{"id":7175,"date":"2018-02-20T09:04:34","date_gmt":"2018-02-20T12:04:34","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=7175"},"modified":"2018-02-19T16:11:41","modified_gmt":"2018-02-19T19:11:41","slug":"o-poder-do-financismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/02\/20\/o-poder-do-financismo\/","title":{"rendered":"O poder do financismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Paulo Kliass<\/strong> &#8211; O mito da for\u00e7a do mercado imp\u00f5e ao conjunto da sociedade os sacrif\u00edcios coletivos para que sejam drenados, de forma segura e cont\u00ednua, a essa \u00ednfima parcela os recursos extra\u00eddos de todos os demais setores.<\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\">O per\u00edodo entre as festas do final do ano e a folia do Carnaval \u00e9 normalmente marcado pela divulga\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es que deveriam deixar envergonhados todos os que se preocupam com um m\u00ednimo de dec\u00eancia e justi\u00e7a em termos da organiza\u00e7\u00e3o de nossa sociedade. Em especial, me refiro \u00e0 forma como s\u00e3o apropriadas e distribu\u00eddas as diferentes formas de renda e riqueza entre nossos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\">Durante os meses de janeiro e fevereiro as institui\u00e7\u00f5es financeiras apuram seus balan\u00e7os patrimoniais e contabilizam os lucros realizados ao longo do ano anterior. Um dos aspectos que mais impressiona nessa maratona de publica\u00e7\u00e3o de seus resultados \u00e9 a aparente naturalidade com que esses n\u00fameros s\u00e3o tratados por aqueles que s\u00e3o os respons\u00e1veis pelas editorias de economia dos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m por parte da maioria de nossos dirigentes pol\u00edticos.<\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\">Nesses tempos de endeusamento da meritocracia e de loas incomensur\u00e1veis lan\u00e7adas \u00e0s virtudes dos empres\u00e1rios eficientes em suas \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o, tudo isso parece t\u00e3o normal. Afinal, se ganharam mesmo tanto dinheiro assim s\u00f3 pode ser pelo simples fato de que s\u00e3o bons e competentes naquilo que fazem como operadores sua \u00e1rea de neg\u00f3cios. A realidade dos lucros bilion\u00e1rios dos bancos tornou-se uma esp\u00e9cie de tradi\u00e7\u00e3o intoc\u00e1vel em nossa sociedade, cada vez mais t\u00e3o marcada pelo abismo verificado entre as duas centenas de milh\u00f5es dos que quase nada possuem e o punhado de trilhard\u00e1rios que adoram ostentar suas fortunas. Estes \u00faltimos parecem adorar a acirrada disputa da presen\u00e7a em listas de bilion\u00e1rios, t\u00e3o cuidadosamente elaborada por revistas especializadas, como as mais conhecidas Forbes e Fortune.<\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\">Assim, em 2017 a duplinha din\u00e2mica dos l\u00edderes do capital privado em nosso sistema financeiro mantiveram sua dianteira. Enquanto Banco do Brasil e Caixa Econ\u00f4mica Federal eram orientados a atrasarem suas respectivas divulga\u00e7\u00f5es, os donos de Ita\u00fa e Bradesco exibem orgulhosos as suas fa\u00e7anhas. O primeiro \u00e9 o banco do presidente do Banco Central e ofereceu um novo recorde, ao registrar um lucro l\u00edquido de R$ 25 bilh\u00f5es. O segundo \u00e9 o banco do candidato de Lula a presidente do Banco Central em 2015 e apresentou ligeira queda em seu lucro, obtendo apenas R$ 15 bi ao longo do ano passado.<\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\"><b>Brasil: para\u00edso dos bancos<\/b><\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\">A terceira posi\u00e7\u00e3o dentre os bancos privados operando por nossas terras ultimamente tem sido ocupada pelo conglomerado financeiro espanhol Santander. Em 2017 o lucro obtido pela filial tupiniquim foi de R$ 10 bi. Esse resultado representou um salto de 36% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. Tal performance assegurou a lucratividade do grupo em sua escala de atividade global. Os rendimentos auferidos pelo banco apenas no Brasil representaram 26% do total dos ganhos do grupo espanhol em todo o mundo. Recordemos que se trata do s\u00e9timo maior banco do planeta.<\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\">A soma dos lucros dos 3 maiores bancos privados em nosso mercado financeiro no ano passado alcan\u00e7ou a cifra de R$ 50 bi. Sabe-se de todo o esfor\u00e7o realizado pelas \u00e1reas jur\u00eddicas e de planejamento tribut\u00e1rio das institui\u00e7\u00f5es para escapar do pagamento de impostos. Assim, os ganhos reais foram muito maiores do que esses aqui contabilmente revelados e declarados. Isso sem contar a generosidade absurda oferecida pela legisla\u00e7\u00e3o criada por FHC &#8211; e mantida desde ent\u00e3o pelos sucessivos governos de Lula, Dilma e Temer &#8211; que isenta de tributa\u00e7\u00e3o o recebimento privado de lucros e dividendos. Uma loucura!<\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\">O Brasil est\u00e1 mergulhado h\u00e1 mais de 2 anos em uma profunda recess\u00e3o econ\u00f4mica. O PIB encolheu mais de 8% desde 2015, como consequ\u00eancia direta do aprofundamento da estrat\u00e9gia do austeric\u00eddio. O desemprego chegou a atingir 14 milh\u00f5es de trabalhadores e a quebradeira das empresas foi generalizada ao longo desse per\u00edodo. Apesar de todo esse clima de cat\u00e1strofe social e econ\u00f4mica, o \u00fanico setor que n\u00e3o foi sequer atingido pela crise foi justamente a banca. As institui\u00e7\u00f5es financeiras continuaram faturando muito alto e apresentaram seguidamente resultados ostentando lucros vergonhosamente bilion\u00e1rios.<\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\">O poder do financismo ultrapassa os limites da \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es financeiras. O mito da for\u00e7a do mercado &#8211; t\u00e3o amedrontador aos olhos dos analistas e especialistas forjados no interior do pr\u00f3prio sistema &#8211; imp\u00f5e ao conjunto da sociedade os sacrif\u00edcios coletivos para que sejam drenados, de forma segura e cont\u00ednua, a essa \u00ednfima parcela os recursos extra\u00eddos de todos os demais setores.<\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\"><b>A cumplicidade do Banco Central<\/b><\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\">As fontes desses ganhos inexplic\u00e1veis e inaceit\u00e1veis s\u00e3o multivariadas. A sinecura proporcionada pela perman\u00eancia das nossas taxas oficiais de juros em n\u00edveis de campe\u00e3 do mundo \u00e9 uma delas, com toda a certeza. Os bancos t\u00eam rentabilidade muito elevada sem fazer absolutamente nada: basta emprestar ao governo com ganhos balizados pela SELIC. A pr\u00e1tica antiga e conhecida da sonega\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria no interior do sistema das finan\u00e7as refor\u00e7a o poder das empresas e retira recursos do conjunto da sociedade. As tarifas cobradas pelos chamados \u201cservi\u00e7os\u201d banc\u00e1rios no interior de nossas fronteiras tamb\u00e9m figuram dentre as mais elevadas do planeta. Al\u00e9m desses fatores, ganha participa\u00e7\u00e3o especial os ganhos proporcionados pelos impressionantes n\u00edveis de \u201cspread\u201d praticados pelos bancos.<\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\">A farsa da coloca\u00e7\u00e3o de dirigentes de bancos privados no comando do Banco Central cai como sopa no mel em tal quadro incestuoso. Ao brandir pela \u201cindepend\u00eancia\u201d do BC para que este opere em termos supostamente \u201ct\u00e9cnicos\u201d, os defensores dos interesses do financismo buscam legitimar a pr\u00e1tica daquilo que a sabedoria popular chama de \u201ccolocar a raposa para tomar conta do galinheiro\u201d. Afinal, nada mais \u201cpol\u00edtico\u201d do que deixar a institui\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel pela regulamenta\u00e7\u00e3o e fiscaliza\u00e7\u00e3o do sistema financeiro nas m\u00e3os dos pr\u00f3prios banqueiros.<\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\">Ora, como encontrar outra resposta para a aus\u00eancia de a\u00e7\u00e3o do BC no controle do crime de abuso econ\u00f4mico praticado h\u00e1 d\u00e9cadas pelos bancos? A pr\u00e1tica articulada das empresas em regime de oligop\u00f3lio \u00e9 por demais conhecida para que se tente outra forma que n\u00e3o a interven\u00e7\u00e3o pesada do \u00f3rg\u00e3o regulador na defesa dos interesses das partes mais fr\u00e1geis na rela\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica determinada. Fiquemos apenas com o exemplo mais escandaloso do \u201cspread\u201d praticado nas opera\u00e7\u00f5es realizadas com cart\u00f5es de cr\u00e9dito.<\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\"><b>Lucros dos bancos s\u00f3 crescem<\/b><\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\">O BC acaba de divulgar seu mais\u00a0<b><a href=\"https:\/\/www3.bcb.gov.br\/sgspub\/consultarvalores\/consultarValoresSeries.do?method=consultarValores\">recente relat\u00f3rio com tais informa\u00e7\u00f5es<\/a><\/b>. Em dezembro de 2017, a m\u00e9dia da taxa cobrada pelos bancos nessas opera\u00e7\u00f5es era 335% ao ano. Recordemos apenas que naquele momento a SELIC estava na faixa de 7% ao ano. Quem se dedicar a calcular o diferencial de ganho nessa opera\u00e7\u00e3o chegar\u00e1 ao inacredit\u00e1vel percentual de 4.685%. \u00c9 por isso que a posi\u00e7\u00e3o de chefe de tesouraria de institui\u00e7\u00f5es financeiras no Brasil \u00e9 t\u00e3o cobi\u00e7ado. Em nenhuma outra pra\u00e7a do mundo uma singela opera\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito oferece tamanha rentabilidade sem praticamente nenhum risco envolvido.<\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\">Mas Paulo, poder\u00e3o arguir alguns leitores, o fato \u00e9 que a taxa SELIC baixou no per\u00edodo mais recente e isso deve ter impactado os custos das opera\u00e7\u00f5es. Pois peguemos os valores observados nos finais de ano anteriores:<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"larguraBox\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cartamaior.com\/cmimagens\/screenshot-docs.google.com-2018.02.15-12-19-55.png?resize=640%2C192\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"192\" \/><\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\">Como se pode perceber, os ganhos dos bancos nas opera\u00e7\u00f5es s\u00f3 fizeram crescer nesse per\u00edodo mais recente, como vinha ocorrendo desde sempre. Esteja a SELIC em alta ou em baixa, esteja a infla\u00e7\u00e3o mais ou menos controlada, os interesses dos bancos n\u00e3o s\u00e3o afetados. Muito pelo contr\u00e1rio! A complac\u00eancia e a cumplicidade do BC s\u00f3 contribuem para essa verdadeira sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia do conjunto da sociedade frente ao poder exacerbado do sistema financeiro.<\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\">A proximidade do pleito de outubro e a oportunidade gerada pelo debate de alternativas eleitorais n\u00e3o podem deixar de lado a quest\u00e3o da domin\u00e2ncia do financismo. \u00c9 necess\u00e1rio uma ampla discuss\u00e3o nacional a essa respeito. \u00c9 urgente que superemos nossa condi\u00e7\u00e3o de uma sociedade que permite se deixar escrava dos desejos do parasitismo rentista por tanto tempo. Um modelo social e econ\u00f4mico menos desigual pressup\u00f5e maior capacidade de controle e regula\u00e7\u00e3o do Estado perante esse perigoso poder. Por outro lado, as empresas do mundo das finan\u00e7as deveriam contribuir com maior capacidade de arrecada\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria para um Brasil mais justo e desenvolvido.<\/p>\n<p>https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Economia-Politica\/O-poder-do-financismo\/7\/39378<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Kliass &#8211; O mito da for\u00e7a do mercado imp\u00f5e ao conjunto da sociedade os sacrif\u00edcios coletivos para que sejam drenados, de forma segura e cont\u00ednua, a essa \u00ednfima parcela os recursos extra\u00eddos de todos os demais setores. 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