{"id":7520,"date":"2018-03-17T15:32:13","date_gmt":"2018-03-17T18:32:13","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=7520"},"modified":"2018-03-13T12:35:22","modified_gmt":"2018-03-13T15:35:22","slug":"ocupacao-do-brasil-primordial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/03\/17\/ocupacao-do-brasil-primordial\/","title":{"rendered":"Ocupa\u00e7\u00e3o do \u201cBrasil\u201d primordial"},"content":{"rendered":"<p id=\"the_excerpt\"><strong>MARCOS PIVETTA &#8211;<\/strong> Evid\u00eancias indicam que havia popula\u00e7\u00f5es de ca\u00e7adores-coletores em todas as grandes regi\u00f5es do territ\u00f3rio nacional cerca de 10 mil anos atr\u00e1s<\/p>\n<div id=\"the_content\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-252571 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080-081_arqueo_264_02_ok-300x286.jpg?resize=300%2C286\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" srcset=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080-081_arqueo_264_02_ok-300x286.jpg 300w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080-081_arqueo_264_02_ok-768x732.jpg 768w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080-081_arqueo_264_02_ok-520x496.jpg 520w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080-081_arqueo_264_02_ok-32x32.jpg 32w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080-081_arqueo_264_02_ok-1024x976.jpg 1024w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080-081_arqueo_264_02_ok.jpg 1200w\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"286\" \/><\/p>\n<p>H\u00e1 10.500 anos praticamente todo o territ\u00f3rio que viria a ser o Brasil j\u00e1 era habitado por expressivas popula\u00e7\u00f5es de ca\u00e7adores-coletores. Da Amaz\u00f4nia aos Pampas, passando pelas \u00e1reas hoje ocupadas pelo Cerrado, Caatinga e Pantanal, os principais biomas brasileiros exibem vest\u00edgios de presen\u00e7a humana que remontam a pelo menos 10 mil\u00eanios. A \u00fanica exce\u00e7\u00e3o parece ser a costa atl\u00e2ntica, onde os registros mais antigos e confi\u00e1veis sugerem que talvez o\u00a0<em>Homo sapiens<\/em>\u00a0tenha precisado de mais uns 500 ou mil anos para atingir a borda leste do continente. Tamb\u00e9m por volta de 10 mil anos atr\u00e1s tr\u00eas grandes tradi\u00e7\u00f5es culturais associadas \u00e0 fabrica\u00e7\u00e3o de artefatos de pedra, como raspadores, lascas e pontas de flecha, tinham igualmente se estabelecido na metade leste da Am\u00e9rica do Sul. A tradi\u00e7\u00e3o Umbu se fazia presente no Sul; Lagoa Santa estava no atual territ\u00f3rio mineiro; e Itaparica ocupava partes do atual Nordeste e Centro-Oeste. Apesar de esquem\u00e1tico e simplificado, esse cen\u00e1rio sobre a coloniza\u00e7\u00e3o inicial do Brasil condensa informa\u00e7\u00f5es e interpreta\u00e7\u00f5es derivadas de boa parte dos achados arqueol\u00f3gicos das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Esse quadro sugere que a chegada dos humanos modernos \u00e0s mais diversas latitudes do territ\u00f3rio nacional deve ter sido um processo antigo e complexo, talvez por meio de m\u00faltiplas rotas. Ocupar uma \u00e1rea continental como a do Brasil e desenvolver tr\u00eas tipos de cultura material distintas leva tempo, provavelmente alguns milhares de anos. \u201cDevem ter ocorrido m\u00faltiplas migra\u00e7\u00f5es em dire\u00e7\u00e3o ao territ\u00f3rio do pa\u00eds, a mais antiga delas antes da ocorr\u00eancia do \u00faltimo m\u00e1ximo glacial [a mais recente Era do Gelo, cujo pico se deu h\u00e1 cerca de 20 mil anos]\u201d, diz o arque\u00f3logo Astolfo Araujo, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (MAE-USP), que publicou um artigo cient\u00edfico sobre o tema em abril de 2015 no peri\u00f3dico\u00a0<em>Anais da Academia Brasileira de Ci\u00eancias<\/em>.<\/p>\n<p>H\u00e1 algumas d\u00e9cadas, era vista com extrema desconfian\u00e7a a data\u00e7\u00e3o de s\u00edtios arqueol\u00f3gicos com idade pr\u00f3xima ou superior aos 13 mil anos da chamada cultura de Cl\u00f3vis, lugar no estado norte-americano do Novo M\u00e9xico onde foram encontradas as famosas pontas de flecha bifaciais associadas a ca\u00e7adores-coletores. Durante a maior parte do s\u00e9culo passado, o povo de Cl\u00f3vis foi considerado o mais antigo a ocupar as Am\u00e9ricas. Hoje a barreira dos 13 mil anos j\u00e1 foi igualada ou ultrapassada por s\u00edtios arqueol\u00f3gicos do continente, tanto acima como abaixo do Equador. Esse \u00e9 caso de Monte Verde, no Chile, de Huaca Prieta, no Peru, das cavernas Paisley, no estado norte-americano do Oregon, da Ilha Triquet, na Col\u00fambia Brit\u00e2nica (Canad\u00e1), al\u00e9m de alguns s\u00edtios no Brasil. \u201cN\u00e3o se trata de dar foco apenas no momento em que houve o povoamento inicial do homem no territ\u00f3rio brasileiro, mas em como ele se deu em uma \u00e1rea t\u00e3o enorme, com paisagens t\u00e3o diferentes\u201d, comenta a arque\u00f3loga Adriana Schmidt Dias, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).<\/p>\n<p><strong><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-252573 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080-081_arqueo_264_info02-300x259.jpg?resize=300%2C259\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" srcset=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080-081_arqueo_264_info02-300x259.jpg 300w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080-081_arqueo_264_info02-768x664.jpg 768w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080-081_arqueo_264_info02-574x496.jpg 574w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080-081_arqueo_264_info02.jpg 1000w\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"259\" \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>Pelos rios\u00a0<\/strong><br \/>\nSe, em sua jornada pelo continente americano, o\u00a0<em>Homo sapiens<\/em>\u00a0migrou do hemisf\u00e9rio Norte para o Sul, ele deve ter passado, e provavelmente se fixado, em algum ponto da Am\u00e9rica Central antes de chegar \u00e0 Amaz\u00f4nia ou aos Andes. \u201cO problema \u00e9 que ainda n\u00e3o encontramos no Panam\u00e1, que deve ter feito parte dessa rota interna de povoamento, s\u00edtios arqueol\u00f3gicos mais velhos do que os da Am\u00e9rica do Sul\u201d, diz o arque\u00f3logo Eduardo G\u00f3es Neves, tamb\u00e9m do MAE-USP. Mas, uma vez que tenha fincado p\u00e9 na Am\u00e9rica do Sul, o homem provavelmente seguiu por \u00e1guas fluviais para chegar ao Brasil profundo. Essa hip\u00f3tese \u00e9 corroborada pelo n\u00famero expressivo de s\u00edtios arqueol\u00f3gicos localizados em \u00e1reas vizinhas a grandes rios que cruzam o territ\u00f3rio nacional, como o Amazonas e o Solim\u00f5es, na Amaz\u00f4nia, o S\u00e3o Francisco, no Nordeste, e o Paran\u00e1 e o Uruguai, no Sul. \u201cAs rotas de coloniza\u00e7\u00e3o por rios s\u00e3o sempre a op\u00e7\u00e3o lembrada\u201d, pondera o arque\u00f3logo e antrop\u00f3logo Walter Neves, do Instituto de Bioci\u00eancias da USP.<\/p>\n<p>Um dos lugares da pr\u00e9-hist\u00f3ria mais antigos do Brasil, com uma primeira ocupa\u00e7\u00e3o datada em cerca de 25 mil anos e outra entre 12 mil e 2 mil anos atr\u00e1s, \u00e9 o abrigo Santa Elina, em Mato Grosso, situado a 30 quil\u00f4metros do rio Cuiab\u00e1, um importante afluente da bacia do Paran\u00e1-Paraguai. Os s\u00edtios da serra da Capivara, no Piau\u00ed, onde a presen\u00e7a humana possivelmente chegue a 20 mil anos, est\u00e3o a cerca de 100 quil\u00f4metros do rio S\u00e3o Francisco. Em Uruguaiana, no extremo oeste do Rio Grande do Sul, bem na fronteira com a Argentina, o s\u00edtio Laranjito, que apresenta ind\u00fastria l\u00edtica com idade datada em aproximadamente 12 mil anos, fica \u00e0s margens do lado brasileiro do rio Uruguai.<\/p>\n<p>Em artigo publicado no in\u00edcio de 2015 na\u00a0<em>Revista de Estudos Avan\u00e7ados<\/em>, da USP, Adriana Schmidt Dias e o arque\u00f3logo Lucas Bueno, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), defenderam a exist\u00eancia de tr\u00eas grandes rotas fluviais que poderiam ter sido usadas pelos povos pr\u00e9-hist\u00f3ricos para entrar no territ\u00f3rio nacional. Uma delas seria via bacia amaz\u00f4nica, outra pelo rio S\u00e3o Francisco e uma terceira explorando as \u00e1guas da bacia do Prata. Esse trabalho deriva em grande parte de dados compilados e interpreta\u00e7\u00f5es apresentados em um estudo anterior, publicado em meados de 2013 na revista cient\u00edfica\u00a0<em>Quaternary Internationa<\/em>l, pela dupla brasileira juntamente com o arque\u00f3logo ingl\u00eas James Steele, do University College London (UCL).<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080_arqueo_264_02-300x190.jpg?resize=300%2C190\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" srcset=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080_arqueo_264_02-300x190.jpg 300w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080_arqueo_264_02-768x487.jpg 768w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080_arqueo_264_02-782x496.jpg 782w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080_arqueo_264_02-1024x650.jpg 1024w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080_arqueo_264_02.jpg 1500w\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"190\" \/><\/p>\n<p><em>Pintura rupestre no s\u00edtio Pedra Pintada, em Monte Alegre, no Par\u00e1, onde a presen\u00e7a humana remonta a de 12 mil anos<\/em><\/p>\n<p>Nesse artigo de revis\u00e3o, o trio de pesquisadores analisou os resultados de data\u00e7\u00f5es feitas a partir de vest\u00edgios arqueol\u00f3gicos provenientes de 90 s\u00edtios pr\u00e9-hist\u00f3ricos do pa\u00eds, cujas informa\u00e7\u00f5es foram divulgadas em artigos cient\u00edficos publicados desde a segunda metade dos anos 1980. As idades foram obtidas pelo emprego do m\u00e9todo do carbono 14 em um conjunto variado de vest\u00edgios arqueol\u00f3gicos, como ossos, dentes e cabelos humanos, artefatos de pedra, pontas de lan\u00e7a e muitos restos de fogueiras (aparentemente feitas pelo homem). O artigo interpretou como confi\u00e1veis 277 data\u00e7\u00f5es que haviam chegado a idades entre 15.500 e 8.900 anos (<em><a title=\"\" href=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080-081_arqueo_264_info02.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-rel=\"lightbox-3\">ver mapa<\/a><\/em>). \u201cDesconsideramos 63 data\u00e7\u00f5es que, por algum motivo, apresentavam um grau de incerteza maior sobre sua cronologia\u201d, explica Adriana. Tamb\u00e9m os resultados das data\u00e7\u00f5es com mais de 15 mil anos de idade, que costumam ser alvo de questionamentos e pol\u00eamicas \u2013 como algumas obtidas para certos s\u00edtios da serra da Capivara ou em Santa Elina \u2013, n\u00e3o foram levados em conta.<\/p>\n<p>Entre as data\u00e7\u00f5es analisadas no trabalho, nove apresentavam resultados entre 15.500 e 12.800 anos. Essas foram as mais antigas da amostra, obtidas a partir de material de cinco s\u00edtios. Dois desses lugares, a Toca do S\u00edtio do Meio e a Toca do Gordo do Garrincho, ficam na serra da Capivara. Outros dois se situam no norte de Minas Gerais: Lapa do Boquete, s\u00edtio que fica no vale do rio Perua\u00e7u, hoje \u00e1rea de intersec\u00e7\u00e3o entre os biomas do Cerrado e da Caatinga; e Lapa do Drag\u00e3o, na divisa com a Bahia. O quinto s\u00edtio \u00e9 a caverna da Pedra Pintada, em Monte Alegre, nos arredores de Santar\u00e9m, no norte do Par\u00e1, da qual se v\u00ea o rio Amazonas.<\/p>\n<p>Esse lugar da pr\u00e9-hist\u00f3ria nacional foi not\u00edcia no mundo todo no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990 quando a arque\u00f3loga norte-americana Anna Roosevelt, bisneta do ex-presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt, datou pela primeira vez suas pinturas rupestres em cerca de 11 mil anos. Agora Pedra Pintada \u2013 cujo material coletado pela pesquisadora n\u00e3o ficou no Brasil \u2013 est\u00e1 sendo novamente estudada pelo arque\u00f3logo Claide Moraes, da Universidade Federal do Oeste do Par\u00e1 (Ufopa), de Santar\u00e9m. \u201cTemos cinco novas data\u00e7\u00f5es de carv\u00f5es e sementes carbonizadas provenientes de fogueiras feitas provavelmente por humanos que deram cerca de 12 mil anos\u201d, diz Moraes.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"320\" height=\"180\" frameborder=\"0\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/VRvyf-qvjE4\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Depois desses cinco s\u00edtios mais antigos da amostra, o trabalho publicado na\u00a0<em>Quaternary Internationa<\/em>l destaca os locais com idade entre 12.800 e 11.400 anos. Nesse per\u00edodo da pr\u00e9-hist\u00f3ria nacional, a distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica da presen\u00e7a humana come\u00e7a a se ampliar. Al\u00e9m de incluir o norte de Minas, o Piau\u00ed e a Amaz\u00f4nia, os s\u00edtios desse per\u00edodo abrangem localidades do extremo sul do pa\u00eds, na divisa com o Uruguai, e do Centro-Oeste, como o de Santa Elina, em Mato Grosso. Para esse intervalo de tempo, o n\u00famero de data\u00e7\u00f5es aumenta para 56 e o de s\u00edtios para 29.<\/p>\n<p>Entre 11.400 e 10.200 anos, o estudo contabilizou 65 data\u00e7\u00f5es relacionadas a 46 s\u00edtios, agora j\u00e1 espalhados literalmente de norte a sul pelo atual territ\u00f3rio nacional. \u201cPor volta de 10.500 anos atr\u00e1s, o n\u00famero de s\u00edtios arqueol\u00f3gicos cresce em todas as regi\u00f5es\u201d, comenta Adriana. Na regi\u00e3o de Serran\u00f3polis, no sudoeste de Goi\u00e1s, por exemplo, s\u00e3o conhecidos mais de 40 s\u00edtios com material l\u00edtico associado \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o cultural Itaparica. Eles exibem pinturas rupestres e se situam em abrigos rochosos ao longo do rio Verde, um afluente do rio Parana\u00edba. Sua idade varia entre 10.700 e 8.400 anos. At\u00e9 o estado de S\u00e3o Paulo, considerado um vazio arqueol\u00f3gico durante um bom tempo, contribui com dois s\u00edtios desse per\u00edodo: Batatal I e Capelinha, ambos situados no Vale do Ribeira, em \u00e1reas em que os habitantes pr\u00e9-hist\u00f3ricos fizeram uma esp\u00e9cie de cemit\u00e9rio \u00e0 beira de rios, os chamados sambaquis fluviais. Um cr\u00e2nio humano de quase 10 mil anos, apelidado de Luzio, foi encontrado em meados dos anos 2000 em Capelinha. Esse s\u00edtio \u00e9 considerado o mais antigo em \u00e1rea de Mata Atl\u00e2ntica a apresentar registros de presen\u00e7a humana. Encontrar s\u00edtios arqueol\u00f3gicos em \u00e1reas pr\u00f3ximas ou vizinhas ao litoral \u00e9 sempre um desafio. O n\u00edvel do mar variou ao longo do tempo e \u00e9 poss\u00edvel que antigos assentamentos estejam hoje em zonas submersas.<\/p>\n<p><strong>Pontas de flecha<\/strong><br \/>\nAs pontas de flecha contam uma hist\u00f3ria semelhante sobre o povoamento inicial do territ\u00f3rio brasileiro. Aqui, esse tipo de vest\u00edgio da cultura material de povos pr\u00e9-hist\u00f3ricos \u00e9 considerado relativamente raro. Pelo menos tr\u00eas s\u00edtios arqueol\u00f3gicos associados a duas tradi\u00e7\u00f5es culturais distintas legaram exemplares desses artefatos l\u00edticos com idade superior a 10 mil anos. Pontas de proj\u00e9teis da tradi\u00e7\u00e3o Umbu com 10 mil\u00eanios de idade foram encontradas no s\u00edtio de Garivaldino, no centro do Rio Grande do Sul, e em Tunas, no Paran\u00e1. Na gruta do Marinheiro, em Minas Gerais, tamb\u00e9m foram achados artefatos l\u00edticos desse tipo, igualmente antigos, mas cuja filia\u00e7\u00e3o cultural \u00e9 alvo de debates.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080_arqueo_264-300x200.jpg?resize=300%2C200\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" srcset=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080_arqueo_264-300x200.jpg 300w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080_arqueo_264-768x512.jpg 768w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080_arqueo_264-744x496.jpg 744w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080_arqueo_264-1024x683.jpg 1024w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080_arqueo_264.jpg 1200w\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" \/><\/p>\n<p><em>Desenhos na serra da Capivara, no Piau\u00ed, um dos mais antigos pontos do territ\u00f3rio nacional com vest\u00edgios de presen\u00e7a humana<\/em><\/p>\n<p>Alguns arque\u00f3logos consideram as pontas do s\u00edtio mineiro como da tradi\u00e7\u00e3o Umbu, enquanto outros ainda n\u00e3o sabem como classific\u00e1-las. \u201cAs pontas da gruta do Marinheiro s\u00e3o totalmente diferentes das do Sul. N\u00e3o s\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o Lagoa Santa nem da Umbu. E muito menos da Itaparica, que, ali\u00e1s, n\u00e3o produzia pontas\u201d, afirma a arque\u00f3loga Mercedes Okumura, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN-UFRJ), uma das poucas pesquisadoras do pa\u00eds que estudam esse tipo de artefato l\u00edtico. \u201cA teoria nos diz que para surgir essa variabilidade no modo de fazer pontas \u00e9 preciso, entre outros fatores, tempo suficiente para que essa diversidade se desenvolva. De forma simplificada, \u00e9 um processo semelhante ao da evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode descartar a possibilidade de ter ocorrido a migra\u00e7\u00e3o de um grupo pr\u00e9-hist\u00f3rico que estava em uma regi\u00e3o, e j\u00e1 sabia fazer pontas de flecha com certas caracter\u00edsticas, para uma \u00e1rea onde n\u00e3o havia esse tipo de conhecimento. Em tese, essa migra\u00e7\u00e3o encurtaria o tempo necess\u00e1rio para que um grupo aprendesse a fazer pontas de um dado estilo. No entanto, as pontas encontradas no Brasil n\u00e3o se assemelham \u00e0s de Cl\u00f3vis, da Am\u00e9rica do Norte, nem \u00e0s do tipo rabo de peixe, que est\u00e3o presentes na Argentina e no Uruguai, com idade de at\u00e9 11 mil anos. \u201cH\u00e1 algumas dessas no Brasil, mas ainda sem data\u00e7\u00e3o\u201d, comenta Mercedes.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080_arqueo_264_03-300x275.jpg?resize=300%2C275\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" srcset=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080_arqueo_264_03-300x275.jpg 300w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080_arqueo_264_03-768x703.jpg 768w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080_arqueo_264_03-542x496.jpg 542w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080_arqueo_264_03-1024x937.jpg 1024w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/080_arqueo_264_03.jpg 1100w\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"275\" \/><\/p>\n<p><em>Artefato de pedra do s\u00edtio de Santa Elina, em Mato Grosso, datado em mais de 25 mil anos<\/em><\/p>\n<p>Para complicar ainda mais as coisas, as idades fornecidas pelo m\u00e9todo do carbono 14 podem ser apresentadas de duas formas, calibradas ou n\u00e3o calibradas. Isso gera discrep\u00e2ncias e confus\u00f5es. Nem sempre fica claro para o p\u00fablico leigo quando os arque\u00f3logos ou os meios de comunica\u00e7\u00e3o est\u00e3o usando um tipo de dado ou outro. Idades obtidas pela t\u00e9cnica do carbono 14 t\u00eam de passar por um tipo de corre\u00e7\u00e3o para serem equivalentes aos anos do calend\u00e1rio humano. Assim, 10 mil anos obtidos pela t\u00e9cnica do carbono 14 representam, depois de serem calibrados, cerca de 12 mil anos. H\u00e1 mais de uma forma de fazer essa corre\u00e7\u00e3o e, dependendo da t\u00e9cnica empregada e da margem de erro, os resultados corrigidos podem variar significativamente. Por isso, alguns arque\u00f3logos preferem trabalhar com as data\u00e7\u00f5es por carbono 14 sem terem passado por esse processo de corre\u00e7\u00e3o. \u201cPrefiro usar datas n\u00e3o calibradas\u201d, comenta Walter Neves. Em tempo: nesta reportagem foram usadas datas calibradas.<strong>Idade calibrada<\/strong><br \/>\nAs data\u00e7\u00f5es de s\u00edtios arqueol\u00f3gicos sempre provocam alguma discord\u00e2ncia, \u00e0s vezes at\u00e9 pol\u00eamicas, quando os resultados obtidos atingem idades inesperadas. Um dos motivos \u00e9 que, nas Am\u00e9ricas, o n\u00famero de esqueletos humanos antigos encontrados preservados \u00e9 pequeno e, entre os poucos que resistiram \u00e0 passagem do tempo, \u00e9 raro os arque\u00f3logos conseguirem extrair tecido biol\u00f3gico (col\u00e1geno) que possa ser alvo direto do processo de data\u00e7\u00e3o por carbono 14. A data\u00e7\u00e3o direta de material humano \u00e9 sempre mais dif\u00edcil de ser contestada. Com o m\u00e9todo do carbono 14, \u00e9 poss\u00edvel datar material de at\u00e9 50 mil anos. Quando n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel estabelecer uma cronologia de ocupa\u00e7\u00e3o de uma \u00e1rea a partir de tecido biol\u00f3gico de esqueletos humanos, o recurso seguinte \u00e9 tentar obter dados indiretos: datar a camada geol\u00f3gica em que os esqueletos ou vest\u00edgios humanos foram achados. N\u00e3o havendo ossos de\u00a0<em>Homo sapiens<\/em>, a sa\u00edda \u00e9 procurar por objetos feitos pelas m\u00e3os humanas ou restos de fogueiras produzidas pelo homem que possam ser datados. Se isso tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, resta recorrer novamente \u00e0 data\u00e7\u00e3o da camada geol\u00f3gica em que o objeto associado \u00e0 presen\u00e7a humana foi encontrado.<\/p>\n<p><em>Artigos cient\u00edficos<\/em><br \/>\nBUENO, L. e DIAS, A.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S0103-40142015000100119&amp;script=sci_arttext\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Povoamento inicial da Am\u00e9rica do Sul: Contribui\u00e7\u00f5es do contexto brasileiro<\/a>.\u00a0<strong>Estudos Avan\u00e7ados<\/strong>.\u00a0v. 29, n.83, jan.\/abr.\u00a02015.<br \/>\nARAUJO, A. G. M.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S0001-37652015005040219&amp;script=sci_arttext&amp;tlng=es\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">On vastness and variability: Cultural transmission, historicity, and the paleoindian record in eastern South America<\/a>.\u00a0<strong>Anais da Academia Brasileira de Ci\u00eancias<\/strong>. v. 87, n. 2, p. 1239-58. 2015.<br \/>\nBUENO, L.\u00a0<em>et al<\/em>.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S1040618213001869\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">The late Pleistocene\/early Holocene archaeological record in Brazil: A geo-referenced database<\/a>.\u00a0<strong>Quaternary International<\/strong>. v. 301, p. 74-93. 8 jul. 2013.<\/p>\n<p>http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2018\/02\/15\/ocupacao-do-brasil-primordial\/?cat=humanidades<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARCOS PIVETTA &#8211; Evid\u00eancias indicam que havia popula\u00e7\u00f5es de ca\u00e7adores-coletores em todas as grandes regi\u00f5es do territ\u00f3rio nacional cerca de 10 mil anos atr\u00e1s H\u00e1 10.500 anos praticamente todo o territ\u00f3rio que viria a ser o Brasil j\u00e1 era habitado por expressivas popula\u00e7\u00f5es de ca\u00e7adores-coletores. 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