reverter essa perda, como no caso da volta da\u00a0<b>ind\u00fastria naval<\/b>, ou a expectativa de que o\u00a0<b>petr\u00f3leo<\/b>fomentasse uma expans\u00e3o do investimento, ou ainda iniciativas francamente criminosas, como a usina de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/563723-belo-monte-promove-diaspora-ao-nao-reconhecer-os-povos-tradicionais-entrevista-especial-com-sonia-magalhaes\">Belo Monte<\/a>. Eram paliativos, no fim das contas.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou dizendo que fosse tudo ilus\u00f3rio: o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/170-noticias\/noticias-2014\/530591-marco-civil-da-internet-entre-avanco-e-retranca\">marco civil da internet<\/a>\u00a0n\u00e3o foi nada ilus\u00f3rio, a\u00a0<b>cria\u00e7\u00e3o de universidades<\/b>\u00a0tampouco, as\u00a0<b>pol\u00edticas sociais<\/b>\u00a0menos ainda. Mas talvez nada disso fosse adiante sem que tiv\u00e9ssemos a impress\u00e3o de que, no c\u00f4mputo geral, o pa\u00eds estava indo na dire\u00e7\u00e3o certa. Mas basta lembrar que em 2011 o d\u00f3lar bateu em R$ 1,55 para entender que nesse tempo todo a\u00a0<b>economia<\/b>\u00a0continuava seu paulatino processo de retorno \u00e0\u00a0<b>exporta\u00e7\u00e3o de produtos prim\u00e1rios<\/b>, processo que n\u00e3o enxerg\u00e1vamos t\u00e3o bem por causa daqueles paliativos que mencionei.<\/p>\n<p>Agora que essa ilus\u00e3o se perdeu, temos os vampiros salivando para tomar de assalto e implodir o que resta de sociedade mais sofisticada, aberta e voltada para o\u00a0<b>futuro no Brasil<\/b>. E nossas defesas contra eles est\u00e3o enfraquecidas e mal abastecidas. Eles ignoraram solenemente nossa linha\u00a0<i>Maginot<\/i>. Resta ver at\u00e9 onde v\u00e3o conseguir chegar sem que a\u00a0<b>estrutura social<\/b>\u00a0entre em colapso ou sem que algum tipo de resposta seja levantado com for\u00e7a suficiente para resistir e, quem sabe, contra-atacar. Tenho medo de que o obscurantismo que a\u00a0<b>restaura\u00e7\u00e3o olig\u00e1rquica<\/b>\u00a0fomentou, e que vem instrumentalizando, acabe se voltando contra todos n\u00f3s. Quem \u00e9 mesmo o candidato a vice-presidente na\u00a0<b>chapa de<\/b>\u00a0<b>Bolsonaro<\/b>?<\/p>\n<p><b>IHU On-Line &#8211; Por que n\u00e3o \u00e9 aconselh\u00e1vel pensar o futuro do Brasil apenas considerando o cen\u00e1rio que poder\u00e1 se desenhar a partir das elei\u00e7\u00f5es deste ano?<\/b><\/p>\n<p><b>Diego Viana &#8211;<\/b>\u00a0\u00c9 claro que a\u00a0<b>elei\u00e7\u00e3o<\/b>\u00a0\u00e9 um momento crucial e provoca modifica\u00e7\u00f5es importantes, mas o que tenho visto, e me deixa um pouco preocupado, \u00e9 que muita gente concentra todas as suas aten\u00e7\u00f5es no problema do que vai acontecer em outubro \u2014 principalmente pensando em evitar que aconte\u00e7a o pior. Mas por mais que a elei\u00e7\u00e3o possa precipitar eventos, acelerar tend\u00eancias ou fre\u00e1-las, para tentar entender as pr\u00f3prias tend\u00eancias \u00e9 preciso pensar al\u00e9m das elei\u00e7\u00f5es. Afinal, se temos um\u00a0<b><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/573742-por-que-60-dos-eleitores-de-bolsonaro-sao-jovens\">crescimento de candidaturas extremistas<\/a><\/b>, se temos um\u00a0<b>legislativo<\/b>\u00a0cada vez mais obscurantista, nada disso se explica por uma \u00fanica elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o os fatores fundamentais que provavelmente podem ter alguma influ\u00eancia no futuro do Brasil a longo prazo?<\/b><\/p>\n<p><b>Diego Viana &#8211;<\/b>\u00a0Considerando a\u00a0<b>degrada\u00e7\u00e3o estrutural da economia<\/b>\u00a0(ou seja, para al\u00e9m de quest\u00f5es de curto prazo de recess\u00e3o ou desemprego), parece haver uma tend\u00eancia de intensifica\u00e7\u00e3o de certos\u00a0<b>conflitos sociais<\/b>, sobretudo por causa da revers\u00e3o de alguns vetores que existiram nas \u00faltimas d\u00e9cadas, como a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/171-noticias\/noticias-2013\/520356-cidadania-nao-e-consumo\">inclus\u00e3o pelo consumo<\/a>, a melhora de indicadores socioecon\u00f4micos, a transi\u00e7\u00e3o de vastos contingentes de ocupa\u00e7\u00f5es degradantes para outras mais reconhecidas. Tenho a impress\u00e3o de que esses conflitos v\u00e3o se dar em bases diferentes do que foram em d\u00e9cadas passadas, quando o pa\u00eds era mais rural, miser\u00e1vel, com regi\u00f5es isoladas e grande migra\u00e7\u00e3o interna, mas se industrializava e crescia aceleradamente. Talvez sejam conflitos mais agressivos, mais declarados, mas \u00e9 dif\u00edcil prever.<\/p>\n<p>Em entrevista recente ao\u00a0<b>Le Monde Diplomatique<\/b>,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/566274-pobres-estao-mais-conservadores-e-com-mentalidade-elitista-afirma-mano-brown\">Mano Brown<\/a>comenta que a\u00a0<b>juventude das periferias<\/b>, hoje, tem mais consci\u00eancia e orgulho de que possuem um lugar que \u00e9 deles, e t\u00eam direito \u00e0quele lugar do mesmo modo que os bairros centrais, ditos \u201cnobres\u201d. Mas o\u00a0<b>Estado<\/b>\u00a0e quem o controla (\u00e9 preciso acrescentar isso porque muita gente hoje parte do pressuposto de que o Estado \u00e9 algo que cai do c\u00e9u) n\u00e3o est\u00e3o preparados ou interessados em atender a essas demandas. Veja a diferen\u00e7a: h\u00e1 algumas d\u00e9cadas, esses mesmos bairros eram lugares onde as pessoas se instalavam porque n\u00e3o tinham op\u00e7\u00e3o e estavam dispostas a aceitar qualquer coisa. Com o poder p\u00fablico an\u00eamico que se anuncia, somado \u00e0 falta de empregos que correspondam \u00e0 forma\u00e7\u00e3o um pouco melhor que a popula\u00e7\u00e3o recebeu na \u00faltima d\u00e9cada, a insatisfa\u00e7\u00e3o tende a aumentar, mas o\u00a0<b>Estado olig\u00e1rquico<\/b>\u00a0tende a cada vez mais s\u00f3 saber responder a ela com\u00a0<b>repress\u00e3o<\/b>, inclusive terceirizada: as\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/541379-por-que-chamar-a-policia-de-milicia\">mil\u00edcias do Rio<\/a>talvez sejam s\u00f3 um aperitivo.<\/p>\n<p>Reestrutura\u00e7\u00e3o de for\u00e7as da esquerda<\/p>\n<p>Do ponto de vista\u00a0<b>pol\u00edtico<\/b>, nos pr\u00f3ximos anos parece que a vit\u00f3ria vai estar nas m\u00e3os das respostas mais f\u00e1ceis, como os candidatos do bangue-bangue, os\u00a0<b>pol\u00edticos ligados \u00e0s igrejas<\/b>\u00a0mais eficientes em penetrar nos bairros e comunidades mais desamparados, e em menor escala nessa curiosa figura do\u00a0<b>populista-capitalista<\/b>\u00a0que busca convencer todo trabalhador prec\u00e1rio de que na verdade \u00e9 um empreendedor prestes a ficar rico \u2014 se bem que a primeira tentativa nessa dire\u00e7\u00e3o resultou em fracasso completo, ao conquistar a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/560821-o-voto-da-periferia-por-que-joao-doria\">prefeitura de S\u00e3o Paulo<\/a>.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, parece que a reconstru\u00e7\u00e3o de for\u00e7as de esquerda \u00e9 um processo bem mais paulatino, e vai resultar em algo bem diferente do que foi no \u00faltimo s\u00e9culo. Os movimentos que t\u00eam surgido parecem mais enraizados nos bairros, parecem emergir mais diretamente da experi\u00eancia de vida das pessoas, e menos de grupos estruturados que v\u00e3o busc\u00e1-los. A refer\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 mais tanto na rela\u00e7\u00e3o de trabalho, mais especificamente de trabalho assalariado, mas na vida como um todo \u2014 at\u00e9 porque a tend\u00eancia \u00e9 que a\u00a0<b>subsun\u00e7\u00e3o ao capital<\/b>\u00a0se expanda para a vida como um todo. Tudo isso exige novas ideias, que aos poucos v\u00e3o sendo criadas, testadas, desenvolvidas. Leva tempo; s\u00f3 espero que n\u00e3o sejamos atropelados no intervalo.<\/p>\n<p>E \u00e9 claro que o setor externo vai ter um papel important\u00edssimo tamb\u00e9m: parte desse p\u00edfio crescimento do ano passado veio da\u00a0<b>recupera\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es<\/b>, particularmente do pre\u00e7o de algumas commodities e de autom\u00f3veis para os vizinhos. Se isto tamb\u00e9m se perder, os\u00a0<b>conflitos<\/b>podem se acirrar ainda mais. Entre os motivos poss\u00edveis para que isso se perca aparecem, claro, o sr.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/576809-a-guerra-do-aco-de-trump-abala-uma-industria-com-200-000-empregos-no-brasil\">Donald Trump<\/a>, mas tamb\u00e9m uma poss\u00edvel\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/570712-o-que-pode-causar-uma-nova-crise-financeira\">nova recess\u00e3o global<\/a>, que vem sendo prevista timidamente por alguns economistas e analistas financeiros.<\/p>\n<p>E \u00e9 sempre bom mencionar que todas essas estimativas podem ir por \u00e1gua abaixo de uma hora para a outra, bastando que um evento imprevisto mude completamente o quadro geopol\u00edtico; acrescentei esse detalhe pelo simples fato de que, como a\u00a0<b>ordem financeira<\/b>\u00a0das \u00faltimas d\u00e9cadas est\u00e1 persistindo em modo morto-vivo, qualquer pequeno desequil\u00edbrio pode ser desastroso. Desde uma\u00a0<b>transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na Europa<\/b>\u00a0at\u00e9 um conflito deflagrado contra a\u00a0<b>R\u00fassia<\/b>, ou mesmo uma mudan\u00e7a abrupta na estrat\u00e9gia da\u00a0<b>China<\/b>.<\/p>\n<p><b>IHU On-Line &#8211; O que a indefini\u00e7\u00e3o do quadro eleitoral deste ano demonstra sobre a pol\u00edtica brasileira?<\/b><\/p>\n<p><b>Diego Viana &#8211;<\/b>\u00a0A primeira coisa \u00e9 o que j\u00e1 vem sendo dito por muita gente: aquela estrutura previs\u00edvel das candidaturas que se estabeleceu ao longo da d\u00e9cada de 90, com disputas sobretudo entre\u00a0<b>PT<\/b>\u00a0e\u00a0<b>PSDB<\/b>, ruiu, de modo que est\u00e1 instalado um campo de indefini\u00e7\u00e3o, para que se crie uma nova estrutura, como foi em\u00a0<b>1989<\/b>. Talvez o que vou dizer agora peque por ser um olhar retrospectivo de algu\u00e9m que era muito pequeno na \u00e9poca, mas me parece que em 1989, ao menos, havia uma clareza bem maior sobre o que representavam os muitos candidatos em termos de propostas de pa\u00eds, isto \u00e9, de respostas expl\u00edcitas para as perguntas do presente. Quem votasse em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/46122-barricadas-radiofonicas-brizola-e-os-50-anos-da-campanha-da-legalidade\">Brizola<\/a>,\u00a0<b>Lula<\/b>,\u00a0<b>Covas<\/b>,\u00a0<b>Maluf<\/b>\u00a0ou\u00a0<b>Ulysses<\/b>\u00a0sabia bem o que esperar desses candidatos, e para que dire\u00e7\u00e3o sua eventual vit\u00f3ria levaria \u2014 exceto, talvez,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/576699-pesquisa-aponta-temer-collor-e-fhc-como-politicos-com-maior-desaprovacao-popular\">Collor<\/a>; e talvez seja por isso que ele teve 30% dos votos no primeiro turno, bem \u00e0 frente de\u00a0<b>Lula<\/b>\u00a0(17%) e\u00a0<b>Brizola<\/b>(16%).<\/p>\n<p>Como eu disse, talvez eu esteja sendo nost\u00e1lgico e ing\u00eanuo; mas me parece evidente que, hoje, nenhum dos\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/572700-tudo-que-se-refere-a-eleicao-de-2018-e-sintoma-da-gravidade-da-crise-politic-entrevista-especial-com-moyses-pinto-neto-rodrigo-nunes-e-caio-almendra\">candidatos<\/a>\u00a0representa uma proposta estruturada para o que vai ser o\u00a0<b>Brasil<\/b>\u00a0nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, ou melhor, perante as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.\u00a0<b>Bolsonaro<\/b>\u00a0\u00e9 uma aventura irrespons\u00e1vel,\u00a0<b>Lula<\/b>\u00a0\u00e9 uma tentativa de juntar os cacos,\u00a0<b>Alckmin<\/b>\u00a0foi um governador sem ideias e seria um presidente sem ideias,\u00a0<b>Boulos<\/b>\u00a0tem o m\u00e9rito da coordena\u00e7\u00e3o dos sem-teto, uma lideran\u00e7a de esquerda que emerge desses novos movimentos; mas n\u00e3o parece ir muito al\u00e9m, pelo que demonstram suas declara\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas at\u00e9 isso \u00e9 compreens\u00edvel: como apresentar ideias novas e concretas num cen\u00e1rio de tanta incerteza? Seria necess\u00e1ria uma daquelas lideran\u00e7as pol\u00edticas realmente not\u00e1veis, mas essas est\u00e3o em falta. Ali\u00e1s, nisso n\u00e3o estamos sozinhos: na\u00a0<b>pol\u00edtica global<\/b>, faltam grandes vozes, que abram novas perspectivas; talvez seja porque os ouvidos andam atrofiados demais e n\u00e3o estejamos nem capacitados a imaginar que pode haver novas perspectivas. (\u00c9 claro que h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es, como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/568578-jeremy-corbyn-revela-outra-esquerda-e-possivel\">Corbyn<\/a>.)<\/p>\n<p><b>IHU On-Line &#8211; O que voc\u00ea compreende pelo uso do termo \u201crestaura\u00e7\u00e3o olig\u00e1rquica\u201d? Quais s\u00e3o os indicativos de que pode haver restaura\u00e7\u00e3o olig\u00e1rquica no pa\u00eds?<\/b><\/p>\n<p>Nunca houve remo\u00e7\u00e3o das oligarquias. Em maior ou menor grau, as oligarquias sempre participaram do poder e muito de perto<\/p>\n<p><b>Diego Viana &#8211;<\/b>\u00a0Este \u00e9 um termo aproximativo que tem sido usado por algumas pessoas e que me parece \u00fatil para pensar algumas din\u00e2micas do pa\u00eds. Aproximativo porque nunca houve remo\u00e7\u00e3o das\u00a0<b>oligarquias<\/b>, \u00e9 claro: em maior ou menor grau, as oligarquias sempre participaram do poder e muito de perto. Ent\u00e3o como restaur\u00e1-las? Mas \u00e9 certo que este \u00e9 um momento em que os grupos mais tradicionalmente encastelados no poder e que dominam grande parte da economia est\u00e3o em alta, recuperando o pouco de terreno que eventualmente tenham perdido para processos decis\u00f3rios mais institucionais e democr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Por\u00a0<b>oligarquias<\/b>, geralmente nos referimos a segmentos que controlam setores da economia com muito pouca abertura para a competi\u00e7\u00e3o e uma proximidade muito grande com o\u00a0<b>Estado<\/b>, que lhes confere benef\u00edcios; gra\u00e7as a essa proximidade, esses mesmos setores controlam tamb\u00e9m muito da vida social. Pense, por exemplo, nessa express\u00e3o que tanto ouvimos no\u00a0<b>Brasil<\/b>: &#8220;quem manda aqui \u00e9 fulano&#8221;; ou a ideia de que o prefeito &#8220;manda na cidade&#8221;, que o governador &#8220;manda no Estado&#8221; e assim por diante. Institucionalmente, essas express\u00f5es s\u00e3o absurdas, mas na pr\u00e1tica&#8230; \u00c9 que as oligarquias implicam um modo de exerc\u00edcio do poder voltado para interesses privados, patrimoniais, muitas vezes at\u00e9 din\u00e1sticos; n\u00e3o \u00e0 toa, um pa\u00eds de estrutura olig\u00e1rquica como o\u00a0<b>Brasil<\/b>depende de uma burocracia ineficiente e com remunera\u00e7\u00e3o exorbitante, que possa se sentir parte das mesmas elites que oficialmente deveriam vigiar. Toda a controv\u00e9rsia em torno do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/576426-auxilio-moradia-para-quem\">aux\u00edlio-moradia do Judici\u00e1rio<\/a>, por exemplo, gira em torno dessa rela\u00e7\u00e3o prom\u00edscua entre o estamento e o oligarca.<\/p>\n<p>Fen\u00f4menos como o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/571737-stf-inicia-julgamento-de-5-acoes-sobre-o-novo-codigo-florestal-lei-12-651-2012\">novo c\u00f3digo florestal<\/a>\u00a0(2012), a revis\u00e3o do c\u00f3digo de minera\u00e7\u00e3o, o amolecimento do\u00a0<b>licenciamento ambiental<\/b>, o esfor\u00e7o de passar\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/563140-pec-55-e-dramatica-porque-abre-mao-do-futuro-entrevista-especial-com-luciana-de-barros-jaccoud\">reformas econ\u00f4micas<\/a>\u00a0apressadamente, sem debate com a sociedade civil \u2014 mas sem tocar na\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/572401-reforma-tributaria-progressiva-e-expansao-do-gasto-publico-sao-essenciais-para-reduzir-as-desigualdades-entrevista-especial-com-rafael-georges\">estrutura tribut\u00e1ria regressiva<\/a>, tudo isso s\u00e3o sinais de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/?id=557544\">poder olig\u00e1rquico<\/a>. A promiscuidade entre ju\u00edzes e r\u00e9us, que tanto nos tem revoltado nos \u00faltimos anos, tamb\u00e9m. Ora, com o enfraquecimento dos meios que a sociedade civil possui para contrabalan\u00e7ar o poder olig\u00e1rquico \u2014 e aqui me refiro a partidos mais org\u00e2nicos, sindicatos, movimentos sociais, imprensa livre etc. \u2014, esses grupos poderosos podem retomar o controle praticamente integral do aparato de poder e at\u00e9 mesmo sufocar tudo que parecia lhes amea\u00e7ar. Pense no que aconteceu com o\u00a0<b>Minist\u00e9rio P\u00fablico<\/b>\u00a0sob\u00a0<b>Temer<\/b>, por exemplo. Mas essa retomada se reflete tamb\u00e9m em inst\u00e2ncias menos evidentes: o\u00a0<b>empobrecimento da universidade<\/b>\u00a0favorece as oligarquias, o sucateamento das escolas e do transporte p\u00fablico (<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/171-noticias\/noticias-2013\/523292-o-direito-a-cidade-nas-manifestacoes-urbanas-entrevista-com-david-harvey\">direito \u00e0 cidade<\/a>) idem, e assim por diante.<\/p>\n<p><b>IHU On-Line &#8211; Por que voc\u00ea considera que o Antropoceno, a automa\u00e7\u00e3o e a transforma\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre capital e trabalho do ponto de vista pol\u00edtico s\u00e3o os problemas centrais que merecem aten\u00e7\u00e3o nos dias de hoje? Como todas essas quest\u00f5es est\u00e3o inter-relacionadas?<\/b><\/p>\n<p><b>Diego Viana &#8211;<\/b>\u00a0Esses tr\u00eas conceitos juntos resumem bem a ideia de que o modo de organiza\u00e7\u00e3o do mundo humano, nos \u00faltimos s\u00e9culos, est\u00e1 chegando em seus limites. O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/566782-politica-brasileira-esta-na-contramao-do-antropoceno-entrevista-especial-com-liz-rejane-issbern-e-philippe-lena\">Antropoceno<\/a>, com tudo que o cerca, da\u00a0<b>mudan\u00e7a clim\u00e1tica<\/b>\u00a0\u00e0\u00a0<b>perda de biodiversidade,<\/b>\u00a0passando por aquilo que\u00a0<b><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/maisnoticias\/noticias-en-espanol\/78-noticias\/573831-a-era-do-capitalismo-ironico\">Saskia Sassen<\/a><\/b>\u00a0chama de terras mortas e \u00e1guas mortas, demonstra que o sistema massivo de extra\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas para process\u00e1-las e transport\u00e1-las com grande gasto de energia, incentivando um consumo intensivo que gera lixo, muitas vezes t\u00f3xico, em nome da\u00a0<b>acumula\u00e7\u00e3o de recursos monet\u00e1rios<\/b>, n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de se perpetuar.<\/p>\n<p>Automa\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/569585-quem-sao-os-mais-propensos-a-sofrer-a-automacao-do-trabalho\">automa\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0sugere que toda a estrutura de ocupa\u00e7\u00f5es est\u00e1 para ser abalada, para al\u00e9m da mera substitui\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra menos qualificada por m\u00e1quinas; a tal ponto que podemos nos perguntar o que \u00e9 que pode estar al\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o tal como a entendemos. Pense, por exemplo, no\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/573240-a-impossivel-neutralidade-da-tecnica\">movimento maker<\/a>: ser\u00e1 que n\u00e3o existe a\u00ed um germe de imagina\u00e7\u00e3o para estimular a pr\u00e1tica e a cria\u00e7\u00e3o, os gestos t\u00e9cnicos que caracterizam o humano, para al\u00e9m desse circuito de mercadorias, consumo, res\u00edduo? Pense tamb\u00e9m em pr\u00e1ticas de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/553089-por-uma-permacultura-morena-e-ecossocialista\">permacultura<\/a>, que implicam uma rela\u00e7\u00e3o entre o produtor agr\u00edcola e a vida que o cerca, em compara\u00e7\u00e3o com o produtivismo asfixiante da agricultura em larga escala tradicional \u2014 que empobrece a vida como um todo, como vem demonstrando\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/574003-depois-dos-transgenicos-comeremos-big-data-artigo-de-vandana-shiva\">Vandana Shiva<\/a>\u00a0h\u00e1 d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Por fim, o que parece estar mais pr\u00f3ximo, e bastante conectado com a\u00a0<b>automa\u00e7\u00e3o<\/b>, \u00e9 a mudan\u00e7a da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/186-noticias\/noticias-2017\/565264-uberizacao-do-trabalho-subsuncao-real-da-viracao\">rela\u00e7\u00e3o entre capital e trabalho<\/a>, o que deixado por si s\u00f3 provavelmente implica um\u00a0<b>novo regime de acumula\u00e7\u00e3o<\/b>, provavelmente mais cruel que os anteriores. O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/553168-e-se-a-internet-deixar-de-ser-capitalista\">capitalismo de plataforma<\/a>\u00a0simbolizado por empresas como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/574520-airbnb-uber-ebay-neste-mundo-intangivel-trabalhadores-precisam-se-adaptar-para-sobreviver\">Uber<b>,<\/b>\u00a0Airbnb<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/562253-quanto-dinheiro-o-facebook-ganha-com-voce-e-como-isso-acontece\">Facebook<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/565455-livrarias-sentem-crise-e-efeito-amazon\">Amazon<\/a>\u00a0etc. leva \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias uma das no\u00e7\u00f5es mais cru\u00e9is da doutrina econ\u00f4mica atual: a de &#8220;<b>capital humano&#8221;<\/b>. Ou seja, a ideia de que suas habilidades, seus conhecimentos, sua pot\u00eancia, s\u00e3o meios para produzir renda. Ao mesmo tempo, essas empresas revelam que o que define a explora\u00e7\u00e3o \u00e9 o controle de acessos e conex\u00f5es, mais do que propriamente a propriedade dos meios de produ\u00e7\u00e3o: assim, hoje um\u00a0<b>motorista de Uber<\/b>\u00a0\u00e9 o dono (ou locat\u00e1rio) do carro que usa, a\u00a0<b>Amazon<\/b>controla boa parte do mercado editorial simplesmente como intermedi\u00e1ria. Os ganhos dessas empresas s\u00e3o lucros apenas no sentido cont\u00e1bil, porque conceitualmente s\u00e3o renda, j\u00e1 que elas extraem tarifas das rela\u00e7\u00f5es que intermedeiam: s\u00e3o como tarifas de corretagem. Ali\u00e1s, mesmo grandes montadoras, para usar um exemplo da economia industrial, funcionam \u00e0 base de in\u00fameras empresas terceirizadas, que obedecem aos planos apresentados pela central.<\/p>\n<p>Assim, por um lado vemos que arregimentar as pessoas sob a bandeira do trabalho se tornou mais dif\u00edcil, uma vez que elas passaram a se considerar como\u00a0<b>capitalistas<\/b>. Por outro lado, as capacidades, habilidades, conhecimentos, potenciais humanos n\u00e3o podem ser reduzidos \u00e0 categoria de capital voltado a maiores rendimentos salariais: esta redu\u00e7\u00e3o deixa de fora muita capacidade t\u00e9cnica, criativa, inventiva, que pode e deve ser canalizada para finalidades mais fecundas do que meramente servir \u00e0\u00a0<b>acumula\u00e7\u00e3o<\/b>. Vemos tamb\u00e9m que mesmo o tipo de rela\u00e7\u00e3o que uma empresa como a\u00a0<b>Volkswagen<\/b>, por exemplo, tem com sua cadeia produtiva come\u00e7a a deixar de ser o mais avan\u00e7ado e eficiente poss\u00edvel, uma vez que novos m\u00e9todos de produ\u00e7\u00e3o, seja pela automa\u00e7\u00e3o, seja por uma generaliza\u00e7\u00e3o do movimento\u00a0<i>maker<\/i>, da permacultura e iniciativas semelhantes, permitem pensar mais de perto o que s\u00e3o os anseios t\u00e9cnicos das pessoas, comunidades, sociedades.<\/p>\n<p>Tudo isso se torna mais urgente quando o\u00a0<b>imperativo financeiro da acumula\u00e7\u00e3o<\/b>\u00a0contempor\u00e2nea se mostra suicida, principalmente por meio do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/552951-a-devastadora-submissao-de-gaia-ao-capitalceno-a-face-obscura-do-antropoceno\">Antropoceno<\/a>. Juntando as pe\u00e7as, come\u00e7amos a vislumbrar uma\u00a0<b>obsolesc\u00eancia do capitalismo<\/b>. O lado bom de as pessoas deixarem de se ver como trabalhadoras \u00e9 que elas d\u00e3o um passo para fora da aparente necessidade de relacionar-se com o capital por meio da venda da\u00a0<b>for\u00e7a de trabalho<\/b>. Elas podem pensar fora do\u00a0<b>paradigma do trabalho<\/b>\u00a0como um todo e come\u00e7ar a agir em nome de concep\u00e7\u00f5es mais completas do que \u00e9 a vida, do que s\u00e3o as possibilidades da criatividade, da inventividade, que carregamos conosco. \u00c9 um desafio \u00e9tico e pol\u00edtico enorme, mas que pode ganhar corpo na medida da evolu\u00e7\u00e3o dos eventos e das crises.<\/p>\n<p><b>IHU On-Line &#8211; Por que o manifesto &#8220;<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/576292-o-que-diz-o-novo-manifesto-dos-partidos-de-esquerda\">Unidade para Reconstruir o Brasil<\/a>&#8220;, apresentado por cinco partidos de esquerda em fevereiro, PT, PDT, PSOL, PSB e PCdoB, demonstra, na sua avalia\u00e7\u00e3o, a incapacidade deles de expressar os problemas que de fato dever\u00e3o ser enfrentados no pa\u00eds daqui para frente?<\/b><\/p>\n<p><b>Diego Viana &#8211;<\/b>\u00a0Em dez p\u00e1ginas, o manifesto descreve razoavelmente bem a l\u00f3gica econ\u00f4mica que triunfou nas \u00faltimas d\u00e9cadas e hoje encontra seus limites, tentando se manter \u00e0 tona apesar do car\u00e1ter cada vez mais fict\u00edcio ou simplesmente parasit\u00e1rio de seus ganhos. Mas a solu\u00e7\u00e3o que o manifesto apresenta \u00e9 um retorno ao modo de desenvolvimento que vicejou no s\u00e9culo XX, com a\u00a0<b>industrializa\u00e7\u00e3o<\/b>\u00a0amparada por\u00a0<b>Estados<\/b>nacionais. Ora, esse \u00e9 justamente o\u00a0<b>regime de acumula\u00e7\u00e3o<\/b>\u00a0sobre o qual o\u00a0<b>neoliberalismo<\/b>\u00a0triunfou a partir de fins dos anos 70, com o agravante de que hoje j\u00e1 existe todo um sistema geopol\u00edtico montado para garantir que tentativas como essas n\u00e3o v\u00e3o adiante, quando ocorrem isoladamente, neste ou naquele pa\u00eds \u2014 por sinal, este \u00e9 um perigo que pode prejudicar muito algu\u00e9m como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/568438-inglaterra-o-vendaval-jeremy-corbyn\">Jeremy Corbyn<\/a>, se eventualmente chegar a primeiro-ministro no Reino Unido.<\/p>\n<p>Nova etapa<\/p>\n<p>Se a renda b\u00e1sica universal for mesmo um caminho para o futuro, por que n\u00e3o propor um modelo que seja promotor de paz e estabilidade social?<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a\u00a0<b>crise do atual regime de acumula\u00e7\u00e3o<\/b>\u00a0significa que se passar\u00e1 a uma outra etapa, e os ind\u00edcios s\u00e3o esses que est\u00e3o diante dos nossos olhos:\u00a0<b>capitalismo de plataforma<\/b>,\u00a0<b>automa\u00e7\u00e3o<\/b>,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/eventos\/560107-a-realidade-concreta-da-transicao-energetica\">transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/576122-crise-ambiental-a-expressao-toxica-das-falhas-da-humanidade-afirma-ex-primaz-de-canterbury\">crise ambiental<\/a>. Se, usando os termos do manifesto, queremos mesmo evitar que o pa\u00eds seja submetido integralmente a uma\u00a0<b>ordem neocolonial<\/b>\u00a0(como parece ser a tend\u00eancia, a seguir no rumo atual), n\u00e3o vai ser pela tentativa de implantar sistemas j\u00e1 derrotados historicamente, mas pela capacidade de entrar na pr\u00f3xima fase em situa\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel, ser capaz de propor os caminhos a seguir. Por exemplo, o\u00a0<b>Brasil<\/b>\u00a0\u00e9 privilegiado em termos de\u00a0<b>biodiversidade<\/b>, cobertura vegetal, acesso \u00e0 \u00e1gua doce, energias renov\u00e1veis \u2014 e tamb\u00e9m\u00a0<b>diversidade \u00e9tnica e cultural<\/b>, a prop\u00f3sito. Por que n\u00e3o enfatizar a luta para que a rela\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica com esse privil\u00e9gio seja saud\u00e1vel, fecunda e ben\u00e9fica para todos, em vez de enfatizar a agropecu\u00e1ria e a explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo? Este \u00e9 o argumento dos oligarcas, justamente aqueles que precisamos combater.<\/p>\n<p>Outro exemplo: o\u00a0<b>Brasil<\/b>\u00a0experimentou com sucesso iniciativas de\u00a0<b>transfer\u00eancia de renda<\/b>. Se a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/publicacoes\/566140-a-renda-basica-universal-seria-a-maior-conquista-do-capitalismo\">renda b\u00e1sica universal<\/a>\u00a0for mesmo um caminho para o futuro, por que n\u00e3o propor um modelo que seja promotor de paz e estabilidade social, criatividade, inven\u00e7\u00e3o, um modelo que potencialize a riqueza propriamente humana, em vez de buscar um retorno \u00e0s sociedades salariais do \u00faltimo s\u00e9culo, dependentes da rela\u00e7\u00e3o entre grande empresa, governo e centrais sindicais? E por a\u00ed vai.<\/p>\n<p><b>IHU On-Line &#8211; Voc\u00ea diz que antes de pensarmos na reinven\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, \u00e9 preciso compreender o que h\u00e1 efetivamente para reinventar. O que seria na sua avalia\u00e7\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p><b>Diego Viana &#8211;<\/b>\u00a0Eu diria que a quest\u00e3o, no que concerne \u00e0\u00a0<b>reinven\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica<\/b>, est\u00e1 mais para o entendimento do que seria realmente reinventar a pol\u00edtica do que nas etapas dessa reflex\u00e3o. Afinal, o que temos visto ultimamente com o nome de &#8220;reinven\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica&#8221; \u00e9 a ideia de rejuvenesc\u00ea-la, moraliz\u00e1-la e assim por diante. Ora,\u00a0<b>moralizar a pol\u00edtica<\/b>\u00a0\u00e9 uma express\u00e3o um pouco vazia, j\u00e1 que podemos encontrar esse desejo nos historiadores da Rep\u00fablica romana e em todas as \u00e9pocas desde ent\u00e3o. Infelizmente, a pol\u00edtica trabalha com os maiores rec\u00f4nditos do desejo, manifestos na vida humana coletiva, e n\u00e3o h\u00e1 um golpe de mestre ou de for\u00e7a que seja capaz de selecionar subitamente s\u00f3 aqueles que s\u00e3o mais morais, admir\u00e1veis ou o que for.<\/p>\n<p>Assim, se \u00e9 para reinventar a pol\u00edtica, \u00e9 para reinventar a fundo: o que \u00e9 a\u00a0<b>pol\u00edtica<\/b>\u00a0em tempos\u00a0<b>p\u00f3s-neoliberais<\/b>, depois da derrocada das sociedades salariais e dos movimentos de massa do s\u00e9culo XX, depois do\u00a0<b>esvaziamento dos partidos tradicionais<\/b>? O que \u00e9 a pol\u00edtica quando n\u00e3o basta mais pensar simplesmente em comunidades humanas delimitadas por fronteiras geogr\u00e1ficas, mas precisamos incluir a\u00ed diferentes culturas, diferentes formas de vida e o sistema em geral de sustenta\u00e7\u00e3o da vida no planeta? \u00c9 uma pergunta bem dif\u00edcil.<\/p>\n<p>A\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/571980-a-histeria-da-nova-extrema-direita-brasileira-e-os-perigos-a-vista\">extrema-direita<\/a>\u00a0tem dado sua resposta de sempre: repress\u00e3o, obscurantismo e manipula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o. Infelizmente, tem ido razoavelmente bem e parece tender a ir melhor ainda. A direita n\u00e3o t\u00e3o extrema tem tentado transformar a pol\u00edtica em caso particular da gest\u00e3o empresarial, talvez sem perceber que a gest\u00e3o empresarial n\u00e3o \u00e9, nem se prop\u00f5e a ser democr\u00e1tica. A\u00a0<b>esquerda<\/b>\u00a0tem vindo com algumas ideias nos \u00faltimos anos, como as\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/556178-a-metropole-monstro-e-sua-multiformance-em-busca-de-outro-mundo-possivel\">ocupa\u00e7\u00f5es do espa\u00e7o p\u00fablico<\/a>, os mandatos\u00a0<b>coletivos,<\/b>\u00a0os\u00a0<b>coletivos de a\u00e7\u00e3o direta<\/b>\u00a0e assim por diante. Mas a escala ainda est\u00e1 aqu\u00e9m do que ser\u00e1 necess\u00e1rio nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. Infelizmente, os eventos est\u00e3o se precipitando e tudo est\u00e1 se tornando mais urgente.<\/p>\n<p><b>IHU On-Line &#8211; Por que voc\u00ea v\u00ea na \u201csupera\u00e7\u00e3o do paradigma do trabalho como categoria por excel\u00eancia da pr\u00e1tica humana\u201d a possibilidade para fomentar a reinven\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica? Em que e por que a transforma\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o capital-trabalho poderia gerar alguma modifica\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica?<\/b><\/p>\n<p><b>Diego Viana &#8211;<\/b>\u00a0O ser humano \u00e9 criador, inventivo, m\u00faltiplo, curioso, apaixonado. Digo isso sem qualquer forma de romantismo: h\u00e1 quem proponha substituir a ideia de ser humano entendido como ego\u00edsta e ganancioso pela de ser humano generoso e comunit\u00e1rio, mas n\u00e3o \u00e9 o meu caso. O que quero ressaltar \u00e9 que o ser humano \u00e9 capaz de inventar muitas formas de vida em que manuseia sua criatividade, seus anseios, seus potenciais, e isso que entendemos por trabalho \u00e9 s\u00f3 uma delas. O\u00a0<b>trabalho<\/b>, como vem sendo entendido h\u00e1 alguns s\u00e9culos, pelo menos, \u00e9 a atividade reduzida a uma \u00fanica dimens\u00e3o, uma \u00fanica l\u00f3gica, e submetida a alguma forma de comando (quem disse isso pela primeira vez foi\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/571160-adam-smith-teoria-economica-e-trabalho\">Adam Smith<\/a>, para quem o dinheiro mede a quantidade de trabalho que se pode comandar). \u00c9 claro que esse comando pode ser simplesmente a busca por prest\u00edgio ao ganhar mais e mais dinheiro, mas deixemos isso de lado, e vamos falar s\u00f3 do trabalho efetivamente comandado: o emprego, o contrato. Quando\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/569451-sem-muito-otimismo-para-a-nossa-epoca-antropocentrica\">Stanley Jevons<\/a>\u00a0foi criar seu sistema microecon\u00f4mico, cunhou a ideia de uma \u201c<b>desutilidade do trabalho<\/b>\u201d, ou seja, o trabalho como sendo algo intrinsecamente indesej\u00e1vel, que s\u00f3 se faz em troca de dinheiro. Onde vai parar o desej\u00e1vel? Ora, no consumo, que tem utilidade positiva&#8230;<\/p>\n<p>Em tempo: veja como para chegar a essa conclus\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio cindir em duas a atividade quotidiana (isso para n\u00e3o falar em outras formas de atividade, como o lazer ou o estudo). Como vem argumentando h\u00e1 d\u00e9cadas o\u00a0<b>movimento feminista<\/b>, do outro lado dessa desutilidade do trabalho encontramos o trabalho dom\u00e9stico, com duas caracter\u00edsticas: \u00e9 supostamente feito por amor, portanto n\u00e3o tem desutilidade, mas utilidade, e n\u00e3o \u00e9 pago. A esse respeito, recomendo a obra de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/565506-por-que-nosotrasparamos-no-dia-8-de-marco\">Nancy Fraser<\/a>\u00a0e tamb\u00e9m os estudos de\u00a0<b>Viviana Zelizer<\/b>\u00a0sobre a distribui\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica da renda na era pr\u00e9-1930 do\u00a0<b>capitalismo americano<\/b>. Esta cis\u00e3o \u00e9 exemplar porque n\u00e3o \u00e9 simplesmente a regra de tr\u00eas entre amor\/n\u00e3o-remunera\u00e7\u00e3o e desutilidade\/remunera\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m o fato de que o conjunto das possibilidades humanas \u00e9 reduzido a essa dicotomia t\u00e3o radical. Cria-se uma esfera do agir vinculada ao amor e, portanto, ao desejo, que \u00e9 completamente exclu\u00edda da esfera propriamente social do agir, que \u00e9 indesej\u00e1vel, mas socialmente recompensada com o pagamento.<\/p>\n<p>Este abismo representa, al\u00e9m de tudo que as autoras citadas j\u00e1 disseram, tamb\u00e9m a inven\u00e7\u00e3o de um abismo bem no meio da mir\u00edade de possibilidades para a pr\u00e1tica humana, seu desejo na medida em que seja um desejo de criar, produzir, inventar modos de vida, que s\u00e3o modos sempre relacionais, comuns. Este abismo, que gira em torno da no\u00e7\u00e3o de trabalho, \u00e9 a nossa cegueira. A pr\u00e1tica, a atividade, pode envolver muito amor, muito desejo; n\u00e3o \u00e9 simplesmente \u201cencontrar um trabalho de que voc\u00ea goste\u201d, mas reconhecer que ao agir e criar voc\u00ea est\u00e1 se constituindo e constituindo seu mundo, ao passo que ao simplesmente \u201cencontrar um trabalho\u201d voc\u00ea est\u00e1 aceitando que algu\u00e9m j\u00e1 constituiu o seu mundo e s\u00f3 est\u00e1 te agraciando com a possibilidade de encontrar satisfa\u00e7\u00e3o nele. \u00c9 muito empobrecedor.<\/p>\n<p>Acredito que os\u00a0<b>movimentos oper\u00e1rios<\/b>\u00a0do s\u00e9culo XIX tinham uma percep\u00e7\u00e3o melhor desse abismo do que n\u00f3s, hoje. Talvez porque estivessem mais conscientes da ruptura violenta que foi a expuls\u00e3o de grandes contingentes do campo, ou seja, da rela\u00e7\u00e3o com a terra e as formas de vida que a habitam. Uma das ideias do que viria a ser o\u00a0<b>socialismo<\/b>\u00a0que encontramos no jovem\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/381\">Marx<\/a>\u00a0\u00e9 a de ca\u00e7ar de manh\u00e3, pescar \u00e0 tarde, cuidar do gado \u00e0 noite e depois \u201cfazer cr\u00edtica\u201d, sem ser completamente absorvido em nenhuma dessas coisas. \u00c9 interessante ver como os exemplos desse intelectual revolucion\u00e1rio t\u00e3o urbano s\u00e3o quase todos de atividades campestres \u2014 exceto a parte filos\u00f3fica&#8230; Isso d\u00e1 o que pensar. No m\u00ednimo, temos a\u00ed a ideia de uma sa\u00edda do paradigma do trabalho, mas tamb\u00e9m uma certa nostalgia pela rela\u00e7\u00e3o mais direta com o mundo, com o material da nossa exist\u00eancia; n\u00e3o que para ter essa rela\u00e7\u00e3o seja necess\u00e1rio voltar \u00e0 vida campestre, no estilo de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/509\">Thoreau<\/a>. Seria antes preciso reconhecer a constru\u00e7\u00e3o das cidades como uma atividade material, uma rela\u00e7\u00e3o com a natureza que poderia muito bem ser saud\u00e1vel e n\u00e3o alienante, bastando que consider\u00e1ssemos nossa pr\u00e1tica assim.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, os\u00a0<b>socialistas do s\u00e9culo XIX<\/b>\u00a0tinham bastante consci\u00eancia dessas cis\u00f5es artificiais da vida, como na c\u00e9lebre bandeira das oito horas de trabalho, oito de descanso e oito de lazer. Poder\u00edamos come\u00e7ar, ent\u00e3o, propondo outras divis\u00f5es do tempo, em que o trabalho fosse reduzido \u00e0 metade e se introduzissem coisas como o cultivar-se, o engajamento nas decis\u00f5es do coletivo (leia-se: pol\u00edtica) e assim por diante. Tudo isso est\u00e1 ao alcance, basta aceitar que \u00e9 poss\u00edvel, necess\u00e1rio e desej\u00e1vel. A partir da\u00ed, pode-se propor todo tipo de transforma\u00e7\u00e3o. Os humanos somos, como eu disse, criativos, apaixonados etc. Mais absurdo que a utopia \u00e9 achar que o \u00fanico topos \u00e9 esse, invi\u00e1vel e empobrecedor, em que nos encontramos.<\/p>\n<p><b>IHU On-Line &#8211; Por que a reinven\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica tamb\u00e9m depende de uma dimens\u00e3o \u00e9tica e de outra pol\u00edtica, no sentido de vida em comum?<\/b><\/p>\n<p><b>Diego Viana &#8211;<\/b>\u00a0Na verdade, acho importante recuperar a no\u00e7\u00e3o de que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a perspectiva\u00a0<b>\u00e9tica e a pol\u00edtica<\/b>\u00a0s\u00e3o uma s\u00f3 dimens\u00e3o, se pensarmos em termos de pr\u00e1tica, atividade humana. Por exemplo, a express\u00e3o \u201c<b>\u00e9tica de trabalho<\/b>\u201d (funciona melhor em ingl\u00eas:\u00a0<i>work ethic<\/i>) expressa um modo de ju\u00edzo e tamb\u00e9m uma injun\u00e7\u00e3o sobre o comportamento individual, mas remete \u00e0 expectativa do modo de ordenamento das pr\u00e1ticas, atividades, comportamentos como um todo. Assim, quem tem \u201c<i>work ethic<\/i>\u201d tem prest\u00edgio, \u00e9 um membro honrado da configura\u00e7\u00e3o social tal como est\u00e1 determinada, e que por sua vez \u00e9 uma determina\u00e7\u00e3o de\u00a0<b>sociedade de trabalho<\/b>\u00a0(e investimento, lucro, renda etc.).<\/p>\n<p>Nosso problema atual \u00e9 que esse mesmo princ\u00edpio que sustenta a \u201c<i>work ethic<\/i>\u201d e a\u00a0<b>pol\u00edtica do crescimento<\/b>\u00a0(ou seja, da expans\u00e3o da atividade econ\u00f4mica definida junto com a \u201c<i>work ethic<\/i>\u201d) n\u00e3o d\u00e1 mais conta do problema. Os princ\u00edpios da atividade, individual como coletiva, \u00e9tica como pol\u00edtica, est\u00e3o minando as pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es da atividade e est\u00e3o se revelando anti\u00e9ticos e antipol\u00edticos, na medida em que, primeiro, introduzimos na equa\u00e7\u00e3o responsabilidades perante entes que n\u00e3o s\u00e3o humanos (e mesmo muitos entes humanos, que sempre foram deixados \u00e0 margem dessa \u00e9tica e dessa pol\u00edtica); e segundo, que conduz a humanidade a estar aqu\u00e9m, e n\u00e3o al\u00e9m, de seus melhores potenciais. Nada nos obriga a aceitar que o melhor que pode o humano \u00e9 se esgotar no trabalho, perder toda a sensibilidade \u00e9tica e est\u00e9tica (como denunciou\u00a0<b>Adam Smith<\/b>\u00a0ainda no s\u00e9culo XVIII), viciar-se em opioides, antidepressivos e \u00e1lcool e ainda por cima transformar um planeta t\u00e3o vicejante em dep\u00f3sito de lixo. Na verdade, n\u00e3o sei como algu\u00e9m se disp\u00f5e a aceitar isso.<\/p>\n<p><b>IHU On-Line \u2013 Deseja acrescentar algo?<\/b><\/p>\n<p><b>Diego Viana &#8211;<\/b>\u00a0Recebi a not\u00edcia do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/577132-a-morte-de-marielle-franco-como-uma-reacao-da-mafia-do-poder-carioca-entrevista-especial-com-giuseppe-cocco-bruno-cava-e-marcelo-castaneda\">assassinato da vereadora carioca Marielle Franco<\/a>, do\u00a0<b>PSOL<\/b>, logo depois de enviar as respostas acima. Como todo mundo que tem um m\u00ednimo de dec\u00eancia, fiquei muito abalado e apavorado. Esta execu\u00e7\u00e3o mostra que atravessamos um limiar. N\u00e3o h\u00e1 mais limites para o dom\u00ednio da trucul\u00eancia criminosa sobre a vida p\u00fablica no\u00a0<b>Brasil<\/b>. Voltando \u00e0 pergunta sobre as\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/571038-nao-havera-2018\">elei\u00e7\u00f5es<\/a>: temo que n\u00e3o haja muito que elas possam fazer para reverter esse processo, sobretudo porque grupos de poder muitas vezes vinculados ao crime (no sentido estrito) conseguem influenciar fortemente as vota\u00e7\u00f5es, t\u00eam penetra\u00e7\u00e3o em grot\u00f5es e dinheiro para investir.<\/p>\n<p>Por outro lado, tamb\u00e9m podemos pensar nessa execu\u00e7\u00e3o a partir de outra coisa que falei acima: a tend\u00eancia ao recrudescimento de conflitos sociais. Afinal, nos \u00faltimos anos um razo\u00e1vel contingente de pessoas negras, pobres, moradoras da periferia, conseguiu chegar \u00e0 universidade, de um jeito que n\u00e3o acontecia at\u00e9 poucas d\u00e9cadas atr\u00e1s. A tend\u00eancia \u00e9 que haja cada vez mais\u00a0<b>Marielles<\/b>, na pol\u00edtica e na sociedade; a resposta imediata provavelmente \u00e9 uma expans\u00e3o da pistolagem e da brutalidade. Por esse prisma, apesar de um curto prazo assustador, no longo prazo d\u00e1 para ter otimismo.<\/p>\n<p>https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Politica\/O-que-significa-reinventar-a-politica-em-tempos-pos-neoliberais-\/4\/39659<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Patricia Fachin &#8211;\u00a0&#8220;Hoje, nenhum dos candidatos representa uma proposta estruturada para o que vai ser o Brasil nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, ou melhor, perante as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas&#8221;, afirma Diego Viana na entrevista. 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