{"id":7514,"date":"2018-03-17T09:23:00","date_gmt":"2018-03-17T12:23:00","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=7514"},"modified":"2018-03-13T12:27:17","modified_gmt":"2018-03-13T15:27:17","slug":"nao-se-deve-ignorar-que-a-miseria-provoca-violencia-e-loucura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/03\/17\/nao-se-deve-ignorar-que-a-miseria-provoca-violencia-e-loucura\/","title":{"rendered":"\u201cN\u00e3o se deve ignorar que a mis\u00e9ria provoca viol\u00eancia e loucura\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u00c1lex Vicente<\/strong> &#8211;\u00a0Um dos principais nomes da literatura em franc\u00eas, marroquina \u00e9 convidada da Flip deste ano.<\/p>\n<p>Seu av\u00f4 n\u00e3o via contradi\u00e7\u00e3o nenhuma entre observar o jejum do\u00a0Ramad\u00e3<span style=\"font-size: 16px;\">\u00a0e depois se fantasiar de Papai Noel para os netos. \u00c0 mesa familiar se sentavam uma av\u00f3 alsaciana que falava alem\u00e3o e um tio judeu a quem a Resist\u00eancia francesa protegeu durante a\u00a0<\/span>Segunda Guerra Mundial<span style=\"font-size: 16px;\">. Um av\u00f4 argelino que havia sido coronel do Ex\u00e9rcito colonial convivia, ombro a ombro, com outra av\u00f3 de religi\u00e3o cat\u00f3lica, mas que havia peregrinado a Meca. \u00c0s vezes brigavam, mas quase sempre conseguiam conviver em paz, inclusive entre risos. Leila Slimani (Rabat, 1981) sonha com uma sociedade que se pare\u00e7a com essa fam\u00edlia.<\/span><\/p>\n<p>Jornalista e autora de v\u00e1rios artigos onde se op\u00f5e com virul\u00eancia ao fundamentalismo isl\u00e2mico, tamb\u00e9m assinou dois romances. O \u00faltimo,\u00a0<em>Can\u00e7\u00e3o de Ninar<\/em>, que ser\u00e1 lan\u00e7ado no Brasil pelo selo Tusquets nesta semana, \u00e9 inspirado no caso real de uma bab\u00e1 que matou as crian\u00e7as de quem cuidava, ganhou de forma surpreendente o pr\u00eamio Goncourt de 2016, fazendo com que Slimani se tornasse da noite para o dia um dos nomes mais promissores das letras francesas. N\u00e3o \u00e0 toa, Slimani \u00e9 uma das convidadas da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/flip_festa_literaria_internacional_paraty\/a\">Festa Liter\u00e1ria Internacional de Paraty (Flip)<\/a>, que acontecer\u00e1 entre os dias 25 e 29 de julho. A entrevista a seguir aconteceu em Paris, onde a autora, de educa\u00e7\u00e3o mu\u00e7ulmana, por\u00e9m franc\u00f3fona \u2013 admite falar mal o idioma \u00e1rabe \u2013, chegou aos 17 anos para prosseguir seus estudos. Am\u00e1vel, por\u00e9m reservada, cansada da aten\u00e7\u00e3o constante que desperta desde que recebeu o importante pr\u00eamio liter\u00e1rio franc\u00eas, afirma que preferiria terminar seu novo ensaio, sobre a vida sexual dos magrebinos, a passar os dias concedendo entrevistas. Diz ter um lema que norteia sua vida: \u201cMinha pena \u00e9 minha arma\u201d.<\/p>\n<p><strong>Pergunta.<\/strong>\u00a0O que mudou com o pr\u00eamio Goncourt?<\/p>\n<p><strong>Resposta.<\/strong>\u00a0Agora estou mais ocupada e se presta mais aten\u00e7\u00e3o ao que fa\u00e7o. Mas, basicamente, n\u00e3o mudou nada. Nem minha vida nem minha pessoa. \u00c9 uma honra e uma alegria, mas tento n\u00e3o me tomar por algu\u00e9m mais importante do que sou. O fundamental \u00e9 continuar trabalhando. Tenho s\u00f3 35 anos [agora 36] e toda uma vida pela frente, que penso dedicar \u00e0 escrita.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0O pr\u00eamio n\u00e3o a fez se sentir legitimada?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0N\u00e3o. A\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/literatura\/a\">literatura<\/a>\u00a0\u00e9 um of\u00edcio dominado pela d\u00favida. Ganhar um pr\u00eamio, por mais importante que seja, n\u00e3o imuniza a pessoa contra escrever um romance muito ruim. Por outro lado, \u00e9 crucial conservar esse sentimento de ilegitimidade, porque \u00e9 um motor na escrita e na vida. \u00c9 o que faz voc\u00ea seguir em frente. Perder esse sentimento de impostura seria cair numa armadilha. Para os escritores, essa ang\u00fastia n\u00e3o \u00e9 nociva.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Depois de receber esse reconhecimento, voc\u00ea declarou que via nele uma tripla dimens\u00e3o simb\u00f3lica, por ser mulher, jovem e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/magreb\/a\">magrebina<\/a>.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Na verdade, n\u00e3o quero ser s\u00edmbolo de nada. Os s\u00edmbolos s\u00e3o im\u00f3veis, como as est\u00e1tuas. E eu n\u00e3o gosto das est\u00e1tuas. Prefiro ser um modelo ou um exemplo. Gra\u00e7as a esse pr\u00eamio talvez haja quem diga a si mesma que ser uma mulher jovem de origem estrangeira n\u00e3o \u00e9 um obst\u00e1culo num mundo como o da literatura, tradicionalmente dominado por homens brancos e mais velhos.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Voc\u00ea teve modelos?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Quando se escreve, nem sempre \u00e9 bom t\u00ea-los. Adoro Tchekhov, Zweig e Beauvoir, mas quando voc\u00ea se p\u00f5e a escrever n\u00e3o pode observ\u00e1-los de longe, com admira\u00e7\u00e3o, como se fosse uma crian\u00e7a pequena. Eu diria que meus verdadeiros modelos foram meus pais. Ensinaram-me o que era o humanismo, o respeito pela dignidade humana. Incutiram-me que cada ser \u00e9 merecedor de respeito, seja ele branco ou negro, velho ou jovem, homem ou mulher. Tamb\u00e9m me transmitiram o pudor com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s opini\u00f5es pol\u00edticas e religiosas, a humildade de n\u00e3o aspirar a obrigar os outros a pensarem igual a voc\u00ea.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Apesar das diferen\u00e7as de estilo, forma e estrutura, seu livro parece beber da literatura do s\u00e9culo XIX, quando autores como Balzac, Hugo e Zola adotaram Paris como observat\u00f3rio das diferen\u00e7as sociais.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/11\/eps\/1489187158_148918_1520891712_sumario_normal.jpg?resize=360%2C540&#038;ssl=1\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/11\/eps\/1489187158_148918_1520891712_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/11\/eps\/1489187158_148918_1520891712_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"Leila Slimani: \u201cN\u00e3o se deve ignorar que a mis\u00e9ria provoca viol\u00eancia e loucura\u201d\" width=\"360\" height=\"540\" \/><\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0S\u00e3o refer\u00eancias fundamentais para mim. Gra\u00e7as a eles, quando eu vivia em Rabat soube o que era Paris antes de colocar os p\u00e9s nela. Para mim \u00e9 imposs\u00edvel contar o que \u00e9\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/paris\/a\">Paris<\/a>\u00a0sem recorrer a esses autores. Mas, ao mesmo tempo, acredito que n\u00e3o foram uma refer\u00eancia direta. N\u00e3o os reli para escrever\u00a0<em>Can\u00e7\u00e3o de Ninar<\/em>, optei por uma escrita mais depurada e menos descritiva. Mas compartilho da ideia que Zola e Balzac apregoaram: todo romancista deve observar os seus contempor\u00e2neos e deixar um rastro do que foi a sua \u00e9poca.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Quando voc\u00ea observa os seus contempor\u00e2neos, o que v\u00ea?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Vejo uma grande contradi\u00e7\u00e3o entre as palavras e os fatos. Vejo uma sociedade dividida entre as boas inten\u00e7\u00f5es, favor\u00e1vel \u00e0 diversidade e \u00e0 igualdade, e uma s\u00e9rie de estratos muito antigos, mas plenamente vigentes: a hierarquia social, a luta de classes, a condi\u00e7\u00e3o das mulheres e sua maneira de confrontar a maternidade\u2026 No livro, tentei misturar umas coisas com as outras, sobrepor tempos e problemas diferentes, e depois ver o que acontece.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Considera que a desigualdade e a mis\u00e9ria s\u00e3o iguais a dois s\u00e9culos atr\u00e1s?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Certamente. Quando a gente l\u00ea livros sobre Paris ou\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/londres\/a\">Londres<\/a>\u00a0do s\u00e9culo XIX, tem a impress\u00e3o de que a pobreza e a indignidade eram muito maiores. Mais vis\u00edveis, e tamb\u00e9m mais terr\u00edveis. Hoje a mortalidade infantil j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a mesma, e as crian\u00e7as s\u00e3o proibidas de trabalhar, mas isso n\u00e3o significa que n\u00e3o continuem acontecendo coisas muito preocupantes.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Por exemplo?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Acabo de voltar de San Francisco, a cidade que, proporcionalmente, tem o maior n\u00famero de indigentes do mundo. Que um pa\u00eds t\u00e3o rico, com tantos recursos e tanto espa\u00e7o permita isso\u2026 E o mais terr\u00edvel \u00e9 que eles est\u00e3o a\u00ed, mas se tornaram quase invis\u00edveis. Dormem em plena rua, mortos de fome e drogados, enquanto seus concidad\u00e3os passam ao largo, sorvendo um caf\u00e9 de seis d\u00f3lares comprado no Starbucks. Existe uma incr\u00edvel indiferen\u00e7a com uma parte da popula\u00e7\u00e3o que vive quase como na Idade M\u00e9dia. S\u00f3 alguns quil\u00f4metros os separam do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/silicon_valley\/a\">Vale do Sil\u00edcio<\/a>, um dos lugares mais ricos do mundo, de onde nos dizem sem parar que, gra\u00e7as \u00e0 tecnologia, todos os problemas ser\u00e3o erradicados. A verdade \u00e9 que para mim isso parece atroz.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0No livro, voc\u00ea sugere que essa mis\u00e9ria social, embora nunca justifique um crime, pode ajudar a entend\u00ea-lo.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0De fato, o termo \u201cjustificar\u201d \u00e9 complicado. Mas o trabalho de um artista ou um escritor consiste, como voc\u00ea observa, em tratar de compreender. N\u00e3o existem raz\u00f5es simples ou bin\u00e1rias para explicar o que acontece no meu livro, mas n\u00e3o se deve ignorar que a mis\u00e9ria provoca viol\u00eancia e loucura, e que pode levar a cometer atos terr\u00edveis. Quando algu\u00e9m fere um animal, este se volta contra seu agressor e \u00e9 capaz de devor\u00e1-lo. Inclusive quando est\u00e1 domesticado.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Esse discurso causa rejei\u00e7\u00e3o, a come\u00e7ar pela classe pol\u00edtica. Depois dos atentados de novembro de 2015 em Paris, o ent\u00e3o primeiro-ministro Manuel Valls disse que \u201ctentar compreender \u00e9 uma forma de come\u00e7ar a desculpar\u201d.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Acho muito grave, mas isso n\u00e3o acontece s\u00f3 na Fran\u00e7a. Qual l\u00edder europeu fala hoje sobre as consequ\u00eancias da pobreza? Qual pol\u00edtico diz, na Espanha, na It\u00e1lia ou na Gr\u00e9cia, que essa mis\u00e9ria \u00e9 suscet\u00edvel de nos enlouquecer ou de nos levar ao suic\u00eddio? O que sabem os nossos pol\u00edticos dessa mis\u00e9ria?<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0E voc\u00ea, o que sabe dessa mis\u00e9ria?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0N\u00e3o a conhe\u00e7o na carne. Mas, como todo escritor, n\u00e3o preciso t\u00ea-la vivido pessoalmente para cont\u00e1-la. Trabalhei muito tempo como jornalista e estive nos lugares. Observei e perguntei. E, sobretudo, aprendi a escutar.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Voc\u00ea j\u00e1 disse que cresceu \u201cnuma bolha\u201d. A que se refere?<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote><p>N\u00e3o tenho problemas em reconhecer que sou covarde e que calo certas coisas por medo de viver uma surpresa desagrad\u00e1vel<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Venho de um ambiente burgu\u00eas e sem problemas de dinheiro. Passei minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia em um pa\u00eds pobre e quase ditatorial,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/06\/20\/cultura\/1403279163_296788.html\">o Marrocos de Hassan II<\/a>, mas n\u00e3o estava cega ao que me cercava. Minha m\u00e3e era m\u00e9dica e me falou desde pequena dessa mis\u00e9ria. Desde muito pequena eu tinha consci\u00eancia de que havia gente em situa\u00e7\u00e3o diferente, que precisava implorar para ter direito a algo. O que quero dizer \u00e9 que n\u00e3o \u00e9ramos burgueses idiotas e descerebrados, que tamb\u00e9m existem.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Voc\u00ea recebeu uma educa\u00e7\u00e3o liberal, mas com contradi\u00e7\u00f5es. Por exemplo, disseram-lhe que voc\u00ea era dona do seu corpo, mas era proibida de passear a s\u00f3s com um homem\u2026<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Essa situa\u00e7\u00e3o esquizofr\u00eanica \u00e9 pr\u00f3pria de todos os pa\u00edses mu\u00e7ulmanos. Existe um abismo entre a esfera p\u00fablica e a privada. Em p\u00fablico, a pessoa deve se portar de maneira piedosa, segundo a regra moral, guiada por Deus e a religi\u00e3o. Mas, em casa, voc\u00ea pode fazer o que bem entender. Praticar sexo homossexual, usar drogas, contratar prostitutas. Desde que os outros n\u00e3o saibam, n\u00e3o h\u00e1 nenhum problema.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0N\u00e3o existe essa dupla moral tamb\u00e9m no Ocidente?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Claro que sim. A diferen\u00e7a \u00e9 que em Marrocos a pessoa vai para a cadeia por exercer a prostitui\u00e7\u00e3o ou ser homossexual. O pre\u00e7o que se paga n\u00e3o \u00e9 compar\u00e1vel. Se meus pais me proibiam certas coisas, n\u00e3o era por motivos morais, e sim legais.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Foi dif\u00edcil se libertar quando chegou a Paris, aos 17 anos?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0N\u00e3o, foi um processo muito r\u00e1pido. Acho que eu estava pronta para me libertar [risos]&#8230; A maior diferen\u00e7a foi sentir a liberdade na esfera p\u00fablica. Sentir-me como um cidad\u00e3o com uma s\u00e9rie de direitos que voc\u00ea pode fazer valer quando precisar.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0<em>Can\u00e7\u00e3o de Ninar<\/em>\u00a0tamb\u00e9m fala da maternidade no s\u00e9culo XXI, da dificuldade de ser uma boa m\u00e3e e uma boa profissional. \u00c9 um desafio imposs\u00edvel?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Minha gera\u00e7\u00e3o \u00e9 a primeira que cresceu acreditando que poderia fazer tudo ao mesmo tempo. Quando voc\u00ea \u00e9 pequena, acredita nisso. Quando cresce, v\u00ea que \u00e9 bem mais dif\u00edcil. Se for poss\u00edvel fazer tudo, \u00e9 com muitos sacrif\u00edcios envolvidos. A energia que dedicamos a uma atividade n\u00e3o podemos investi-la na outra. O que eu me pergunto \u00e9 se a igualdade real passa por viver a mesma vida que um homem, ou se a revolu\u00e7\u00e3o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/feminismo\/a\">feminista<\/a>\u00a0deveria implicar uma mudan\u00e7a global que imponha uma organiza\u00e7\u00e3o diferente do trabalho e da fam\u00edlia. A fam\u00edlia continua sendo regida por esquemas de outra \u00e9poca, por hierarquias sociais e modelos p\u00f3s-coloniais que dever\u00edamos superar.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Seu primeiro of\u00edcio foi o de jornalista. Voc\u00ea disse certa vez que o deixou por ser \u201cum trabalho muito escravo, no qual n\u00e3o se envelhece bem\u201d.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Trabalhar numa reda\u00e7\u00e3o at\u00e9 os 70 anos n\u00e3o era para mim. \u00c9 um trabalho que pode enlouquecer a pessoa,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/07\/10\/internacional\/1499674790_528924.html\">porque a gente v\u00ea coisas muito fortes diariamente<\/a>. Eu sou muito sens\u00edvel. Teria me quebrado ao meio. Em todo caso, ajudou-me muito para escrever meus romances. Venho da escola da reportagem, o que ajuda voc\u00ea a se apagar da paisagem para se limitar a observar. A desenvolver um olhar agudo sobre as pessoas e os lugares. A entender que um gesto, uma roupa ou uma maneira de se sentar podem transmitir muita informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Voc\u00ea escreveu que nestes tempos conturbados o papel da literatura consiste em fornecer \u201ccomplexidade e ambiguidade\u201d a um mundo que as rejeita.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote><p>A literatura \u00e9 mais necess\u00e1ria que nunca em um mundo que quer transformar tudo em uma superf\u00edcie lisa<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0A literatura \u00e9\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/02\/22\/opinion\/1519332813_987510.html\">um espa\u00e7o de liberdade imenso, onde se pode dizer tudo, descolando-se das regras morais<\/a>. Nesse sentido, acho-a mais necess\u00e1ria que nunca. Ela \u00e9 capaz de opor resist\u00eancia a um mundo que quer transformar tudo em uma superf\u00edcie lisa, articular todo conflito num registro em preto e branco. A literatura serve para ressuscitar o humano, que sempre passa pelos tons de cinza.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Ap\u00f3s publicar seu primeiro romance, voc\u00ea recebeu insultos nas\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/redes_sociales\/a\">redes sociais<\/a>\u00a0por parte de alguns c\u00edrculos do islamismo. Acusavam-na de ser uma magrebina vendida ao Ocidente.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Sim, mas o que mais irritava os fundamentalistas era que eu escrevesse fic\u00e7\u00e3o. Consideram que o romance \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o vil, porque se fundamenta numa mentira. Parece surrealista, mas faz certo sentido. Quando ou\u00e7o um fundamentalista [crist\u00e3o] opinar sobre a religi\u00e3o, sempre me fala da Virgem e do para\u00edso como se tivessem existido de verdade. N\u00e3o percebem que s\u00e3o hist\u00f3rias. E, quando voc\u00ea se atreve a lhe dizer\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/09\/05\/opinion\/1504623300_823162.html\">que a Virgem certamente n\u00e3o era virgem, eles enlouquecem<\/a>. N\u00e3o t\u00eam nenhuma percep\u00e7\u00e3o do que \u00e9 a fic\u00e7\u00e3o, o que me parece terr\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Voc\u00ea apoia o modelo ocidental?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0N\u00e3o, o que defendo \u00e9 o desenvolvimento, seja ocidental ou n\u00e3o. Por acaso o Ocidente \u00e9 mais evolu\u00eddo, mas esse crescimento n\u00e3o pertence a ningu\u00e9m em especial. Os ditadores \u00e1rabes entenderam que, educando as pessoas, corriam o risco de serem derrubados. O fracasso dos pa\u00edses \u00e1rabes se explica por essa aus\u00eancia de educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Voc\u00ea defende esse \u201cislamismo iluminista\u201d pregado por intelectuais como Abdennour Bidar e Malek Chebel?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0N\u00e3o, eu defendo o iluminismo puro. Para mim a religi\u00e3o n\u00e3o interessa. N\u00e3o \u00e9 problema meu. A religi\u00e3o tem que ser algo \u00edntimo. Se uma mulher quer se trancar na sua casa e colocar uma barraca de camping na cabe\u00e7a, que fa\u00e7a isso. O que n\u00e3o quero \u00e9 que me importunem no espa\u00e7o p\u00fablico. Quando ou\u00e7o falar de islamismo iluminista n\u00e3o entendo muito bem a que se referem. A religi\u00e3o \u00e9 mais sombria que luminosa, em especial quanto aos direitos das mulheres. E acontece em todas as religi\u00f5es, n\u00e3o s\u00f3 no islamismo. \u00c9 como essa gente que se extasia com o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/francisco_i\/a\">papa Francisco<\/a>: permitam-me recordar-lhes que ele continua sendo contra o preservativo e o casamento dos homossexuais. Com esse islamismo iluminista acontece o mesmo: n\u00e3o obrigar a sua mulher a colocar o\u00a0<em>niqab<\/em>\u00a0n\u00e3o faz de voc\u00ea um ilustrado.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Quando voc\u00ea enfrenta o islamismo em seus artigos e os intitula com frases como \u201cFundamentalistas, odeio voc\u00eas\u201d, voc\u00ea sente medo?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Claro que tenho medo. N\u00e3o sou uma mulher muito corajosa. Eu me preocupo, porque tenho pais e filhos. E porque vivo num mundo onde, \u00e0s vezes, as amea\u00e7as s\u00e3o levadas a cabo. N\u00e3o tenho problemas em reconhecer que sou covarde e que calo certas coisas por medo de viver uma surpresa desagrad\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Qual \u00e9 o grande desafio deste s\u00e9culo com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es de identidade?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Bom, eu n\u00e3o acredito na identidade. N\u00e3o devemos deixar que esse conceito nos defina. Para mim, a identidade \u00e9 o que algu\u00e9m transmite \u00e0 gera\u00e7\u00e3o que vem depois. Minha identidade \u00e9 o que deixarei para o meu filho e, muito em breve, para a minha filha. O que ficar\u00e1 de mim s\u00e3o as ideias que lhes transmitirei.<\/p>\n<section id=\"sumario_4|despiece\" class=\"sumario_despiece centro\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<header class=\"sumario-encabezado\">\n<h4 class=\"sumario-titulo\"><span class=\"sin_enlace\" style=\"color: #993300;\">Trecho do livro &#8216;Can\u00e7\u00e3o de Ninar&#8217;<\/span><\/h4>\n<\/header>\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p><span style=\"color: #993300;\">O beb\u00ea est\u00e1 morto. Bastaram alguns segundos. O m\u00e9dico as\u00adsegurou que ele n\u00e3o tinha sofrido. Estenderam-no em uma capa cinza e fecharam o z\u00edper sobre o corpo desarticulado que boiava em meio aos brinquedos. A menina, por sua vez, ainda estava viva quando o socorro chegou. Resistiu como uma fera. Encontraram marcas de luta, peda\u00e7os de pele sob as unhas molinhas. Na ambul\u00e2ncia que a transportava ao hospital ela estava agitada, tomada por convuls\u00f5es. Com os olhos esbu\u00adgalhados, parecia procurar o ar. Sua garganta estava cheia de sangue. Os pulm\u00f5es estavam perfurados e a cabe\u00e7a tinha bati\u00addo com viol\u00eancia contra a c\u00f4moda azul.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\">Fotografaram a cena do crime. A pol\u00edcia colheu digitais e mediu a \u00e1rea do banheiro e do quarto das crian\u00e7as. No ch\u00e3o, o tapete de princesa estava empapado de sangue. O trocador estava meio virado. Os brinquedos foram levados em sacos transparentes e lacrados. At\u00e9 a c\u00f4moda azul ser\u00e1 usada no processo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\">A m\u00e3e estava em choque. Foi o que disseram os bombei\u00adros, o que repetiram os policiais, o que escreveram os jorna\u00adlistas. Ao entrar no quarto onde jaziam os filhos, ela soltou um grito, um grito das profundezas, um uivo de loba. As pa\u00adredes tremeram. A noite se abateu sobre esse dia de maio. Ela vomitou e a pol\u00edcia a descobriu assim, com a roupa suja, agachada no quarto, solu\u00e7ando como uma desvairada. Ela uivou at\u00e9 arrebentar os pulm\u00f5es. O enfermeiro fez um sinal discreto com a cabe\u00e7a e eles a ergueram, apesar de sua resis\u00adt\u00eancia, de seus chutes. Eles a levantaram devagar e a jovem residente do samu lhe deu um calmante. Era seu primeiro m\u00eas de est\u00e1gio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\">Tamb\u00e9m foi preciso salvar a outra. Com o mesmo profis\u00adsionalismo, com objetividade. Ela n\u00e3o soube morrer. Ela s\u00f3 soube provocar a morte. Ela seccionou os dois pulsos e cravou a faca na garganta. Perdeu a consci\u00eancia ao p\u00e9 do ber\u00e7o. Eles a colocaram em p\u00e9, tomaram seu pulso e sua press\u00e3o. Eles a puseram na maca e a jovem estagi\u00e1ria comprimiu seu pesco\u00ad\u00e7o com a m\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\">Os vizinhos se reuniram na frente do pr\u00e9dio. Principal\u00admente as mulheres. \u00c9 quase hora de ir buscar as crian\u00e7as na escola. Elas olham a ambul\u00e2ncia com os olhos inchados de l\u00e1\u00adgrimas. Choram e querem saber. Ficam na ponta dos p\u00e9s. Ten\u00adtam descobrir o que acontece atr\u00e1s do cord\u00e3o de isolamento, no interior da ambul\u00e2ncia que arranca com todas as sirenes li\u00adgadas. Cochicham informa\u00e7\u00f5es umas para as outras. O rumor j\u00e1 corre. Algo de ruim aconteceu com as crian\u00e7as.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\">\u00c9 um belo pr\u00e9dio da rue d\u2019Hauteville, no d\u00e9cimo\u00a0<i>arrondis\u00adsement<\/i>. Um pr\u00e9dio onde os vizinhos se cumprimentam, sem se conhecer, com bons-dias calorosos. O apartamento dos Mass\u00e9 fica no quinto andar. \u00c9 o menor apartamento do edi\u00adf\u00edcio. Paul e Myriam ergueram uma divis\u00f3ria no meio da sala quando o segundo filho nasceu. Eles dormem em um c\u00f4modo apertado, entre a cozinha e a janela que d\u00e1 para a rua. Myriam gosta de m\u00f3veis chineses e tapetes marroquinos. Na parede, ela pendurou gravuras japonesas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\">Hoje ela voltou mais cedo. Encurtou uma reuni\u00e3o e deixou para o dia seguinte a an\u00e1lise de um dossi\u00ea. Num assento re\u00adtr\u00e1til no metr\u00f4 da linha 7, ela pensava em fazer uma surpresa para os pequenos. Chegando, passou na padaria. Comprou uma baguete, uma sobremesa para as crian\u00e7as e um bolinho de laranja para a bab\u00e1. O favorito dela.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\">Pensava em lev\u00e1-los ao carrossel. Eles iriam juntos fazer as compras para o jantar. Mila pediria um brinquedo, Adam chuparia uma casquinha de p\u00e3o sentado no carrinho.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\">Adam est\u00e1 morto. Mila n\u00e3o vai resistir.<\/span><\/p>\n<p>https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/03\/11\/eps\/1489187158_148918.html<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c1lex Vicente &#8211;\u00a0Um dos principais nomes da literatura em franc\u00eas, marroquina \u00e9 convidada da Flip deste ano. 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