{"id":7340,"date":"2018-03-03T09:04:08","date_gmt":"2018-03-03T12:04:08","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=7340"},"modified":"2018-02-28T12:10:39","modified_gmt":"2018-02-28T15:10:39","slug":"como-o-brasil-caiu-a-serie-b-da-economia-global-e-nunca-mais-voltou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/03\/03\/como-o-brasil-caiu-a-serie-b-da-economia-global-e-nunca-mais-voltou\/","title":{"rendered":"Como o Brasil caiu \u00e0 S\u00e9rie B da economia global e nunca mais voltou"},"content":{"rendered":"<p><strong>Luiz Gonzaga Belluzzo<\/strong>\u00a0\u2014 Breve hist\u00f3ria de como o Pa\u00eds, campe\u00e3o mundial de crescimento na metade do s\u00e9culo XX, se rebaixou<\/p>\n<p>Quem vai prover os anseios dessa massa por emprego e consumo?<\/p>\n<p>O debate brasileiro sobre o desenvolvimento est\u00e1 amesquinhado nos escaninhos das pol\u00edticas econ\u00f4micas de curto prazo.<\/p>\n<p>Sofrem preju\u00edzo as investiga\u00e7\u00f5es que tomam como guia a \u201cdin\u00e2mica das estruturas\u201d, ou seja, as transforma\u00e7\u00f5es financeiras, tecnol\u00f3gicas, patrimoniais e espaciais determinadas pela intera\u00e7\u00e3o entre os movimentos da economia internacional e as estrat\u00e9gias nacionais de\u00a0<a title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/blogs\/blog-do-grri\/o-novo-lugar-da-periferia-no-mundo-globalizado-5485.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cinser\u00e7\u00e3o\u201d das regi\u00f5es perif\u00e9ricas<\/a>.<\/p>\n<p>Um olhar para o passado pode estimular a compreens\u00e3o do presente e, talvez, a imagina\u00e7\u00e3o dos futuros.<\/p>\n<p><strong>O passado futuro<\/strong><\/p>\n<p>No Brasil dos anos 30 do s\u00e9culo passado, o governo de Get\u00falio Vargas reagiu \u00e0 derrocada dos pre\u00e7os do caf\u00e9, causada pela Grande Depress\u00e3o, com pol\u00edticas de defesa da economia nacional: a compra dos estoques excedentes e a morat\u00f3ria para as d\u00edvidas dos cafeicultores, entre outras. Essas medidas e a desorganiza\u00e7\u00e3o do mercado mundial, provocada pela Depress\u00e3o e depois pela Guerra, ensejaram um forte impulso \u00e0\u00a0<a title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/blogs\/brasil-debate\/a-industria-no-diva\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">industrializa\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds<\/a>.<\/p>\n<p>O segundo conflito mundial ampliou as oportunidades de crescimento da ind\u00fastria de bens de consumo n\u00e3o dur\u00e1veis (t\u00eaxteis, cal\u00e7ados, alimentos e bebidas) e de alguns insumos processados, como \u00f3leos e graxas vegetais e ferro-gusa.<\/p>\n<p>Esses setores cresceram rapidamente n\u00e3o s\u00f3 para suprir a demanda dom\u00e9stica, mas tamb\u00e9m para atender \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es. Ainda durante a Guerra, o presidente Vargas negociou com os norte-americanos a\u00a0<a title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/economia\/as-refregas-do-desenvolvimentismo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">constru\u00e7\u00e3o da Sider\u00fargica de Volta Redonda<\/a>. Esse empreendimento, crucial para as etapas subsequentes da industrializa\u00e7\u00e3o, entrou em opera\u00e7\u00e3o em 1946.<\/p>\n<p>Nos pa\u00edses perif\u00e9ricos, predominantemente exportadores de produtos prim\u00e1rios, acentuaram-se os movimentos em prol do desenvolvimento da ind\u00fastria.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.cartacapital.com.br\/revista\/984\/como-o-brasil-caiu-a-serie-da-economia-global-e-nunca-mais-voltou\/Foto2AnsioTeixeira.jpg\/%40%40images\/6ebdb758-335f-485c-8dd1-9a91fac00a67.jpeg?resize=266%2C400&#038;ssl=1\" alt=\"Foto2AnsioTeixeira.jpg\" width=\"266\" height=\"400\" data-src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/revista\/984\/como-o-brasil-caiu-a-serie-da-economia-global-e-nunca-mais-voltou\/Foto2AnsioTeixeira.jpg\/@@images\/6ebdb758-335f-485c-8dd1-9a91fac00a67.jpeg\" \/><\/p>\n<p><em>An\u00edsio Teixeira, trabalho pioneiro em prol da educa\u00e7\u00e3o universal, p\u00fablica e de qualidade<\/em><\/p>\n<p>A industrializa\u00e7\u00e3o era vista como a \u00fanica resposta adequada aos inconvenientes da depend\u00eancia da demanda externa. A renda nacional dependia da exporta\u00e7\u00e3o de produtos sujeitos \u00e0 tend\u00eancia secular de queda de pre\u00e7os e flutua\u00e7\u00f5es c\u00edclicas da demanda.<\/p>\n<p>A economia brasileira havia mudado e evolu\u00eddo entre 1930 e 1945. A velha economia prim\u00e1rio-exportadora deixou uma heran\u00e7a de defici\u00eancias na infraestrutura (energia el\u00e9trica, petr\u00f3leo, transportes, comunica\u00e7\u00f5es), nas desigualdades regionais e na p\u00e9ssima distribui\u00e7\u00e3o de renda.<\/p>\n<p>Eleito em 1950, Vargas lan\u00e7ou no ano seguinte o\u00a0<a title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/especiais\/infraestrutura\/entenda-como-funciona-o-luz-para-todos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plano de Eletrifica\u00e7\u00e3o<\/a>, criou o BNDE em 1952 e a Petrobras em 1953.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o da industrializa\u00e7\u00e3o s\u00f3 poderia ocorrer com a moderniza\u00e7\u00e3o dos setores existentes e a constitui\u00e7\u00e3o dos departamentos industriais que produzem equipamentos, componentes, insumos pesados e bens dur\u00e1veis.<\/p>\n<p>Vargas cometeu suic\u00eddio em agosto de 1954. As elei\u00e7\u00f5es de 1955 transcorreram num ambiente turbulento. As for\u00e7as que o levaram ao suic\u00eddio no ano anterior tentaram impedir a posse de Juscelino Kubitschek, eleito em 1955. O golpe foi frustrado pela rea\u00e7\u00e3o pronta do general Henrique Duffles Teixeira Lott.<\/p>\n<p>JK tomou posse em 1956 e seu mandato foi amea\u00e7ado por novas tentativas de golpes militares. Prometeu avan\u00e7ar 50 anos em 5. Pode-se dizer que cumpriu a promessa. Governou sob a orienta\u00e7\u00e3o do Plano de Metas elaborado a partir de dois estudos: o da Comiss\u00e3o Mista Brasil-Estados Unidos e o da Comiss\u00e3o Mista Cepal-BNDE \u2013 Esbo\u00e7o de um\u00a0<a title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/dialogos-capitais\/o-brasil-precisa-de-um-projeto-de-desenvolvimento-9113.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Programa de Desenvolvimento para a Economia Brasileira<\/a>.<\/p>\n<p>O Plano de Metas contemplava cinco prioridades: energia, transportes, alimenta\u00e7\u00e3o, ind\u00fastrias de base e educa\u00e7\u00e3o. O projeto de democratiza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o estava apoiado nos trabalhos do pioneiro An\u00edsio Teixeira.<\/p>\n<p>O governo acelerou os gastos na infraestrutura. A constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia e a abertura de estradas, como a Bel\u00e9m-Bras\u00edlia, integravam o projeto de interioriza\u00e7\u00e3o do desenvolvimento.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, foram constitu\u00eddos os grupos executivos, coordenados pelo conselho nacional de desenvolvimento, formados por empres\u00e1rios do setor privado e t\u00e9cnicos do BNDE, com o prop\u00f3sito de coordenar os programas de investimento e a divis\u00e3o do trabalho entre o capital estrangeiro e o nacional nas diversas \u00e1reas.<\/p>\n<p>Essa era a tarefa do Grupo Executivo da Ind\u00fastria Automobil\u00edstica (Geia), do Grupo Executivo da Constru\u00e7\u00e3o Naval (Geicon), do Grupo Executivo de Integra\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica de Transportes (Geipot) e do Grupo Executivo da Ind\u00fastria Mec\u00e2nica Pesada (Geimap). Em 1958, foi criada a Sudene, com o prop\u00f3sito de promover o\u00a0<a title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/revista\/980\/os-governos-do-pt-reduziram-ou-nao-a-desigualdade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">desenvolvimento do Nordeste<\/a>.<\/p>\n<p>O Plano de Metas articulou, portanto, as a\u00e7\u00f5es do governo, do setor privado nacional e do capital produtivo internacional, que experimentava uma forte expans\u00e3o. A grande empresa norte-americana movimentava-se dos Estados Unidos para a Europa em reconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"lazyloaded\" title=\"\" src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/revista\/984\/como-o-brasil-caiu-a-serie-da-economia-global-e-nunca-mais-voltou\/Foto3LeiloPrSal.jpg\/image\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" data-src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/revista\/984\/como-o-brasil-caiu-a-serie-da-economia-global-e-nunca-mais-voltou\/Foto3LeiloPrSal.jpg\/image\" \/><\/p>\n<p><em>Leil\u00e3o do pr\u00e9-sal, um retorno \u00e0 pauta dos anos 1990<\/em><\/p>\n<p>As empresas europeias, em maior n\u00famero, e as norte-americanas transladavam suas filiais dessas regi\u00f5es para os pa\u00edses em desenvolvimento dotados de estruturas produtivas mais avan\u00e7adas e que apresentavam taxas de crescimento mais elevadas. O Brasil, entre 1956 e 1960, cresceu, em m\u00e9dia, 7% ao ano e tornou-se a economia mais internacionalizada do ent\u00e3o chamado Terceiro Mundo.Muito ao contr\u00e1rio do que pregam os caipiras-cosmopolitas, aquela malta que circula pelo mundo sem entender nada do que acontece,\u00a0<a title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/revista\/914\/recordacoes-da-casa-dos-mortos-vivos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o projeto juscelinista<\/a>\u00a0integrou a economia brasileira ao vigoroso movimento de internacionaliza\u00e7\u00e3o do capitalismo do p\u00f3s-Guerra.<\/p>\n<p>Ao longo do per\u00edodo 1930-1980, o Estado brasileiro constituiu formas superiores de organiza\u00e7\u00e3o capitalista, consubstanciadas em um sistema financeiro p\u00fablico e na coordena\u00e7\u00e3o entre empresas estatais, privadas nacionais e estrangeiras.<\/p>\n<p>O setor produtivo estatal, em um pa\u00eds perif\u00e9rico e de industrializa\u00e7\u00e3o tardia, funcionava como um provedor de externalidades positivas para o setor privado: (1) O investimento p\u00fablico era o componente \u201caut\u00f4nomo\u201d da demanda efetiva (sobretudo nas \u00e1reas de energia e transportes) e corria \u00e0 frente da demanda corrente; (2) as empresas do governo ofereciam insumos generalizados (energia, a\u00e7o, n\u00e3o ferrosos) em condi\u00e7\u00f5es e pre\u00e7os adequados; e (3) come\u00e7avam a se constituir, ainda de forma incipiente, em centros de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>O futuro passado<\/strong><\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 1990, os pa\u00edses vitimados pela crise da d\u00edvida externa da d\u00e9cada anterior foram submetidos aos aconselhamentos do\u00a0<a title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/economia\/cercados-pelo-capital\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Consenso de Washington<\/a>.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"lazyloaded\" title=\"\" src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/revista\/984\/como-o-brasil-caiu-a-serie-da-economia-global-e-nunca-mais-voltou\/Foto4HenriqueMeirelles.jpg\/image\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" data-src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/revista\/984\/como-o-brasil-caiu-a-serie-da-economia-global-e-nunca-mais-voltou\/Foto4HenriqueMeirelles.jpg\/image\" \/><\/p>\n<p><em>Meirelles, \u201caberturista\u201d da velha cepa, no comando do austeric\u00eddio nativo<\/em><\/p>\n<p>As palavras de ordem do \u201cnovo consenso\u201d eram abertura comercial, liberaliza\u00e7\u00e3o das contas de capital, desregulamenta\u00e7\u00e3o e \u201cdescompress\u00e3o\u201d dos sistemas financeiros dom\u00e9sticos, com a liberaliza\u00e7\u00e3o das taxas de juro, reforma do Estado, inclu\u00edda a privatiza\u00e7\u00e3o de empresas p\u00fablicas e da seguridade social, abandono das pol\u00edticas \u201cintervencionistas\u201d de fomento \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es, \u00e0 ind\u00fastria e \u00e0 agricultura.As pol\u00edticas industriais e de fomento coordenadas pelo Estado foram lan\u00e7adas no rol dos pecados sem remiss\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 surpreendente que as\u00a0<a title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/revista\/976\/liberalismo-a-brasileira\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">interpreta\u00e7\u00f5es liberais<\/a>\u00a0invertam as rela\u00e7\u00f5es de determina\u00e7\u00e3o entre a derrocada fiscal dos anos 1980 e a crise do balan\u00e7o de pagamentos. Foi o colapso do endividamento externo \u201cneoliberal\u201d dos anos 70 que desatou a desordem fiscal e monet\u00e1ria dos anos 80, a d\u00e9cada perdida.<\/p>\n<p>O financiamento em moeda estrangeira dos projetos listados no II PND engendrou a fragiliza\u00e7\u00e3o financeira das empresas p\u00fablicas e privadas. Constrangidas pelas ilus\u00f5es do dinheiro estrangeiro f\u00e1cil e barato, as empresas estatais enfiaram-se no descasamento de moedas.<\/p>\n<p>Mais do que as privadas, foram abalroadas pelo choque de juros desatado em Washington em 1979. O in\u00edcio dos anos 80 foi marcado por uma abrangente socializa\u00e7\u00e3o dos preju\u00edzos mediante a estatiza\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas, as maxidesvaloriza\u00e7\u00f5es cambiais, a acelera\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o acompanhada do \u201caperfei\u00e7oamento\u201d da indexa\u00e7\u00e3o financeira, matriz da deforma\u00e7\u00e3o da riqueza privada, concentrada na d\u00edvida p\u00fablica e protegida pelas taxas de juro p\u00f3s-fixadas.<\/p>\n<p>A desorganiza\u00e7\u00e3o financeira e fiscal que se seguiu \u00e0 crise da d\u00edvida externa forneceu combust\u00edvel para alastrar as chamas da purifica\u00e7\u00e3o mercadista. Ainda hoje, os economistas do consenso liberal-conservador apontam o \u201cestatismo\u201d do II PND como respons\u00e1vel pela\u00a0<a title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/revista\/954\/a-crise-global-e-a-crise-brasileira-estao-encadeadas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">crise da d\u00edvida externa<\/a>. Calam-se e tratam de esconder os erros crassos cometidos em nome da abertura financeira e de seus \u201cmercados eficientes\u201d.<\/p>\n<p>O opus magnum das concep\u00e7\u00f5es que se lambuzam na cr\u00edtica do desenvolvimentismo foi o \u201cdesmanche\u201d da estrutura produtiva criada ao longo das cinco d\u00e9cadas inauguradas nos anos 30 do s\u00e9culo XX. Depois de liderar, at\u00e9 meados dos anos 70, a \u201cpersegui\u00e7\u00e3o\u201d industrial entre os pa\u00edses ditos perif\u00e9ricos, com forte atra\u00e7\u00e3o de investimento direto na manufatura, o Brasil caiu para a S\u00e9rie B do torneio global das economias \u201cemergentes\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"lazyloaded\" title=\"\" src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/revista\/984\/como-o-brasil-caiu-a-serie-da-economia-global-e-nunca-mais-voltou\/Foto5China.jpg\/image\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" data-src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/revista\/984\/como-o-brasil-caiu-a-serie-da-economia-global-e-nunca-mais-voltou\/Foto5China.jpg\/image\" \/><\/p>\n<p><em>China rasgou o manual do Consenso de Washington e fez as coisas a seu modo<\/em><\/p>\n<p>A\u00a0<a title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/economia\/20-anos-depois-quem-sao-os-donos-do-plano-real-407.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">vit\u00f3ria do Plano Real<\/a>\u00a0sobre a hiperinfla\u00e7\u00e3o n\u00e3o impediu que a execu\u00e7\u00e3o do plano cobrasse uma conta salgada. Insufladas pelo primitivismo das \u201caberturas\u201d comercial e financeira dos anos 90, a taxa Selic real m\u00e9dia de 24% ao ano e a valoriza\u00e7\u00e3o cambial ministraram extrema-un\u00e7\u00e3o \u00e0 ind\u00fastria brasileira. A infeliz agoniza.O Brasil dos Meirelles &amp; Cia. engana a torcida com as reformas da Ponte para o Passado e com a \u201cabertura da economia\u201d, apontadas como crit\u00e9rios de classifica\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds para disputar a S\u00e9rie A do torneio global.<\/p>\n<p>Os \u201caberturistas da velha matriz\u201d expulsam o investimento nacional e estrangeiro da manufatura e lan\u00e7am os Canarinhos na Segunda Divis\u00e3o. Conseguem duas proezas: o ajuste que desajusta e a integra\u00e7\u00e3o que desintegra.<\/p>\n<p><strong>O futuro do presente<\/strong><\/p>\n<p>Em<strong>\u00a0<\/strong>seu livro sobre o desenvolvimento recente dos pa\u00edses asi\u00e1ticos, o professor da Escola Americana de Paris Philip S. Golub avalia as diferen\u00e7as entre os pa\u00edses \u201cemergentes\u201d na era da globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cGra\u00e7as a um\u00a0<a title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/blogs\/brasil-debate\/projeto-de-pais-social-desenvolvimentista-2013-parte-i\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Estado desenvolvimentista<\/a>\u00a0forte, a China realiza seu projeto mais do que centen\u00e1rio de moderniza\u00e7\u00e3o. Diferentemente dos pa\u00edses mais vulner\u00e1veis que aprisionaram os poderes p\u00fablicos na fun\u00e7\u00e3o de agentes do ajustamento da economia nacional \u00e0s exig\u00eancias da economia mundial, o Estado chin\u00eas soube garantir sua autonomia \u2013 entre altos e baixos, administrando as consequ\u00eancias sociais e ambientais do crescimento.\u201d<\/p>\n<p>A desdita dos fracassados foi agravada pela escalada chinesa e seu projeto nacional de integra\u00e7\u00e3o \u00e0 economia global.<\/p>\n<p>A\u00a0<a title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/revista\/906\/a-china-vai-as-compras\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">integra\u00e7\u00e3o chinesa \u00e0 economia mundial<\/a>\u00a0em transforma\u00e7\u00e3o, o sinoaberturismo, desrespeitou os c\u00e2nones das novas e rid\u00edculas teorias macroecon\u00f4micas ensinadas nas universidades norte-americanas e transportadas para o Brasil pelos vira-latas que hoje infestam os mercados financeiros e a academia.<\/p>\n<p>Apoiados no investimento direto estrangeiro, em suas empresas estatais, em seus bancos idem e no c\u00e2mbio administrado (argh!), os chineses sustentam taxas elevadas de investimento. Em tr\u00eas d\u00e9cadas, alcan\u00e7aram o almejado adensamento das cadeias produtivas, tamb\u00e9m articuladas no espa\u00e7o interasi\u00e1tico. O feito resultou na redistribui\u00e7\u00e3o do valor agregado manufatureiro global para o colo do Imp\u00e9rio do Meio e de seus vizinhos.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia chinesa combina o\u00a0<a title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/blogs\/vanguardas-do-conhecimento\/precisamos-falar-ainda-de-estado-e-mercado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">m\u00e1ximo de competi\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0(a utiliza\u00e7\u00e3o do mercado como instrumento de desenvolvimento) e o m\u00e1ximo de controle. Entenderam perfeitamente que as pol\u00edticas liberais recomendadas pelo Consenso de Washington n\u00e3o deveriam ser \u201ccopiadas\u201d pelos pa\u00edses emergentes.<\/p>\n<p>Assim, no mesmo compasso em que abriam a economia para o investimento estrangeiro, os chineses dedicaram-se a manter sob controle o sistema de cr\u00e9dito, modernizaram e fortaleceram as empresas estatais e sustentaram a pol\u00edtica de subvalorizar\u00e3o do c\u00e2mbio. Os bancos p\u00fablicos foram incumbidos de dirigir e facilitar o\u00a0<a title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/revista\/957\/investimento-das-empresas-publicas-e-privadas-e-indispensavel-para-o-crescimento\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">investimento produtivo e em infraestrutura<\/a>.<\/p>\n<p>https:\/\/www.cartacapital.com.br\/revista\/984\/como-o-brasil-caiu-a-serie-da-economia-global-e-nunca-mais-voltou<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Gonzaga Belluzzo\u00a0\u2014 Breve hist\u00f3ria de como o Pa\u00eds, campe\u00e3o mundial de crescimento na metade do s\u00e9culo XX, se rebaixou Quem vai prover os anseios dessa massa por emprego e consumo? O debate brasileiro sobre o desenvolvimento est\u00e1 amesquinhado nos escaninhos das pol\u00edticas econ\u00f4micas de curto prazo. 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