{"id":7048,"date":"2018-02-10T15:08:51","date_gmt":"2018-02-10T17:08:51","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=7048"},"modified":"2018-02-07T18:15:08","modified_gmt":"2018-02-07T20:15:08","slug":"revolucao-russa-mitos-erros-e-atualidade-ii%ef%bb%bf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/02\/10\/revolucao-russa-mitos-erros-e-atualidade-ii%ef%bb%bf\/","title":{"rendered":"Revolu\u00e7\u00e3o Russa: mitos, erros e atualidade (II)\ufeff"},"content":{"rendered":"<p><strong>Eduardo Mancuso &#8211;\u00a0<\/strong>Proibi\u00e7\u00e3o dos partidos. Requisi\u00e7\u00f5es for\u00e7adas de trigo. Cria\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia pol\u00edtica. Paz desastrosa. Como os equ\u00edvocos iniciais do poder sovi\u00e9tico contribuiriam para frustrar o primeiro ensaio socialista.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a segunda de tr\u00eas partes de\u00a0<em>A Revolu\u00e7\u00e3o Russa de Outubro de 1917<\/em>, livro rec\u00e9m-lan\u00e7ado por\u00a0<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/author\/eduardo-mancuso\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Eduardo Mancuso<\/a>. Historiador, colaborador editorial de\u00a0<em>Outras Palavras,\u00a0<\/em>ele soma, \u00e0 milit\u00e2ncia de mais de trinta anos pelo socialismo democr\u00e1tico, a capacidade de refletir sobre esta luta, seus avan\u00e7os e seus erros. Breve e pedag\u00f3gico, o texto n\u00e3o cede, por\u00e9m, \u00e0s simplifica\u00e7\u00f5es e dogmatismos. \u00c9 uma provoca\u00e7\u00e3o \u00fatil, tanto aos que querem come\u00e7ar a estudar a experi\u00eancia sovi\u00e9tica quanto a quem deseja rever as pol\u00eamicas que a marcaram<\/p>\n<p><strong>Os erros pol\u00edticos do bolchevismo no poder<\/strong>\u2013<\/p>\n<p>Ap\u00f3s enfrentar e superar os mitos anticomunistas sobre a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, \u00e9 leg\u00edtimo perguntar, \u00e0 luz da evolu\u00e7\u00e3o posterior da R\u00fassia dos Sovietes em Uni\u00e3o das Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas (URSS), se pol\u00edticas adotadas pelos bolcheviques depois da tomada do poder favoreceram ou n\u00e3o o processo de degenera\u00e7\u00e3o do primeiro Estado oper\u00e1rio.<\/p>\n<p>Tanto Rosa Luxemburgo como Alexandra Kolontai e Victor Serge (entre outros marxistas) tinham raz\u00e3o em criticar os bolcheviques pela repress\u00e3o ao Krondstadt, a restri\u00e7\u00e3o \u00e0s liberdades pol\u00edticas, a proibi\u00e7\u00e3o dos partidos oper\u00e1rios reformistas e das pr\u00f3prias fra\u00e7\u00f5es e tend\u00eancias internas no Partido Comunista. Por\u00e9m, h\u00e1 uma grande diferen\u00e7a, um verdadeiro salto de qualidade entre estes graves erros e a l\u00f3gica empregada pelo stalinismo, que n\u00e3o estava baseada na extens\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o, mas sim na consolida\u00e7\u00e3o de uma elite burocr\u00e1tica privilegiada.<\/p>\n<p>Enquanto para Lenin, Trotsky e Rosa Luxemburgo, a revolu\u00e7\u00e3o russa era s\u00f3 o prel\u00fadio de uma imprescind\u00edvel revolu\u00e7\u00e3o europeia (como haviam dito Marx e Engels algumas d\u00e9cadas antes), n\u00e3o era assim para Stalin, que considerava seriamente a possibilidade de construir o socialismo em um s\u00f3 pa\u00eds (e a subordina\u00e7\u00e3o de toda a revolu\u00e7\u00e3o nacional posteror \u00e0s necessidades de estabiliza\u00e7\u00e3o do regime da burocracia sovi\u00e9tica).<\/p>\n<p>Ernest Mandel considera que as deforma\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas iniciais dos anos 1920, e a degenera\u00e7\u00e3o contrarrevolucion\u00e1ria consolidada na d\u00e9cada de 1930, foram causadas fundamentalmente pelas condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e materiais objetivas da sociedade russa e da situa\u00e7\u00e3o internacional. Por\u00e9m, apoiando-se na cr\u00edtica precursora e fraterna de Rosa Luxemburgo aos bolcheviques, assim como no balan\u00e7o posterior de Victor Serge, ele reconhece que decis\u00f5es e atitudes concretas tomadas pelo partido de Lenin, at\u00e9 a sua destrui\u00e7\u00e3o pelo stalinismo, influenciaram decisivamente no processo de burocratiza\u00e7\u00e3o do regime, base objetiva de sua posterior metamorfose em ditadura totalit\u00e1ria. Coerente com sua origem trotskista-luxemburguista, Mandel vai desenvolver a an\u00e1lise cr\u00edtica sobre os erros pol\u00edticos dos primeiros anos da revolu\u00e7\u00e3o com base nos princ\u00edpios marxistas da democracia socialista e da autoemancipa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, sem nunca perder de vista o divisor de \u00e1guas fundamental entre revolu\u00e7\u00e3o e contrarrevolu\u00e7\u00e3o, \u00e0 luz do julgamento hist\u00f3rico sintetizado pela frase que Trotsky costumava usar: \u201cum rio de sangue separa o bolchevismo do stalinismo\u201d.<\/p>\n<p><strong>A proibi\u00e7\u00e3o dos partidos sovi\u00e9ticos (e das fra\u00e7\u00f5es e tend\u00eancias)<\/strong><\/p>\n<p>Segundo Mandel, o mais grave erro pol\u00edtico dos bolcheviques foi a proibi\u00e7\u00e3o dos partidos sovi\u00e9ticos ap\u00f3s a vit\u00f3ria do Ex\u00e9rcito Vermelho na guerra civil de 1918-1920. Trotsky formulou autocriticamente sobre essa quest\u00e3o um ju\u00edzo expl\u00edcito em 1936:<\/p>\n<blockquote><p>\u00a0\u201cA proibi\u00e7\u00e3o dos partidos de oposi\u00e7\u00e3o produziu a das fra\u00e7\u00f5es [no seio do partido bolchevique]; a proibi\u00e7\u00e3o das fra\u00e7\u00f5es levou a proibir o pensar de maneira diferente do que o chefe infal\u00edvel. O monolitismo policialesco do partido teve por consequ\u00eancia a impunidade burocr\u00e1tica que, por sua vez, se transformou na causa de todas as variedades de desmoraliza\u00e7\u00e3o e de corrup\u00e7\u00e3o.\u201d<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/revolucao-russa-mitos-erros-e-atualidade-2\/#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que em 1920 os oper\u00e1rios consideravam os mencheviques como um partido sovi\u00e9tico, j\u00e1 que numerosos membros desse partido foram eleitos em v\u00e1rias cidades, inclusive em Moscou. E isso tamb\u00e9m era verdade com rela\u00e7\u00e3o aos anarquistas, que mantinham influ\u00eancia em algumas regi\u00f5es entre os camponeses (como demonstram as tropas lideradas por Makhno). Sem d\u00favida alguma, a proibi\u00e7\u00e3o dos partidos sovi\u00e9ticos e, posteriormente, das fra\u00e7\u00f5es no seio do partido governamental (j\u00e1 que cada fra\u00e7\u00e3o \u00e9 um outro partido em potencial) eram entendidas por Lenin e pela maioria da dire\u00e7\u00e3o bolchevique como medidas provis\u00f3rias e extraordin\u00e1rias ligadas a circunst\u00e2ncias particulares, que deviam ser revertidas quando a situa\u00e7\u00e3o objetiva permitisse. Como sabemos, a realidade foi bem diferente. Sobre esse tema, Mandel levanta outra quest\u00e3o, de alcance ainda mais geral: quais foram as consequ\u00eancias das teorias formuladas para justificar tais proibi\u00e7\u00f5es? Ele afirma que, a longo prazo, estas justifica\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas causaram mais dano que as medidas em si. A hist\u00f3ria do socialismo no s\u00e9culo 20 atesta isso de forma dram\u00e1tica.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-644470 alignnone\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/171018-MancusoCapa2.jpg?resize=255%2C426\" alt=\"171018-MancusoCapa\" width=\"255\" height=\"426\" \/><\/p>\n<p>A proibi\u00e7\u00e3o dos partidos sovi\u00e9ticos pelos bolcheviques e das fra\u00e7\u00f5es, tend\u00eancias e grupos dentro do pr\u00f3prio partido comunista \u2013 \u00e0 qual se opuseram Alexandra Kolontai, da Oposi\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria, e a Oposi\u00e7\u00e3o Centralismo Democr\u00e1tico \u2013 expressa uma concep\u00e7\u00e3o substitucionista da constru\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria e do socialismo. Segundo essa concep\u00e7\u00e3o (majorit\u00e1ria tamb\u00e9m entre social-democratas, com not\u00e1veis exce\u00e7\u00f5es), a maior parte do proletariado seria pouco consciente para poder governar. Essa convic\u00e7\u00e3o colidia frontalmente com a experi\u00eancia hist\u00f3rica da Comuna de Paris, teorizada por Marx e defendida pela Primeira Internacional. Na sequ\u00eancia, esse ponto de partida levou a conclus\u00e3o de que, em lugar da classe oper\u00e1ria realmente existente, quem devia governar e decidir era o partido. Finalmente, chegou-se a formula\u00e7\u00e3o de que o aparato partid\u00e1rio, e inclusive a sua dire\u00e7\u00e3o ou seu \u201cchefe infal\u00edvel\u201d, eram os instrumentos decisivos para mudar a sociedade. Stalin expressou o conte\u00fado essencial da teoria substitucionista de forma brutal e direta: \u201cos quadros decidem sobre tudo\u201d.<\/p>\n<p>Mandel considera que a doutrina substitucionista do partido alimentou uma concep\u00e7\u00e3o verticalista, estatista, paternalista e autorit\u00e1ria do poder, que levou aos piores excessos e crimes do stalinismo. Nessas condi\u00e7\u00f5es, esvazia-se o espa\u00e7o democr\u00e1tico da classe (os Sovietes e conselhos populares) do seu componente vital, pois n\u00e3o se assegura o exerc\u00edcio direto do poder por parte do proletariado e das massas trabalhadoras. Sem o multipartidarismo real os Sovietes, como parlamento das classes trabalhadoras, n\u00e3o podem conhecer a democracia. N\u00e3o podem escolher e eleger realmente entre diversas op\u00e7\u00f5es de pol\u00edtica econ\u00f4mica, social, cultural etc. E na medida em que a supress\u00e3o da democracia sovi\u00e9tica toma um aspecto repressivo, esta repress\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o contempla somente a burguesia e os segmentos contrarrevolucion\u00e1rios, mas golpeia tamb\u00e9m a classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Uma concep\u00e7\u00e3o e uma orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dessa natureza contrap\u00f5em-se ao que foi a principal contribui\u00e7\u00e3o de Marx \u00e0 teoria socialista da organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria: a ideia de autoliberta\u00e7\u00e3o e auto-organiza\u00e7\u00e3o do proletariado. Como o pr\u00f3prio Marx escreveu nos estatutos da Primeira Internacional, a emancipa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores ser\u00e1 obra dos pr\u00f3prios trabalhadores (e n\u00e3o dos sindicatos, dos partidos, dos governos ou dos Estados). A classe, enquanto sujeito hist\u00f3rico da revolu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode ser substitu\u00edda pelos seus instrumentos (indispens\u00e1veis, \u00e9 sempre importante assinalar) pol\u00edticos e organizativos. Esses instrumentos s\u00e3o fundamentais, mas nunca poder\u00e3o substituir a atividade consciente, a pr\u00e1xis real das classes trabalhadoras e das camadas assalariadas, exploradas e oprimidas. Segundo Rosa Luxemburgo, o papel emancipador da autoatividade da classe trabalhadora n\u00e3o \u00e9 um \u201cluxo\u201d da democracia socialista, mas a sua condi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Mandel salienta que a ideologia substitucionista n\u00e3o pode ser considerada apenas um \u201cdesvio pol\u00edtico\u201d, e sim a express\u00e3o dos interesses materiais e sociais da burocracia oper\u00e1ria. E por sua vez, essa ideologia substitucionista justificou politicamente e favoreceu o processo objetivo de burocratiza\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro.<\/p>\n<p><strong>O comunismo de guerra<\/strong><\/p>\n<p>A guerra civil e a interven\u00e7\u00e3o das pot\u00eancias imperialistas contra a R\u00fassia dos Sovietes explicam em parte as origens do denominado \u201ccomunismo de guerra\u201d. Para Mandel, \u00e9 dif\u00edcil julgar at\u00e9 que ponto a pol\u00edtica de requisi\u00e7\u00e3o de trigo \u2013 que era a base do \u201ccomunismo de guerra\u201d \u2014 por parte do poder sovi\u00e9tico, assediado pela contrarrevolu\u00e7\u00e3o, era inevit\u00e1vel durante os anos da guerra civil (1918-1920). Por\u00e9m, \u00e9 certo que esta pol\u00edtica (sem d\u00favida, muito importante para garantir o abastecimento do Ex\u00e9rcito Vermelho) amea\u00e7ava, cada vez mais, romper a alian\u00e7a oper\u00e1rio-camponesa, que era a base fundamental do poder sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p>Esta pol\u00edtica levou a um retrocesso pronunciado das for\u00e7as produtivas, sobretudo da produ\u00e7\u00e3o de g\u00eaneros aliment\u00edcios, o que estava afundando cada vez mais a economia russa. Mandel menciona que a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, essencialmente de cereais, retrocedeu 30%; o rebanho de gado, equinos e porcos retrocedeu mais de 20%, e a produ\u00e7\u00e3o industrial, 60%. Em troca da mesma quantidade de trigo, o campesinato recebia somente o equivalente a 5% dos produtos industriais que recebia em 1917-1918. Da\u00ed o recha\u00e7o dos camponeses em vender trigo em troca de um papel-moeda que praticamente n\u00e3o tinha valor. E da\u00ed a necessidade do Estado requisitar o trigo e demais g\u00eaneros essenciais.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o levou a queda absoluta da produ\u00e7\u00e3o de trigo, e se a produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os baixava, havia cada vez menos trigo a requisitar. A isso seguiu-se uma tend\u00eancia generalizada \u00e0 especula\u00e7\u00e3o e ao mercado negro. Trotsky, como chefe do Ex\u00e9rcito Vermelho durante a guerra civil, comandava um ex\u00e9rcito composto, basicamente, de camponeses. Viajava atrav\u00e9s de todo o imenso pa\u00eds e compreendeu, antes de Lenin e dos demais dirigentes do partido, que a pol\u00edtica de requisi\u00e7\u00f5es havia chegado ao limite do suport\u00e1vel para as amplas massas rurais. Por isso, ainda em 1920, no per\u00edodo final da guerra civil, prop\u00f4s que se adotasse uma nova pol\u00edtica, mas isso foi recha\u00e7ado.<\/p>\n<p>Segundo o ju\u00edzo do historiador Roy Medvedev sobre esta quest\u00e3o, a tentativa de continuar a pol\u00edtica de requisi\u00e7\u00e3o depois de finalizada a guerra civil provocou a crise social de 1921, inclusive a deflagra\u00e7\u00e3o do levante dos marinheiros de Krondstadt.<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/revolucao-russa-mitos-erros-e-atualidade-2\/#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>Nesse contexto de crise aguda, Lenin prop\u00f4s emergencialmente, e o partido aprovou, a chamada Nova Pol\u00edtica Econ\u00f4mica (NEP, na sigla em russo), abandonando as requisi\u00e7\u00f5es for\u00e7adas e liberando o funcionamento de mercados para a produ\u00e7\u00e3o camponesa, visando favorecer o desenvolvimento da pequena ind\u00fastria privada e, inclusive, buscar investimentos externos.<\/p>\n<p>Mandel critica alguns te\u00f3ricos que idealizaram a pol\u00edtica de \u201ccomunismo de guerra\u201d, e dirigentes bolcheviques que, fazendo da \u201cnecessidade uma lei\u201d, teorizaram as restri\u00e7\u00f5es da escassez, do racionamento e, inclusive, o retorno \u00e0 economia \u201cnatural\u201d. Ele lembra que toda a tradi\u00e7\u00e3o marxista e todo o senso comum do proletariado, historicamente, argumentam contra qualquer tipo de \u201ccomunismo da mis\u00e9ria\u201d, e que na R\u00fassia sovi\u00e9tica esfomeada e destru\u00edda ap\u00f3s a guerra mundial e a guerra civil, a pol\u00edtica de \u201ccomunismo de guerra\u201d n\u00e3o conseguia alimentar o pa\u00eds, muito menos viabilizar o retorno do crescimento industrial e agr\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>As negocia\u00e7\u00f5es de paz<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-647569 size-full\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/brest.jpg?resize=340%2C236\" alt=\"A delega\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica nas dram\u00e1ticas negocia\u00e7\u00f5es e paz em Brest-Litovsk. De p\u00e9: Lipskiy, Stu\u010dka, Trotsky, e Karakhan Sentados, desde a esquerda: Kamenev, Ioffe e Anastasia Bitzenko \" width=\"340\" height=\"236\" \/><\/p>\n<p><em>A delega\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica nas dram\u00e1ticas negocia\u00e7\u00f5es e paz em Brest-Litovsk. De p\u00e9: Lipskiy, Stu\u010dka, Trotsky, e Karakhan Sentados, desde a esquerda: Kamenev, Ioffe e Anastasia Bitzenko<\/em><\/p>\n<p>As negocia\u00e7\u00f5es de Brest-Litovsk foram, para Mandel, outro erro grave cometido pela maioria dos dirigentes bolcheviques, com a not\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o de Lenin, que nesse momento alcan\u00e7ou, talvez, o auge de sua c\u00e9lebre lucidez pol\u00edtica. O atraso para concluir as negocia\u00e7\u00f5es, fruto da profunda divis\u00e3o no interior do partido bolchevique e do seu partido aliado, os \u201cSocialistas Revolucion\u00e1rios\u201d (SR) de esquerda, radicalmente contr\u00e1rios \u00e0 paz em separado com os imp\u00e9rios alem\u00e3o e austr\u00edaco, levou Lenin \u00e0 exaspera\u00e7\u00e3o. Essa controv\u00e9rsia pol\u00edtica estrat\u00e9gica obrigou Trotsky, na condi\u00e7\u00e3o de chefe da delega\u00e7\u00e3o russa nas negocia\u00e7\u00f5es com os representantes dos imp\u00e9rios centrais, a idas e vindas t\u00e1ticas, den\u00fancias propagandistas do imperialismo e proclama\u00e7\u00f5es internacionalistas dirigidas aos trabalhadores europeus, tentando ganhar tempo nas tratativas de paz, apostando todas as fichas na insurrei\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria ou na derrota militar imediata do Reich alem\u00e3o (frente \u00e0s pot\u00eancias ocidentais).<\/p>\n<p>Mandel salienta que havia uma diferen\u00e7a capital entre as condi\u00e7\u00f5es propostas pelos imp\u00e9rios centrais durante a primeira fase das negocia\u00e7\u00f5es de Brest-Litovsk, iniciadas em dezembro de 1917, e as arrancadas depois da interrup\u00e7\u00e3o das mesmas pelos sovi\u00e9ticos e a retomada da ofensiva militar pelo ex\u00e9rcito alem\u00e3o. As primeiras eram duras, mas aceit\u00e1veis para uma boa parte da opini\u00e3o oper\u00e1ria e pequeno-burguesa urbana. J\u00e1 aquelas impostas ap\u00f3s a capitula\u00e7\u00e3o russa frente \u00e0 impar\u00e1vel invas\u00e3o alem\u00e3, foram sentidas como uma humilha\u00e7\u00e3o nacional e uma trai\u00e7\u00e3o aos interesses internacionais do proletariado por parte da R\u00fassia sovi\u00e9tica. Implicavam o controle da Ucr\u00e2nia por parte da Alemanha imperial, e a perda de boa parte do pa\u00eds. As rea\u00e7\u00f5es internas foram violentas, provocando a ruptura dos SR de esquerda (inclusive o atentado contra Lenin) e estimulando as for\u00e7as contrarrevolucion\u00e1rias para guerra civil.<\/p>\n<p>A maior parte do Comit\u00ea Central e dos quadros bolcheviques, com Bukharin \u00e0 frente, recha\u00e7aram assinar imediatamente as condi\u00e7\u00f5es de paz colocadas na primeira fase das negocia\u00e7\u00f5es de Brest-Litovsk, e assim como Trotsky, com sua posi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria (\u201cnem guerra, nem paz\u201d), invocaram o sentimento da maioria da popula\u00e7\u00e3o urbana (e as expectativas no levante do proletariado europeu). Por\u00e9m, n\u00e3o era esse o sentimento da popula\u00e7\u00e3o camponesa, muito menos dos soldados de um ex\u00e9rcito russo em plena decomposi\u00e7\u00e3o. E, sobretudo, essas posi\u00e7\u00f5es n\u00e3o conclu\u00edam em nenhuma alternativa concreta, apenas em palavras de ordem abstratas, como a derrubada imediata das dinastias imperiais da Alemanha e da \u00c1ustria e a organiza\u00e7\u00e3o da \u201cguerra revolucion\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p>O resultado da negativa em assinar imediatamente a paz ap\u00f3s o in\u00edcio das negocia\u00e7\u00f5es foi permitir ao ex\u00e9rcito alem\u00e3o ocupar novos territ\u00f3rios, principalmente a Ucr\u00e2nia, arrancando suas imensas riquezas da Rep\u00fablica Sovi\u00e9tica. Lenin, que havia previsto esse terr\u00edvel desenlace em consequ\u00eancia da divis\u00e3o no partido, finalmente conseguiu maioria na dire\u00e7\u00e3o (com o apoio de Trotsky), e assinou a capitula\u00e7\u00e3o, ainda em tempo de evitar que o ex\u00e9rcito alem\u00e3o derrubasse o governo revolucion\u00e1rio. Mas esse erro pol\u00edtico custou muito caro e cobrou seu pre\u00e7o imediatamente, facilitando as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para as for\u00e7as reacion\u00e1rias deflagrarem a guerra civil.<\/p>\n<p><strong>O terror vermelho e a pol\u00edcia pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o do terror vermelho, leg\u00edtimo como instrumento de sobreviv\u00eancia f\u00edsica e de defesa da revolu\u00e7\u00e3o, e a controversa cria\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia pol\u00edtica do Estado \u2013 a Tcheka -, est\u00e3o estreitamente ligadas \u00e0s consequ\u00eancias da paz de Brest-Litovsk e ao in\u00edcio da guerra civil. Ambas as quest\u00f5es, segundo Mandel, s\u00f3 podem ser entendidas \u00e0 luz desses acontecimentos.<\/p>\n<p>Lenin se esfor\u00e7ou para n\u00e3o ter que recorrer ao terror ap\u00f3s Outubro. Apesar da atitude inicial dos bolcheviques, que n\u00e3o procederam a fuzilamentos e nem execu\u00e7\u00f5es indiscriminadas, e inclusive soltaram contrarrevolucion\u00e1rios presos no processo da tomada do poder, acreditando que assim \u201cdesarmavam\u201d politicamente as for\u00e7as reacion\u00e1rias, isso n\u00e3o se mostrou realista com a evolu\u00e7\u00e3o dos acontecimentos depois da vit\u00f3ria revolucion\u00e1ria. Os generais Krasnov, Kaledin e outros oficiais de alta patente detidos durante a insurrei\u00e7\u00e3o de Outubro foram liberados sob a promessa de que se absteriam de toda a\u00e7\u00e3o antigovernamental. Por\u00e9m, de imediato faltaram com a sua palavra, tomaram em armas, deflagraram o \u201cterror branco\u201d, causando a morte de milhares de camponeses e oper\u00e1rios apoiadores da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois de sofrer o ataque e a viol\u00eancia dos contrarrevolucion\u00e1rios, o ambiente pol\u00edtico modificou-se radicalmente, e o poder sovi\u00e9tico reagiu rapidamente, percebendo claramente que a amea\u00e7a militar das for\u00e7as da rea\u00e7\u00e3o interna, com amplo apoio pol\u00edtico e log\u00edstico das pot\u00eancias imperialistas, representava um risco real para a revolu\u00e7\u00e3o. Segundo Mandel, at\u00e9 mar\u00e7o de 1920, o n\u00famero total de v\u00edtimas do terror vermelho foi avaliado oficialmente em 8.620 pessoas, enquanto alguns historiadores avaliaram em mais de 10 mil. Ap\u00f3s a derrota dos ex\u00e9rcitos brancos de Denikin e Kolchak, o governo sovi\u00e9tico aboliu a pena de morte durante v\u00e1rios meses (at\u00e9 sua reintrodu\u00e7\u00e3o durante a guerra contra a Pol\u00f4nia, que havia invadido o territ\u00f3rio russo).<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Extraordin\u00e1ria (Tcheka), para Mandel, \u00e9 algo muito diferente da ado\u00e7\u00e3o de medidas concretas de defesa da revolu\u00e7\u00e3o e da viol\u00eancia inevit\u00e1vel em uma guerra civil. A Tcheka significava a cria\u00e7\u00e3o de uma institui\u00e7\u00e3o de Estado, um aparato burocr\u00e1tico permanente de dif\u00edcil controle (como submeter a controle p\u00fablico uma pol\u00edcia pol\u00edtica?) que, com o tempo vai acabar por tomar o lugar da infame pol\u00edcia secreta czarista (a tem\u00edvel Okhrana).<\/p>\n<p>Os arquivos da Tcheka mostram que desde o princ\u00edpio, e apesar da honestidade pessoal de Felix Dzerzhinsky, seu primeiro dirigente, a \u201cdegenera\u00e7\u00e3o profissional\u201d, para usarmos as palavras de Victor Serge, estavam presentes. Membros e informantes da organiza\u00e7\u00e3o desviavam uma parte de toda fonte de riqueza tomada de especuladores ou respons\u00e1veis por \u201ccrimes econ\u00f4micos\u201d contra a sociedade. Al\u00e9m da din\u00e2mica de corrup\u00e7\u00e3o, a dificuldade de controle pol\u00edtico era real, como atestavam Lenin e Kamenev. Terminada a guerra civil, Kamenev prop\u00f5e a reforma dos servi\u00e7os de pol\u00edcia e, com o apoio de Lenin, enfrenta a resist\u00eancia de Dzerzhinsky e restringe a compet\u00eancia da Tcheka aos problemas de espionagem, aos atentados pol\u00edticos e \u00e0 prote\u00e7\u00e3o dos trens e dos armaz\u00e9ns. Qualquer outra atividade repressiva devia ser incumb\u00eancia do Comissariado do Povo para a Justi\u00e7a. Isso tudo, \u00e9 claro, mudou radicalmente anos mais tarde, com o \u201cthermidor\u201d da revolu\u00e7\u00e3o e Stalin no poder.<\/p>\n<p>_________________<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/revolucao-russa-mitos-erros-e-atualidade-2\/#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0Trotsky, L.\u00a0<em>La R\u00e9volution trahie.\u00a0<\/em>Paris, 1963, p. 75.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/revolucao-russa-mitos-erros-e-atualidade-2\/#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>\u00a0Medvedev, R.\u00a0<em>La R\u00e9volution d\u2019octobre.\u00a0<\/em>Paris, 1978, p. 210.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"kbnG72753D\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/historia-e-memoria\/revolucao-russa-mitos-erros-e-atualidade-2\/\">Revolu\u00e7\u00e3o Russa: mitos, erros e atualidade (2)<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Revolu\u00e7\u00e3o Russa: mitos, erros e atualidade (2)&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/historia-e-memoria\/revolucao-russa-mitos-erros-e-atualidade-2\/embed\/#?secret=7HXzccelku#?secret=kbnG72753D\" data-secret=\"kbnG72753D\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<p>Leia o texto 1:\u00a0<a href=\"http:\/\/controversia.com.br\/7046\">clique<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eduardo Mancuso &#8211;\u00a0Proibi\u00e7\u00e3o dos partidos. 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Requisi\u00e7\u00f5es for\u00e7adas de trigo. Cria\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia pol\u00edtica. Paz desastrosa. Como os equ\u00edvocos iniciais do poder sovi\u00e9tico contribuiriam para frustrar o primeiro ensaio socialista. Esta \u00e9 a segunda de tr\u00eas partes de\u00a0A Revolu\u00e7\u00e3o Russa de Outubro de 1917, livro rec\u00e9m-lan\u00e7ado por\u00a0Eduardo Mancuso. 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