{"id":7356,"date":"2018-03-05T09:16:58","date_gmt":"2018-03-05T12:16:58","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=7356"},"modified":"2018-03-04T20:18:59","modified_gmt":"2018-03-04T23:18:59","slug":"a-epidemia-de-jovens-reclusos-em-seus-quartos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/03\/05\/a-epidemia-de-jovens-reclusos-em-seus-quartos\/","title":{"rendered":"A epidemia de jovens reclusos em seus quartos"},"content":{"rendered":"<p><strong>Matteo Zorzoli &#8211;\u00a0<\/strong>O fen\u00f4meno dos \u201chikikomori\u201d, jovens em autorreclus\u00e3o, torna-se uma epidemia no Jap\u00e3o, atinge um milh\u00e3o de pessoas, e avan\u00e7a no Ocidente. Quais suas bases?<\/p>\n<p>Eles est\u00e3o entre os 14 e 25 anos e n\u00e3o estudam nem trabalham. N\u00e3o t\u00eam amigos e passam a maior parte do dia em seus quartos. Dificilmente falam com os pais e parentes. Eles dormem durante o dia e vivem \u00e0 noite para evitar qualquer confronto com o mundo exterior. Eles se refugiam nos meandros da Web e das redes sociais com perfis falsos, \u00fanico contato com a sociedade que abandonaram. S\u00e3o chamados de\u00a0hikikomori, palavra japonesa para \u201cficar de lado\u201d. Na\u00a0Terra do Sol Nascente\u00a0j\u00e1 atingiram a cifra alarmante de um milh\u00e3o de casos, mas \u00e9 equivocado consider\u00e1-lo um fen\u00f4meno limitado apenas \u00e0s fronteiras japonesas.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um mal que assola todas as economias desenvolvidas \u2013 explica\u00a0Marco Crepaldi, fundador do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.hikikomoriitalia.it\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Hikikomori It\u00e1lia<\/a>, a primeira associa\u00e7\u00e3o nacional de informa\u00e7\u00e3o e apoio sobre o tema. \u2013 As expectativas de intera\u00e7\u00e3o social s\u00e3o uma espada de D\u00e2mocles para todas as novas gera\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XXI: h\u00e1 aqueles que conseguem suportar a press\u00e3o da competi\u00e7\u00e3o na escola e no trabalho e aqueles que, em vez disso, largam tudo e decidem se autoexcluir\u201d.<\/p>\n<p>As \u00faltimas estimativas falam de milhares de casos italianos de\u00a0hikikomori, um ex\u00e9rcito de presos que pede ajuda. Um n\u00famero que tende a aumentar se n\u00e3o conseguirmos dar ao fen\u00f4meno uma clara posi\u00e7\u00e3o cl\u00ednica e social.<\/p>\n<p><strong>Um fen\u00f4meno de contornos ainda pouco claros<\/strong><\/p>\n<p>Associa\u00e7\u00f5es como a\u00a0Hikikomori It\u00e1lia\u00a0j\u00e1 h\u00e1 anos est\u00e3o fazendo todo o poss\u00edvel para sensibilizar a opini\u00e3o p\u00fablica sobre um desconforto que \u00e9 muitas vezes confundido com incapacidade e falta de iniciativa das novas gera\u00e7\u00f5es. Um equ\u00edvoco que encontrou terreno f\u00e9rtil no debate pol\u00edtico, legislatura ap\u00f3s legislatura, criando estere\u00f3tipos como \u201cbamboccioni\u201d (adulto com comportamento infantil e mimado, ndt) , um termo cunhado em 2007 pelo ent\u00e3o ministro da Economia,\u00a0Tommaso Padoa-Schioppa, ou \u201cjovens italianos choosy\u201d (exigentes) da ex-ministra do trabalho,\u00a0Elsa Fornero, at\u00e9 chegar ao limite da sigla Neet, (em portugu\u00eas, s\u00e3o os chamados \u201cnem-nem\u201d, ndt) os jovens que n\u00e3o t\u00eam \u201cnem trabalho nem estudo\u201d, que de acordo com uma pesquisa da Universidade Cat\u00f3lica de 2017 seriam cerca de 2 milh\u00f5es em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m do ponto de vista m\u00e9dico, o\u00a0hikikomori\u00a0sofre de uma classifica\u00e7\u00e3o nebulosa. No\u00a0Manual Diagn\u00f3stico e Estat\u00edstico de Transtornos Mentais (DSM), a \u201cB\u00edblia\u201d da psiquiatria, ainda est\u00e1 registrada como s\u00edndrome cultural japonesa: uma imprecis\u00e3o que tende a subestimar a amea\u00e7a do dist\u00farbio no resto do mundo e cria consequ\u00eancias perigosas.<\/p>\n<p>\u201cMuitas vezes \u00e9 confundido com s\u00edndromes depressivas e, nos piores casos o jovem \u00e9 carimbado com o r\u00f3tulo de\u00a0depend\u00eancia em internet\u00a0\u2013 explica\u00a0Crepaldi\u00a0\u2013 Um diagn\u00f3stico desse tipo geralmente leva ao afastamento for\u00e7ado de qualquer dispositivo eletr\u00f4nico, eliminando, dessa forma, a \u00fanica fonte de comunica\u00e7\u00e3o com o mundo exterior para o doente: uma verdadeira condena\u00e7\u00e3o para um garoto\u00a0hikikomori\u201d.<\/p>\n<p><strong>Como algu\u00e9m se torna um hikikomori?<\/strong><\/p>\n<p>O ambiente escolar \u00e9 um lugar vivenciado com sofrimento especial pelos\u00a0hikikomoris, n\u00e3o surpreendentemente a maioria deles se inclina ao isolamento for\u00e7ado durante seus anos finais do ciclo fundamental e durante o ensino m\u00e9dio. \u00c9 neste per\u00edodo que geralmente ocorre o \u2018fator precipitante\u2019, que \u00e9 o evento-chave que inicia o movimento gradual de afastamento dos amigos e familiares. Pode ser um epis\u00f3dio de\u00a0bullying\u00a0ou uma nota ruim na escola, por exemplo.<\/p>\n<p>\u201cUm evento inofensivo aos olhos de outras pessoas, mas contextualizado dentro de um quadro psicol\u00f3gico fr\u00e1gil e vulner\u00e1vel, assume uma import\u00e2ncia muito significativa \u2013 explica\u00a0Crepaldi\u00a0\u2013\u00a0\u00c9 a\u00a0primeira fase do\u00a0hikikomori: o garoto come\u00e7a a faltar dias de aula usando qualquer desculpa, abandona todos as atividades esportivas, inverte o ciclo vig\u00edlia-sono e se dedica a compromissos mon\u00f3tonos solit\u00e1rios como o consumismo desenfreado das s\u00e9ries de TV e videogames\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 importante intervir exatamente nesse primeiro est\u00e1gio do dist\u00farbio quando se manifestam os primeiros sinais de alarme. Nessa fase, os pais e os professores desempenham um papel crucial na preven\u00e7\u00e3o: investigar a fundo as motiva\u00e7\u00f5es \u00edntimas do desconforto e, se necess\u00e1rio, buscar rapidamente o apoio de um profissional externo para evitar a transi\u00e7\u00e3o para uma fase mais cr\u00edtica, quando seria necess\u00e1ria uma interven\u00e7\u00e3o que poderia durar at\u00e9 anos.<\/p>\n<p><strong>It\u00e1lia e Jap\u00e3o: duas faces da mesma moeda<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que a cultura japonesa historicamente tem se caracterizado por uma s\u00e9rie de fatores que aumentam a dimens\u00e3o do fen\u00f4meno, a ponto se ser j\u00e1 poss\u00edvel se falar de duas gera\u00e7\u00f5es de\u00a0hikikomori, a primeira desenvolvida na d\u00e9cada de 1980. O sistema social e escolar extremamente competitivo e o papel da figura paterna muitas vezes ausente por causa de hor\u00e1rios de trabalho extenuantes est\u00e3o na base das expectativas opressivas e muitas vezes n\u00e3o concretizadas. Mesmo considerando as devidas propor\u00e7\u00f5es, mesmo na It\u00e1lia as press\u00f5es sociais s\u00e3o muito fortes. Determinantes desde os primeiros casos de\u00a0hikikomoris\u00a0diagnosticados em 2007, s\u00e3o a diminui\u00e7\u00e3o dos nascimentos com o consequente aumento de filhos \u00fanicos, geralmente submetidos a press\u00f5es maiores, a crise econ\u00f4mica que torna muito distante o ingresso (real) no mercado de trabalho e a explos\u00e3o de cultura da imagem, exacerbada pela dissemina\u00e7\u00e3o capilar das\u00a0redes sociais.<\/p>\n<p>Na\u00a0It\u00e1lia\u00a0a s\u00edndrome n\u00e3o afeta s\u00f3 os homens, como no\u00a0Jap\u00e3o, mas inclui tamb\u00e9m um discreto n\u00famero de\u00a0hikikomori-mulheres, com uma propor\u00e7\u00e3o de 70 para 30. \u201cPor uma quest\u00e3o cultural as fam\u00edlias consideram, no entanto, a reclus\u00e3o da filha como um problema menor \u2013 diz\u00a0Crepaldi\u00a0\u2013 provavelmente porque a veem como uma futura dona de casa ou esperam que um dia se case e saia de casa\u201d.<\/p>\n<p>No contexto italiano, ali\u00e1s, existem diferen\u00e7as entre uma regi\u00e3o e outra: os\u00a0hikikomoris\u00a0do norte da\u00a0It\u00e1lia\u00a0t\u00eam, de fato, caracter\u00edsticas diferentes daqueles do sul. Justamente por isso, o site\u00a0Hikikomori It\u00e1lia\u00a0disponibiliza salas de chat regionais, onde os jovens podem discutir problemas com os seus conterr\u00e2neos que sofrem da mesma s\u00edndrome.<\/p>\n<p>Existe apenas uma regra dentro do chat: quem entra n\u00e3o \u00e9 obrigado a interagir, mas \u00e9 apreciada uma breve apresenta\u00e7\u00e3o. Aqueles que n\u00e3o a respeitam s\u00e3o \u201cbloqueados\u201d. Para aqueles que querem contar a sua hist\u00f3ria tamb\u00e9m tem um\u00a0F\u00f3rum, aberto tantos aos jovens como aos pais: um mundo paralelo, silencioso, impalp\u00e1vel.<\/p>\n<p>Uma tela de pedidos de ajuda e de sofrimento, mas tamb\u00e9m hist\u00f3rias de sucesso. Como a de\u00a0Luca, 25 anos:<\/p>\n<p>\u201cO dia e noite eram id\u00eanticos, eu dormia quando sentia vontade, comia quando queria. Eu perdi todos os meus amigos e a tela era um \u201cStargate\u201d para outro universo. O tempo se dilatava quando eu clicava no teclado e eu nunca queria parar. Quando precisava tomar banho ficava ansioso debaixo do chuveiro para voltar logo a jogar.<\/p>\n<p>Eu passei mais de dois anos jogando Wow [World of Warcraft, um jogo de estrat\u00e9gia, nde] em total isolamento. Eu n\u00e3o conseguia mais nem andar. Tudo isso aconteceu sem que minha m\u00e3e percebesse: trabalhava das 8 \u00e0s 17 e eu fingia que ia \u00e0 escola. Eu j\u00e1 n\u00e3o queria mais ir. Muita press\u00e3o.<\/p>\n<p>O isolamento \u00e9 uma batalha que no final torna-se uma cura. Crescia dentro de mim como uma onda, lentamente, at\u00e9 o momento em que tudo come\u00e7ou a me incomodar, eu detestava tudo o que eu fazia, eu n\u00e3o suportava mais quem eu era.<\/p>\n<p>Hoje eu estou fora, eu moro no exterior e tenho uma linda namorada. Sou ou fui um\u00a0hikikomori? Eu n\u00e3o sei, mas o que eu sei \u00e9 que a for\u00e7a para combater esse dem\u00f4nio est\u00e1 e existe apenas dentro de voc\u00ea, ningu\u00e9m pode ajud\u00e1-lo, na taberna de alguma montanha virtual onde voc\u00ea se perdeu, com a sensa\u00e7\u00e3o de paz que envolve a sua mente. O \u00fanico conselho que acho que posso deixar \u00e9: fujam do computador\u201d.<\/p>\n<p>https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/capa-outras-midias\/a-epidemia-de-jovens-reclusos-em-seus-quartos\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Matteo Zorzoli &#8211;\u00a0O fen\u00f4meno dos \u201chikikomori\u201d, jovens em autorreclus\u00e3o, torna-se uma epidemia no Jap\u00e3o, atinge um milh\u00e3o de pessoas, e avan\u00e7a no Ocidente. Quais suas bases? Eles est\u00e3o entre os 14 e 25 anos e n\u00e3o estudam nem trabalham. N\u00e3o t\u00eam amigos e passam a maior parte do dia em seus quartos. 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