{"id":7652,"date":"2018-03-30T18:35:10","date_gmt":"2018-03-30T21:35:10","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=7652"},"modified":"2018-03-30T18:32:28","modified_gmt":"2018-03-30T21:32:28","slug":"como-e-ser-negro-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/03\/30\/como-e-ser-negro-no-brasil\/","title":{"rendered":"Como \u00e9 ser negro no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><strong>Milton Santos<\/strong> &#8211;\u00a0O professor Florestan Fernandes e o professor Otavio Ianni, escreveram ambos que os Brasileiros, de um modo geral, n\u00e3o t\u00eam vergonha de ser racista, mas t\u00eam vergonha de se dizer que s\u00e3o racistas.<\/p>\n<div>Eu tive a sorte de ser negro em pelo menos quatro continentes e em cada um desses \u00e9 diferente ser negro e; \u00e9 diferente ser negro no Brasil. Evidente que a hist\u00f3ria de cada um de n\u00f3s tem uma papel haver com a maneira como cada um de n\u00f3s agimos como indiv\u00edduo, mas a maneira como a sociedade se organiza que d\u00e1 as condi\u00e7\u00f5es objetivas para que a situa\u00e7\u00e3o possa ser tratada analiticamente permitindo o consequente, um posterior tratamento pol\u00edtico. Porque a pol\u00edtica para ser eficaz depende de uma atividade acad\u00eamica&#8230; acad\u00eamica eficaz! A pol\u00edtica funciona assim! A quest\u00e3o negra n\u00e3o escapa a essa condi\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9 complicada porque os negros sempre foram tratados de forma muito amb\u00edgua\u00a0<a href=\"https:\/\/www.blogger.com\/blogger.g?blogID=6979423261315743248\">. Essa ambiguidade com que essa quest\u00e3o foi sempre tratada \u00e9 o fato de que o brasileiro tem enorme dificuldade de exprimir o que ele realmente pensa da quest\u00e3o.\u00a0<\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div>O professor Florestan Fernandes e o professor Otavio Ianni, escreveram ambos que os Brasileiros, de um modo geral, n\u00e3o t\u00eam vergonha de ser racista, mas t\u00eam vergonha de se dizer que s\u00e3o racistas. E acho que isso \u00e9 algo permanente das rela\u00e7\u00f5es inter-\u00e9tnicas no Brasil e que traz uma dificuldade de aproxima\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o e da an\u00e1lise, inclusive dos pr\u00f3prios negros, que podem se deixar possuir por uma forma de rea\u00e7\u00e3o puramente emocional diante da quest\u00e3o, dentro do problema, quando \u00e9 necess\u00e1rio buscar, analisar, a condi\u00e7\u00e3o do negro dentro da forma\u00e7\u00e3o social brasileira. Porque a pol\u00edtica n\u00e3o se faz no mundo, n\u00e3o \u00e9 no mundo que dita as regras da pol\u00edtica que se faz em cada pa\u00eds. E n\u00e3o \u00e9 o outro continente. N\u00e3o \u00e9 o olhar para a \u00c1frica que vai ajudar na produ\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica brasileira para o negro, nem um olhar para os Estados Unidos\u00a0que vai tamb\u00e9m permitir essa produ\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica. \u00c9 o estudo do negro dentro da sociedade brasileira. \u00c9 evidente que esse estudo passa pela categoria que se chama \u201cforma\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica\u201d, a qual eu modifiquei propondo a categoria de \u201cforma\u00e7\u00e3o socioespacial\u201d, porque eu creio que o territ\u00f3rio tem um papel muito grande na compreens\u00e3o do que \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A forma\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica ela tem rela\u00e7\u00f5es com todo o mundo. \u00c9 evidente que o porte africano no Brasil ele vai ter um papel na compreens\u00e3o com o que se passa no Brasil, como o aporte europeu e hoje o aporte estadunidense. Mas isso resulta numa produ\u00e7\u00e3o que se chama \u201co Brasil\u201d. \u00c9 nele que eu quero estar como brasileiro integral! \u00c9 nele que devemos estar, todos, independente da nossas origens \u00e9tnicas, como brasileiros integrais, sem servos olhados vesgamente em fun\u00e7\u00e3o de nossa, repito, origem \u00e9tnica. Por conseguinte esse tipo de aproxima\u00e7\u00e3o que eu privilegio naquilo que eu fa\u00e7o, e fa\u00e7o pouco porque n\u00e3o sou um especialista da quest\u00e3o negra. Eu sou apenas um negro a mais no Brasil que tem uma experi\u00eancia de ser negro, mas que n\u00e3o sou especialista da quest\u00e3o negra. O meu trabalho, como todo mundo sabe, \u00e9 outro, eu me especializei em outra coisa, \u00e9 a minha hist\u00f3ria, mas n\u00e3o sou indiferente a essa quest\u00e3o, longe disto. Creio que as contribui\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas que por ventura tenha elaborado para o entendimento da sociedade possa ser de alguma valia no tratamento da quest\u00e3o do negro no Brasil; que n\u00e3o ser\u00e1 resolvido se os negros forem sozinhos na luta. A luta dos negros s\u00f3 pode ter efic\u00e1cia se envolver todos os brasileiros, inclusive os negros, mas n\u00e3o s\u00f3 os negros. N\u00e3o cabe aos negros, ali\u00e1s, fazer essa luta. Essa luta tem que ser feita sobretudo por todos. Creio que essa etapa seguinte, a de reclamar de todos que participem; e n\u00e3o s\u00f3 em um dia ou uma semana. Eu n\u00e3o tenho simpatia por treze de maio e nem semana do m\u00eas de novembro, porque tenho uma enorme dificuldade em aceitar que o pa\u00eds celebre uma semana, celebre um dia e os resto dos 357 dias se descuide da quest\u00e3o. Eu creio que \u00e9 importante que haja esses dias no sentido de mobiliza\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que a mobiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 obrigatoriamente aquilo que produz a consci\u00eancia. Com frequ\u00eancia a mobiliza\u00e7\u00e3o cria um el\u00e3 emocional e o que permite uma luta continuada \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia que n\u00e3o pode ser, digamos, obtida em um dia, treze de maio, uma semana, semana da consci\u00eancia negra, por que n\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de consci\u00eancia negra, \u00e9 quest\u00e3o de consci\u00eancia nacional; o negro sabe perfeitamente a sua situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que eu me recuso a vir em reuni\u00f5es como essa, ou quando me convidam na imprensa ou na televis\u00e3o, a ficar choramingando, \u201cah n\u00f3s somos assim, somos acol\u00e1, n\u00f3s estamos em baixo\u201d. Todo mundo sabe disso, ent\u00e3o vamos usar o tempo para outro tipo de preocupa\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Inclusive como estava dizendo a um colega da Bahia, da gloriosa universidade da Bahia, onde eu foi aluno de meu filho, que para mim \u00e9 uma grande satisfa\u00e7\u00e3o intelectual e moral, que a quest\u00e3o passa por a\u00ed, da quest\u00e3o do negro brasileiro, porque assim que me intitulo, eu sou um negro brasileiro, n\u00e3o quero ser outra coisa se n\u00e3o um negro brasileiro, mas quero ser um brasileiro integral. A luta que tem que ser feita passa por criar uma consci\u00eancia nacional e n\u00e3o, digamos, nos limitarmos a uma produ\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia negra, porque os negros j\u00e1 est\u00e3o cansados de saber qual \u00e9 sua condi\u00e7\u00e3o na sociedade. Para isso \u00e9 necess\u00e1rio preparar outro discurso.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Eu estou muito mal satisfeitos com maior parte dos discursos dos movimentos negros porque s\u00e3o repetitivos esses discursos, s\u00e3o pobres e n\u00e3o s\u00e3o mobilizadores realmente, exceto para choramingas. De que adianta continuar dizendo que os negros ganham menos no mercado de trabalho? Muito pouco! Todo mundo j\u00e1 sabe disso. Com pequenas varia\u00e7\u00f5es \u00e9 a mesma coisa sempre. De que adianta sair dizendo que h\u00e1 um preconceito aberto ou larvar? Todo mundo sabem disse, inclusive aqueles que comentem sabem que est\u00e3o fazendo preconceito; muitos n\u00e3o sabem. Ai entra o papel de outro discurso, que \u00e9 o discurso da conscientiza\u00e7\u00e3o a partir de novas palavras de ordem. Por exemplo, pe\u00e7o desculpa por falar de mim mesmo, mas quando nessa entrevista que tive o prazer de d\u00e1 ao Roberto D\u2019Abila que me perguntou a respeito do ressentimento dos negros em rela\u00e7\u00e3o a sociedade branca. Eu disse, n\u00e3o, ao contr\u00e1rio, s\u00e3o os brancos que t\u00eam o ressentimento com rela\u00e7\u00e3o os negros que conseguem acender socialmente, que j\u00e1 era um ensaio de produzir um outro discurso. Eu n\u00e3o vou aceitar discutir que os negro tem ressentimento por uma maneira muito simples: porque o nosso ressentimento, se existe, ele n\u00e3o \u00e9 eficaz, ele n\u00e3o tem poder. O ressentimento que tem efic\u00e1cia \u00e9 do que tem poder. Ent\u00e3o quando eu falo que \u00e9 o branco que tem ressentimento, e tem, em rela\u00e7\u00e3o ao negro que triunfa, n\u00e3o digo o branco em geral, mas um bonito grupo de pessoas brancas\u00a0. \u00c9 para exatamente reverter o discurso. \u00c9 um exemplo de, como creio, que haveria que trabalhar nessa coisa do discurso que acho muito importante, inclusive para a recria\u00e7\u00e3o daquilo que repetem com muita frequ\u00eancia, a quest\u00e3o da autoestima. A autoestima ela pode ser parcialmente enfrentada a partir de outro discurso tamb\u00e9m. \u00c9 isso, por isso, que n\u00e3o perdoo ao governo federal, e aos governos estaduais, que n\u00e3o p\u00f5em seu recursos jornal\u00edsticos a disposi\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o do discurso da autoestima, o que n\u00e3o custaria muito, mas que tem que ver com as condi\u00e7\u00f5es de nosso tempo, que tem que ser analisada e se propor outra coisa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>https:\/\/jornalggn.com.br\/noticia\/como-e-ser-negro-no-brasil-por-milton-santos<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Milton Santos &#8211;\u00a0O professor Florestan Fernandes e o professor Otavio Ianni, escreveram ambos que os Brasileiros, de um modo geral, n\u00e3o t\u00eam vergonha de ser racista, mas t\u00eam vergonha de se dizer que s\u00e3o racistas. 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