{"id":687,"date":"2016-06-22T15:39:39","date_gmt":"2016-06-22T18:39:39","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=687"},"modified":"2016-06-13T11:44:47","modified_gmt":"2016-06-13T14:44:47","slug":"revolucao-a-americana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/06\/22\/revolucao-a-americana\/","title":{"rendered":"Revolu\u00e7\u00e3o \u00e0 americana"},"content":{"rendered":"<p><strong>Natalia Viana\u00a0&#8211;\u00a0<\/strong>Documentos vazados pelo WikiLeaks mostram como age uma organiza\u00e7\u00e3o que treina oposicionistas pelo mundo afora \u2013 do Egito \u00e0 Venezuela.<\/p>\n<p>No canto superior do documento, um punho cerrado estampa a marca da organiza\u00e7\u00e3o. No corpo do texto l\u00ea-se: \u201cH\u00e1 uma tend\u00eancia presidencialista forte na Venezuela. Como podemos mudar isso? Como podemos trabalhar isso?\u201d. Mais abaixo, o leitor encontra as seguintes frases: \u201cEconomia: o petr\u00f3leo \u00e9 da Venezuela, n\u00e3o do governo. \u00c9 o seu dinheiro, \u00e9 o seu direito\u2026 A mensagem precisa ser adaptada para os jovens, n\u00e3o s\u00f3 para estudantes universit\u00e1rios\u2026 E as m\u00e3es, o que querem? Controle da lei, a pol\u00edcia agindo sob autoridades locais. N\u00f3s iremos prover os recursos necess\u00e1rios para isso\u201d.<\/p>\n<p>O texto n\u00e3o est\u00e1 em espanhol nem foi escrito por algum membro da oposi\u00e7\u00e3o venezuelana; escrito em ingl\u00eas, foi produzido por um grupo de jovens baseados em outro lado do mundo \u2013 na S\u00e9rvia.<\/p>\n<p>O documento \u201cAn\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o na Venezuela, Janeiro de 2010\u201d, produzido pela organiza\u00e7\u00e3o Canvas, cuja sede fica em Belgrado, est\u00e1 entre os documentos da empresa de intelig\u00eancia Stratfor vazados pelo WikiLeaks.<\/p>\n<p>O \u00faltimo vazamento do WikiLeaks \u2013 ao qual a P\u00fablica teve acesso \u2013 mostra que o fundador desta organiza\u00e7\u00e3o se correspondia sempre com os analistas da Stratfor, empresa que mistura jornalismo, an\u00e1lise pol\u00edtica e m\u00e9todos de espionagem para vender \u201can\u00e1lise de intelig\u00eancia\u201d a clientes que incluem corpora\u00e7\u00f5es como a Lockheed Martin, Raytheon, Coca-Cola e Dow Chemical \u2013 para quem monitorava as atividades de ambientalistas que se opunham a elas \u2013 al\u00e9m da Marinha americana.<\/p>\n<p>O Canvas (sigla em ingl\u00eas para \u201ccentro para conflito e estrat\u00e9gias n\u00e3o-violentas\u201d)\u00a0foi fundado por dois l\u00edderes estudantis da S\u00e9rvia, que participaram da bem-sucedida revolta que derrubou o ditador Slobodan Milosevic em 2000. Durante dois anos, os estudantes organizaram protestos criativos, marchas e atos que acabaram desestabilizando o regime.<\/p>\n<p>Depois, juntaram o cabedal de conhecimento em manuais e come\u00e7aram a dar aulas a grupos oposicionistas de diversos pa\u00edses sobre como se organizar para derrotar o governo. Foi assim que chegaram \u00e0 Venezuela, onde come\u00e7aram a treinar l\u00edderes da oposi\u00e7\u00e3o em 2005.\u00a0Em seu programa de TV, Hugo Ch\u00e1vez acusou o grupo de golpista e de estar a servi\u00e7o dos Estados Unidos. \u201c\u00c9 o chamado golpe suave\u201d, disse.<\/p>\n<p>Os novos documentos analisados pela P\u00fablica mostram que se Ch\u00e1vez n\u00e3o estava totalmente certo \u2013 mas tamb\u00e9m n\u00e3o estava totalmente errado.<\/p>\n<p><strong>O come\u00e7o, na S\u00e9rvia<\/strong><\/p>\n<p>\u201cForam dez anos de organiza\u00e7\u00e3o estudantil durante os anos 90\u201d, diz Ivan Marovic, um dos estudantes que participaram dos protestos contra Milosevic. \u201cNo final, o apoio do exterior finalmente veio. Seria bobo eu negar isso. Eles tiveram um papel importante na etapa final. Sim, os Estados Unidos deram dinheiro, mas todo mundo deu dinheiro: alem\u00e3es, franceses, espanh\u00f3is, italianos. Todos estavam colaborando porque ningu\u00e9m mais apoiava o Milosevic\u201d, disse ele em entrevista \u00e0 P\u00fablica.<\/p>\n<p>\u201cDependendo do pa\u00eds, eles doavam de um determinado jeito. Os americanos t\u00eam um \u2018bra\u00e7o\u2019 formado por ONGs muito ativo no apoio a certos grupos, outros pa\u00edses como a Espanha n\u00e3o t\u00eam e nos apoiavam atrav\u00e9s do minist\u00e9rio do exterior\u201d.\u00a0 Entre as ONGs citadas por Marovic est\u00e3o o National Endowment for Democracy (NED), uma organiza\u00e7\u00e3o financiada pelo congresso americano, a Freedom\u00a0 House e o International Republican Institute, ligado ao partido republicano \u2013 ambos contam polpudos financiamentos da USAID, a ag\u00eancia de desenvolvimento americana que capitaneou movimentos golpistas na Am\u00e9rica Latina nos anos 60, inclusive no Brasil.<\/p>\n<p>Todas essas ONGs s\u00e3o velhas conhecidas dos governos latinoamericanos, incluindo os mais recentes.<\/p>\n<p>Foi o IRI, por exemplo, que ministrou \u201ccursos de treinamento pol\u00edtico\u201d para 600 l\u00edderes da oposi\u00e7\u00e3o haitiana na Rep\u00fablica Dominicana durante os anos de 2002 e 2003.<\/p>\n<p>O golpe contra Jean-Baptiste Aristide, presidente democraticamente eleito, aconteceu em 2004. Investigado pelo Congresso dos Estados Unidos, o IRI foi acusado de estar por tr\u00e1s de duas organiza\u00e7\u00f5es que conspiraram para derrubar Aristide.<\/p>\n<p>Na Venezuela, o NED enviou US$\u00a0877 mil para grupos de oposi\u00e7\u00e3o nos meses anteriores ao golpe de Estado fracassado em 2002, segundo revelou o New York Times.<\/p>\n<p>Na Bol\u00edvia,\u00a0segundo documentos\u00a0do governo americano obtidos pelo jornalista Jeremy Bigwood, parceiro da P\u00fablica, a USAID manteve um\u00a0 \u201cEscrit\u00f3rio para Iniciativas de Transi\u00e7\u00e3o\u201d, que investiu US$ 97 milh\u00f5es em projetos de \u201cdescentraliza\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cautonomias regionais\u201d desde 2002, fortalecendo os governos estaduais que se op\u00f5em a Evo Morales.<\/p>\n<p>Procurado pela P\u00fablica, o l\u00edder do Canvas, Srdja Popovic, diz que a organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o recebe fundos governamentais de nenhum pa\u00eds e que seu maior financiador \u00e9 o empres\u00e1rio s\u00e9rvio\u00a0Slobodan Djinovic, que tamb\u00e9m foi l\u00edder estudantil.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, um PowerPoint de apresenta\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o, vazado pelo WikiLeaks, aponta como parceiros do Canvas o IRI e a Freedom House, que recebem vultosas quantias da USAID.<\/p>\n<p>Para o pesquisador Mark Weisbrot, do instituto\u00a0Center for Economic and Policy Research, de Washington, organiza\u00e7\u00f5es como a IRI e Freedom House \u201cn\u00e3o est\u00e3o promovendo a democracia\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNa maior parte do tempo, est\u00e3o promovendo exatamente o oposto. Geralmente promovem as pol\u00edticas americanas em outros pa\u00edses, e isto significa oposi\u00e7\u00e3o a governos de esquerda, por exemplo, ou a governos dos quais os Estados Unidos n\u00e3o gostam\u201d.<\/p>\n<p><strong>Fase dois: da Bol\u00edvia ao Egito\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Vista atrav\u00e9s do mesmo PowerPoint de apresenta\u00e7\u00e3o, a atua\u00e7\u00e3o do Canvas impressiona. Entre 2002 e 2009, realizou 106 workshops, alcan\u00e7ando\u00a01800 participantes de 59 pa\u00edses. Nem todos s\u00e3o desafetos americanos \u2013 o Canvas treinou ativistas por exemplo na Espanha, no Marrocos e no Azerbaij\u00e3o \u2013 mas a lista inclui muitos deles: Cuba, Venezuela, Bol\u00edvia, Zimbabue, Bielorrussia, Coreia do Norte, Siria e Ir\u00e3.<\/p>\n<p>Segundo o pr\u00f3prio Canvas, sua atua\u00e7\u00e3o foi importante em todas as chamadas \u201crevolu\u00e7\u00f5es coloridas\u201d que se espalharam por ex-pa\u00edses da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica nos anos 2000.<\/p>\n<p>O documento aponta como \u201ccasos bem sucedidos\u201d a transfer\u00eancia de conhecimento para o movimento Kmara em 2003 na Ge\u00f3rgia, grupo que lan\u00e7ou a Revolu\u00e7\u00e3o Rosas e derrubou o presidente; uma ajudinha para a Revolu\u00e7\u00e3o Laranja, em 2004, na Ucr\u00e2nia; treinamento de grupos que fizeram a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cedros em 2005, no L\u00edbano; diversos projetos com ONGs no Zimbabue e a coaliz\u00e3o de oposi\u00e7\u00e3o a Robert Mugabe; treinamento de ativistas do Vietn\u00e3, Tibete e Burma, al\u00e9m de projetos na\u00a0S\u00edria e no Iraque com \u201cgrupos pr\u00f3-democracia\u201d. E, na Bol\u00edvia, \u201cprepara\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es de 2009 com grupos de Santa Cruz\u201d \u2013 conhecidos como o mais ferrenho grupo de advers\u00e1rios de Evo Morales.<\/p>\n<p>At\u00e9 2009, o principal manual do grupo, \u201cLuta n\u00e3o violenta \u2013 50 pontos cruciais\u201d j\u00e1 havia sido traduzido para 5 l\u00ednguas,\u00a0incluindo o \u00e1rabe e o farsi.<\/p>\n<p>Um das a\u00e7\u00f5es do Canvas que ganhou maior visibilidade foi o treinamento de uma lideran\u00e7a do movimento 6 de Abril, considerado o embri\u00e3o da primavera eg\u00edpcia. O movimento come\u00e7ou a ser organizado pelo Facebook para protestar em solidariedade a trabalhadores t\u00eaxteis da cidade de Mahalla al Kubra, no Delta do Nilo. Foi a primeira vez que a rede social foi usada para este fim no Egito. Em meados de 2009, Mohammed Adel, um dos l\u00edderes do 6 de Abril viajou at\u00e9 Belgrado para ser treinado por Popovic.<\/p>\n<p>Nos emails aos analistas da Stratfor, Popovic se gaba de manter rela\u00e7\u00f5es com os l\u00edderes daquele movimento, em especial com\u00a0Mohammed Adel \u2013 que se tornou\u00a0uma das principais fontes de informa\u00e7\u00e3o a respeito do levante no Egito em 2011. Na comunica\u00e7\u00e3o interna da Stratfor, ele \u00e9 mencionado sob o codinome\u00a0RS501.<\/p>\n<p>\u201cAcabamos de falar com alguns dos nossos amigos no Egito e descobrimos algumas coisas\u201d, informa ele no dia 27 de janeiro de 2011.\u00a0\u201cAmanh\u00e3 a irmadade mu\u00e7ulmana ir\u00e1 levar sua for\u00e7a \u00e0s ruas, ent\u00e3o pode ser ainda mais dram\u00e1tico\u2026 N\u00f3s obtivemos informa\u00e7\u00f5es melhores sobre estes grupos e como eles t\u00eam se organizado nos \u00faltimos dias, mas ainda estamos tentando mape\u00e1-los\u201d.<\/p>\n<p><strong>Documentos da Stratfor<\/strong><\/p>\n<p>Os documentos vazados pelo WikiLeaks mostram que o Canvas age de maneira menos independente do que deseja aparentar. Em pelo menos duas ocasi\u00f5es, Srdja Popovic contou por email ter participado de reuni\u00f5es no National Securiy Council, o conselho de seguran\u00e7a do governo americano.<\/p>\n<p>A primeira reuni\u00e3o mencionada aconteceu no dia 18 de dezembro de 2009\u00a0e o tema em pauta era Russia e a Ge\u00f3rgia.\u00a0Na \u00e9poca, integrava o NSC o \u201cgrande amigo\u201d de Popovic \u2013 nas suas pr\u00f3prias palavras \u2013 o conselheiro s\u00eanior de Obama para a R\u00fassia,\u00a0Michael McFaul, que hoje \u00e9 embaixador americano naquele pa\u00eds.<\/p>\n<p>No mesmo encontro, segundo Popovic relatou mais tarde, tratou-se do financiamento de oposicionistas no Ir\u00e3 atrav\u00e9s de grupos pr\u00f3-democracia, tema de especial interesse para ele.<\/p>\n<p>\u201cA pol\u00edtica para o Ir\u00e3 \u00e9 feita no\u00a0NSC por Dennis Ross. H\u00e1 uma fun\u00e7\u00e3o crescente sobre o Ir\u00e3 no Departamento de Estado sob o Secret\u00e1rio Assistente John Limbert.\u00a0As verbas para programas pr\u00f3-democracia no Ir\u00e3 aumentaram de US$ 1,5 milh\u00e3o em 2004 para US$ 60 milh\u00f5es em 2008 (\u2026) Depois de 12 de junho de 2009, o\u00a0NSC decidiu neutralizar os efeitos dos programas existentes, que come\u00e7aram com Bush. Aparentemente a l\u00f3gica era que os EUA n\u00e3o queriam ser vistos tentando interferir na pol\u00edtica interna do Ir\u00e3. Os EUA n\u00e3o querem dar ao regime iraniano uma desculpa para rejeitar as negocia\u00e7\u00f5es sobre o programa nuclear\u201d, reclama o s\u00e9rvio, para quem o governo Obama estaria agindo como \u201cum elefante numa loja de lou\u00e7a\u201d com a nova pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u201cComo resultado, o Iran Human Rights Documentation Center, Freedom House, IFES e IRI tiveram seus pedidos de recursos rejeitados\u201d, descreve em um email no in\u00edcio de janeiro de 2010.<\/p>\n<p>A outra reuni\u00e3o de Popovic no NSC teria ocorrido \u00e0s 17 horas do dia 27 de julho de 2011, conforme Popovic relatou \u00e0 analista Reva Bhalla.<\/p>\n<p>\u201cEsses caras s\u00e3o impressionantes\u201d, comentou, em um email entusiasmado, o analista da Stratfor para o leste europeu, Marko Papic. \u201cEles abrem usa lojinha em um pa\u00eds e tentam derrubar o governo. Quando bem usados s\u00e3o uma arma mais poderosa que um batalh\u00e3o de combate da for\u00e7a a\u00e9rea\u201d.<\/p>\n<p>Marko explica aos seus colegas da Stratfor que o Canvas \u2013 nas suas palavras, um grupo tipo \u201cexporte-uma-revolu\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 \u00a0\u201cainda depende do\u00a0financiamento dos EUA e basicamente roda o mundo tentando derrubar ditadores e governos autocr\u00e1ticos (aqueles de quem os Estados Unidos n\u00e3o gostam)\u201d. O primeiro contato com o l\u00edder do grupo, que se tornaria sua fonte contumaz, se deu em 2007. \u201cDesde ent\u00e3o eles t\u00eam passado intelig\u00eancia sobre a Venezuela, a Georgia, a S\u00e9rvia, etc\u201d.<\/p>\n<p>Em todos os emails, Popovic demonstra grande interesse em trocar informa\u00e7\u00f5es com a Stratfor, a quem chama de \u201cCIA de Austin\u201d. Para isso, vale-se dos seus contatos entre ativistas em diferentes pa\u00edses. Al\u00e9m de manter rela\u00e7\u00e3o com uma empresa do mesmo fil\u00e3o idol\u00f3gico, se estabelece uma proveitosa troca de informa\u00e7\u00f5es. Por exemplo, em maio de 2008 Marko diz a ele que soube que a intelig\u00eancia chinesa estaria considerando atacar a organiza\u00e7\u00e3o pelo seu trabalho com ativistas tibetanos.<\/p>\n<p>\u201cIsso j\u00e1 era esperado\u201d, responde Srdja. Em 23 de maio de 2011, ele pede informa\u00e7\u00f5es sobre a autonomia regional dos curdos no Iraque.<\/p>\n<p><strong>Venezuela<\/strong><\/p>\n<p>Um dos temas mais frequentes na conversa com analistas da Stratfor \u00e9 a Venezuela; Srdja ajuda os analistas a entenderem o que a oposi\u00e7\u00e3o est\u00e1 pensando. Toda a comunica\u00e7\u00e3o, escreve Marko Papic, \u00e9 feita por um email seguro e criptografado.\u00a0Al\u00e9m disso, em 2010, o l\u00edder do Canvas foi at\u00e9 a sede da Stratfor em Austin para dar um\u00a0briefing\u00a0sobre a situa\u00e7\u00e3o venezuelana.<\/p>\n<p>\u201cEste ano vamos definitivamente aumentar nossas atividades na Venezuela\u201d, explica o s\u00e9rvio no email de apresenta\u00e7\u00e3o da sua \u201cAn\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o na Venezuela\u201d, em 12 de janeiro de 2010.<\/p>\n<p>Para as elei\u00e7\u00f5es de setembro daquele ano, relata que \u201cestamos em contato pr\u00f3ximo com ativistas e pessoas que est\u00e3o tentando ajud\u00e1-los\u201d, pedindo que o analista n\u00e3o espalhe ou publique esta informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O documento, enviado por email, seria a \u201cfunda\u00e7\u00e3o da nossa an\u00e1lise do que planejamos fazer na Venezuela\u201d.\u00a0No dia seguinte, ele reitera em outro email:\u00a0\u201cPara explicar o plano de a\u00e7\u00e3o que enviamos, \u00e9 um guia de como fazer uma revolu\u00e7\u00e3o, obviamente\u201d.<\/p>\n<p>O documento, ao qual a P\u00fablica teve acesso, foi escrito no in\u00edcio de 2010 pelo \u201cdepartamento anal\u00edtico\u201d da organiza\u00e7\u00e3o e relata, al\u00e9m dos pilares de suporte de Ch\u00e1vez, listando as principais institui\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es que servem de respaldo ao governo (entre elas, os militares, pol\u00edcia, judici\u00e1rio, setores nacionalizados da economia, professores e o conselho eleitoral), os principais l\u00edderes com potencial para formarem uma coaliz\u00e3o eficiente e seus \u201caliados potenciais\u201d (entre eles, estudantes, a imprensa independente e internacional, sindicatos, a federa\u00e7\u00e3o venezuelana de professores, o Rotary Club e a igreja cat\u00f3lica).<\/p>\n<p>A indica\u00e7\u00e3o do Canvas parece, no final, bem acertada. Entre os principais l\u00edderes da oposi\u00e7\u00e3o que teriam capacidade de unific\u00e1-la est\u00e3o Henrique Capriles Radonski, governador do Estado de Miranda e candidato de oposi\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de outubro pela coaliz\u00e3o Mesa de Unidade Democr\u00e1tica, al\u00e9m do prefeito do distrito metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma, e do ex-prefeito do munic\u00edpio de Chacao, Leopoldo Lopez Mendoza.<\/p>\n<p>Dois l\u00edderes estudantis, Alexandra Belandria, do grupo Cambio, e Yon Goicochea, do Movimiento Estudiantil Venezolano, tamb\u00e9m s\u00e3o listados.<\/p>\n<p>O objetivo da estrat\u00e9gia, relata o documento, \u00e9 \u201cfornecer a base para um planejamento mais detalhado potencialmente realizado por atores interessados e pelo Canvas\u201d. Esse plano \u201cmais detalhado\u201d seria desenvolvido posteriormente com \u201cpartes interessadas\u201d.<\/p>\n<p>Em outro email Popovic explica:\u201cQuando algu\u00e9m pede a nossa ajuda, como \u00e9 o caso da Venezuela, n\u00f3s normalmente perguntamos \u2018como voc\u00ea faria?\u2019 (\u2026) Neste caso n\u00f3s temos tr\u00eas campanhas: unifica\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o, campanha para a elei\u00e7\u00e3o de setembro (\u2026). Em circunst\u00e2ncias NORMAIS, os ativistas v\u00eam at\u00e9 n\u00f3s e trabalham exatamente neste tipo de formato em um workshop. N\u00f3s apenas os guiamos, e por isso o plano acaba sendo t\u00e3o eficiente, pois s\u00e3o os ativistas que os criam, \u00e9 totalmente deles, ou seja, \u00e9 aut\u00eantico. N\u00f3s apenas fornecemos as ferramentas\u201d.<\/p>\n<p>Mas, com a Venezuela, a coisa foi diferente, explica Popovic: \u201cNo caso da Venezuela, por causa do completo desastre que o lugar est\u00e1, por causa da suspeita entre grupos de oposi\u00e7\u00e3o e da desorganiza\u00e7\u00e3o, n\u00f3s tivemos que fazer esta an\u00e1lise inicial. Se eles ir\u00e3o realizar os pr\u00f3ximos passos depende deles, ou seja, se eles v\u00e3o entender que por causa da falta de UNIDADE eles podem perder a corrida eleitoral antes mesmo que ela comece\u201d.<\/p>\n<p>Aqueles que receberam a an\u00e1lise (como o pessoal da Strartfor, por exemplo) aprenderam que segunda a l\u00f3gica do Canvas os principais temas a serem explorados em uma campanha de oposi\u00e7\u00e3o na Venezuela s\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Crime e falta de seguran\u00e7a: \u201cA situa\u00e7\u00e3o deteriorou tremendamente e dramaticamente desde 2006. Motivo para mudan\u00e7a\u201d<\/p>\n<p>\u2014 Educa\u00e7\u00e3o: \u201cO governo est\u00e1 tomando conta do sistema educacional: os professores precisam ser ati\u00e7ados. Eles v\u00e3o ter que perder seus empregos ou se submeter! Eles precisam ser encorajados e haver\u00e1 um risco. N\u00f3s temos que convenc\u00ea-los de que os\u00a0temos como alta esfera da sociedade; eles det\u00eam uma responsabilidade que valorizamos muito. Os professores v\u00e3o motivar os estudantes. Quem ir\u00e1 influenci\u00e1-los? Como n\u00f3s vamos toc\u00e1-los?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 Jovens: \u201cA mensagem precisa ser dirigida para os jovens em geral, n\u00e3o s\u00f3 para os estudantes universit\u00e1rios\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 Economia: \u201cO petr\u00f3leo \u00e9 da Venezuela, n\u00e3o do governo, \u00e9 o seu dinheiro, \u00e9 o seu direito! Programas de bem-estar social\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 Mulheres: \u201cO que as m\u00e3es querem? Controle da lei, a pol\u00edcia agindo sob as autoridades locais. N\u00f3s iremos prover os recursos necess\u00e1rios para isso. N\u00f3s n\u00e3o queremos mais brutamontes\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 Transporte: \u201cTrabalhadores precisam conseguir chegar aos seus empregos. \u00c9 o seu dinheiro. N\u00f3s precisamos exigir que o governo preste contas, e da maneira que est\u00e1 n\u00e3o conseguimos fazer isso\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 Governo: \u201cRedistribui\u00e7\u00e3o da riqueza, todos devem ter uma oportunidade\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cH\u00e1 uma forte tend\u00eancia presidencialista na Venezuela. Como podemos mudar isso? Como podemos trabalhar com isso?\u201d<\/p>\n<p>No final do email,\u00a0Popovic termina com uma cr\u00edtica grosseira aos venezuelanos que procura articular: \u201cAli\u00e1s, a cultura de seguran\u00e7a na Venezuela n\u00e3o existe. Eles s\u00e3o retardados e falam mais que a pr\u00f3pria bunda. \u00c9 uma piada completa\u201d.<\/p>\n<p>Procurado pela P\u00fablica, o l\u00edder do Canvas negou que a organiza\u00e7\u00e3o elabore an\u00e1lises e planos de a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria sob encomenda. E foi bem menos entusiasta com rela\u00e7\u00e3o ao seu \u201cguia\u201d elaborado para a Venezuela.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s ensinamos as pessoas a analisarem e entenderem conflitos n\u00e3o-violentos \u2013 e durante o processo de aprendizagem pedimos a estudantes e participantes que utilizem as ferramentas que apresentam no curso. E n\u00f3s tamb\u00e9m aprendemos com eles!\u00a0Depois usamos o trabalho que eles realizaram e combinamos com informa\u00e7\u00f5es p\u00fablicas para criar estudos de caso\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>\u201cE isso \u00e9 transformado em an\u00e1lises mais longas por dois estagi\u00e1rios. Usamos estas an\u00e1lises nas nossas pesquisas e compartilhamos com estudantes, ativistas, pesquisadores, professores, organiza\u00e7\u00f5es e jornalistas com os quais cooperamos \u2013 que est\u00e3o interessados em entender o fen\u00f4meno do poder popular\u201d.<\/p>\n<p>Questionado, Popovic tamb\u00e9m respondeu \u00e0s criticas feitas por Hugo Ch\u00e1vez no seu programa de TV: \u201c\u00c9 uma f\u00f3rmula bem conhecida\u2026 Por d\u00e9cadas os regimes autorit\u00e1rios de todo o mundo fazem acusa\u00e7\u00f5es do tipo \u2018revolu\u00e7\u00f5es exportadas\u2019 como sendo a principal causa dos levantes em seus pa\u00edses. O movimento pr\u00f3-democracia na S\u00e9rvia foi, claro, acusado de ser uma \u2018ferramenta dos EUA\u2019 pela TV estatal e por Milosevic, antes dos estudantes derrubarem o seu regime. Isso tamb\u00e9m aconteceu no Zimbabue, Bielorrusia, Ir\u00e3\u2026\u201d<\/p>\n<p>O ex-colega de movimento estudantil, Ivan Marovic \u2013 que ainda hoje d\u00e1 palestras sobre como aconteceu a revolta contra Milosevic \u2013 concorda com ele: \u201c\u00c9 imposs\u00edvel\u00a0 exportar uma revolu\u00e7\u00e3o. Eu sempre digo em minhas palestras que a coisa mais importante para uma mudan\u00e7a social bem-sucedida \u00e9 ter a maioria da popula\u00e7\u00e3o ao seu lado. Se o presidente tem a maioria da popula\u00e7\u00e3o ao lado dele, nada vai acontecer\u201d.<\/p>\n<p>Marovic avalia, no entanto, que houve uma mudan\u00e7a de percep\u00e7\u00e3o do \u201cbra\u00e7o de ONGs\u201d dos governos ocidentais, em especial dos Estados Unidos, depois da revolu\u00e7\u00e3o na S\u00e9rvia em 2000 e as \u201crevolu\u00e7\u00f5es coloridas\u201d que se seguiram no leste europeu.<\/p>\n<p>\u201cUm m\u00eas depois de derrubarmos o Milosevic, o New York Times publicou um artigo dizendo que quem realmente derrubou o Milosevic foi a assist\u00eancia financeira americana. Eles est\u00e3o aumentando o seu papel. E agora acreditam que a grana dos Estados Unidos pode derrubar um governo. Eles tentaram a mesma coisa na Bielorrusia, deram um monte de dinheiro para ONGs, e n\u00e3o funcionou\u201d.<\/p>\n<p>O pesquisador Mark Weisbrot concorda, em termos. \u00c9 claro que nenhum grupo estrangeiro, ainda mais um grupo pequeno, pode causar uma revolu\u00e7\u00e3o em um pa\u00eds. Para ele, n\u00e3o \u00e9 o dinheiro do governo americano \u2013 seja atrav\u00e9s de ONGs pagas pelo National Security Council, pela USAID ou pelo Departamento de Estado \u2013 que faz a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cA elite venezuelana, por exemplo, n\u00e3o precisa deste dinheiro. O que estes grupos financiados pelos EUA, antigamente e hoje, agregam s\u00e3o duas coisas: uma \u00e9 habilidade e o conhecimento necess\u00e1rio em subverter regimes. E a segunda coisa \u00e9 que esse apoio tem um papel unificador. A oposi\u00e7\u00e3o pode estar dividida e eles ajudam a oposi\u00e7\u00e3o a se unificar\u201d.<\/p>\n<p>Para ele, muitas vezes o patroc\u00ednio americano tem uma \u201cinflu\u00eancia perniciosa\u201d em movimentos leg\u00edtimos. \u201cSempre tem pessoas grupos lutando pela democracia nestes pa\u00edses, com uma variedade de demandas, reforma agr\u00e1ria, prote\u00e7\u00f5es sociais, empregos\u2026 E o que acontece \u00e9 que eles capitaneiam todo o movimento com muito dinheiro, inspirado pelas pol\u00edticas que interessam aos EUA. Muitas vezes, os grupos democr\u00e1ticos que recebem o dinheiro acabam caindo em descr\u00e9dito\u201d.<\/p>\n<p><strong>PS do Viomundo:<\/strong> Desde 2007, quando est\u00e1vamos em Washington, este site denuncia que a \u201cpromo\u00e7\u00e3o da democracia\u201d \u00e9 picaretagem financiada por dinheiro p\u00fablico ou privado dos Estados Unidos. Quem inventou o National Endowment for Democracy, o NED, foi o governo de Ronald Reagan, depois do esc\u00e2ndalo do Ir\u00e3-contras, em que os Estados Unidos venderam armas clandestinamente ao Ir\u00e3 e usaram o dinheiro para organizar a contrarrevolu\u00e7\u00e3o na Nicar\u00e1gua. A turma do Reagan foi esperta: descobriu que se todos estivessem envolvidos no esfor\u00e7o de promover os interesses do pa\u00eds no exterior, com dinheiro p\u00fablico, seria f\u00e1cil aprovar financiamento no Congresso. Por isso o NED inclui institutos ligados ao Partido Democrata, ao Partido Republicano, a centrais sindicais e a associa\u00e7\u00f5es empresariais.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"QOAr13bnv0\"><p><a href=\"https:\/\/www.viomundo.com.br\/denuncias\/publica-como-funcionam-as-revolucoes-de-veludo.html\">Revolu\u00e7\u00f5es coloridas: Os golpes do s\u00e9culo 21<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Revolu\u00e7\u00f5es coloridas: Os golpes do s\u00e9culo 21&#8221; &#8212; Viomundo\" src=\"https:\/\/www.viomundo.com.br\/denuncias\/publica-como-funcionam-as-revolucoes-de-veludo.html\/embed#?secret=T92hjgCDgJ#?secret=QOAr13bnv0\" data-secret=\"QOAr13bnv0\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Natalia Viana\u00a0&#8211;\u00a0Documentos vazados pelo WikiLeaks mostram como age uma organiza\u00e7\u00e3o que treina oposicionistas pelo mundo afora \u2013 do Egito \u00e0 Venezuela. 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