{"id":6984,"date":"2018-02-05T15:30:35","date_gmt":"2018-02-05T17:30:35","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=6984"},"modified":"2018-02-02T14:04:07","modified_gmt":"2018-02-02T16:04:07","slug":"o-feminismo-do-tapete-vermelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/02\/05\/o-feminismo-do-tapete-vermelho\/","title":{"rendered":"O Feminismo do tapete vermelho"},"content":{"rendered":"<p><strong>Naiara Bittencourt<\/strong> &#8211;\u00a0A quest\u00e3o \u00e9 qual conte\u00fado e qual feminismo est\u00e1 sendo discutido.<\/p>\n<p>Ass\u00e9dio. Estrelas do cinema. Empoderamento. Den\u00fancia. Vitimismo. Liberdade Sexual. Essas palavras tomaram as redes e a m\u00eddia nos \u00faltimos tempos. Nesta semana esteve em destaque o debate pautado nos tapetes vermelhos do Globo de Ouro entre Oprah Winfrey e Catherine Deneuve sobre ass\u00e9dio sexual e den\u00fancia. E n\u00f3s continuamos falando sobre o \u201cmoralismo puritano\u201d do feminismo estadunidense e sobre a \u201clibertinagem libert\u00e1ria\u201d das francesas.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 qual conte\u00fado e qual feminismo est\u00e1 sendo discutido. Qual a relev\u00e2ncia desse debate para n\u00f3s e sobretudo quem est\u00e1 falando.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 negar o impacto que essas personalidades t\u00eam no p\u00fablico e especialmente nas mulheres. O poder de influ\u00eancia de Oprah \u00e9 impressionante como mulher negra no lugar que ocupa (tanto \u00e9 que seu apoio foi decisivo para a elei\u00e7\u00e3o de Obama nos EUA). Assim como as 100 atrizes francesas que assinaram o manifesto sobre as arbitrariedades das den\u00fancias sobre ass\u00e9dio. Ocorre que apesar de aparentemente opostas, as duas derivam do mesmo vi\u00e9s: o liberalismo individualista (com pautas de autonomia e liberdades individuais, autonomia do mercado e fuga das articula\u00e7\u00f5es e conquistas coletivas). E acabam por tratar do problema real do ass\u00e9dio e da viol\u00eancia de g\u00eanero como quest\u00f5es de supera\u00e7\u00e3o pessoal e \u201cempoderamento\u201d das v\u00edtimas e n\u00e3o como estrutura de poder indissociada das rela\u00e7\u00f5es raciais e de classe.<\/p>\n<p>Denunciar o ass\u00e9dio sexual\u2013 ou denunciar a pr\u00f3pria den\u00fancia como fazem as francesas \u2013 \u00a0ainda que n\u00e3o seja nada f\u00e1cil, \u00e9 incompar\u00e1vel para quem tem poder, dinheiro e status e para quem \u201cacostuma-se\u201d com a barb\u00e1rie cotidiana de viol\u00eancia (para quem v\u00ea na rotina o feminic\u00eddio encoberto pelo discurso de \u201ccrime passional\u201d, a agress\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, as \u201cencoxadas\u201d nos transportes coletivos, as palavras asquerosas nas ruas, a pedofilia e a pornografia infantil, o abandono social).<\/p>\n<p>Se as &#8220;superstars&#8221; reverberam, onde est\u00e3o aquelas incont\u00e1veis mulheres cujos nomes se perdem nos cr\u00e9ditos finais dos filmes? Aquelas que trabalham na maquinaria, na limpeza, na maquiagem, etc. As trabalhadoras do cinema que jamais ser\u00e3o indicadas ao Oscar e que jamais teriam sua voz ouvida da mesma forma. O tempo de silenciamento das mulheres realmente acabou?<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m \u00e9 fato que vemos a den\u00fancia do ass\u00e9dio se transformar em moeda de troca, reducionismo. \u00c9 s\u00f3 pensarmos como \u00e9 nossa racionalidade midi\u00e1tica e jur\u00eddica: quase ou nenhuma aten\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia \u00e0s v\u00edtimas e uma superexposi\u00e7\u00e3o aos assediadores. Ou das den\u00fancias serem meros discursos estrat\u00e9gicos nos tribunais virtuais totalit\u00e1rios com interesses escusos no mercado e na pol\u00edtica &#8211; e nisso acertam as francesas.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de simples empoderamento. O liberalismo vem encampando e levando o debate, na capacidade exemplar que o capital coorporativo das grandes ind\u00fastrias culturais t\u00eam de se espraiar para as tem\u00e1ticas pelas quais lutamos e lev\u00e1-las amortecidamente, de forma suavizada.<\/p>\n<p>\u00c9 relativamente simples propagar a liberdade sexual individual e vender nichos de mercado do sexo e da pornografia para \u201cmulheres empoderadas\u201d. Mas n\u00e3o t\u00e3o simples foi equipara\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas \u00e0s dom\u00e9sticas, em que 94% das trabalhadoras s\u00e3o mulheres no Brasil, que s\u00f3 ocorreu em 2012, com uma lentid\u00e3o absurda na sua regulamenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto houver uma estrutura de poder altamente desigual e vertical, que exige favores e funciona a base da viol\u00eancia para ascens\u00e3o (e isso parece se exacerbar no cinema e na televis\u00e3o pela sua repercuss\u00e3o midi\u00e1tica), a sexualidade \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o desse poder.<\/p>\n<p>E isso delimita pap\u00e9is de g\u00eanero e subposi\u00e7\u00f5es raciais, mas sobretudo se explicita em determina\u00e7\u00f5es de classe. \u00c9 por isso o risco do bradado \u201cempoderamento\u201d que tratam de faces distintas de uma mesma moeda do feminismo liberal.<\/p>\n<p>De um lado, o de Oprah, denunciado como vitimista, mas que \u00e9 a voz da 6\u00aa mulher mais rica do mundo, imagem da meritocracia estadunidense de ascens\u00e3o social \u2013 do \u201cvoc\u00ea quer, voc\u00ea luta, voc\u00ea consegue\u201d &#8211; como se n\u00e3o fosse a exce\u00e7\u00e3o da estrutura racista dos EUA. Sua representatividade e for\u00e7a s\u00e3o incontest\u00e1veis assim como seu forte e bela fala no Globo de Ouro. Por\u00e9m seu discurso n\u00e3o abdica da l\u00f3gica de supera\u00e7\u00e3o individual no interior de uma estrutura capitalista que utiliza essencialmente do racismo e do patriarcado para se sustentar. \u00c9 a busca pela reformula\u00e7\u00e3o do \u201cSonho Americano\u201d ou \u201cda Procura pela Felicidade\u201d sem mencionar que s\u00e3o imposs\u00edveis sen\u00e3o em casos isolados na estrutura desigual da \u201cTerra da Liberdade\u201d.<\/p>\n<p>De outro, as atrizes francesas que se revoltam com o \u201cconservadorismo\u201d e o \u201cdenuncismo\u201d como formas de limitar a liberdade sexual. Segundo elas \u201cn\u00f3s tamb\u00e9m somos suficientemente esclarecidas para n\u00e3o confundir uma sedu\u00e7\u00e3o desajeitada com agress\u00e3o sexual\u201d. Mas que tipo e para quem a liberdade sexual se refere? Quem \u00e9 a mulher empoderada e sexualmente bem resolvida a que se referem? \u00c9 s\u00f3 lembrarmos da pesquisa do IPEA no Brasil em 2014, em que 58,5% dos entrevistados acreditam que se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros e 27% concordam que a mulher deve satisfazer os desejos sexuais do marido, mesmo sem vontade. Al\u00e9m disso, reiteram o discurso equivocado da separa\u00e7\u00e3o do p\u00fablico e privado como se o Estado devesse se abster de determinadas \u2013 ou da maioria das &#8211; interven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Enquanto discutimos a liberdade sexual ou o empoderamento das estrelas, temos 14% de mulheres desempregadas no Brasil, 12 registros de feminic\u00eddios e 135 estupros por dia (formalizados!). N\u00e3o debatemos com profundidade a viol\u00eancia dom\u00e9stica, a segrega\u00e7\u00e3o ocupacional, a divis\u00e3o sexual do trabalho, a privatiza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o e da sa\u00fade e a redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de vagas nas creches.<\/p>\n<p>E a\u00ed est\u00e1, se o feminismo se ampliou \u2013 e isso \u00e9 ineg\u00e1vel \u2013 n\u00e3o significa necessariamente que se popularizou. Enquanto as pautas de liberdade sexual se sobrepuserem de maneira completamente desproporcional \u00e0 autonomia econ\u00f4mica, \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e de suas condi\u00e7\u00f5es, continuaremos tremulando as bandeiras de um feminismo liberal, apoiado pelos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nicos e mercados fornecedores que adoram vender camisetas que anunciam a \u201cfeminist revolution\u201d (em ingl\u00eas ou franc\u00eas, claro) e com estampas psicod\u00e9licas do rosto de Frida Kahlo.<\/p>\n<p>O patriarcado \u00e9 a mesma de estrutura de poder que \u201cautoriza\u201d e \u201clegitima\u201d a hierarquiza\u00e7\u00e3o e divis\u00e3o entre os homens e mulheres, que acha toler\u00e1vel (ou at\u00e9 positivo) a apropria\u00e7\u00e3o do corpo feminino como p\u00fablico com os ass\u00e9dios verbais e f\u00edsicos nas ruas e que abusa das mulheres sexualmente no trabalho. Mas o patriarcado n\u00e3o \u00e9 independente. Como um n\u00f3 que se forja com o capitalismo e com o racismo, se torna completamente simplista e rid\u00edculo debater um independente do outro.<\/p>\n<p>Tratar do ass\u00e9dio ou viol\u00eancia de g\u00eanero sem a centralidade no trabalho e sem observar as diferen\u00e7as de classe \u00e9 recair na abstra\u00e7\u00e3o que atinge um n\u00famero irris\u00f3rio de mulheres \u201csuper-poderosas\u201d e \u201cricas\u201d. Mulheres que acham barb\u00e1rie (e com raz\u00e3o) o ass\u00e9dio nos bastidores do cinema, mas que podem n\u00e3o se opor \u00e0 redu\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas, \u00e0 redu\u00e7\u00e3o do Estado nos servi\u00e7os b\u00e1sicos de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia social, \u00e0 interven\u00e7\u00e3o imperialista e de guerra de seus pa\u00edses e que, n\u00e3o raro, t\u00eam dezenas de empregadas para ampar\u00e1-las.<\/p>\n<p>Queremos certamente tomar as r\u00e9deas de nossa hist\u00f3ria definitivamente. A quest\u00e3o \u00e9 quem ser\u00e3o as protagonistas dessa constru\u00e7\u00e3o e de que forma. Insistir no empoderamento individual e meritocr\u00e1tico \u00e9 estar \u00e0 servi\u00e7o da reforma imposs\u00edvel de \u201chumaniza\u00e7\u00e3o\u201d do neoliberalismo.<\/p>\n<p>https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/01\/13\/o-feminismo-do-tapete-vermelho\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Naiara Bittencourt &#8211;\u00a0A quest\u00e3o \u00e9 qual conte\u00fado e qual feminismo est\u00e1 sendo discutido. Ass\u00e9dio. Estrelas do cinema. Empoderamento. Den\u00fancia. Vitimismo. Liberdade Sexual. Essas palavras tomaram as redes e a m\u00eddia nos \u00faltimos tempos. 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