{"id":7707,"date":"2018-04-04T15:02:10","date_gmt":"2018-04-04T18:02:10","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=7707"},"modified":"2018-04-03T12:05:48","modified_gmt":"2018-04-03T15:05:48","slug":"num-brasil-sem-dialogo-escola-vira-arena-para-disputas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/04\/04\/num-brasil-sem-dialogo-escola-vira-arena-para-disputas\/","title":{"rendered":"Num Brasil sem di\u00e1logo, escola vira arena para disputas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jo\u00e3o Vitor Santos <\/strong>&#8211;\u00a0Renato Janine Ribeiro observa como discuss\u00f5es da Base Comum Curricular revelam o verdadeiro racha pelo qual passa o pa\u00eds<\/p>\n<p>A escola deve ser o espa\u00e7o livre para a manifesta\u00e7\u00e3o da diversidade, sem qualquer tipo de repress\u00e3o. Esse \u00e9 o conceito que deve ser perseguido, segundo o professor e ex-ministro da Educa\u00e7\u00e3o Renato Janine Ribeiro. \u201cO papel b\u00e1sico da escola, de qualquer ordem que seja, \u00e9 aceitar a pessoa na sua diversidade. A escola n\u00e3o deve doutrinar em nenhuma dire\u00e7\u00e3o\u201d, complementa. Segundo ele, esse tamb\u00e9m deve ser o princ\u00edpio da Base Nacional Comum Curricular &#8211; BNCC. Entretanto, muitas discuss\u00f5es acabam se dando de forma enviesada, contaminadas pela polariza\u00e7\u00e3o e pela inaptid\u00e3o ao di\u00e1logo que parecem tomar o Brasil de hoje. \u201cVoc\u00ea tem uma atua\u00e7\u00e3o de grupos que pedem que a educa\u00e7\u00e3o seja exatamente o que ela n\u00e3o pode ser. S\u00e3o movimentos que dizem ser contr\u00e1rios \u00e0 doutrina\u00e7\u00e3o, mas que s\u00e3o extremamente doutrinadores\u201d, denuncia.<\/p>\n<p>Renato exemplifica com os debates em torno das quest\u00f5es de g\u00eanero e as a\u00e7\u00f5es do grupo defensor da ideia de escola sem partido. Muito mais do que qualificar o debate sobre educa\u00e7\u00e3o, querem fazer valer apenas sua vis\u00e3o de mundo. \u201cEducar, na verdade, \u00e9 abrir para o mundo. Significa fazer a pessoa sair de seu mundo fechado e abrir-se para um mundo mais amplo, mais abrangente\u201d, contrap\u00f5e. A origem disso seriam as polarizadas disputas pol\u00edticas que colocam, de um lado, os opositores e, de outro, defensores do governo petista, ambos fechados em si. \u201cO Brasil est\u00e1 rachado em torno de inimizades\u201d, avalia. \u201cN\u00e3o temos alternativa. Temos que recuperar o di\u00e1logo no Brasil e temos que ser capazes de avan\u00e7ar neste pa\u00eds\u201d. E Renato v\u00ea a educa\u00e7\u00e3o como um caminho poss\u00edvel para esse avan\u00e7o. \u201cSe nossos alunos n\u00e3o tiverem esp\u00edrito cr\u00edtico, n\u00e3o tiverem conhecimento de mundo, n\u00e3o se abrirem para a diversidade, a nossa economia n\u00e3o vai melhorar. Precisamos de pessoas que pensem, e a educa\u00e7\u00e3o ajuda a pensar\u201d, analisa.<\/p>\n<p>Na entrevista, concedia por telefone \u00e0\u00a0<strong>IHU On-Line<\/strong>, o ex-ministro tamb\u00e9m avalia o processo de montagem da BNCC, iniciada em sua gest\u00e3o. \u201cO erro que cometemos foi n\u00e3o termos acompanhado muito de perto o trabalho de cada comiss\u00e3o; com isso, tivemos problemas\u201d, reconhece.<\/p>\n<p>Renato Janine Ribeiro foi ministro da Educa\u00e7\u00e3o, entre abril e outubro de 2015, durante o governo de Dilma Rousseff. \u00c9 professor titular da Universidade de S\u00e3o Paulo &#8211; USP, na disciplina de \u00c9tica e Filosofia Pol\u00edtica. Doutor em Filosofia pela USP, recebeu o Pr\u00eamio Jabuti de Literatura em 2001 pela obra A Sociedade Contra o Social (S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2000). Entre suas publica\u00e7\u00f5es, destacamos tamb\u00e9m A \u00daltima Raz\u00e3o dos Reis &#8211; Ensaios de Filosofia e de Pol\u00edtica (S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2003), A Universidade e a Vida Atual (Rio de Janeiro: Campus, 2003), A imprensa entre Ant\u00edgona e Maquiavel: a \u00e9tica jornal\u00edstica na vida real das reda\u00e7\u00f5es (S\u00e3o Paulo: Renato, 2015) e A boa pol\u00edtica &#8211; Ensaios sobre a democracia na era da Internet (S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2017).<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Todo o processo das discuss\u00f5es para a forma\u00e7\u00e3o da Base Nacional Comum Curricular &#8211; BNCC iniciou ainda na sua gest\u00e3o no Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. Como o senhor avalia esse processo que culmina nessa proposta levada agora ao Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\n<strong>Renato Janine Ribeiro \u2013<\/strong>\u00a0A Base Nacional Comum Curricular foi estabelecida pelo Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o, que foi votado e sancionado pela presidente Dilma Rousseff em junho de 2014. E a Base deveria ter sido entregue ao Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o, para sua aprova\u00e7\u00e3o final, dois anos depois, ou seja, em junho de 2016. No per\u00edodo desde a entrada em vigor da lei, o Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o, at\u00e9 a minha posse em abril do ano seguinte, nada foi feito nessa dire\u00e7\u00e3o. No final de abril, eu instalei as comiss\u00f5es que iam montar a base.<\/p>\n<p>Alguns crit\u00e9rios: presen\u00e7a forte de professores que estavam em sala de aula, professores com experi\u00eancia, para, assim, evitar um saber que ca\u00edsse de cima para baixo sobre as pessoas. A ideia era fazer que aqueles que entendem da aula, dos alunos, que sabem das dificuldades e possibilidades, pudessem eles mesmos montar a base. O trabalho foi conduzido com muito entusiasmo pelo secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica da \u00e9poca, Manuel Pal\u00e1cios , mas creio que n\u00f3s erramos ao n\u00e3o colocar uma pessoa representando o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o &#8211; MEC em cada uma das 39 comiss\u00f5es, ou, pelo menos, em cada um dos 13 nomes diferentes que as comiss\u00f5es tinham. Dever\u00edamos ter pegado o n\u00famero de componentes curriculares, os quais muita gente conhece pelo nome de \u201cmat\u00e9ria\u201d ou \u201cdisciplina\u201d, que fazem parte do Ensino M\u00e9dio, onde h\u00e1 o maior n\u00famero \u2013 no Ensino Fundamental I h\u00e1 poucos componentes, no Fundamental II aumenta e no Ensino M\u00e9dio chega a 13 \u2013 e em cada um desses grupos colocar um representante do MEC, dialogando, verificando se eles n\u00e3o estavam se afastando dos princ\u00edpios b\u00e1sicos que devem reger a Base. Isso porque \u00e9 muito dif\u00edcil, mesmo quando voc\u00ea diz exatamente o que tem de ser feito, as pessoas prestarem aten\u00e7\u00e3o, entenderem e respeitarem.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o foi feito. Resultado: a primeira vers\u00e3o, que foi entregue em setembro, ainda na minha gest\u00e3o, era muito longa, e a segunda vers\u00e3o, que j\u00e1 foi entregue na gest\u00e3o do Mercadante , tinha dobrado de tamanho. Na verdade, era preciso ter um tamanho bem mais conciso, porque a Base n\u00e3o pode entrar em detalhes, ela \u00e9 justamente uma base, um curr\u00edculo comum ao pa\u00eds. Tem que dizer, por exemplo, quando se vai estudar equa\u00e7\u00e3o de segundo grau ou, no caso de Hist\u00f3ria, quando se vai estudar a Idade M\u00e9dia ou Idade Moderna, ou Brasil Col\u00f4nia. S\u00e3o esses os pontos cruciais, e n\u00e3o mil detalhes de como vai ser dada a aula. A pr\u00f3pria metodologia n\u00e3o pode entrar na base, porque ela \u00e9 quest\u00e3o de autonomia da escola, de autonomia do professor, de autonomia da rede. O erro que cometemos foi n\u00e3o termos acompanhado muito de perto o trabalho de cada comiss\u00e3o; com isso, tivemos problemas. Mercadante apontou muitos problemas da \u00e1rea de gram\u00e1tica, e eu vi os problemas da \u00e1rea de Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Num pa\u00eds de dimens\u00f5es continentais como o Brasil, com realidades regionais t\u00e3o distintas, por que \u00e9 importante a constitui\u00e7\u00e3o de uma base curricular em comum?<\/strong><br \/>\n<strong>Renato Janine Ribeiro \u2013<\/strong>\u00a0Em quatro componentes, n\u00f3s pensamos que era interessante uma diversidade regional grande. S\u00e3o eles: Hist\u00f3ria, Geografia, Portugu\u00eas e Biologia. Se pensarmos o Brasil dividido por suas bacias hidrogr\u00e1ficas, que \u00e9 um tema da Geografia, veremos que, conforme a bacia, temos animais e plantas, tema da Biologia, muito diferentes entre si. A Biologia j\u00e1 via a diversidade, e a Geografia tamb\u00e9m via a diversidade. Hist\u00f3ria e Portugu\u00eas tamb\u00e9m podem destacar as diversidades regionais, como \u00e9 \u00f3bvio. Nessas quatro \u00e1reas, n\u00e3o sei se 40% dos conte\u00fados mas possivelmente 30%, ou um n\u00famero perto desse, deveriam ser fixados em cada regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Enfim, em certas mat\u00e9rias que n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o exatas quanto as ci\u00eancias ditas exatas, realmente poderia haver uma parte regional importante. Mas n\u00e3o h\u00e1 como voc\u00ea n\u00e3o estudar Hist\u00f3ria universal, n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o estudar as bases da Biologia. Contestar o curr\u00edculo comum a partir disso \u00e9 um pouco de ingenuidade ou de desconhecimento do assunto.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Especificamente com rela\u00e7\u00e3o ao campo das ci\u00eancias humanas, na disciplina de Hist\u00f3ria, o senhor criticou a BNCC por n\u00e3o atender a um repert\u00f3rio b\u00e1sico. Gostaria que o senhor recuperasse e justificasse a sua cr\u00edtica.<\/strong><br \/>\n<strong>Renato Janine Ribeiro \u2013<\/strong>\u00a0H\u00e1 o c\u00e9lebre poema de Brecht : quem sabe quem s\u00e3o os artes\u00e3os que constru\u00edram as pir\u00e2mides e os muros de Tebas? Fala-se muito dos reis, mas n\u00e3o se fala desses artes\u00e3os. Esse ponto \u00e9 crucial, pois n\u00e3o se pode ter uma vis\u00e3o centrada nos reis. Outro ponto decisivo \u00e9 estudar a Hist\u00f3ria do Mundo, mesmo, e n\u00e3o uma hist\u00f3ria euroc\u00eantrica, como era praxe no passado. Ora, se olharmos os bons livros de Hist\u00f3ria que j\u00e1 est\u00e3o no mercado e que o MEC comprava \u2013 eu pedi que o Fundo Nacional de Desenvolvimento Escolar me mandasse os melhores livros de escola e vi que eram muito bons nesse tocante \u2013, veremos que nenhum deles era s\u00f3 de fara\u00f3s, nenhum deles ignorava \u00c1sia, \u00c1frica ou Am\u00e9rica pr\u00e9-colombiana. Ent\u00e3o, isso j\u00e1 estava sendo conduzido. Mas, ao inv\u00e9s disso, tivemos um projeto que era ca\u00f3tico. N\u00e3o dava para entender o que eles queriam dizer.<\/p>\n<p>Alguns acharam que era um projeto esquerdista, mas n\u00e3o era. Por exemplo, no caso do Brasil, n\u00f3s temos uma periodiza\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria que muitos associam a Celso Furtado , que \u00e9 o Ciclo do Pau Brasil, do A\u00e7\u00facar, do Ouro, do Caf\u00e9. E essa \u00e9 uma cronologia. Mas n\u00e3o \u00e9 uma cronologia boba, \u00e9 uma cronologia inteligente, e isso n\u00e3o foi aproveitado. N\u00e3o apareceu nada que fosse cronologia. S\u00f3 apareceu, no meio do Ensino M\u00e9dio, um ano de Hist\u00f3ria da \u00c1frica. Era a \u00fanica que tinha que ser estudada, porque estava na lei&#8230; Mas, se dependesse da equipe, talvez nem isso tivesse havido. Foi um grande equ\u00edvoco na \u00e1rea de Hist\u00f3ria e pedi que refizessem, mas se recusaram a refazer e a\u00ed divulgamos essa parte, alertando que n\u00e3o t\u00ednhamos responsabilidade pelas propostas, que o MEC tinha dado ampla autonomia \u2013 quase sempre com bons resultados \u2013 a fim de que a sociedade discutisse livremente a vers\u00e3o inicial da Base.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Entre os pontos mais pol\u00eamicos e discutidos da \u00faltima vers\u00e3o da BNCC est\u00e3o o Ensino Religioso e quest\u00f5es de g\u00eanero. Como o senhor observa esses dois pontos?<\/strong><br \/>\n<strong>Renato Janine Ribeiro \u2013<\/strong>\u00a0O entendimento de muitas pessoas, nas quais me incluo, \u00e9 de que o Ensino Religioso n\u00e3o deve ser, quando obrigat\u00f3rio, de proselitismo ou de catequese. Deve ser um ensino sobre esse fen\u00f4meno extremamente rico e complexo que \u00e9 a religi\u00e3o. Deve ser um ensino que foque a espiritualidade, que foque diferentes religi\u00f5es, e fa\u00e7a a pessoa conhecer um pouco de toda essa discuss\u00e3o que \u00e9 extremamente rica.<\/p>\n<p>Afinal, h\u00e1 v\u00e1rias religi\u00f5es que t\u00eam em comum a transcend\u00eancia. Tr\u00eas religi\u00f5es s\u00e3o chamadas religi\u00f5es do livro, os grandes monote\u00edsmos \u2013 que t\u00eam esse nome porque se referem a escrituras sagradas transmitidas pelo pr\u00f3prio Deus aos seus fi\u00e9is: juda\u00edsmo, cristianismo e islamismo. Os tr\u00eas somados incluem, muito provavelmente, a maior parte da popula\u00e7\u00e3o mundial. Mas h\u00e1 outra religi\u00e3o bastante forte, o budismo, da qual o papa Jo\u00e3o Paulo II at\u00e9 dizia que era uma religi\u00e3o ateia, porque n\u00e3o tem exatamente um deus, menos ainda um deus supremo. Temos ainda os polite\u00edsmos, que s\u00e3o fen\u00f4menos muito diferentes. Fazer com que os alunos tenham conhecimento deles \u00e9 muito importante, porque isso pode ajudar na sua forma\u00e7\u00e3o espiritual. Do ponto de vista das religi\u00f5es, ali\u00e1s, hoje a converg\u00eancia se d\u00e1 muito no aspecto \u00e9tico.<\/p>\n<p>Desde que o papa Jo\u00e3o XXIII convocou o Conc\u00edlio Vaticano II , que se reuniu no come\u00e7o dos anos 1960, houve um processo de di\u00e1logo fant\u00e1stico entre as grandes religi\u00f5es, o assim chamado ecumenismo, pelo qual, por exemplo, os cat\u00f3licos pararam de amaldi\u00e7oar durante a missa os judeus. Tamb\u00e9m pararam de dizer que praticantes de outras vertentes crist\u00e3s, ou de outras religi\u00f5es, iriam direto para o inferno, e come\u00e7aram a encontrar pontos comuns. O principal ponto de converg\u00eancia dessas v\u00e1rias religi\u00f5es \u00e9 a quest\u00e3o \u00e9tica. N\u00e3o \u00e9 sequer a quest\u00e3o de todos aceitarem um criador, um deus \u00fanico, porque h\u00e1 religi\u00f5es, como o budismo, que n\u00e3o t\u00eam o criador e h\u00e1 religi\u00f5es, como as afro-brasileiras, que n\u00e3o s\u00e3o monote\u00edstas, mas h\u00e1 uma converg\u00eancia muito forte na quest\u00e3o do Bem, na quest\u00e3o da \u00e9tica etc. Isso \u00e9 muito interessante, vale a pena estudar.<\/p>\n<h3>G\u00eanero<\/h3>\n<p>Quanto \u00e0s quest\u00f5es de g\u00eanero: o papel b\u00e1sico da escola, de qualquer ordem que seja, \u00e9 aceitar a pessoa na sua diversidade. A escola deve ser acolhedora, ela n\u00e3o pode ser discriminadora. Essa \u00e9 a quest\u00e3o crucial. Obviamente a escola n\u00e3o deve doutrinar em nenhuma dire\u00e7\u00e3o, mas deve dar espa\u00e7o para a diversidade se manifestar sem repress\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Outro ponto que gerou muitas cr\u00edticas ao Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o foi a antecipa\u00e7\u00e3o do per\u00edodo de alfabetiza\u00e7\u00e3o completa das crian\u00e7as. O que est\u00e1 em jogo e quais os limites dessa proposta?<\/strong><br \/>\n<strong>Renato Janine Ribeiro \u2013<\/strong>\u00a0A alfabetiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o muito complexa. N\u00f3s temos um grande sucesso no Cear\u00e1, onde o Governo Cid Gomes desenvolveu um projeto muito bom, j\u00e1 iniciado em 2007, de alfabetiza\u00e7\u00e3o na idade certa. Isso faz com que as escolas p\u00fablicas assegurem que, aos oito anos, at\u00e9 o final do terceiro ano do Ensino Fundamental, as crian\u00e7as saibam ler, escrever e fazer as quatro opera\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de matem\u00e1tica. Significa que s\u00e3o tr\u00eas anos para uma escola p\u00fablica atender esse objetivo da alfabetiza\u00e7\u00e3o integral na idade certa. Mas mesmo isso est\u00e1 muito dif\u00edcil de se conseguir no Brasil como um todo. Os dados da Avalia\u00e7\u00e3o Nacional de Alfabetiza\u00e7\u00e3o &#8211; ANA, de 2015, indicavam que 22% desses alunos n\u00e3o sabiam ler, 35% n\u00e3o sabiam escrever de maneira plenamente satisfat\u00f3ria e 57% n\u00e3o dominavam a matem\u00e1tica necess\u00e1ria para essa faixa de idade. E esse volume muito alto de analfabetos \u00e9 extremamente preocupante, porque mais ou menos condena as crian\u00e7as a um futuro mais pobre do que aquelas que acompanharam a forma\u00e7\u00e3o desejada.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o est\u00e1 conseguindo alfabetizar em tr\u00eas anos. Mesmo assim, considero que a meta de obter alfabetiza\u00e7\u00e3o em dois anos \u00e9 muito boa. Nesse ponto, estou de acordo quanto a se procurar fazer isso ao longo dos seis e sete anos de idade. Agora, o problema \u00e9 que se n\u00e3o conseguimos alfabetizar em tr\u00eas anos, apesar de todo empenho que o governo anterior colocou nisso, reduzir para dois anos exigir\u00e1 ainda mais empenho. E, nesse sentido, o Brasil carece de v\u00e1rias compet\u00eancias. Inclusive porque, desde que acabou o Curso Normal, que era um curso de n\u00edvel m\u00e9dio, e a forma\u00e7\u00e3o dos professores passou a ser de n\u00edvel superior, a quest\u00e3o da alfabetiza\u00e7\u00e3o foi um tanto desconsiderada. N\u00f3s temos que retomar a quest\u00e3o da alfabetiza\u00e7\u00e3o como decisiva. Ali\u00e1s, isso j\u00e1 foi iniciado tanto com o Pacto Nacional pela Educa\u00e7\u00e3o na Idade Certa, adotado em 2013, quanto pela Avalia\u00e7\u00e3o Nacional da Alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como imagina que a BNCC vai impactar a forma\u00e7\u00e3o de professores? Quais os maiores desafios para a forma\u00e7\u00e3o docente em nosso tempo?<\/strong><br \/>\n<strong>Renato Janine Ribeiro \u2013<\/strong>\u00a0A Base realmente \u00e9 para a forma\u00e7\u00e3o de professores e para forma\u00e7\u00e3o de material did\u00e1tico. Na hora em que voc\u00ea decide o que os alunos devem aprender em cada \u00e9poca de sua vida, tamb\u00e9m decide como devem ser formados os professores. Por exemplo, se afirmamos, no caso da Hist\u00f3ria, que n\u00e3o pode ser apenas a Hist\u00f3ria Ocidental, mas tem que ser a hist\u00f3ria do mundo inteiro, e n\u00e3o pode ser apenas a hist\u00f3ria dos poderosos, mas tem que ser a hist\u00f3ria dos povos, \u00e9 claro que sinaliza para as faculdades que formam professores de Hist\u00f3ria o caminho que deve ser seguido para ensinar seus alunos. Esse \u00e9 o ponto na forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os gestores, nesse caso estou falando do MEC, dos secret\u00e1rios municipais e estaduais de Educa\u00e7\u00e3o, todos os quais ocupam seus cargos indicados por governantes eleitos \u2013 e que, portanto, t\u00eam um dever importante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e \u00e0 legitimidade democr\u00e1tica por terem sido indicados a partir de uma escolha do povo. Eles querem que se aprenda mais como ensinar. O problema s\u00e9rio que gera muita discuss\u00e3o \u00e9 que, na forma\u00e7\u00e3o de professores, nem sempre se aprende como ensinar, seja Hist\u00f3ria, Geografia ou Filosofia. A Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior &#8211; Capes fez um trabalho muito bom nos \u00faltimos anos com os chamados \u201cPROF\u2019s\u201d, que s\u00e3o mestrados profissionais criados para formar melhor os professores. Isso est\u00e1 caminhando, mas h\u00e1 uma discuss\u00e3o frequente com algumas faculdades de Educa\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o concordam muito com isso. Esse \u00e9 um ponto que precisa ser resolvido.<\/p>\n<h3>Material did\u00e1tico<\/h3>\n<p>H\u00e1, ainda, outro aspecto que n\u00e3o foi mencionado na pergunta, mas que tenho que destacar: o material did\u00e1tico. Esse material tem que ser reformulado com as \u00eanfases novas que a base vai indicar e tamb\u00e9m com o seu suporte eletr\u00f4nico. N\u00e3o podemos pensar s\u00f3 no material did\u00e1tico em papel. Provavelmente o mais adequado, especialmente nos primeiros anos vindouros, seria termos o livro em papel e tamb\u00e9m tudo isso num tablet, o que trar\u00e1 in\u00fameras vantagens. No tablet \u00e9 poss\u00edvel ter links para ampliar os conhecimentos, podem ocorrer atualiza\u00e7\u00f5es do material, pode haver uma refer\u00eancia a tudo que representa exerc\u00edcio e conte\u00fado adicional.<\/p>\n<p>O tablet \u00e9 muito rico, mas substituir o papel pelo tablet seria muito arriscado, at\u00e9 porque n\u00e3o sabemos ainda qual ser\u00e1 a rea\u00e7\u00e3o dos alunos, em que medida a paix\u00e3o deles pelo eletr\u00f4nico vai ser bem-sucedida ou n\u00e3o. Veja o livro eletr\u00f4nico: o Kindle n\u00e3o emplacou. O e-book est\u00e1 h\u00e1 dez anos no mercado e n\u00e3o passa de 10% das vendas desse mercado editorial, mesmo nos Estados Unidos, Europa etc. N\u00e3o podemos correr riscos tolos; o mais simples seria manter o papel, acrescentarmos o tablet e depois verificarmos como est\u00e1 funcionando, em que faixas et\u00e1rias, em que mat\u00e9rias, em que regi\u00f5es do pa\u00eds. Isso porque, pelo menos quando eu era ministro, n\u00e3o havia ainda pesquisas conclusivas, nacionais ou internacionais, sobre a prefer\u00eancia dos alunos, conforme a s\u00e9rie, por material em papel ou em tablet. Vamos ter que experimentar e aprender o que \u00e9 melhor.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quais os maiores avan\u00e7os e limites do Brasil no campo da Educa\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos anos?<\/strong><br \/>\n<strong>Renato Janine Ribeiro \u2013<\/strong>\u00a0Os avan\u00e7os da Educa\u00e7\u00e3o no Brasil, nos \u00faltimos anos, foram in\u00fameros. O Brasil, durante os governos Lula e Dilma, n\u00e3o s\u00f3 deu continuidade a um \u00eaxito do Governo Fernando Henrique, que foi a universaliza\u00e7\u00e3o do Ensino Fundamental, como tamb\u00e9m aumentou esse Ensino Fundamental, que era de oito anos e passou para nove. E isso ainda conseguindo manter a universaliza\u00e7\u00e3o nesse ano suplementar, fazendo com que o Ensino Fundamental comece aos seis anos de idade e n\u00e3o mais aos sete. Tamb\u00e9m ampliou a obrigatoriedade para a pr\u00e9-escola, come\u00e7ando aos quatro e cinco anos de idade, o Ensino M\u00e9dio de 15 a 17, faixas em que conseguiu mais de 80% de matr\u00edcula. Criou, ainda, o piso nacional de sal\u00e1rios, melhorando o pagamento de um bom n\u00edvel de professores; criou o Programa Integrado de Bolsa de Inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 Doc\u00eancia &#8211; Pibid, estimulando os alunos de gradua\u00e7\u00e3o a se tornarem professores na rede p\u00fablica; criou indicadores poderosos da qualidade da educa\u00e7\u00e3o, dos quais o \u00cdndice de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica &#8211; Ideb \u00e9 o mais conhecido, criou o Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio &#8211; Enem, que tamb\u00e9m universaliza toda a aferi\u00e7\u00e3o da conclus\u00e3o do Ensino M\u00e9dio, bem como a entrada no Ensino Superior federal e, muitas vezes, privado. E, para concluir a parte da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica, o Ideb mostra que foi melhorando a qualidade da educa\u00e7\u00e3o, apesar de muita gente ser pessimista e falar coisas exageradas.<\/p>\n<p>Agora, ele foi mais bem-sucedido na expans\u00e3o do n\u00edvel Superior. T\u00ednhamos 100 mil vagas de ingresso por ano no Ensino Superior p\u00fablico e passamos para 230 mil, mais que dobramos. Isso, por sinal, veio junto com o programa de cotas que, ao contr\u00e1rio do que muita gente pensa, n\u00e3o s\u00e3o cotas \u00e9tnicas. S\u00e3o cotas, antes de mais nada, para a escola p\u00fablica. Metade das vagas nas institui\u00e7\u00f5es federais \u00e9 oferecida para escolas p\u00fablicas. Ningu\u00e9m foi prejudicado. Cotas n\u00e3o tiraram o acesso de ningu\u00e9m \u00e0 universidade, porque as vagas mais que dobraram. E essa amplia\u00e7\u00e3o do Ensino Superior tamb\u00e9m se deu com a cria\u00e7\u00e3o de 18 universidades novas, elevando o n\u00famero para 63.<\/p>\n<h3>Limites<\/h3>\n<p>Um upgrade importante foi feito nas antigas escolas federais de Ensino T\u00e9cnico, que viraram Institutos Federais de Ci\u00eancia e Tecnologia \u2013 hoje s\u00e3o 38, e com um bom contingente de alunos. Mas tudo isso mostra tamb\u00e9m qual o grande limite. Apesar de demandar esfor\u00e7os gigantescos, foi mais f\u00e1cil conseguir expandir o Ensino Superior do que mexer na Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica de maneira radical. E isso tem muitas raz\u00f5es. O Ensino Superior \u00e9 menor, seja ele qual for. Compare com o Ensino M\u00e9dio, com seus 8 milh\u00f5es de alunos, dos quais 7 milh\u00f5es v\u00eam dos estados. Mas tem que haver uma mudan\u00e7a no Ensino M\u00e9dio. \u00c9 o que est\u00e1 sendo feito pelo atual governo, mas com alguns equ\u00edvocos.<\/p>\n<p>H\u00e1 o equ\u00edvoco de gest\u00e3o, que \u00e9 mudar as mat\u00e9rias que ser\u00e3o estudadas no meio do segundo ano. Significa que haver\u00e1 professores ociosos, sem carga hor\u00e1ria na primeira metade do ano, e outros com o mesmo problema na segunda metade, ao mesmo tempo em que haver\u00e1 professores que dar\u00e3o mais aulas no primeiro semestre e outros que dar\u00e3o mais aulas no segundo semestre. Esse \u00e9 um problema de gest\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 outro grande problema. As cinco \u00e1reas de \u00eanfases: Linguagens, Ci\u00eancias Humanas, Ci\u00eancias da Natureza, Matem\u00e1tica e Ensino T\u00e9cnico n\u00e3o comp\u00f5em cinco tipos de cursos poss\u00edveis. Elas comp\u00f5em talvez tr\u00eas. Talvez T\u00e9cnico, talvez Humanas junto com Linguagens, talvez Matem\u00e1tica junto com Ci\u00eancias da Natureza. E n\u00e3o est\u00e1 claro como tudo isso vai funcionar. H\u00e1 o risco de que v\u00e1rias mat\u00e9rias n\u00e3o sejam lecionadas em nenhuma escola de uma cidade ou mesmo de uma regi\u00e3o. Ainda, se n\u00e3o houver n\u00famero de alunos suficientes para formar duas turmas, talvez seja uma turma s\u00f3 que se forme. Ent\u00e3o, h\u00e1 problemas a\u00ed. O que \u00e9 certo \u00e9 que 13 mat\u00e9rias no Ensino M\u00e9dio n\u00e3o d\u00e1.<\/p>\n<p>E tenho insistido: o Ensino M\u00e9dio n\u00e3o pode ter 13 mat\u00e9rias que s\u00e3o introdu\u00e7\u00f5es aos cursos de gradua\u00e7\u00e3o com o mesmo nome. Filosofia, por exemplo, n\u00e3o pode ser um resumo do curso de gradua\u00e7\u00e3o de Filosofia. E nem F\u00edsica, nem Qu\u00edmica, nem Hist\u00f3ria. Tem que ser mat\u00e9ria \u00fatil, adequada para o aluno dessa idade. E isso \u00e9 uma evolu\u00e7\u00e3o que vai depender da base curricular do Ensino M\u00e9dio. Eu tenho um pouco de receio quanto a isso, porque n\u00e3o vejo muita gente disposta a pensar nessa linha que estou expondo, que me parece a mais razo\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Vivemos um tempo de disputas polares, contexto em que o tema da Educa\u00e7\u00e3o passou a ser discutido por qualquer pessoa e, muitas vezes, confundindo pol\u00edticas educacionais e ideologia. O senhor chegou a declarar que o problema \u00e9 que pessoas que detestam Educa\u00e7\u00e3o est\u00e3o discutindo o tema. Como compreender esse cen\u00e1rio? E qual a quest\u00e3o de fundo desses debates?<\/strong><br \/>\n<strong>Renato Janine Ribeiro \u2013<\/strong>\u00a0Estou terminando um livro sobre minha experi\u00eancia no Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e h\u00e1 uma parte em que discuto quem s\u00e3o os atores da Educa\u00e7\u00e3o. Entre os atores da Educa\u00e7\u00e3o temos os gestores p\u00fablicos, o MEC, as secretarias estaduais e municipais de Educa\u00e7\u00e3o, os institutos de pesquisa privados que procuram ajudar e dialogam bem com o setor p\u00fablico e temos os professores e os funcion\u00e1rios, pensando sobretudo na rede b\u00e1sica, que \u00e9 mais numerosa, que t\u00eam um di\u00e1logo com o setor p\u00fablico mais dif\u00edcil e, \u00e0s vezes, tenso.<\/p>\n<p>\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, que tem que ser melhorada, tanto com melhor qualifica\u00e7\u00e3o de professores e funcion\u00e1rios quanto com melhor remunera\u00e7\u00e3o. Agora, h\u00e1 um ator, que s\u00e3o os pais dos alunos, que est\u00e1 muito por fora da discuss\u00e3o educacional. Isso porque os pais, na maior parte, tiveram uma educa\u00e7\u00e3o inferior \u00e0 que os filhos est\u00e3o tendo \u2013 porque, cada vez mais, crian\u00e7as de um perfil socioecon\u00f4mico que nunca ia \u00e0 escola est\u00e3o estudando \u2013 ou porque os pais n\u00e3o sabem do que se trata. Eu sempre defendi a participa\u00e7\u00e3o ativa dos pais, porque s\u00e3o eles que v\u00e3o cobrar que o governo dedique mais empenho \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e s\u00e3o eles que tamb\u00e9m v\u00e3o cobrar dos professores se houver uma greve que se alongar e prejudicar os filhos. Ent\u00e3o s\u00e3o os pais, no meio dessa discuss\u00e3o, que podem praticamente resolver.<\/p>\n<p>Entretanto, quando a participa\u00e7\u00e3o dos pais come\u00e7ou a ocorrer, foi atrav\u00e9s de dois temas que, a meu ver, s\u00e3o contra a Educa\u00e7\u00e3o. O primeiro foi o combate \u00e0 \u201cideologia de g\u00eanero\u201d, quando os planos de Educa\u00e7\u00e3o estavam sendo discutidos, e, mais recentemente, o grupo escola sem partido. Assim, h\u00e1 uma atua\u00e7\u00e3o de grupos que pedem que a Educa\u00e7\u00e3o seja exatamente o que ela n\u00e3o pode ser. Educar em latim vem de \u201cex\u201d mais \u201cducere\u201d, que quer dizer \u201csair de dentro para fora\u201d. Esse \u00e9 o significado literal de educar. Educar \u00e9 abrir para o mundo. Significa fazer a pessoa sair de seu mundo fechado e abrir-se para um mundo mais amplo, mais abrangente.<\/p>\n<p>Portanto, \u00e9 \u00f3bvio que a pessoa vai descobrir que, al\u00e9m dos heterossexuais, h\u00e1 homossexuais, h\u00e1 outras orienta\u00e7\u00f5es sexuais. \u00c9 \u00f3bvio que a pessoa vai descobrir que os fen\u00f4menos sociais e mesmo naturais t\u00eam interpreta\u00e7\u00f5es. \u00c9 \u00f3bvio que as pessoas v\u00e3o sair do universo apenas da fam\u00edlia ou do grupo ao qual pertencem. A vida \u00e9 assim, e a educa\u00e7\u00e3o, na verdade, \u00e9 o que melhora a vida. Ao inv\u00e9s de voc\u00ea aprender isso apenas porque foi passando a vida, voc\u00ea aprende segundo a ci\u00eancia, com bons professores, conhecimento e tudo o mais.<\/p>\n<p>Da\u00ed a minha preocupa\u00e7\u00e3o com esses movimentos que perdem o foco do que \u00e9 educa\u00e7\u00e3o. Eles levam a uma situa\u00e7\u00e3o curiosa. Eles dizem ser contr\u00e1rios \u00e0 doutrina\u00e7\u00e3o, mas s\u00e3o extremamente doutrinadores. Querem que uma doutrina tradicional permane\u00e7a. Isso \u00e9 ruim para a democracia e \u00e9 ruim para a economia, porque se nossos alunos n\u00e3o tiverem esp\u00edrito cr\u00edtico, n\u00e3o tiverem conhecimento de mundo, n\u00e3o se abrirem para a diversidade, nossa economia n\u00e3o vai melhorar. Precisamos de pessoas que pensem, e a educa\u00e7\u00e3o ajuda a pensar. N\u00e3o se pode ficar no conformismo, na repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como superar essa pouca disposi\u00e7\u00e3o para o di\u00e1logo, uma das marcas de nosso tempo, tanto no Brasil como no mundo?<\/strong><br \/>\n<strong>Renato Janine Ribeiro \u2013<\/strong>\u00a0Essa quest\u00e3o est\u00e1 muito dif\u00edcil, o Brasil est\u00e1 muito dividido, se fraturou pelo \u00f3dio nos \u00faltimos anos, por causa de pol\u00edtica. Um lado significativo da opini\u00e3o p\u00fablica se op\u00f4s radicalmente ao governo eleito em 2014, levando a sucessivas manifesta\u00e7\u00f5es na rua e a sua destitui\u00e7\u00e3o. Destitui\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m se deu pelo fato de que aqueles que foram beneficiados mais pelos programas dos governos petistas ficaram insatisfeitos com a maneira como a presidente Dilma lidou com a crise econ\u00f4mica depois da sua reelei\u00e7\u00e3o, uma vez que ela nem explicou direito o que estava acontecendo e foi mudando as pol\u00edticas. O governo estava muito fraco e essas pessoas adquiriram um \u00f3dio que parece ser mantido, em boa parte, em resposta ao que os 12, 13 anos de governo petista representaram.<\/p>\n<p>Por outro lado, as pessoas que apoiaram o governo eleito e que se op\u00f5em \u00e0s pol\u00edticas do governo atual por consider\u00e1-las ileg\u00edtimas, porque s\u00e3o pol\u00edticas exatamente opostas \u00e0 que foi votada em 2014 e tamb\u00e9m porque veem o retrocesso em muito do que diz respeito ao conte\u00fado da educa\u00e7\u00e3o, ao respeito dos costumes diferentes etc., essas pessoas tamb\u00e9m n\u00e3o sentem disposi\u00e7\u00e3o para o di\u00e1logo com os inimigos de ontem e que continuam sendo inimigos hoje.<\/p>\n<p>Assim, o Brasil est\u00e1 rachado em torno de inimizades. Amizades pessoais se romperam, pessoas n\u00e3o apenas deletaram o outro do Facebook, mas de suas vidas. Como essa situa\u00e7\u00e3o vai ser resolvida? Eu n\u00e3o sei, vai ser dif\u00edcil, vai ser demorado, mas n\u00e3o temos alternativa. Temos que recuperar o di\u00e1logo no Brasil e temos que ser capazes de avan\u00e7ar neste pa\u00eds. A educa\u00e7\u00e3o pode dar uma ajuda nisso, porque um dos pontos que pode melhorar o di\u00e1logo \u00e9 fazer as pessoas se tornarem mais aptas a ouvir os argumentos das outras. N\u00e3o apenas repetir como papagaios, n\u00e3o gritar. Por isso acho que liberdade de express\u00e3o s\u00f3 faz sentido quando h\u00e1 di\u00e1logo. A liberdade de express\u00e3o sem di\u00e1logo \u00e9 est\u00e9ril. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o deva haver liberdade de express\u00e3o! Ela deve ser preservada, mas a finalidade dela n\u00e3o \u00e9 ter dez pessoas gritando, cada uma sozinha e nenhuma escutando. A finalidade dela \u00e9 as pessoas dialogarem, conversarem, se respeitarem, se corrigirem, caminharem juntas, firmarem acordos, compromissos e, com isso, melhorarem o mundo.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/7146-num-brasil-sem-dialogo-escola-vira-arena-para-disputas<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Vitor Santos &#8211;\u00a0Renato Janine Ribeiro observa como discuss\u00f5es da Base Comum Curricular revelam o verdadeiro racha pelo qual passa o pa\u00eds A escola deve ser o espa\u00e7o livre para a manifesta\u00e7\u00e3o da diversidade, sem qualquer tipo de repress\u00e3o. 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