{"id":7487,"date":"2018-03-14T09:50:53","date_gmt":"2018-03-14T12:50:53","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=7487"},"modified":"2018-03-12T17:56:19","modified_gmt":"2018-03-12T20:56:19","slug":"descobertas-contestam-hegemonia-de-darwin-e-recuperam-lamarck","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/03\/14\/descobertas-contestam-hegemonia-de-darwin-e-recuperam-lamarck\/","title":{"rendered":"Descobertas contestam hegemonia de Darwin e recuperam Lamarck"},"content":{"rendered":"<p><strong>Kevin Laland <\/strong>&#8211;\u00a0Caracter\u00edsticas adquiridas em vida afetam gen\u00e9tica e evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies, escreve professor escoc\u00eas.<\/p>\n<p>Autor afirma que pesquisas recentes indicam que a evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies \u00e9 um fen\u00f4meno mais complexo do que se imaginava e n\u00e3o pode ser explicado apenas pela sele\u00e7\u00e3o natural. Defensor de uma teoria alternativa (a s\u00edntese evolutiva estendida), ele argumenta que\u00a0a ci\u00eancia\u00a0tem dificuldade para incorporar novas ideias.<\/p>\n<p>Quando pesquisadores da Universidade Emory, em Atlanta, treinaram camundongos para sentir medo do cheiro de am\u00eandoas (aplicando choques el\u00e9tricos acompanhados pelo odor), eles descobriram, consternados, que os filhos e netos desses camundongos temiam espontaneamente o mesmo cheiro. Isso n\u00e3o deveria acontecer.<\/p>\n<p>Gera\u00e7\u00f5es de estudantes sempre souberam que \u00e9 imposs\u00edvel herdar caracter\u00edsticas adquiridas. Um camundongo n\u00e3o deveria nascer com algo que seus pais aprenderam durante a vida, assim como aquele que perde a cauda em um acidente n\u00e3o d\u00e1 \u00e0 luz filhotes sem cauda.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 bi\u00f3logo, pode ser perdoado por estar confuso com o estado da ci\u00eancia evolutiva. A biologia evolutiva moderna data de uma s\u00edntese que emergiu nas d\u00e9cadas de 1940 a 1960, casando o mecanismo da sele\u00e7\u00e3o natural de\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2017\/11\/1938200-da-ciencia-politica-a-economia-autor-amplia-alcance-da-teoria-darwinista.shtml\" target=\"\">Charles Darwin<\/a>\u00a0com as descobertas de Gregor Mendel sobre como os genes s\u00e3o herdados.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o tradicional e ainda dominante reza que as adapta\u00e7\u00f5es \u2014desde o c\u00e9rebro humano at\u00e9 a cauda do pav\u00e3o\u2014 s\u00e3o integral e satisfatoriamente explicadas pela sele\u00e7\u00e3o natural (e a subsequente transmiss\u00e3o de caracter\u00edsticas aos descendentes).<\/p>\n<p>Por\u00e9m, com a chegada de ideias novas vindas da\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/11\/1937931-vinte-anos-depois-de-gattaca-genes-perfeitos-seguem-longe-da-realidade.shtml\" target=\"\">gen\u00f4mica, epigen\u00e9tica e biologia do desenvolvimento<\/a>, a maioria dos especialistas em evolu\u00e7\u00e3o concorda que seu campo se encontra em transforma\u00e7\u00e3o. Boa parte dos novos dados indica que a evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 algo mais complexo do que presum\u00edamos.<\/p>\n<p>Alguns bi\u00f3logos evolutivos, entre os quais me incluo, t\u00eam pedido uma caracteriza\u00e7\u00e3o mais ampla da teoria evolutiva, conhecida como s\u00edntese evolutiva estendida (SEE). Uma quest\u00e3o central \u00e9 saber se o que ocorre com organismos durante sua vida \u2014seu desenvolvimento\u2014 pode exercer papel importante e at\u00e9 agora imprevisto na evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o ortodoxa estabelece que processos do desenvolvimento s\u00e3o em grande medida irrelevantes para a evolu\u00e7\u00e3o, mas a SEE os considera cruciais. Protagonistas com credenciais respeitadas surgem de ambos os lados do debate; professores de universidades tradicionais e membros de academias nacionais discordam completamente quanto aos mecanismos da evolu\u00e7\u00e3o. Algumas pessoas at\u00e9 se perguntam se h\u00e1 possibilidade de uma revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em seu livro &#8220;Da Natureza Humana&#8221; (1978), o bi\u00f3logo evolutivo Edward O. Wilson afirmou que a cultura humana est\u00e1 presa a uma coleira gen\u00e9tica. Foi uma met\u00e1fora controversa por duas raz\u00f5es. Primeiro, como veremos, porque tamb\u00e9m \u00e9 verdade que a cultura segura os genes em uma coleira. Em segundo lugar, embora deva haver uma propens\u00e3o gen\u00e9tica ao aprendizado cultural, poucas diferen\u00e7as culturais podem ser explicadas por\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/11\/1937932-modificacao-de-dna-e-esperanca-para-tratar-cancer-mas-preco-ainda-e-alto.shtml\" target=\"\">diferen\u00e7as gen\u00e9ticas<\/a>\u00a0subjacentes.<\/p>\n<p>Mesmo assim, a frase tem potencial explicativo. Imagine uma pessoa (os genes) caminhando enquanto controla um c\u00e3o forte (a cultura humana). A trajet\u00f3ria (o caminho da evolu\u00e7\u00e3o) reflete o resultado da disputa entre a pessoa e o c\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora imagine essa pessoa tentando controlar v\u00e1rios c\u00e3es, presos por coleiras de comprimentos diferentes e puxando em dire\u00e7\u00f5es distintas. Todos esses pux\u00f5es representam a influ\u00eancia de fatores do desenvolvimento, incluindo epigen\u00e9tica, anticorpos e horm\u00f4nios transmitidos pelos pais, al\u00e9m do legado ecol\u00f3gico e da cultura que eles deixam a seus descendentes.<\/p>\n<p>Uma pessoa lutando para passear com os c\u00e3es \u00e9 uma boa met\u00e1fora para ilustrar como a SEE visualiza o processo adaptativo. Isso requer uma revolu\u00e7\u00e3o na evolu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"img-responsive\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/03\/09\/15206227625aa2dcaa7060d_1520622762_1x1_md.jpg?w=640&#038;ssl=1\" sizes=\"(min-width: 1024px) 68vw, 100vw\" srcset=\" https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/03\/09\/15206227625aa2dcaa7060d_1520622762_1x1_th.jpg 100w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/03\/09\/15206227625aa2dcaa7060d_1520622762_1x1_sm.jpg 480w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/03\/09\/15206227625aa2dcaa7060d_1520622762_1x1_md.jpg 768w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/03\/09\/15206227625aa2dcaa7060d_1520622762_1x1_lg.jpg 1024w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/03\/09\/15206227625aa2dcaa7060d_1520622762_1x1_xl.jpg 1200w, https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/03\/09\/15206227625aa2dcaa7060d_1520622762_1x1_rt.jpg 2400w \" alt=\"homem segurando c\u00e3es\" \/><\/p>\n<p class=\"c-news__subtitle\"><strong>REVOLU\u00c7\u00c3O CIENT\u00cdFICA<\/strong><\/p>\n<p>Antes de podermos oferecer uma resposta, precisamos examinar como funciona a ci\u00eancia. As melhores autoridades aqui n\u00e3o s\u00e3o bi\u00f3logos, mas fil\u00f3sofos e historiadores da ci\u00eancia. O livro &#8220;A Estrutura das Revolu\u00e7\u00f5es Cient\u00edficas&#8221; (1962), de Thomas Kuhn, popularizou a ideia de que as ci\u00eancias mudam por meio de revolu\u00e7\u00f5es no entendimento. Essas mudan\u00e7as de paradigma ocorreriam depois de uma crise de confian\u00e7a na velha teoria, que aconteceria pelo ac\u00famulo de dados conflitantes.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m Karl Popper e sua conjectura de que teorias cient\u00edficas n\u00e3o podem ser comprovadas, mas podem ser falsificadas.<\/p>\n<p>Considere a hip\u00f3tese &#8220;todas as ovelhas s\u00e3o brancas&#8221;. Popper afirma que nenhuma quantidade de constata\u00e7\u00f5es condizentes com a hip\u00f3tese poderia atestar sua corre\u00e7\u00e3o, pois nunca estaria descartada a possibilidade de dados conflitantes surgirem no futuro. Inversamente, a observa\u00e7\u00e3o de uma \u00fanica ovelha negra desmentiria a hip\u00f3tese de uma vez por todas. Segundo Popper, cientistas deveriam realizar experimentos cr\u00edticos com potencial de desmentir suas teorias.<\/p>\n<p>Embora muito difundidas, as ideias de Kuhn e Popper n\u00e3o est\u00e3o a salvo de controv\u00e9rsia entre fil\u00f3sofos e historiadores da ci\u00eancia. O pensamento contempor\u00e2neo nesses campos \u00e9 mais bem captado por\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2016\/10\/1824987-o-nucleo-duro-da-divergencia-entre-ortodoxos-e-heterodoxos-na-economia.shtml\" target=\"\">Imre\u00a0<\/a><a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2016\/10\/1824987-o-nucleo-duro-da-divergencia-entre-ortodoxos-e-heterodoxos-na-economia.shtml\" target=\"\">Lakatos<\/a>\u00a0em &#8220;The Methodology of Scientific Research Programmes&#8221; (a metodologia de programas de pesquisa cient\u00edfica, 1978): &#8220;A hist\u00f3ria da ci\u00eancia refuta tanto Popper quanto Kuhn. Examinados de perto, tanto os experimentos cruciais popperianos quanto as revolu\u00e7\u00f5es kuhnianas se revelam mitos&#8221;.<\/p>\n<p>Os argumentos de Popper podem fazer sentido, mas n\u00e3o mostram como a ci\u00eancia funciona no mundo real. Observa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas s\u00e3o suscet\u00edveis a erros de medi\u00e7\u00e3o; pesquisadores s\u00e3o humanos e se apegam \u00e0s suas teorias; ideias cient\u00edficas podem ser muito complexas. Tudo isso torna a avalia\u00e7\u00e3o de hip\u00f3teses cient\u00edficas uma tarefa confusa.<\/p>\n<p>Em vez de aceitar que nossas hip\u00f3teses podem estar erradas, contestamos a metodologia (&#8220;a ovelha n\u00e3o \u00e9 negra \u2014o problema est\u00e1 nos instrumentos&#8221;) ou a interpreta\u00e7\u00e3o (&#8220;a ovelha s\u00f3 est\u00e1 suja&#8221;), ou ent\u00e3o adaptamos nossa hip\u00f3tese (&#8220;eu estava falando de ra\u00e7as domesticadas, n\u00e3o de carneiros selvagens&#8221;). Lakatos descreve essas modifica\u00e7\u00f5es ou ressalvas como hip\u00f3teses auxiliares; cientistas as prop\u00f5em para proteger suas ideias principais, evitando que sejam rejeitadas.<\/p>\n<p>Esse tipo de comportamento se manifesta claramente em discuss\u00f5es cient\u00edficas sobre a evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Considere a ideia de que caracter\u00edsticas adquiridas ao longo da vida podem ser transmitidas para a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o. Ela ganhou for\u00e7a no in\u00edcio do s\u00e9culo 19 gra\u00e7as ao bi\u00f3logo Jean-Baptiste Lamarck, que a usou para explicar a evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito tempo, por\u00e9m, entende-se que a hip\u00f3tese foi desmentida por experimentos \u2014a ponto de, nos c\u00edrculos evolutivos, o termo &#8220;lamarckiano&#8221; carregar conota\u00e7\u00e3o depreciativa. A ideia mais largamente aceita \u00e9 a de que as experi\u00eancias dos pais n\u00e3o afetam as caracter\u00edsticas de sua prole.<\/p>\n<p class=\"c-news__subtitle\"><strong>EPIGEN\u00c9TICA<\/strong><\/p>\n<p>S\u00f3 que elas afetam, sim. O modo como os genes se expressam para produzir o fen\u00f3tipo de um organismo \u2014as caracter\u00edsticas reais que o organismo acaba tendo\u2014 \u00e9 afetado por subst\u00e2ncias qu\u00edmicas que se ligam a eles. Tudo, desde a dieta at\u00e9 a polui\u00e7\u00e3o do ar ou o comportamento dos pais, pode influir sobre o acr\u00e9scimo ou a retirada dessas marcas qu\u00edmicas, que ligam ou desligam genes.<\/p>\n<p>Geralmente, esses acr\u00e9scimos ditos epigen\u00e9ticos s\u00e3o removidos durante a produ\u00e7\u00e3o de espermatozoides e \u00f3vulos, mas alguns s\u00e3o transmitidos \u00e0 pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o, junto com os genes. Isso \u00e9 conhecido como heran\u00e7a epigen\u00e9tica, e mais e mais estudos v\u00eam confirmando que ela de fato ocorre.<\/p>\n<p>Voltemos aos camundongos que t\u00eam medo de am\u00eandoas. Foi a heran\u00e7a de uma marca epigen\u00e9tica transmitida nos espermatozoides que levou a nova gera\u00e7\u00e3o a adquirir um medo herdado.<\/p>\n<p>Em 2011, outro estudo extraordin\u00e1rio relatou que, expostos a um v\u00edrus nocivo, alguns vermes reagiram produzindo subst\u00e2ncias qu\u00edmicas que desativaram o v\u00edrus. Surpreendentemente, gera\u00e7\u00f5es posteriores herdaram epigeneticamente essas subst\u00e2ncias, atrav\u00e9s de mol\u00e9culas reguladoras (conhecidas como pequenos RNAs).<\/p>\n<p>Hoje existem centenas de estudos semelhantes, muitos publicados nos peri\u00f3dicos cient\u00edficos mais prestigiosos. Bi\u00f3logos debatem se a heran\u00e7a epigen\u00e9tica \u00e9 lamarckiana ou apenas se assemelha superficialmente a isso, mas n\u00e3o h\u00e1 como fugir do fato de que a heran\u00e7a de caracter\u00edsticas adquiridas ocorre.<\/p>\n<p>Pelo racioc\u00ednio de Popper, uma \u00fanica demonstra\u00e7\u00e3o experimental de heran\u00e7a epigen\u00e9tica &#8211;como uma \u00fanica ovelha negra&#8211; deveria bastar para convencer os bi\u00f3logos evolutivos de que ela \u00e9 poss\u00edvel. A maioria dos bi\u00f3logos evolutivos, contudo, n\u00e3o correu para mudar suas teorias.<\/p>\n<p>Em vez disso, como Lakatos previu, estamos propondo hip\u00f3teses auxiliares que nos permitem conservar as ideias que defendemos h\u00e1 muito tempo. Essas ideias incluem a de que heran\u00e7a epigen\u00e9tica \u00e9 rara, n\u00e3o afeta caracter\u00edsticas importantes, est\u00e1 sob controle gen\u00e9tico e \u00e9 inst\u00e1vel demais para explicar a dissemina\u00e7\u00e3o de caracter\u00edsticas por meio da sele\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Infelizmente para os tradicionalistas, nenhuma dessas tentativas de minimizar ou relativizar a import\u00e2ncia da heran\u00e7a epigen\u00e9tica parece ser digna de cr\u00e9dito. Hoje \u00e9 sabido que a heran\u00e7a epigen\u00e9tica est\u00e1 amplamente presente na natureza; mais e mais exemplos aparecem a todo momento.<\/p>\n<p>Ela afeta caracter\u00edsticas funcionalmente importantes como o tamanho de frutos, a \u00e9poca do florescimento e o crescimento de ra\u00edzes de plantas &#8211;e, embora apenas uma pequena parte das variantes epigen\u00e9ticas seja de natureza adaptativa, isso tamb\u00e9m \u00e9 verdade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 varia\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, de modo que n\u00e3o chega a ser um argumento para desacreditar a heran\u00e7a epigen\u00e9tica.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 mais d\u00favida de que a heran\u00e7a epigen\u00e9tica nos obriga a enxergar a evolu\u00e7\u00e3o de outra forma.<\/p>\n<p class=\"c-news__subtitle\"><strong>CULTURA<\/strong><\/p>\n<p>A epigen\u00e9tica \u00e9 apenas parte da hist\u00f3ria. Atrav\u00e9s da cultura e da sociedade, todos herdamos conhecimentos e habilidades adquiridos por nossos pais. Os bi\u00f3logos evolutivos aceitam essa ideia h\u00e1 pelo menos um s\u00e9culo, mas at\u00e9 recentemente considerava-se que isso fosse restrito aos humanos.<\/p>\n<p>Essa posi\u00e7\u00e3o, entretanto, deixou de ser defens\u00e1vel: criaturas de todo o reino animal aprendem socialmente sobre alimenta\u00e7\u00e3o, predadores, comunica\u00e7\u00e3o, migra\u00e7\u00e3o, escolhas de parceiros e de locais de reprodu\u00e7\u00e3o. Centenas de estudos experimentais j\u00e1 demonstraram a aprendizagem social em mam\u00edferos, aves, peixes e insetos.<\/p>\n<p>Entre os dados mais convincentes est\u00e3o estudos em que filhotes de chapim-real foram adotados por chapins-azuis, e vice-versa. Quando foram criadas por outras esp\u00e9cies, essas aves modificaram v\u00e1rios aspectos de seu comportamento para assemelhar-se a seus pais adotivos (incluindo a altura das \u00e1rvores em que se alimentavam, as presas que buscavam, seus cantos e at\u00e9 sua escolha de parceiro).<\/p>\n<p>Presumia-se que as diferen\u00e7as comportamentais entre as duas esp\u00e9cies eram gen\u00e9ticas, mas ficou claro que muitas delas constitu\u00edam tradi\u00e7\u00f5es culturais.<\/p>\n<p>As culturas animais podem se conservar por per\u00edodos surpreendentemente longos. Resqu\u00edcios arqueol\u00f3gicos mostram que chimpanz\u00e9s usam ferramentas de pedra para abrir castanhas h\u00e1 pelo menos 4.300 anos.<\/p>\n<p>No que diz respeito \u00e0 heran\u00e7a epigen\u00e9tica, por\u00e9m, seria um equ\u00edvoco supor que a cultura animal precisa exibir estabilidade como a gen\u00e9tica para ter significado evolutivo. Ao longo de uma \u00fanica temporada de acasalamento podem se desenvolver modismos nas caracter\u00edsticas que os indiv\u00edduos acham atraentes em seus parceiros.<\/p>\n<p>Isso j\u00e1 foi demonstrado experimentalmente em moscas de frutas, peixes, aves e mam\u00edferos, e modelos matem\u00e1ticos mostram que esse &#8220;processo de c\u00f3pia da escolha de parceiros&#8221; pode afetar fortemente a sele\u00e7\u00e3o sexual. Nessa linha, acredita-se que as variadas e culturalmente aprendidas tradi\u00e7\u00f5es das orcas na busca de alimentos &#8211;em que grupos diferentes se especializam em certos tipos de peixes, focas ou golfinhos&#8211; estejam levando-as a se dividir em v\u00e1rias esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que a cultura chega ao auge em nossa pr\u00f3pria esp\u00e9cie, tendo sido fartamente comprovado que os h\u00e1bitos culturais s\u00e3o fonte importante de sele\u00e7\u00e3o natural de nossos genes.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de gado e o consumo de leite geraram a sele\u00e7\u00e3o de uma variante gen\u00e9tica que aumentou a lactase (enzima que metaboliza leite e derivados), enquanto dietas agr\u00edcolas \u00e0 base de amido favoreceram o aumento da amilase (enzima que decomp\u00f5e o amido).<\/p>\n<p>Toda essa complexidade n\u00e3o se concilia com uma vis\u00e3o estritamente gen\u00e9tica da evolu\u00e7\u00e3o adaptativa, fato que muitos bi\u00f3logos reconhecem. Em vez disso, aponta para um processo evolutivo em que genomas (ao longo de centenas de milhares de gera\u00e7\u00f5es), modifica\u00e7\u00f5es epigen\u00e9ticas e fatores culturais herdados (ao longo de v\u00e1rias, possivelmente dezenas ou centenas de gera\u00e7\u00f5es) e efeitos parentais (ao longo de uma s\u00f3 gera\u00e7\u00e3o) coletivamente influem sobre a adapta\u00e7\u00e3o dos organismos.<\/p>\n<p>Esses tipos de heran\u00e7a extragen\u00e9tica conferem aos organismos a flexibilidade de se ajustarem rapidamente aos desafios ambientais, arrastando as mudan\u00e7as gen\u00e9ticas em sua esteira &#8211;um pouco como um bando de c\u00e3es agitados.<\/p>\n<p class=\"c-news__subtitle\"><strong>RESIST\u00caNCIA<\/strong><\/p>\n<p>Apesar do interesse suscitado por todos os novos dados, \u00e9 improv\u00e1vel que eles desencadeiem uma revolu\u00e7\u00e3o na evolu\u00e7\u00e3o, pela simples raz\u00e3o de que a ci\u00eancia n\u00e3o funciona assim &#8211;ao menos n\u00e3o a ci\u00eancia evolutiva. Como os experimentos cr\u00edticos de Popper, as mudan\u00e7as de paradigma kuhnianas s\u00e3o mais pr\u00f3ximas de mitos que da realidade.<\/p>\n<p>Olhando para a\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/09\/1917894-a-religiao-nao-vai-desaparecer-e-a-ciencia-nao-vai-acabar-com-ela.shtml\" target=\"\">hist\u00f3ria da biologia evolutiva<\/a>, n\u00e3o se v\u00ea nada assemelhado a uma revolu\u00e7\u00e3o. Mesmo a teoria de Charles Darwin levou cerca de 70 anos para ser amplamente aceita; na virada do s\u00e9culo 20, ainda era vista com grande ceticismo. Nas d\u00e9cadas seguintes, novas ideias surgiram, foram avaliadas pela comunidade cient\u00edfica e pouco a pouco integradas ao conhecimento preexistente. A biologia evolutiva se atualizou sem passar por grandes per\u00edodos de crise.<\/p>\n<p>A mesma coisa se aplica ao presente. A heran\u00e7a epigen\u00e9tica n\u00e3o desmente a heran\u00e7a gen\u00e9tica, mas mostra que esta \u00e9 apenas um entre v\u00e1rios mecanismos pelos quais caracter\u00edsticas s\u00e3o herdadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o conhe\u00e7o nenhum bi\u00f3logo que queira rasgar os livros did\u00e1ticos ou jogar fora a sele\u00e7\u00e3o natural. A quest\u00e3o \u00e9 saber se queremos ampliar nosso entendimento sobre as causas da evolu\u00e7\u00e3o e se isso modifica nossa vis\u00e3o do processo como um todo. Nesse ponto, o que est\u00e1 acontecendo \u00e9 ci\u00eancia normal.<\/p>\n<p>Por que, ent\u00e3o, bi\u00f3logos evolutivos tradicionais se queixam dos radicais evolutivos equivocados que defendem uma mudan\u00e7a de paradigma? Por que jornalistas escrevem artigos sobre cientistas que estariam pedindo uma revolu\u00e7\u00e3o na biologia evolutiva? Se ningu\u00e9m de fato quer uma revolu\u00e7\u00e3o, e se revolu\u00e7\u00f5es cient\u00edficas raramente ocorrem, a que se deve a pol\u00eamica?<\/p>\n<p>A resposta a essas perguntas traz um insight fascinante sobre a sociologia da biologia evolutiva.<\/p>\n<p>Revolu\u00e7\u00e3o na evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 uma descri\u00e7\u00e3o equivocada do que est\u00e1 acontecendo &#8211;um mito propagado por uma alian\u00e7a improv\u00e1vel de evolucionistas conservadores, criacionistas e imprensa. N\u00e3o duvido que existam alguns radicais evolutivos revolucion\u00e1rios, mas a imensa maioria dos pesquisadores que buscam uma s\u00edntese evolutiva estendida \u00e9 formada por bi\u00f3logos evolutivos que trabalham duro.<\/p>\n<p>Todos sabemos que o sensacionalismo vende jornais, e artigos anunciando uma grande reviravolta vendem bem.\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/reinaldojoselopes\/2018\/02\/criacionismo-para-ateus.shtml\" target=\"\">Criacionistas<\/a>\u00a0e defensores do design inteligente tamb\u00e9m alimentam essa impress\u00e3o exagerando as diferen\u00e7as de opini\u00e3o entre evolucionistas e criando a falsa impress\u00e3o de turbul\u00eancia no campo da biologia evolutiva.<\/p>\n<p>O que \u00e9 mais surpreendente \u00e9 como bi\u00f3logos conservadores jogam a carta &#8220;estamos sendo atacados!&#8221; contra seus colegas evolucionistas. Retratar advers\u00e1rios intelectuais como extremistas ou dizer \u00e0s pessoas que se est\u00e1 sendo atacado s\u00e3o truques ret\u00f3ricos usados desde sempre para ganhar discuss\u00f5es ou conquistar lealdades.<\/p>\n<p>Sempre associei esse tipo de pr\u00e1tica \u00e0 pol\u00edtica, n\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia, mas hoje percebo que fui ing\u00eanuo. Os cientistas tamb\u00e9m t\u00eam carreiras e legados em jogo; tamb\u00e9m lutam por recursos, poder e influ\u00eancia.<\/p>\n<p>Receio que o discurso dos tradicionalistas esteja produzindo efeitos negativos, criando confus\u00e3o e, sem querer, alimentando o criacionismo pelo fato de fomentar diverg\u00eancias exageradas. Muitos cientistas respeitados sentem a necessidade de uma mudan\u00e7a na biologia evolutiva. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel descartar todos eles como elementos \u00e0 margem da vis\u00e3o cient\u00edfica majorit\u00e1ria.<\/p>\n<p class=\"c-news__subtitle\"><strong>SEE<\/strong><\/p>\n<p>Se a s\u00edntese evolutiva estendida n\u00e3o \u00e9 um chamado por uma revolu\u00e7\u00e3o na evolu\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o o que ela \u00e9 e por que precisamos dela? Para responder a essas perguntas, precisamos reconhecer um acerto de Kuhn: cada campo cient\u00edfico possui maneiras compartilhadas de pensar, ou quadros conceituais.<\/p>\n<p>A biologia evolutiva n\u00e3o \u00e9 diferente. Nossos valores e premissas compartilhadas influenciam quais dados coletamos, como os interpretamos e quais fatores s\u00e3o embutidos nas explica\u00e7\u00f5es sobre o funcionamento da evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso o pluralismo cient\u00edfico \u00e9 saud\u00e1vel. Lakatos destacou que quadros conceituais alternativos (diferentes programas de pesquisa) podem ser valiosos pois incentivam o teste de novas hip\u00f3teses ou levam a novos insights. Essa \u00e9 a primeira fun\u00e7\u00e3o da SEE: alimentar ou mesmo abrir novas linhas de pesquisa e maneiras produtivas de pensar.<\/p>\n<p>Um bom exemplo \u00e9 o vi\u00e9s de desenvolvimento. Considere os peixes cicl\u00eddeos da \u00c1frica oriental. Para dezenas ou at\u00e9 centenas de esp\u00e9cies de cicl\u00eddeos existentes no lago Mal\u00e1ui existe uma esp\u00e9cie &#8220;duplicada&#8221;, que evoluiu independentemente, no lago Tanganica, com grandes semelhan\u00e7as no formato corporal e no modo de se alimentar.<\/p>\n<p>Tais semelhan\u00e7as costumam ser explicadas pela evolu\u00e7\u00e3o convergente: houve varia\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica aleat\u00f3ria, mas condi\u00e7\u00f5es ambientais semelhantes selecionaram os genes com resultados equivalentes.<\/p>\n<p>Entretanto, o n\u00edvel extraordin\u00e1rio de evolu\u00e7\u00e3o paralela visto nesses dois lagos sugere que algo mais pode estar em jogo. E se algumas maneiras de &#8220;construir&#8221; um peixe forem mais prov\u00e1veis que outras? E se a varia\u00e7\u00e3o de caracter\u00edsticas \u00e9 enviesada em favor de certas solu\u00e7\u00f5es? A sele\u00e7\u00e3o ainda faria parte da explica\u00e7\u00e3o, mas a evolu\u00e7\u00e3o paralela seria muito mais prov\u00e1vel.<\/p>\n<p>Estudos mostram que \u00e9 poss\u00edvel usar um modelo matem\u00e1tico, baseado em camundongos de laborat\u00f3rio, para prever tamanho e n\u00famero de dentes em uma amostra de 29 esp\u00e9cies de roedores.<\/p>\n<p>Esses estudos s\u00e3o intrigantes pois ajudam a converter a biologia evolutiva em uma ci\u00eancia mais previsora. Por que, ent\u00e3o, essas ideias receberam, comparativamente, pouca aten\u00e7\u00e3o at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s?<\/p>\n<p class=\"c-news__subtitle\"><strong>ALTERNATIVAS<\/strong><\/p>\n<p>Voltamos aos quadros conceituais. Historicamente falando, bi\u00f3logos evolutivos tratam o vi\u00e9s na varia\u00e7\u00e3o fenot\u00edpica apenas como uma limita\u00e7\u00e3o &#8211;o modo como os organismos crescem restringe o tipo de caracter\u00edsticas que eles poder\u00e3o ter.<\/p>\n<p>Foi preciso uma perspectiva diferente (neste caso, a da biologia evolutiva do desenvolvimento, chamada evo devo) para motivar novos experimentos. De um ponto de vista evo devo, os dentes de roedores e os corpos de peixes s\u00e3o como s\u00e3o porque o modo como esses animais crescem aumenta a probabilidade de essas caracter\u00edsticas surgirem. Assim, o vi\u00e9s torna-se um conceito muito mais importante na explica\u00e7\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A s\u00edntese evolutiva estendida, ao menos como eu e meus colaboradores a enxergamos, \u00e9 mais bem vista como um programa de pesquisas alternativo da biologia evolutiva.<\/p>\n<p>Inspirada por descobertas recentes, a SEE parte da premissa de que os processos do desenvolvimento exercem pap\u00e9is importantes como causas de varia\u00e7\u00f5es fenot\u00edpicas novas (e potencialmente ben\u00e9ficas), como causas de diferen\u00e7as de adequa\u00e7\u00e3o dessas variantes e causas de transmiss\u00e3o para descendentes.<\/p>\n<p>Em contraste com a concep\u00e7\u00e3o tradicional, na SEE a criatividade na evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 atribu\u00edda apenas \u00e0 sele\u00e7\u00e3o natural. Esse modo alternativo de pensar est\u00e1 sendo usado para gerar novas hip\u00f3teses e tra\u00e7ar novas agendas de pesquisa. Ainda estamos nos prim\u00f3rdios da SEE, mas j\u00e1 h\u00e1 sinais frut\u00edferos.<\/p>\n<p>Se a evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o se explica s\u00f3 por mudan\u00e7as nas frequ\u00eancias de genes; se mecanismos antes rejeitados, como a heran\u00e7a de caracter\u00edsticas adquiridas, revelarem ter import\u00e2ncia; e se for reconhecido que os organismos enviesam a evolu\u00e7\u00e3o por meio de desenvolvimento, aprendizagem e outras formas de plasticidade, tudo isso significa que est\u00e1 emergindo um relato radicalmente diferente e profundamente mais rico da evolu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabe. Mas, do ponto de vista daquela pessoa que leva os c\u00e3es para caminhar, a evolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 ficando menos parecida com um passeio gen\u00e9tico apraz\u00edvel e mais com uma luta fren\u00e9tica dos genes para acompanhar agitados processos de desenvolvimento.<\/p>\n<p>https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2018\/03\/descobertas-contestam-hegemonia-de-darwin-e-recuperam-lamarck.shtml<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Kevin Laland &#8211;\u00a0Caracter\u00edsticas adquiridas em vida afetam gen\u00e9tica e evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies, escreve professor escoc\u00eas. Autor afirma que pesquisas recentes indicam que a evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies \u00e9 um fen\u00f4meno mais complexo do que se imaginava e n\u00e3o pode ser explicado apenas pela sele\u00e7\u00e3o natural. 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