{"id":713,"date":"2016-06-15T19:41:04","date_gmt":"2016-06-15T22:41:04","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=713"},"modified":"2016-06-14T22:10:01","modified_gmt":"2016-06-15T01:10:01","slug":"resgatando-o-potencial-financeiro-do-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/06\/15\/resgatando-o-potencial-financeiro-do-pais\/","title":{"rendered":"Resgatando o potencial financeiro do pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ladislau Dowbor<\/strong> &#8211;\u00a0A financeiriza\u00e7\u00e3o est\u00e1 no centro dos debates econ\u00f4micos, porque aprofunda a desigualdade e sobretudo porque trava o desenvolvimento. Este \u00faltimo aspecto \u00e9 alvo de numerosos estudos internacionais, e aqui abordamos o mecanismo como se manifesta no Brasil. Basicamente, os credi\u00e1rios, cart\u00f5es de cr\u00e9dito e juros banc\u00e1rios para pessoa f\u00edsica travam a demanda, pois tipicamente o comprador paga o dobro do valor do produto, endivida-se muito comprando pouco, o que esteriliza o impacto de dinamiza\u00e7\u00e3o da economia pela demanda. Os juros elevados para pessoa jur\u00eddica travam por sua vez o investimento, isto que o empres\u00e1rio efetivamente produtivo j\u00e1 enfrenta a fragilidade da demanda. E a taxa Selic elevada, ao provocar a transfer\u00eancia de centenas de bilh\u00f5es dos nosso impostos para os bancos e outros aplicadores financeiros, trava a capacidade do Estado expandir pol\u00edticas sociais e infraestruturas. Esta din\u00e2mica no contexto de uma carga tribut\u00e1ria que onera desproporcionalmente o consumo popular, e de um sistema de evas\u00e3o dos impostos atrav\u00e9s em particular dos para\u00edsos fiscais, gera um dreno insustent\u00e1vel de recursos que explica que tenhamos uma alta taxa de emprego e um PIB que estagna. As recomenda\u00e7\u00f5es v\u00e3o no sentido de uma reforma financeira no sentido mais amplo.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cN\u00e3o havia como escapar a essa dura realidade: o sistema econ\u00f4mico s\u00f3 funcionava de forma regular quando a remunera\u00e7\u00e3o do capital atingia determinados n\u00edveis. Essa constata\u00e7\u00e3o nos permite entender outro ponto intrigante da din\u00e2mica da economia brasileira: suas extravagantes taxas de juros.\u201d<br \/>\n<strong>Celso Furtado<\/strong><\/p>\n<p>\u201cOs bancos deveriam voltar a fazer o que faziam quando foram criados: oferecer um\u00a0local seguro para as poupan\u00e7as e capital a neg\u00f3cios que pretendem se desenvolver\u201d<br \/>\n<strong>J.C. Polychroniu<\/strong><\/p>\n<p>\u201cMiss\u00e3o: Assegurar a estabilidade do poder de compra da moeda\u00a0\u00a0e um sistema financeiro s\u00f3lido e eficiente.\u201d<br \/>\n<strong>Banco Central do Brasil<\/strong><\/p>\n<p>\u201cCr\u00e9dito \u00e9 igual a veneno de cobra: dependendo da dose pode curar ou matar\u201d<br \/>\n<strong>Cartilha Sebrae<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o: vis\u00e3o de conjunto<\/strong><\/p>\n<p>Um debate fundamental pede passagem: a esteriliza\u00e7\u00e3o dos recursos do pa\u00eds atrav\u00e9s do sistema de intermedia\u00e7\u00e3o financeira, que drena em volumes impressionantes recursos que deveriam servir ao fomento produtivo e ao desenvolvimento econ\u00f4mico. Os n\u00fameros s\u00e3o bastante claros, e conhecidos, e basta junt\u00e1-los para entender o impacto.<\/p>\n<p>A conta \u00e9 simples. O cr\u00e9dito no pa\u00eds representa cerca de 60% do PIB. Sobre este estoque incidem juros, apropriados por intermedi\u00e1rios financeiros. Analisar esta massa de recursos, na sua origem e destino, \u00e9 por tanto fundamental. \u00c9 bom lembrar que o banco \u00e9 uma atividade \u201cmeio\u201d, a sua produtividade depende de quanto repassa para o ciclo econ\u00f4mico real, n\u00e3o de quanto dele retira sob forma de lucro e aplica\u00e7\u00f5es financeiras. Em geral as pesquisas n\u00e3o cruzam os credi\u00e1rios comerciais e os custos do cart\u00e3o de cr\u00e9dito com as diversas atividades banc\u00e1rias formais e os ganhos sobre a d\u00edvida p\u00fablica, e muito menos ainda com os fluxos de evas\u00e3o para fora do pa\u00eds: ou seja, n\u00e3o se estuda o fluxo financeiro integrado. Aqui simplesmente foram juntadas as pe\u00e7as, conhecidas, pare evidenciar a engrenagem completa. O principal entrave ao desenvolvimento do pa\u00eds aparece com for\u00e7a. O reajuste financeiro \u00e9 vital, n\u00e3o o reajuste fiscal proposto, compreens\u00edvel este \u00faltimo mais por raz\u00f5es de equil\u00edbrios pol\u00edticos do que por raz\u00f5es econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>Alguns exemplos para entender a din\u00e2mica, antes de entrar no detalhe. O credi\u00e1rio cobra por exemplo 104% para \u201cartigos do lar\u201d comprados a prazo. Acrescente-se os 238% do rotativo no cart\u00e3o, os mais de 200% no cheque especial, e temos neste caso grande parte da capacidade de compra dos novos consumidores drenada para intermedi\u00e1rios financeiros, esterilizando a dinamiza\u00e7\u00e3o da economia pelo lado da demanda. O juro banc\u00e1rio para pessoa f\u00edsica, em que pese o cr\u00e9dito consignado, que na faixa de 25 a 30% ainda \u00e9 escorchante, mas utilizado em menos de um ter\u00e7o dos cr\u00e9ditos, \u00e9 da ordem de 103% segundo a ANEFAC. A popula\u00e7\u00e3o se endivida muito para comprar pouco no volume final. A presta\u00e7\u00e3o que cabe no bolso pesa no bolso durante muito tempo. O efeito demanda \u00e9 travado. A parte da renda familiar que vai para o pagamento das d\u00edvidas passou de 19,3% em 2005 para 46,5% em 2015: ningu\u00e9m entra em novas compras com este dreno. Os bancos e outros intermedi\u00e1rios financeiros demoraram pouco para aprender a drenar o aumento da capacidade de compra do andar de baixo da economia, esterilizando em grande parte o processo redistributivo e a din\u00e2mica de crescimento.<\/p>\n<p>Efeito semelhante \u00e9 encontrado no lado do investimento, da expans\u00e3o da m\u00e1quina produtiva, pois se no ciclo de reprodu\u00e7\u00e3o o grosso do lucro vai para intermedi\u00e1rios financeiros, a capacidade do produtor expandir a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 pequena, acumulando-se os efeitos do travamento da demanda e da fragiliza\u00e7\u00e3o da capacidade de reinvestimento.\u00a0 Quanto ao financiamento banc\u00e1rio, os juros para pessoa jur\u00eddica s\u00e3o proibitivos, da ordem de 40 a 50% , e criar uma empresa nestas condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel. Existem linhas de cr\u00e9dito oficiais, mas compensam em parte apenas a apropria\u00e7\u00e3o dos resultados pelos intermedi\u00e1rios financeiros.<\/p>\n<p>Terceiro item da engrenagem, a taxa Selic. Com um PIB de 5,5 trilh\u00f5es, um por cento do PIB representa 55 bi. Se o gasto com a d\u00edvida p\u00fablica atinge 5% do PIB, s\u00e3o mais de\u00a0 250 bi dos nossos impostos transferidos essencialmente para os grupos financeiros, a cada ano. Com isso se esteriliza parte muito significativa da capacidade do governo de financiar mais infraestruturas e pol\u00edticas sociais. Al\u00e9m disso, a Selic elevada desestimula o investimento produtivo nas empresas pois \u00e9 mais f\u00e1cil \u2013 risco zero, liquidez total \u2013 ganhar com t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica. E para os bancos e outros intermedi\u00e1rios, \u00e9 mais simples ganhar com a d\u00edvida do que fomentar a economia buscando bons projetos produtivos, o que exige identificar clientes e projetos produtivos, analisar e seguir as linhas de cr\u00e9dito, ou seja, fazer a li\u00e7\u00e3o de casa. Os fortes lucros gerados na intermedia\u00e7\u00e3o financeira terminam contaminando o conjunto dos agentes econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>Assim entende-se que os lucros declarados dos intermedi\u00e1rios financeiros avancem tanto (aumentos da ordem de 25% a 30% entre 2013 e 2014) quando o PIB permanece em torno de 1%. E fica mais claro porque o PB pode estar estagnado enquanto o desemprego \u00e9 um dos menores da nossa hist\u00f3ria: o pa\u00eds trabalha, mas os resultados s\u00e3o drenados pelos credi\u00e1rios, pelos juros banc\u00e1rios para pessoa f\u00edsica, pelos juros para pessoa jur\u00eddica e pela alta taxa Selic. Al\u00e9m naturalmente dos drenos para o exterior. \u00c9 a dimens\u00e3o brasileira da financeiriza\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>Fechando a ciranda, temos a evas\u00e3o fiscal. Com a crise mundial surgem os dados dos para\u00edsos fiscais, na faixa de 20 trilh\u00f5es de d\u00f3lares segundo o Economist, para um PIB mundial de 70 trilh\u00f5es. O Brasil participa com um estoque da ordem de 520 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, cerca de 28% do nosso PIB. Ou seja, estes recursos que deveriam ser reinvestidos no fomento da economia, n\u00e3o s\u00f3 s\u00e3o desviados para a especula\u00e7\u00e3o financeira, como sequer pagam os impostos no n\u00edvel devido. J\u00e1 sa\u00edram, por exemplo, os dados do Ita\u00fa e do Bradesco no Luxemburgo, bem como do <em>mispricing <\/em>(fraude nas notas fiscais) que nos custa 100 bi\/ano, enviados ilegalmente para o exterior, segundo pesquisa do Global Financial Integrity, al\u00e9m dos fluxos canalizados pelos HSBC e outros bancos.<\/p>\n<p>Junte-se a isto o fato dos nossos impostos serem centrados nos tributos indiretos, com os pobres pagando proporcionalmente mais tributos do que os ricos, e temos o tamanho do desajuste. De certa forma, temos aqui o espelho do que o Piketty analisa para os pa\u00edses desenvolvidos. O artigo completo abaixo constitui uma sistematiza\u00e7\u00e3o do mecanismo, apresentado de uma forma que qualquer n\u00e3o economista possa entender. E se trata do bolso de todos n\u00f3s. As contas batem. Os dados s\u00e3o conhecidos, aqui se mostra como se articulam.<\/p>\n<p>O texto que segue, mais do que uma opini\u00e3o, constitui um relat\u00f3rio sobre como a engrenagem foi montada, e como pode ser redirecionada. Uma ferramenta que espero seja \u00fatil para nos direcionarmos, pois precisamos de muito mais gente que se d\u00ea conta de como funciona o nosso principal entrave. N\u00e3o h\u00e1 PIB que possa avan\u00e7ar com tantos recursos desviados.<\/p>\n<p>A compreens\u00e3o desta estranha crise, que claramente n\u00e3o \u00e9 para todos, j\u00e1 est\u00e1 entrando na m\u00eddia, como vemos nesta nota de Ruth Costas, da BBC: \u201cO Ita\u00fa teve ainda um aumento de seu lucro de 30,2% em 2014 \u2013 registrando o maior lucro da hist\u00f3ria dos bancos brasileiros de capital aberto segundo a Econom\u00e1tica (R$ 20,6 bilh\u00f5es). O lucro do Bradesco tamb\u00e9m se expandiu bastante \u2013 25,6%. E isso em um momento em que consultorias econ\u00f4micas estimam um crescimento pr\u00f3ximo de zero para o PIB de 2014. Diante desses n\u00fameros, n\u00e3o \u00e9 de se estranhar que dos 54 bilion\u00e1rios brasileiros citados no \u00faltimo levantamento da revista\u00a0Forbes, 13 estejam ligados ao setor banc\u00e1rio.\u201d (Costas, 2015)<\/p>\n<p>O problema portanto n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de um \u201cajuste fiscal\u201d,\u00a0 e sim de um ajuste fiscal-financeiro mais amplo. Tanto o consumidor, como o empres\u00e1rio-produtor e o Estado na sua qualidade de provedor de infraestruturas e de pol\u00edticas sociais t\u00eam tudo a ganhar com isto. Um empres\u00e1rio com quem discuti este texto me disse que estava gastando mais com juros do que com a folha de pagamento. Aqui temos at\u00e9 interesses comuns entre empres\u00e1rios efetivamente produtivos, situados na economia real, e os trabalhadores que querem se tornar mais produtivos e ganhar melhor. N\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel n\u00e3o vermos o papel dos atravessadores que travam a economia.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata aqui de simples cr\u00edtica. A m\u00e1quina que desenvolvemos, com milhares de ag\u00eancias, bons t\u00e9cnicos na \u00e1rea financeira, boas infraestruturas inform\u00e1ticas e softwares correspondentes, redes comerciais sofisticadas, sistemas que conectam online os cidad\u00e3os e as empresas \u2013 tudo isto permite que tenhamos um sistema de intermedia\u00e7\u00e3o financeira enxuto, \u00e1gil e barato \u2013 mas que precisa ter a sua fun\u00e7\u00e3o reconvertida, no sentido de servir a economia e n\u00e3o dela se servir a ponto de trav\u00e1-la. O mesmo sistema que hoje nos trava pode se tornar em poderosa alavanca de desenvolvimento. N\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rios aqui grandes investimentos, e sim uma reorienta\u00e7\u00e3o reguladora no sentido determinado no artigo 192\u00ba da nossa Constitui\u00e7\u00e3o sobre o Sistema Financeiro Nacional: \u201cPromover o desenvolvimento equilibrado do Pa\u00eds e servir aos interesses da coletividade.\u201d<\/p>\n<p><strong>Intermedia\u00e7\u00e3o financeira e produtividade da economia<\/strong><\/p>\n<p>Antes de tudo, precisamos fazer as pazes com o que entendemos por intermedi\u00e1rios financeiros. Trata-se aqui de pessoas ou empresas que ganham n\u00e3o produzindo bens que nos s\u00e3o \u00fateis em si \u2013 como um par de sapatos \u2013 mas que ganham negociando os direitos de acesso aos bens. Estes direitos constituem pap\u00e9is, como dinheiro, sinais magn\u00e9ticos no cart\u00e3o, tickets refei\u00e7\u00e3o ou semelhantes. Os que gerem o acesso aos pap\u00e9is e sinais magn\u00e9ticos tanto podem facilitar a vida como torn\u00e1-la muito complicada e sobretudo maios cara. Mas o essencial aqui \u00e9 entender que se trata de atividades \u201cmeio\u201d, pois ningu\u00e9m come dinheiro. A intermedia\u00e7\u00e3o financeira se justifica pelo impacto que tem sobre outros setores da economia, os que geram riqueza real, os bens e servi\u00e7os com utilidade final.<\/p>\n<p>Esta distin\u00e7\u00e3o entre atividades \u201cmeio\u201d e atividades \u201dfins\u201d ajuda muito. Se eu procuro um m\u00e9dico, \u00e9 natural que haja uma pessoa que verifique a minha identidade, outra que me fa\u00e7a assinar diversas autoriza\u00e7\u00f5es, outra ainda que organiza a papelada no andar de cima e assim por diante. Mas que eu quero ver \u00e9 o m\u00e9dico. A parte burocr\u00e1tica \u00e9 \u00e1rea \u201cmeio\u201d, necess\u00e1ria, mas justificada apenas se facilita a atividade fim que \u00e9 a que me d\u00e1 acesso ao servi\u00e7o que procuro. Quando se torna maior do que o necess\u00e1rio, em vez de facilitar, trava o processo com custos, demoras, irrita\u00e7\u00f5es e perda de produtividade. \u00c9 uma quest\u00e3o de equil\u00edbrios.<\/p>\n<p>Os intermedi\u00e1rios financeiros s\u00e3o necess\u00e1rios? Bancos alem\u00e3es como os <em>sparkassen <\/em>que gerem o grosso das poupan\u00e7as do pa\u00eds constituem caixas econ\u00f4micas municipais. Agregam poupan\u00e7as das fam\u00edlias, e as repassam a quem queira abrir uma pequena empresa, ou organizar um servi\u00e7o \u00fatil para a comunidade. Ou seja, exercem a fun\u00e7\u00e3o fundamental de oferecer um abrigo mais seguro do que o colch\u00e3o tradicional, rendem um pequeno benef\u00edcio ao poupador, e enriquecem a comunidade ao transformar patrim\u00f4nio financeiro em capital produtivo. Esta riqueza adicional criada permite que o banco tenha lucro, ao receber o empr\u00e9stimo de volta com juros. Mas aqui o seu lucro faz parte da riqueza que contribuiu a criar. Se lucra sem gerar a riqueza correspondente, est\u00e1 apenas se apropriando do fruto do trabalho que outros j\u00e1 criaram.<\/p>\n<p>Um intermedi\u00e1rio financeiro pode, portanto, ser muito \u00fatil, dependendo da qualidade do investimento que estimula nas \u00e1reas fins da economia, e de quanto cobra pelos seus servi\u00e7os. Um bom gerente de cr\u00e9dito \u00e9 aquele que sabe identificar oportunidades de fomento, adiantando o dinheiro parado a quem vai dinamizar a economia com atividades na economia real. Portanto os bancos e outros intermedi\u00e1rios financeiros s\u00e3o \u00fateis quando produzem mais do que custam. No nosso caso, como veremos, custam muitas vezes mais do que o que contribuem a produzir. J. C Polychroniu resume o desafio de maneira simples: \u00a0\u201cOs bancos deveriam voltar a fazer o que faziam quando foram criados: oferecer um local seguro para as poupan\u00e7as e capital a neg\u00f3cios que pretendem se desenvolver\u201d.<\/p>\n<p>Um segundo ponto a ser esclarecido, que tem tudo a ver com o primeiro, \u00e9 que investimento e aplica\u00e7\u00e3o financeira n\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa. Para os de l\u00edngua inglesa \u00e9 complicado, pois em ingl\u00eas se usa <em>investment <\/em>para ambas as opera\u00e7\u00f5es. O Economist, na impossibilidade de qualificar honestamente de investidores os que aplicam apenas em pap\u00e9is, criou uma f\u00f3rmula interessante: <em>speculative investors. <\/em>Na Fran\u00e7a, \u00e9 muito claro para qualquer estudante de economia a diferen\u00e7a entre <em>investissements <\/em>e <em>placements financiers, <\/em>sendo estas \u00faltimas naturalmente aplica\u00e7\u00f5es financeiras. A confus\u00e3o \u00e9 grave. O fato dos nossos bancos se referirem regularmente a investimentos quando se trata de aplica\u00e7\u00f5es em pap\u00e9is tende a nos confundir. A confus\u00e3o gerada, ali\u00e1s, \u00e9 volunt\u00e1ria, pois \u201cinvestir\u201d parece mais respeit\u00e1vel.<\/p>\n<p>As aplica\u00e7\u00f5es financeiras podem ser muito lucrativas, mas geram lucros de transfer\u00eancia, e n\u00e3o por cria\u00e7\u00e3o de riqueza suplementar. Se eu compro d\u00f3lares por prever que a moeda vai subir, e acertei na aposta, poderei revend\u00ea-los com proveito, e comprar mais coisas. A pessoa que os vendeu viu pelo contr\u00e1rio a sua capacidade de comprar baixar na mesma propor\u00e7\u00e3o: ele agora tem reais, e o d\u00f3lar est\u00e1s mais caro. No pa\u00eds n\u00e3o se produziu um par de sapatos a mais, n\u00e3o se construiu uma casa a mais, a riqueza acumulada do pa\u00eds continua id\u00eantica por mais que fa\u00e7amos fren\u00e9ticas transa\u00e7\u00f5es financeiras. S\u00e3o ganhos de transfer\u00eancia, de direitos sobre o produto que j\u00e1 existe, ou no caso de processos especulativos como os mercados de futuros, sobre um produto que ainda sequer for produzido, mas j\u00e1 tem dono.<\/p>\n<p>Agora seu eu realizo efetivamente o que pode ser qualificado de investimento, o que tanto pode ser a cria\u00e7\u00e3o de uma f\u00e1brica de sapatos como o financiamento de um curso de forma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica para pequena e m\u00e9dia empresa, estou criando riqueza, aumentando o capital do pa\u00eds. No caso do investimento, mesmo que eu construa casas que depois tenha de vender com perdas, o pa\u00eds ganhou casas onde pessoas concretas poder\u00e3o morar. O estoque de riqueza do pa\u00eds aumentou. Se eu invisto o meu patrim\u00f4nio estou transformando-o em capital que gera mais riqueza. Se eu fa\u00e7o uma aplica\u00e7\u00e3o financeira estou possivelmente aumentando o meu patrim\u00f4nio, mas n\u00e3o criando capital no sentido produtivo.<\/p>\n<p>Quem viu <em>Uma Linda Mulher <\/em>lembrar\u00e1 como o aplicador financeiro, quando perguntado pela prostituta o que ele faz na vida, responde de maneira direta: \u201cEu fa\u00e7o o mesmo que voc\u00ea, eu f&#8230;com as pessoas por dinheiro\u201d (<em>Same as\u00a0 you, I screw people for money)<\/em>. Ele sabe perfeitamente que n\u00e3o est\u00e1 criando riqueza nenhuma, e sim est\u00e1 se apropriando da que foi criada por outros. David Ruccio, para o Real World Economics, explicita isto claramente: \u201cAs finan\u00e7as podem ser muito lucrativas,\u00a0 tanto para as institui\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias como para estudantes de Harvard, mas a \u00fanica coisa que fazem \u00e9 capturar parte do valor criado em outro lugar na economia. Em vez de criar riqueza os rentistas simplesmente a transferem \u2013 dos outros para si.\u201d Hoje, entre as grandes fortunas, muito poucos s\u00e3o os que criam riqueza, pois tende a ser muito mais lucrativo transferir para si a riqueza produzida por outros.<\/p>\n<p>No novo mundo econ\u00f4mico que constru\u00edmos, o poder \u00e9 dos intermedi\u00e1rios. Uma vez mais, podem ser \u00fateis, quando contribuem mais para a economia do que o custo de apropria\u00e7\u00e3o e de desorganiza\u00e7\u00e3o que provocam. Mas quando se tornam muito poderosos, e podem inclusive dobrar as leis que regulam as suas atividades e gerar as leis que os favorecem, o seu poder desarticulador sobre quem quer investir, produzir e consumir pode ser muito grande.<\/p>\n<p><strong>O credi\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>A foto abaixo foi tirada numa loja em Joinville. A presta\u00e7\u00e3o que \u201ccabe no bolso\u201d est\u00e1 em letras grandes. Colocam o valor final e os juros, bem pequenos: paga-se mais do dobro, juros de 122%. Este tipo de credi\u00e1rio permite comprar hoje, mas trava a capacidade de consumo por dois anos. O produtor recebe pouco, e pouco poder\u00e1 investir. E o consumidor pode comprar pouco, pelo peso dos juros. \u00c9 a chamada economia do ped\u00e1gio, que trava o sistema produtivo, tanto do lado do produtor como do consumidor, em proveito do intermedi\u00e1rio.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-714\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/crediario-300x224.jpg?resize=500%2C373\" alt=\"crediario\" width=\"500\" height=\"373\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/crediario.jpg?resize=300%2C224&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/crediario.jpg?w=640&amp;ssl=1 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<p>A simula\u00e7\u00e3o abaixo, afixada na entrada de uma rede semelhante na Europa, MidiaMarkt, apresenta juros de 13,3% ao ano, o que equivale a 1,05% ao m\u00eas. Uma compra de 600 euros em 18 meses se materializa em 18 presta\u00e7\u00f5es de 38,85 euros. O total a prazo \u00e9 de 699 euros. E ganham bem com isto, pois apenas precisaram fazer a intermedia\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tiveram que produzir nada. Basta comparar com o exemplo acima no Brasil, com pre\u00e7o \u00e0 vista de 694 e custo total a prazo de 1437 reais, para se dar conta da deforma\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 economia que possa funcionar assim. E jogar a culpa nos impostos funciona apenas porque culpar o governo \u00e9 a nossa forma cultural de desviar as culpas de todos. Pode gerar um sentimento agrad\u00e1vel de indigna\u00e7\u00e3o justificada, mas \u00e9 essencialmente baseado na incompreens\u00e3o dos mecanismos. Esta incompreens\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de ignor\u00e2ncia, e sim de desinforma\u00e7\u00e3o constru\u00edda, e que facilita a pilantragem: Joseph Stiglitz recebeu um \u201cNobel\u201d de economia por mostrar o impacto da assimetria de informa\u00e7\u00e3o. O rec\u00e9m-chegado ao mercado das grandes lojas apenas vai checar se a presta\u00e7\u00e3o cabe no bolso, e assina.<\/p>\n<p><strong><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-715 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/crediario2.jpg?resize=627%2C508\" alt=\"crediario2\" width=\"627\" height=\"508\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/crediario2.jpg?w=627&amp;ssl=1 627w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/crediario2.jpg?resize=300%2C243&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 627px) 100vw, 627px\" \/><\/strong><\/p>\n<p>Hoje temos os dados gerais sobre estas taxas de juros ao tomador final, para pessoa f\u00edsica, praticadas no com\u00e9rcio, pelos chamados credi\u00e1rios. A ANEFAC (Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Executivos de Finan\u00e7as, Administra\u00e7\u00e3o e Contabilidade) traz os dados de junho 2014:<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-719 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00791.png?resize=640%2C502\" alt=\"taxa juros\" width=\"640\" height=\"502\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00791.png?w=705&amp;ssl=1 705w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00791.png?resize=300%2C235&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p><em>Fonte: ANEFAC, <a href=\"http:\/\/www.anefac.com.br\/uploads\/arquivos\/2014715153114381.pdf\">http:\/\/www.anefac.com.br\/uploads\/arquivos\/2014715153114381.pdf<\/a> , 2014<\/em><\/p>\n<p>Antes de tudo, uma nota metodol\u00f3gica: os juros s\u00e3o quase sempre apresentados, no Brasil, como \u201ctaxa m\u00eas\u201d, como na primeira coluna acima. \u00c9 tecnicamente certo, mas comercialmente e eticamente errado. \u00c9 uma forma de confundir os tomadores de cr\u00e9dito, pois ningu\u00e9m consegue calcular mentalmente juros compostos. O que \u00e9 usado mundialmente \u00e9 o juro anual que resulta. O Banco Ita\u00fa, por exemplo, apresenta no seu site as taxas de juros apenas no formato mensal, pois ao ano apareceriam como s\u00e3o, extorsivos. Na foto mais acima vemos a TV oferecida com taxa de juros de 6,87% ao m\u00eas, e aparece em letras mi\u00fadas, por obriga\u00e7\u00e3o legal, o juro real ao ano de 122%, literalmente um assalto.<\/p>\n<p>A m\u00e9dia de juros praticadas nos credi\u00e1rios, de 72,33%, significa simplesmente que este tipo de com\u00e9rcio, em vez de prestar decentemente servi\u00e7os comerciais, pratica essencialmente atividades financeiras. Aproveita o fato das pessoas n\u00e3o entenderem de c\u00e1lculo financeiro, e de disponibilizarem de pouco dinheiro \u00e0 vista, para as extorquir. Aqui, a empresa que vende \u201cArtigos do Lar\u201d, ao cobrar juros de 104,89% sobre os produtos, trava a demanda, pois ela ficar\u00e1 represada por 12 ou 24 meses enquanto se paga as presta\u00e7\u00f5es. Mas trava igualmente o produtor, que recebe muito pouco pelo produto. \u00c9 o que temos qualificado de economia de ped\u00e1gio. Ironicamente, as lojas dizem que \u201cfacilitam\u201d. No conjunto do processo, a capacidade de compra do consumidor \u00e9 dividida por dois, e a capacidade de reinvestimento do produtor estanca. Normalmente, os mecanismos de mercado, atrav\u00e9s da concorr\u00eancia entre diversas lojas e na busca do cliente, reduziriam os custos do credi\u00e1rio para n\u00edveis decentes, mas como no nosso caso o sistema de distribui\u00e7\u00e3o \u00e9 altamente oligopolizado, o efeito \u201ccartel\u201d mant\u00e9m os custos em n\u00edveis astron\u00f4micos.<\/p>\n<p><strong>Os juros para pessoa f\u00edsica<\/strong><\/p>\n<p>Os consumidores n\u00e3o se limitam a comprar pelo credi\u00e1rio, cuja taxa m\u00e9dia de 72,33% aparece reproduzida abaixo na primeira linha. Usam tamb\u00e9m cart\u00e3o de cr\u00e9dito e outras modalidades de mecanismos financeiros pouco compreendidas pela imensa maioria dos consumidores.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-721 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00792.png?resize=640%2C411\" alt=\"taxa juros2\" width=\"640\" height=\"411\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00792.png?w=668&amp;ssl=1 668w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00792.png?resize=300%2C193&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p><em>Fonte: ANEFAC, <a href=\"http:\/\/www.anefac.com.br\/uploads\/arquivos\/2014715153114381.pdf\">http:\/\/www.anefac.com.br\/uploads\/arquivos\/2014715153114381.pdf<\/a> , 2014<\/em><\/p>\n<p>Tomando os dados de junho 2014, constatamos que os intermedi\u00e1rios financeiros cobram tamb\u00e9m 238,67% no cart\u00e3o de cr\u00e9dito, 159,76% no cheque especial, 23,58% na compra de autom\u00f3veis. Os empr\u00e9stimos pessoais custam na m\u00e9dia 50,23% nos bancos e 134,22% nas financeiras. Estamos deixando aqui de lado a agiotagem de rua que ultrapassa os 300%.<\/p>\n<p>O cheque especial merece uma notinha especial, na medida em que se trata de taxas de juros excepcionalmente altas. \u00c9 uma forma muito pr\u00e1tica de \u201centrar no vermelho\u201d, e termina sendo muito utilizada por quem tem dificuldades de fechar o m\u00eas ou pagar uma conta inadi\u00e1vel, o que leva a que os volumes de uso sejam elevados. Em dezembro de 2014 as pessoas jur\u00eddicas tinham um estoque de d\u00edvida de 13,6 bilh\u00f5es de reais, pagando um juro de 189,3%, enquanto as pessoas f\u00edsicas deviam 25,5 bilh\u00f5es com uma taxa de juros de 201%. Como ordem de grandeza, isto representa cerca de 38 bilh\u00f5es de reais que pagam juros da ordem de 70 bilh\u00f5es, mais do dobro do bolsa fam\u00edlia. E pesa tanto sobre as fam\u00edlias como sobre pequenas e m\u00e9dia empresas, e em particular sobre fam\u00edlias pobres. (BCB-Depec, 2015)<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-722 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00793.png?resize=640%2C229\" alt=\"2016.06.14_00793\" width=\"640\" height=\"229\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00793.png?w=774&amp;ssl=1 774w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00793.png?resize=300%2C107&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00793.png?resize=768%2C275&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>As varia\u00e7\u00f5es s\u00e3o grandes, com dados sobre taxas de juros por institui\u00e7\u00e3o financeira apresentados pelo BCB para junho de 2015 variando entre 195,34 no Ita\u00fa, 247,64 no Bradesco e 326,21 no Santander. \u00c9 importante notar que n\u00e3o \u00e9 um mercado onde o cliente tem realmente escolha. As pessoas tendem a manter as contas onde recebem os seus sal\u00e1rios, e tendem a aceitar as condi\u00e7\u00f5es oferecidas, al\u00e9m de serem em geral pouco informadas. Em todo caso n\u00e3o \u00e9 um mercado fluido, e de toda forma as taxas nos diversos bancos s\u00e3o todas escandalosas, ainda que umas mais que as outras. Os dados por institui\u00e7\u00e3o podem ser consultados em <a href=\"http:\/\/www.bcb.gov.br\/pt-br\/sfn\/infopban\/txcred\/txjuros\/Paginas\/RelTxJuros.aspx?tipoPessoa=2&amp;modalidade=216&amp;encargo=101\">http:\/\/www.bcb.gov.br\/pt-br\/sfn\/infopban\/txcred\/txjuros\/Paginas\/RelTxJuros.aspx?tipoPessoa=2&amp;modalidade=216&amp;encargo=101<\/a><\/p>\n<p>Note-se que a Abecs (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Empresas de Cart\u00f5es de Cr\u00e9dito e Servi\u00e7os) considera que o juro m\u00e9dio sobre o cart\u00e3o \u00e9 de 280%, portanto bem acima da avalia\u00e7\u00e3o da Anefac. A Abecs considera que 50,1% do cr\u00e9dito para consumo \u00e9 feito no cart\u00e3o, 23,5% no cr\u00e9dito consignado, 13,1% no credi\u00e1rio de ve\u00edculos, e 13,3% \u201coutros\u201d. Trata-se, no caso dos cart\u00f5es, de cerca de 170 bilh\u00f5es de reais.<\/p>\n<p>Para termos um ponto de refer\u00eancia sobre o que significam em estes bilh\u00f5es que saem do circuito produtivo e entram no circuito dos intermedi\u00e1rios, lembremos que o Brasil tem um PIB da ordem de 5,5 trilh\u00f5es de reais em 2014. Ou seja, cada vez que se retira 55 bilh\u00f5es da economia real, \u00e9 1% do PIB que deixa de fomentar a economia, e que poderia ser transformado em investimentos ou consumo adicional.<\/p>\n<p>\u00c9 importante lembrar que mesmo sem entrar no cr\u00e9dito do cart\u00e3o, portanto pagando \u00e0 vista, numa compra com cart\u00e3o na modalidade \u201ccr\u00e9dito\u201d, tipicamente uma loja tem de pagar cerca de 5% do valor das compras ao banco, al\u00e9m do aluguel da m\u00e1quina. Estes 5% podem ser menos para grandes lojas com capacidade de negocia\u00e7\u00e3o com o sistema financeiro, mas de toda forma trata-se de um gigantesco imposto privado sobre a metade do cr\u00e9dito de consumo, reduzindo drasticamente a capacidade de compra do consumidor. Mesmo na modalidade \u201cd\u00e9bito\u201d os bancos cobram cerca de 2%. Poder\u00edamos considerar que os 5% cobrados na modalidade cr\u00e9dito da compra \u00e0 vista, e 2% na modalidade d\u00e9bito, correspondem aos custos de gest\u00e3o dos cart\u00f5es: para termos uma refer\u00eancia, nos Estados Unidos o custo por transa\u00e7\u00e3o para as operadoras de cart\u00e3o \u00e9 da ordem de 4 centavos de d\u00f3lar, cerca de 12 centavos de real, quando numa compra \u00e0 vista de 100 reais na modalidade \u201ccr\u00e9dito\u201d cobram 5 reais, que sair\u00e1 do bolso do cliente. (Brown, p.14)<\/p>\n<p>Considerando que se trata de centenas de bilh\u00f5es em compras com cart\u00e3o, devidamente contabilizados periodicamente pela Abecs, podemos imaginar o volume de recursos apropriados sobre este montante, ped\u00e1gio que tira recursos da economia real para o sistema de intermedia\u00e7\u00e3o financeira. (<a href=\"http:\/\/www.abecs.org.br\/indicadores-de-mercado\">http:\/\/www.abecs.org.br\/indicadores-de-mercado<\/a>)<\/p>\n<p>A Abecs considera que esta carteira \u201cest\u00e1 sendo respons\u00e1vel por fomentar o cr\u00e9dito ao consumidor no pa\u00eds\u201d. \u00c9 uma forma positiva de apresentar o problema, mas se fomenta o cr\u00e9dito, e n\u00e3o o consumo. No caso da frequente entrada no cr\u00e9dito rotativo, as pessoas pagar\u00e3o tr\u00eas ou quatro vezes o valor do produto. Miguel de Oliveira, diretor da Anefac, resume bem a situa\u00e7\u00e3o: \u201cA pessoa que n\u00e3o consegue pagar a fatura e precisa parcelar, ou entrar no rotativo, na verdade est\u00e1 financiando a d\u00edvida do cart\u00e3o de cr\u00e9dito com outro tipo de cr\u00e9dito. O problema \u00e9 que essa d\u00edvida n\u00e3o tem fim. As pessoas acabam n\u00e3o se dando conta dos juros que ter\u00e3o que pagar.\u201d(DCI, B1, 20\/08\/2014)<\/p>\n<p>Como as pessoas t\u00eam dificuldades em imaginar que o sistema tenha sido t\u00e3o grosseiramente deformado, apresentamos abaixo a tabela original de juros cobrados pelo Banco Santander. O \u201cCusto Efetivo Total\u201d\u00a0 do cr\u00e9dito rotativo no Santander, por exemplo, informado em tabela enviada aos clientes, \u00e9 de 633,21%.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-723 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00794.png?resize=640%2C163\" alt=\"2016.06.14_00794\" width=\"640\" height=\"163\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00794.png?w=646&amp;ssl=1 646w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00794.png?resize=300%2C77&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p><em>Fonte: mailing do Banco Santander para clientes, Brasil, abril 2015<\/em><\/p>\n<p>Obviamente, com estas taxas de juros, as pessoas, ao fazer uma compra a cr\u00e9dito, gastam mais com os juros do que com o pr\u00f3prio valor do produto adquirido. Costuma-se apresentar apenas a taxa de endividamento das fam\u00edlias, o que n\u00e3o \u00e9 informa\u00e7\u00e3o suficiente, pois aqui as fam\u00edlias n\u00e3o s\u00f3 se endividam muito como se endividam muito comprando pouco. A conta \u00e9 evidente: em termos pr\u00e1ticos, pagam quase o dobro, \u00e0s vezes mais. Dito de outra forma, compram a metade do que o dinheiro delas poderia comprar, se fosse \u00e0 vista. Isto que a compra \u00e0 vista j\u00e1 inclui os lucros de intermedia\u00e7\u00e3o comercial.Fonte: mailing do Banco Santander para clientes, Brasil, abril 2015<\/p>\n<p>No cr\u00e9dito imobili\u00e1rio as taxas s\u00e3o mais baixas, mas envolvem endividamento por d\u00e9cadas, com impacto forte nesta \u00e9poca em que muitas fam\u00edlias est\u00e3o evoluindo para casa pr\u00f3pria. \u00c9 lucro est\u00e1vel para os bancos, e com muita seguran\u00e7a pois est\u00e3o garantidos pelo valor do im\u00f3vel. Ainda assim, os juros s\u00e3o absurdamente elevados, quando comparados com o juro m\u00e9dio imobili\u00e1rio na Uni\u00e3o Europeia: 2,18% na Europa, sendo por exemplo de 1,86% na Alemanha e 2,17% na Fran\u00e7a, contra cerca de 12% no Brasil,\u00a0 5 vezes mais elevados. No Canad\u00e1 a taxa correspondente de juros \u00e9 de 2,27%. Tratando-se de montantes elevados, e de longo prazo, o impacto sobre a capacidade de consumo das fam\u00edlias \u00e9 muito forte. (BCE). Veja abaixo alguns exemplos de taxa de juros para cr\u00e9dito imobili\u00e1rio para pessoa f\u00edsica, no Brasil, em julho de 2015:<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-724 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00795.png?resize=605%2C139\" alt=\"2016.06.14_00795\" width=\"605\" height=\"139\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00795.png?w=605&amp;ssl=1 605w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00795.png?resize=300%2C69&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p><em>Taxas de juros por Institui\u00e7\u00e3o Financeira, julho 2015 . Fonte: BCB. Acesso em: <a href=\"http:\/\/www.bcb.gov.br\/pt-br\/sfn\/infopban\/txcred\/txjuros\/Paginas\/RelTxJurosMensal.aspx?tipoPessoa=1&amp;modalidade=905&amp;encargo=101\">http:\/\/www.bcb.gov.br\/pt-br\/sfn\/infopban\/txcred\/txjuros\/Paginas\/RelTxJurosMensal.aspx?tipoPessoa=1&amp;modalidade=905&amp;encargo=101<\/a> Modalidade: Pessoa F\u00edsica Financiamento Imobili\u00e1rio com Taxas Reguladas.<\/em><\/p>\n<p><em>Tipo de Encargo: Pr\u00e9-Fixado.<\/em><\/p>\n<p>Se considerarmos as diversas formas de cr\u00e9dito e taxas de juros a que a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 submetida, n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o ver a raz\u00e3o principal do estancamento. A evolu\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de endividamento das fam\u00edlias pode ser visto na tabela abaixo: a parte da renda que as fam\u00edlias t\u00eam de dedicar ao pagamento das d\u00edvidas passa de 19,3% em 2005 para 46,5% em mar\u00e7o de 2015. N\u00e3o h\u00e1 como as fam\u00edlias comprarem mais com este grau de endividamento. Note-se em particular que as fam\u00edlias mais ricas compram mais \u00e0 vista, e portanto a paraliza\u00e7\u00e3o da capacidade de compra recai particularmente sobre as classes rec\u00e9m inclu\u00eddas no mercado.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-725 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00796.png?resize=640%2C159\" alt=\"2016.06.14_00796\" width=\"640\" height=\"159\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00796.png?w=737&amp;ssl=1 737w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00796.png?resize=300%2C74&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p><em><strong>Fonte:<\/strong> BCB \u2013 Depec. &#8211; Acesso em 03\/06\/2015.<a href=\"https:\/\/www3.bcb.gov.br\/sgspub\/localizarseries\/localizarSeries.do?method=prepararTelaLocalizarSeries\">https:\/\/www3.bcb.gov.br\/sgspub\/localizarseries\/localizarSeries.do?method=prepararTelaLocalizarSeries<\/a>.<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o imposto que \u00e9 o vil\u00e3o, ainda que o peso dominante dos impostos indiretos s\u00f3 piore a situa\u00e7\u00e3o conforme veremos adiante: \u00e9 o desvio da capacidade de compra para o pagamento de juros. As fam\u00edlias est\u00e3o gastando muito mais, resultado do n\u00edvel elevado de emprego e da eleva\u00e7\u00e3o do poder aquisitivo da base da sociedade, mas os juros esterilizam a capacidade de dinamiza\u00e7\u00e3o da economia pela demanda que estes gastos poderiam representar. Um dos principais vetores de dinamiza\u00e7\u00e3o da economia se v\u00ea travado. Gerou-se uma economia de atravessadores financeiros. Prejudicam-se as fam\u00edlias que precisam dos bens e servi\u00e7os, e indiretamente as empresas efetivamente produtoras que v\u00eam os seus estoques parados. Perde-se boa parte do impacto de dinamiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica das pol\u00edticas redistributivas.<\/p>\n<p>O cr\u00e9dito consignado ajuda, mas atinge apenas 23,5%\u00a0 do cr\u00e9dito para consumo (DCI, 2014), e tamb\u00e9m se situa na faixa de 25 a 30% de juros, o que aparece como baixo apenas pelo n\u00edvel exorbitante que atingem as outras formas de cr\u00e9dito. Mais uma vez \u00e9 interessante comparar o custo do cr\u00e9dito consignado com a taxa de juros cobrados na Fran\u00e7a, no caso do consumidor optar por fazer um empr\u00e9stimo no banco para pagar \u00e0 vista na loja: 3,50% ao ano, cerca de 8 vezes menos do que o nosso cr\u00e9dito consignado.<\/p>\n<p>No caso da foto abaixo, de oferta da Banque Postale, a pessoa pode pegar um cr\u00e9dito pag\u00e1vel at\u00e9 5 anos, entre 7 e 20 mil euros, com garantia da taxa ser fixa, podendo utilizar para comprar ve\u00edculo, realizar obras ou investir em um projeto. Aqui o cr\u00e9dito estimula, tanto pelo consumo como pelo empreendedorismo, em vez de trav\u00e1-los. Cr\u00e9dito semelhante encontramos na Pol\u00f4nia com taxa de 5% ao ano, havendo ainda a vantagem, neste pa\u00eds, de se poder recorrer a bancos cooperativos que financiam diretamente projetos locais.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-726 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/crediario3.jpg?resize=640%2C360\" alt=\"crediario3\" width=\"640\" height=\"360\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/crediario3.jpg?w=3096&amp;ssl=1 3096w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/crediario3.jpg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/crediario3.jpg?resize=768%2C432&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/crediario3.jpg?resize=1024%2C576&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/crediario3.jpg?w=1280&amp;ssl=1 1280w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/crediario3.jpg?w=1920&amp;ssl=1 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p><em>An\u00fancio no metr\u00f4 em Paris, da Banque Postale, em julho de 2015. O anuncio completo inclui simula\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>Note-se que no caso do Brasil encontramos cifras diferentes segundo que os dados sejam do Banco Central, da Anefac ou de pesquisas de diversas institui\u00e7\u00f5es financeiras, o que \u00e9 compreens\u00edvel pelas diferen\u00e7as de metodologia. Mas o que nos interessa aqui \u00e9 o impacto final para o consumidor e a demanda, e no conjunto as cifras s\u00e3o rigorosamente coerentes em termos de apresentarem n\u00edveis de taxas de juros que simplesmente inviabilizam um crescimento din\u00e2mico da economia. \u00c9 importante lembrar que quando se trata de um oligop\u00f3lio, n\u00e3o existe nenhuma racionalidade t\u00e9cnica (do tipo equil\u00edbrio entre oferta e demanda de cr\u00e9dito, ou entre custo de capta\u00e7\u00e3o e custo ao tomador final), e predomina simplesmente a busca do lucro m\u00e1ximo dentro dos limites do politicamente toler\u00e1vel. E como uma grande massa de novos consumidores n\u00e3o consegue ter pontos de refer\u00eancia do que \u00e9 toler\u00e1vel, ainda mais quando se apresenta juros ao m\u00eas, a usura atinge n\u00edveis absurdos.<\/p>\n<p><strong>Os juros para pessoa jur\u00eddica<\/strong><\/p>\n<p>As taxas de juros para pessoa jur\u00eddica n\u00e3o ficam atr\u00e1s. O estudo da Anefac apresenta uma taxa praticada m\u00e9dia de 50,06% ao ano, sendo 24,16% para capital de giro, 34,80% para desconto de duplicatas, e 100,76% par conta garantida. Ningu\u00e9m em s\u00e3 consci\u00eancia consegue desenvolver atividades produtivas, criar uma empresa, enfrentar o tempo de entrada no mercado e de equil\u00edbrio de contas pagando este tipo de juros. Aqui, \u00e9 o investimento privado que \u00e9 diretamente atingido.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-727 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00797.png?resize=640%2C209\" alt=\"2016.06.14_00797\" width=\"640\" height=\"209\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00797.png?w=651&amp;ssl=1 651w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00797.png?resize=300%2C98&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p><em>Fonte: ANEFAC, <a href=\"http:\/\/www.anefac.com.br\/uploads\/arquivos\/2014715153114381.pdf\">http:\/\/www.anefac.com.br\/uploads\/arquivos\/2014715153114381.pdf<\/a> , 2014<\/em><\/p>\n<p>A atividade banc\u00e1ria pode ser perfeitamente \u00fatil,\u00a0 ao financiar iniciativas econ\u00f4micas que dar\u00e3o retorno. Mas isto implica o banco utilizar o dinheiro dos dep\u00f3sitos (al\u00e9m naturalmente da alavancagem) para fomentar iniciativas empresariais, cujo resultado dar\u00e1 leg\u00edtimo lucro ao investidor, permitindo tamb\u00e9m restituir o empr\u00e9stimo. A atividade b\u00e1sica de um banco, que seria de reunir poupan\u00e7as de depositantes para transform\u00e1-las em financiamento de atividades econ\u00f4micas, saiu do horizonte de atividade destes bancos. A economia, travada do lado da demanda com o tipo de cr\u00e9dito ao consumo visto acima, tanto nos bancos como nos credi\u00e1rios, v\u00ea-se portanto igualmente travada do lado do financiamento ao produtor. Prejudica-se assim tanto a demanda como o investimento, os dois motores da economia (al\u00e9m dos investimentos do Estado que veremos adiante).<\/p>\n<p>Um artigo de C.J. Polychroniou resume esta deforma\u00e7\u00e3o profunda das fun\u00e7\u00f5es do banco: \u201cO capitalismo financeiros \u00e9 economicamente improdutivo (n\u00e3o cria riqueza de verdade), socialmente parasit\u00e1rio (vive das receitas produzidas por outros setores da economia) e politicamente antidemocr\u00e1tico (restringe a distribui\u00e7\u00e3o da riqueza, cria desigualdades imensas e luta por privil\u00e9gios)\u201d. O lucro mais elevado dos intermedi\u00e1rios financeiros n\u00e3o significa que a economia vai bem, e sim que intermedi\u00e1rios n\u00e3o-produtivos est\u00e3o se apropriando de uma parte maior do produto. A pr\u00f3pria Federa\u00e7\u00e3o do Com\u00e9rcio resume bem o dilema do ponto de vista do empresariado: \u201cH\u00e1 quase consenso quanto \u00e0 necessidade de estimular investimentos no Brasil: ao reduzir os gastos com juros, as\u00a0 empresas\u00a0 passam\u00a0 a\u00a0 ter\u00a0 importante\u00a0 espa\u00e7o\u00a0 para\u00a0 alavancar\u00a0 seus investimentos\u00a0 e\u00a0 as\u00a0 fam\u00edlias,\u00a0 com\u00a0 al\u00edvio\u00a0 nessa\u00a0 despesa,\u00a0 certamente\u00a0 estimular\u00e3o\u00a0 o consumo,\u00a0 criando-se\u00a0 assim\u00a0 uma\u00a0 coer\u00eancia\u00a0 macroecon\u00f4mica\u00a0 positiva.\u201d(Fecomercio-SP)<\/p>\n<p>As regras do jogo aqui se deformam profundamente. As grandes corpora\u00e7\u00f5es transnacionais passam a ter vantagens comparadas impressionantes ao poder se financiar do exterior com taxas de juros tipicamente 4 ou 5 vezes menores do que os seus concorrentes nacionais. Muitas empresas nacionais podem encontrar financiamentos com taxas que poderiam ser consideradas normais, por exemplo pelo BNDES e outros bancos oficiais, mas sem a capilaridade que permita irrigar a imensa massa de pequenas e m\u00e9dias empresas dispersas no pa\u00eds. N\u00e3o \u00e9 demais lembrar que na Alemanha 60% das poupan\u00e7as s\u00e3o administradas por pequenas caixas de poupan\u00e7a locais, que irrigam generosamente as pequenas iniciativas econ\u00f4micas.\u00a0 A Pol\u00f4nia, que segundo o <em>Economist <\/em>melhor enfrentou a crise na Europa, tem 470 bancos cooperativos, que financiam atividades da economia real. Um dos principais economistas do pa\u00eds, J. Balcerek, comenta ironicamente que \u201co nosso atraso banc\u00e1rio nos salvou da crise\u201d.<\/p>\n<p><strong>Os juros sobre a d\u00edvida p\u00fablica<\/strong><\/p>\n<p>Vimos acima como o dreno dos recursos dos consumidores trava a demanda, e o dreno dos recursos dos empres\u00e1rios da economia real trava o investimento e a pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o. Uma terceira deforma\u00e7\u00e3o resulta do imenso dreno sobre recursos p\u00fablicos atrav\u00e9s da d\u00edvida p\u00fablica. Se arredondarmos o nosso PIB para 5,5 trilh\u00f5es de reais, 1% do PIB s\u00e3o 55 bilh\u00f5es. Quando gastamos 5% do PIB para pagar os juros da d\u00edvida p\u00fablica, significa que estamos transferindo, essencialmente para os bancos donos da d\u00edvida, e por sua vez a um pequeno grupo de afortunados,\u00a0 mais de 300 bilh\u00f5es de reais ao ano, que deveriam financiar investimentos p\u00fablicos, pol\u00edticas sociais e semelhantes. Para a sociedade, trata-se aqui de uma esteriliza\u00e7\u00e3o da poupan\u00e7a. Para os bancos, \u00e9 muito c\u00f4modo, pois em vez de buscar identificar bons empres\u00e1rios e fomentar investimentos, tendo de avaliar os projetos, enfim, fazer a li\u00e7\u00e3o de casa, aplicam em t\u00edtulos p\u00fablicos, com rentabilidade elevada, liquidez total, seguran\u00e7a absoluta, dinheiro em caixa, por assim dizer, e rendendo muito.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-728 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00798.png?resize=597%2C515\" alt=\"2016.06.14_00798\" width=\"597\" height=\"515\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00798.png?w=597&amp;ssl=1 597w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00798.png?resize=300%2C259&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 597px) 100vw, 597px\" \/><\/p>\n<p>Comenta Amir Khair: &#8220;Neste ano (2015) com taxa de juros m\u00e9dia maior que em 2014, incidindo sobre uma d\u00edvida mais elevada pode causar uma despesa pr\u00f3xima de 7% do PIB e, com resultado prim\u00e1rio de 1,2% do PIB, que \u00e9 a meta tra\u00e7ada pela nova equipe, o d\u00e9ficit fiscal seria de 6% do PIB, ou seja, mais endividamento e mais despesas com juros, em verdadeiro ciclo vicioso.&#8221;<\/p>\n<p>O efeito aqui \u00e9 duplamente pernicioso: por uma lado, porque com a rentabilidade assegurada com simples aplica\u00e7\u00e3o na d\u00edvida p\u00fablica, os bancos deixam de buscar o fomento da economia. Fazem aplica\u00e7\u00f5es financeiras em pap\u00e9is do governo, em vez de irrigar as atividades econ\u00f4micas com empr\u00e9stimos. Por outro, muitas empresas produtivas, em vez de fazer mais investimentos, aplicam tamb\u00e9m os seus excedentes em t\u00edtulos do governo. A m\u00e1quina econ\u00f4mica torna-se assim ref\u00e9m de um sistema que rende para os que aplicam, mas n\u00e3o para os que investem na economia real. E para o governo, \u00e9 at\u00e9 c\u00f4modo, pois \u00e9 mais f\u00e1cil se endividar do que fazer a reforma tribut\u00e1ria t\u00e3o necess\u00e1ria. Com uma d\u00edvida p\u00fablica total da ordem de 2,3 trilh\u00f5es, recursos que deveriam servir para dinamizar a economia atrav\u00e9s da expans\u00e3o das pol\u00edticas sociais e das infraestruturas s\u00e3o desviados para o servi\u00e7o da d\u00edvida: e com a taxa Selic elevad\u00edssima, o Estado n\u00e3o consegue pagar a totalidade de juros anuais, o que aumenta o estoque da d\u00edvida e aumenta a sangria.<\/p>\n<p>Podemos falar num tipo de tri\u00e2ngulo das bermudas: juros sobre o consumo, juros sobre o investimento e juros sobre a d\u00edvida p\u00fablica convergem para travar a demanda, a produ\u00e7\u00e3o e as pol\u00edticas p\u00fablicas. N\u00e3o h\u00e1 economia que possa funcionar assim.<\/p>\n<p><strong>Uma deforma\u00e7\u00e3o sist\u00eamica<\/strong><\/p>\n<p>O volume de cr\u00e9dito tem aumentado muito. Segundo relat\u00f3rio do BCB, \u201co saldo total de credito do sistema financeiro alcan\u00e7ou R$2.715 bilh\u00f5es em dezembro, e expandiu 14,7% no ano, comparativamente a 16,4% em 2012, e 18,8% em 2011.\u201d (BCB-REBC 2013, p. 5)<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-729 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00799.png?resize=526%2C442\" alt=\"2016.06.14_00799\" width=\"526\" height=\"442\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00799.png?w=526&amp;ssl=1 526w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00799.png?resize=300%2C252&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 526px) 100vw, 526px\" \/><\/p>\n<p>Mas estas taxas muito elevadas de expans\u00e3o frente a uma economia com pouco crescimento significa que h\u00e1 uma deforma\u00e7\u00e3o profunda no sistema financeiro em geral, pois n\u00e3o estimula nem a demanda nem o investimento. A explica\u00e7\u00e3o desta diferen\u00e7a entre uma expans\u00e3o saud\u00e1vel de iniciativas econ\u00f4micas aproveitando o cr\u00e9dito, e um cr\u00e9dito que estanca a economia, \u00e9 que as pessoas se endividam muito comprando ou investindo pouco, e inclusive frequentemente tomando d\u00edvida sobre d\u00edvida. \u00c9 o intermedi\u00e1rio financeiro que aproveita e esteriliza os esfor\u00e7os. As taxas astron\u00f4micas de juros que vimos, aplicadas a 1251 bilh\u00f5es de d\u00edvida da pessoa f\u00edsica, e 1464 bilh\u00f5es da pessoa jur\u00eddica, representam um dreno absolutamente insustent\u00e1vel para a economia. Uma elementar compara\u00e7\u00e3o internacional deixa as coisas claras.<\/p>\n<p>A tabela abaixo mostra que a taxa real de juros para pessoa f\u00edsica (descontada a infla\u00e7\u00e3o) cobrada pelo HSBC no Brasil \u00e9 de 63,42%, quando \u00e9 de 6,60% no mesmo banco para a mesma linha de cr\u00e9dito no Reino Unido. Para o Santander, as cifras correspondentes s\u00e3o 55,74% e 10,81%. Para o Citibank s\u00e3o 55,74% e 7,28%.\u00a0 O Ita\u00fa cobra s\u00f3lidos 63,5%. Para pessoa jur\u00eddica, \u00e1rea vital porque se trataria de fomento a atividades produtivas, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 igualmente absurda. Para pessoa jur\u00eddica, o HSBC, por exemplo, cobra 40,36% no Brasil, e 7,86 no Reino Unido. (Ipea, 2009)<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-730 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00800.png?resize=572%2C337\" alt=\"2016.06.14_00800\" width=\"572\" height=\"337\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00800.png?w=572&amp;ssl=1 572w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00800.png?resize=300%2C177&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 572px) 100vw, 572px\" \/><\/p>\n<p>Comenta o estudo do Ipea: \u201cPara empr\u00e9stimos \u00e0 pessoa f\u00edsica, o diferencial chega a ser \u00a0quase 10 vezes mais elevado para o brasileiro em rela\u00e7\u00e3o ao cr\u00e9dito equivalente no exterior. Para as pessoas jur\u00eddicas, os diferenciais tamb\u00e9m s\u00e3o dignos de aten\u00e7\u00e3o, sendo prejudiciais para o Brasil. Para empr\u00e9stimos \u00e0 pessoa jur\u00eddica, a diferen\u00e7a de custo \u00e9 menor, mas, mesmo assim, \u00e9 mais de 4 vezes maior para o brasileiro.\u201d Pesquisa da FIESP de 2010 chega a conclus\u00f5es semelhantes: \u201cA compara\u00e7\u00e3o internacional de juros deixa claro o motivo da elevada preocupa\u00e7\u00e3o com o tema no Brasil: enquanto a m\u00e9dia dos juros para empr\u00e9stimos dos outros pa\u00edses do IC-FIESP foi de 9,2% a. a. em 2008, os juros do Brasil eram de 39,6% a. a., ou seja, quase quatro vezes superiores.\u201d (FIESP, 2010) At\u00e9 a taxa de juros para aquisi\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis, empr\u00e9stimos volumosos e de longo prazo, com garantia no im\u00f3vel, que por exemplo no Canad\u00e1 pagam juros de 2,7%, aqui s\u00e3o da ordem de 12%.<\/p>\n<p>Comparativo\u00a0das\u00a0taxas anuais do cart\u00e3o de cr\u00e9dito, infla\u00e7\u00e3o e taxa b\u00e1sica de juro (em %). 16\/01\/2014<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-731\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00801.png?resize=622%2C282\" alt=\"2016.06.14_00801\" width=\"622\" height=\"282\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00801.png?w=622&amp;ssl=1 622w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00801.png?resize=300%2C136&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 622px) 100vw, 622px\" \/><\/p>\n<p><em>Fonte: Banco Central do Brasil e pesquisa pela internet.<\/em><br \/>\n<em>(*) Taxa acumulada nos \u00faltimos 12 meses \u2013 IPCA &#8211; 2014<\/em><br \/>\n<em><a href=\"http:\/\/www.proteste.org.br\/dinheiro\/cartao-de-credito\/noticia\/pais-continua-campeao-de-juro-no-cartao\">http:\/\/www.proteste.org.br\/dinheiro\/cartao-de-credito\/noticia\/pais-continua-campeao-de-juro-no-cartao<\/a><\/em><\/p>\n<p>Comentam os autores da pesquisa (Proteste com FGV): \u201cOs dados s\u00e3o ainda mais alarmantes se compararmos a taxa praticada no Brasil com a de outros pa\u00edses. A taxa praticada no Brasil \u00e9\u00a0525%\u00a0maior do que a do Peru, que \u00e9 o pa\u00eds com a maior taxa dentre os analisados. A na\u00e7\u00e3o peruana cobra 44,8% ao ano e o M\u00e9xico 39,16%\u00a0anuais. O menor percentual \u00e9 da Col\u00f4mbia, com 28,31% anuais.\u201d Os autores pesquisaram os prncipais bancos do Brasil: \u201cNo Brasil foram levantadas as taxas de juros cobradas no rotativo por 60 cart\u00f5es de cr\u00e9dito distribu\u00eddos por 11 institui\u00e7\u00f5es financeiras (Banco do Brasil, Banco IBI, Banrisul, Bradesco, BV Financeira, Caixa, Citibank, Credicard, HSBC, Ita\u00fa, e Santander)\u201d.<\/p>\n<p>Enfrentamos aqui, portanto, uma deforma\u00e7\u00e3o estrutural do nosso sistema de intermedia\u00e7\u00e3o financeira. N\u00e3o h\u00e1 grande mist\u00e9rio no processo: a financeiriza\u00e7\u00e3o mundial, com as suas diversas formas de organiza\u00e7\u00e3o segundo os pa\u00edses e as legisla\u00e7\u00f5es, adquiriu aqui formas diferentes de travar a economia, dimens\u00e3o nacional de uma deforma\u00e7\u00e3o hoje planet\u00e1ria.<\/p>\n<p>No caso dos bancos, gera-se assim uma situa\u00e7\u00e3o impressionante, em que apesar do PIB parado os lucros aumentaram mais de 18% entre 2013 e 2014, isto que j\u00e1 eram extremamente elevados. O Dieese publica os dados: \u201cEm 2014, as cinco maiores institui\u00e7\u00f5es financeiras obtiveram lucro l\u00edquido de, aproximadamente, R$ 60,3 bilh\u00f5es, crescimento de 18,5% na compara\u00e7\u00e3o com o ano anterior. O maior lucro l\u00edquido foi do Ita\u00fa Unibanco, de R$ 20,6 bilh\u00f5es. Esse resultado representou incremento de 30,2% em rela\u00e7\u00e3o a 2013. \u00c9 tamb\u00e9m o maior percentual de crescimento do lucro entre os cinco maiores bancos do pa\u00eds\u201d&#8230; \u201cDestacam-se, em termos de lucratividade e rentabilidade, o Ita\u00fa e o Bradesco. O lucro desses dois grandes bancos soma R$ 36 bilh\u00f5es, equivalente a cerca de 60% dos lucros dos cinco maiores.\u201d (Dieese, 2015) N\u00e3o entram aqui naturalmente fluxos orientados para para\u00edsos fiscais.<\/p>\n<p>Uma forma pouco divulgada da deforma\u00e7\u00e3o que gera este n\u00edvel de lucros \u00e9 a cobran\u00e7a de tarifas. Segundo o Dieese, somente com presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os e cobran\u00e7a de taxas, os cinco maiores bancos arrecadaram R$ 104,1 bilh\u00f5es, 10,9% a mais que o ano anterior. O valor deu para bancar, com folga, todos os gastos com os 451 mil banc\u00e1rios, que em 2014 custaram R$ 74,6 bilh\u00f5es, somados sal\u00e1rios, encargos, cursos e treinamentos. A estrat\u00e9gia dos bancos privados, nos \u00faltimos anos, visou incrementar os ganhos operacionais mediante crescimento das receitas com presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os e tarifas banc\u00e1rias e redu\u00e7\u00e3o de despesas, principalmente de pessoal. Em 2014, esses bancos cortaram 5.104 empregos. Santander,\u00a0Bradesco,\u00a0Ita\u00fa\u00a0e\u00a0Banco do Brasil\u00a0reduziram os quadros de funcion\u00e1rios em 8.390 postos de trabalho. O resultado s\u00f3 n\u00e3o foi pior porque foram abertos 3.286 novos postos na\u00a0Caixa, aponta o levantamento. (Dieese, 2015, ver reportagem Carlos Madeiro, Portal UOL, 18-04-2015)<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-732\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/tabela.png?resize=553%2C378\" alt=\"tabela\" width=\"553\" height=\"378\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/tabela.png?w=553&amp;ssl=1 553w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/tabela.png?resize=300%2C205&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 553px) 100vw, 553px\" \/><\/p>\n<p><em>Fonte: Dieese \u2013 2015 &#8211; Somente com essa receita, secund\u00e1ria no banco, o banco cobre a totalidade das despesas de pessoal e ainda sobra mais de 50% dessa despesa.<\/em><\/p>\n<p>Evidentemente, n\u00e3o s\u00e3o apenas os bancos que lucram com este sistema de intermedia\u00e7\u00e3o financeira, pois gerou-se uma m\u00e1quina de apropria\u00e7\u00e3o de recursos sem aporte produtivo que constitui um entrave estrutural \u00e0 economia do pa\u00eds. Outros grandes intermedi\u00e1rios participam, conforme vimos. O denominador comum, no entanto, \u00e9 que o sistema tal como se estruturou no Brasil desvia uma massa impressionante de recursos da \u00e1rea produtiva para a especula\u00e7\u00e3o. E encontra-se simplesmente desgovernada. O Banco Central acompanha as suas contas, mas n\u00e3o a sua produtividade ou funcionalidade econ\u00f4mica. E para a atividade de intermedia\u00e7\u00e3o financeira, que constitui uma atividade \u201cmeio\u201d e n\u00e3o \u201cfim\u201d, produtividade significa n\u00e3o quanto consegue retirar do sistema produtivo, e sim quanto consegue dinamiz\u00e1-lo. Como vimos no in\u00edcio, o lucro \u00e9 leg\u00edtimo quando contribui para gerar riqueza, n\u00e3o quando trava o funcionamento da economia.<\/p>\n<p><strong>A dimens\u00e3o jur\u00eddica<\/strong><\/p>\n<p>A nossa constitui\u00e7\u00e3o, no artigo 170\u00ba, define como princ\u00edpios da ordem econ\u00f4mica e financeira, entre outros, a fun\u00e7\u00e3o social da propriedade (III) e a livre concorr\u00eancia (IV). O artigo 173\u00ba no par\u00e1grafo 4\u00ba estipula que \u201ca lei reprimir\u00e1 o abuso do poder econ\u00f4mico que vise \u00e0 domina\u00e7\u00e3o dos mercados, \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o da concorr\u00eancia e ao aumento arbitr\u00e1rio dos lucros.\u201d O par\u00e1grafo 5 \u00e9 ainda mais expl\u00edcito: \u201cA lei, sem preju\u00edzo da responsabilidade individual dos dirigentes da pessoa jur\u00eddica, estabelecer\u00e1 a responsabilidade desta, sujeitando-a \u00e0s puni\u00e7\u00f5es compat\u00edveis com sua natureza, nos atos praticados contra a ordem econ\u00f4mica e financeira e contra a economia popular\u201d. Cartel \u00e9 crime. Lucro exorbitante sem contribui\u00e7\u00e3o correspondente produtiva ser\u00e1 \u201creprimido pela lei\u201d com \u201cpuni\u00e7\u00f5es compat\u00edveis\u201d.<\/p>\n<p>Na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, o artigo 192\u00ba tra\u00e7a as bases jur\u00eddicas do funcionamento do Sistema Financeiros Nacional (SFN): \u201cO sistema financeiro nacional [ser\u00e1] estruturado de forma a promover o desenvolvimento equilibrado do Pa\u00eds e a servir aos interesses da coletividade\u201d. Aqui, claramente, assistimos a uma viola\u00e7\u00e3o dos objetivos da nossa lei maior. As mesmas for\u00e7as que deformaram o sistema financeiro tiraram do mapa o que foi aprovado em 1988, no mesmo artigo: \u201cAs taxas de juros reais, nelas inclu\u00eddas comiss\u00f5es e quaisquer outras remunera\u00e7\u00f5es direta ou indiretamente referidas \u00e0 concess\u00e3o de cr\u00e9dito, n\u00e3o poder\u00e3o ser superiores a doze por cento ao ano; a cobran\u00e7a acima deste limite ser\u00e1 conceituada como crime de usura, punido, em todas as suas modalidades, nos termos que a lei determinar\u201d. N\u00e3o s\u00f3 conseguiram dobrar a constitui\u00e7\u00e3o, como conseguiram abolir a CPMF, \u00fanico imposto significativo, que al\u00e9m de taxar as transa\u00e7\u00f5es, permitia rastrear as transfer\u00eancias e gerar um m\u00ednimo de transpar\u00eancia. Amir Khair lembra que \u201ca tributa\u00e7\u00e3o sobre o patrim\u00f4nio alcan\u00e7ou apenas 4% e sobre a movimenta\u00e7\u00e3o financeira 2%\u201d. Financiar a pol\u00edtica pode ser muito rent\u00e1vel. (A. Khair, 2013)<\/p>\n<p>O surrealismo da situa\u00e7\u00e3o pode ser encontrado no documento da Febraban publicado em 2014: \u201cO sistema financeiro produz bens p\u00fablicos. O setor financeiro tem fun\u00e7\u00e3o cr\u00edtica para o desenvolvimento de um pa\u00eds. \u00c9 particularmente importante notar o papel dos bancos, que ao capturarem dep\u00f3sitos em dinheiro, jogam um papel fundamental na economia, j\u00e1 que eles: i) facilitam a intermedia\u00e7\u00e3o entre poupadores e projetos de investimento; ii) monitoram a realiza\u00e7\u00e3o de investimentos de capital por eles financiados; iii) contribuem para uma aloca\u00e7\u00e3o mais eficiente de recursos na economia; iv) jogam um papel cr\u00edtico na estabilidade monet\u00e1ria, e, v) fornecem servi\u00e7os de pagamento eficientes, reduzindo custos de transa\u00e7\u00e3o e oferecendo conveni\u00eancia para a sociedade como um todo.\u201d (Febraban, 2014, p. 14) N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que os agentes do sistema financeiro sabem o que <em>deveriam <\/em>fazer. O contraste com os mecanismos reais que vimos acima \u00e9 impressionante.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, h\u00e1 uma deforma\u00e7\u00e3o profunda em termos de regula\u00e7\u00e3o do sistema. A Anefac apresenta uma vis\u00e3o da liberdade total dos intermedi\u00e1rios financeiros cobrarem as taxas de juros que quiserem: \u201cDestacamos que as taxas de juros s\u00e3o livres e as mesmas s\u00e3o estipuladas pela pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o financeira n\u00e3o existindo assim qualquer controle de pre\u00e7os ou tetos pelos valores cobrados. A \u00fanica obrigatoriedade que a institui\u00e7\u00e3o financeira tem \u00e9 informar ao cliente quais as taxas que lhe ser\u00e3o cobradas caso \u00a0recorra a qualquer tipo de cr\u00e9dito.\u201d<\/p>\n<p>O sistema navega na realidade na escassa compreens\u00e3o dos mecanismos financeiros por parte n\u00e3o s\u00f3 da popula\u00e7\u00e3o, como dos jornalistas, advogados e tantos profissionais nunca receberam no nosso processo educacional uma s\u00f3 aula sobre como funciona o dinheiro. Isto permite aos intermedi\u00e1rios financeiros justificar incansavelmente na m\u00eddia os altos juros com a inadimpl\u00eancia dos tomadores de cr\u00e9dito. Na realidade, a inadimpl\u00eancia at\u00e9 seria compreens\u00edvel com estas taxas escorchantes. Mas n\u00e3o \u00e9 o que acontece: a inadimpl\u00eancia \u00e9 muito reduzida, entre 3% e 4%, inclusive entre os mais pobres. O ditado que corre, \u00e9 que pobre tem palavra, rico tem advogado. Os dados da inadimpl\u00eancia podem ser vistos no gr\u00e1fico abaixo, inclusive em queda.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-733\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/tabela2.png?resize=640%2C480\" alt=\"tabela2\" width=\"640\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/tabela2.png?w=666&amp;ssl=1 666w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/tabela2.png?resize=300%2C225&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p><em>Dieese \u2013 Power point \u2013 2014: Os dados de inadimpl\u00eancia (raz\u00e3o entre o montante de cr\u00e9dito com atrasos superiores a 90 dias sobre o total de cr\u00e9dito do banco) seguem est\u00e1veis (Bradesco) ou em queda (Ita\u00fa e Santander), impactado principalmente pela amplia\u00e7\u00e3o de carteiras de baixo risco.<\/em><\/p>\n<p>Esta vis\u00e3o gerou um vale-tudo que trava a economia. O sistema n\u00e3o se justifica por duas raz\u00f5es: primeiro, porque o banco, mesmo privado, funciona a partir da obten\u00e7\u00e3o de uma carta-patente do Estado que o autoriza a trabalhar com dinheiro do p\u00fablico, a quem deve prestar um servi\u00e7o, na linha da utilidade social. Portanto deve ser submetido a uma regula\u00e7\u00e3o segundo este crit\u00e9rio. Segundo, porque no caso brasileiro formou-se um cartel que permite ao reduzido n\u00famero de institui\u00e7\u00f5es financeiras cobrar juros estratosf\u00e9ricos sem que o cliente tenha op\u00e7\u00e3o. Do ponto de vista do usu\u00e1rio de servi\u00e7os financeiros, sem prote\u00e7\u00e3o reguladora do poder p\u00fablico, e sem mecanismos de mercado que levem os intermedi\u00e1rios a competirem para atrair o cliente oferecendo melhores servi\u00e7os e mais baratos, gerou-se um sistema de extors\u00e3o. Como somos for\u00e7ados a utilizar estes servi\u00e7os, n\u00e3o temos como escapar do ped\u00e1gio, hoje um aut\u00eantico imposto privado.<\/p>\n<p>O resultado pr\u00e1tico \u00e9 uma deforma\u00e7\u00e3o sist\u00eamica do conjunto da economia, que trava a demanda do lado do consumo, fragiliza o investimento, e reduz a capacidade do governo de financiar infraestruturas e pol\u00edticas sociais. Se acrescentarmos a deforma\u00e7\u00e3o do nosso sistema tribut\u00e1rio, baseado essencialmente em impostos indiretos (embutidos nos pre\u00e7os), com fr\u00e1gil incid\u00eancia sobre a renda e o patrim\u00f4nio, temos aqui o quadro completo de uma economia prejudicada nos seus alicerces, que avan\u00e7a sem d\u00favida, mas carregando um peso morto cada vez menos sustent\u00e1vel. Precisamos de um sistema de regula\u00e7\u00e3o que torne a intermedia\u00e7\u00e3o financeira funcional para a economia. N\u00e3o basta um ajuste fiscal nas contas p\u00fablicas quando o sistema financeiro no seu conjunto est\u00e1 profundamente deformado.<\/p>\n<p><strong>A dimens\u00e3o internacional<\/strong><\/p>\n<p>O dreno sobre as atividades produtivas, tanto do lado do consumo como do investimento, \u00e9 planet\u00e1rio. Faz parte de uma m\u00e1quina internacional que desde a liberaliza\u00e7\u00e3o da regula\u00e7\u00e3o financeira com os governos Reagan e Thatcher no in\u00edcio dos anos 1980l, at\u00e9 a liquida\u00e7\u00e3o do principal sistema de regula\u00e7\u00e3o, o Glass-Steagall Act, por Clinton em 2009, gerou um vale-tudo internacional.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o internacional tornou-se hoje mais documentada a partir da crise de 2008. O pr\u00f3prio descalabro gerado e o travamento da economia mundial, levaram a que fossem levantados os dados b\u00e1sicos das finan\u00e7as internacionais, que curiosamente sempre escaparam do <em>International Financial Statistics <\/em>do FMI. Apresentamos em outros estudos o detalhe de cada uma das novas pesquisas que surgiram, e apenas resumimos aqui o seus principais resultados, para facilitar uma vis\u00e3o de conjunto.<\/p>\n<ul>\n<li>O Instituto Federal Su\u00ed\u00e7o de Pesquisa Tecnol\u00f3gica (ETH na sigla alem\u00e3) constatou que 147 grupos controlam 40% do mundo corporativo do planeta, sendo 75% deles institui\u00e7\u00f5es financeiras. Pertencem na sua quase totalidade aos pa\u00edses ricos, essencialmente Europa ocidental e Estados Unidos. (ETH, 2011)<\/li>\n<li>O Tax Justice Network, com pesquisa coordenada por James Henry, apresenta o estoque de capitais aplicados em para\u00edsos fiscais, da ordem de 21 a 32 trilh\u00f5es de d\u00f3lares, para um PIB mundial da ordem de 70 trilh\u00f5es. Estamos falando de quase um ter\u00e7o a metade do Pib mundial. A economia do planeta est\u00e1 fora do alcance de qualquer regula\u00e7\u00e3o, e controlada por intermedi\u00e1rios, n\u00e3o por produtores.\u00a0 O rentismo impera, e \u00e9 apresentado como desafio na reuni\u00e3o do G20 em novembro de 2014. (TJN, 2012)<\/li>\n<li>O dossi\u00ea produzido pelo <em>Economist<\/em> sobre os para\u00edsos fiscais (<em>The missing 20 trillion $<\/em>) arredonda o estoque para 20 trilh\u00f5es, mas mostra que s\u00e3o geridos pelos principais bancos do planeta, n\u00e3o em ilhas paradis\u00edacas, mas essencialmente por bancos dos EUA e da Inglaterra. (Economist, 2013)<\/li>\n<li>As pesquisas do ICIJ (<em>International Consortium of Investigative Journalists<\/em>) tem chegado a in\u00fameros nomes de empresas e donos de fortunas, com detalhes de instru\u00e7\u00f5es e movimenta\u00e7\u00f5es, progressivamente divulgados \u00e0 medida que trabalham os imensos arquivos recebidos. Em novembro de 2014 publicaram o gigantesco esquema de evas\u00e3o fiscal das multinacionais, usando o para\u00edso fiscal que se tornou Luxemburgo. S\u00e3o apresentados em detalhe os montantes de evas\u00e3o por parte dos bancos Ita\u00fa e Bradesco. (ICIJ, 2014) (Fernando Rodrigues, 2014)<\/li>\n<li>O estudo de Joshua Schneyer, sistematizando dados da Reuters, mostra que 16 grupos comerciais internacionais controlam o essencial da intermedia\u00e7\u00e3o das commodities planet\u00e1rias (gr\u00e3os, energia, minerais), a maior parte com sedes em para\u00edsos fiscais (Genebra em particular), criando o atual quadro de especula\u00e7\u00e3o financeira-comercial sobre os produtos que constituem o sangue da economia mundial. Lembremos que os <em>derivativos <\/em>desta economia especulativa (<em>outstanding derivatives<\/em>) ultrapassam 600 trilh\u00f5es de d\u00f3lares, para um PIB mundial de 70 trilh\u00f5es. (BIS, 2013) (Schneyer, 2013)<\/li>\n<li>O <em>Cr\u00e9dit Suisse <\/em>divulga a an\u00e1lise das grandes fortunas mundiais\u00a0 apresentando a concentra\u00e7\u00e3o da propriedade de 223 trilh\u00f5es de d\u00f3lares acumulados (patrim\u00f4nio acumulado, n\u00e3o a renda anual), sendo que basicamente 1% dos mais afortunados possui cerca de 50% da riqueza acumulada no planeta.<\/li>\n<li>Os dados sobre a m\u00e1quina de evas\u00e3o fiscal administrada pelo HSBC apareceram no Le Monde e s\u00e3o regularmente analisados pelo Guardian \u00e0 medida que surgem mais nomes dos clientes, entre os quais milhares de fortunas brasileiras. <a href=\"http:\/\/www.theguardian.com\/business\/hsbcholdings\">http:\/\/www.theguardian.com\/business\/hsbcholdings<\/a><\/li>\n<li>Em termos de an\u00e1lise dos 28 bancos sistemicamente dominantes no planeta, os trabalhos de Fran\u00e7ois Morin, ex-membro do conselho geral da Banque de France, apresentam a estrutura do oligop\u00f3lio mundial, o seu funcionamento, bem como as institui\u00e7\u00f5es que articulam o cartel, em particular o Global Financial Markets Association (GFMA) e o Institute of International Finance (IFF). Sobre este \u00faltimo, Morin comenta: \u201cO presidente do IFF tem estatus oficial, reconhecido, que o habilita de direito, a falar em nome dos grandes bancos. Poder\u00edamos dizer que o IFF \u00e9 o parlamento dos bancos, o seu presidente tem quase o status de chefe de estado. Ele faz parte <em>de facto<\/em> dos grandes com poder mundial de decis\u00e3o.\u201d(Morin, p. 61)<\/li>\n<\/ul>\n<p>Temos assim um sistema planet\u00e1rio deformado, e o Brasil \u00e9 uma pe\u00e7a apenas na alimenta\u00e7\u00e3o do processo mundial de concentra\u00e7\u00e3o de capital acumulado por intermedi\u00e1rios financeiros e comerciais. N\u00e3o temos estudos suficientes nem press\u00e3o pol\u00edtica correspondente para ter o detalhe de como funciona a dimens\u00e3o internacional desta engrenagem no Brasil. No entanto, dois estudos nos trazem ordens de grandeza.<\/p>\n<p>O estudo mencionado do <em>Tax Justice Network, <\/em>desdobra algumas cifras de estoques de capital em para\u00edsos fiscais por regi\u00f5es. No caso do Brasil, encontramos como ordem de grandeza 519,5 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, o que representa cerca de 25% do PIB brasileiro. (Primeira linha, quinta coluna de cifras da tabela abaixo).<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-734\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00802.png?resize=640%2C273\" alt=\"2016.06.14_00802\" width=\"640\" height=\"273\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00802.png?w=840&amp;ssl=1 840w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00802.png?resize=300%2C128&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00802.png?resize=768%2C327&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p><em>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.taxjustice.net\/cms\/upload\/pdf\/Appendix%203%20-%202012%20Price%20of%20Offshore%20pt%201%20-%20pp%201-59.pdf\">http:\/\/www.taxjustice.net\/cms\/upload\/pdf\/Appendix%203%20-%202012%20Price%20of%20Offshore%20pt%201%20-%20pp%201-59.pdf<\/a><\/em><\/p>\n<p>Assim, o Brasil n\u00e3o est\u00e1 isolado, neste sistema planet\u00e1rio, nem \u00e9 particularmente corrupto. Mas o conjunto criado \u00e9 sim profundamente corrompido. Os dados para o Brasil, 519,5 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em termos de capitais offshore, s\u00e3o de toda forma impressionantes, ocupamos o quarto lugar no mundo. Estes recursos deveriam pagar os impostos, que permitiriam ampliar investimentos p\u00fablicos, e deveriam ser aplicados em fomento da economia onde foram gerados.<\/p>\n<p>Um estudo particularmente interessante \u00e9 do <em>Global Financial Integrity, <\/em>coordenado por Dev Kar, <em>Brasil: fuga de capitais, fluxos il\u00edcitos e as crises macro-econ\u00f4micas<\/em>, 1960-2012. Trata-se de uma sangria de recursos por evas\u00e3o, estimada em cerca de 100 bilh\u00f5es de reais por ano entre 2010 e 2012, (cerca de 2% do PIB). S\u00e3o recursos que por sua vez ir\u00e3o alimentar em boa parte o estoque de mais de um trilh\u00e3o de reais em para\u00edsos fiscais visto acima. Segundo o relat\u00f3rio, \u201c o governo deve fazer muito mais para combater tanto o subfaturamento de exporta\u00e7\u00f5es como o superfaturamento de importa\u00e7\u00f5es, adotando ativamente medidas dissuasivas adicionais em vez de puni\u00e7\u00f5es retroativas.\u201d (GFI, 2014)<\/p>\n<p>Trata-se aqui, dominantemente, das empresas multinacionais. Kofi Annan considera que este mecanismo drena cerca de 38 bilh\u00f5es de d\u00f3lares por ano das economias africanas. O mecanismo \u00e9 conhecido como <em>mispricing, <\/em>ou <em>trade misinvoicing.<\/em> Estudo mais recente do pr\u00f3prio GFI chegou a 60 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, cerca de 5,5% do PIB dos pa\u00edses da \u00c1frica ao sul do Saara. Gradualmente, est\u00e1 se ampliando a capacidade de avalia\u00e7\u00e3o destes drenos sobre as nossas economias. Algumas das principais institui\u00e7\u00f5es de pesquisa sobre o tema, como a Oxfam e o pr\u00f3prio GFI, resumiram a quest\u00e3o na <em>New Haven Declaration on Human Rights and Financial Integrity<\/em>: \u201cO dinheiro il\u00edcito sai dos pa\u00edses pobres atrav\u00e9s de um sistema financeiro paralelo (<em>shadow financial system)<\/em> que inclui para\u00edsos fiscais, jurisdi\u00e7\u00f5es secretas, empresas fict\u00edcias, contas an\u00f4nimas, funda\u00e7\u00f5es de faz-de-conta, fraudes nos pre\u00e7os e notas fiscais e t\u00e9cnicas de lavagem de dinheiro. Este dinheiro \u00e9 em grande parte permanentemente desviado para economias ocidentais.\u201d (GFI 2015) T\u00e3o importante quanto o dreno de recursos, \u00e9 a m\u00e1quina de corrup\u00e7\u00e3o e contamina\u00e7\u00e3o dos centros de decis\u00e3o pol\u00edtica e dos judici\u00e1rios. Para a democracia, \u00e9 um c\u00e2ncer. Mas n\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel o Brasil se submeter a estas din\u00e2micas.<\/p>\n<p>Se quisermos retomar a din\u00e2mica de desenvolvimento, um pa\u00eds com as nossas\u00a0 dimens\u00f5es e diversifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica pode reorientar os seus recursos financeiros. E os pr\u00f3prios intermedi\u00e1rios financeiros, em vez de cobrar juros alt\u00edssimos com um volume restrito de cr\u00e9dito, poder\u00e3o encontrar os seus lucros emprestando um volume maior com juros menores.<\/p>\n<p><strong>Resgatando o controle<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 importante lembrar aqui que o presente estudo n\u00e3o \u00e9 contra os bancos e o sistema de cr\u00e9dito, e sim contra a deforma\u00e7\u00e3o do seu uso, por grupos nacionais e internacionais que transformaram o potencial das nossas poupan\u00e7as em dreno, em vez de utiliz\u00e1-las para fomentar o desenvolvimento. \u00c9 um sistema baseado no lucro de curto prazo que viola radicalmente as bases jur\u00eddicas que regem as suas fun\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de alimentar um cassino internacional cujas ilegalidades s\u00e3o generalizadas. Temos de lembrar aqui que um banco, mesmo privado, funciona sobre a base de uma carta patente que o autoriza a trabalhar com o dinheiro da sociedade, com lucro que \u00e9 leg\u00edtimo quando exerce a sua fun\u00e7\u00e3o sist\u00eamica social de promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento. Este ponto \u00e9 essencial, pois se um banco tira o seu lucro apropriando-se de uma parcela do produto adicional gerado na sociedade por financiamentos produtivos que ajudou a organizar, \u00e9 perfeitamente leg\u00edtimo e positivo para a sociedade. Mas se obt\u00e9m o seu lucro a partir de movimenta\u00e7\u00f5es especulativas e juros que travam o investimento e a demanda, cobrando ped\u00e1gio a dificultar o acesso, o resultado \u00e9 um poderoso entrave ao desenvolvimento.<\/p>\n<p>Na realidade, temos hoje no Brasil uma capacidade instalada impressionante, com uma grande densidade de ag\u00eancias pelo pa\u00eds afora, com ampla infraestrutura inform\u00e1tica, excelentes t\u00e9cnicos e m\u00e3o de obra formada e experiente, com grande capacidade potencial de regula\u00e7\u00e3o pelo Banco Central, al\u00e9m de economistas de primeira linha que podem ajudar na reformula\u00e7\u00e3o. \u00c9 a orienta\u00e7\u00e3o do uso deste capital de conhecimentos, de infraestrutura e de organiza\u00e7\u00e3o que precisa ser revisto. Neste sentido trata-se de uma reforma financeira, que n\u00e3o exige grandes investimentos, pois a m\u00e1quina est\u00e1 constitu\u00edda, mas sim um grande esfor\u00e7o pol\u00edtico de sua reorienta\u00e7\u00e3o produtiva.<\/p>\n<p>Trabalhando com juros decentes mas com uma massa muito maior de cr\u00e9dito, os bancos e outros intermedi\u00e1rios financeiros ter\u00e3o lucro leg\u00edtimo. Reinvestindo no pa\u00eds em bens e servi\u00e7os de verdade em vez de multiplicar produtos financeiros, encontrar\u00e3o a sua viabilidade econ\u00f4mica no longo prazo e de maneira sustent\u00e1vel. Financiando atividades produtivas no Brasil e fomentando assim a economia, dever\u00e3o sem d\u00favida pagar impostos, mas a prazo a op\u00e7\u00e3o atual pelos para\u00edsos fiscais, il\u00edcita quando n\u00e3o ilegal, n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel, e o argumento de \u201ctodo mundo faz\u201d \u00e9 escorregadia. Ali\u00e1s, lucrar honestamente \u00e9 saud\u00e1vel para todos. Trata-se aqui n\u00e3o de realizar gigantescos investimentos inovadores, mas de utilizar de forma inteligente o que j\u00e1 temos.<\/p>\n<p><em>A luta pela redu\u00e7\u00e3o juros:<\/em> No plano interno, as medidas n\u00e3o podem ser diretas. A ANEFAC, conforme vimos acima, deixa claras as limita\u00e7\u00f5es de um sistema que \u00e9 formalmente regido pelo direito privado: \u201cDestacamos que as taxas de juros s\u00e3o livres e as mesmas s\u00e3o estipuladas pela pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o financeira n\u00e3o existindo assim qualquer controle de pre\u00e7os ou tetos pelos valores cobrados. A \u00fanica obrigatoriedade que a institui\u00e7\u00e3o financeira tem \u00e9 informar ao cliente quais as taxas que lhe ser\u00e3o cobradas caso \u00a0recorra a qualquer tipo de cr\u00e9dito.\u201d\u00a0 Naturalmente, como se trata de um cartel, o tomador de cr\u00e9dito n\u00e3o tem op\u00e7\u00e3o. As recomenda\u00e7\u00f5es da ANEFAC s\u00e3o muito simples: \u201cSe poss\u00edvel adie suas compras para juntar o dinheiro e comprar o mesmo \u00e0 vista evitando os juros.\u201d\u00a0 Ou seja, n\u00e3o use o cr\u00e9dito. Isto recomendado pela Associa\u00e7\u00e3o dos Executivas de Finan\u00e7as, Administra\u00e7\u00e3o e Contabilidade, \u00e9 impressionante.<\/p>\n<p>Mas o governo tem armas poderosas. A primeira \u00e9 retomar a redu\u00e7\u00e3o progressiva da taxa Selic, o que obrigaria os bancos a procurarem aplica\u00e7\u00f5es alternativas, voltando a irrigar iniciativas de empreendedores, e reduzindo o vazamento dos recursos p\u00fablicos para os bancos. A segunda \u00e9 de reduzir as taxas de juros ao tomador final na rede de bancos p\u00fablicos, conforme foi experimentado em 2013, mas persistindo desta vez na din\u00e2mica. \u00c9 a melhor forma de introduzir mecanismos de mercado no sistema de intermedia\u00e7\u00e3o financeira, contribuindo para fragilizar o cartel e obrigando-o a reduzir os\u00a0 juros estratosf\u00e9ricos: o tomador final voltaria a ter op\u00e7\u00f5es. O procedimento t\u00e9cnico desta op\u00e7\u00e3o \u00e9 perfeitamente claro, o que falta \u00e9 for\u00e7a pol\u00edtica organizada que possa fazer contrapeso \u00e0 classe de especuladores e rentistas do pa\u00eds, que em 2013, com apoio da m\u00eddia em particular, conseguiram travar o processo. No Brasil, a taxa Selic pode perfeitamente ser utilizada como term\u00f3metro da for\u00e7a das oligarquias mais retr\u00f3gradas do pa\u00eds.<\/p>\n<p><em>Reduzir a evas\u00e3o fiscal<\/em>: \u00c9 importante antes de tudo entendermos os limites da atua\u00e7\u00e3o de um governo. No plano internacional, enquanto existir a toler\u00e2ncia de fato, por parte das elites americanas e europeias, dos para\u00edsos fiscais, inclusive nos pr\u00f3prios EUA como \u00e9 o caso do Estado de Delaware, e na Europa como \u00e9 o caso de Luxemburgo e da Su\u00ed\u00e7a, dificilmente haver\u00e1 qualquer possibilidade de controle real. A evas\u00e3o fiscal torna-se demasiado simples, e a possibilidade de localizar os capitais ilegais muito reduzida.<\/p>\n<p>Ainda segundo a Tax Justice Network, os dados de evas\u00e3o fiscal do Brasil de 2011 colocam o nosso pa\u00eds, com 280 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, em segundo lugar no mundo em volume de recursos que escapam ao fisco, atr\u00e1s dos Estados Unidos (lembrando que sendo o PIB americano muito mais elevado, a propor\u00e7\u00e3o da evas\u00e3o \u00e9 muito menor neste pa\u00eds): (TJN, 2011)<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-735\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00803.png?resize=637%2C420\" alt=\"2016.06.14_00803\" width=\"637\" height=\"420\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00803.png?w=637&amp;ssl=1 637w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00803.png?resize=300%2C198&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 637px) 100vw, 637px\" \/><\/p>\n<p>O sindicato Nacional de Procuradores da Fazenda Nacional (SINPROFAZ), com outra metodologia, estima a evas\u00e3o fiscal no Brasil em 8,6% do PIB em 2014, mais de 500 bilh\u00f5es de reais: \u00a0\u201cOs resultados indicaram que, mantendo todos os demais par\u00e2metros constantes, a arrecada\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria brasileira poderia se expandir em 23,6%, caso fosse poss\u00edvel eliminar a evas\u00e3o tribut\u00e1ria, cujo indicador m\u00e9dio para todos os tributos apontado neste trabalho foi da ordem de 8,6% do PIB.\u201d (p.35) \u201cEsses R$ 518,2 bilh\u00f5es estimados de sonega\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria s\u00e3o praticamente equivalentes a quase 90% de tudo que foi arrecadado pelos estados e munic\u00edpios juntos, estimados em R$ 597,6 bilh\u00f5es.\u201d (p.37)<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-736\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00804.png?resize=621%2C298\" alt=\"2016.06.14_00804\" width=\"621\" height=\"298\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00804.png?w=621&amp;ssl=1 621w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00804.png?resize=300%2C144&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 621px) 100vw, 621px\" \/><\/p>\n<p>No plano dos fluxos para o exterior a ordem pode ser bastante melhorada no controle das sa\u00eddas, do sub e sobrefaturamento e semelhantes. O relat\u00f3rio da GFI, mencionado acima, aponta estas possibilidades e reconhece fortes avan\u00e7os do Brasil nos \u00faltimos anos. No plano internacional e positivo, surge finalmente o BEPS <em>(Base Erosion and Profit Shifting), <\/em>endossado por 40 pa\u00edses que representam 90% do PIB mundial, in\u00edcio de redu\u00e7\u00e3o do sistema planet\u00e1rio de evas\u00e3o fiscal pelas empresas transnacionais. A resist\u00eancia dos grandes grupos internacionais promete ser feroz. (OCDE, 2014)<\/p>\n<p><em>A reforma tribut\u00e1ria: <\/em>\u00c9 vital resgatar um m\u00ednimo de equil\u00edbrio tribut\u00e1rio: n\u00e3o se trata de aumentar os impostos, mas de racionalizar a sua incid\u00eancia e de fiscalizar o pagamento. A pesquisa do Inesc mostra que \u201ca tributa\u00e7\u00e3o sobre o patrim\u00f4nio \u00e9 quase irrelevante no Brasil, pois equivale a 1,31% do PIB, representando apenas 3,7% da arrecada\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria de 2011. Em alguns pa\u00edses do capitalismo central, os impostos sobre o patrim\u00f4nio representam mais de 10% da arrecada\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria, como, por exemplo, Canad\u00e1 (10%), Jap\u00e3o (10,3%), Coreia (11,8%), Gr\u00e3\u2011Bretanha (11,9%) e EUA (12,15).\u201d \u00a0(Inesc, 2014, p.21) Se acrescentarmos a baixa incid\u00eancia do imposto sobre a renda, e o fato dos impostos indiretos representarem 56% da arrecada\u00e7\u00e3o, e o fato dos grandes devedores recorrerem de forma massiva \u00e0 evas\u00e3o fiscal, temos no conjunto uma situa\u00e7\u00e3o que clama por mudan\u00e7as.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-737\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00805.png?resize=640%2C318\" alt=\"2016.06.14_00805\" width=\"640\" height=\"318\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00805.png?w=686&amp;ssl=1 686w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00805.png?resize=300%2C149&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p><em>Fonte: Inesc \u2013 Implica\u00e7\u00f5es do sistema tribut\u00e1rio brasileiro, set. 2014, (parte da Tab.1 p. 13)<\/em><\/p>\n<p>\u201cConv\u00e9m destacar que a carga tribut\u00e1ria \u00e9 muito regressiva no Brasil, pois est\u00e1<\/p>\n<p>concentrada em tributos indiretos e cumulativos que oneram mais os\/as trabalhadores\/ as e os mais pobres, uma vez que mais da metade da arrecada\u00e7\u00e3o prov\u00e9m de tributos que incidem sobre bens e servi\u00e7os, havendo baixa tributa\u00e7\u00e3o sobre a renda e o patrim\u00f4nio. Segundo informa\u00e7\u00f5es extra\u00eddas da Pesquisa de Or\u00e7amento Familiar (POF) de 2008\/2009 pelo Ipea, estima-se que 10% das fam\u00edlias mais pobres do Brasil destinam 32% da renda dispon\u00edvel para o pagamento de tributos, enquanto 10% das fam\u00edlias mais ricas gastam 21% da renda em tributos.\u201d (Inesc, 2014, p.6)<\/p>\n<p>Lembremos ainda que os assalariados t\u00eam os seus rendimentos declarados na fonte, enquanto o mundo corporativo e das grandes fortunas tem \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o a ajuda da pr\u00f3pria m\u00e1quina banc\u00e1ria com especialistas em evas\u00e3o ou elis\u00e3o fiscal, como se v\u00ea nos dados do HSBC publicados no in\u00edcio de 2015. Tal como est\u00e1 estruturado o sistema tribut\u00e1rio tende a onerar a renda dos pobres, que gastam o que recebem e estimulam a economia pelo lado da demanda, enquanto os mais ricos, cuja participa\u00e7\u00e3o no esfor\u00e7o fiscal fica proporcionalmente mais limitada, passam a ter mais dinheiro mas o aplicam na ciranda financeira.<\/p>\n<p>Amir Khair resume o drama em um par\u00e1grafo: \u201cA pol\u00edtica tribut\u00e1ria no Brasil \u00e9 voltada a extrair tributos, fundamentalmente, do consumo, por meio de al\u00edquotas elevadas que incidem sobre o pre\u00e7o de venda de bens e servi\u00e7os. Isto inibe o consumo, sacrificando a maioria da popula\u00e7\u00e3o, cuja maior parte da renda se destina ao consumo, e reduz a competitividade das empresas. Constitui, assim, trava ao crescimento econ\u00f4mico. Por outro lado, subtributa o patrim\u00f4nio e a renda, beneficiando as camadas de maior renda e riqueza\u201d. (A. Khair, 2013, p.148) Uma proposta bem ordenada de reforma tribut\u00e1ria foi elaborada por Odilon Guedes e outros do Sindicato de Economistas de S\u00e3o Paulo. (Guedes, 2015)<\/p>\n<p><em>Sistemas financeiros locais:<\/em> Trata-se de ampliar, tanto em termos de escala como de capilaridade, o conjunto dos sistemas locais de financiamento, as chamadas finan\u00e7as de proximidade. Voltando ao exemplo visto rapidamente acima, o sistema alem\u00e3o de cr\u00e9dito, muito descentralizado e constituindo um poderoso vetor de dinamiza\u00e7\u00e3o da pequena e m\u00e9dia empresa, \u00e9 um ponto de refer\u00eancia interessante. \u201cNa Alemanha, os grandes bancos de cobertura nacional constituem apenas cerca de 13% do sistema banc\u00e1rio. O sistema \u00e9 muito dominantemente (<em>overwhelmingly) <\/em>de base local, apoiando pequenas e m\u00e9dias empresas que asseguram 80% dos empregos em qualquer economia. Setenta por centos dos bancos s\u00e3o de propriedade e controle local (42,9% caixas de poupan\u00e7a e 26,6% bancos cooperativos). Estes bancos t\u00eam obriga\u00e7\u00e3o legal de investir localmente, e n\u00e3o emprestam para especula\u00e7\u00e3o mas para empresas produtivas que contribuem com o PIB real. Para crescer e prosperar, precisam faz\u00ea-lo em parceria com a economia produtiva local. O sistema n\u00e3o \u00e9 centrado na extra\u00e7\u00e3o mas no suporte e na sustentabilidade.\u201d (Brown, p. 269)<\/p>\n<p>Neste sentido o Brasil j\u00e1 acumulou um manancial de experi\u00eancias como o Microcr\u00e9dito Produtivo Orientado (PNMPO), o programa CRESCER, os sistemas desenvolvidos pelo Banco do Nordeste, os hoje mais de 100 bancos comunit\u00e1rios e outras iniciativas. Devidamente apoiadas, estas experi\u00eancias podem ampliar muito o seu impacto, e sistemas locais de cr\u00e9dito j\u00e1 deram as suas provas em in\u00fameras experi\u00eancias. Mas \u00e9 essencial compreender que o pr\u00f3prio sistema banc\u00e1rio e de intermedia\u00e7\u00e3o financeira em geral, que hoje constitui um n\u00famero limitado de gigantes econ\u00f4micos, tem de passar a contribuir para a dinamiza\u00e7\u00e3o produtiva do pa\u00eds.<\/p>\n<p><em>Gerar transpar\u00eancia sobre os fluxos financeiros: <\/em>pela import\u00e2ncia que adquiriu a intermedia\u00e7\u00e3o financeira, \u00e9 preciso dinamizar um conjunto de pesquisas sobre os fluxos financeiros internos, e disponibiliz\u00e1-las amplamente, de maneira a gerar uma transpar\u00eancia maior nesta \u00e1rea onde as pessoas simplesmente n\u00e3o se orientam. Para criar a for\u00e7a pol\u00edtica capaz de reduzir o grau de carteliza\u00e7\u00e3o, reintroduzindo mecanismos de mercado e transformando o sistema de intermedia\u00e7\u00e3o financeira, \u00e9 preciso ter uma popula\u00e7\u00e3o informada. Um das coisas mais impressionantes para esta \u00e1rea vital para o desenvolvimento do pa\u00eds, \u00e9 o profundo sil\u00eancio n\u00e3o s\u00f3 da m\u00eddia mas tamb\u00e9m da academia e dos institutos de pesquisa, sobre o processo escandaloso de deforma\u00e7\u00e3o da economia pelo sistema financeiro. O fato dos grupos financeiros serem grandes anunciantes na m\u00eddia evidentemente n\u00e3o ajuda na transpar\u00eancia.<\/p>\n<p>A intermedia\u00e7\u00e3o financeira n\u00e3o \u00e9 apenas \u00fatil, \u00e9 necess\u00e1ria. Mas tudo depende de quanto esta m\u00e1quina financeira custa, de quem capta os recursos e em que montantes, e como os aplica. \u00c9 importante que a sua contribui\u00e7\u00e3o para a economia real seja maior do que o que custa. Quando um credi\u00e1rio cobra 13% ao ano dando acesso a quem n\u00e3o pode comprar \u00e0 vista, est\u00e1 dinamizando a economia pelo lado da demanda, mas quando cobra mais de 100% sobre um produto que n\u00e3o precisou produzir, est\u00e1 evidentemente sangrando a economia, reduzindo o volume de compras em vez de estimul\u00e1-lo. Os lucros neste caso, apropriados por um pequeno n\u00facleo bilion\u00e1rio, n\u00e3o \u00e9 apenas ileg\u00edtimo, \u00e9 ilegal nos termos da Constitui\u00e7\u00e3o. O lucro do intermedi\u00e1rio financeiros \u00e9 perfeitamente leg\u00edtimo quando serve a economia, n\u00e3o quando dela apenas se serve.<\/p>\n<p><em>Promover a reconvers\u00e3o da especula\u00e7\u00e3o para o fomento econ\u00f4mico<\/em>: \u00c9 essencial portanto entender que a intermedia\u00e7\u00e3o financeira n\u00e3o \u00e9 produtiva como atividade, pois \u00e9 uma atividade-meio: a sua produtividade se d\u00e1 de forma indireta, quando investe os recursos captados da economia para financiar atividades produtivas, estimulando a economia real, as chamadas atividades-fins. Ao agregar as nossas poupan\u00e7as para fomentar a economia, cumpre um papel positivo. Se as drena para fins especulativos, fragilizando a demanda e o investimento, est\u00e1 sendo contra-produtivo, torna-se um atravessador. \u00c9 o nosso caso. Como s\u00e3o poucos e grandes os principais bancos, a carteliza\u00e7\u00e3o torna-se natural, e a coopta\u00e7\u00e3o do Banco Central como \u00f3rg\u00e3o regulador fecha o c\u00edrculo. A capacidade de gerar crises sist\u00eamicas, na linha do <em>too big to fail <\/em>constatado nos EUA e na Europa em particular, adquiriu aqui fei\u00e7\u00f5es diferentes, mas fun\u00e7\u00f5es iguais, pela capacidade real de chantagem pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O exemplo da intermedia\u00e7\u00e3o financeira na China ajuda a entender a alternativa: as estrat\u00e9gias do desenvolvimento chin\u00eas \u201cincluem a regula\u00e7\u00e3o do setor financeiro de maneira que forne\u00e7a capital para investimentos produtivos no setor manufatureiro, e um compromisso com pol\u00edticas centradas na gera\u00e7\u00e3o de empregos, promovendo o desenvolvimento de uma classe m\u00e9dia, que por sua vez amplia os mercados para as empresas\u201d. (Brown, p.71; Hersh 2012)) N\u00e3o se trata de ser contra os bancos, e sim de batalhar a sua reconvers\u00e3o no sentido de se tornarem vetores de desenvolvimento. Neste sentido, o conjunto de avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos, as infraestruturas, os conhecimentos adquiridos nos mecanismos financeiros podem todos ser aproveitados e se tornarem uma alavanca poderosa de desenvolvimento.<\/p>\n<p><strong>A alavanca de poder: desestabiliza\u00e7\u00e3o externa e infla\u00e7\u00e3o provocada<\/strong><\/p>\n<p>Se sabemos o que fazer, porque n\u00e3o o fazemos? Acompanhamos em 2013 os esfor\u00e7os do governo de introduzir mecanismos de mercado no cartel dos intermedi\u00e1rios financeiros. As medidas eram corretas \u2013 reduzir a taxa Selic e oferecer taxas decentes de juros para consumidores e investidores atrav\u00e9s dos bancos oficiais \u2013 mas o governo teve de recuar. Como recuaram os Estados Unidos que inicialmente tinham deixado quebrar o Lehman Brothers, mas logo tiveram que se dobrar e encher os caixas dos especuladores com recursos p\u00fablicos. Semelhante subservi\u00eancia tiveram de mostrar os pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia, ainda que os pa\u00edses mais fortes tenham conseguido jogar o \u00f4nus sobre os seus membros mais fr\u00e1geis.<\/p>\n<p>H\u00e1 portanto uma poderosa capacidade de press\u00e3o, por exemplo atrav\u00e9s das ag\u00eancias de avalia\u00e7\u00e3o de risco, que s\u00e3o apenas tr\u00eas, e que pertencem aos mesmos grupos mundiais de especula\u00e7\u00e3o financeira. Os seus interesses n\u00e3o est\u00e3o vinculados a aconselhar onde os investimentos estar\u00e3o mais produtivos ou mais seguros, mas onde isto se verifica para aplica\u00e7\u00f5es financeiras internacionais. S\u00e3o igualmente palco de batalhas pol\u00edticas por obter o \u201cgrau de investimento\u201d ou outras avalia\u00e7\u00f5es positivas. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma objetividade nestas avalia\u00e7\u00f5es, tanto assim que eram avaliados com as notas mais altas, pelas tr\u00eas, gigantes empresariais em situa\u00e7\u00e3o de profundo descalabro financeiro como a Enron ou o pr\u00f3prio Lehman Brothers. S\u00e3o ag\u00eancias que cumprem essencialmente uma agenda pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de objetividade nas avalia\u00e7\u00f5es n\u00e3o significa que n\u00e3o sejam significativas. A pr\u00f3pria nota elevada implica que a empresa \u00e9 poderosa junto \u00e0s mesmas institui\u00e7\u00f5es financeiras, e como in\u00fameros incautos se deixam guiar por um \u201cgrau de investimento\u201d, por exemplo, terminam por gerar os efeitos que querem gerar. Em parte refletem uma situa\u00e7\u00e3o, mas essencialmente ganham criando situa\u00e7\u00f5es segundo interesses especulativos mais amplos.<\/p>\n<p>Estamos aqui rigorosamente no espa\u00e7o onde o mundo financeiro e o mundo do poder pol\u00edtico se cruzam e interagem. Nesta era de financeiriza\u00e7\u00e3o global, nenhum pa\u00eds \u00e9 uma ilha, e o espa\u00e7o de manobra de um pa\u00eds individual \u00e9 relativamente reduzido. Hoje o Brasil est\u00e1 relativamente mais protegido, pois enquanto em 2002 tinha reservas em divisas rid\u00edculas, da ordem de 30 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, em 2015 tem com os seus 380 bilh\u00f5es de d\u00f3lares um colch\u00e3o razo\u00e1vel de prote\u00e7\u00e3o contra os ataques especulativos. Mas nem por isso os interesses financeiros internacionais deixam de representar um poder pol\u00edtico de primeira ordem no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Um segundo jogo de poder, fortemente articulado com o primeiro, se d\u00e1 no plano mais interno. O mecanismo principal \u00e9 muito simples: quando o governo tenta reduzir os juros, e portanto os ganhos financeiros n\u00e3o produtivos dos bancos e outros aplicadores, s\u00e3o lan\u00e7adas pela m\u00eddia campanhas de previs\u00e3o de alta de infla\u00e7\u00e3o. No Brasil, dado o nosso passado, a pr\u00f3pria ideia da amea\u00e7a de infla\u00e7\u00e3o j\u00e1 assusta. No caso, n\u00e3o \u00e9 preciso ter nenhuma raz\u00e3o objetiva para prever infla\u00e7\u00e3o, basta utilizar o argumento que impregna a popula\u00e7\u00e3o de t\u00e3o repetido, de que os intermedi\u00e1rios e o governo precisam de juros altos para nos proteger da infla\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma base t\u00e9cnica para isto, tanto assim que a Europa trabalha com juros radicalmente mais baixos (tanto no cr\u00e9dito banc\u00e1rio, como no credi\u00e1rio comercial e nos juros da d\u00edvida p\u00fablica que s\u00e3o pr\u00f3ximos de zero), e mant\u00eam infla\u00e7\u00e3o baixa.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 evidentemente nenhum espa\u00e7o para o \u201cdrag\u00e3o\u201d da infla\u00e7\u00e3o com o qual nos assustam e sobre tudo justificam a elevada taxa Selic. A retrospectiva sobre a infla\u00e7\u00e3o \u00e9 muito clara:<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-738\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00806.png?resize=279%2C562\" alt=\"2016.06.14_00806\" width=\"279\" height=\"562\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00806.png?w=279&amp;ssl=1 279w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/2016.06.14_00806.png?resize=149%2C300&amp;ssl=1 149w\" sizes=\"auto, (max-width: 279px) 100vw, 279px\" \/><\/p>\n<p><em>Fonte:<a href=\"http:\/\/www.ibge.gov.br\/\">\u00a0Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica, Sistema Nacional de \u00cdndices de Pre\u00e7os ao Consumidor (IBGE\/SNIPC)<\/a><\/em><\/p>\n<p>Temos a quebra da hiperinfla\u00e7\u00e3o em 1993-94, quebra cuja din\u00e2mica ali\u00e1s precisa ser restabelecida em sua verdadeira dimens\u00e3o: em 1992 44 pa\u00edses, segundo o Economist, tinham hiperinfla\u00e7\u00f5es, como Israel, M\u00e9xico, Argentina e outros. Em 1995 todos tinham liquidado a quest\u00e3o. O sistema financeiro estava se globalizando, e um sistema banc\u00e1rio para participar do casino global precisava ter uma moeda com tamanho definido e convertibilidade. No Brasil, o que os bancos ganhavam com a infla\u00e7\u00e3o, passariam a ganhar com a Selic, que chegou aos astron\u00f4micos 46%. Basta ver os n\u00fameros da tabela acima para ver que se trata de um problema, sem d\u00favida, mas ligado a ajustes de pre\u00e7os relativos, \u00e0 facilidade de se elevar os pre\u00e7os numa economia oligopolizada, \u00e0 infla\u00e7\u00e3o importada com as varia\u00e7\u00f5es de c\u00e2mbio e semelhantes, sem qualquer semelhan\u00e7a com monstros pre-hist\u00f3ricos. Mas interessa-nos sim o que chamaria de infla\u00e7\u00e3o constru\u00edda, que coincide com a forte press\u00e3o para elevar a taxa Selic, o que por sua vez permite que mais de 5% do PIB sejam transferidos dos nossos impostos para os bancos e v\u00e1rios tipos de rentistas.<\/p>\n<p>A m\u00eddia consulta sem d\u00favida os economistas. Basta ver a not\u00edcia abaixo do Valor Econ\u00f4mico, para ver que tipo de \u201ceconomista\u201d \u00e9 consultado para uma previs\u00e3o de infla\u00e7\u00e3o. As fontes consultadas s\u00e3o integralmente institui\u00e7\u00f5es financeiras e empresas de consultorias, todas vinculadas a ganhos com intermedia\u00e7\u00e3o financeira. Nenhum dos economistas que efetivamente acompanham a economia pelo lado do governo, da academia ou dos centros de pesquisa \u00e9 consultado. Apenas os que t\u00eam interesse em prognosticar uma infla\u00e7\u00e3o elevada para pressionar o governo a elevar os juros. Uma campanha deste tipo costuma ter resultados, como teve em 2012: in\u00fameras mensagens na m\u00eddia anunciando a previs\u00e3o de uma alta da infla\u00e7\u00e3o levam a que os cerca de 6 milh\u00f5es de empres\u00e1rios do pa\u00eds passem a trabalhar com esta infla\u00e7\u00e3o prevista, materializando o que delas o mercado deseja. Como qualquer governo sabe que uma infla\u00e7\u00e3o alta \u00e9 um suic\u00eddio pol\u00edtico \u2013 pois lhe \u00e9 imediatamente atribu\u00edda \u2013 a chantagem funciona. \u00c9 uma previs\u00e3o que se confirma pela pr\u00f3pria din\u00e2mica criada.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-739\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/tabela3.png?resize=487%2C531\" alt=\"tabela3\" width=\"487\" height=\"531\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/tabela3.png?w=487&amp;ssl=1 487w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/tabela3.png?resize=275%2C300&amp;ssl=1 275w\" sizes=\"auto, (max-width: 487px) 100vw, 487px\" \/><\/p>\n<p><em>Fonte: Valor Econ\u00f4mico, 5 de fevereiro de 2015<\/em><\/p>\n<p>Atribuir os n\u00fameros acima aos \u201ceconomistas\u201d constitui obviamente uma viol\u00eancia: foram consultadas apenas institui\u00e7\u00f5es interessadas na subida dos juros. Os juros elevados alimentam os intermedi\u00e1rios financeiros, segundo os v\u00e1rios mecanismos que vimos acima. Manter os juros elevados em nome da prote\u00e7\u00e3o do povo contra a infla\u00e7\u00e3o gera ao mesmo tempo o elevado fluxo de recursos para os intermedi\u00e1rios financeiros, e uma segunda fonte de recursos que \u00e9 a pr\u00f3pria infla\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que os bancos ganham no \u201c<em>float<\/em>\u201d de recursos n\u00e3o aplicados pelos clientes.<\/p>\n<p>A infla\u00e7\u00e3o em si constitui um poderoso instrumento de transfer\u00eancia de recursos dos que t\u00eam renda fixa, como os assalariados, aposentados ou at\u00e9 pequenos empres\u00e1rios que n\u00e3o t\u00eam como influenciar os pre\u00e7os, para os grandes grupos financeiros que fazem aplica\u00e7\u00f5es financeiras e escapam da eros\u00e3o da capacidade de compra. O rentista tem o dinheiro aplicado e que rende muito, enquanto o assalariado espera a renegocia\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio a cada ano, e o que ele perde \u00e9 indiretamente apropriado pelo sistema financeiro. Com juros altos e infla\u00e7\u00e3o relativamente elevada tamb\u00e9m, como os 7,14% previstos pelos \u201ceconomistas\u201d acima, temos ao mesmo tempo o travamento provocado pelos altos juros e a concentra\u00e7\u00e3o de renda gerada pela infla\u00e7\u00e3o. Tudo em nome de proteger a popula\u00e7\u00e3o do \u201cdrag\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A alternativa geral \u00e9 bem conhecida, pois foi aplicada com sucesso durante d\u00e9cadas nos pa\u00edses ricos, na fase dos \u201ctrinta anos de outro\u201d: com forte controle financeiro por parte do Estado, e regula\u00e7\u00e3o dos intermedi\u00e1rios financeiros, foi poss\u00edvel ao mesmo tempo o Estado financiar as pol\u00edticas sociais p\u00fablicas e universais que geraram a prosperidade do p\u00f3s-guerra, enquanto os bancos eram levados a investir na expans\u00e3o da m\u00e1quina produtiva: com mais produto buscando consumidores, a infla\u00e7\u00e3o se manteve baixa.<\/p>\n<p>Aqui constitui uma ferramenta de grande utilidade o trabalho de Thomas Piketty: realmente, a taxa\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio improdutivo, das grandes fortunas paradas em atividades especulativas, tanto poderia gerar recursos para o Estado financiar mais pol\u00edticas sociais, como estimularia os detentores de fortunas e os gigantes financeiros a buscar investimentos na economia real, sob pena de ver o seu capital erodido. Em termos pr\u00e1ticos, trata-se de tornar os recursos produtivos. N\u00e3o h\u00e1 nenhum argumento de que ter\u00edamos \u201cinveja dos ricos\u201d que se sustente aqui: trata-se de desmontar a m\u00e1quina que paralisa o desenvolvimento tanto no plano mundial como aqui no Brasil. Que aproveitem os seus iates, mas que reorientem recursos imobilizados para a esfera produtiva da sociedade.<\/p>\n<p>Fa\u00e7a-se as contas da maneira que for: o fato \u00e9 que a economia brasileira est\u00e1 sendo sangrada por intermedi\u00e1rios que pouco ou nada produzem, e corro\u00edda por ilegalidades escandalosas. Se somarmos as taxas de juros \u00e0 pessoa f\u00edsica, o custo dos credi\u00e1rios e dos cart\u00f5es de cr\u00e9dito, os juros \u00e0 pessoa jur\u00eddica, o dreno atrav\u00e9s da d\u00edvida p\u00fablica e a evas\u00e3o fiscal por meio dos para\u00edsos fiscais e das transfer\u00eancias il\u00edcitas, temos uma deforma\u00e7\u00e3o estrutural dos processos produtivos. Tentar dinamizar a economia enquanto arrastamos este entulho especulativo preso nos p\u00e9s fica muito dif\u00edcil. H\u00e1 mais mazelas na nossa economia, mas aqui estamos falando da massa maior de recursos,\u00a0 que s\u00e3o necess\u00e1rios ao pa\u00eds. \u00c9 tempo do pr\u00f3prio mundo empresarial \u2013 aquele que efetivamente produz riquezas \u2013 acordar para os desequil\u00edbrios, e colocar as responsabilidades onde realmente est\u00e3o. O resgate organizado do uso produtivo dos nossos recursos \u00e9 essencial.<\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p>ABECS \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Empresas de Cart\u00f5es de Cr\u00e9dito e Servi\u00e7os &#8211; <a href=\"http:\/\/www.abecs.org.br\/indicadores-de-mercado\">http:\/\/www.abecs.org.br\/indicadores-de-mercado<\/a><\/p>\n<p>ANEFAC, Relat\u00f3rio sobre juros, tabelas das p\u00e1ginas 2, 3 e 5\u00a0\u00a0 <a href=\"http:\/\/www.anefac.com.br\/uploads\/arquivos\/2014715153114381.pdf\">http:\/\/www.anefac.com.br\/uploads\/arquivos\/2014715153114381.pdf<\/a> <em>;<\/em><\/p>\n<p>Banco Central \u2013 <em>Hist\u00f3rico da taxa de juros \u2013 Selic &#8211; <a href=\"http:\/\/www.bcb.gov.br\/?COPOMJUROS\">http:\/\/www.bcb.gov.br\/?COPOMJUROS<\/a> , <\/em>2014<\/p>\n<p>Banco Central &#8211; BCB \u2013 Depec. \u2013 2015 Consulted 3 June 2015 <a href=\"https:\/\/www3.bcb.gov.br\/sgspub\/localizarseries\/localizarSeries.do?method=prepararTelaLocalizarSeries\">https:\/\/www3.bcb.gov.br\/sgspub\/localizarseries\/localizarSeries.do?method=prepararTelaLocalizarSeries<\/a><\/p>\n<p>BCB &#8211; Relat\u00f3rio de Economia Banc\u00e1ria e Cr\u00e9dito: <a href=\"http:\/\/www.bcb.gov.br\/pec\/depep\/spread\/rebc_2013.pdf\">http:\/\/www.bcb.gov.br\/pec\/depep\/spread\/rebc_2013.pdf<\/a><\/p>\n<p><em>BIS Quarterly Review<\/em>, June 2013, p.3 &#8211;\u00a0<a href=\"http:\/\/www.bis.org\/publ\/qtrpdf\/r_qt1306.pdf\">http:\/\/www.bis.org\/publ\/qtrpdf\/r_qt1306.pdf<\/a><\/p>\n<p>Brown, Ellen \u2013 <em>The Public Bank solution \u2013 <\/em>Third Millenium Press, Louisiana, 2013<\/p>\n<p>Costas, Ruth\u00a0 &#8211; <em>Porque os bancos brasileiros lucram tanto &#8211; <\/em>BBC Brasil em S\u00e3o Paulo \u2013 23 de mar\u00e7o de 2015 <a href=\"http:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/noticias\/2015\/03\/150323_bancos_lucros_ru\">http:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/noticias\/2015\/03\/150323_bancos_lucros_ru<\/a><\/p>\n<p>DCI \u2013 <em>Metade do consumo \u00e9 financiada por cart\u00f5es<\/em> \u2013 20 de agosto de 2014, p. B1<\/p>\n<p>DIEESE \u2013 <em>Desempenho dos Bancos 2014 <\/em>&#8211; <a href=\"http:\/\/www.dieese.org.br\/desempenhodosbancos\/2015\/desempenhoBancos2014.pdf\">http:\/\/www.dieese.org.br\/desempenhodosbancos\/2015\/desempenhoBancos2014.pdf<\/a><\/p>\n<p>Dowbor, Ladislau &#8211; <em>Os Estranhos Caminhos do Nosso Dinheiro, <\/em>Editora Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, S\u00e3o Paulo, 2014, <em><a href=\"http:\/\/dowbor.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/13-Descaminhos-do-dinheiro-p%C3%BAblico-16-julho.doc\">http:\/\/dowbor.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/13-Descaminhos-do-dinheiro-p%C3%BAblico-16-julho.doc<\/a><\/em><\/p>\n<p>Dowbor, Ladislau \u2013 <em>Democracia Econ\u00f4mica \u2013 <\/em>Ed. Vozes, Petr\u00f3polis, 2011 <a href=\"http:\/\/dowbor.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/12-DemoEco1.doc\">http:\/\/dowbor.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/12-DemoEco1.doc<\/a><\/p>\n<p><em>Economist<\/em>, Dec. 7<sup>th<\/sup> 2013 \u2013 The rise of Black Rock,\u00a0 <a href=\"http:\/\/www.economist.com\/news\/leaders\/21591174-25-years-blackrock-has-become-worlds-biggest-investor-its-dominance-problem\">http:\/\/www.economist.com\/news\/leaders\/21591174-25-years-blackrock-has-become-worlds-biggest-investor-its-dominance-problem<\/a><\/p>\n<p><em>Economist, <\/em>Feb. 16<sup>th<\/sup> 2013 &#8211; The missing $20 trillion, <em>Special Report on Offshore Finance<\/em><\/p>\n<p>FEBRABAN \u2013 <em>The Brazilian Financial System and the Green Economy \u2013 <\/em>Febraban, FGV-EAESP, S\u00e3o Paulo, September 2014<\/p>\n<p>Fecom\u00e9rcio-SP \u2013 Avalia\u00e7\u00e3o dos volumes de cr\u00e9dito e juros: tri\u00eanio 2011-2013<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.fecomercio.com.br\/Estudos\/EconomiaFinancas\/pagina\/2\">http:\/\/www.fecomercio.com.br\/Estudos\/EconomiaFinancas\/pagina\/2<\/a><\/p>\n<p>FIESP \u2013 <em>Juros sobre o capital de giro: o impacto sobre a ind\u00fastria brasileira &#8211; <\/em>2010\u00a0 http:\/\/www.fiesp.com.br\/indices-pesquisas-e-publicacoes\/juros-em-cascata-sobre-o-capital-de-giro-o-impacto-sobre-a-industria-brasileira\/<\/p>\n<p>Furtado, Celso \u2013 <em>Para onde caminhamos? <\/em>\u2013 artigo publicado no JB de 14 de nov. de 2004 <a href=\"http:\/\/www.centrocelsofurtado.org.br\/arquivos\/image\/201411191728100.Dossier%20CF%2020%20nov%202014%20ArtigoJBNovembro2004.pdf\">http:\/\/www.centrocelsofurtado.org.br\/arquivos\/image\/201411191728100.Dossier%20CF%2020%20nov%202014%20ArtigoJBNovembro2004.pdf<\/a><\/p>\n<p>GFI &#8211;<em> Brasil: fuga de capitais<\/em> &#8211; Global Financial Integrity, Set. 2014 &#8211; <a href=\"http:\/\/www.gfintegrity.org\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/Brasil-Fuga-de-Capitais-os-Fluxos-Il%C3%ADcitos-e-as-Crises-Macroecon%C3%B4micas-1960-2012.pdf\">http:\/\/www.gfintegrity.org\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/Brasil-Fuga-de-Capitais-os-Fluxos-Il%C3%ADcitos-e-as-Crises-Macroecon%C3%B4micas-1960-2012.pdf<\/a> ;<\/p>\n<p>GFI &#8211;\u00a0 New Haven Declaration on Human Rights and Financial Integrity \u2013\u00a0 Yale Universioty, 2015 <a href=\"http:\/\/www.yale.edu\/macmillan\/globaljustice\/docs\/NewHavenDeclaration.pdf\">http:\/\/www.yale.edu\/macmillan\/globaljustice\/docs\/NewHavenDeclaration.pdf<\/a><\/p>\n<p>Guardian \u2013 Dossi\u00ea sobre o HSBC &#8211; <a href=\"http:\/\/www.theguardian.com\/business\/hsbcholdings\">http:\/\/www.theguardian.com\/business\/hsbcholdings<\/a><\/p>\n<p>Guedes, Odilon (Sindeconsp) \u2013 <em>Reforma Tribut\u00e1ria com Transpar\u00eancia das Contas P\u00fablicas- <\/em>2015 <em><a href=\"http:\/\/www.sindeconsp.org.br\/template.php?pagina=neocast\/read&amp;section=1&amp;id=25\">http:\/\/www.sindeconsp.org.br\/template.php?pagina=neocast\/read&amp;section=1&amp;id=25<\/a> <\/em><\/p>\n<p>Hersh, Adam L., &#8211; <em>Chinese State-Owned and State-Controlled Enterprises \u2013 <\/em>2012, <a href=\"https:\/\/www.americanprogressaction.org\/issues\/economy\/report\/2012\/02\/15\/11069\/chinese-state-owned-and-state-controlled-enterprises\/\">https:\/\/www.americanprogressaction.org\/issues\/economy\/report\/2012\/02\/15\/11069\/chinese-state-owned-and-state-controlled-enterprises\/<\/a><\/p>\n<p>ICIJ &#8211; <em>International Consortium of Investigative Journalists, \u00a02013- <\/em>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.icij.org\/offshore\/how-icijs-project-team-analyzed-offshore-files\">www.icij.org\/offshore\/how-icijs-project-team-analyzed-offshore-files<\/a><\/p>\n<p>ICIJ <em>\u2013 Luxemburg Tax Files<\/em> &#8211; \u00a0November 21014 &#8211; <a href=\"http:\/\/www.theguardian.com\/business\/2014\/nov\/05\/-sp-luxembourg-tax-files-tax-avoidance-industrial-scale\">http:\/\/www.theguardian.com\/business\/2014\/nov\/05\/-sp-luxembourg-tax-files-tax-avoidance-industrial-scale<\/a> (para os dados em portugu\u00eas referentes ao |Ita\u00fa e Bradesco, ver artigo de Fernando Rodrigues, Folha de S\u00e3o Paulo 5 de nov. 2014\u00a0 <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2014\/11\/1543572-itau-e-bradesco-economizam-r-200-mi-em-impostos-com-operacoes-em-luxemburgo.shtml\">http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2014\/11\/1543572-itau-e-bradesco-economizam-r-200-mi-em-impostos-com-operacoes-em-luxemburgo.shtml<\/a>)<\/p>\n<p>INESC &#8211; As implica\u00e7\u00f5es do sistema tribut\u00e1rio brasileiro na desigualdade de renda \u2013 setembro de 2014, <a href=\"http:\/\/www.inesc.org.br\/biblioteca\/textos\/as-implicacoes-do-sistema-tributario-nas-desigualdades-de-renda\/publicacao\/\">http:\/\/www.inesc.org.br\/biblioteca\/textos\/as-implicacoes-do-sistema-tributario-nas-desigualdades-de-renda\/publicacao\/<\/a><\/p>\n<p>IPEA \u2013 <em>Transforma\u00e7\u00f5es na ind\u00fastria banc\u00e1ria brasileira e o cen\u00e1rio de crise \u2013 <\/em>Comunicado da Presid\u00eancia, Abril de 2009, p. 15 <a href=\"http:\/\/www.ipea.gov.br\/sites\/000\/2\/pdf\/09_04_07_ComunicaPresi_20_Bancos.pdf\">http:\/\/www.ipea.gov.br\/sites\/000\/2\/pdf\/09_04_07_ComunicaPresi_20_Bancos.pdf<\/a><\/p>\n<p>Khair, Amir \u2013 <em>A quest\u00e3o fiscal e o papel do Estado<\/em> \u2013 Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, S\u00e3o Paulo, 2013<\/p>\n<p>Khair, Amir \u2013 <em>A borda da cachoeira \u2013 <\/em>OESP, 01\/02\/2015 &#8211; <a href=\"http:\/\/economia.estadao.com.br\/noticias\/geral,a-borda-da-cachoeira-imp-,1627819\">http:\/\/economia.estadao.com.br\/noticias\/geral,a-borda-da-cachoeira-imp-,1627819<\/a><\/p>\n<p>Michel, Anne \u2013 Le Monde \u2013 <em>SwissLeaks: HSBC \u2013 2015\u00a0 <\/em><a href=\"http:\/\/cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Economia\/SwissLeaks-HSBC-o-banco-de-todos-os-escandalos\/7\/32913\">http:\/\/cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Economia\/SwissLeaks-HSBC-o-banco-de-todos-os-escandalos\/7\/32913<\/a><\/p>\n<p>Morin, Fran\u00e7ois \u2013 <em>L\u2019hydre mondiale: l\u2019oligopole bancaire \u2013 <\/em>Luxe \u00c9diteur, Qu\u00e9bec, 2015<\/p>\n<p>OCDE \u2013 ICIJ &#8211; \u00a0<em>BEPS: Base Erosion and Profit Shifting<\/em> \u2013\u00a0 <a href=\"http:\/\/publicintegrity.us4.list-manage1.com\/track\/click?u=8dc6eceed67f7f012462d0b12&amp;id=f388dc1436&amp;e=d256201ac5\">http:\/\/publicintegrity.us4.list-manage1.com\/track\/click?u=8dc6eceed67f7f012462d0b12&amp;id=f388dc1436&amp;e=d256201ac5<\/a><\/p>\n<p>Piatkowski, Marcin \u2013 Four ways Poland\u2019s state bank helped it avoid recession \u2013 2015 <a href=\"http:\/\/www.brookings.edu\/blogs\/future-development\/posts\/2015\/06\/12-poland-financial-crisis-piatkowski\">http:\/\/www.brookings.edu\/blogs\/future-development\/posts\/2015\/06\/12-poland-financial-crisis-piatkowski<\/a><\/p>\n<p>Ruccio, David \u2013 <em>Real World Economics<\/em>, <a href=\"https:\/\/rwer.wordpress.com\/2015\/04\/12\/its-a-wonderful-life%20\/\">https:\/\/rwer.wordpress.com\/2015\/04\/12\/its-a-wonderful-life \/<\/a><\/p>\n<p>Schneyer, Joshua &#8211;\u00a0<em>Commodity Traders: the Trillion Dollars Club \u2013\u00a0<\/em><a href=\"http:\/\/dowbor.org\/2013\/09\/joshua-schneyer-corrected-commodity-traders-the-trillion-dollar-club-setembro-201319p.html\/\">http:\/\/dowbor.org\/2013\/09\/joshua-schneyer-corrected-commodity-traders-the-trillion-dollar-club-setembro-201319p.html\/<\/a>\u00a0<em>\u00a0\u00a0<\/em>ou<em>\u00a0\u00a0<\/em><a href=\"http:\/\/www.reuters.com\/assets\/print?aid=USTRE79R4S320111028\">www.reuters.com\/assets\/print?aid=USTRE79R4S320111028<\/a><\/p>\n<p>SINPROFAZ &#8211; <em>\u00a0<\/em>Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional no Brasil<em> \u2013 Uma Estimativa do Desvio da Arrecada\u00e7\u00e3o do Exerc\u00edcio de 2014 \u2013 Bras\u00edlia, mar\u00e7o de 2015, 41 p. <\/em><a href=\"http:\/\/www.quantocustaobrasil.com.br\/artigos\/sonegacao-no-brasil%E2%80%93uma-estimativa-do-desvio-da-arrecadacao-do-exercicio-de-2014\">http:\/\/www.quantocustaobrasil.com.br\/artigos\/sonegacao-no-brasil%E2%80%93uma-estimativa-do-desvio-da-arrecadacao-do-exercicio-de-2014<\/a>\u00a0 (ver tabela resumida da sonega\u00e7\u00e3o na p. 24)<\/p>\n<p>Tax Justice Network \u2013 James Henry, <em>The Price of off-shore revisited<\/em> \u2013 <a href=\"http:\/\/www.taxjustice.net\/cms\/front_content.php?idcat=148\">http:\/\/www.taxjustice.net\/cms\/front_content.php?idcat=148<\/a>; Os dados sobre o Brasil est\u00e3o no Appendix III, (1) pg. 23 <a href=\"http:\/\/www.taxjustice.net\/cms\/upload\/pdf\/Appendix%203%20-%202012%20Price%20of%20Offshore%20pt%201%20-%20pp%201-59.pdf\">http:\/\/www.taxjustice.net\/cms\/upload\/pdf\/Appendix%203%20-%202012%20Price%20of%20Offshore%20pt%201%20-%20pp%201-59.pdf<\/a>\u00a0 Ver tamb\u00e9m no site da\u00a0 TJN\u00a0 a atualiza\u00e7\u00e3o\u00a0 de junho de 2014, <a href=\"http:\/\/www.taxjustice.net\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/The-Price-of-Offshore-Revisited-notes-2014.pdf\">http:\/\/www.taxjustice.net\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/The-Price-of-Offshore-Revisited-notes-2014.pdf<\/a>\u00a0 bem como <em>The cost of Tax Abuse: the Cost of Tax Evasion Worldwide, <\/em>\u00a02011, <a href=\"http:\/\/www.taxjustice.net\/2014\/04\/01\/cost-tax-abuse-2011\/\">http:\/\/www.taxjustice.net\/2014\/04\/01\/cost-tax-abuse-2011\/<\/a><\/p>\n<p>Vitali, S., J.B Glattfelder and S. Battiston \u2013 ETH, <em>The Network, of Global Corporate Control<\/em> . <a href=\"http:\/\/arxiv.org\/pdf\/1107.5728.pdf\">http:\/\/arxiv.org\/pdf\/1107.5728.pdf<\/a> ;<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<\/p>\n<p>Os documentos mencionados neste texto podem ser na maioria encontrados no site do prof. Ladislau Dowbor, em http\u00b4:\/\/dowbor.org. Vers\u00f5es resumidas do presente texto, cerca de 15 p., est\u00e3o dispon\u00edveis em ingl\u00eas,\u00a0\u00a0 <a href=\"http:\/\/dowbor.org\/2015\/02\/ladislau-dowbor-the-current-financial-system-jams-the-countrys-economic-development-fev-2015-12p.html\/\">http:\/\/dowbor.org\/2015\/02\/ladislau-dowbor-the-current-financial-system-jams-the-countrys-economic-development-fev-2015-12p.html\/<\/a>\u00a0 bem como em espanhol, <a href=\"http:\/\/dowbor.org\/2015\/07\/ladislau-dowbor-el-sistema-financiero-traba-el-desarrollo-economico-de-brasil-julho-2015-21p.html\/\">http:\/\/dowbor.org\/2015\/07\/ladislau-dowbor-el-sistema-financiero-traba-el-desarrollo-economico-de-brasil-julho-2015-21p.html\/<\/a> . Em portugu\u00eas, a vers\u00e3o resumida foi publicada pela Revista de Estudos Avan\u00e7ados da USP, <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0103-40142015000100263&amp;lng=pt&amp;nrm=iso\">http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0103-40142015000100263&amp;lng=pt&amp;nrm=iso<\/a>, bem como no Le Monde Diplomatique Brasil e outros peri\u00f3dicos.<\/p>\n<p>Contato: <a href=\"mailto:ladislau@dowbor.org\">ladislau@dowbor.org<\/a><\/p>\n<p>Enviado pelo autor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ladislau Dowbor &#8211;\u00a0A financeiriza\u00e7\u00e3o est\u00e1 no centro dos debates econ\u00f4micos, porque aprofunda a desigualdade e sobretudo porque trava o desenvolvimento. Este \u00faltimo aspecto \u00e9 alvo de numerosos estudos internacionais, e aqui abordamos o mecanismo como se manifesta no Brasil. 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