{"id":7422,"date":"2018-03-08T16:40:45","date_gmt":"2018-03-08T19:40:45","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=7422"},"modified":"2018-03-08T16:31:17","modified_gmt":"2018-03-08T19:31:17","slug":"a-casa-vermelha-onde-o-massacre-palestino-comecou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/03\/08\/a-casa-vermelha-onde-o-massacre-palestino-comecou\/","title":{"rendered":"A Casa Vermelha, onde o massacre palestino come\u00e7ou"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ilan Papp\u00e9<\/strong> &#8211;\u00a0Historiador israelense resgata a limpeza \u00e9tnica cometida contra os \u00e1rabes, em 1948. Ele afirma: recuperar este epis\u00f3dio ocultado \u00e9, al\u00e9m de um dever moral, a \u00fanica esperan\u00e7a de paz<\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o estamos de luto pela despedida.<br \/>\nN\u00e3o temos o tempo nem as l\u00e1grimas.<br \/>\nN\u00e3o compreendemos o momento de despedida.<br \/>\nOra, \u00e9 a Despedida. E n\u00f3s ficamos com as l\u00e1grimas<br \/>\nTaha Muhammad Ali (1988), um refugiado da vila de Saffuriyya<\/p>\n<p>\u201cEu sou pela transfer\u00eancia compuls\u00f3ria;<br \/>\nn\u00e3o vejo nada imoral nela.\u201d<br \/>\nDavid Ben-Gurion em reuni\u00e3o do Executivo da Ag\u00eancia Judaica, junho 1938<\/p><\/blockquote>\n<p>O texto a seguir \u00e9 o pref\u00e1cio de A Limpeza \u00c9tnica da Palestina, livro em que o historiador israelense Ilan Papp\u00e9 as brutalidades cometidas por seu pa\u00eds, em 1948 \u2013 e como elas geraram um conflito que perdura at\u00e9 hoje<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;-<br \/>\nA \u201cCasa Vermelha\u201d era uma t\u00edpica constru\u00e7\u00e3o do in\u00edcio de Tel-Aviv. Orgulho dos construtores e artes\u00e3os judeus que trabalharam nela nos anos 1920, foi projetada para sediar o escrit\u00f3rio central do conselho local dos trabalhadores. Permaneceu como tal at\u00e9 que, em fins de 1947, tornou-se o quartel-general da Hagan\u00e1, a principal mil\u00edcia clandestina sionista na Palestina. Situada na Rua Yarkon, perto do mar, na regi\u00e3o norte de Tel-Aviv, a constru\u00e7\u00e3o compunha mais uma bela adi\u00e7\u00e3o \u00e0 primeira cidade \u201chebraica\u201d no Mediterr\u00e2neo, a \u201cCidade Branca\u201d, como seus literatos e seus doutores chamavam-na carinhosamente. Pois naquela \u00e9poca, \u00e0 diferen\u00e7a de hoje, a brancura imaculada de suas casas ainda banhava a cidade inteira naquela intensa alvura, t\u00e3o t\u00edpica das cidades portu\u00e1rias do Mediterr\u00e2neo daquela era e regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Era um alento para olhos cansados, em sua mistura elegante de motivos Bauhaus com arquitetura palestina, uma mistura que se chamava \u201clevantina\u201d, sem nenhum sentido depreciativo. Assim tamb\u00e9m era a \u201cCasa Vermelha\u201d, com sua forma retangular simples agraciada com arcos frontais que emolduravam a entrada e apoiavam as sacadas em seus dois pisos superiores. Fora sua associa\u00e7\u00e3o com um movimento de trabalhadores que lhe conferiu o apelido \u201cvermelha\u201d, ou talvez devido ao tom rosado que lhe dava o p\u00f4r do sol. A primeira raz\u00e3o deve ser a mais adequada, uma vez que o edif\u00edcio continuou a ser associado \u00e0 vers\u00e3o sionista de socialismo quando, em 1970, tornou-se o escrit\u00f3rio central do movimento kibbutzim de Israel. Casas como esta, importantes reminisc\u00eancias hist\u00f3ricas do per\u00edodo do Mandato, motivaram, em 2003, a declara\u00e7\u00e3o de Tel-Aviv como um patrim\u00f4nio mundial pela Unesco .<\/p>\n<p>Hoje a casa n\u00e3o est\u00e1 mais l\u00e1, v\u00edtima do progresso que p\u00f4s abaixo essa rel\u00edquia arquitet\u00f4nica para abrir espa\u00e7o a uma garagem de autom\u00f3veis ao lado do hotel Sheraton. Portanto, nessa rua tamb\u00e9m n\u00e3o existe tra\u00e7o da \u201cCidade Branca\u201d, que aos poucos foi sendo desfigurada na metr\u00f3pole agigantada, extravagante e polu\u00edda que \u00e9 a Tel-Aviv moderna. Nesse edif\u00edcio, \u00e0 tarde de uma fria quarta-feira, 10 de mar\u00e7o de 1948, um grupo de 11 homens, dirigentes veteranos do sionismo e jovens oficiais militares judeus, deu os \u00faltimos retoques a um plano de limpeza \u00e9tnica da Palestina. Na mesma noite, ordens militares foram expedidas para as unidades espalhadas pelo territ\u00f3rio, para que se preparassem \u00e0 expuls\u00e3o sistem\u00e1tica dos palestinos de vastas regi\u00f5es do pa\u00eds. As ordens vinham com uma descri\u00e7\u00e3o detalhada dos m\u00e9todos a empregar para despejar \u00e0 for\u00e7a as pessoas: intimida\u00e7\u00e3o em grande escala; sitiar e bombardear vilarejos e centros populacionais; atear fogo a casas, propriedades e bens; expulsar; demolir; e, finalmente, depositar minas entre os escombros para impedir o retorno de qualquer um dos habitantes expulsos.<\/p>\n<p>Cada unidade foi escalada para uma lista de vilarejos e bairros, como parte dos alvos desse plano mestre. Chamado de Plano D (Dalet em hebraico), foi a quarta e \u00faltima vers\u00e3o de planos menos substanciais que tra\u00e7avam o destino que os sionistas guardavam para a Palestina e, consequentemente, para sua popula\u00e7\u00e3o nativa. Os tr\u00eas esquemas pr\u00e9vios articularam de forma apenas obscura a maneira com que a dire\u00e7\u00e3o sionista pensava em lidar com a presen\u00e7a de tantos palestinos vivendo na terra que o movimento nacionalista judeu cobi\u00e7ava para si. Essa quarta e \u00faltima planta pronunciava de maneira clara e sem ambiguidades: os palestinos tinham de ir-se. Nas palavras de um dos primeiros historiadores que notaram a import\u00e2ncia desse plano, Simcha Flapan: \u201cA campanha militar contra os \u00e1rabes, incluindo a \u2018conquista e destrui\u00e7\u00e3o das \u00e1reas rurais\u2019, foi encetada pelo Plano Dalet da Hagan\u00e1.\u201d<\/p>\n<p>O objetivo do plano era de fato a destrui\u00e7\u00e3o tanto das \u00e1reas rurais quanto urbanas da Palestina. Como os primeiros cap\u00edtulos tentar\u00e3o mostrar, esse plano era um produto inevit\u00e1vel do impulso ideol\u00f3gico sionista a ter uma presen\u00e7a exclusivamente judaica na Palestina, bem como uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0s decorr\u00eancias no terreno depois que o gabinete ingl\u00eas decidiu terminar o Mandato. Confrontos com mil\u00edcias locais palestinas forneceram o contexto e pretexto perfeitos para a implementa\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o ideol\u00f3gica de uma Palestina com pureza \u00e9tnica. A pol\u00edtica sionista foi embasada, em primeiro lugar, na repres\u00e1lia contra ataques palestinos em fevereiro de 1947, transformando-se em uma iniciativa para limpar etnicamente a totalidade do pa\u00eds em mar\u00e7o de 1948. Uma vez tomada a decis\u00e3o, levou seis meses para completar a miss\u00e3o. Quando terminou, mais da metade da popula\u00e7\u00e3o nativa palestina, o que significava cerca de 800 mil pessoas, foi desalojada, 531 vilarejos, destru\u00eddos e 11 bairros urbanos, esvaziados de seus habitantes.<\/p>\n<p>O plano assentado em 10 de mar\u00e7o de 1948 e, sobretudo, sua implementa\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica nos meses seguintes s\u00e3o um caso claro de uma opera\u00e7\u00e3o de limpeza \u00e9tnica, o que o direito internacional, hoje, considera um crime contra a humanidade. Ap\u00f3s o Holocausto, tornou-se quase imposs\u00edvel ocultar crimes de grande escala contra a humanidade. Nosso mundo voltado para a comunica\u00e7\u00e3o, especialmente ap\u00f3s a explos\u00e3o da m\u00eddia eletr\u00f4nica, n\u00e3o permite mais que as cat\u00e1strofes promovidas pelos seres humanos permane\u00e7am escondidas do olhar p\u00fablico, ou que sejam negadas. No entanto, um desses crimes foi apagado da mem\u00f3ria p\u00fablica do mundo: o despovoamento dos palestinos por Israel em 1948. Sendo o acontecimento mais determinante da hist\u00f3ria moderna da terra palestina, ele tem sido sistematicamente negado, e at\u00e9 hoje n\u00e3o \u00e9 admitido como um fato hist\u00f3rico, para n\u00e3o falar de crime que precisa ser enfrentado tanto pol\u00edtica quanto moralmente.<\/p>\n<p>A limpeza \u00e9tnica \u00e9 um crime contra a humanidade, e as pessoas que o perpetram hoje s\u00e3o consideradas criminosas a serem levadas a cortes especiais. Pode ser dif\u00edcil, na esfera legal, decidir como denunciar ou lidar com aqueles que iniciaram e perpetuaram a limpeza \u00e9tnica na Palestina em 1948, mas \u00e9 poss\u00edvel reconstruir seus crimes e chegar a um relato historiogr\u00e1fico que se mostrar\u00e1 mais preciso do que os realizados at\u00e9 o momento, bem como a uma posi\u00e7\u00e3o moral mais \u00edntegra. N\u00f3s sabemos os nomes das pessoas que se sentaram naquela sala no \u00faltimo andar da Casa Vermelha, sob cartazes de estilo marxista com slogans como \u201cIrm\u00e3os em armas\u201d e \u201cO punho de a\u00e7o\u201d, que mostravam judeus \u201cnovos\u201d \u2013 musculosos, saud\u00e1veis e bronzeados \u2013 apontando seus rifles por detr\u00e1s de barreiras protetoras na \u201cbrava luta\u201d contra os \u201cinvasores \u00e1rabes hostis\u201d. Tamb\u00e9m sabemos os nomes dos oficiais graduados que receberam as ordens e executaram-nas no terreno. Todos s\u00e3o figuras familiares no pante\u00e3o de her\u00f3is israelenses. H\u00e1 n\u00e3o muito tempo, todos ainda viviam, e exerciam pap\u00e9is centrais na pol\u00edtica e sociedade israelenses; alguns poucos ainda est\u00e3o entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>Para os palestinos, e para todos os que se recusaram a comprar a narrativa sionista, j\u00e1 estava claro muito antes da escrita deste livro que essas pessoas perpetraram crimes, mas efetivamente esquivaram-se da justi\u00e7a e provavelmente nunca ser\u00e3o julgadas por suas a\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m do trauma, a forma mais profunda de frustra\u00e7\u00e3o que os palestinos t\u00eam experimentado \u00e9 perceber que os atos criminosos pelos quais esses homens foram respons\u00e1veis t\u00eam sido inteiramente negados, e que o sofrimento palestino tem sido totalmente ignorado. Aproximadamente 30 anos atr\u00e1s, as v\u00edtimas da limpeza \u00e9tnica come\u00e7aram a remendar a representa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que a narrativa oficial israelense sobre 1948 tanto fizera para encobrir e distorcer. A f\u00e1bula que Israel engendrou falava de uma maci\u00e7a \u201ctransfer\u00eancia volunt\u00e1ria\u201d de centenas de milhares de palestinos que decidiram abandonar temporariamente seus lares e vilarejos para abrir caminho aos ex\u00e9rcitos \u00e1rabes que invadiam aquela terra, dispostos a destruir o tenro estado judeu.<\/p>\n<p>Coletando mem\u00f3rias aut\u00eanticas e documentos sobre o que acontecera a seu povo, nos anos 1970 os historiadores palestinos, com Walid Khalidi \u00e0 sua frente, foram capazes de recuperar uma parte significativa do quadro que Israel tentara apagar. Mas logo foram eclipsados por publica\u00e7\u00f5es como Genesis 1948, de Dan Kurzman, que apareceu em 1970 e de novo em 1992 (agora com uma introdu\u00e7\u00e3o por um dos executores da limpeza \u00e9tnica da Palestina, Yitzhak Rabin, ent\u00e3o primeiro-ministro israelense). No entanto, houve tamb\u00e9m alguns que vieram em apoio ao empreendimento palestino, como Michael Palumbo, cujo The Palestinian Catastrophe, publicado em 1987, validava a vers\u00e3o palestina dos acontecimentos de 1948, com a ajuda de documentos da ONU e entrevistas com refugiados e exilados palestinos, cuja mem\u00f3ria do que tiveram de suportar durante a Nakba mostrava-se ainda assustadoramente v\u00edvida.<\/p>\n<p>Nos anos 1980, poder\u00edamos ter dado um salto pol\u00edtico na batalha pela mem\u00f3ria da Palestina, com a entrada em cena da chamada \u201cnova hist\u00f3ria\u201d em Israel. Foi uma tentativa, por parte de um pequeno grupo de historiadores israelenses, de revisar a narrativa sionista da guerra de 1948. Eu era um deles. Mas n\u00f3s, os novos historiadores, nunca contribu\u00edmos significativamente para a luta contra a nega\u00e7\u00e3o da Nakba, pois nos furtamos \u00e0 quest\u00e3o da limpeza \u00e9tnica e, da forma habitual a historiadores diplom\u00e1ticos, nos apegamos aos detalhes. N\u00e3o obstante, ao usar primordialmente os arquivos militares israelenses, os historiadores revisionistas israelenses de fato conseguiram mostrar qu\u00e3o falsa e absurda era a alega\u00e7\u00e3o israelense que os palestinos haviam sa\u00eddo por \u201cvontade pr\u00f3pria\u201d. Foram capazes de confirmar muitos casos de expuls\u00f5es maci\u00e7as dos vilarejos e cidades e revelaram que as for\u00e7as judias haviam cometido um n\u00famero consider\u00e1vel de atrocidades, incluindo massacres.<\/p>\n<p>Uma das pessoas mais conhecidas que escreveram sobre o assunto \u00e9 o historiador Benny Morris. Por se apoiar exclusivamente em documentos dos arquivos militares israelenses, Morris chegou a um quadro muito parcial do que acontecera no terreno. Ainda assim, era o suficiente para alguns dos leitores israelenses compreenderem que a \u201cfuga volunt\u00e1ria\u201d dos palestinos era um mito, e que a autorrepresenta\u00e7\u00e3o de Israel em uma guerra \u201cmoral\u201d, em 1948, contra um mundo \u00e1rabe hostil e \u201cprimitivo\u201d estava consideravelmente falha, e possivelmente j\u00e1 falida. O quadro era parcial porque Morris tomou os relat\u00f3rios militares encontrados nos arquivos por seu valor de face e at\u00e9 mesmo como verdade absoluta. Assim, ignorou atrocidades como o envenenamento com tifo das fontes de \u00e1gua de Acre, os numerosos casos de estupro e as d\u00fazias de massacres perpetrados por judeus. Ele tamb\u00e9m continuou insistindo \u2013 equivocadamente \u2013 de que antes de 15 de maio de 1948 n\u00e3o houve despejos \u00e0 for\u00e7a. As fontes palestinas mostram claramente como, meses antes da entrada das for\u00e7as \u00e1rabes na Palestina, e enquanto os ingleses ainda eram os respons\u00e1veis pela lei e ordem no pa\u00eds \u2013 mais especificamente, at\u00e9 15 de maio \u2013, as for\u00e7as judias tinham j\u00e1 conseguido expulsar \u00e0 for\u00e7a quase um quarto de milh\u00e3o de palestinos.<\/p>\n<p>Tivessem Morris e outros usado fontes \u00e1rabes ou empregado a hist\u00f3ria oral, provavelmente poderiam obter uma compreens\u00e3o melhor do planejamento sistem\u00e1tico por tr\u00e1s da expuls\u00e3o dos palestinos em 1948, e assim teriam oferecido uma descri\u00e7\u00e3o mais fiel da enormidade dos crimes cometidos pelos soldados israelenses. Naquele tempo e ainda agora, h\u00e1 a necessidade, tanto hist\u00f3rica quanto pol\u00edtica, de ir al\u00e9m de descri\u00e7\u00f5es tais como as encontradas em Morris, n\u00e3o apenas para completar o quadro (com efeito, dar a segunda metade dele), mas tamb\u00e9m \u2013 e muito mais importante \u2013 porque n\u00e3o h\u00e1 outra forma de compreender as ra\u00edzes do conflito israelo-palestino contempor\u00e2neo. Mas, sobretudo, obviamente h\u00e1 um imperativo moral para continuar a luta contra a nega\u00e7\u00e3o do crime.<\/p>\n<p>O \u00edmpeto de ir al\u00e9m j\u00e1 foi disparado por outros. De forma previs\u00edvel, dadas as suas contribui\u00e7\u00f5es significativas \u00e0 luta contra a nega\u00e7\u00e3o, a obra mais importante foi o livro seminal de Walid Khalidi, All That Remains. \u00c9 um almanaque dos vilarejos destru\u00eddos, ainda um guia essencial para qualquer pessoa que deseje compreender a enormidade da cat\u00e1strofe de 1948. Poder-se-ia sugerir que essa parcela j\u00e1 exposta da hist\u00f3ria deveria ser suficiente para levantar quest\u00f5es perturbadoras. Contudo, a narrativa da \u201cnova hist\u00f3ria\u201d e as adi\u00e7\u00f5es historiogr\u00e1ficas recentes de palestinos como que fracassaram em entrar para a esfera p\u00fablica da consci\u00eancia moral e da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste livro, quero explorar tanto o mecanismo da limpeza \u00e9tnica de 1948 quanto o sistema cognitivo que permitiu ao mundo esquecer \u2013 e aos perpetradores negarem \u2013 o crime que o movimento sionista cometeu contra o povo palestino em 1948. Em outras palavras, quero defender o uso do paradigma da limpeza \u00e9tnica, usando para substituir o paradigma da guerra como base para a pesquisa acad\u00eamica e o debate p\u00fablico sobre 1948. N\u00e3o tenho d\u00favidas de que a aus\u00eancia prolongada do paradigma da limpeza \u00e9tnica \u00e9 parte do motivo que possibilitou a nega\u00e7\u00e3o da cat\u00e1strofe persistir por tanto tempo. Quando criou seu Estado-na\u00e7\u00e3o, o movimento sionista n\u00e3o travou uma guerra que \u201ctr\u00e1gica, mas inevitavelmente\u201d levou \u00e0 expuls\u00e3o de \u201cpartes\u201d da popula\u00e7\u00e3o nativa, ao contr\u00e1rio: o objetivo principal era a limpeza \u00e9tnica de toda a Palestina, que o movimento cobi\u00e7ava para seu novo estado.<\/p>\n<p>Algumas poucas semanas ap\u00f3s come\u00e7arem as opera\u00e7\u00f5es de limpeza \u00e9tnica, os estados \u00e1rabes enviaram um pequeno ex\u00e9rcito \u2013 pequeno em compara\u00e7\u00e3o com seu poderio militar de conjunto \u2013 para tentar impedir a limpeza \u00e9tnica, em v\u00e3o. A guerra com os ex\u00e9rcitos \u00e1rabes regulares n\u00e3o deteve as opera\u00e7\u00f5es de limpeza \u00e9tnica at\u00e9 sua conclus\u00e3o bem-sucedida no outono de 1948. Para alguns, esta abordagem \u2013 o emprego do paradigma da limpeza \u00e9tnica como uma base a priori para a narrativa de 1948 \u2013 pode parecer uma condena\u00e7\u00e3o desde o in\u00edcio. Em muitos sentidos, \u00e9 de fato meu pr\u00f3prio J\u2019Accuse contra os pol\u00edticos que projetaram a limpeza \u00e9tnica e os generais que a perpetraram. Contudo, quando menciono seus nomes, n\u00e3o o fa\u00e7o por querer v\u00ea-los sendo levados a julgamento p\u00f3stumo, mas para humanizar os perpetradores, bem como as v\u00edtimas: eu quero impedir que os crimes cometidos por Israel sejam atribu\u00eddos a causas evasivas como \u201cas circunst\u00e2ncias\u201d, \u201co ex\u00e9rcito\u201d ou, como quer Morris, \u201c\u00e0 la guerre comme \u00e0 la guerre\u201d, e outras refer\u00eancias similares que desencarregam estados soberanos e permitem a indiv\u00edduos escaparem da justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Eu acuso, mas sou tamb\u00e9m parte da sociedade que est\u00e1 sendo condenada neste livro. Tanto me sinto respons\u00e1vel pelo acontecido quanto sou parte deles e, como outros em minha pr\u00f3pria sociedade, estou convencido, como minhas p\u00e1ginas finais mostrar\u00e3o, de que uma tal jornada dolorosa ao passado \u00e9 o \u00fanico caminho para a frente, se quisermos criar um futuro melhor para n\u00f3s todos \u2013 palestinos e israelenses igualmente. Porque, em seu \u00e2mago, \u00e9 disso que este livro trata.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho ci\u00eancia de algu\u00e9m que j\u00e1 tenha tentado esta abordagem. As duas narrativas hist\u00f3ricas oficiais que competem pela interpreta\u00e7\u00e3o do que aconteceu na Palestina em 1948 ignoram o conceito de limpeza \u00e9tnica. Enquanto a vers\u00e3o sionista\/israelense alega que a popula\u00e7\u00e3o local saiu \u201cvoluntariamente\u201d, os palestinos falam da \u201ccat\u00e1strofe\u201d, a Nakba, que se abateu sobre eles, o que em algum sentido \u00e9 um termo furtivo, por se referir mais ao desastre em si do que a quem ou o que o causou. O termo Nakba foi adotado, por motivos compreens\u00edveis, como uma tentativa de contrabalan\u00e7ar o peso moral do Holocausto judeu (Shoa), mas ao deixar de fora o ator, pode em certo sentido ter contribu\u00eddo para a nega\u00e7\u00e3o insistente do mundo quanto \u00e0 limpeza \u00e9tnica na Palestina, em 1948 e depois.<\/p>\n<p>O livro abre com uma defini\u00e7\u00e3o de limpeza \u00e9tnica que espero ser suficientemente transparente para ser aceita por todos \u2013 uma defini\u00e7\u00e3o que serviu de base \u00e0s a\u00e7\u00f5es legais contra os perpetradores de tais crimes no passado e nos nossos pr\u00f3prios dias. N\u00e3o sem alguma surpresa, o discurso legal normalmente complexo e (para a maioria dos seres humanos) impenetr\u00e1vel \u00e9 aqui substitu\u00eddo por uma linguagem clara, sem jarg\u00f5es. Essa simplicidade n\u00e3o diminui a monstruosidade do fato, nem burla a gravidade do crime. Pelo contr\u00e1rio: o resultado \u00e9 uma descri\u00e7\u00e3o direta de uma pol\u00edtica atroz que a comunidade internacional hoje se recusa a tolerar.<\/p>\n<p>A defini\u00e7\u00e3o geral dos elementos componentes de uma limpeza \u00e9tnica se aplica quase literalmente ao caso da Palestina. Como tal, a narra\u00e7\u00e3o do ocorrido em 1948 ganha luz na hist\u00f3ria do despovoamento da Palestina como um cap\u00edtulo descomplicado, mas, de forma alguma, simplificado ou secund\u00e1rio. De fato, a ado\u00e7\u00e3o do prisma da limpeza \u00e9tnica capacita a pessoa a penetrar aquele manto de complexidade que \u00e9 toureado, quase instintivamente, por diplomatas israelenses \u2013 atr\u00e1s do qual acad\u00eamicos israelenses automaticamente se escondem \u2013 para barrar tentativas externas de criticar o sionismo ou o estado judeu por suas pol\u00edticas e seu comportamento. \u201cOs estrangeiros\u201d, diz-se em meu pa\u00eds, \u201cn\u00e3o entendem e n\u00e3o podem entender essa hist\u00f3ria complicada\u201d, portanto, n\u00e3o h\u00e1 necessidade de sequer tentar explic\u00e1-la. Tampouco devemos permitir que eles se envolvam nas tentativas de resolver o conflito \u2013 a menos que aceitem o ponto de vista israelense. Tudo o que se pode fazer \u2013 como v\u00eam dizendo com benevol\u00eancia os governos israelenses ao mundo \u2013 \u00e9 deixar que \u201cn\u00f3s\u201d, os israelenses, como representantes do lado \u201ccivilizado\u201d e \u201cracional\u201d do conflito, encontremos uma solu\u00e7\u00e3o justa para \u201cn\u00f3s mesmos\u201d e para o outro lado, os palestinos que, afinal de contas, s\u00e3o o emblema da \u201cincivilidade\u201d e \u201cirracionalidade\u201d do mundo \u00e1rabe ao qual a Palestina pertence.<\/p>\n<p>No momento em que os Estados Unidos mostraram-se prontos para assumir essa abordagem distorcida e endossar a arrog\u00e2ncia que a fundamenta, tivemos um \u201cprocesso de paz\u201d que levou, e s\u00f3 poderia levar, a lugar nenhum, por ignorar t\u00e3o completamente o cerne da quest\u00e3o. Mas a hist\u00f3ria de 1948, \u00e9 claro, n\u00e3o \u00e9 de forma alguma complicada, portanto, este livro foi escrito tanto para os rec\u00e9m-chegados a esse campo quanto para os que j\u00e1 est\u00e3o envolvidos, por v\u00e1rios anos e raz\u00f5es, com a quest\u00e3o da Palestina e com os caminhos para nos deixar mais perto de uma solu\u00e7\u00e3o. \u00c9 a narra\u00e7\u00e3o simples, mas horripilante da limpeza \u00e9tnica da Palestina, um crime contra a humanidade que Israel quis negar e for\u00e7ar o mundo a esquecer. Recuper\u00e1-la do esquecimento \u00e9 uma incumb\u00eancia sobre nossas cabe\u00e7as, n\u00e3o apenas como um ato de reconstru\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica imensamente protelado ou um dever profissional; como o vejo, \u00e9 uma decis\u00e3o moral: o primeir\u00edssimo passo que temos de trilhar se algum dia quisermos dar uma chance \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o e uma raiz \u00e0 paz na dilacerada terra da Palestina e Israel.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"CGrxJuO0e3\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/sem-categoria\/a-casa-vermelha-onde-o-massacre-palestino-comecou\/\">A Casa Vermelha, onde o massacre palestino come\u00e7ou<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;A Casa Vermelha, onde o massacre palestino come\u00e7ou&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/sem-categoria\/a-casa-vermelha-onde-o-massacre-palestino-comecou\/embed\/#?secret=mNe5ZKEXT0#?secret=CGrxJuO0e3\" data-secret=\"CGrxJuO0e3\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ilan Papp\u00e9 &#8211;\u00a0Historiador israelense resgata a limpeza \u00e9tnica cometida contra os \u00e1rabes, em 1948. 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