{"id":7579,"date":"2018-03-22T12:35:02","date_gmt":"2018-03-22T15:35:02","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=7579"},"modified":"2018-03-21T12:37:47","modified_gmt":"2018-03-21T15:37:47","slug":"comparato-2016-a-grande-revanche-oligarquica%ef%bb%bf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/03\/22\/comparato-2016-a-grande-revanche-oligarquica%ef%bb%bf\/","title":{"rendered":"Comparato: 2016, a grande revanche olig\u00e1rquica\ufeff"},"content":{"rendered":"<p><strong>F\u00e1bio Konder Comparato<\/strong>\u00a0&#8211;\u00a0Como o t\u00edmido ascenso das maiorias desencadeou a rea\u00e7\u00e3o do empresariado, da m\u00eddia e dos setores mais antidemocr\u00e1ticos do Estado. O papel dos Estados Unidos. O risco de um longo retrocesso.<\/p>\n<p><strong>A reconstitucionaliza\u00e7\u00e3o do Estado em 1988\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>No texto da nova Constitui\u00e7\u00e3o, promulgada em 5 de outubro de 1988, foram declarados os princ\u00edpios fundamentais a reg\u00ea-la; a saber, a Rep\u00fablica, a Democracia e o Estado de Direito. De acordo, por\u00e9m, com a inveterada tradi\u00e7\u00e3o brasileira, tais princ\u00edpios servem apenas de bela fachada do edif\u00edcio constitucional, encobrindo a realidade efetivamente vigente, na qual eles s\u00e3o desconsiderados.Com a morte inesperada do Presidente eleito Tancredo Neves, em 21 de abril de 1985, assumiu a presid\u00eancia o Vice-Presidente Jos\u00e9 Sarney. Sua preocupa\u00e7\u00e3o praticamente \u00fanica foi a de repor em funcionamento o sistema pol\u00edtico em vigor antes do golpe militar de 1964, ou seja, olig\u00e1rquico em subst\u00e2ncia e democr\u00e1tico na apar\u00eancia.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 com o princ\u00edpio republicano que, desde a mudan\u00e7a de regime pol\u00edtico em 1889, \u00e9 confundido com o sistema de governo n\u00e3o mon\u00e1rquico. Na nova Constitui\u00e7\u00e3o, declara-se que um dos objetivos fundamentais da Rep\u00fablica Federativa do Brasil consiste em \u201cpromover o bem de todos, sem preconceitos de origem, ra\u00e7a, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discrimina\u00e7\u00e3o\u201d (art. 3\u00ba, IV). Na realidade, por\u00e9m, como j\u00e1 advertira Frei Vicente do Salvador no in\u00edcio do per\u00edodo colonial, \u201cnem um homem nesta terra \u00e9 republico nem zela e trata do bem comum, sen\u00e3o cada um do bem particular\u201d.<\/p>\n<p>O desconhecimento do que \u00e9 um regime autenticamente republicano fica evidente, quando se verifica que a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 n\u00e3o reconhece que o verdadeiro titular dos bens p\u00fablicos \u00e9 o povo \u2013 como bem exprimiu C\u00edcero, com a concis\u00e3o latina, res publica, res Populi \u2013 e que a Uni\u00e3o, os Estados, os Munic\u00edpios e o Distrito Federal nada mais s\u00e3o do que agentes que atuam em nome do povo; ou, como dizem os alem\u00e3es, simples portadores do poder p\u00fablico (Machttr\u00e4gern).<\/p>\n<p>Da mesma sorte, em rela\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio democr\u00e1tico. A partir de 1934, as Constitui\u00e7\u00f5es aqui promulgadas v\u00eam repetindo, sem descontinuar, que \u201ctodo poder emana do povo\u201d. Na atual, precisou-se que ele exerce essa soberania, n\u00e3o apenas por meio de representantes eleitos, mas tamb\u00e9m diretamente (art. 1\u00ba, par\u00e1grafo \u00fanico), por interm\u00e9dio de plebiscitos e referendos. Ao se analisar, por\u00e9m, semanticamente o verbo emanar nessa declara\u00e7\u00e3o constitucional, tem-se a impress\u00e3o de que ele foi empregado mais no sentido de evolar-se, do que no de originar-se.<\/p>\n<p>Com efeito, a Assembleia Constituinte convocada pelo Presidente Jos\u00e9 Sarney em junho de 1985 nada mais era do que o ent\u00e3o Congresso Nacional revestido de poderes constituintes. Quando o povo elegeu os membros desse Congresso, n\u00e3o tinha a menor consci\u00eancia de que aos eleitos caberia a fun\u00e7\u00e3o maior de redigir a nova Constitui\u00e7\u00e3o. Ademais, esta \u00faltima, como todas as que a precederam, n\u00e3o foi aprovada pelo povo. Pior: os redatores da atual Constitui\u00e7\u00e3o, como sucedeu com todas as demais editadas no per\u00edodo p\u00f3s-mon\u00e1rquico, arrogaram-se o poder exclusivo de modific\u00e1-la, sem consulta ao representado. At\u00e9 o momento em que escrevo estas linhas, a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 tem sido emendada (ou remendada) em m\u00e9dia cinco por ano. Em nenhuma dessas ocasi\u00f5es, pensou-se, n\u00e3o j\u00e1 em pedir a aprova\u00e7\u00e3o direta daquele que a Constitui\u00e7\u00e3o declara soberano, isto \u00e9, o povo, mas em pelo menos consult\u00e1-lo para saber sua opini\u00e3o acerca das emendas propostas.<\/p>\n<p>Pode-se mesmo sustentar que a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 ainda n\u00e3o entrou definitivamente em vigor sob o aspecto puramente formal, pois ela continua recebendo \u201cemendas transit\u00f3rias\u201d. Ou seja, continuamos na fase de transi\u00e7\u00e3o de uma Constitui\u00e7\u00e3o a outra\u2026 A norma constitucional transit\u00f3ria mais importante foi a que determinou a defini\u00e7\u00e3o, por meio de plebiscito, da forma (rep\u00fablica ou monarquia) e do sistema de governo (parlamentarismo ou presidencialismo) a vigorar no pa\u00eds; entendendo-se aqui por rep\u00fablica, como foi dito no in\u00edcio deste cap\u00edtulo, n\u00e3o o princ\u00edpio fundamental da absoluta preval\u00eancia do bem comum\u00a0 do povo \u2013 que os romanos denominaram res publica \u2013 sobre todo e qualquer interesse privado, mas sim a atribui\u00e7\u00e3o da chefia do Estado a uma pessoa escolhida pelo povo. Tal plebiscito, realizado no dia 7 de setembro de 1993, optou pela rep\u00fablica (no sentido que acaba de ser exposto) e pelo presidencialismo.<\/p>\n<p>J\u00e1 quanto ao princ\u00edpio pol\u00edtico fundamental da democracia, a inova\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 foi a de explicitar, como formas de exerc\u00edcio da soberania popular, n\u00e3o s\u00f3 o sufr\u00e1gio universal, mas tamb\u00e9m o referendo e o plebiscito. A Lei n. 9.709, de 1998, especificou que o plebiscito \u201c\u00e9 convocado com anterioridade a ato legislativo ou administrativo, cabendo ao povo, pelo voto, aprovar ou denegar o que lhe tenha sido submetido\u201d; ao passo que o referendo \u201c\u00e9 convocado com posterioridade a ato legislativo ou administrativo, cumprindo ao povo a respectiva ratifica\u00e7\u00e3o ou rejei\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Acontece que em seu art. 49, inciso XV a mesma Constitui\u00e7\u00e3o determinou ser da compet\u00eancia exclusiva do Congresso Nacional \u201cautorizar referendo e convocar plebiscito\u201d. Em outras palavras, o povo soberano fica impedido de manifestar sua vontade, a n\u00e3o ser com autoriza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via de seus mandat\u00e1rios no Congresso Nacional. Trata-se, como se v\u00ea, de original cria\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito jur\u00eddico brasileiro!<\/p>\n<p>J\u00e1 quanto ao terceiro princ\u00edpio pol\u00edtico fundamental do Estado moderno, qual seja, a submiss\u00e3o de todo \u00f3rg\u00e3o de poder ao controle jur\u00eddico de outro \u00f3rg\u00e3o, como mecanismo para se evitar o abuso \u2013 o que se denomina em doutrina Estado de Direito \u2013, no regime da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 tal princ\u00edpio foi afastado em rela\u00e7\u00e3o ao Supremo Tribunal Federal e o Presidente da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao Supremo Tribunal Federal, ao se aplicar a nova Constitui\u00e7\u00e3o ficou expl\u00edcito que ele n\u00e3o est\u00e1 sujeito a controle algum no exerc\u00edcio de suas atribui\u00e7\u00f5es. Em outras palavras, trata-se de um \u00f3rg\u00e3o irrespons\u00e1vel, pois ele pr\u00f3prio e cada um dos seus Ministros n\u00e3o respondem de suas decis\u00f5es, atos e omiss\u00f5es perante ningu\u00e9m. Com a cria\u00e7\u00e3o, por efeito da Emenda Constitucional n. 61, de 2009, do Conselho Nacional de Justi\u00e7a (Constitui\u00e7\u00e3o, art. 103-B), encarregado do \u201ccontrole da atua\u00e7\u00e3o administrativa e financeira do Poder Judici\u00e1rio e do cumprimento dos deveres funcionais dos ju\u00edzes\u201d, sup\u00f4s-se que o Supremo Tribunal Federal estaria submetido ao controle desse Conselho, pelo menos no que se refere \u00e0 sua atua\u00e7\u00e3o administrativa e financeira. Doce ilus\u00e3o: ao julgar em 2006 a a\u00e7\u00e3o direta de inconstitucionalidade n. 3.367, o Supremo Tribunal decidiu peremptoriamente que \u201co Conselho Nacional de Justi\u00e7a n\u00e3o tem nenhuma compet\u00eancia sobre o STF e seus ministros\u201d.<\/p>\n<p>Tudo isso, sem falar na escandalosa recusa de nosso tribunal supremo em julgar pleitos em que se questiona a deliberada omiss\u00e3o do Poder Legislativo em regulamentar normas constitucionais contr\u00e1rias aos interesses dos grupos que comp\u00f5em o poder olig\u00e1rquico; como, por exemplo, a determina\u00e7\u00e3o do art. 220, \u00a7 5\u00ba da Constitui\u00e7\u00e3o Federal, que pro\u00edbe sejam os meios de comunica\u00e7\u00e3o social objeto, direta ou indiretamente, de monop\u00f3lio ou oligop\u00f3lio; ou a do art. 153, inciso VII, que atribui \u00e0 Uni\u00e3o Federal a compet\u00eancia para instituir o imposto sobre grandes fortunas.<\/p>\n<p>J\u00e1 quanto ao controle judicial dos atos do Presidente da Rep\u00fablica, a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 reproduziu a norma constante do arremedo de Constitui\u00e7\u00e3o, baixado pelo poder militar em 1967, segundo a qual a den\u00fancia oferecida pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico contra o Presidente pelo cometimento de infra\u00e7\u00f5es penais comuns, antes de ser apresentada ao Supremo Tribunal Federal deve ser submetida \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o de dois ter\u00e7os da C\u00e2mara dos Deputados. Tendo sido denunciado em 2017 pelo Procurador-Geral da Rep\u00fablica pela pr\u00e1tica do crime de corrup\u00e7\u00e3o, o Presidente Michel Temer logrou impedir a abertura do processo-crime no Supremo Tribunal Federal, prodigalizando vantagens indevidas a grande n\u00famero de deputados federais. Em outras palavras, o Chefe do Poder Executivo federal comprou os votos necess\u00e1rios para se safar da acusa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-695439 alignnone\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/sarney.jpg?resize=485%2C237&amp;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 485px) 100vw, 485px\" srcset=\"https:\/\/i2.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/sarney.jpg?resize=485%2C237&amp;ssl=1 485w, https:\/\/i2.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/sarney.jpg?w=615&amp;ssl=1 615w\" alt=\"\" width=\"485\" height=\"237\" \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>O Governo de Jos\u00e9 Sarney<\/strong><\/p>\n<p>Em 1983, nos estertores do regime militar, o Deputado Dante de Oliveira apresentou no Congresso Nacional uma Proposta de Emenda Constitucional, tendo por objetivo o restabelecimento de elei\u00e7\u00f5es diretas para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. N\u00e3o obstante o apoio de mais de 80% do povo brasileiro, a emenda n\u00e3o obteve a maioria especial de dois ter\u00e7os na C\u00e2mara dos Deputados, tendo sido por isso rejeitada. Realizaram-se ent\u00e3o, em 15 de janeiro de 1985 as elei\u00e7\u00f5es indiretas para a chefia do Executivo no plano federal e nos Estados, conforme previsto.<\/p>\n<p>S\u00f3 que dessa vez, pela primeira vez ap\u00f3s mais de 20 anos de regime militar, foi eleito Presidente da Rep\u00fablica um civil, Tancredo Neves que n\u00e3o p\u00f4de, por\u00e9m, tomar posse, tendo falecido em 21 de abril daquele ano. Com isso, foi empossado na Chefia do Executivo federal o Vice-Presidente escolhido pelo col\u00e9gio eleitoral, Jos\u00e9 Sarney.<\/p>\n<p>A disposi\u00e7\u00e3o de \u00e2nimo otimista que tal elei\u00e7\u00e3o suscitou no conjunto da popula\u00e7\u00e3o foi, no entanto, rapidamente dissipada, quando a massa do povo deu-se conta de que suas condi\u00e7\u00f5es de vida eram doravante submetidas aos malef\u00edcios da infla\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria.<\/p>\n<p>Em fevereiro de 1986, o governo de Jos\u00e9 Sarney lan\u00e7ou o Plano Cruzado, na esperan\u00e7a de conter a infla\u00e7\u00e3o e restaurar a confian\u00e7a no desempenho econ\u00f4mico. Al\u00e9m da substitui\u00e7\u00e3o da moeda oficial do pa\u00eds, o cruzeiro, pelo cruzado, estabeleceu-se o congelamento geral de pre\u00e7os por doze meses e a ado\u00e7\u00e3o o \u201cgatilho salarial\u201d, isto \u00e9, o reajuste autom\u00e1tico de sal\u00e1rios sempre que a infla\u00e7\u00e3o atingisse o n\u00edvel de 20%. Em contrapartida, atribuiu-se aos trabalhadores um abono de 12% sobre o valor real dos sal\u00e1rios. O que os economistas do governo n\u00e3o souberam prever foi que o congelamento de pre\u00e7os acabou por distorcer as margens de lucro das empresas, provocando o desinvestimento, a queda de produ\u00e7\u00e3o e uma ampla crise de abastecimento, com o recrudescimento da infla\u00e7\u00e3o, levando \u00e0 generalizada cobran\u00e7a de \u00e1gio em todos os pre\u00e7os.<\/p>\n<p>Diante do fracasso das medidas anti-inflacion\u00e1rias tomadas, o governo decidiu, ao final do mesmo ano de 1986, lan\u00e7ar o Plano Cruzado II, que tampouco logrou deter a infla\u00e7\u00e3o, o que levou \u00e0 decreta\u00e7\u00e3o de uma morat\u00f3ria unilateral em 20 de janeiro de 1987 e ao lan\u00e7amento de mais dois novos programas anti-inflacion\u00e1rios: em abril daquele ano, pelo novo Ministro Bresser Pereira, e em janeiro de 1989 pelo Ministro Ma\u00edlson da N\u00f3brega (o Plano Ver\u00e3o); ambos esses planos igualmente mal sucedidos.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante esse fracasso na pol\u00edtica anti-inflacion\u00e1ria, ou talvez em raz\u00e3o dele, a moeda nacional n\u00e3o foi apreciada como nos anos posteriores, o que provocou bons resultados no com\u00e9rcio exterior. No governo Sarney o Brasil teve o 3\u00ba saldo exportador do mundo. A d\u00edvida externa caiu quase pela metade, e o d\u00e9ficit prim\u00e1rio, que era equivalente a 2,5% do PIB em 1984, foi sucedido por um super\u00e1vit de 0,8% em 1989.<\/p>\n<p>Outro ponto a ser assinalado no governo Sarney foi a consolida\u00e7\u00e3o do oligop\u00f3lio empresarial dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Sob o comando de Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es, Ministro das Comunica\u00e7\u00f5es, foram feitas sem licita\u00e7\u00e3o mais de mil concess\u00f5es de r\u00e1dio e televis\u00e3o em troca de apoio pol\u00edtico ao governo, notadamente para o aumento de um ano do mandato presidencial.<\/p>\n<p>No campo da pol\u00edtica externa, o governo desvinculou-se dos Estados Unidos, o que valeu o estabelecimento de san\u00e7\u00f5es comerciais contra o nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-695440 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/collor.jpg?resize=485%2C199&amp;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 485px) 100vw, 485px\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/collor.jpg?resize=485%2C199&amp;ssl=1 485w, https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/collor.jpg?resize=465%2C190&amp;ssl=1 465w, https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/collor.jpg?w=610&amp;ssl=1 610w\" alt=\"\" width=\"485\" height=\"199\" \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>O Governo Collor de Mello<\/strong><\/p>\n<p>Com a elei\u00e7\u00e3o \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica de Fernando Collor de Mello em 1990, o Brasil entra de pleno vapor no campo do privatismo e do liberalismo econ\u00f4mico mais desbragados. Foram reduzidos os impostos de importa\u00e7\u00e3o e incentivados os investimentos externos, inclusive\u00a0 com a privatiza\u00e7\u00e3o de empresas p\u00fablicas ou o fim do monop\u00f3lio estatal em setores estrat\u00e9gicos, como a explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, energia e minera\u00e7\u00e3o. Com a agravante de que as privatiza\u00e7\u00f5es faziam-se com financiamento do BNDES, ou seja, com dinheiro p\u00fablico, e atingiam empresas estatais lucrativas e competitivas, como a Companhia Vale do Rio Doce e a Companhia Sider\u00fargica Nacional.<\/p>\n<p>Embora toda essa pol\u00edtica de privatiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica tenha beneficiado o setor empresarial e rentista, que passou a liderar o grupo olig\u00e1rquico no poder, grande parte do empresariado e dos capitalistas acabaram rompendo com o governo. Aparentemente, em raz\u00e3o das medidas descontroladas por este tomadas para debelar a infla\u00e7\u00e3o, como o congelamento pelo prazo de dezoito meses dos dep\u00f3sitos banc\u00e1rios superiores a Cr$50.000,00. Mas h\u00e1 quem sustente que a verdadeira raz\u00e3o do abandono do Presidente Collor pela oligarquia foi o fato de que este recusou-se a permitir a participa\u00e7\u00e3o de grande parte dos oligarcas, sobretudo de membros do Congresso Nacional, no vultoso montante de propinas recebidas por Collor e o pequeno c\u00edrculo de seus amigos, das empresas beneficiadas pela corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O caminho estava assim aberto para a destitui\u00e7\u00e3o do Presidente por via do processo de impeachment, aberto no Congresso Nacional em 2 de setembro de 1992 e finalizado em 29 de dezembro do mesmo ano.<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-695441 alignnone\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/itamar.jpg?resize=485%2C273&amp;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 485px) 100vw, 485px\" srcset=\"https:\/\/i2.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/itamar.jpg?resize=485%2C273&amp;ssl=1 485w, https:\/\/i2.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/itamar.jpg?w=597&amp;ssl=1 597w\" alt=\"\" width=\"485\" height=\"273\" \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>O Governo Itamar Franco<\/strong><\/p>\n<p>A grande preocupa\u00e7\u00e3o do governo instaurado no apagar das luzes da presid\u00eancia de Jos\u00e9 Sarney em 1992 foi a de repor o pa\u00eds nos eixos, recriando um m\u00ednimo de racionalidade na gest\u00e3o da coisa p\u00fablica. Em abril de 1993, ou seja, quatro anos e meio ap\u00f3s a promulga\u00e7\u00e3o da nova Constitui\u00e7\u00e3o, as autoridades federais decidem lan\u00e7ar o plebiscito nela previsto, para deliberar sobre o regime pol\u00edtico \u2013 rep\u00fablica ou monarquia \u2013 e sobre o sistema de governo: presidencialismo e parlamentarismo.<\/p>\n<p>Quase um ter\u00e7o dos eleitores deixou de comparecer \u00e0s urnas, o que demonstrou o desinteresse de grande parte dos cidad\u00e3os pelas escolhas pol\u00edticas objeto da decis\u00e3o popular. Em conclus\u00e3o, 66% votaram a favor da rep\u00fablica, contra 10% a favor da monarquia. Quanto ao sistema de governo, o presidencialismo recebeu 55% dos votos, enquanto o parlamentarismo, apoiado por Itamar Franco, 25%. Quando o Vice-Presidente Itamar Franco assumiu a presid\u00eancia, por efeito da destitui\u00e7\u00e3o de Fernando Collor de Mello, a taxa anual da infla\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria chegou a 1100% em 1992 e a 2708,55% no ano seguinte.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante a frequente troca de Ministros da Fazenda, o descontrole monet\u00e1rio s\u00f3 terminou com o lan\u00e7amento do Plano Real em fevereiro de 1994. O plano foi elaborado por uma equipe econ\u00f4mica, da qual faziam parte Persio Arida, Andr\u00e9 Lara Resende, Francisco Lopes, Gustavo Franco, Pedro Malan, Edmar Bacha e Winston Fritsch.<\/p>\n<p>Era ent\u00e3o Ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, mas ele deixou o Minist\u00e9rio em mar\u00e7o daquele ano, ou seja, um m\u00eas ap\u00f3s o lan\u00e7amento do plano, para candidatar-se \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Assumiu ent\u00e3o o minist\u00e9rio o diplomata Rubens Ric\u00fapero, o qual, segundo o presidente Itamar Franco, foi \u201co grande ministro do Plano Real\u201d.<\/p>\n<p>O plano desenrolou-se em tr\u00eas etapas: 1) a fase de equil\u00edbrio das contas p\u00fablicas; 2) a cria\u00e7\u00e3o da Unidade Real de Valor, com o objetivo de preservar o poder de compra, sobretudo da popula\u00e7\u00e3o de baixa renda, excluindo-se a ado\u00e7\u00e3o de medidas de choque, como o chamado confisco da poupan\u00e7a; 3) o lan\u00e7amento do padr\u00e3o monet\u00e1rio at\u00e9 hoje vigente: o real.<\/p>\n<p>As principais medidas de estabiliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica adotadas foram as seguintes:<\/p>\n<ul>\n<li>Desindexa\u00e7\u00e3o da economia, com o ajuste de pre\u00e7os anualizado em fun\u00e7\u00e3o do custo de produ\u00e7\u00e3o dos bens e servi\u00e7os.<\/li>\n<li>Privatiza\u00e7\u00e3o das empresas p\u00fablicas, cujo desenvolvimento \u00e9 cerceado pela burocracia estatal e a escassez de recursos p\u00fablicos. Como sabido, sob o governo de Fernando Henrique Cardoso a pol\u00edtica de privatiza\u00e7\u00f5es deixou de ser a exce\u00e7\u00e3o e tornou-se a regra.<\/li>\n<li>Equil\u00edbrio fiscal, mediante corte de despesas p\u00fablicas dispens\u00e1veise aumento em pelo menos 5% de todos os impostos federais.<\/li>\n<li>Abertura econ\u00f4mica, mediante a gradual redu\u00e7\u00e3o das tarifas de importa\u00e7\u00e3o e a facilita\u00e7\u00e3o da presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os internacionais.<\/li>\n<li>Manuten\u00e7\u00e3o de juros b\u00e1sicos elevados e c\u00e2mbio artificialmente valorizado. Tais medidas, que na melhor das hip\u00f3teses deveriam ser tempor\u00e1rias, tornaram-se permanentes em raz\u00e3o do poder dominante das empresas financeiras, provocando apreci\u00e1vel redu\u00e7\u00e3o no ritmo de crescimento da economia brasileira.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Seja como for, o Plano Real favoreceu o consumidor de baixa renda. Segundo estimou a Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, em apenas dois anos, entre 1993 e 1995, a popula\u00e7\u00e3o pobre diminuiu em 18,47%.<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-695442 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/fhc-.jpg?resize=485%2C323&amp;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 485px) 100vw, 485px\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/fhc-.jpg?resize=485%2C323&amp;ssl=1 485w, https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/fhc-.jpg?resize=120%2C80&amp;ssl=1 120w, https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/fhc-.jpg?w=750&amp;ssl=1 750w\" alt=\"\" width=\"485\" height=\"323\" \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>O Governo de Fernando Henrique Cardoso<\/strong><\/p>\n<p>Encerrado o Governo Itamar Franco, os principais l\u00edderes da domina\u00e7\u00e3o olig\u00e1rquica em nosso pa\u00eds resolveram embarcar, com armas e bagagens, no comboio que transportava a economia mundial para o para\u00edso da globaliza\u00e7\u00e3o capitalista. Durante todo o per\u00edodo em que<\/p>\n<p>Fernando Henrique Cardoso exerceu a presid\u00eancia da Rep\u00fablica, o real foi mantido supervalorizado, a taxa b\u00e1sica de juros elevada, as despesas p\u00fablicas reduzidas e foram criados incentivos \u00e0 entrada de empresas estrangeiras em nosso pa\u00eds, inclusive mediante emendas constitucionais. Concomitantemente, realizou-se a mais extensa pol\u00edtica de privatiza\u00e7\u00f5es de toda a nossa hist\u00f3ria, abrangendo rodovias federais, bancos estaduais, empresas de energia e telefonia. Logo no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, foram privatizadas nada menos do que oitenta empresas p\u00fablicas, notadamente a Companhia Vale do Rio Doce, uma das maiores empresas mineradoras do mundo, a maior produtora mundial de min\u00e9rio de ferro, de pelotas e de n\u00edquel, al\u00e9m de produtora de mangan\u00eas, ferroliga, cobre, bauxita, pot\u00e1ssio, caulim e alum\u00ednio. A companhia opera tamb\u00e9m no setor de energia el\u00e9trica, com nove usinas no Brasil, no Canad\u00e1 e na Indon\u00e9sia.<\/p>\n<p>Essa privatiza\u00e7\u00e3o, justificada \u00e0 \u00e9poca pelo chamado Consenso de Washington \u2013 conjunto de dez recomenda\u00e7\u00f5es do Fundo Monet\u00e1rio Internacional adotadas em 1990 \u2013 foi na verdade operada na bacia das almas. Os compradores da Companhia do Rio Doce, por exemplo, beneficiaram-se de financiamento subsidiado pelo BNDES, n\u00e3o tendo sido levado em conta, no pre\u00e7o de venda das a\u00e7\u00f5es de controle, o valor potencial das reservas de ferro por ela possu\u00eddas, as maiores do mundo. Contra essa opera\u00e7\u00e3o de venda do controle p\u00fablico da Vale do Rio Doce foram intentadas mais de cem a\u00e7\u00f5es judiciais, nenhuma delas acolhida pelo Judici\u00e1rio; o que bem demonstrou a submiss\u00e3o cabal dos magistrados \u00e0 domina\u00e7\u00e3o da oligarquia empresarial, nacional e estrangeira.<\/p>\n<p>Para completar esse quadro de completo abandono do princ\u00edpio republicano e do Estado de Direito, logo no come\u00e7o do seu mandato Fernando Henrique Cardoso iniciou tratativas junto ao Congresso Nacional para operar uma mudan\u00e7a constitucional, permitindo a sua pr\u00f3pria reelei\u00e7\u00e3o como Presidente da Rep\u00fablica, incluindo nessas tratativas a compra de votos de v\u00e1rios deputados federais, que acabaram sendo judicialmente condenados. O Presidente, no entanto, saiu ileso de todo esse criminoso epis\u00f3dio, n\u00e3o tendo contra ele sido intentado em ju\u00edzo procedimento algum.<\/p>\n<p>O balan\u00e7o da efici\u00eancia do governo foi dos mais negativos. No \u00faltimo ano do mandato presidencial ampliado, o desemprego atingiu um n\u00famero recorde de trabalhadores, colocando o Brasil na segunda coloca\u00e7\u00e3o no \u00edndice mundial de desempregados em termos absolutos. Ao mesmo tempo, o PIB per capita caiu de US$ 4,85 para US$ 2,86, registrando-se significativo aumento da desigualdade no seio da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na verdade, teve-se a impress\u00e3o de que Fernando Henrique Cardoso atuou como se fora o Chefe de Estado de um regime parlamentar, entregando praticamente todas as tarefas de governo aos seus ministros, que agiram sem controle de qualquer esp\u00e9cie.<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-695443 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/lula-posse.jpg?resize=485%2C312&amp;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 485px) 100vw, 485px\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/lula-posse.jpg?resize=485%2C312&amp;ssl=1 485w, https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/lula-posse.jpg?w=550&amp;ssl=1 550w\" alt=\"\" width=\"485\" height=\"312\" \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>Luiz In\u00e1cio Lula da Silva: um intruso no regime olig\u00e1rquico<\/strong><\/p>\n<p>Lula foi, efetivamente, o \u00fanico Chefe de Estado no Brasil, escolhido fora do esquema olig\u00e1rquico. Foi esta a \u00fanica vez em que a coliga\u00e7\u00e3o olig\u00e1rquica, notadamente o empresariado e os principais agentes pol\u00edticos, utilizando-se largamente do seu oligop\u00f3lio dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, n\u00e3o souberam manipular o processo eleitoral em favor do candidato que haviam escolhido.<\/p>\n<p>Na verdade, a elei\u00e7\u00e3o de Lula em 2002, ap\u00f3s tr\u00eas candidaturas frustradas, perturbou nossos oligarcas, pois o novo Presidente era o primeiro Chefe de Estado oriundo da classe oper\u00e1ria, e cujo carisma pessoal teve sempre o dom de entusiasmar a maioria do povo.<\/p>\n<p>Lula, por\u00e9m, desde sua elei\u00e7\u00e3o \u2013 e mesmo antes, por meio da Carta aos Brasileiros, por exemplo \u2013 fez quest\u00e3o de n\u00e3o hostilizar os grupos dominantes, procurando estabelecer com eles, sobretudo com as grandes empreiteiras de obras p\u00fablicas e empresas financeiras, uma alian\u00e7a duradoura. Durante seus dois mandatos, o banqueiro Henrique Meirelles dirigiu o relacionamento do governo com o sistema banc\u00e1rio, a partir do Banco Central. Como n\u00e3o poderia deixar de ser, foi mantida em n\u00edvel extremamente elevado a taxa Selic (abrevia\u00e7\u00e3o de Sistema Especial de Liquida\u00e7\u00e3o e Cust\u00f3dia), que fixa os juros pagos pela Uni\u00e3o Federal \u00e0s institui\u00e7\u00f5es financeiras compradoras dos t\u00edtulos p\u00fablicos emitidos pelo Tesouro Nacional. Tais t\u00edtulos s\u00e3o depois revendidos pelas institui\u00e7\u00f5es financeiras compradoras aos rentistas no mercado.<\/p>\n<p>Durante anos a fio o Estado Brasileiro, sob pretexto de combater a infla\u00e7\u00e3o, manteve essa taxa oficial de juros entre as mais elevadas do mundo, ensejando \u00e0s institui\u00e7\u00f5es financeiras que revendem tais t\u00edtulos e aos rentistas privados que neles aplicam ganhar somas fabulosas, sem nenhuma contrapartida. Para se ter uma ideia do esbulho p\u00fablico assim praticado, em 2003, quando Lula assumiu a presid\u00eancia, a Selic foi fixada em 24,5 %, enquanto a taxa de infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o superava 6%.<\/p>\n<p>No Congresso Nacional, o novo governo aliou-se ao PMDB, o que j\u00e1 d\u00e1 uma ideia dos limites que se auto-imp\u00f4s em mat\u00e9ria de avan\u00e7o legislativo.<\/p>\n<p>Beneficiando-se do boom de commodities que marcou o in\u00edcio do novo s\u00e9culo no mundo todo, o Governo Lula conseguiu manter durante seus dois mandatos uma balan\u00e7a comercial superavit\u00e1ria; e embora o endividamento interno tenha crescido em n\u00fameros absolutos, diminuiu a propor\u00e7\u00e3o da d\u00edvida sobre o Produto Interno Bruto. Ao mesmo tempo, houve incremento na gera\u00e7\u00e3o de empregos: entre 2003 e 2006, a taxa de desemprego caiu, sendo que o total de pessoas ocupadas cresceu 8,6%.<\/p>\n<p>No campo das pol\u00edticas sociais, o grau de efici\u00eancia do Governo Lula foi bem grande. Assim \u00e9 que o programa Bolsa Fam\u00edlia, implantado logo no in\u00edcio do governo em 2003, pelos seus bons resultados no combate \u00e0 fome e no fomento da educa\u00e7\u00e3o popular, foi citado como exemplo pelo Secret\u00e1rio-Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas, no Relat\u00f3rio sobre a Erradica\u00e7\u00e3o da Pobreza, apresentado ao Conselho Econ\u00f4mico e Social da ONU; al\u00e9m de ter sido elogiado pelo Fundo Monet\u00e1rio Internacional.<\/p>\n<p>Por outro lado, o governo federal soube atuar em colabora\u00e7\u00e3o com Estados e Munic\u00edpios, ao desenvolver o Plano Nacional de Direitos Humanos e o programa de Economia Solid\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ainda no campo das pol\u00edticas sociais, o Governo Lula criou em 2005 o Programa Universidade para todos (Prouni), que passou a conceder bolsas de estudos, integrais e parciais, em cursos de gradua\u00e7\u00e3o e sequenciais de forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, em institui\u00e7\u00f5es privadas de ensino superior. Ao mesmo tempo, durante os oito anos do duplo mandato foram criadas v\u00e1rias universidades federais e escolas t\u00e9cnicas de n\u00edvel superior.<\/p>\n<p>Todavia, enquanto esses bons resultados ocorriam em mat\u00e9ria de pol\u00edticas sociais, o poder olig\u00e1rquico financeiro n\u00e3o s\u00f3 impedia sistematicamente qualquer mudan\u00e7a institucional que viesse a enfraquec\u00ea-lo, como chegou a aprovar emendas constitucionais que o beneficiavam diretamente; como por exemplo a de n. 40, de 2003, que eliminou todas as restri\u00e7\u00f5es estabelecidas originariamente na Constitui\u00e7\u00e3o para regular o sistema financeiro. Da mesma sorte, durante os dois mandatos governamentais, n\u00e3o obstante os redobrados esfor\u00e7os desenvolvidos para implementar um plano de democratiza\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, bem como o Plano Nacional de Direitos Humanos III, os resultados foram nulos.<\/p>\n<p>J\u00e1 em mat\u00e9ria de pol\u00edtica externa, o Governo Lula p\u00f4de tomar v\u00e1rias iniciativas de mudan\u00e7a, que contrariaram diretamente os interesses pol\u00edtico-econ\u00f4micos das grandes pot\u00eancias internacionais. Assim foi com a ades\u00e3o do Brasil ao grupo dos BRICS \u2013 acr\u00f4nimo de Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia, China e \u00c1frica do Sul \u2013 pa\u00edses que representam cerca de 40% da popula\u00e7\u00e3o mundial e 22% do produto bruto mundial. Constante apoio foi tamb\u00e9m dado pelo governo ao relacionamento pol\u00edtico, econ\u00f4mico e cultural com os pa\u00edses do continente africano, bem como \u00e0 integra\u00e7\u00e3o latino-americana, sobretudo com o fortalecimento do Mercosul.<\/p>\n<p>Como era de se esperar, os bons resultados das pol\u00edticas implementadas pelo Governo Lula n\u00e3o deixaram de inquietar o poder olig\u00e1rquico. Aproveitando-se do controle oligop\u00f3lico que exerce h\u00e1 d\u00e9cadas sobre os meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, ele centrou seus ataques nos casos de corrup\u00e7\u00e3o ou prevarica\u00e7\u00e3o envolvendo ministros, que foram obrigados a deixar seus cargos.<\/p>\n<p>Malgrado tais percal\u00e7os, no entanto, o apoio popular a Lula n\u00e3o cedeu durante ambos os mandatos. Ao final do primeiro deles, em dezembro de 2006, uma pesquisa do Instituto Datafolha indicou que 52% dos entrevistados consideravam o seu governo \u00f3timo ou bom; e em mar\u00e7o de 2010, no \u00faltimo ano do segundo mandato, essa percentagem havia aumentado para 76%. Tais fatos voltaram a inquietar sobremaneira nossos oligarcas.<\/p>\n<p><strong>A rea\u00e7\u00e3o \u00e0 popularidade do lulismo<\/strong><\/p>\n<p>Segundo todos os ind\u00edcios, a rea\u00e7\u00e3o da nossa oligarquia ao perigo contra ela representado pelo sucesso popular do Governo Lula foi habilmente orquestrada pelos Estados Unidos, desde o in\u00edcio da presid\u00eancia de Dilma Rousseff. Para os nossos oligarcas, o objetivo consistia em romper o ciclo de ascens\u00e3o pol\u00edtica do lulismo, o que correspondia igualmente a favorecer os interesses pol\u00edtico-econ\u00f4micos da grande pot\u00eancia norte-americana.<\/p>\n<p>Para a consecu\u00e7\u00e3o desse prop\u00f3sito, a grande dificuldade pr\u00e1tica consistia no fato de que toda a energia do movimento reacion\u00e1rio devia concentrar-se na oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria pessoa de Lula. Assim, segundo a velha tradi\u00e7\u00e3o de personalismo que sempre animou a pol\u00edtica brasileira, e que corresponde a um dos tra\u00e7os marcantes de nossa mentalidade coletiva, n\u00e3o bastava desmoralizar politicamente o PT; era indispens\u00e1vel atacar a pr\u00f3pria pessoa de Lula. Ora, como ningu\u00e9m podia ignorar, esse ataque poderia provocar uma rea\u00e7\u00e3o maci\u00e7a do povo; sem contar o fato de que ele somente prosperaria, na medida em que se encontrasse na vida pol\u00edtica de Lula a probabilidade do cometimento de algum ato delituoso, que o desmoralizasse publicamente.<\/p>\n<p>Foi sem d\u00favida a\u00ed que se revelou toda a import\u00e2ncia da uni\u00e3o olig\u00e1rquica dos potentados econ\u00f4micos privados com os grandes agentes estatais, notadamente os magistrados, os membros do Minist\u00e9rio P\u00fablico e da Pol\u00edcia Judici\u00e1ria. Segundo indicam todos os ind\u00edcios, v\u00e1rios desses agentes estatais foram estrategicamente orientados a atuar, debaixo do pano, por t\u00e9cnicos norte-americanos.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou oficialmente em 2013, com o lan\u00e7amento pela Pol\u00edcia Federal da Opera\u00e7\u00e3o Miqu\u00e9ias, que no ano seguinte se transformaria na Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, visando a apurar um esquema de lavagem de dinheiro de bilh\u00f5es de reais para corrup\u00e7\u00e3o de agentes de empresas sob controle p\u00fablico, notadamente a Petrobras. Por curiosa circunst\u00e2ncia, embora a Petrobras seja sediada no Rio de Janeiro, a atua\u00e7\u00e3o policial foi deflagrada no Paran\u00e1 e o respectivo processo-crime distribu\u00eddo \u00e0 13\u00aa Vara da Justi\u00e7a Federal onde atua o Juiz S\u00e9rgio Moro, que foi assessor da Ministra Rosa Weber no julgamento dos processos do chamado mensal\u00e3o, abertos em 2005, sobre pr\u00e1ticas de corrup\u00e7\u00e3o no Partido dos Trabalhadores. No \u00e2mbito do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, foi criada desde logo uma for\u00e7a-tarefa sob a dire\u00e7\u00e3o do Procurador Deltan Dallagnol.<\/p>\n<p>Igualmente por curiosa coincid\u00eancia, tanto um quanto outro s\u00e3o personalidades muito estimadas pelos norte-americanos. S\u00e9rgio Moro foi considerado pela revista Fortune em mar\u00e7o de 2016 \u2013 exatamente no m\u00eas em que ocorreram os famosos protestos contra o governo de Dilma Rousseff \u2013 uma das 50 personalidades, tidas como l\u00edderes mundiais; foi, ali\u00e1s, o \u00fanico brasileiro inclu\u00eddo nessa lista. No m\u00eas seguinte, Moro foi designado pela revista Time uma das cem pessoas mais influentes do mundo, sendo mais uma vez o \u00fanico brasileiro assim considerado.<\/p>\n<p>Quanto a Dallagnol, \u00e9 mestre em direito pela Universidade de Harvard e mant\u00e9m frequentes rela\u00e7\u00f5es com os norte-americanos. Tais circunst\u00e2ncias, no entanto, n\u00e3o seriam suficientes para explicar a centraliza\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es judiciais referentes \u00e0 Petrobras na 13\u00aa Vara da Justi\u00e7a Federal em Curitiba; n\u00e3o fosse um fato da maior import\u00e2ncia ocorrido alguns anos antes, como se passa a referir.<\/p>\n<p>Em 2007, gra\u00e7as \u00e0s t\u00e9cnicas que havia desenvolvido, a Petrobras realizou na camada do pr\u00e9-sal a maior descoberta de campos de petr\u00f3leo de todos os tempos. Pois bem, um ano depois dessa descoberta, equivalente a cerca de 80 bilh\u00f5es de barris de petr\u00f3leo, foram furtados 4 laptops e 2 HDS com informa\u00e7\u00f5es sigilosas sobre a bacia de Santos, em cujas profundezas localiza-se uma parte da camada do pr\u00e9-sal. Ou seja, dados de 30 anos de pesquisas da Petrobras, estimados em 2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares passaram a ser disponibilizados pelos ladr\u00f5es.<\/p>\n<p>Em 2013, uma semana ap\u00f3s haver sido revelado que a Presidenta Dilma Rousseff fora espionada pela CIA, o ex-consultor dessa ag\u00eancia, Edward Snowden, revelou que a CIA espionava tamb\u00e9m a Petrobras.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, estabeleceu-se um pacto, n\u00e3o apenas informal como ilegal, entre o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal brasileiro e o governo norte-americano, para a colabora\u00e7\u00e3o em mat\u00e9ria de investiga\u00e7\u00e3o, inqu\u00e9rito e a\u00e7\u00e3o penal, acordo esse estreitamente ligado \u00e0 Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato. Na verdade, ele feriu diretamente o Decreto n. 3.810, de 2 de maio de 2001, que promulgou o Acordo de Assist\u00eancia Judici\u00e1ria em Mat\u00e9ria Penal entre o Governo brasileiro e o norte-americano; pois conforme o disposto em seu Artigo II, \u201ccada Parte designar\u00e1 uma Autoridade Central para enviar e receber solicita\u00e7\u00f5es\u201d em observ\u00e2ncia do Acordo, sendo que no Brasil essa Autoridade Central \u00e9 o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a e n\u00e3o o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que no mesmo ano de 2016 em que os meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa dos Estados Unidos apresentaram o Juiz Moro como personalidade de destaque mundial, ele despontou em algumas pesquisas de opini\u00e3o p\u00fablica no Brasil como o melhor candidato potencial \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Ainda em agosto de 2016, recebeu a Medalha do Pacificador, a maior honraria concedida pelo Ex\u00e9rcito Brasileiro, como reconhecimento pelos \u201crelevantes servi\u00e7os prestados ao pa\u00eds\u201d. Em abril de 2017 foi condecorado com a medalha da Ordem do M\u00e9rito Militar, em cerim\u00f4nia comemorativa do Dia do Ex\u00e9rcito. Escusa lembrar que os oligarcas brasileiros, em toda a nossa Hist\u00f3ria, sempre estiveram intimamente ligados \u00e0s For\u00e7as Armadas. Como se v\u00ea, o Juiz S\u00e9rgio Moro reuniu em sua pessoa o apoio tanto do povo, quanto da oligarquia.<\/p>\n<p>Haveria alguma personalidade com mais chances do que ele para enfrentar politicamente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva?<\/p>\n<p>Acontece que nenhum magistrado pode candidatar-se a algum posto eletivo no Brasil. S\u00f3 restava, portanto, uma sa\u00edda, que era inviabilizar a pr\u00f3pria candidatura potencial de Lula, mediante a sua condena\u00e7\u00e3o criminal. Foi o que fez S\u00e9rgio Moro em senten\u00e7a prolatada em julho de 2017. Logo em seguida, em flagrante viola\u00e7\u00e3o de seus deveres de magistrado (Lei Complementar n. 35, de 14.03.1979, art. 36, III), o Presidente do Tribunal Regional Federal da 4\u00aa Regi\u00e3o, que atuou como segunda inst\u00e2ncia no respectivo processo, teceu publicamente rasgados elogios \u00e0 senten\u00e7a condenat\u00f3ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi essa, por\u00e9m, a \u00fanica condena\u00e7\u00e3o criminal a Lula, como n\u00e3o tardou a se verificar.<\/p>\n<p>Nesse meio tempo, nossos oligarcas prepararam e executaram em 2016 o afastamento de Dilma Rousseff da presid\u00eancia da Rep\u00fablica, por meio de manobras ileg\u00edtimas, com a coniv\u00eancia do Minist\u00e9rio P\u00fablico e do Poder Judici\u00e1rio. O proveito para a oligarquia brasileira e o Estado norte-americano foi imediato e consp\u00edcuo, como se ver\u00e1 mais abaixo.<\/p>\n<p>Para o afastamento de Dilma Rousseff, muito contribu\u00edram a sua impopularidade e a m\u00e1 situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do pa\u00eds, sendo ambas organizadas e postas em pr\u00e1tica pelos nossos oligarcas.<\/p>\n<p>Em meados de 2013, ocorreram manifesta\u00e7\u00f5es de protesto contra o governo em nada menos do que 438 cidades de todo o Brasil, envolvendo 84% da popula\u00e7\u00e3o. Dada a tradicional incapacidade do nosso povo em se organizar para manifesta\u00e7\u00f5es desse porte \u2013 que at\u00e9 ent\u00e3o jamais haviam ocorrido \u2013 parece \u00f3bvio que tudo fora orquestrado longe do povo. N\u00e3o se pode, por\u00e9m, p\u00f4r na sombra o fato de que grande parte dessa revolta popular foi estimulada pela queda brusca e acentuada da economia brasileira, devendo salientar-se que entre 2014 e 2016, ou seja, nos dois \u00faltimos anos de governo de Dilma, o PIB per capita caiu mais de 9%, a maior queda sofrida desde os anos de 1930-1931, quando da depress\u00e3o mundial provocada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York. Porventura, tal desastre econ\u00f4mico ocorreu sem qualquer influ\u00eancia do nosso oligop\u00f3lio financeiro?<\/p>\n<p>Durante o Governo Dilma Rousseff, ali\u00e1s, acentuaram-se os males infligidos \u00e0 sociedade brasileira desde o primeiro s\u00e9culo da coloniza\u00e7\u00e3o. Assim \u00e9 que, entre julho de 2013 e agosto de 2015, a regi\u00e3o do cerrado perdeu 18.962,45 km2 de vegeta\u00e7\u00e3o nativa. A prosseguir esse ritmo de destrui\u00e7\u00e3o do bioma at\u00e9 2050, teremos o maior processo de extin\u00e7\u00e3o de plantas j\u00e1 registrado na Hist\u00f3ria, com tr\u00eas vezes mais perdas na flora do que houve entre n\u00f3s desde 1500, segundo afirmou a revista Nature Ecology and Evolution.<\/p>\n<p>Ao assumir o governo com o afastamento da Presidenta Dilma Roussef, o Vice-Presidente Michel Temer comp\u00f4s desde logo um minist\u00e9rio em que v\u00e1rios integrantes j\u00e1 respondiam, ou passaram a responder, a inqu\u00e9ritos criminais. O minist\u00e9rio, como n\u00e3o poderia deixar de ser, era estreitamente ligado aos interesses do grande capital, e aplicou imediatamente um programa, sem d\u00favida de antem\u00e3o preparado para tanto. Tal programa, fundado na austeridade financeira, teve como primeira medida a promulga\u00e7\u00e3o da Emenda Constitucional n. 95, de 15 de dezembro de 2016, que alterou o Ato das Disposi\u00e7\u00f5es Constitucionais Transit\u00f3rias para estabelecer, entre outras disposi\u00e7\u00f5es, a fixidez das despesas p\u00fablicas durante vinte anos, incluindo expressamente as despesas em \u201ca\u00e7\u00f5es e servi\u00e7os p\u00fablicos de sa\u00fade e em manuten\u00e7\u00e3o e desenvolvimento do ensino\u201d.<\/p>\n<p>Vemos assim reiterada, uma vez mais, nossa ignor\u00e2ncia, para n\u00e3o dizer cabal desprezo pelos direitos humanos. Nossos parlamentares, na melhor das hip\u00f3teses, ignoram crassamente que aos direitos fundamentais de car\u00e1ter social correspondem deveres fundamentais do Estado, e que o montante financeiro das medidas a serem tomadas para seu cumprimento \u00e9 fixado no or\u00e7amento p\u00fablico em fun\u00e7\u00e3o das necessidades sociais, e n\u00e3o de uma diretriz or\u00e7ament\u00e1ria. Em suma, n\u00e3o s\u00e3o as necessidades fundamentais da sociedade que devem se adaptar ao or\u00e7amento, e sim o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Lamentavelmente, n\u00e3o foi s\u00f3 nessa mat\u00e9ria que o governo esp\u00fario de Michel Temer manifestou cabal desprezo pelos direitos humanos. Em 13 de julho de 2017, foi promulgada a Lei n. 13.467 \u2013 lei ordin\u00e1ria, portanto \u2013 que alterou ou suprimiu v\u00e1rios direitos fundamentais dos trabalhadores, contrariando frontalmente v\u00e1rios dispositivos da Constitui\u00e7\u00e3o Federal.<\/p>\n<p>Foi, assim, introduzida em nosso direito do trabalho, por press\u00e3o empresarial, a chamada terceiriza\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o de emprego, inclusive com respeito a atividades-fins de uma empresa. Ou seja, doravante, pela nova reda\u00e7\u00e3o do art. 4\u00ba da Lei n. 6.019, de 3 de janeiro de 1974, a execu\u00e7\u00e3o de quaisquer atividades de uma empresa, inclusive sua atividade principal, podem ser realizadas por outra empresa, e n\u00e3o por trabalhadores pessoas f\u00edsicas.<\/p>\n<p>Mediante modifica\u00e7\u00e3o do art. 443, \u00a7 3\u00ba da Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho, introduziu-se tamb\u00e9m em nossa legisla\u00e7\u00e3o trabalhista a possibilidade de realiza\u00e7\u00e3o pelo empregado de um trabalho intermitente, sem qualquer garantia para ele, ainda que do recebimento do sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<p>Ademais, numa inova\u00e7\u00e3o desastrosa, que poder\u00e1 no futuro estender- se a outras mat\u00e9rias, as disposi\u00e7\u00f5es normativas relativas a direitos fundamentais do trabalhador poder\u00e3o ser objeto de negocia\u00e7\u00e3o entre as partes da rela\u00e7\u00e3o de trabalho (nova reda\u00e7\u00e3o do art. 611, \u00a7 2\u00ba da CLT), n\u00e3o mais necessitando de explicita\u00e7\u00e3o em lei. Esta, pela sua pr\u00f3pria natureza, como fartamente sabido, n\u00e3o pode ser \u201cnegociada\u201d por particulares. Al\u00e9m disso, pela nova reda\u00e7\u00e3o do art. 477 da CLT, passam a ser admitidas as dispensas imotivadas de empregados, pl\u00farimas ou coletivas, assim como as individuais, \u201cn\u00e3o havendo necessidade de autoriza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via de entidade sindical, ou de celebra\u00e7\u00e3o de conven\u00e7\u00e3o coletiva ou acordo coletivo de trabalho para sua efetiva\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Foram criadas, por fim, restri\u00e7\u00f5es abusivas ao benef\u00edcio da justi\u00e7a gratuita para os trabalhadores. Tudo isso quanto \u00e0s vantagens outorgadas aos nossos empres\u00e1rios.<\/p>\n<p>J\u00e1 com respeito aos benef\u00edcios auferidos pelos cons\u00f3rcios transnacionais e o Estado norte-americano, gra\u00e7as \u00e0 queda de Dilma Rousseff e \u00e0 ascens\u00e3o de Michel Temer, eles foram de grande monta.<\/p>\n<p>O primeiro e mais opulento desses benef\u00edcios foi a revoga\u00e7\u00e3o da obrigatoriedade da participa\u00e7\u00e3o da Petrobras na explora\u00e7\u00e3o da camada de petr\u00f3leo do pr\u00e9-sal, considerada a maior descoberta de riqueza do subsolo das \u00faltimas d\u00e9cadas. Tal obrigatoriedade havia sido estabelecido pela Lei n. 12.351, de dezembro de 2010, sancionada pelo Presidente Lula. A Lei n. 13.365, de 29 de novembro de 2016, que suprimiu essa obrigatoriedade, originou-se de projeto do Senador Jos\u00e9 Serra, desde logo sancionado pelo Presidente Temer, ambos conhecidos pelas suas estreitas liga\u00e7\u00f5es com as autoridades norte-americanas. (Quanto a Temer, vejam-se os documentos diplom\u00e1ticos norte-americanos abertos ao p\u00fablico Cf. WikiLeaks\u00a0<a href=\"https:\/\/www.rt.com\/news\/342933-temer-us-us-brazilspying.rt.com\">https:\/\/www.rt.com\/news\/342933-temer-us-us-brazilspying.rt.com<\/a>. Tamb\u00e9m\u00a0<a href=\"https:\/\/www.soft.net\/article\/318251-Wikileaks-reveals-new-Brazilian-president-Michel-Temer-was-informant-for-US-intelligence.SOTT.net\">https:\/\/www.soft.net\/article\/318251-Wikileaks-reveals-new-Brazilian-president-Michel-Temer-was-informant-for-US-intelligence.SOTT.net<\/a>)<\/p>\n<p>O governo federal anunciou assim a realiza\u00e7\u00e3o de leil\u00f5es, com a participa\u00e7\u00e3o de empresas estrangeiras, em 21 campos de \u00f3leo e g\u00e1s, sendo que boa parte desses po\u00e7os est\u00e3o localizados nas tr\u00eas bacias de maior produ\u00e7\u00e3o: Campos, Santos e Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>Na verdade, tal decis\u00e3o fez parte de um plano de desintegra\u00e7\u00e3o da Petrobras, denunciado pela AEPET \u2013 Associa\u00e7\u00e3o dos Engenheiros da Petrobras, em Carta Aberta \u00e0 Sociedade Brasileira, divulgada em 18 de julho de 2017. Ela resumiu os malef\u00edcios de tal plano, como segue:<\/p>\n<blockquote><p>Transformou lucros em preju\u00edzos, com a desvaloriza\u00e7\u00e3o de seus ativos, preparando o caminho para as privatiza\u00e7\u00f5es e desintegra\u00e7\u00e3o da companhia; interrompeu uma s\u00e9rie hist\u00f3rica de 22 anos de reposi\u00e7\u00e3o de reservas (aumento de reservas superior \u00e0 produ\u00e7\u00e3o);entregou o mercado de combust\u00edveis aos concorrentes, por meio da pol\u00edtica de pre\u00e7os, ao possibilitar o aumento das importa\u00e7\u00f5es em 41% em um ano, onerando as contas do pa\u00eds e operando nossas refinarias a 77% da capacidade, contra 98% em 2013.<\/p><\/blockquote>\n<p>Outro benef\u00edcio de grande import\u00e2ncia concedido a pa\u00edses estrangeiros, especialmente os Estados Unidos, foi a privatiza\u00e7\u00e3o da Eletrobras, a maior empresa geradora de energia el\u00e9trica da Am\u00e9rica Latina. Com tudo isso, como se v\u00ea, a maior parte da nossa infraestrutura econ\u00f4mica foi retirada do controle do Estado e confiada a empres\u00e1rios do setor privado.<\/p>\n<p>Como se tais privatiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o bastassem, em 23 de agosto de 2017 o Governo Temer, mediante simples decreto, extinguiu a Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca), que ocupava uma \u00e1rea de mais de 4 milh\u00f5es de hectares, correspondente ao territ\u00f3rio da Dinamarca. Consta que empresas mineradoras canadenses j\u00e1 estavam a par da medida, cinco meses antes da publica\u00e7\u00e3o do decreto de extin\u00e7\u00e3o da Reserva. De se notar que a \u00e1rea por ela ocupada tem potencial para explora\u00e7\u00e3o de ouro e outros minerais, entre os quais ferro, mangan\u00eas e t\u00e2ntalo.<\/p>\n<p>Diante, por\u00e9m, da onda de protestos que tal privatiza\u00e7\u00e3o suscitou, no Brasil e no exterior, pouco mais de um m\u00eas ap\u00f3s o governo federal foi constrangido a revogar a medida.<\/p>\n<p>Outra grande merc\u00ea concedida a estrangeiros foi a aplica\u00e7\u00e3o de multas colossais \u00e0s grandes empreiteiras de obras p\u00fablicas pela Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, levando v\u00e1rias delas praticamente \u00e0 insolv\u00eancia, e provocando a dispensa em massa de trabalhadores. A raz\u00e3o dessa razia \u00e9 que, a partir do in\u00edcio do atual s\u00e9culo, tais empreiteiras passaram a atuar largamente na Am\u00e9rica Latina e na \u00c1frica, ocupando o lugar das norte-americanas. Infelizmente, at\u00e9 hoje n\u00e3o se compreendeu em nosso pa\u00eds que a indeniza\u00e7\u00e3o por atos il\u00edcitos, no \u00e2mbito empresarial, deve recair sobre o patrim\u00f4nio pessoal dos empres\u00e1rios desonestos e n\u00e3o onerar as empresas.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 conceb\u00edvel que, at\u00e9 hoje, continuamos a confundir o acionista controlador com a pr\u00f3pria empresa, n\u00e3o obstante as disposi\u00e7\u00f5es inovadoras da lei de sociedades por a\u00e7\u00f5es, promulgada em 1976?<\/p>\n<p>O que, por\u00e9m, ningu\u00e9m previra foi o espraiamento da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, de modo a atingir individualmente os pr\u00f3prios oligarcas; inclusive o Presidente da Rep\u00fablica, fato sem precedentes em nossa hist\u00f3ria republicana. Denunciado criminalmente duas vezes pelo Procurador-Geral da Rep\u00fablica, Michel Temer teve que prodigalizar uma ampla distribui\u00e7\u00e3o de benesses aos deputados federais, a fim de barrar o in\u00edcio do processo penal perante o Supremo Tribunal Federal. Tudo isso, enfim, parece assegurar que, segundo todas as probabilidades, a coliga\u00e7\u00e3o olig\u00e1rquica tradicional permanecer\u00e1 como titular da soberania em nosso pa\u00eds durante um tempo indefinido.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"CASot2mFv0\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/sem-categoria\/comparato-2016-a-grande-revanche-oligarquica\/\">Comparato: 2016, a grande revanche olig\u00e1rquica<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Comparato: 2016, a grande revanche olig\u00e1rquica&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/sem-categoria\/comparato-2016-a-grande-revanche-oligarquica\/embed\/#?secret=fwY9Y2wKmV#?secret=CASot2mFv0\" data-secret=\"CASot2mFv0\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>F\u00e1bio Konder Comparato\u00a0&#8211;\u00a0Como o t\u00edmido ascenso das maiorias desencadeou a rea\u00e7\u00e3o do empresariado, da m\u00eddia e dos setores mais antidemocr\u00e1ticos do Estado. O papel dos Estados Unidos. O risco de um longo retrocesso. 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