{"id":7046,"date":"2018-02-10T12:05:24","date_gmt":"2018-02-10T14:05:24","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=7046"},"modified":"2018-02-07T18:16:24","modified_gmt":"2018-02-07T20:16:24","slug":"revolucao-russa-mitos-erros-e-atualidade-i%ef%bb%bf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/02\/10\/revolucao-russa-mitos-erros-e-atualidade-i%ef%bb%bf\/","title":{"rendered":"Revolu\u00e7\u00e3o Russa: mitos, erros e atualidade (I)\ufeff"},"content":{"rendered":"<p><strong>Eduardo Mancuso &#8211;\u00a0<\/strong>Num livreto did\u00e1tico \u2014 por\u00e9m instigante e n\u00e3o-convencional \u2014 o significado hist\u00f3rico de Outubro de 1917, os descaminhos do socialismo primitivo e uma aposta: superar a ditadura dos mercados \u00e9 mais necess\u00e1rio que nunca.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a primeira de tr\u00eas partes de\u00a0<em>A Revolu\u00e7\u00e3o Russa de Outubro de 1917<\/em>, livro rec\u00e9m-lan\u00e7ado por\u00a0<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/author\/eduardo-mancuso\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Eduardo Mancuso<\/a>. Historiador, colaborador editorial de\u00a0<em>Outras Palavras,\u00a0<\/em>ele soma, \u00e0 milit\u00e2ncia de mais de trinta anos pelo socialismo democr\u00e1tico, a capacidade de refletir sobre esta luta, seus avan\u00e7os e seus erros. Breve e pedag\u00f3gico, o texto n\u00e3o cede, por\u00e9m, \u00e0s simplifica\u00e7\u00f5es e dogmatismos. \u00c9 uma provoca\u00e7\u00e3o \u00fatil, tanto aos que querem come\u00e7ar a estudar a experi\u00eancia sovi\u00e9tica quanto a quem deseja rever as pol\u00eamicas que a marcaram<br \/>\n\u2014<\/p>\n<p><strong>Pref\u00e1cio<\/strong><\/p>\n<p>Este pequeno ensaio sobre a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, no ano de seu centen\u00e1rio, busca resgatar a atualidade da utopia de um evento fundador do s\u00e9culo 20 (assim como a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa marcou o in\u00edcio da modernidade), homenageando um grande mestre do marxismo revolucion\u00e1rio, Ernest Mandel, apoiando-se em seu brilhante ensaio critico, escrito no in\u00edcio dos anos 1990,<em>\u00a0Octubre de 1917: Golpe de Estado o revoluci\u00f3n social. La legitimidad de la Revoluci\u00f3n Rusa<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>,\u00a0<\/em>nunca editado em portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Nesse balan\u00e7o pol\u00edtico engajado, escrito no per\u00edodo da dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, Mandel, o principal int\u00e9rprete de Trotsky e um dos grandes economistas marxistas do p\u00f3s-guerra, combate com argumentos s\u00f3lidos a grande mistifica\u00e7\u00e3o anticomunista sobre a natureza da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. Ao mesmo tempo que afirma categoricamente a profunda legitimidade hist\u00f3rica da revolu\u00e7\u00e3o russa e defende a orienta\u00e7\u00e3o de conjunto seguida pelos bolcheviques, Mandel realiza, com sua reconhecida erudi\u00e7\u00e3o, um balan\u00e7o l\u00facido e implac\u00e1vel dos principais erros cometidos pelos dirigentes revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>O mito da Revolu\u00e7\u00e3o Russa como um golpe de Estado minorit\u00e1rio, dirigido por um mestre da manobra pol\u00edtica, Lenin, executado por uma seita de revolucion\u00e1rios profissionais, expressa uma narrativa persistentemente alimentada por um amplo leque de for\u00e7as que v\u00e3o do conservadorismo ao liberalismo, da social-democracia a correntes p\u00f3s-modernas, chegando at\u00e9 ao governo russo na atualidade, constrangido com o centen\u00e1rio de Outubro.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio dessa vis\u00e3o reducionista e absolutamente ideol\u00f3gica, a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro foi o ponto culminante de um dos mais profundos movimentos de massas da hist\u00f3ria, marcou o in\u00edcio do s\u00e9culo 20 e inspirou com o seu programa as insurrei\u00e7\u00f5es europeias deflagradas pela barb\u00e1rie imperialista da Primeira Guerra Mundial. Apenas quatro d\u00e9cadas ap\u00f3s Marx e Engels escreverem no pref\u00e1cio da edi\u00e7\u00e3o russa do Manifesto Comunista (1882) que, \u201cse a revolu\u00e7\u00e3o russa tornar-se o sinal para a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria no Ocidente, de modo que uma complemente a outra\u201d<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, essa possibilidade hist\u00f3rica concretizou-se. Ela acabou frustrada, \u00e9 verdade, uma revolu\u00e7\u00e3o tra\u00edda. Por\u00e9m, a atualidade dessa utopia nos interpela ainda hoje, em sua mensagem em defesa da unidade e da emancipa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, da solidariedade dos povos em busca de \u201cpaz, p\u00e3o e terra\u201d. Em pleno s\u00e9culo 21, em seu centen\u00e1rio, Outubro de 1917 nos faz lembrar da alternativa de Rosa Luxemburgo sobre a crise de civiliza\u00e7\u00e3o capitalista: socialismo ou barb\u00e1rie.<\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i2.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/171018-MancusoCapa2.jpg\" data-slb-active=\"1\" data-slb-asset=\"899668885\" data-slb-internal=\"0\" data-slb-group=\"643938\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-644470 alignnone\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/171018-MancusoCapa2.jpg?resize=255%2C426\" alt=\"171018-MancusoCapa\" width=\"255\" height=\"426\" \/><\/a><\/p>\n<p>O regime czarista foi derrubado em fevereiro de 1917 (pelo antigo calend\u00e1rio russo as revolu\u00e7\u00f5es de mar\u00e7o e novembro iniciaram duas semanas antes e assim ficaram conhecidas), alguns meses antes da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. Foi ent\u00e3o que nasceram os Sovietes \u2013 os conselhos de oper\u00e1rios, camponeses e soldados \u2013 resgatando a experi\u00eancia hist\u00f3rica de S\u00e3o Petersburgo (antiga Petrogrado) na revolu\u00e7\u00e3o derrotada de 1905. No in\u00edcio do processo, os bolcheviques n\u00e3o tinham uma presen\u00e7a majorit\u00e1ria nos Sovietes. Eram outras for\u00e7as pol\u00edticas, como os mencheviques e os socialistas-revolucion\u00e1rios (SR), herdeiros do populismo russo, que detinham a maioria da representa\u00e7\u00e3o dos conselhos. Estes partidos moderados apoiavam os burgueses liberais e o seu principal partido, cadete (KD), que constitu\u00edram o Governo Provis\u00f3rio, ap\u00f3s a queda do czar Nicolau Romanov.<\/p>\n<p>Esses partidos e correntes pol\u00edticas revelaram-se incapazes de resolver o conjunto dos problemas candentes que assolavam o pa\u00eds, como a continuidade mort\u00edfera da guerra, a fome, a carestia, a mis\u00e9ria da classe oper\u00e1ria e a demanda dos camponeses por reforma agr\u00e1ria. Esta incapacidade pol\u00edtica e as crises sucessivas do Governo Provis\u00f3rio explicam a progressiva e r\u00e1pida radicaliza\u00e7\u00e3o das massas do campo e das cidades, o crescimento da influ\u00eancia bolchevique e a apari\u00e7\u00e3o de uma nova situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria no outono.<\/p>\n<p>No momento da primeira revolu\u00e7\u00e3o, em fevereiro de 1917, as mulheres trabalhadoras da ind\u00fastria t\u00eaxtil, os camponeses, os oper\u00e1rios e as nacionalidades oprimidas do imp\u00e9rio russo deram um grito de basta e derrubaram o czarismo. Pediam paz, terra, jornada de oito horas, direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, o Governo Provis\u00f3rio tergiversou, adiou a solu\u00e7\u00e3o dessas quest\u00f5es dilacerantes para uma Assembleia Constituinte, que tinha a sua convoca\u00e7\u00e3o e elei\u00e7\u00e3o sucessivamente postergada. O paradoxo da Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro foi que, embora tenha varrido o czarismo, substituiu-o por um governo de liberais n\u00e3o eleitos que estavam horrorizados com a pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o que os havia colocado no poder. Nessas condi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o surpreende que as massas tenham buscado resolver elas mesmas seus problemas vitais e reconhecido, na pol\u00edtica dos bolcheviques e no poder dos Sovietes, os instrumentos da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O mito do golpe de Estado<\/strong><\/p>\n<p>As fontes hist\u00f3ricas n\u00e3o deixam d\u00favida alguma quanto \u00e0 representatividade dos bolcheviques em outubro de 1917. Sukhanov, membro da corrente moderada SR, assinala o papel dos bolcheviques no movimento revolucion\u00e1rio:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cResulta totalmente absurdo falar de uma conspira\u00e7\u00e3o militar em lugar de uma insurrei\u00e7\u00e3o nacional, quando o partido era seguido pela grande maioria do povo e quando, de fato, j\u00e1 havia conquistado o poder real e a autoridade.\u201d<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Marc Ferro, eminente historiador e cr\u00edtico dos bolcheviques afirma:<\/p>\n<blockquote><p>\u201c[\u2026] em primeiro lugar, a bolcheviza\u00e7\u00e3o foi o efeito da radicaliza\u00e7\u00e3o das massas e a express\u00e3o da vontade democr\u00e1tica [\u2026] Em grande medida, a radicaliza\u00e7\u00e3o das massas se explica pela inefic\u00e1cia da pol\u00edtica governamental (com participa\u00e7\u00e3o socialista desde maio) [\u2026] Os trabalhadores pediam que lhes concedessem condi\u00e7\u00f5es de vida menos inumanas. Foi a negativa, brutal e astuta, dos possuidores em acatar esta demanda o que levou a ocupa\u00e7\u00e3o de f\u00e1bricas, ao sequestro de patr\u00f5es, e em seguida, depois de Outubro, a vingan\u00e7a contra os burgueses.\u201d<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Mandel tamb\u00e9m resgata as palavras de Dan, um dos principais dirigentes mencheviques nas v\u00e9speras de Outubro, reconhecendo que as massas:<\/p>\n<blockquote><p>\u201c[\u2026] cada vez com mais frequ\u00eancia come\u00e7aram a expressar seu descontentamento e sua impaci\u00eancia em movimentos impetuosos, e terminaram [\u2026] por voltar-se para o comunismo [\u2026]. As greves se sucederam. Os oper\u00e1rios buscaram responder ao r\u00e1pido aumento do custo de vida atrav\u00e9s de incrementos salariais. Por\u00e9m, todos os seus esfor\u00e7os fracassaram em consequ\u00eancia da cont\u00ednua desvaloriza\u00e7\u00e3o da moeda. Os comunistas lan\u00e7aram em suas fileiras a consigna de \u201ccontrole oper\u00e1rio\u201d, e lhes aconselharam a tomar em suas m\u00e3os a dire\u00e7\u00e3o das empresas a fim de impedir a \u201csabotagem\u201d dos capitalistas. Por outro lado, os camponeses come\u00e7aram a apoderar-se das propriedades rurais, a expulsar os latifundi\u00e1rios e a p\u00f4r fogo em suas casas de campo ante o temor de que as propriedades lhe escapassem das m\u00e3os desse momento at\u00e9 a convocat\u00f3ria da Assembleia Constituinte.\u201d<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro realizou-se sob a palavra de ordem de \u201cTodo o poder aos Sovietes\u201d, os conselhos de oper\u00e1rios, soldados e camponeses. Mandel cita o historiador Beryl Williams, que resume o processo que conduziu a revolu\u00e7\u00e3o nestes termos:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cMais que nos programas dos partidos ou na Assembleia Constituinte, era no poder dos Sovietes onde as massas viam a solu\u00e7\u00e3o dos seus problemas. Somente os bolcheviques estavam realmente identificados com este poder sovi\u00e9tico [\u2026]. [Seu] partido se encontrava, ent\u00e3o, com possibilidades de elevar-se sobre a onda popular at\u00e9 a tomada do poder.\u201d<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Mandel recorda que no decisivo segundo congresso dos Sovietes, \u00e0s portas da revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, os partid\u00e1rios da orienta\u00e7\u00e3o \u201cTodo o poder aos Sovietes\u201d obtiveram quase 70% dos mandatos. Ao examinar a atitude popular com a dissolu\u00e7\u00e3o da Assembleia Constituinte por parte do governo sovi\u00e9tico, em janeiro de 1918, ele cita as palavras do historiador Anweiler:<\/p>\n<blockquote><p>\u201c[\u2026] nas fileiras do povo eram raros os protestos contra as medidas coercitivas dos bolcheviques, e isto n\u00e3o tinha como causa \u00fanica o terrorismo intelectual e f\u00edsico, relativamente \u201csuave\u201d dessa \u00e9poca. O fato de que os bolcheviques se tenham antecipado, em muito, \u00e0s decis\u00f5es da Constituinte sobre quest\u00f5es t\u00e3o vitais como as da paz e da terra, pesou n\u00e3o menos decisivamente na balan\u00e7a [\u2026]. As massas oper\u00e1rias e camponesas se mostravam [\u2026] mais inclinadas a dar o seu assentimento \u00e0s medidas concretas dos novos donos [\u2026]. Apesar da defici\u00eancia dos Sovietes, tanto em quest\u00f5es organizativas como, frequentemente, em mat\u00e9ria de representa\u00e7\u00e3o, as massas os consideravam como \u201cseus\u201d \u00f3rg\u00e3os\u201d.<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O mito da utopia socialista<\/strong><\/p>\n<p>A segunda falsifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, segundo Mandel, \u00e9 a de que os bolcheviques teriam tomado o poder de forma golpista com a inten\u00e7\u00e3o de criar na R\u00fassia, de imediato, uma sociedade socialista. Na realidade, a tomada do poder pelos Sovietes, sob a dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica bolchevique, tinha como meta objetivos muito concretos: deter a guerra imediatamente, distribuir a terra aos camponeses, assegurar o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o das nacionalidades oprimidas, evitar o esmagamento de Petrogrado, o cora\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o, que o primeiro-ministro Kerensky queria entregar ao ex\u00e9rcito alem\u00e3o, acabar com a sabotagem da economia por parte da burguesia, estabelecer o controle oper\u00e1rio sobre a produ\u00e7\u00e3o e impedir a vit\u00f3ria da contrarrevolu\u00e7\u00e3o mon\u00e1rquica.<\/p>\n<p>Os bolcheviques n\u00e3o esperavam realizar \u201ca utopia socialista\u201d em \u201cum s\u00f3 pa\u00eds\u201d. Na realidade, recha\u00e7avam tal ideia. Lenin nunca escondeu \u00e0s massas que, para ele, a conquista do poder na R\u00fassia tinha a fun\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de estimular a revolu\u00e7\u00e3o internacional, principalmente a revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3, beneficiando-se do fato de que a rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no pa\u00eds era mais favor\u00e1vel ao proletariado do que a de qualquer outro lugar da Europa.<\/p>\n<p>Lenin sabia que uma sociedade socialista plenamente desenvolvida, no sentido marxista de uma sociedade sem classes, s\u00f3 poderia conhecer a luz do dia depois da vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o internacional. E assim repetiu, em janeiro de 1918, diante do terceiro congresso dos Sovietes:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cN\u00e3o tenho ilus\u00f5es quanto ao fato de que apenas come\u00e7amos o per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o ao socialismo, de que n\u00e3o chegamos ao socialismo [\u2026] Estamos longe inclusive de haver terminado o per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o do capitalismo ao socialismo. Jamais nos deixamos enganar pela esperan\u00e7a de que poder\u00edamos termin\u00e1-lo sem a ajuda do proletariado internacional.\u201d<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O mito do partido-seita<\/strong><\/p>\n<p>A terceira falsifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u00e9 a de que a \u201cintentona golpista\u201d de outubro de 1917 foi perpetrada por uma seita de revolucion\u00e1rios profissionais extremamente centralizada, fan\u00e1tica e manipulada por Lenin, \u201c\u00e1vido de poder absoluto\u201d. Na realidade, entre fevereiro e outubro de 1917, o partido bolchevique se converteu em um partido de massas, aglutinando a vanguarda real do proletariado russo. Seu n\u00famero de revolucion\u00e1rios profissionais (permanentes) era extremamente reduzido (700 de um total aproximado de 250 mil membros). Segundo Mandel, at\u00e9 conquistar o poder, o partido bolchevique foi o partido de massas menos burocratizado que j\u00e1 existiu na hist\u00f3ria. Funcionava de maneira extremamente democr\u00e1tica: os debates e diferen\u00e7as de opini\u00e3o eram numerosos e, de maneira geral, expressavam-se publicamente. Esta tradi\u00e7\u00e3o manteve-se viva at\u00e9 1921, durante o X Congresso do Partido Comunista (bolchevique), quando foi tomada a decis\u00e3o, profundamente equivocada e com tr\u00e1gicas repercuss\u00f5es, de proibir as fra\u00e7\u00f5es, tend\u00eancias e grupos no seio do partido.<\/p>\n<p>Se a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro n\u00e3o foi um golpe de estado, tampouco foi um levante de massas espont\u00e2neo, como foi Fevereiro. O processo foi uma insurrei\u00e7\u00e3o metodicamente preparada e executada pelos bolcheviques e seus aliados nos Sovietes (os anarquistas e os socialistas-revolucion\u00e1rios de esquerda) com amplo apoio popular. N\u00e3o se tratou de uma insurrei\u00e7\u00e3o secreta e minorit\u00e1ria. Foi o resultado de uma nova legitimidade sustentada por instrumentos de duplo poder constru\u00eddos pela grande maioria dos trabalhadores e soldados e por uma boa parte dos camponeses. A legitimidade dos Sovietes e dos conselhos de f\u00e1brica foi conquistada na disputa pol\u00edtica contra as correntes reformistas moderadas, o Governo Provis\u00f3rio, o Estado-Maior, a burguesia e os latifundi\u00e1rios. Desta maneira, nas empresas os oper\u00e1rios reconheciam cada vez mais a autoridade dos comit\u00eas de f\u00e1brica em detrimento dos patr\u00f5es. E gra\u00e7as a agita\u00e7\u00e3o e a organiza\u00e7\u00e3o bolchevique dirigida por Trotsky, todos os regimentos da guarni\u00e7\u00e3o de Petrogrado decidiram em assembleias p\u00fablicas n\u00e3o reconhecer ordens que n\u00e3o fossem do Soviete.<\/p>\n<p>Portanto, o mito da revolu\u00e7\u00e3o russa como um golpe de Estado executado por uma seita pol\u00edtica, constitui uma falsifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica flagrante.<\/p>\n<p><strong>O mito do regime totalit\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 um quarto mito na condena\u00e7\u00e3o \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, que se baseia na ideia de que a \u201cintentona golpista\u201d bolchevique haveria impedido a institucionaliza\u00e7\u00e3o e a consolida\u00e7\u00e3o da democracia, ap\u00f3s a queda do czarismo, e implantado um \u201cregime totalit\u00e1rio\u201d na R\u00fassia. Trata-se, segundo Mandel, de mais uma falsifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica: um regime totalit\u00e1rio s\u00f3 vai implantar-se no pa\u00eds com a consolida\u00e7\u00e3o da ditadura stalinista nos anos 1930, justamente ap\u00f3s a destrui\u00e7\u00e3o do legado revolucion\u00e1rio de Lenin, dos Sovietes e do partido bolchevique.<\/p>\n<p>Na realidade, a polariza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as sociais e pol\u00edticas havia chegado ao paroxismo na R\u00fassia, entre fevereiro e outubro de 1917. N\u00e3o havia nenhum espa\u00e7o poss\u00edvel para uma experi\u00eancia de democracia burguesa institucionalizar-se. Seja por raz\u00f5es sociais (instabilidade pol\u00edtica extrema, aus\u00eancia de classes m\u00e9dias), seja por raz\u00f5es culturais (aus\u00eancia de institui\u00e7\u00f5es estatais, total falta de tradi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica no imp\u00e9rio russo).<\/p>\n<p>A partir de julho, com a radicaliza\u00e7\u00e3o das massas populares e de suas demandas, os setores reacion\u00e1rios das elites e do ex\u00e9rcito adotaram um curso violentamente repressivo e abertamente contrarrevolucion\u00e1rio. A pris\u00e3o de lideran\u00e7as pol\u00edticas de esquerda pelo regime e o golpe de Estado de Kornilov em agosto, refletem o endurecimento da situa\u00e7\u00e3o. A frustra\u00e7\u00e3o dessas iniciativas acentuou a sede de vingan\u00e7a e o \u00f3dio de classe dos possuidores. Este \u00f3dio de classe era t\u00e3o profundo que no espa\u00e7o de poucos meses a burguesia, a nobreza e os monarquistas, antes t\u00e3o \u201cpatri\u00f3ticos\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra, tornaram-se german\u00f3filos e passaram a conspirar e tecer esperan\u00e7as na chegada das tropas alem\u00e3s a Petrogrado, para assim esmagar o foco revolucion\u00e1rio na capital (repetindo, meio s\u00e9culo depois, o mesmo comportamento do governo franc\u00eas sobre a Comuna de Paris).<\/p>\n<p>Os pr\u00f3prios dirigentes mencheviques reconheceram que, ap\u00f3s a tentativa de golpe de Estado do general Kornilov, apoiado pelos setores mais reacion\u00e1rios, o que estava em jogo j\u00e1 n\u00e3o era a estabiliza\u00e7\u00e3o da democracia, mas a contrarrevolu\u00e7\u00e3o monarquista:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cDepois de haver avaliado a rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as real, [o Comit\u00ea Central dos mencheviques] chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que \u2013 independentemente de suas inten\u00e7\u00f5es subjetivas \u2013 a vit\u00f3ria dos elementos que marchavam sobre Petrogrado obrigatoriamente haveria significado a vit\u00f3ria da pior das contrarrevolu\u00e7\u00f5es.\u201d<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Portanto, a op\u00e7\u00e3o real n\u00e3o estava entre democracia burguesa ou ditadura bolchevique. Estava entre ditadura contrarrevolucion\u00e1ria ou o poder democr\u00e1tico e popular dos Sovietes. Foram os burgueses e os monarquistas, com o vacilante apoio dos partidos reformistas, que desencadearam a guerra civil imediatamente depois da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, contando para isso com o apoio de ex\u00e9rcitos estrangeiros.<\/p>\n<p>A alternativa pol\u00edtica ao poder dos conselhos tinha um objetivo e um conte\u00fado social e econ\u00f4mico muito preciso, e n\u00e3o era a democracia. A partir de 1918, aonde os ex\u00e9rcitos brancos dominaram, a viol\u00eancia contrarrevolucion\u00e1ria imperou e as conquistas populares de Outubro foram imediatamente suprimidas. Os latifundi\u00e1rios retomaram a posse de seus dom\u00ednios, acabaram com os direitos das minorias nacionais, os Sovietes foram extintos e foram negados os direitos democr\u00e1ticos das massas trabalhadoras. Foi isso que derrotou os ex\u00e9rcitos brancos, formados por cossacos e dirigidos por nobres e oficiais do antigo ex\u00e9rcito czarista, sem nenhuma capacidade de recrutar volunt\u00e1rios. N\u00e3o podiam (e nem tentaram) conquistar ou reconstituir uma base popular para o retorno do antigo regime. Seus m\u00e9todos eram o autoritarismo, a viol\u00eancia de classe e o terror.<\/p>\n<p><strong>Outubro de 1917: uma revolu\u00e7\u00e3o internacionalista pela paz entre os povos<\/strong><\/p>\n<p>A vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro n\u00e3o pode ser entendida fora do contexto da Primeira Guerra Mundial. De todas as bandeiras pol\u00edticas bolcheviques, a que defendia o fim imediato da guerra e a paz sem anexa\u00e7\u00f5es foi a que mais apoio encontrou na popula\u00e7\u00e3o. Sobretudo os soldados russos, em sua maioria camponeses, n\u00e3o queriam mais uma guerra que havia causado milh\u00f5es de baixas. A decomposi\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito desarmou o Governo Provis\u00f3rio depois das primeiras tentativas de contrarrevolu\u00e7\u00e3o. Isto foi o que permitiu a vit\u00f3ria de outubro, sendo admitido por mencheviques mais l\u00facidos, como um de seus principais dirigentes, Dan: \u201ca prolonga\u00e7\u00e3o da guerra deu a vit\u00f3ria aos bolcheviques na revolu\u00e7\u00e3o russa.\u201d<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a><\/p>\n<p>O primeiro discurso que Lenin pronunciou ante o Segundo Congresso dos Sovietes para apresentar a pol\u00edtica do novo poder ap\u00f3s ser aclamado como presidente do Conselho dos Comiss\u00e1rios do Povo foi o informe sobre a paz.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO Governo considera que continuar esta guerra pela reparti\u00e7\u00e3o entre as na\u00e7\u00f5es fortes e ricas dos povos d\u00e9beis conquistados por elas \u00e9 o maior crime contra a humanidade e proclama solenemente sua resolu\u00e7\u00e3o de assinar, sem demora, cl\u00e1usulas de paz que ponham fim a esta guerra nas condi\u00e7\u00f5es indicadas, igualmente justas para todas as nacionalidades sem exce\u00e7\u00e3o.\u201d<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>O governo sovi\u00e9tico estendeu este princ\u00edpio do direito dos povos a todas as col\u00f4nias e pa\u00edses fora da Europa. Mandel chama a aten\u00e7\u00e3o de que este foi um ato revolucion\u00e1rio com incalcul\u00e1veis repercuss\u00f5es hist\u00f3ricas, que deu um impulso decisivo aos nascentes movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional em pa\u00edses como a \u00cdndia, China e Indon\u00e9sia, assim como um apoio significativo a movimentos anti-imperialistas j\u00e1 importantes, como na Turquia. Uma das principais consequ\u00eancias desta pol\u00edtica foi a famosa Confer\u00eancia dos Povos do Oriente, realizada em Baku, Azerbaij\u00e3o, em 1920. Al\u00e9m disso, pela primeira vez na hist\u00f3ria, o poder sovi\u00e9tico aboliu a diplomacia secreta, publicando todos os documentos diplom\u00e1ticos e todos os tratados secretos realizados pelos governos anteriores. E tamb\u00e9m decidiu imediatamente iniciar negocia\u00e7\u00f5es de paz. Este fato foi acompanhado de um chamado aos trabalhadores dos grandes pa\u00edses imperialistas para que se comprometessem com o caminho da paz e do socialismo:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cAo dirigir esta proposi\u00e7\u00e3o de paz aos governos de todos os pa\u00edses beligerantes, o Governo Provis\u00f3rio Oper\u00e1rio e Campon\u00eas da R\u00fassia se dirige tamb\u00e9m, e sobretudo, aos oper\u00e1rios conscientes das tr\u00eas na\u00e7\u00f5es mais adiantadas da humanidade e dos tr\u00eas Estados mais importantes que tomam parte na atual guerra: Inglaterra, Fran\u00e7a e Alemanha. Os oper\u00e1rios destes tr\u00eas pa\u00edses prestaram os maiores servi\u00e7os \u00e0 causa do progresso e do socialismo, deram os magn\u00edficos exemplos do movimento cartista na Inglaterra, das revolu\u00e7\u00f5es de import\u00e2ncia hist\u00f3rico-mundial realizadas pelo proletariado franc\u00eas e, finalmente, da luta heroica contra a lei de exce\u00e7\u00e3o na Alemanha e do trabalho prolongado, tenaz e disciplinado para criar organiza\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias de massas neste pa\u00eds, trabalho que serve de exemplo aos oper\u00e1rios de todo o mundo. Todos estes exemplos de hero\u00edsmo prolet\u00e1rio e de iniciativa hist\u00f3rica nos garantem que os oper\u00e1rios destes pa\u00edses compreender\u00e3o o dever que t\u00eam hoje de livrar a humanidade dos horrores da guerra e de suas consequ\u00eancias, que esses oper\u00e1rios, com sua atividade m\u00faltipla, resoluta, abnegada e en\u00e9rgica, nos ajudar\u00e3o a levar a feliz termo a causa da paz, e com ela, a causa da liberta\u00e7\u00e3o das massas trabalhadoras e exploradas de toda a escravid\u00e3o e de toda explora\u00e7\u00e3o.\u201d<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Os bolcheviques concebiam a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro como um meio para encerrar a guerra e acelerar o desenvolvimento da revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial. Como lembra Mandel, a Primeira Guerra Mundial representou o massacre de dez milh\u00f5es de seres humanos, para alcan\u00e7ar objetivos aos quais hoje em dia ningu\u00e9m reconhece legitimidade alguma. A guerra foi o primeiro de uma s\u00e9rie de desastres que, trinta anos mais tarde, conduziram a humanidade \u00e0 barb\u00e1rie moderna do nazismo, de Auschwitz e Hiroshima. Os socialistas mais l\u00facidos previram isso antes de 1914: revolucion\u00e1rios como Lenin, Trotsky e Rosa Luxemburgo, e moderados como Jaur\u00e9s.<\/p>\n<p>Assim, o governo dos Sovietes lutou determinadamente pela paz imediata durante as negocia\u00e7\u00f5es de Brest-Litovsk com a Alemanha e \u00c1ustria-Hungria. E um crescente contingente de trabalhadores e soldados de todos os pa\u00edses envolvidos recha\u00e7ava a continuidade da guerra, o que explica o imenso eco que a posi\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica encontrou, sobretudo quando se traduziu na exemplar agita\u00e7\u00e3o de Trotsky na mesa de negocia\u00e7\u00f5es. Assim, a revolu\u00e7\u00e3o na R\u00fassia encarnava a esperan\u00e7a internacionalista e humanista de defesa da paz, da liberdade e da igualdade de direitos para todos os povos.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a primeira Constitui\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica, de 1918, suprimia a distin\u00e7\u00e3o entre \u201ccidad\u00e3os nacionais\u201d e \u201cestrangeiros\u201d. Todas as pessoas que residiam na R\u00fassia Sovi\u00e9tica e que estivessem dispostas a trabalhar nesse pa\u00eds, imediatamente gozariam de todos os direitos pol\u00edticos, inclu\u00eddo o direito de voto. Nunca \u00e9 demais destacar o fato hist\u00f3rico de que foi a Revolu\u00e7\u00e3o Comunista de 1917 a respons\u00e1vel pela R\u00fassia ser um dos primeiros pa\u00edses a implantar o sufr\u00e1gio eleitoral ou seja, o direito de voto das mulheres. Pela primeira vez na hist\u00f3ria um poder de Estado demonstrava, atrav\u00e9s de fatos e de sua pr\u00e1tica concreta, que estava a servi\u00e7o dos interesses dos povos e da classe oper\u00e1ria internacional.<\/p>\n<p>Os bolcheviques mostravam assim que permaneciam fi\u00e9is \u00e0s melhores tradi\u00e7\u00f5es do movimento socialista. Ao contr\u00e1rio da social-democracia alem\u00e3 e dos demais partidos da II Internacional, que haviam falhado tragicamente nesse terreno, em agosto de 1914, quando seus principais dirigentes aceitaram a l\u00f3gica da guerra imperialista, em clara viola\u00e7\u00e3o a in\u00fameras resolu\u00e7\u00f5es adotadas durante sucessivos congressos socialistas. Depois desta hist\u00f3rica capitula\u00e7\u00e3o, foi a pr\u00e1tica do novo poder sovi\u00e9tico que estimulou o renascimento do internacionalismo socialista. Foi isso o que permitiu a cria\u00e7\u00e3o da III Internacional Comunista, o que ajudou a desencadear um poderoso movimento de solidariedade internacional com a assediada revolu\u00e7\u00e3o russa (e que garantiu a sua sobreviv\u00eancia).<\/p>\n<p><strong>Uma tradi\u00e7\u00e3o socialista: a revolu\u00e7\u00e3o contra a guerra<\/strong><\/p>\n<p>Na verdade, como lembra Mandel, o novo poder sovi\u00e9tico colocou em pr\u00e1tica as resolu\u00e7\u00f5es da pr\u00f3pria II Internacional. A pol\u00edtica de resposta socialista \u00e0s amea\u00e7as de guerra n\u00e3o se limitava a denunciar a carnificina entre os povos e conclama\u00e7\u00f5es para suspender o massacre. Gra\u00e7as aos esfor\u00e7os da esquerda da Internacional, ent\u00e3o dirigida por Lenin, Martov e Rosa Luxemburgo, a resolu\u00e7\u00e3o aprovada por unanimidade no Congresso de Stuttgart (1907) afirmava:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cNo caso de guerra, [os partidos socialistas] t\u00eam o dever de intervir para det\u00ea-la rapidamente e utilizar com todas as suas for\u00e7as a crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica criada pela guerra para agitar as camadas populares mais profundas e acelerar a queda da domina\u00e7\u00e3o capitalista.\u201d<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>No Congresso de Basileia, em 1913, a Internacional dirigiu uma solene (e prof\u00e9tica) advert\u00eancia:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cQue os governos saibam que sob as atuais condi\u00e7\u00f5es da Europa e sob o estado de \u00e2nimo da classe oper\u00e1ria, n\u00e3o poderiam desencadear a guerra sem perigo para eles mesmos.<\/p>\n<p>Que recordem que a guerra franco-alem\u00e3 provocou a explos\u00e3o revolucion\u00e1ria da Comuna; que a guerra russo-japonesa p\u00f4s em movimento as for\u00e7as revolucion\u00e1rias dos povos da R\u00fassia; que o mal-estar provocado pela escalada de gastos militares e navais dotou os conflitos sociais na Inglaterra e no continente de uma ins\u00f3lita agudeza e desencadeou greves formid\u00e1veis. (\u2026)<\/p>\n<p>Os trabalhadores consideram um crime jogar uns contra os outros em proveito dos capitalistas, da soberba das dinastias ou das combina\u00e7\u00f5es dos tratados secretos.<\/p>\n<p>Se suprimindo toda a possibilidade de evolu\u00e7\u00e3o regular, os governos empurram o proletariado europeu a deflagrar revolu\u00e7\u00f5es desesperadas, carregar\u00e3o a responsabilidade de uma crise por eles mesmos provocada.\u201d<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 certo que a maioria da social-democracia capitulou em 1914 frente \u00e0 guerra e que depois fez todo o poss\u00edvel para impedir a revolu\u00e7\u00e3o. Assim como \u00e9 verdade que as massas se deixaram arrastar pela onda patri\u00f3tica do momento. Estes fatos s\u00e3o incontest\u00e1veis. Por\u00e9m, Mandel diz que seria reducionista concluir que os mesmos derivam inevitavelmente de uma pr\u00e1tica cotidiana reformista (que combinava as greves econ\u00f4micas com bons resultados eleitorais), refletindo a crescente integra\u00e7\u00e3o do proletariado \u00e0 sociedade e ao Estado burgueses. Afinal, houve uma mudan\u00e7a radical de atitude dessas mesmas massas a partir de 1917, isto \u00e9, a partir do momento em que a crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica criada pela guerra provocou efetivamente a mis\u00e9ria, a fome, a supress\u00e3o das liberdades democr\u00e1ticas e a explos\u00e3o de greves, inclusive pol\u00edticas, previstas nas resolu\u00e7\u00f5es da Internacional.<\/p>\n<p>Um ano ap\u00f3s o Outubro de 1917 na R\u00fassia, essa situa\u00e7\u00e3o desembocou efetivamente em uma s\u00e9rie ininterrupta de revolu\u00e7\u00f5es: Finl\u00e2ndia, Alemanha, \u00c1ustria e Hungria, cria\u00e7\u00e3o de um poder sovi\u00e9tico na Baviera, crise revolucion\u00e1ria na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, a revolu\u00e7\u00e3o mundial foi uma realidade concreta. O austro-marxista Julius Braunthal resumiu a situa\u00e7\u00e3o durante a primeira reuni\u00e3o da Internacional Socialista no p\u00f3s-guerra, realizada em Lucerna, em agosto de 1919, nos seguintes termos:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA Europa estava em fermenta\u00e7\u00e3o. Parecia que se estava nas v\u00e9speras de lutas decisivas entre a revolu\u00e7\u00e3o e a contrarrevolu\u00e7\u00e3o\u201d.<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>E agregou, referindo-se \u00e0 recente organiza\u00e7\u00e3o da Internacional Comunista:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cImediatamente depois de realizado o congresso de funda\u00e7\u00e3o da IC se deu na Europa um ascenso revolucion\u00e1rio que parecia confirmar o progn\u00f3stico de Lenin.\u201d<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Fora da R\u00fassia, \u00e9 verdade, a onda revolucion\u00e1ria conheceu apenas vit\u00f3rias tempor\u00e1rias: o estabelecimento das ef\u00eameras Rep\u00fablicas Sovi\u00e9ticas da Finl\u00e2ndia, da Hungria, liderada por Bela Kun, e da Baviera (sul da Alemanha). A primeira fase da revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 foi derrotada em janeiro de 1919, com o assassinato de Rosa Luxemburgo. A revolu\u00e7\u00e3o austr\u00edaca foi deliberadamente freada pelo Partido Socialista, que negociou um compromisso com a burguesia. Mandel afirma que, se os socialistas austr\u00edacos tivessem tomado o poder, algo que era ent\u00e3o perfeitamente poss\u00edvel, a situa\u00e7\u00e3o na Europa teria modificando-se de uma maneira fundamental em favor da revolu\u00e7\u00e3o, assegurando a uni\u00e3o territorial com as Rep\u00fablicas Sovi\u00e9ticas da Baviera e da Hungria, situadas em ambos os lados da \u00c1ustria. Ao negar-se a tomar o poder, o socialismo austr\u00edaco interrompeu a cadeia da revolu\u00e7\u00e3o social na Europa central e oriental.<\/p>\n<p>A profunda radicaliza\u00e7\u00e3o do proletariado europeu depois da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro teve, portanto, ra\u00edzes pr\u00f3prias, n\u00e3o foi algo \u201cinventado\u201d ou \u201cexportado\u201d de Moscou. Esta radicaliza\u00e7\u00e3o modificou profundamente a rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as internacional prevalecente entre as classes. Tanto isso \u00e9 verdade, que para tentar conter a onda revolucion\u00e1ria, com a ajuda dos partidos reformistas, a burguesia europeia teve que conceder aos trabalhadores importantes reformas pelas quais estes vinhas lutando h\u00e1 d\u00e9cadas, sobretudo a jornada de trabalho de oito horas e o sufr\u00e1gio universal. Em 1920, esta mudan\u00e7a na rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as internacional salvou a R\u00fassia Sovi\u00e9tica de um estrangulamento militar, quando a amea\u00e7a de greve geral do movimento oper\u00e1rio impediu ao imperialismo brit\u00e2nico intervir ao lado das for\u00e7as contrarrevolucion\u00e1rias durante a guerra russo-polaca.<\/p>\n<p>Nesse sentido, Mandel avalia que as esperan\u00e7as que os bolcheviques depositavam na revolu\u00e7\u00e3o mundial n\u00e3o eram ilus\u00f3rias, mas eram excessivas. Lenin e Trotsky reconheceram isso rapidamente. Por\u00e9m, o que \u00e9 incontest\u00e1vel, antes mesmo do fim da Primeira Guerra, \u00e9 que as massas de muitos pa\u00edses queriam a revolu\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o conseguiram realizar esse intento, fora da R\u00fassia, foi gra\u00e7as a luta revolucion\u00e1ria que conquistaram avan\u00e7os democr\u00e1ticos e sociais civilizat\u00f3rios fundamentais na hist\u00f3ria do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p><em>(continua)<\/em><\/p>\n<p>_________________<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0Mandel, Ernest.\u00a0<em>Octubre de 1917: Golpe de Estado o revoluci\u00f3n social. La legitimidad de la Revoluci\u00f3n Rusa.\u00a0<\/em>Cuadernos de estudio e investigaci\u00f3n 17\/18, 1992, Amsterdam.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>\u00a0Marx, Karl e Engels, Friedrich.\u00a0<em>Manifesto do Partido Comunista.\u00a0<\/em>Petr\u00f3polis, RJ. Vozes, 2011.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u00a0Sukhanov, N. N.\u00a0<em>The Russian revolution 1917,\u00a0<\/em>volume II, Oxford. 1955, pp. 5579.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a>\u00a0Ferro, M.\u00a0<em>Des soviets au communisme bureaucratique.\u00a0<\/em>Paris, 1980, pp. 139-140, 164.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a>\u00a0Dan, em Martov \u2013 Dan:\u00a0<em>Geschichte der russischen Sozialdemocratie.\u00a0<\/em>Berlim. pp. 300-301.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a>\u00a0Williams:\u00a0<em>The Russian revolution 1917-1921.\u00a0<\/em>Londres, 1987, pp. 38-39.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a>\u00a0Anweiler, O.\u00a0<em>Les Soviets en Russie 1905-1921.\u00a0<\/em>Paris, 1971, p. 231.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a>\u00a0Lenin.\u00a0<em>Informe sobre la actividad del consejo de los comisarios del pueblo, 11 de enero de 1918. Ouvres, Tomo 26. Mosc\u00fa\/Par\u00eds, p.489.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a>\u00a0Martov-Dan, op. cit. pp. 305-306.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a>\u00a0Martov-Dan, op. cit. p. 304.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a>\u00a0Lenin, E<em>uvres.\u00a0<\/em>Tomo 26, p. 256.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a>\u00a0Lenin,\u00a0<em>Informe sobre la paz del 26 de octubre (Euvres, tomo 26, pp. 257-258).<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a>\u00a0Longuet, J.\u00a0<em>Le mouvement socialiste international.\u00a0<\/em>Paris, 1931, p. 58 (colecci\u00f3n Encyclop\u00e9die Socialiste).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a>\u00a0<em>Ibidem\u00a0<\/em>pp. 80-81.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a>\u00a0Braunthal, J.\u00a0<em>Geschichte der Internationale.\u00a0<\/em>Vol. II, Berl\u00edn-Bonn, 1978, pp. 175.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/autores\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a>\u00a0Ibidem, p. 186.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"qJwid72bcd\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/historia-e-memoria\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/\">Revolu\u00e7\u00e3o Russa: mitos, erros e atualidade (1)<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Revolu\u00e7\u00e3o Russa: mitos, erros e atualidade (1)&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/historia-e-memoria\/historia-mitos-erros-da-revolucao-russa17\/embed\/#?secret=F0LxLem2LE#?secret=qJwid72bcd\" data-secret=\"qJwid72bcd\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<p>Leia o texto 2:\u00a0<a href=\"http:\/\/controversia.com.br\/7048\">clique<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eduardo Mancuso &#8211;\u00a0Num livreto did\u00e1tico \u2014 por\u00e9m instigante e n\u00e3o-convencional \u2014 o significado hist\u00f3rico de Outubro de 1917, os descaminhos do socialismo primitivo e uma aposta: superar a ditadura dos mercados \u00e9 mais necess\u00e1rio que nunca. 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