{"id":6837,"date":"2018-01-17T13:15:32","date_gmt":"2018-01-17T15:15:32","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=6837"},"modified":"2018-01-17T13:12:48","modified_gmt":"2018-01-17T15:12:48","slug":"o-agronegocio-transformou-se-em-algo-que-nao-e-mais-agricultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/01\/17\/o-agronegocio-transformou-se-em-algo-que-nao-e-mais-agricultura\/","title":{"rendered":"\u2018O agroneg\u00f3cio transformou-se em algo que n\u00e3o \u00e9 mais agricultura\u2019"},"content":{"rendered":"<p><strong>Marco Weissheimer &#8211;\u00a0<\/strong>Sebasti\u00e3o Pinheiro: \u201cQuando a agricultura virou agroneg\u00f3cio, o agrot\u00f3xico deixa de ser um problema da v\u00edtima e passa a ser a ideologia do dominador\u201d.<\/p>\n<p>Em um texto publicado em sua p\u00e1gina no Facebook, no \u00faltimo dia de 2017, o engenheiro agr\u00f4nomo e florestal Sebasti\u00e3o Pinheiro escreveu: \u201cComer \u00e9 algo que precisamos fazer v\u00e1rias vezes ao dia e muitas vezes fora de nossa casa para garantir a sa\u00fade, qualidade de vida e cultura. No entanto, dia a dia h\u00e1 uma escalada no medo e terror com consumo de alimentos venenosos, t\u00f3xicos e de alto risco a longo prazo. \u00c9 a maior amea\u00e7a \u00e0 humanidade e \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o\u201d. Ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, em espa\u00e7os como o Laborat\u00f3rio de Res\u00edduos de Agrot\u00f3xicos do Meio Ambiente e do N\u00facleo de Economia Alternativa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Sebasti\u00e3o Pinheiro dedica sua vida a estudar as rela\u00e7\u00f5es entre agricultura, sa\u00fade e meio ambiente e a alertar a sociedade para as graves consequ\u00eancias de um modelo agr\u00edcola baseado no uso intensivo de agrot\u00f3xicos, transg\u00eanicos e outros insumos qu\u00edmicos.<\/p>\n<p>Em entrevista ao\u00a0<strong>Sul21<\/strong>, Sebasti\u00e3o Pinheiro fala sobre o processo de transforma\u00e7\u00e3o da agricultura em agroneg\u00f3cio que, para ele, foi progressivamente deixando de ser agricultura propriamente dita. \u201cAgricultura \u00e9 uma das palavras mais lindas que existe e n\u00e3o significa cultivo somente. Ela envolve uma cultura que tem uma espiritualidade, uma religiosidade, valores e a natureza associadas a ela. A agricultura passou a ser agroneg\u00f3cio. Isso foi um baque tremendo. Saiu a cultura e entrou o neg\u00f3cio. ? Foram retirados valores da agricultura e agroneg\u00f3cio passou a significar s\u00f3 dinheiro\u201d, afirma. O pesquisador tamb\u00e9m avalia o crescimento da agroecologia nas \u00faltimas d\u00e9cadas, reconhece avan\u00e7os, mas alerta para oportunidades que foram perdidas:<\/p>\n<p>\u201cA velocidade da evolu\u00e7\u00e3o foi prejudicada pelo freio de m\u00e3o puxado. Essa evolu\u00e7\u00e3o teria que ser baseada, em primeiro lugar, em educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o em mercado. A obriga\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a de produzir org\u00e2nicos para uma elite. O princ\u00edpio deve ser: a hortali\u00e7a org\u00e2nica tem que ser mais barata porque \u00e9 melhor e \u00e9 para todos. N\u00e3o \u00e9 para uma elite. Isso \u00e9 o revolucion\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p><strong>Sul21:\u00a0Qual a avalia\u00e7\u00e3o que faz do cen\u00e1rio da agricultura hoje no Brasil, especialmente no que diz respeito \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3o com o meio ambiente?<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_402284\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-402284\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6110-08-600x400.jpg?resize=400%2C267&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6110-08-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6110-08-200x133.jpg 200w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6110-08-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6110-08.jpg 900w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\"><em>\u201cA economia mudou de uma forma que assusta\u201d<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0Sebasti\u00e3o Pinheiro:\u00a0<\/strong>Aconteceram alguns fen\u00f4menos interessantes no Brasil que, na minha vis\u00e3o, a gente n\u00e3o tem ainda capacidade de analisar. A economia mudou de uma forma que assusta. O meu campo de trabalho sempre foi a agricultura no meio ambiente e o meio ambiente na agricultura. O que me interessa \u00e9 s\u00f3 isso. Essa rela\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m mudou muito. Tudo passou a ser diferente. Eu n\u00e3o estou falando de injun\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, de resultado de elei\u00e7\u00f5es, deste ou daquele partido. Estou falando de uma ideologia que passou a dominar essas rela\u00e7\u00f5es. Diante desse cen\u00e1rio eu decidi me retirar. Avisei o pessoal: pulem fora porque a coisa vai ficar pior que na \u00e9poca entre 68 e 73. As persegui\u00e7\u00f5es agora s\u00e3o muito maiores, mas elas n\u00e3o s\u00e3o vis\u00edveis. Voc\u00ea sente que elas est\u00e3o acontecendo mas n\u00e3o as v\u00ea.<\/p>\n<p><strong>Sul21: \u00c9 um processo mais difuso\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sebasti\u00e3o Pinheiro:\u00a0<\/strong>Sim. Est\u00e3o acontecendo coisas muito estranhas e estamos meio perdidos. A pr\u00f3pria agricultura mudou de nome. \u00c9 uma das palavras mais lindas que existe e que n\u00e3o significa cultivo somente. Ela envolve uma cultura que tem uma espiritualidade, uma religiosidade, valores e a natureza associadas a ela. A agricultura passou a ser agroneg\u00f3cio. Isso foi um baque tremendo. Saiu a cultura e entrou o neg\u00f3cio. O que \u00e9 um neg\u00f3cio? Do ponto de vista etimol\u00f3gico, significa a nega\u00e7\u00e3o do \u00f3cio. \u201cAgro nega\u00e7\u00e3o do \u00f3cio\u201d \u00e9 uma coisa meio estranha, n\u00e9? Foram retirados valores da agricultura e agroneg\u00f3cio passou a significar s\u00f3 dinheiro.<\/p>\n<p>No agroneg\u00f3cio, a aliena\u00e7\u00e3o vai para um n\u00edvel quase infinito e a consci\u00eancia retrocede a zero, ou menos alguma coisa. Quando a agricultura virou agroneg\u00f3cio, o agrot\u00f3xico deixa de ser um problema da v\u00edtima e passa a ser a ideologia do dominador. A FIESP, em S\u00e3o Paulo, tem hoje um departamento de meio ambiente com cerca de 80 especialistas em agroneg\u00f3cio. Conhe\u00e7o pelo menos uns seis deles. Todos eles s\u00e3o especialistas em agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p><strong>Sul21: Certamente n\u00e3o s\u00e3o especialistas no impacto dos agrot\u00f3xicos na sa\u00fade e no meio ambiente\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sebasti\u00e3o Pinheiro<\/strong>: S\u00e3o especialistas em vendas, em com\u00e9rcio e em detonar aqueles que denunciam os impactos. Essa \u00e9 uma luta justa, em igualdade de condi\u00e7\u00f5es? N\u00e3o \u00e9. Esse \u00e9 um dos problemas mais s\u00e9rios que enfrentamos.<\/p>\n<p><strong>Sul21: Essa troca de palavras (agricultura por agroneg\u00f3cio) e dos conceitos associados a elas ocorreram em que per\u00edodo exatamente?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sebasti\u00e3o Pinheiro:\u00a0<\/strong>Em meados da d\u00e9cada de 80. A palavra \u201cagroneg\u00f3cio\u201d come\u00e7ou a ser usadas nos Estados Unidos como \u201cagrobusiness\u201d. No Brasil, o \u201cagrobusiness\u201d ser\u00e1 traduzido como agroneg\u00f3cio. Quem trouxe essa palavra dos Estados Unidos foi Ney Bittencourt, um agr\u00f4nomo paulista, que era diretor de uma multinacional criada no Brasil por cientistas norte-americanos para vender sementes de milho h\u00edbrido. Ele escreveu um livro sobre o \u201cagribusiness\u201d, publicado pela sucessora da Fecotrigo, aqui do Rio Grande do Sul, chamada de Funda\u00e7\u00e3o da Produtividade, de Carazinho. Tive a oportunidade de ler esse livro na \u00e9poca e pude me vacinar antes do veneno vir.<\/p>\n<figure id=\"attachment_402277\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-402277 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6068-01.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px\" srcset=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6068-01.jpg 900w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6068-01-200x133.jpg 200w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6068-01-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6068-01-768x512.jpg 768w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\"><em>\u201cNossa economia depende hoje de um agroneg\u00f3cio que n\u00e3o \u00e9 agricultura e que est\u00e1 concentrado nas m\u00e3os de tr\u00eas grandes grupos transnacionais\u201d<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A partir da\u00ed tudo come\u00e7ou a mudar. Collor de Mello assume o governo no in\u00edcio dos anos 90 com a ordem de consolidar esse cen\u00e1rio, o que acabou acontecendo. Tornou-se um processo irrevers\u00edvel que chegou ao que temos hoje. H\u00e1 uma leitura dura e dif\u00edcil a ser feita sobre esse processo. Quanto o Rio Grande do Sul se desindustrializou nos \u00faltimos vinte anos? Quanto a ind\u00fastria representava do PIB ga\u00facho h\u00e1 vinte anos e quanto representa hoje? Nossa economia depende hoje de um agroneg\u00f3cio que n\u00e3o \u00e9 agricultura e que est\u00e1 concentrado nas m\u00e3os de tr\u00eas grandes grupos transnacionais, sendo a Monsanto o principal deles por causa da soja. Hoje, uma safra ruim significa PIB negativo, pois n\u00e3o temos mais industrializa\u00e7\u00e3o. Vivemos uma realidade na agricultura t\u00e3o dram\u00e1tica e absurda que a mim assusta. Eu estudei e vive na Argentina e vi o que aconteceu l\u00e1. Estou sempre no M\u00e9xico e vejo o que acontece. E estou vendo o que est\u00e1 acontecendo aqui no Brasil tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Sul21: Em que sentido, exatamente, o agroneg\u00f3cio deixa de ser agricultura?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sebasti\u00e3o Pinheiro:\u00a0<\/strong>Para falar sobre isso, gostaria de contar um pouco da hist\u00f3ria da soja que est\u00e1 muito ligada ao autom\u00f3vel. N\u00e3o conhecemos essa hist\u00f3ria. Quem introduziu a soja nos Estados Unidos foi Henry Ford que desenvolveu o sistema de produ\u00e7\u00e3o de autom\u00f3veis em s\u00e9rie. Henry Ford detestava a turma do petr\u00f3leo de Rockfeller e procurou um agr\u00f4nomo, pois queria come\u00e7ar a produzir combust\u00edvel a partir do amendoim. Esse agr\u00f4nomo disse que o amendoim n\u00e3o era a melhor escolha, pois n\u00e3o permitia o uso de m\u00e1quinas e era um cultivo utilizado basicamente como alimento. Ao inv\u00e9s do amendoim, ele sugeriu que Ford introduzisse nos Estados Unidos esse feij\u00e3o cultivado em pa\u00edses asi\u00e1ticos, chamado de soja. Ford promove, ent\u00e3o, a introdu\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos de dez mil variedades coreanas, chinesas e de outros pa\u00edses asi\u00e1ticos. Ele n\u00e3o queria ficar na depend\u00eancia do petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>J\u00e1 no caso do Brasil, a soja ingressou, de modo mais significativa como uma doa\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Rockfeller. As primeiras variedades t\u00eam nomes americanos como Jackson, Lee, Kent. O Instituto Agron\u00f4mico de Campinas vai se encarregar de desenvolver a grande produ\u00e7\u00e3o de soja no pa\u00eds. Em 1956, o Rio Grande do Sul praticamente n\u00e3o tinha soja. Em 1960, o Estado passou a ter cerca de 100% da soja nacional. Hoje tem 12%. Se chegou a ter 100 e hoje tem 12 o que aconteceu? Ela se expandiu pelo Brasil e \u00e9 preciso estudar essa expans\u00e3o. O fato \u00e9 que a soja acabou se tornando um instrumento do capital financeiro. Em torno dela, gira um esquema muito poderoso e dif\u00edcil de ser enfrentado. Hoje, ser ambientalista tornou-se algo dolorido.<\/p>\n<p><strong>Sul21: H\u00e1 quantos anos voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 nesta luta como ambientalista e como avalia a evolu\u00e7\u00e3o, neste per\u00edodo, do debate sobre o uso de agrot\u00f3xicos?<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_402278\" class=\"wp-caption alignnone\"><em><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-402278\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6088-02-600x400.jpg?resize=400%2C267&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6088-02-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6088-02-200x133.jpg 200w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6088-02-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6088-02.jpg 900w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/><\/em><figcaption class=\"wp-caption-text\"><em>\u201cN\u00e3o h\u00e1 nenhum agrot\u00f3xico que n\u00e3o seja, na sua origem e na sua fun\u00e7\u00e3o principal, uma arma militar\u201d<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0Sebasti\u00e3o Pinheiro:\u00a0<\/strong>Eu comecei em 71, ainda na faculdade. Em 67 eu sa\u00ed do Brasil e fui para a Argentina. Na faculdade, um livro chamado \u201cPrimavera Silenciosa\u201d, de Rachel Carson, teve muita influ\u00eancia naquela \u00e9poca. \u00c9 um livro fabuloso e revolucion\u00e1rio para quem vai trabalhar com agricultura. Sobre o tema dos agrot\u00f3xicos e de outros produtos usados na agricultura, gostaria de fazer uma digress\u00e3o. Em 1893, a Bayer desenvolveu um produto, feito a partir de extrato de esterco bovino fermentado, que evitava doen\u00e7as e pragas, aumentando a produ\u00e7\u00e3o. Em 1915, vinte e dois anos depois portanto, o cientista alem\u00e3o Fritz Haber desenvolveu uma arma para ser utilizada na Primeira Guerra Mundial, que, como se sabe, foi uma guerra de trincheiras. Era um grande ventilador na frente do qual eram abertas garrafas com uma subst\u00e2ncia que ficou conhecida como g\u00e1s mostarda. Haber tamb\u00e9m foi o respons\u00e1vel pela descoberta da s\u00edntese do amon\u00edaco, utilizada para a fabrica\u00e7\u00e3o de fertilizantes e explosivos<\/p>\n<p>A partir deste per\u00edodo, a ideologia militarista tornou-se dominante na ind\u00fastria qu\u00edmica, estabelecendo uma rela\u00e7\u00e3o sombria com a agricultura. N\u00e3o h\u00e1 nenhum agrot\u00f3xico que n\u00e3o seja, na sua origem e na sua fun\u00e7\u00e3o principal, uma arma militar. Vou dar outro exemplo envolvendo a borracha sint\u00e9tica. Toda borracha sint\u00e9tica tem que ter dentro dela, para n\u00e3o fermentar. Esse fungicida \u00e9 o mais utilizado em hortali\u00e7as e frutas. Eu pergunto: \u00e9 poss\u00edvel fazer uma campanha de conscientiza\u00e7\u00e3o junto aos agricultores contra o uso do fungicida quando este \u00e9 sustentado por uma ideologia militarista? N\u00e3o. Toda campanha que n\u00f3s fizemos era uma campanha de dar murro em ponta de faca. Conseguimos muitas coisas, mas adiantou? Qual foi o efeito? \u00c9 de ficar meio desacor\u00e7oado, para usar uma palavra antiga.<\/p>\n<p>Em 2016, a Bayer lan\u00e7a o mesmo produto que lan\u00e7ou em 1893, com outro nome. Ele agora se chama Serenade e \u00e9 vendido como um produto ecol\u00f3gico, propaganda que n\u00e3o havia l\u00e1 em 1893. \u00c9 o mesmo produto feito a partir do Bacillus subtilis. Quanto custa o litro de esterco fermentado? 80 d\u00f3lares. Em 1980, n\u00f3s ensinamos esse processo aos agricultores, sem apoio de ningu\u00e9m, a n\u00e3o ser de alguns padres ligados \u00e0 Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o e de movimentos sociais como o MST, o MPA e Mulheres Camponesas. N\u00e3o houve nenhuma pol\u00edtica p\u00fablica de apoio a esse trabalho.<\/p>\n<p>Nos anos 80 muito se falou e escreveu sobre o baculovirus. Deixamos de usar v\u00e1rios venenos baseados nele. Por que paramos de utilizar? Quem fez o bloqueio? Hoje todo o conhecimento sobre o baculovirus est\u00e1 na m\u00e3o de grandes empresas de biotecnologia, como Syngenta, Bayer e Monsanto. Como \u00e9 que a gente vai brigar com uma m\u00e1fia dessas? N\u00e3o estou falando do ponto de vista do conhecimento, mas das estrat\u00e9gias de enfrentamento. S\u00e3o estruturas corruptoras que impedem qualquer possibilidade de avan\u00e7ar.<\/p>\n<p><strong>Sul21: E ainda temos o cap\u00edtulo dos transg\u00eanicos. Recentemente, alguns artigos publicados na imprensa internacional afirmam que essas grandes corpora\u00e7\u00f5es estariam come\u00e7ando a desistir desta tecnologia, pois n\u00e3o estaria dando os resultados esperados. Isso est\u00e1 ocorrendo de fato?<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_402280\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-402280\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6097-04-600x400.jpg?resize=400%2C267&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6097-04-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6097-04-200x133.jpg 200w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6097-04-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6097-04.jpg 900w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\"><em>\u201cEstados Unidos, Gr\u00e3 Bretanha, Austr\u00e1lia e Canad\u00e1 fizeram um pacto para n\u00e3o plantar trigo transg\u00eanico\u201d<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0Sebasti\u00e3o Pinheiro:\u00a0<\/strong>\u00c9 verdade. H\u00e1 coisas muito estranhas e desconhecidas pela maioria das pessoas sobre esse tema. Vou dar um exemplo. Estados Unidos, Gr\u00e3 Bretanha, Austr\u00e1lia e Canad\u00e1 s\u00e3o gigantes que det\u00e9m o monop\u00f3lio de trigo no mundo. Esses pa\u00edses t\u00eam um pacto para n\u00e3o usar trigo transg\u00eanico, criado h\u00e1 mais de vinte anos. Nunca foi plantada uma grama. A Monsanto requereu ao USDA, o minist\u00e9rio da Agricultura americano, autoriza\u00e7\u00e3o para plantar. O pedido foi negado. Por qu\u00ea? Pelo acordo firmado pela C\u00e2mara de Com\u00e9rcio Internacional do Trigo.<\/p>\n<p><strong>Sul21: Por que esse acordo foi firmado?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sebasti\u00e3o Pinheiro:\u00a0<\/strong>Porque a Uni\u00e3o Europeia \u00e9 o grande comprador do trigo deles e n\u00e3o aceita esse tipo de tecnologia. Antes de ser uma briga relacionada \u00e0 sa\u00fade, \u00e9 uma briga econ\u00f4mica e de tecnologia. O problema mais s\u00e9rio \u00e9 esse. Voc\u00ea sabe quem \u00e9 o maior produtor de soja n\u00e3o transg\u00eanica hoje? Estados Unidos e Inglaterra. A quem pertence a cadeia do algod\u00e3o org\u00e2nico no mundo? Aos peruanos ou cearenses que plantam algod\u00e3o? N\u00e3o. A cadeia do algod\u00e3o org\u00e2nico \u00e9 dominada pela Alemanha que n\u00e3o planta um p\u00e9 de algod\u00e3o. E a cadeia do caf\u00e9 org\u00e2nico? Pertence aos mexicanos, peruanos, bolivianos ou nicaraguenses. N\u00e3o. Pertence aos mesmos norte-americanos, alem\u00e3es, ingleses e franceses.<\/p>\n<p><strong>Sul21:<\/strong>\u00a0<strong>Aqui, no Rio Grande do Sul, h\u00e1 um relativo crescimento da agroecologia nos \u00faltimos anos. Temos a experi\u00eancia do MST que se tornou o maior produtor de arroz org\u00e2nico da Am\u00e9rica Latina. Como avalia essa capacidade de resist\u00eancia e de cria\u00e7\u00e3o de um modelo de agricultura diferente deste hegemonizado pelo agroneg\u00f3cio?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sebasti\u00e3o Pinheiro:\u00a0<\/strong>Entre os anos 70 e 2000 n\u00f3s tivemos o maior centro de agricultura org\u00e2nica do planeta. As maiores autoridades alem\u00e3s estiveram aqui em Porto Alegre e em v\u00e1rias cidades do interior. Lutz (Jos\u00e9 Lutzenberger) acompanhou um catedr\u00e1tico alem\u00e3o por essas andan\u00e7as e eu fui junto. Quando ele viu, num s\u00e1bado, a feirinha ecol\u00f3gica da Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, olhou para o Lutz e disse: \u2018N\u00f3s n\u00e3o temos isso na Alemanha\u2019. Ent\u00e3o o Elemar Schmitt, dos moranguinhos, disse para ele em seu alem\u00e3o colonial: \u2018Nem v\u00e3o ter nunca. Voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam mais futuro\u2019. Eu s\u00f3 ri. \u00c9 uma grande verdade. Eles n\u00e3o t\u00eam como sair daquilo.<\/p>\n<p>Naquele momento, n\u00f3s t\u00ednhamos n\u00e3o s\u00f3 a pretens\u00e3o e a vontade, mas o exerc\u00edcio para sair. No entanto, n\u00f3s perdemos grandes oportunidades e enfraquecemos por falta de vis\u00e3o. T\u00ednhamos a cooperativa da Coolmeia, o pessoal da Agapan, t\u00e9cnicos dentro do Minist\u00e9rio da Agricultura e muitas outras pessoas trabalhando em outros espa\u00e7os. N\u00f3s come\u00e7amos a trabalhar com o projeto de arroz org\u00e2nico do MST. N\u00f3s idealizamos com eles o projeto da Bionatur Sementes Agroecol\u00f3gicas. Diz\u00edamos na \u00e9poca: dentro de 20 ou 30 anos, quem tiver uma semente agroecol\u00f3gica ter\u00e1 uma importante trincheira de resist\u00eancia. S\u00f3 que a\u00ed vieram aquelas coisas nossas ga\u00fachas. H\u00e1 sementes que s\u00f3 nascem no Sul, assim como h\u00e1 sementes que s\u00f3 se multiplicam no Nordeste. Aqui na zona sul do Estado, onde est\u00e1 a Bionatur, temos as sementes mais complexas que s\u00e3o as de hortali\u00e7as. Desenvolver sementes de cebola e cenoura, por exemplo, \u00e9 uma coisa muito complicada. Mas o ideal \u00e9 que essa capacidade que o ga\u00facho tem de se organizar socialmente seja levada para outras regi\u00f5es do pa\u00eds. Poder\u00edamos ter cinco bases brasileiras de produ\u00e7\u00e3o de sementes agroecol\u00f3gicas. Mas a\u00ed se decidiu fazer tudo aqui.<\/p>\n<p><strong>Sul21: Voc\u00ea n\u00e3o acha que houve uma evolu\u00e7\u00e3o nos projetos de agroecologia nos \u00faltimos anos?<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_402283\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-402283\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6105-07-600x400.jpg?resize=400%2C267&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6105-07-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6105-07-200x133.jpg 200w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6105-07-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/20180104-jornal-sul21-gs-030118-6105-07.jpg 900w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\"><em>\u201cA velocidade da evolu\u00e7\u00e3o da agroecologia foi prejudicada pelo freio de m\u00e3o puxado\u201d<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0Sebasti\u00e3o Pinheiro<\/strong>: Posso ser radical na resposta? Serei radical. A velocidade da evolu\u00e7\u00e3o foi prejudicada pelo freio de m\u00e3o puxado. Essa evolu\u00e7\u00e3o teria que ser baseada, em primeiro lugar, em educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o em mercado. Em segundo lugar, a organiza\u00e7\u00e3o teria que ser estendida em n\u00edvel nacional e n\u00e3o ficar restrita a uma regi\u00e3o. O Brasil tem 25 mil hectares de arroz org\u00e2nico que \u00e9 destinado para a merenda escolar. Uma das \u00faltimas aberturas da colheita foi feita com a presen\u00e7a da presidente da Rep\u00fablica. Mas o ideal seria que todo o Brasil fizesse isso. Este projeto j\u00e1 tem mais de 20 anos. Posso estar sendo radical, mas creio que dever\u00edamos ter isso como pauta priorit\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Sul21:<\/strong>\u00a0<strong>Para fazer essa expans\u00e3o nacional tem que haver pol\u00edticas p\u00fablicas de apoio, n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sebasti\u00e3o Pinheiro:\u00a0<\/strong>Sim. Essas pol\u00edticas p\u00fablicas deveriam ser a primeira exig\u00eancia de quem \u00e9 organizador, o que n\u00e3o aconteceu. Se fizessem isso, aqui no Rio Grande do Sul por exemplo, teria como enfrentar o Irga (Instituto Riograndense do Arroz), que \u00e9 um posto da Farsul, a Embrapa e todo o agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p><strong>Sul21:<\/strong>\u00a0<strong>Voc\u00ea coloca a Embrapa neste pacote?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sebasti\u00e3o Pinheiro: \u00a0<\/strong>Sim, n\u00e3o \u00e9 brinquedo. A Embrapa como institui\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica \u00e9 uma estrutura de poder muito forte. Na Embrapa tem gente boa, assim como o Ex\u00e9rcito e a Igreja, mas o poder est\u00e1 na m\u00e3o de quem? Esse \u00e9 o problema.<\/p>\n<p><strong>Sul21:<\/strong>\u00a0<strong>Falando em estruturas de poder, o agroneg\u00f3cio, enquanto conjunto de cren\u00e7as e valores, representa uma ideologia muito forte e enraizada na sociedade. Agora mesmo, temos uma campanha publicit\u00e1ria na m\u00eddia dizendo que o \u201cagroneg\u00f3cio \u00e9 pop\u201d. Quais ideias e valores, na sua opini\u00e3o, t\u00eam for\u00e7a para se contrapor a essa ideologia na sociedade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sebasti\u00e3o Pinheiro:\u00a0<\/strong>Uma das coisas mais importantes que existiu no Rio Grande do Sul, no trabalho da agricultura org\u00e2nica, foi a participa\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicos junto \u00e0 sociedade como educadores. Isso \u00e9 fundamental. Se voc\u00ea pretende sensibilizar para elevar a consci\u00eancia, precisa ter em mente que isso envolve um projeto pedag\u00f3gico. Sem isso n\u00e3o adianta. Se voc\u00ea conseguir transformar essa sensibiliza\u00e7\u00e3o em consci\u00eancia, ganha a guerra. N\u00e3o h\u00e1 poder no mundo que consiga parar uma sociedade consciente. N\u00f3s n\u00e3o fomos capazes de fazer isso. \u00c9 l\u00f3gico que o poder das grandes transnacionais \u00e9 muito grande. O que eles gastaram de dinheiro nos \u00faltimos 30 anos em propaganda na m\u00eddia \u00e9 algo espantoso.<\/p>\n<p>Para quebrar a espinha dorsal deste modelo \u00e9 preciso priorizar a agroecologia, n\u00e3o para o mercado, mas para a sa\u00fade de todos. Esse \u00e9 o biopoder campon\u00eas que o MST tem a obriga\u00e7\u00e3o de criar. A obriga\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a de produzir org\u00e2nicos para uma elite. O princ\u00edpio deve ser: a hortali\u00e7a org\u00e2nica tem que ser mais barata porque \u00e9 melhor e \u00e9 para todos. N\u00e3o \u00e9 para uma elite. Isso \u00e9 o revolucion\u00e1rio. Mas se voc\u00ea disser isso hoje na feirinha da Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, corre o risco de ser apedrejado. A consci\u00eancia, de um modo geral, passou a ser o bolso. O MST tem a\u00ed um exemplo para dar n\u00e3o ao Rio Grande do Sul ou Brasil, mas para o mundo, tanto para os ind\u00edgenas latino-americanos e de outras regi\u00f5es do mundo como para os europeus.<\/p>\n<p>https:\/\/www.sul21.com.br\/jornal\/sebastiao-pinheiro-o-agronegocio-transformou-se-em-algo-que-nao-e-mais-agricultura\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marco Weissheimer &#8211;\u00a0Sebasti\u00e3o Pinheiro: \u201cQuando a agricultura virou agroneg\u00f3cio, o agrot\u00f3xico deixa de ser um problema da v\u00edtima e passa a ser a ideologia do dominador\u201d. 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