{"id":7364,"date":"2018-03-06T12:34:52","date_gmt":"2018-03-06T15:34:52","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=7364"},"modified":"2018-03-04T20:56:42","modified_gmt":"2018-03-04T23:56:42","slug":"paraisos-fiscais-2-bem-mais-do-que-uma-suica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/03\/06\/paraisos-fiscais-2-bem-mais-do-que-uma-suica\/","title":{"rendered":"Para\u00edsos fiscais (2) &#8211; Bem mais do que uma Su\u00ed\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><strong>Reginaldo de Moraes<\/strong> &#8211; O nascimento dos modernos para\u00edsos fiscais \u00e9 controverso. Sua hist\u00f3ria \u00e9 um emaranhado de circunstancias e a\u00e7\u00f5es deliberadas.<\/p>\n<p>A imagem da ilha do tesouro e seus piratas \u00e9 antiga, assim como suas afinidades com o poder pol\u00edtico. No s\u00e9culo XVI, alguns deles eram mais do que aristocratas, frequentavam com grande intimidade as damas da corte, inclusive a rainha. O imp\u00e9rio brit\u00e2nico desabou, como ocorre com todos os imp\u00e9rios, um dia. Mas a City londrina, seu cora\u00e7\u00e3o financeiro, renasceu dessas cinzas para se tornar a capital de outro imp\u00e9rio, aquele do crime credenciado, com pontos de oculta\u00e7\u00e3o e desova espalhados pelo planeta. Tamb\u00e9m nesse novo imp\u00e9rio, o sol nunca se p\u00f5e.<\/p>\n<p>O nascimento dos modernos para\u00edsos fiscais \u00e9 controverso, sua hist\u00f3ria \u00e9 um emaranhado de circunstancias e a\u00e7\u00f5es deliberadas. Assim, quando terminou a segunda guerra, os pa\u00edses que sobraram de p\u00e9 come\u00e7aram a reorganizar o sistema de trocas \u2013 a come\u00e7ar pelo comercio internacional, claro, as tarifas e regras de movimenta\u00e7\u00e3o de mercadorias entre fronteiras. Mas n\u00e3o foi apenas esse tr\u00e1fico que cresceu. As grandes empresas manufatureiras, sobretudo americanas, perceberam a oportunidade e a conveni\u00eancia de estabelecer filiais mundo afora, produzindo em outros pa\u00edses aquilo que antes vendiam de al\u00e9m-mar. Como era de se esperar, com esses movimentos se coordenaram o dinheiro e o cr\u00e9dito, os bancos. Na arquitetura econ\u00f4mica do p\u00f3s-guerra, aquela chancelada em Bretton Woods e fortemente influenciada pela vis\u00e3o ketnesiana, o movimento de capitais era bastante regulado.<\/p>\n<p>N\u00e3o demorou e toda essa internacionaliza\u00e7\u00e3o, bem sucedida, foi gerando massas de lucros e juros em cascata, em busca de prote\u00e7\u00e3o, sigilo e, claro, novas oportunidades para seguir seu pr\u00f3prio mandamento de \u201ccrescei e multiplicai-vos\u201d.<\/p>\n<p>Naquela ocasi\u00e3o, esse ref\u00fagio tinha um endere\u00e7o quase exclusivo. Desde 1934, a Su\u00ed\u00e7a protegia fortemente os dep\u00f3sitos banc\u00e1rios, com leis que criminalizam a difus\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es sobre os clientes, inclusive para governos. Inventaram uma estorinha melosa, dizendo que se tratava de iniciativa humanit\u00e1ria, para proteger judeus perseguidos pelo nazismo. A fragilidade dessa lenda conveniente fica muito clara, contudo, quando vemos as circunst\u00e2ncias da inven\u00e7\u00e3o: a lei protetora vem logo depois de um esc\u00e2ndalo envolvendo rica\u00e7os franceses, de bispos a generais, passando por oligarcas de todo tipo.<\/p>\n<p>Aos poucos, foi-se criando um outro centro de grana sem p\u00e1tria, em Londres, o chamado mercado dos eurod\u00f3lares. A origem \u00e9 controvertida. Alguns a relacionam com os dep\u00f3sitos de divisas sovi\u00e9ticas, que desconfiavam dos bancos americanos. Queriam fazer deposito em d\u00f3lar, mas n\u00e3o na terra do advers\u00e1rio. Al\u00e9m disso, as pr\u00f3prias filiais das empresas internacionalizadas precisavam operar grandes massas de lucros retidos. E, por fim, o dinheiro dos novos ricos do petr\u00f3leo, aqueles xeiques da Ar\u00e1bia. Muita grana armazenada e pronta para financiar&#8230; ditaduras no terceiro mundo, aqueles brucutus latino-americanos e africanos que queriam construir pir\u00e2mides com os ossos de seus compatriotas. Os ditadores ganhariam suas comiss\u00f5es e, claro, precisavam de cofres protegidos e sigilosos. Private banking neles, City!<\/p>\n<p>Com o tempo, mesmo bem equipadas, Su\u00ed\u00e7a e Londres foram ficando insuficientes para as numerosas manobras de esconde-esconde da grana. Em 1980 veio a solu\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o foi nada \u201cespont\u00e2nea\u201d como um troca-troca de mercado. A for\u00e7a do estado foi decisiva. Grandes reformas nos sistemas banc\u00e1rios dos EUA e Inglaterra tornaram vi\u00e1veis movimentos bem mais ousados desses pa\u00edses. A Inglaterra tinha um az na manga. Suas antigas col\u00f4nias, hoje quase-pa\u00edses, com soberania mas vinculados \u00e0 Commonwealth e dela dependentes, estavam bem ali, prontas para o servi\u00e7o. Um punhado de ilhotas e cidades-estados, dispostas a vender suas leis para o capital cigano.<\/p>\n<p>N\u00e3o demorou, o sistema se organizou. Com divis\u00e3o de tarefas e hierarquias. A Su\u00ed\u00e7a continuava no jogo, mais do que nunca. Muito do que se faz nessas ilhotas se articula em Zurique. Londres despontava como a outra pra\u00e7a central. E, claro, Wall Street, depois das desregula\u00e7\u00f5es promovidas por Reagan e seus sucessores, republicanos ou democratas, tanto faz. Estava pronta a infraestrutura legal para a expans\u00e3o de um sistema de pirataria planet\u00e1ria e, agora, imaterial, puramente financeira. Com o tempo, puramente digital. Nas novas ilhas do tesouro n\u00e3o se deposita ouro ou prata. Depositam-se contratos, t\u00edtulos e a\u00e7\u00f5es, copyrights, patentes, cr\u00e9ditos e d\u00e9bitos. \u00a0Intang\u00edveis. Riqueza em seu terceiro estado, o gasoso.<\/p>\n<p><b>Do crime \u201ccomum\u201d ao<br \/>\ncrime com pedigree e CNPJ<\/b><\/p>\n<p>Para quem se acostumou a pensar a lavagem dinheiro e o para\u00edso fiscal como atividade de traficantes e bandoleiros, pode parecer chocante a conviv\u00eancia feliz que encontramos nas ilhas modernas \u2013 homens \u201cde bem e de bens\u201d, grandes corpora\u00e7\u00f5es e bancos, grandes e prestigiosos escrit\u00f3rios de advocacia compartilham segredos e procedimentos com traficantes. E com agentes da \u201cintelig\u00eancia americana\u201d, talvez a maior organiza\u00e7\u00e3o criminosa do mundo. O clube \u00e9 diversificado.<\/p>\n<p>Vivem no mesmo espa\u00e7o, utilizam os mesmos profissionais da lavagem, utilizam os mesmos canais de movimenta\u00e7\u00e3o dos fundos. Uma converg\u00eancia leva a outra, diz Shaxson (Treasure Islands), produzindo \u201cduas transforma\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas: ajudando os empreendimentos criminosos a imitar os neg\u00f3cios leg\u00edtimos, e encorajando os neg\u00f3cios leg\u00edtimos a comportar-se como empreendimentos criminosos\u201d<\/p>\n<p>Os dados pacientemente acumulados por um pesquisador, Gabriel Zucman, nos d\u00e3o um quadro espantoso desse reino. O que segue \u00e9, em grande medida, apenas a transcri\u00e7\u00e3o desses dados, traduzidos e adaptados para o leitor brasileiro. Est\u00e3o no website do autor e em um livro \u2013 The Hidden Wealth of Nations: The Scourge of Tax Havens (The University of Chicago Press, 2015).<\/p>\n<p>A primeira imagem do livro retrata a ocasi\u00e3o em que emergem os novos para\u00edsos, juntando-se \u00e0 m\u00e3e Su\u00ed\u00e7a. Os n\u00fameros s\u00e3o eloquentes. A partir de 1980, pelas raz\u00f5es que explicamos, uma outra constela\u00e7\u00e3o se forma.<\/p>\n<p><b>Figura 1:<\/b>\u00a0A riqueza de europeus em para\u00edsos fiscais (% de suas disponibilidades financeiras)<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"larguraBox\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.unicamp.br\/unicamp\/sites\/default\/files\/inline-images\/img_ART_RCM_suica_grafico1_20180201_0.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"Figura 1: A riqueza de europeus em para\u00edsos fiscais (% de suas disponibilidades financeiras)\" \/><\/p>\n<p>A\u00a0<b>Figura 2<\/b>, por outro lado, contrasta uma impress\u00e3o fortemente popularizada: mais da metade dessa riqueza pertence a europeus, n\u00e3o a oligarcas russos ou ditadores africanos.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"larguraBox\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.unicamp.br\/unicamp\/sites\/default\/files\/inline-images\/img_ART_RCM_suica_grafico2_20180201.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"A Figura 2, por outro lado, contrasta uma impress\u00e3o fortemente popularizada: mais da metade dessa riqueza pertence a europeus, n\u00e3o a oligarcas russos ou ditadores africanos.\" \/><\/p>\n<p>\u00c9 claro que, se pensamos na dimens\u00e3o dos pa\u00edses africanos e latino-americanos (seus PIBs), os montantes s\u00e3o muito significativos.\u00a0 E nos levam a pensar nos custos dessa evas\u00e3o para o desenvolvimento desses pa\u00edses. A figura mostra o \u201cde onde vem o dinheiro\u201d. Mas vale a pena olhar, tamb\u00e9m, o lugar para onde vai, isto \u00e9, como \u00e9 reciclado, aplicado, o que aparece na coluna da direita (investimentos).<\/p>\n<p>A\u00a0<b>Figura 3<\/b>\u00a0destaca o papel ainda relevante (e articulador) da Su\u00ed\u00e7a nessa constela\u00e7\u00e3o. Devemos lembrar que estima-se a exist\u00eancia de mais de sessenta para\u00edsos fiscais. Em termos globais, a estimativa que se pode fazer, nesse reino de dinheiro de dif\u00edcil rastreamento, \u00e9 que uns 8% da riqueza financeira (n\u00e3o im\u00f3vel) dos bilion\u00e1rios do mundo est\u00e1 depositada nesses bancos. Um ter\u00e7o disso fica na Su\u00ed\u00e7a, estritamente. Por outro lado, v\u00e1rias opera\u00e7\u00f5es \u201csediadas\u201d em ilhas s\u00e3o, de fato, organizadas e processadas pelos grandes centros (Su\u00ed\u00e7a, Londres, N. York).<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"larguraBox\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.unicamp.br\/unicamp\/sites\/default\/files\/inline-images\/img_ART_RCM_suica_grafico3_20180201.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"A Figura 3 destaca o papel ainda relevante (e articulador) da Su\u00ed\u00e7a nessa constela\u00e7\u00e3o. Devemos lembrar que estima-se a exist\u00eancia de mais de sessenta para\u00edsos fiscais. Em termos globais, a estimativa que se pode fazer, nesse reino de dinheiro de dif\u00edcil rastreamento, \u00e9 que uns 8% da riqueza financeira (n\u00e3o im\u00f3vel) dos bilion\u00e1rios do mundo est\u00e1 depositada nesses bancos. Um ter\u00e7o disso fica na Su\u00ed\u00e7a, estritamente. Por outro lado, v\u00e1rias opera\u00e7\u00f5es \u201csediadas\u201d em ilhas s\u00e3o, de fato, organizadas e processadas pelos grandes centros (Su\u00ed\u00e7a, Londres, N. York).\" \/><\/p>\n<p>Zucman estima, tanto quanto pode, os custos dessa evas\u00e3o para os estados (com not\u00f3rios impactos em suas pol\u00edticas dom\u00e9sticas). As fraudes significariam algo como US$ 200 bilh\u00f5es de perdas para os governos, apenas em 2014.<\/p>\n<p>A\u00a0<b>figura 4\u00a0<\/b>retrata uma evolu\u00e7\u00e3o no Sistema. Em resposta a normas dos pa\u00edses (inclusive a regulamenta\u00e7\u00e3o europeia de 2005), os dep\u00f3sitos v\u00e3o mudando de forma, para facilitar o anonimato e as isen\u00e7\u00f5es fiscais. De pessoas para shell-corporations, empresas-biombo ou laranjas. Daquele dinheiro com pedigree, o das grandes fam\u00edlias ricas, para o dinheiro com CNPJ, empresas. Os para\u00edsos modelam suas leis de modo a permitir o registro de corpora\u00e7\u00f5es sem a identifica\u00e7\u00e3o de seus propriet\u00e1rios e dirigentes. Para os Trusts, em geral basta a identifica\u00e7\u00e3o do benefici\u00e1rio, n\u00e3o do propriet\u00e1rio.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"larguraBox\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.unicamp.br\/unicamp\/sites\/default\/files\/inline-images\/img_ART_RCM_suica_grafico4_20180201.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"A figura 4 retrata uma evolu\u00e7\u00e3o no Sistema. Em resposta a normas dos pa\u00edses (inclusive a regulamenta\u00e7\u00e3o europeia de 2005), os dep\u00f3sitos v\u00e3o mudando de forma, para facilitar o anonimato e as isen\u00e7\u00f5es fiscais. De pessoas para shell-corporations, empresas-biombo ou laranjas. Daquele dinheiro com pedigree, o das grandes fam\u00edlias ricas, para o dinheiro com CNPJ, empresas. Os para\u00edsos modelam suas leis de modo a permitir o registro de corpora\u00e7\u00f5es sem a identifica\u00e7\u00e3o de seus propriet\u00e1rios e dirigentes. Para os Trusts, em geral basta a identifica\u00e7\u00e3o do benefici\u00e1rio, n\u00e3o do propriet\u00e1rio.\" \/><\/p>\n<p>At\u00e9 aqui destacamos principalmente a riqueza de pessoas f\u00edsicas. Veremos, nesta s\u00e9rie, que este \u00e9 apenas um peda\u00e7o do sistema e, cada vez mais, seu peda\u00e7o menor. A\u00a0<b>Figura 5<\/b>\u00a0mostra a relev\u00e2ncia dos para\u00edsos para as empresas transnacionais sediadas nos Estados Unidos. Cada vez mais, os para\u00edsos se tornam n\u00e3o apenas ref\u00fagio para o dinheiro dos rica\u00e7os, mas centro de opera\u00e7\u00f5es fundamentais para empresas, bancos e fundos de investimento de todo tipo.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"larguraBox\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.unicamp.br\/unicamp\/sites\/default\/files\/inline-images\/img_ART_RCM_suica_grafico5_20180201.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"A Figura a seguir mostra a relev\u00e2ncia dos para\u00edsos para as empresas transnacionais sediadas nos Estados Unidos. Cada vez mais, os para\u00edsos se tornam n\u00e3o apenas ref\u00fagio para o dinheiro dos rica\u00e7os, mas centro de opera\u00e7\u00f5es fundamentais para empresas, bancos e fundos de investimento de todo tipo.\" \/><\/p>\n<p>Nos artigos seguintes desta s\u00e9rie discutimos uma literatura que busca enquadrar esses dados em esquemas mais amplos, tentando interpretar o significado dos para\u00edsos na organiza\u00e7\u00e3o do sistema capitalista global.<\/p>\n<p>https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Economia-Politica\/Paraisos-fiscais-2-Bem-mais-do-que-uma-Suica\/7\/39431<\/p>\n<p>Texto 1 &#8211; <a href=\"http:\/\/controversia.com.br\/pt\/7363\/\">clique<\/a><\/p>\n<p>Texto 2 &#8211; <a href=\"http:\/\/controversia.com.br\/pt\/7364\/\">clique<\/a><\/p>\n<p>Texto 3 &#8211; <a href=\"http:\/\/controversia.com.br\/pt\/7380\/\">clique<\/a><\/p>\n<p>Texto 4 &#8211; <a href=\"http:\/\/controversia.com.br\/pt\/7382\/\">clique<\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reginaldo de Moraes &#8211; O nascimento dos modernos para\u00edsos fiscais \u00e9 controverso. 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