{"id":7481,"date":"2018-03-13T12:11:05","date_gmt":"2018-03-13T15:11:05","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=7481"},"modified":"2018-03-11T21:14:10","modified_gmt":"2018-03-12T00:14:10","slug":"os-africanos-que-propuseram-ideias-iluministas-antes-de-locke-e-kant","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/03\/13\/os-africanos-que-propuseram-ideias-iluministas-antes-de-locke-e-kant\/","title":{"rendered":"Os africanos que propuseram ideias iluministas antes de Locke e Kant"},"content":{"rendered":"<p><b>DAG HERBJORNSRUD &#8211;\u00a0<\/b>Os ideais mais elevados de Locke, Hume e Kant foram propostos mais de um s\u00e9culo antes deles por Zera Yacob, um et\u00edope que viveu numa caverna. O gan\u00eas Anton Amo usou no\u00e7\u00e3o da filosofia alem\u00e3 antes de ela ser registrada oficialmente. Autor defende que ambos tenham lugar de destaque em meio aos pensadores iluministas.<\/p>\n<p>Os ideais do Iluminismo s\u00e3o a base de nossas democracias e universidades no s\u00e9culo 21: a cren\u00e7a na raz\u00e3o, na ci\u00eancia, no ceticismo, no secularismo e na igualdade. De fato, nenhuma outro per\u00edodo se compara \u00e0 era do Iluminismo.<\/p>\n<p>A Antiguidade \u00e9 inspiradora, mas est\u00e1 a um mundo de dist\u00e2ncia das sociedades modernas. A Idade M\u00e9dia \u00e9 mais razo\u00e1vel do que sua reputa\u00e7\u00e3o sugere, mas ainda assim \u00e9 medieval. A\u00a0<a href=\"http:\/\/m.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/06\/1891634-livro-expoe-paradoxos-de-lutero-articulador-da-reforma-protestante.shtml?mobile\" data-href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/06\/1891634-livro-expoe-paradoxos-de-lutero-articulador-da-reforma-protestante.shtml\">Renascen\u00e7a<\/a>\u00a0foi gloriosa, mas em grande medida gra\u00e7as ao seu resultado: o Iluminismo. O romantismo veio como rea\u00e7\u00e3o \u00e0 era da raz\u00e3o, mas os ideais dos\u00a0<a href=\"http:\/\/m.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/09\/1916549-joao-pereira-coutinho-responde-a-safatle-e-fala-da-tirania-da-multidao.shtml?mobile\" data-href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/09\/1916549-joao-pereira-coutinho-responde-a-safatle-e-fala-da-tirania-da-multidao.shtml\">Estados modernos<\/a>\u00a0n\u00e3o se expressam em termos de romantismo e emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo a hist\u00f3ria mais contada, o Iluminismo tem origem no &#8220;Discurso do M\u00e9todo&#8221; (1637), de Ren\u00e9 Descartes, continuou por cerca de um s\u00e9culo e meio com John Locke, Isaac Newton, David Hume, Voltaire e Kant e terminou com a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, em 1789 \u2014talvez com o per\u00edodo do terror, em 1793.<\/p>\n<p>Mas e se a hist\u00f3ria estiver errada? E se o Iluminismo puder ser associado a lugares e pensadores que costumamos ignorar? Tais perguntas me assombram desde que topei com o trabalho de um fil\u00f3sofo et\u00edope do s\u00e9culo 17: Zera Yacob (1599-1692), tamb\u00e9m grafado Z\u00e4ra Yaqob.<\/p>\n<p>Yacob nasceu numa fam\u00edlia pobre numa propriedade agr\u00edcola perto de Axum, a lend\u00e1ria antiga capital do norte da Eti\u00f3pia. Como estudante, ele impressionou seus professores e foi enviado a uma nova escola para estudar ret\u00f3rica (&#8220;siwasiw&#8221; em ge&#8217;ez, a l\u00edngua local), poesia e pensamento cr\u00edtico (&#8220;qin\u00e9&#8221;) por quatro anos.<\/p>\n<p>Em seguida, estudou a B\u00edblia por dez anos em outra escola, recebendo ensinamentos dos cat\u00f3licos e dos coptas, bem como da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ortodoxa, majorit\u00e1ria no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1620, um jesu\u00edta portugu\u00eas convenceu o rei Susenyos a converter-se ao catolicismo, que n\u00e3o tardou a virar\u00a0<a href=\"http:\/\/m.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/10\/1924706-evangelicos-apostam-nas-redes-sociais-para-amplificar-mensagem-da-religiao.shtml?mobile\" data-href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/10\/1924706-evangelicos-apostam-nas-redes-sociais-para-amplificar-mensagem-da-religiao.shtml\">religi\u00e3o<\/a>\u00a0oficial da Eti\u00f3pia. Seguiu-se uma persegui\u00e7\u00e3o aos livres-pensadores, mais intensa a partir de 1630. Yacob, que nessa \u00e9poca lecionava na regi\u00e3o de Axum, havia declarado que nenhuma religi\u00e3o tem mais raz\u00e3o que outra \u2014e seus inimigos o denunciaram para o rei.<\/p>\n<p>Yacob fugiu, levando apenas um pouco de ouro e os Salmos de Davi. Viajou para o sul, para a regi\u00e3o de Shewa, onde se deparou com o rio Tekez\u00e9.<\/p>\n<p>Ali encontrou uma \u00e1rea desabitada com uma &#8220;bela caverna&#8221; no in\u00edcio de um vale. Construiu um muro de pedra e viveu nesse local isolado para &#8220;encarar apenas os fatos essenciais da vida&#8221;, como\u00a0<a href=\"http:\/\/m.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2017\/09\/1921165-bem-pensado-jogo-walden-refaz-cenario-onde-thoreau-se-isolou.shtml?mobile\" data-href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2017\/09\/1921165-bem-pensado-jogo-walden-refaz-cenario-onde-thoreau-se-isolou.shtml\">Henry David Thoreau<\/a>\u00a0descreveria uma vida tamb\u00e9m solit\u00e1ria, dois s\u00e9culos mais tarde, em &#8220;Walden&#8221; (1854).<\/p>\n<p>Por dois anos, at\u00e9 a morte do rei, em setembro de 1632, Yacob permaneceu na caverna como ermit\u00e3o, saindo apenas para buscar alimentos no mercado mais pr\u00f3ximo. Na caverna, ele alinhavou sua nova filosofia racionalista.<\/p>\n<p>Ele acreditava na primazia da raz\u00e3o e afirmava que todos os seres humanos, homens e mulheres, s\u00e3o criados iguais. Yacob argumentou contra a escravid\u00e3o, criticou todas as religi\u00f5es e doutrinas reconhecidas e combinou essas opini\u00f5es com sua cren\u00e7a pessoal em um criador divino, asseverando que a exist\u00eancia de uma ordem no mundo faz dessa a op\u00e7\u00e3o mais racional.<\/p>\n<p>Em suma: muitos dos ideais mais elevados do Iluminismo foram concebidos e resumidos por um homem que trabalhou sozinho em uma caverna et\u00edope de 1630 a 1632.<\/p>\n<p><b>LIVROS<\/b><\/p>\n<p>A filosofia de Yacob, baseada na raz\u00e3o, \u00e9 apresentada em sua obra principal, &#8220;Hat\u00e4ta&#8221; (investiga\u00e7\u00e3o). O livro foi escrito em 1667 por insist\u00eancia de seu disc\u00edpulo, Walda Heywat, que escreveu ele pr\u00f3prio uma &#8220;Hat\u00e4ta&#8221; de orienta\u00e7\u00e3o mais pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Hoje, 350 anos mais tarde, \u00e9 dif\u00edcil encontrar um exemplar do trabalho de Yacob. A \u00fanica\u00a0<a href=\"http:\/\/m.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/12\/1945271-historia-de-gilgamesh-agora-com-nova-traducao-antecipa-aspectos-da-biblia.shtml?mobile\" data-href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/12\/1945271-historia-de-gilgamesh-agora-com-nova-traducao-antecipa-aspectos-da-biblia.shtml\">tradu\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0ao ingl\u00eas foi feita em 1976 pelo professor universit\u00e1rio e padre canadense Claude Sumner. Ele a publicou como parte de uma obra em cinco volumes sobre a filosofia et\u00edope, que foi lan\u00e7ada pela nada comercial editora Commercial Printing Press, de Adis Abeba.<\/p>\n<p>O livro foi traduzido ao alem\u00e3o e, no ano passado, ao noruegu\u00eas, mas ainda \u00e9 basicamente imposs\u00edvel ter acesso a uma vers\u00e3o em ingl\u00eas.<\/p>\n<p>A filosofia n\u00e3o era novidade na Eti\u00f3pia antes de Yacob. Por volta de 1510, &#8220;The Book of the Wise Philosophers&#8221; (o livro dos fil\u00f3sofos s\u00e1bios) foi traduzido e adaptado ao et\u00edope pelo eg\u00edpcio Abba Mikael. Trata-se de uma colet\u00e2nea de ditados de fil\u00f3sofos\u00a0<a href=\"http:\/\/m.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/12\/1945399-novas-edicoes-reatestam-interesse-por-poemas-classicos-da-grecia-e-de-roma.shtml?mobile\" data-href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/12\/1945399-novas-edicoes-reatestam-interesse-por-poemas-classicos-da-grecia-e-de-roma.shtml\">gregos<\/a>\u00a0pr\u00e9-socr\u00e1ticos, Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles por meio dos di\u00e1logos neoplat\u00f4nicos, e tamb\u00e9m foi influenciado pela filosofia ar\u00e1bica e as discuss\u00f5es et\u00edopes.<\/p>\n<p>Em sua &#8220;Hat\u00e4ta&#8221;, Yacob critica seus contempor\u00e2neos por n\u00e3o pensarem de modo independente e aceitarem as palavras de astr\u00f3logos e videntes s\u00f3 porque seus predecessores o faziam. Em contraste, ele recomenda uma investiga\u00e7\u00e3o baseada na raz\u00e3o e na racionalidade cient\u00edfica, considerando que todo ser humano nasce dotado de intelig\u00eancia e possui igual valor.<\/p>\n<p>Longe dele, mas enfrentando quest\u00f5es semelhantes, estava o franc\u00eas Descartes (1596-1650). Uma diferen\u00e7a filos\u00f3fica importante entre eles \u00e9 que o cat\u00f3lico Descartes criticou explicitamente os infi\u00e9is e ateus em sua obra &#8220;Medita\u00e7\u00f5es Metaf\u00edsicas&#8221; (1641).<\/p>\n<p>Essa perspectiva encontra eco na &#8220;Carta sobre a Toler\u00e2ncia&#8221; (1689), de Locke, para quem os ateus n\u00e3o devem ser\u00a0<a href=\"http:\/\/m.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/11\/1936103-judith-butler-escreve-sobre-o-fantasma-do-genero-e-o-ataque-sofrido-no-brasil.shtml?mobile\" data-href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/11\/1936103-judith-butler-escreve-sobre-o-fantasma-do-genero-e-o-ataque-sofrido-no-brasil.shtml\">tolerados<\/a>.<\/p>\n<p>As &#8220;Medita\u00e7\u00f5es&#8221; de Descartes foram dedicadas &#8220;ao reitor e aos doutores da sagrada Faculdade de Teologia em Paris&#8221;, e sua premissa era &#8220;aceitar por meio da f\u00e9 o fato de que a alma humana n\u00e3o morre com o corpo e de que Deus existe&#8221;.<\/p>\n<p>Yacob, pelo contr\u00e1rio, prop\u00f5e um m\u00e9todo muito mais agn\u00f3stico, secular e inquisitivo \u2014o que tamb\u00e9m reflete uma abertura ao pensamento ateu. O quarto cap\u00edtulo da &#8220;Hat\u00e4ta&#8221; come\u00e7a com uma pergunta radical: &#8220;Tudo que est\u00e1 escrito nas Sagradas Escrituras \u00e9 verdade?&#8221; Ele prossegue pontuando que todas as diferentes religi\u00f5es alegam que sua f\u00e9 \u00e9 a verdadeira:<\/p>\n<p>&#8220;De fato, cada uma delas diz: &#8216;Minha f\u00e9 \u00e9 a certa, e aqueles que creem em outra f\u00e9 creem na falsidade e s\u00e3o inimigos de Deus&#8217;. (&#8230;) Assim como minha f\u00e9 me parece verdadeira, outro considera verdadeira sua pr\u00f3pria f\u00e9; mas a verdade \u00e9 uma s\u00f3&#8221;.<\/p>\n<p>Assim, ele deslancha um discurso iluminista sobre a subjetividade da religi\u00e3o, mas continua a crer em algum tipo de criador universal. Sua discuss\u00e3o sobre a exist\u00eancia de Deus \u00e9 mais aberta que a de Descartes e talvez mais acess\u00edvel aos leitores de hoje, como quando incorpora perspectivas existencialistas:<\/p>\n<p>&#8220;Quem foi que me deu um ouvido com o qual ouvir, quem me criou como ser reacional e como cheguei a este mundo? De onde venho? Tivesse eu vivido antes do criador do mundo, teria conhecido o in\u00edcio de minha vida e da consci\u00eancia de mim mesmo. Quem me criou?&#8221;.<\/p>\n<p><b>IDEIAS AVAN\u00c7ADAS<\/b><\/p>\n<p>No cap\u00edtulo cinco, Yacob aplica a investiga\u00e7\u00e3o racional a leis religiosas diferentes. Critica igualmente o cristianismo, o isl\u00e3, o juda\u00edsmo e as religi\u00f5es indianas.<\/p>\n<p>Ele aponta, por exemplo, que o criador, em sua sabedoria, fez o sangue fluir mensalmente do \u00fatero das mulheres, para que elas possam gestar filhos. Assim, conclui que a lei de Mois\u00e9s, segundo a qual as mulheres s\u00e3o impuras quando menstruam, contraria a natureza e o criador, j\u00e1 que &#8220;constitui um obst\u00e1culo ao casamento e a toda a vida da mulher, prejudica a lei da ajuda m\u00fatua, interdita a cria\u00e7\u00e3o dos filhos e destr\u00f3i o amor&#8221;.<\/p>\n<p>Desse modo, inclui em seu argumento filos\u00f3fico a perspectiva da solidariedade, da mulher e do afeto. E ele pr\u00f3prio viveu segundo esses ideais.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/f.i.uol.com.br\/folha\/ilustrissima\/images\/17356107.jpeg?resize=620%2C1085\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"1085\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p>Depois de sair da caverna, pediu em casamento uma mo\u00e7a pobre chamada Hirut, criada de uma fam\u00edlia rica. O patr\u00e3o dela dizia que uma empregada n\u00e3o estava em p\u00e9 de igualdade com um homem erudito, mas a vis\u00e3o de Yacob prevaleceu. Consumada a uni\u00e3o, ele declarou que ela n\u00e3o deveria mais ser serva, mas seu par, porque &#8220;marido e mulher est\u00e3o em p\u00e9 de igualdade no casamento&#8221;.<\/p>\n<p>Contrastando com essas posi\u00e7\u00f5es, Kant (1724-1804) escreveu um s\u00e9culo mais tarde em &#8220;Observa\u00e7\u00f5es sobre o Sentimento do Belo e do Sublime&#8221; (1764): &#8220;Uma mulher pouco se constrange com o fato de n\u00e3o possuir determinados entendimentos&#8221;.<\/p>\n<p>E, nos ensaios de \u00e9tica do alem\u00e3o, lemos que &#8220;o desejo de um homem por uma mulher n\u00e3o se dirige a ela como ser humano, pelo contr\u00e1rio, a humanidade da mulher n\u00e3o lhe interessa; o \u00fanico objeto de seu desejo \u00e9 o sexo dela&#8221;.<\/p>\n<p>Yacob enxergava a mulher sob \u00f3tica completamente diferente: como par intelectual do fil\u00f3sofo.<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m foi mais iluminista que seus pares do Iluminismo no tocante \u00e0 escravid\u00e3o. No cap\u00edtulo cinco, Yacob combate a ideia de que &#8220;possamos sair e comprar um homem como se fosse um animal&#8221;. Assim, ele prop\u00f5e um argumento universal contra a discrimina\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8220;Todos os homens s\u00e3o iguais na presen\u00e7a de Deus; e todos s\u00e3o inteligentes, pois s\u00e3o suas criaturas; ele n\u00e3o destinou um povo \u00e0 vida, outro \u00e0 morte, um \u00e0 miseric\u00f3rdia e outro ao julgamento. Nossa raz\u00e3o nos ensina que esse tipo de discrimina\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode existir&#8221;.<\/p>\n<p>As palavras &#8220;todos os homens s\u00e3o iguais&#8221; foram escritas d\u00e9cadas antes de Locke (1632-1704), o pai do liberalismo, ter empunhado sua pena.<\/p>\n<p>E a teoria do contrato social de Locke n\u00e3o se aplicava a todos na pr\u00e1tica: ele foi secret\u00e1rio durante a reda\u00e7\u00e3o das &#8220;Constitui\u00e7\u00f5es Fundamentais da Carolina&#8221; (1669), que concederam aos homens brancos poder absoluto sobre seus escravos africanos. O pr\u00f3prio ingl\u00eas investiu no com\u00e9rcio negreiro transatl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Comparada \u00e0 de seus pares filos\u00f3ficos, portanto, a filosofia de Yacob frequentemente parece o ep\u00edtome dos ideais que em geral atribu\u00edmos ao Iluminismo.<\/p>\n<p><b>ANTON AMO<\/b><\/p>\n<p>Alguns meses depois de ler a obra de Yacob, enfim tive acesso a outro livro raro: uma tradu\u00e7\u00e3o dos escritos reunidos do fil\u00f3sofo Anton Amo (c. 1703-55), que nasceu e morreu em Gana.<\/p>\n<p>Amo estudou e lecionou por duas d\u00e9cadas nas maiores universidades da Alemanha (como Halle e Jena), escrevendo em latim. Hoje, segundo o World Library Catalogue, s\u00f3 um punhado de exemplares de seu &#8220;Antonius Guilielmus Amo Afer of Axim in Ghana&#8221; est\u00e1 dispon\u00edvel em bibliotecas mundo afora.<\/p>\n<p>O gan\u00eas nasceu um s\u00e9culo ap\u00f3s Yacob. Consta que ele foi sequestrado do povo akan e da cidade litor\u00e2nea de Axim quando era pequeno, possivelmente para ser vendido como escravo, sendo levado a Amsterd\u00e3, para a corte do duque Anton Ulrich de Braunschweig-Wolfenb\u00fcttel \u2014visitada com frequ\u00eancia pelo pol\u00edmata G. W. Leibniz (1646-1716).<\/p>\n<p>Batizado em 1707, Amo recebeu educa\u00e7\u00e3o de alto n\u00edvel, aprendendo hebraico, grego, latim, franc\u00eas e alem\u00e3o \u2014e provavelmente sabia algo de sua l\u00edngua materna, o nzema.<\/p>\n<p>Tornou-se figura respeitada nos c\u00edrculos acad\u00eamicos. No livro de Carl G\u00fcnther Ludovici sobre o iluminista Christian Wolff (1679-1754) \u2014seguidor de Leibniz e fundador de v\u00e1rias disciplinas acad\u00eamicas na Alemanha\u2014, Amo \u00e9 descrito como um dos wolffianos mais proeminentes.<\/p>\n<p>No pref\u00e1cio a &#8220;Sobre a Impassividade da Mente Humana&#8221; (1734), de Amo, o reitor da Universidade de Wittenberg, Johannes Gottfried Kraus, sa\u00fada o vasto conhecimento do autor, situa sua contribui\u00e7\u00e3o ao iluminismo alem\u00e3o em um contexto hist\u00f3rico e sublinha o legado africano da Renascen\u00e7a europeia:<\/p>\n<p>&#8220;Quando os mouros vindos da \u00c1frica atravessaram a Espanha, trouxeram com eles o conhecimento dos pensadores da Antiguidade e deram muita assist\u00eancia ao desenvolvimento das letras que pouco a pouco emergiam das trevas&#8221;.<\/p>\n<p>O fato de essas palavras terem sa\u00eddo do cora\u00e7\u00e3o da Alemanha na primavera de 1733 ajuda a lembrar que Amo n\u00e3o foi o \u00fanico africano a alcan\u00e7ar o sucesso na Europa do s\u00e9culo 18.<\/p>\n<p>Na mesma \u00e9poca, Abram Petrovich Gannibal (1696-1781), tamb\u00e9m sequestrado e levado da \u00c1frica subsaariana, tornava-se general do czar Pedro, o Grande, da R\u00fassia. O bisneto de Gannibal se tornaria o poeta nacional da R\u00fassia, Alexander Pushkin. E o escritor franc\u00eas Alexandre Dumas (1802-70) foi neto de uma africana escravizada e filho de um general aristocrata negro nascido no Haiti.<\/p>\n<p>Amo tampouco foi o \u00fanico a levar diversidade e cosmopolitismo a Halle nas d\u00e9cadas de 1720 e 1730. V\u00e1rios alunos judeus de grande talento estudaram na universidade. O professor \u00e1rabe Salomon Negri, de Damasco, e o indiano Soltan G\u00fcn Achmet, de Ahmedabad, tamb\u00e9m passaram por l\u00e1.<\/p>\n<p><b>CONTRA A ESCRAVID\u00c3O<\/b><\/p>\n<p>Em sua tese, Amo escreveu explicitamente que havia outras teologias al\u00e9m da crist\u00e3, incluindo entre elas a dos turcos e a dos &#8220;pag\u00e3os&#8221;.<\/p>\n<p>Ele discutiu essas quest\u00f5es na disserta\u00e7\u00e3o &#8220;Os Direitos dos Mouros na Europa&#8221;, em 1729. O trabalho n\u00e3o pode ser encontrado hoje, mas, no jornal semanal de Halle de novembro de 1729, h\u00e1 um artigo curto sobre o debate p\u00fablico de Amo. Segundo esse texto, o gan\u00eas apresentou argumentos contra a escravid\u00e3o, aludindo ao direito romano, \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o e \u00e0 raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que Amo promoveu a primeira disputa legal da Europa contra a escravid\u00e3o? Podemos pelo menos enxergar um argumento iluminista em favor do sufr\u00e1gio universal, como o que Yacob propusera cem anos antes. Mas essas vis\u00f5es n\u00e3o discriminat\u00f3rias parecem ter passado despercebidas dos pensadores principais do iluminismo no s\u00e9culo 18.<\/p>\n<p>David Hume (1711-76), por exemplo, escreveu: &#8220;Tendo a suspeitar que os negros, e todas as outras esp\u00e9cies de homem em geral (pois existem quatro ou cinco tipos diferentes), sejam naturalmente inferiores aos brancos&#8221;. E acrescentou: &#8220;Nunca houve na\u00e7\u00e3o civilizada de qualquer outra complei\u00e7\u00e3o sen\u00e3o a branca, nem indiv\u00edduo eminente em a\u00e7\u00e3o ou especula\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Kant levou adiante o argumento de Hume e enfatizou que a diferen\u00e7a fundamental entre\u00a0<a href=\"http:\/\/m.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/12\/1941700-neo-meu-primeiro-chefe-negro.shtml?mobile\" data-href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/12\/1941700-neo-meu-primeiro-chefe-negro.shtml\">negros e brancos<\/a>\u00a0&#8220;parece ser t\u00e3o grande em capacidade mental quanto na cor&#8221;, antes de concluir, no texto do curso de geografia f\u00edsica: &#8220;A humanidade alcan\u00e7ou sua maior perfei\u00e7\u00e3o na ra\u00e7a dos brancos&#8221;.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a, o mais c\u00e9lebre pensador iluminista, Voltaire (1694-1778), n\u00e3o s\u00f3 descreveu os judeus em termos antissemitas, como quando escreveu que &#8220;todos eles nascem com fanatismo desvairado em seus cora\u00e7\u00f5es&#8221;; em seu ensaio sobre a hist\u00f3ria universal (1756), ele afirmou que, se a intelig\u00eancia dos africanos &#8220;n\u00e3o \u00e9 de outra esp\u00e9cie que a nossa, \u00e9 muito inferior&#8221;.<\/p>\n<p>Como Locke, Voltaire investiu dinheiro no com\u00e9rcio de escravos.<\/p>\n<p><b>CORPO E MENTE<\/b><\/p>\n<p>A filosofia de Amo \u00e9 mais te\u00f3rica que a de Yacob, mas as duas compartilham uma vis\u00e3o iluminista da raz\u00e3o, tratando todos os humanos como iguais.<\/p>\n<p>Seu trabalho \u00e9 profundamente engajado com as quest\u00f5es da \u00e9poca, como se v\u00ea em seu livro mais conhecido, &#8220;Sobre a Impassividade da Mente Humana&#8221;, constru\u00eddo com um m\u00e9todo de dedu\u00e7\u00e3o l\u00f3gica utilizando argumentos r\u00edgidos, aparentemente seguindo a linha de sua disserta\u00e7\u00e3o jur\u00eddica anterior. Aqui ele trata do dualismo cartesiano, a ideia de que existe uma diferen\u00e7a absoluta de subst\u00e2ncia entre a mente e o corpo.<\/p>\n<p>Em alguns momentos Amo parece se opor a Descartes, como observa o fil\u00f3sofo contempor\u00e2neo Kwasi Wiredu. Ele argumenta que Amo se op\u00f4s ao dualismo cartesiano entre mente e corpo, favorecendo, em vez disso, a metaf\u00edsica dos akan e o idioma nzema de sua primeira inf\u00e2ncia, segundo os quais sentimos a dor com nossa carne (&#8220;honem&#8221;), e n\u00e3o com a mente (&#8220;adwene&#8221;).<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, Amo diz que vai tanto defender quanto atacar a vis\u00e3o de Descartes de que a alma (a mente) \u00e9 capaz de agir e sofrer junto com o corpo. Ele escreve: &#8220;Em resposta a essas palavras, pedimos cautela e discordamos: admitimos que a mente atua junto com o corpo gra\u00e7as \u00e0 media\u00e7\u00e3o de uma uni\u00e3o natural. Mas negamos que ela sofra junto com o corpo&#8221;.<\/p>\n<p>Amo argumenta que as afirma\u00e7\u00f5es de Descartes sobre essas quest\u00f5es contrariam a vis\u00e3o do pr\u00f3prio fil\u00f3sofo franc\u00eas. Ele conclui sua tese dizendo que devemos evitar confundir as coisas que fazem parte do corpo e da mente. Pois aquilo que opera na mente deve ser atribu\u00eddo apenas \u00e0 mente.<\/p>\n<p>Talvez a verdade seja o que o fil\u00f3sofo Justin E. H. Smith, da Universidade de Paris, aponta em &#8220;Nature, Human Nature and Human Difference&#8221; (natureza, natureza humana e diferen\u00e7a humana, 2015): &#8220;Longe de rejeitar o dualismo cartesiano, pelo contr\u00e1rio, Amo prop\u00f5e uma vers\u00e3o radicalizada dele&#8221;.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 poss\u00edvel que tanto Wiredu quanto Smith tenham raz\u00e3o? Por exemplo, ser\u00e1 que a filosofia akan tradicional e a l\u00edngua nzema continham uma distin\u00e7\u00e3o cartesiana entre corpo e mente mais precisa que a de Descartes, um modo de pensar que Amo ent\u00e3o levou para a filosofia europeia?<\/p>\n<p>Talvez seja cedo demais para sabermos, j\u00e1 que uma edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica das obras de Amo ainda aguarda ser publicada, possivelmente pela Oxford University Press.<\/p>\n<p><b>COISA EM SI<\/b><\/p>\n<p>No trabalho mais profundo de Amo, &#8220;Treatise on the Art of Philosophising Soberly and Accurately&#8221; (tratado sobre a arte de filosofar com sobriedade e precis\u00e3o, 1738), ele parece antecipar Kant. O livro trata das inten\u00e7\u00f5es de nossa mente e das a\u00e7\u00f5es humanas como sendo naturais, racionais ou de acordo com uma norma.<\/p>\n<p>No primeiro cap\u00edtulo, escrevendo em latim, Amo argumenta que &#8220;tudo \u00e9 pass\u00edvel de ser conhecido como objeto em si mesmo, ou como uma sensa\u00e7\u00e3o, ou como uma opera\u00e7\u00e3o da mente&#8221;.<\/p>\n<p>Ele desenvolve em seguida, dizendo que &#8220;a cogni\u00e7\u00e3o ocorre com a coisa em si&#8221; e afirmando: &#8220;O aprendizado real \u00e9 a cogni\u00e7\u00e3o das coisas em si. E assim tem sua base na certeza da coisa conhecida&#8221;.<\/p>\n<p>Seu texto original diz &#8220;omne cognoscibile aut res ipsa&#8221;, usando a no\u00e7\u00e3o latina &#8220;res ipsa&#8221; como &#8220;coisa em si&#8221;.<\/p>\n<p>Hoje Kant \u00e9 conhecido por seu conceito da &#8220;coisa em si&#8221; (&#8220;das Ding an sich&#8221;) em &#8220;Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Pura&#8221; (1787) \u2014e seu argumento de que n\u00e3o podemos conhecer a coisa al\u00e9m de nossa representa\u00e7\u00e3o mental dela.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 fato sabido que essa n\u00e3o foi a primeira utiliza\u00e7\u00e3o do termo na filosofia iluminista. Como diz o dicion\u00e1rio Merriam-Webster no verbete &#8220;coisa em si&#8221;: &#8220;Primeira utiliza\u00e7\u00e3o conhecida: 1739&#8221;. Mesmo assim, isso foi dois anos depois de Amo ter entregue seu trabalho principal em Wittenberg, em 1737.<\/p>\n<p>\u00c0 luz dos exemplos desses dois fil\u00f3sofos iluministas, Zera Yacob e Anton Amo, talvez seja preciso repensarmos a Idade da Raz\u00e3o nas disciplinas da filosofia e da hist\u00f3ria das ideias.<\/p>\n<p>Na disciplina da hist\u00f3ria, novos estudos comprovaram que a revolu\u00e7\u00e3o mais bem-sucedida a ter nascido das ideias de liberdade, igualdade e fraternidade se deu no Haiti, n\u00e3o na Fran\u00e7a. A Revolu\u00e7\u00e3o Haitiana (1791-1804) e as ideias de Toussaint L&#8217;Ouverture (1743&#8243;&#8221;1803) abriram o caminho para a independ\u00eancia do pa\u00eds, sua nova Constitui\u00e7\u00e3o e a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Em &#8220;Les Vengeurs du Nouveau Monde&#8221; (os vingadores do novo mundo, 2004), Laurent Dubois conclui que os acontecimentos no Haiti foram &#8220;a express\u00e3o mais concreta da ideia de que os direitos proclamados na Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem e do Cidad\u00e3o, de 1789, eram de fato universais&#8221;.<\/p>\n<p>Nessa linha, podemos indagar se Yacob e Amo algum dia ser\u00e3o elevados \u00e0 posi\u00e7\u00e3o que merecem entre os fil\u00f3sofos da Era das Luzes.<\/p>\n<p>http:\/\/m.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2017\/12\/1945398-os-africanos-que-propuseram-ideias-do-iluminismo-antes-de-locke-e-kant.shtml<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DAG HERBJORNSRUD &#8211;\u00a0Os ideais mais elevados de Locke, Hume e Kant foram propostos mais de um s\u00e9culo antes deles por Zera Yacob, um et\u00edope que viveu numa caverna. 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