{"id":6786,"date":"2018-01-14T09:14:20","date_gmt":"2018-01-14T11:14:20","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=6786"},"modified":"2018-01-11T11:16:36","modified_gmt":"2018-01-11T13:16:36","slug":"em-busca-do-pensamento-critico-perdido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/01\/14\/em-busca-do-pensamento-critico-perdido\/","title":{"rendered":"Em busca do pensamento cr\u00edtico perdido"},"content":{"rendered":"<p><strong>Aram Aharonian<\/strong> &#8211; A pol\u00edtica n\u00e3o pode se limitar \u00e0 arte do poss\u00edvel, deve se transformar na arte de fazer o imposs\u00edvel &#8211; que \u00e9 fact\u00edvel e imprescind\u00edvel -, construir for\u00e7a social e pol\u00edtica capaz de mudar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as a favor do movimento popular.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, a Am\u00e9rica Latina e o Caribe vem sendo uma regi\u00e3o com enorme dinamismo e originalidade em brigar contra pol\u00edticas neoliberais e ajustes pol\u00edticos e sociais regressivos, ainda mais num mundo com not\u00f3rios retrocessos globalizados, e sofrendo a negativa e desmoralizadora influ\u00eancia de radicalismos superficiais enunciativos que, ao serem frustrados, configuram um cen\u00e1rio sem sa\u00edda.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que o faz com as idas e voltas e, em grande medida, devido a foram geradas mudan\u00e7as de cen\u00e1rios e posicionamentos, que resultaram em fortes polariza\u00e7\u00f5es. Os processos populares n\u00e3o foram paulatinos \u2013 como ocorreu na regi\u00e3o em outras \u00e9pocas \u2013 por imprescind\u00edvel an\u00e1lise de fundo, debates cr\u00edticos originais e propostas firmes e consistentes, n\u00e3o repetitivas, e, claro, n\u00e3o baseadas em receitas dogm\u00e1ticas enfrascadas. Houve uma chamativa dist\u00e2ncia entre os enunciados e as a\u00e7\u00f5es concretas.<\/p>\n<p>Foi a partir de 1492 que a Europa conseguiu se impor como o como centro do mundo e, discursivamente, constituir as demais culturas como periferias. E usou a conquista da Am\u00e9rica Latina e do Caribe para conseguir uma vantagem comparativa determinante com respeito \u00e0s suas antigas culturas antag\u00f4nicas (turco-mu\u00e7ulmanas).<\/p>\n<p>As diferentes formas de conhecimento euroc\u00eantrico se constru\u00edram %u212 e o pior \u00e9 que ainda hoje o fazem %u212 sob um conceito de modernidade excludente. Desde a chegada \u00e0 Am\u00e9rica, a Europa se erige como modelo \u00fanico de toda a civiliza\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o se torna necess\u00e1rio identificar o que \u00e9 derivado desse eurocentrismo dominador e impositivo, e a partir de a\u00ed controlar a economia, a autoridade, o g\u00eanero e a sexualidade, e em definitivo, a subjetividade.<\/p>\n<p>Chama a aten\u00e7\u00e3o ver como tantos te\u00f3ricos, acad\u00eamicos, \u201cespecialistas\u201d, desembarcaram na Am\u00e9rica Latina do novo mil\u00eanio para ajudar os governos progressistas da regi\u00e3o a endireitar seus processos libertadores e socialmente justiceiros, de acordo com sua idiossincrasia, conhecimentos, mem\u00f3ria e ideologia europeias (\u00e0s vezes apresentados como marxistas ou gramscianos), tomando posi\u00e7\u00f5es determinantes com rela\u00e7\u00e3o a ricas por\u00e9m complexas experi\u00eancias na Am\u00e9rica Latina e inexistentes no velho continente, defendendo a \u201cteoria do poss\u00edvel\u201d contra as possibilidades de revolu\u00e7\u00f5es ou medidas imprescind\u00edveis para priorizar a defesa dos interesses sociais ou nacionais.<\/p>\n<p>Alguns dos especialistas \u201cdesembarcados\u201d neste s\u00e9culo na regi\u00e3o colaboraram sim, com seus conhecimentos, na constru\u00e7\u00e3o dos processos progressistas. Muitos outros quiseram impor seu \u201cdeve ser assim\u201d \u2013 baseados, claro, na prioriza\u00e7\u00e3o de outros interesses. Estes segundos, ainda podendo ser genuinamente solid\u00e1rios ou de perfil progressista, atuaram a partir de preconceitos ideol\u00f3gicos e da superficialidade, descontextualiza\u00e7\u00e3o de opini\u00f5es, posi\u00e7\u00f5es e propostas.<\/p>\n<p>Sem d\u00favidas, devemos repudiar terminantemente a estigmatiza\u00e7\u00e3o dos estrangeiros em qualquer lugar do mundo, mas para isso \u00e9 imprescind\u00edvel partir do reconhecimento de que se trata de uma problem\u00e1tica comum \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre pa\u00edses centrais e perif\u00e9ricos, ou entre pa\u00edses maiores e subalternos, de forma paternalista, e habitualmente degradante, mesmo quando vestida com as melhores intenciones.<\/p>\n<p>Hoje est\u00e3o, em muitos casos, condicionando o desenvolvimento das pol\u00edticas de reformas estruturais em nossos pa\u00edses, \u00e0s vezes com boas inten\u00e7\u00f5es, em outras representando os seus patrocinadores, entre eles bancos, empresas multinacionais financeiras, qualificadoras de risco ou partidos pol\u00edticos do establishment. O resultado, muitas vezes, \u00e9 uma maior dificuldade para se alcan\u00e7ar progressos impensados na realidade dos pa\u00edses centrais.<\/p>\n<p>O pensamento cr\u00edtico ficou ref\u00e9m desse dilema: dar seu apoio aos governos progressistas por suas conquistas em mat\u00e9ria social ou apontar as contradi\u00e7\u00f5es e limites do seu projeto, contradi\u00e7\u00f5es manifestas na peculiar forma a domina\u00e7\u00e3o adota, como explica o jornalista Ra\u00fal Zibechi; \u201cbasta observar que normalmente os novos temas pol\u00edticos n\u00e3o aparecem a partir do estabelecido pelos pensadores prestigiados e institucionalizados, e sim dos pensadores\/ativistas ou investigadores\/militantes\u201d.<\/p>\n<p>No congresso do Conselho Latino-Americano de Ci\u00eancias Sociais (CLACSO) em Bogot\u00e1, a soci\u00f3loga mexicana Beatriz Stolocwicz mostrou que o desconcerto que se observa atualmente entre os cientistas sociais da regi\u00e3o \u00e9, em grande medida, resultado de que durante v\u00e1rios anos as an\u00e1lises s\u00e9rias foram substitu\u00eddas ou opacados pela propaganda.<\/p>\n<p>Segundo ela, o \u201cmainstream da esquerda\u201d nas ci\u00eancias sociais opera dentro de uma zona de conforto, com algumas ideias que se servem para tudo, usadas quase como consignas, o que \u00e9 c\u00f4modo para se manter no caminho da opinologia, mas n\u00e3o explica adequadamente a realidade, tampouco as importantes transforma\u00e7\u00f5es ocorridas neste novo s\u00e9culo na reprodu\u00e7\u00e3o do capitalismo na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso um olhar mais amplo, que capte as l\u00f3gicas da estrat\u00e9gia dominante e suas adequa\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas. O humanista argentino Javier Tolcachier prop\u00f5e uma autocr\u00edtica pol\u00edtica, j\u00e1 que na divis\u00e3o internacional e nacional do trabalho, algumas pessoas t\u00eam o direito de pensar, por tradi\u00e7\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, e a imensa maioria n\u00e3o.<\/p>\n<p>E pensar no todo \u2013 ou pensar entre todos \u2013 significa n\u00e3o repetir os c\u00e2nones de uma academia elitista e decadente, que tende a repetir a si mesma e defender o seu status quo. \u201cPensar \u00e9 quase sempre pensar originalmente, ao menos tenta-lo, ainda que o pensado j\u00e1 tenha sido mastigado por salivas alheias. \u00c9 o pr\u00f3prio exerc\u00edcio de pensar o que libera\u201d, comenta Tolcachier.<\/p>\n<p>O di\u00e1logo sobre, a democratiza\u00e7\u00e3o do debate significa expandir os limites da academia ou dos ilustrados, para ancorar-se na realidade e nas viv\u00eancias, nas opini\u00f5es diversas daqueles que falam de outras coisas e de modos diferentes aos da academia.<\/p>\n<p>O subcomandante insurgente Mois\u00e9s, da Frente Zapatista de Libera\u00e7\u00e3o Nacional, afirmou, no primeiro dia deste ano, quando completou 24 anos de sua luta: \u201cvamos ver se podemos viver com dignidade e sem maus governos, sem dirigentes, sem l\u00edderes e sem vanguardas, pois chega de muito Lenin, e muito Marx, e muita bebedeira, mas nada de estar aqui perto da nossa realidade. Muito falar do que n\u00f3s temos ou n\u00e3o que fazer e nada de pr\u00e1tica. Que a vanguarda isso, que o proletariado aquilo, que o partido sei o que l\u00e1, que a revolu\u00e7\u00e3o&#8230; e uma cervejinha, um vinho, um churrasco com a fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n<p>E continua: \u201cpois n\u00e3o pensamos, acreditamos que a vanguarda revolucion\u00e1ria est\u00e1 ocupada em provar trajes e palavras para o triunfo, e portanto temos que responde a eles do nosso modo, como ind\u00edgenas zapatistas\u201d.<\/p>\n<p>Para criar ou remodelar o novo instrumento pol\u00edtico \u00e9 preciso mudar primeiro a cultura pol\u00edtica da esquerda e sua vis\u00e3o da pol\u00edtica, que n\u00e3o pode se reduzir a discursos, consignas, disputas pol\u00edticas institucionais pelo controle do parlamento, por ganhar um projeto de lei ou uma elei\u00e7\u00e3o, briga onde os setores populares e suas lutas s\u00e3o os grandes ignorados.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica n\u00e3o pode se limitar \u00e0 arte do poss\u00edvel, deve se transformar na arte de fazer o imposs\u00edvel \u2013 que \u00e9 fact\u00edvel e imprescind\u00edvel \u2013, construir for\u00e7a social e pol\u00edtica capaz de mudar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as a favor do movimento popular. E para isso se necessita uma nova rota, baseada no pensamento cr\u00edtico renovado, de acordo com as nossas realidades.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso as organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas expressem um grande respeito pelo movimento popular, que contribuam ao seu desenvolvimento aut\u00f4nomo, deixando atr\u00e1s toda tentativa de manipula\u00e7\u00e3o e imposi\u00e7\u00e3o. Os movimentos populares rejeitam, com raz\u00e3o, as condutas hegemonistas que que tentam impor intelectuais e acad\u00eamicos com uma soberba que normalmente ocultam a mediocridade, a inseguran\u00e7a ou a desqualifica\u00e7\u00e3o impositiva, com variados interesses, muitas vezes fazendo o papel de roteiristas dos governos progressistas.<\/p>\n<p>Uma nova teoria cr\u00edtica?<\/p>\n<p>As an\u00e1lises sobre a teoria cr\u00edtica latino-americana compartilham um n\u00facleo de questionamentos que v\u00e3o definindo a natureza da teoria. Que tipo de transforma\u00e7\u00f5es o projeto da \u201cteoria cr\u00edtica\u201d necessita para posicionar temas como o g\u00eanero, a ra\u00e7a e a natureza num cen\u00e1rio conceitual e pol\u00edtico? Como pode ser assimilada a \u201cteoria cr\u00edtica\u201d no projeto latino-americano de modernidade\/colonialidade, liberado do discurso academicista e euroc\u00eantrico.<\/p>\n<p>Segundo o fil\u00f3sofo Enrique Dussel, a Europa se autoproclama o \u201ccentro\u201d da Hist\u00f3ria Mundial desde 1492, e desse modo imp\u00f5em a todas \u00e0s outras culturas, pela primeira vez na hist\u00f3ria, a condi\u00e7\u00e3o de \u201cperiferia\u201d, fazendo da modernidade uma justificativa para uma pr\u00e1xis irracional de viol\u00eancia sobre a periferia, j\u00e1 que sua autoproclama\u00e7\u00e3o como \u201ccentro\u201d est\u00e1 baseada em v\u00e1rias premissas que comp\u00f5em, precisamente, o \u201cmito da modernidade\u201d. Entre elas, Dussel mostra que a civiliza\u00e7\u00e3o moderna se autocompreende como mais desenvolvida, superior (o que significar\u00e1 sustentar sem consci\u00eancia uma posi\u00e7\u00e3o ideologicamente euroc\u00eantrica), que imp\u00f5e seu tipo de desenvolvimento aos mais primitivos, rudes, b\u00e1rbaros. \u00c9 uma esp\u00e9cie de exig\u00eancia moral. O processo proposto pela Europa \u00e9 unilinear, o que determina uma fal\u00e1cia desenvolvimentista, indica o fil\u00f3sofo.<\/p>\n<p>Tudo que estiver fora do modelo de civiliza\u00e7\u00e3o da Europa \u00e9 considerado b\u00e1rbaro. Por isso se fala de uma justa guerra colonialista onde se legitima a viol\u00eancia se \u00e9 necess\u00e1ria, para destruir os obst\u00e1culos a tal moderniza\u00e7\u00e3o. Ao estar baseada na autoproclamada superioridade moral, esta vis\u00e3o produz v\u00edtimas e algozes, colonizados e colonizadores; onde o her\u00f3i civilizador investe contra suas v\u00edtimas com a desculpa de que se trata de um sacrif\u00edcio salvador.<\/p>\n<p>\u00c9 a partir dos Anos 60 que as ci\u00eancias sociais passaram a ser repensadas por diferentes correntes de pensamento cr\u00edtico, que buscam analisar o mundo atual, a pol\u00edtica global e as rela\u00e7\u00f5es sociais a partir de paradigmas e epistemologias que sirvam para interpretar as concentra\u00e7\u00f5es do poder. Num contexto hist\u00f3rico de particular impulso e criatividade, a Am\u00e9rica Latina entregou enormes contribui\u00e7\u00f5es vitalizadoras para esse esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>O debate cr\u00edtico das ci\u00eancias sociais, supera as \u00e1reas de economia, sociologia e hist\u00f3ria para alcan\u00e7ar as rela\u00e7\u00f5es internacionais, e hoje se faz necess\u00e1ria a configura\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina a partir de outro conhecimento, de um pensamento p\u00f3s-colonial, que deve incorporar o produzido academicamente, nutrido das experi\u00eancias de resist\u00eancia, luta e constru\u00e7\u00e3o dos nossos povos.<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo peruano An\u00edbal Quijano reclama que muitas vezes o nosso pensamento ainda se baseia numa matriz colonial de poder, e que \u201cnada \u00e9 menos racional que a pretens\u00e3o de que a espec\u00edfica cosmovis\u00e3o de uma etnia particular seja imposta como a racionalidade universal, ainda que tal etnia seja a da Europa ocidental\u201d.<\/p>\n<p>Para se chegar a uma perspectiva latino-americana \u00e9 preciso projetar por um momento do outro lado das caravelas de Colombo: o que a modernidade trouxe para aqueles que j\u00e1 habitavam o territ\u00f3rio da atual Am\u00e9rica Latina? A modernidade quando rec\u00e9m chegada, longe de nos reconhecer como um outro igual a ela, nos imp\u00f4s uma ideologia euroc\u00eantrica legitimadora das pr\u00e1ticas pol\u00edtico-sociais e econ\u00f4micas que se deram posteriormente.<\/p>\n<p>O acad\u00eamico portugu\u00eas Boaventura de Sousa Santos admite que as ci\u00eancias sociais atravessam um momento de crise, a que \u00e9 refletida na renova\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o da vis\u00e3o euroc\u00eantrica ou de qualquer centro de poder hegem\u00f4nico. Uma crise que se fez poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0s lutas sociais dos \u00faltimos 30 ou 40 anos em v\u00e1rios continentes: camponeses, feministas, ind\u00edgenas, afrodescendentes, trabalhadores urbanos, pequenos produtores rurais, ecologistas, defensores dos direitos humanos, antirracistas, militante LGBT, etc. Em muitos casos, com demandas fundadas em universos culturais n\u00e3o ocidentais.<\/p>\n<p>Por isso \u00e9 necess\u00e1rio o desprendimento da ret\u00f3rica vazia de uma modernidade copiada e baseada no imagin\u00e1rio imperial, articulado na ret\u00f3rica da democracia ao estilo europeu ou estadunidense \u2013 ambos modelos que, hoje, se mostram deteriorados e vulnerados pela crescente e perigosa regressividade e marginaliza\u00e7\u00e3o que se observa em suas sociedades.<\/p>\n<p>O novo pensamento cr\u00edtico deve surgir da diversidade (\u00e9tnica, cultural) e das nossas hist\u00f3rias locais que enfrentaram a vis\u00e3o euroc\u00eantrica por mais de cinco s\u00e9culos, tomando-as como forma leg\u00edtima de ler a realidade.<\/p>\n<p>Temos que enxergar-nos com nossos pr\u00f3prios olhos, para superar as estreitas margens impostas pela vis\u00e3o totalizadora da modernidade excludente, para indagar em outros saberes, outras pr\u00e1ticas, outros sujeitos, outros alternativos a esta ordem. A Am\u00e9rica Latina demonstrou que tem a capacidade \u00e9tica, pol\u00edtica e intelectual, de responder ao desafio de contribuir, com seus saberes e suas pr\u00e1ticas, a uma sociedade equitativa, inclusiva e democr\u00e1tica, e a um modelo de vida sustent\u00e1vel para a maioria dos presentes e futuros habitantes do planeta.<\/p>\n<p>O pensamento cr\u00edtico latino-americano \u00e9, apesar de suas eventuais cr\u00edticas ao eurocentrismo, muito euroc\u00eantrico e monocultural. A riqueza do pensamento popular, campon\u00eas e ind\u00edgena foi reiteradamente desperdi\u00e7ada. N\u00e3o se trata somente de um novo pensamento cr\u00edtico, se trata de uma maneira diferente de produzir pensamento cr\u00edtico.<\/p>\n<p>O pensamento cr\u00edtico n\u00e3o foi capaz at\u00e9 hoje de teorizar as possibilidades, superar as contradi\u00e7\u00f5es, as separa\u00e7\u00f5es, as tens\u00f5es entre as subjetividades dos cidad\u00e3os organizados, mulheres, ind\u00edgenas, imigrantes, camponeses, afrodescendentes, e criar alian\u00e7as estrat\u00e9gicas entre estes movimentos que sejam sustent\u00e1veis \u2013 ou seja, que n\u00e3o escondam a exclus\u00e3o de algumas subjetividades sob a apar\u00eancia de sus inclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Na nossa regi\u00e3o, muitos dos movimentos que lutam contra a injusti\u00e7a social n\u00e3o se posicionam a favor do capitalismo, mas tampouco se enxergam entre as vers\u00f5es conhecidas do socialismo. Deve-se pensar tamb\u00e9m nestas concep\u00e7\u00f5es contra hegem\u00f4nicas de democracia e de direitos humanos al\u00e9m do modelo liberal e ocidental.<\/p>\n<p>A democracia deve ser vista como a transforma\u00e7\u00e3o de todas as rela\u00e7\u00f5es de poder \u2013 explora\u00e7\u00e3o, patriarcado, diferencia\u00e7\u00e3o \u00e9tnico racial, fetichismo das mercadorias, comunitarismo excludente, domina\u00e7\u00e3o cultural e pol\u00edtica, interc\u00e2mbio desigual entre os pa\u00edses, etc. Deve ter rela\u00e7\u00f5es de autoridade compartilhadas, considerando a atual situa\u00e7\u00e3o: navegamos nas \u00e1guas da crise do capitalismo como sistema hist\u00f3rico, primordialmente especulativo, rentista e desapropriador, que s\u00f3 pode se reproduzir agudizando contradi\u00e7\u00f5es incur\u00e1veis.<\/p>\n<p>\u201cOs sucessos que o neoliberalismo vem tendo \u00e9 uma mostra dos problemas no pensamento da esquerda, tanto para pensar a si mesma como para pensar os dominantes. Uma esquerda ou um progressismo que, al\u00e9m do esvaziamento te\u00f3rico, mostra um insuficiente conhecimento hist\u00f3rico, o que a leva a se enredar nos discursos doutrin\u00e1rios que d\u00e3o forma e encobrem os objetivos capitalistas; e que sofre com um d\u00e9ficit investigativo que lhe faz mais dif\u00edcil distinguir entre discurso e projeto dominantes\u201d, como explica a mexicana Stolowicz.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia capitalista tem como um dos seus eixos a seguran\u00e7a para o capital sobre a propriedade: garante as condi\u00e7\u00f5es de sua reprodu\u00e7\u00e3o baseadas nas formas de acumula\u00e7\u00e3o origin\u00e1rias (desapropria\u00e7\u00e3o, saque, controle territorial direto sobre as mat\u00e9rias primas e os recursos energ\u00e9ticos, a \u00e1gua, a biodiversidade, al\u00e9m de impor \u00e0s regi\u00f5es mais vulner\u00e1veis seus dejetos t\u00f3xicos).<\/p>\n<p>Outro dos eixos \u00e9 a seguran\u00e7a diante da perda irremedi\u00e1vel da coes\u00e3o social, o que significa domesticar os oprimidos, propensos cada vez mais ao protesto e \u00e0 rebeldia.<\/p>\n<p>O oposto do pensamento cr\u00edtico \u00e9 o conformismo, c\u00ednico ou resignado. A consci\u00eancia social latino-americana apoia uma vontade de mudan\u00e7as sociais, com uma cr\u00edtica \u00e0 ordem capitalista que abre possibilidades para uma supera\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o e subalternidade. Os que est\u00e3o em d\u00edvida s\u00e3o a academia e a chamada intelectualidade, ancorados no passado, surdos \u00e0 realidade dos nossos povos, muitas vezes funcionais aos governos mas n\u00e3o a processo emancipadores e populares.<\/p>\n<p>https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Politica\/Em-busca-do-pensamento-critico-perdido\/4\/39085<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aram Aharonian &#8211; A pol\u00edtica n\u00e3o pode se limitar \u00e0 arte do poss\u00edvel, deve se transformar na arte de fazer o imposs\u00edvel &#8211; que \u00e9 fact\u00edvel e imprescind\u00edvel -, construir for\u00e7a social e pol\u00edtica capaz de mudar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as a favor do movimento popular. 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