{"id":6766,"date":"2018-01-09T18:00:40","date_gmt":"2018-01-09T20:00:40","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=6766"},"modified":"2018-01-09T17:53:27","modified_gmt":"2018-01-09T19:53:27","slug":"da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente%ef%bb%bf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/01\/09\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente%ef%bb%bf\/","title":{"rendered":"Da Cidade Segregada \u00e0 Cidade Insurgente\ufeff"},"content":{"rendered":"<p><strong>Erm\u00ednia Maricato<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Paolo Colosso &#8211;\u00a0<\/strong>S\u00e3o Paulo vive conflito prestes a explodir. Prefeito insiste na privatiza\u00e7\u00e3o total. Nos coletivos das quebradas e da classe m\u00e9dia, gesta-se uma cultura de participa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o cumpre protocolos nem formalidades institucionais.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/quadro-1-485x364.png?resize=485%2C364\" alt=\"Quadro 1 - local de moradia do que o IBGE denomina \u201cpopula\u00e7\u00e3o preta e parda\u201d\" width=\"485\" height=\"364\" \/><\/p>\n<p><em>Quadro 1 \u2013 local de moradia do que o IBGE denomina \u201cpopula\u00e7\u00e3o preta e parda\u201d<\/em><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/quadro-21-485x411.jpg?resize=485%2C411\" alt=\"Quadro 2 - o pre\u00e7o do metro quadrado de terrenos e im\u00f3veis no munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo\" width=\"485\" height=\"411\" \/><\/p>\n<p><em>Quadro 2 \u2013 o pre\u00e7o do metro quadrado de terrenos e im\u00f3veis no munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo<\/em><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/quadro-3-485x411.jpg?resize=485%2C411\" alt=\"Quadro 3 - concentra\u00e7\u00e3o de empregos (de toda a metr\u00f3pole) no munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo\" width=\"485\" height=\"411\" \/><\/p>\n<p><em>Quadro 3 \u2013 concentra\u00e7\u00e3o de empregos (de toda a metr\u00f3pole) no munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo<\/em><\/p>\n<p><strong>A desigualdade hist\u00f3rica e estrutural \u2013\u00a0<\/strong>os mapas acima mostram, respectivamente, 1) o local de moradia do que o IBGE denomina \u201cpopula\u00e7\u00e3o preta e parda\u201d, 2) o pre\u00e7o do metro quadrado de terrenos e im\u00f3veis no munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo e 3) a concentra\u00e7\u00e3o de empregos (de toda a metr\u00f3pole) no munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo. Poder\u00edamos anexar a essa rela\u00e7\u00e3o os mapas que reproduzem a localiza\u00e7\u00e3o das faixas de renda no espa\u00e7o, a taxa de escolaridade, a expectativa de vida, a mortalidade infantil, entre outros. Mas eles apenas reafirmariam o que esses tr\u00eas mapas escancaram: a) a radical desigualdade social e segrega\u00e7\u00e3o territorial que compromete as condi\u00e7\u00f5es de vida, em especial a mobilidade urbana; b) a marca do racismo decorrente de um processo inconcluso de liberta\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra escrava e c) a rela\u00e7\u00e3o disso tudo com um mercado imobili\u00e1rio altamente especulativo que se realiza, na maior parte das vezes, promovendo um produto de luxo, restrito para poucos. A constru\u00e7\u00e3o desse cen\u00e1rio envolve uma luta surda e invis\u00edvel pelos investimentos p\u00fablicos (ou pela legisla\u00e7\u00e3o urban\u00edstica) respons\u00e1veis por agregar valor \u00e0s propriedades fundi\u00e1rias ou imobili\u00e1rias e decidir os rumos da expans\u00e3o da cidade onde moram ou ir\u00e3o morar as classes m\u00e9dias e altas formadas por brancos e brancas com maior escolaridade. Outra luta surda e invis\u00edvel se d\u00e1 na constru\u00e7\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica dessa cidade. O centro expandido de S\u00e3o Paulo representa \u201ca cidade\u201d, ou a cidade do mercado, ou a cidade vis\u00edvel ou a \u201ccidade linda\u201d como a denominou o prefeito do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo, Jo\u00e3o Doria. O resto \u00e9 o resto, dep\u00f3sito de gente onde tudo \u00e9 admitido. E esse \u201ccentro\u201d simb\u00f3lico tem tudo a ver com o mercado imobili\u00e1rio e a moradia das camadas de rendas m\u00e9dia e alta conforme demonstrou Villa\u00e7a. O \u201ccentro\u201d de S\u00e3o Paulo se deslocou, ao longo da hist\u00f3ria da cidade, do Anhangaba\u00fa, para a Avenida Paulista, depois para a Avenida Faria Lima, mais recentemente para a Avenida \u00c1guas Espraiadas e agora a prefeitura anunciou que ir\u00e1 levar mais adiante a fronteira da nova expans\u00e3o imobili\u00e1ria: rumo a Jurubatuba.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo uma diferen\u00e7a de 25 anos separa a expectativa de vida entre Itaquera (aproximadamente 55 anos) e o Jardim Paulista (aproximadamente 80 anos) conforme mostram os dados da Rede Nossa S\u00e3o Paulo. Dados espacializados de morte por homic\u00eddio tamb\u00e9m reafirmam essa desigualdade. A pol\u00edcia reconhece o espa\u00e7o da senzala urbana e o espa\u00e7o da Casa Grande. Nessa cidade \u2013 n\u00e3o a linda, a outra \u2013\u00a0 n\u00e3o se pro\u00edbe a ocupa\u00e7\u00e3o ilegal, os bueiros n\u00e3o s\u00e3o limpos porque a rede de drenagem, frequentemente, inexiste, \u00e1rvores n\u00e3o s\u00e3o podadas porque n\u00e3o h\u00e1 arboriza\u00e7\u00e3o urbana, as ruas n\u00e3o s\u00e3o varridas porque muitas delas n\u00e3o apresentam cal\u00e7adas para pedestres. A julgar pelos dados, a coleta de lixo \u00e9 extensiva, mas a circula\u00e7\u00e3o pelas periferias leva a contrariar esse fato.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o moradora de favelas cresceu a taxas maiores do que a popula\u00e7\u00e3o total a partir dos anos 1980. Se a popula\u00e7\u00e3o \u201cpreta e parda\u201d representava, em 2010, 37% da popula\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio, nas favelas essa propor\u00e7\u00e3o era de 67%, o que evidencia a rela\u00e7\u00e3o entre a desigualdade urbana e racial. Nas favelas, a propor\u00e7\u00e3o de jovens e crian\u00e7as com menos de 15 anos \u00e9 bem maior do que no total do munic\u00edpio: 30% contra 21%. A urbaniza\u00e7\u00e3o ilegal (favelas e loteamentos \u201cclandestinos\u201d), predominantemente pobre, negra e mais jovem, resulta em locais insalubres, com aus\u00eancia de coleta de esgotos e falta de drenagem, o que favorece a prolifera\u00e7\u00e3o de mosquitos causadores das epidemias de dengue, zika, chikungunya. Essa \u201ccidade feia\u201d e invis\u00edvel \u00e9 desconhecida em suas dimens\u00f5es. Sim, a ocupa\u00e7\u00e3o ilegal de terras \u00e9 compuls\u00f3ria j\u00e1 que n\u00e3o se criam alternativas legais de moradia para as camadas populares n\u00e3o atendidas nem pelo Estado e nem pelo mercado (capitalista formal). Condenar as camadas populares \u00e0 ilegalidade fundi\u00e1ria urbana \u00e9 o grande ardil de um processo que relaciona legisla\u00e7\u00e3o sofisticada \u2014 \u201cideias fora do lugar\u201d \u2013, burocracia exagerada, mercado imobili\u00e1rio formal (legal, capitalista) altamente especulativo,\u00a0 cujo acesso \u00e9 restrito a uma parte da popula\u00e7\u00e3o. O controle sobre o uso e a ocupa\u00e7\u00e3o do solo se faz de acordo com as circunst\u00e2ncias. Regula\u00e7\u00e3o exagerada para uma operacionaliza\u00e7\u00e3o discriminat\u00f3ria. O controle sobre o solo n\u00e3o se estende \u00e0s periferias que s\u00e3o constru\u00eddas pelos pr\u00f3prios moradores. Forma pr\u00e1tica de remeter o custo da reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho aos pr\u00f3prios trabalhadores.<\/p>\n<p>Essas caracter\u00edsticas n\u00e3o se referem apenas \u00e0 cidade de S\u00e3o Paulo. Ao contr\u00e1rio, representam toda cidade brasileira de grande ou m\u00e9dio porte. O abismo da desigualdade urbana massiva e estrutural, decorrente de s\u00e9culos de rela\u00e7\u00f5es sociais baseadas na viol\u00eancia da escravid\u00e3o negra, teve in\u00edcio e se consolidou durante todo s\u00e9culo XX em grande medida pelo que viemos chamando de \u201curbaniza\u00e7\u00e3o de baixos sal\u00e1rios\u201d.<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>\u00a0O processo de urbaniza\u00e7\u00e3o se deu paralelamente ao processo de industrializa\u00e7\u00e3o. Essa for\u00e7a de trabalho instalou-se nas cidades com seus parcos recursos e baixos sal\u00e1rios. Assentaram-se como puderam nas periferias sem infra-estrutura urbana e, mais, constru\u00edram suas pr\u00f3prias casas sem concurso de engenheiro e arquitetos, sem financiamento p\u00fablico e, especialmente, fora do mercado imobili\u00e1rio privado formal. Segundo Pasternak quase 230.000 domic\u00edlios de favelas (60%) n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0s ruas, mas apenas a becos e vielas. Apenas 8% dos domic\u00edlios nesses aglomerados s\u00e3o alcan\u00e7ados por caminh\u00f5es, o que dificulta muito o acesso de portadores de defici\u00eancia e a coleta de lixo domiciliar.\u00a0<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>Nas periferias verifica-se de modo geral a ocupa\u00e7\u00e3o ilegal de APP\u2019s,\u00a0 APA\u2019s, APM\u2019s,<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>\u00a0ou seja, \u00e1reas \u201cprotegidas\u201d por uma legisla\u00e7\u00e3o rigorosa concebida nos gabinetes de uma elite acostumada ao discurso livresco ou \u00e0s \u201cideias fora do lugar\u201d<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Essas \u00e1reas que n\u00e3o interessam ao mercado imobili\u00e1rio, porque sua ocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 proibida ou cerceada, s\u00e3o as \u00e1reas que \u201csobram\u201d para a popula\u00e7\u00e3o pobre. Nas APMs da regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo moram ilegalmente mais de um milh\u00e3o de pessoas, o que compromete a vital qualidade da \u00e1gua que serve \u00e0 popula\u00e7\u00e3o da metr\u00f3pole. Mas essa cidade \u00e9 invis\u00edvel. Ali a lei n\u00e3o se aplica at\u00e9 porque aplic\u00e1-la exigiria incluir os trabalhadores na cidade legal, mudar a natureza do mercado imobili\u00e1rio e da propriedade fundi\u00e1ria como a v\u00ea a elite branca, o que inclui grande parte do Judici\u00e1rio e do Minist\u00e9rio P\u00fablico.\u00a0<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p>Diante desse quadro \u2014 diga-se de passagem estrutural \u2014 a m\u00eddia ou o senso comum repetem que\u00a0<em>h\u00e1 falta de planejamento urbano<\/em>. N\u00e3o \u00e9 verdade. Todo munic\u00edpio brasileiro com mais de 20.000 habitantes tem Plano Diretor e S\u00e3o Paulo n\u00e3o foge \u00e0 regra. Ele \u00e9 obrigat\u00f3rio. Ap\u00f3s a promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 as cidades foram objeto de in\u00fameras leis federais \u2013 Estatuto da Cidade, Saneamento B\u00e1sico, Res\u00edduos S\u00f3lidos, Mobilidade, Estatuto da Metr\u00f3pole \u2013 que comp\u00f5em um arcabou\u00e7o extravagante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade. Leis avan\u00e7adas para uma realidade atrasada e desigual. Discurso que alimenta a aliena\u00e7\u00e3o e contribui para disseminar uma\u00a0<em>realidade artificiosa<\/em>, como diria Buarque de Hollanda.<\/p>\n<p><strong>A cidade \u00e9 um\u00a0<em>big business \u2013\u00a0<\/em><\/strong>se a cidade \u201cfeia\u201d era vis\u00edvel apenas para governos com alguma sensibilidade social, que l\u00e1 promoviam pol\u00edticas p\u00fablicas de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, infra-estrutura urbana, transporte coletivo, passe livre e at\u00e9 atividades culturais, para os que n\u00e3o a enxergam, sobra o reino exclusivo dos neg\u00f3cios da cidade ou da cidade dos neg\u00f3cios. Aquela que est\u00e1 sob os holofotes. Ali, na dita cidade linda, n\u00e3o h\u00e1 lugar para pichadores, moradores de rua, dependentes qu\u00edmicos, ambulantes, barracos, por um simples motivo: esses eventos desvalorizam o\u00a0 metro quadrado dos im\u00f3veis e atrapalham os neg\u00f3cios imobili\u00e1rios que constituem absoluta prioridade da elite local. A Favela do Moinho e a \u201cCracol\u00e2ndia\u201d est\u00e3o no caminho de opera\u00e7\u00f5es imobili\u00e1rias que, num primeiro momento, contaram com o protagonismo da empreiteira Odebrecht (Opera\u00e7\u00e3o Urbana Lapa Br\u00e1s no governo Kassab) e agora continuam \u201catrapalhando\u201d tanto a Opera\u00e7\u00e3o Urbana \u00c1gua Branca quanto a \u201creabilita\u00e7\u00e3o\u201d da \u00e1rea central de S\u00e3o Paulo, patrocinada pelo capital imobili\u00e1rio com a grife de Jaime Lerner.<\/p>\n<p>No que diz respeito a uma \u201cguerra contra as drogas\u201d na regi\u00e3o da Luz, a gest\u00e3o apol\u00edtica\u00a0<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>\u00a0gerou o que o mundo corporativo denomina \u201cexternalidades negativas\u201d: a demoli\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios com pessoas em seu interior, a deteriora\u00e7\u00e3o de patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e o pedido de demiss\u00e3o da secret\u00e1ria de Direitos Humanos, a primeira entre quatro secret\u00e1rios demitidos em oito meses de gest\u00e3o. A retirada com fogo dos moradores sob o viaduto Jaceguai teve um expediente an\u00e1logo: tratar a popula\u00e7\u00e3o de rua como sub-ra\u00e7a a ser limpa entre os entulhos e descart\u00e1veis. Em tempos de perplexidade e apatia \u00e9 preciso mostrar determina\u00e7\u00e3o\u00a0 e autoridade na a\u00e7\u00e3o. Em ambos os casos, fam\u00edlias e crian\u00e7as continuam desalojadas e a efici\u00eancia das a\u00e7\u00f5es parece, para al\u00e9m da discuss\u00e3o sobre o desrespeito \u00e0 dignidade da pessoa humana, apontar para o desastre. Tal \u00e9 tamb\u00e9m o exemplo do aumento de mortes por acidentes de tr\u00e2nsito ap\u00f3s o aumento da velocidade m\u00e1xima permitida em eixos vi\u00e1rios importantes\u00a0<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. Ao buscar a impress\u00e3o midi\u00e1tica da interven\u00e7\u00e3o definitiva (pr\u00f3prias dos v\u00eddeos games), em vez de solu\u00e7\u00f5es, as a\u00e7\u00f5es promovem mais problemas ou, no m\u00ednimo, transferem-nos de lugar. S\u00e3o p\u00edlulas publicit\u00e1rias que animam punitivismo e estigmatiza\u00e7\u00f5es e est\u00e3o longe de solucionar problemas, como se esperaria do poder p\u00fablico.<\/p>\n<p>Em certa medida, s\u00e3o vistas tamb\u00e9m como \u201cexternalidades\u201d os desdobramentos de a\u00e7\u00f5es de grande impacto para a popula\u00e7\u00e3o como a privatiza\u00e7\u00e3o de terminais rodovi\u00e1rios, de patrim\u00f4nios p\u00fablicos de uso comum e a venda de \u00e1reas de at\u00e9 10.000m\u00b2. A efici\u00eancia \u2013 o que no mundo corporativo se mede pela rapidez entre investimento e retorno \u2014\u00a0 desses projetos implica fazer consultas p\u00fablicas apenas como formalidade (online, com prazos curtos), enxugar e atropelar conselhos de moradores e estabelecer v\u00ednculos pouco claros com empresas. O caso da contrata\u00e7\u00e3o da patrocinadora do carnaval foi um sinal de alerta.<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>\u00a0 A contrata\u00e7\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o do Teatro Municipal foi um segundo sinal.<\/p>\n<p>J\u00e1 a entrega dos terminais de transporte coletivo, que sob a administra\u00e7\u00e3o de uma empresa p\u00fablica poderia gerar ativos para a municipalidade, mostra por sua vez que a gest\u00e3o apol\u00edtica tampouco pretende gerir setores estrat\u00e9gicos. Nesse novo patamar ainda imprevis\u00edvel de alian\u00e7as com o setor privado, parece-nos apenas que se trata mesmo de uma administra\u00e7\u00e3o com inten\u00e7\u00e3o de facilitar neg\u00f3cios para alguns grandes players em especial relacionados \u00e0s rendas imobili\u00e1rias. A ins\u00f3lita \u201creadequa\u00e7\u00e3o\u201d no Plano Diretor que, segundo a Prefeitura, visa melhorar a \u201caplicabilidade da lei de zoneamento\u201d, tamb\u00e9m apresenta os mesmos sinais: propostas pouco claras, revis\u00e3o r\u00e1pida de leis constru\u00eddas com debates e participa\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Parece-nos que a gest\u00e3o n\u00e3o-pol\u00edtica da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica acentua os conflitos em vez de pacific\u00e1-los. Incita o \u00f3dio, o preconceito, busca culpados para se afirmar. E isso numa conjuntura marcada por recess\u00e3o, desemprego e pauperiza\u00e7\u00e3o, somente refor\u00e7a a hostilidade e viol\u00eancia social.\u00a0 Nos holofotes, tende\u00a0 a tornar a cidade linda para os que puderem pagar por ela e com ela extra\u00edrem grandes retornos de capital.\u00a0 Para o grosso da popula\u00e7\u00e3o, ora a limpeza social, ora a austeridade. H\u00e1 pouca consist\u00eancia nas propostas para as trabalhadoras e trabalhadores que perdem quatro horas di\u00e1rias no transporte; corte para os jovens que querem acessar a cidade; corte para os adolescentes que na escola tinham leite e alimentos org\u00e2nicos; corte no atendimento \u00e0 mulher em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia; corte em programas de cultura para a periferia; corte no servi\u00e7o de assist\u00eancia social voltado aos vulner\u00e1veis; a lista \u00e9 longa e citar todas as refer\u00eancias ocuparia muito espa\u00e7o.<\/p>\n<p>A cidade linda \u00e9, na realidade, uma m\u00e1quina de segrega\u00e7\u00e3o, manuten\u00e7\u00e3o de abismos \u2013 vale reiterar, divididos por muros, c\u00e2meras e uma pol\u00edcia bem armada que mata e morre. A mesma pol\u00edcia que sabe: se errar na abordagem de um morador dos Jardins enfrentar\u00e1 o peso da autoridade e poder conferidos pela origem da classe \u00e0 qual n\u00e3o pertence. A mesma pol\u00edcia que em algum momento se d\u00e1 conta de seu papel na manuten\u00e7\u00e3o da ordem social de desigualdade e injusti\u00e7a extremos.\u00a0 Se uma gest\u00e3o apol\u00edtica n\u00e3o compreender essas contradi\u00e7\u00f5es de uma urbaniza\u00e7\u00e3o desigual e excludente, tornar\u00e1 a cidade formal e vis\u00edvel um camarote vip de\u00a0<em>caviar way of life<\/em>\u00a0e, ao mesmo tempo, aumentar\u00e1 a imensa senzala urbana da popula\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel.\u00a0 O projeto do \u201cCentro Novo\u201d<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>\u00a0n\u00e3o foge desse imagin\u00e1rio corporativo; seus \u201cedif\u00edcios ic\u00f4nicos\u201d embelezar\u00e3o nossos cart\u00f5es postais sem transforma\u00e7\u00f5es no cotidiano urbano.<\/p>\n<p>Em \u00faltima inst\u00e2ncia, a gest\u00e3o apol\u00edtica da administra\u00e7\u00e3o publica \u00e9 um caminho desastroso, na medida em que seu maior \u00eaxito resulta implodir por completo o que precisaria ser reabilitado, a saber, os patamares civilizat\u00f3rios e republicanos que visam tratar o que \u00e9 p\u00fablico como comum, aquilo a que todas e todos pertencem, a que todos e todas devem participar, no qual devem ser inclu\u00eddos como iguais. Por isso, em s\u00edntese, a gest\u00e3o n\u00e3o-politica \u00e9 um n\u00e3o-projeto de cidade. Falta nas avalia\u00e7\u00f5es da gest\u00e3o corporativa da m\u00e1quina p\u00fablica atentar para o contingente de cidad\u00e3os e cidad\u00e3s que n\u00e3o entra nos horizontes da cidade linda ou na cidade do mercado. Nesse sentido,\u00a0<em>o sucesso de uma gest\u00e3o apol\u00edtica n\u00e3o pode resultar sen\u00e3o num fracasso em termos urbanos.<\/em><\/p>\n<p><strong>A cidade insurgente \u2013\u00a0<\/strong>Junho de 2013 marcou uma inflex\u00e3o da hegemonia de centro-esquerda no Brasil, cujos significados e desdobramentos est\u00e3o em disputa. As for\u00e7as que pareciam ter sa\u00eddo de algum arm\u00e1rio estavam, na verdade, difusas mas presentes na conjuntura h\u00e1 algum tempo. Depois da elei\u00e7\u00e3o de 2014, os setores conservadores vencidos, insuflados e financiados por interesses nacionais\u00a0 e internacionais conduziram o pa\u00eds para uma regress\u00e3o n\u00e3o prevista nos cen\u00e1rios mais pessimistas. Ap\u00f3s a ruptura institucional de 2016, a soberania nacional passa a ser sistematicamente violentada, as riquezas naturais negociadas de forma irrespons\u00e1vel e imprudente; o congelamento dos investimentos em sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o comprometem as gera\u00e7\u00f5es futuras. A reforma trabalhista remete-nos, por sua vez, de volta \u00e0 condi\u00e7\u00e3o colonial. Os choques decorrentes de an\u00fancios que se sucedem \u00e9 atordoante e, talvez por esse motivo, fica dif\u00edcil perceber que, nos subterr\u00e2neos dessa terra em transe, h\u00e1 tamb\u00e9m uma recomposi\u00e7\u00e3o de for\u00e7as progressistas e a emerg\u00eancia de muitas novas. Menos dif\u00edcil perceber \u00e9 que a maior parte desses novos personagens tem a cidade como pauta e o espa\u00e7o urbano como media\u00e7\u00e3o e repert\u00f3rio de a\u00e7\u00e3o. \u00c9 no urbano que desponta um protagonismo novo e, especialmente, jovem.<\/p>\n<p>Os \u00e2nimos de 2013 provocaram reviravoltas nas pr\u00e1ticas e representa\u00e7\u00f5es sociais. Os epis\u00f3dios que trouxeram mais de um milh\u00e3o de pessoas \u00e0s ruas das cidades do pa\u00eds surpreendeu uma esquerda que havia sa\u00eddo delas para se resguardar nos espa\u00e7os institucionais. As cidades, que viveram um ciclo virtuoso de \u201cprefeituras democr\u00e1tico-populares\u201d nos anos 1980 e 90 e que levaram o Partido dos Trabalhadores a conquistar o Governo Federal, foram esquecidas.<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>\u00a0 As ruas, entretanto, n\u00e3o ficaram vazias, mas receberam novos atores \u2014 como \u00e9 pr\u00f3prio ao movimento da hist\u00f3ria. E n\u00e3o foram apenas os conservadores que as ocuparam.<\/p>\n<p>Os \u00faltimos anos foram marcados por uma densa cultura pol\u00edtica de participa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o cumpre protocolos, formalidades institucionais e, talvez justamente por isso, tornaram-se for\u00e7as sociais importantes no avan\u00e7o da agenda urbana e na reconstru\u00e7\u00e3o da democracia no pa\u00eds. Em S\u00e3o Paulo, no p\u00f3s-Junho, foi not\u00e1vel a prolifera\u00e7\u00e3o de uma gama de iniciativas ligadas \u00e0s mobilidades ativas, \u00e0 vida nas ruas, pra\u00e7as e parques, al\u00e9m do esfor\u00e7o tenaz, por parte do poder p\u00fablico municipal, para a implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas significativas de valoriza\u00e7\u00e3o do transporte coletivo \u2013 os muitos quil\u00f4metros de corredores faixas de \u00f4nibus, a moderniza\u00e7\u00e3o da frota e capilariza\u00e7\u00e3o de linhas. Nesse caldo pol\u00edtico um Plano Diretor mais progressista n\u00e3o tinha base parlamentar para ser aprovado em 2014, quando o movimento por moradia montou acampamento em frente \u00e0 C\u00e2mara dos Vereadores at\u00e9 sua aprova\u00e7\u00e3o. Assim como os vereadores, o governador do Estado tamb\u00e9m se surpreendeu quando, no in\u00edcio das ocupa\u00e7\u00f5es secundaristas, afirmou que a chegada do fim-de-semana\u00a0 acalmaria os \u00e2nimos dos estudantes.<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>\u00a0Mal sabia que nos dias seguintes explodiria o maior levante jovem da hist\u00f3ria recente, cujas marcas para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es ainda nos s\u00e3o insond\u00e1veis. Os secundaristas, embora n\u00e3o tivessem a cidade como pauta, souberam us\u00e1-la como arena para tornar vis\u00edvel e p\u00fablico o que se pretendia passar sorrateiramente.<\/p>\n<p>Essas foram iniciativas de grande presen\u00e7a na opini\u00e3o p\u00fablica, mas as experimenta\u00e7\u00f5es est\u00e9tico-pol\u00edticas s\u00e3o muitas e n\u00e3o cessaram, apesar do golpe parlamentar de 2016.\u00a0 H\u00e1 uma evidente retomada geral das lutas que tem a cidade como objeto. Do cicloativismo \u00e0 ONG Sampa \u00e0 P\u00e9, passando pelas bicicletadas peladas. H\u00e1 as lutas por espa\u00e7os verdes, as ocupa\u00e7\u00f5es art\u00edsticas de im\u00f3veis antes ociosos, h\u00e1 in\u00fameros coletivos de cultura agora unidos numa frente \u00fanica. H\u00e1 lutas mais especificamente feministas, como a Marcha Mundial das Mulheres, o Levante Mulher, Mulheres da Periferia, Fala Guerreira entre outras. A Igreja Cat\u00f3lica comprometida com a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o recupera espa\u00e7o, como acontece na Zona Leste de S\u00e3o Paulo com as par\u00f3quias reunidas em torno do Povo de Deus em Movimento. O pr\u00f3prio movimento estudantil \u00a0entrou numa\u00a0 nova curva ascendente, por conta das explos\u00f5es de 2013 e secundarista-2015, mas sobretudo pela amplia\u00e7\u00e3o no acesso ao ensino nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Isso inclui a abertura dos cursinhos populares organizados como cooperativas ou como parte dos movimentos sociais de juventude.\u00a0 Retroalimentam essa nova cena os movimentos de jornalistas perif\u00e9ricos que buscam construir visibilidade e identidade social, al\u00e9m dos j\u00e1 not\u00f3rios coletivos de midialivrismo, que retratam e representam de perto essas experimenta\u00e7\u00f5es. E aqui fazemos apenas um sobrevoo.\u00a0<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a><\/p>\n<p>J\u00e1 as ocupa\u00e7\u00f5es, antes uma t\u00e1tica destinada apenas a dar moradia e uso a edif\u00edcios ociosos, agora se tornaram a forma urbana por excel\u00eancia do povo pobre organizado ao qual se somam os imigrantes. No inicio de 2017, o MTST exigiu a continuidade de contratos do MCMV Entidades, na frente do escrit\u00f3rio da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica na Paulista. No Tribunal de Justi\u00e7a, a Frente de Luta por Moradia (FLM) luta pela suspens\u00e3o de despejos. No CDHU a Uni\u00e3o de Movimentos de Moradia exige habita\u00e7\u00e3o. A Frente \u00danica da Cultura ocupou a Secretaria da Cultura. A Ocupa\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara dos Vereadores \u00e9 o cap\u00edtulo mais recente, mas certamente n\u00e3o o \u00faltimo. Reunidos no F\u00f3rum em Defesa da Cidade, estudantes secundaristas, jovens do Levante Popular da Juventude, da UNE, do Periferias por um Outro Brasil, da Frente \u00danica pela Cultura se insurgiram contra o corte no passe livre e as iniciativas\u00a0 pouco transparentes de privatiza\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio p\u00fablico. A a\u00e7\u00e3o se transformou num movimento de coleta de assinaturas de eleitores para um projeto de lei iniciativa popular exigindo um plebiscito sobre as privatiza\u00e7\u00f5es. Pode-se dizer que h\u00e1 fragmenta\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o apatia, como muitos pensam. Semana ap\u00f3s semana as manifesta\u00e7\u00f5es se sucedem, campos se reorganizam.<\/p>\n<p>Se jovens, mulheres, LGBT\u2019s, mobilidade, moradia, seguran\u00e7a alimentar s\u00e3o protagonistas e temas que trazem novidade aos movimentos populares, a luta contra a desigualdade \u00e9tnico-racial atravessa todas elas. De fato, a pobreza, assim como as periferias, as favelas e os corti\u00e7os t\u00eam cor predominante. Isso numa sociedade onde 53% \u00e9 feita de negros e negras. Entre esses a luta cresce mais do que em qualquer outro lugar, animada por entidades voltadas para cultura, educa\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia, g\u00eanero, e outros temas. Para ficarmos em poucos exemplos, basta lembrar do Coletivo Negro, Uniafro,\u00a0 Frente Alternativa Preta,\u00a0 SOS Racismo, Converg\u00eancia Negra, Rede de Prote\u00e7\u00e3o e Resist\u00eancia Contra o Genoc\u00eddio, Campanha Libertem Rafael Braga. Iniciativas que unem as pautas \u00e9tnico-raciais \u00e0s desigualdades s\u00f3cio-espaciais.<\/p>\n<p>Ora, as cidades s\u00e3o os locais da democracia direta \u2014 que o diga o mundialmente famoso e brasileiro Or\u00e7amento Participativo. Os novos personagens apontam para uma cidade aberta, feita de intera\u00e7\u00f5es mais solid\u00e1rias, transparentes e inventivas, menos desigual, menos preconceituosa, coletivamente vivida como direito e como espa\u00e7o do comum e que se manifesta por assembleias, performances, hashtags, midialivrismo, mapas colaborativos, cozinhas coletivas, comunitarismo nas pra\u00e7as, aulas p\u00fablicas, saraus, slam, contra uma cidade tendencialmente gerida como neg\u00f3cio e para poucos. A urbaniza\u00e7\u00e3o desigual paulistana concentra capitais, infraestruturas, informa\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m concentra sujeitos que se insurgem.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria sobre a ditadura militar e a constru\u00e7\u00e3o do \u00faltimo ciclo democr\u00e1tico no Brasil passou pela luta sindical, mas tamb\u00e9m j\u00e1 passou pelas cidades\u00a0 \u2014 como mostraram muitos estudos, em especial o de Eder Sader,\u00a0<em>Quando novos personagens entraram em cena<\/em>.\u00a0 A reconstru\u00e7\u00e3o do novo ciclo democr\u00e1tico, que vai muito al\u00e9m de 2018, certamente tamb\u00e9m vai al\u00e9m do espa\u00e7o institucional: exige recuperar ruas, pra\u00e7as e bairros como locais de resist\u00eancia e constru\u00e7\u00e3o do futuro. Ser\u00e1 necess\u00e1rio passar pelos territ\u00f3rios onde o povo vive e sofre as experi\u00eancias cotidianas de espolia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E se as esquerdas n\u00e3o se derem conta de uma vez por todas de que os processos sociais se espacializam, expressam-se na cidade desigual e dividida, se n\u00e3o perceberem que o espa\u00e7o urbano em disputa diz respeito ao conflito de classes \u2013 mediado pela m\u00e1quina p\u00fablica \u2013 e, mais, que nesse h\u00e1 uma enorme lat\u00eancia de for\u00e7as transformadoras,\u00a0 ser\u00e1 dif\u00edcil formular\u00a0 um novo ciclo de democratiza\u00e7\u00e3o da democracia.<\/p>\n<p>_________________<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0MARICATO. E.\u00a0<em>Metr\u00f3pole na periferia do capitalismo S\u00e3o Paulo<\/em>: Hucitec, 1997.\u00a0\u00a0 http:\/\/fau.usp.br\/depprojeto\/labhab\/biblioteca\/textos\/maricato_metrperif.pdf<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>\u00a0PASTERNAK, S.\u00a0<em>Favelas: fatos e boatos<\/em>. In Kowarick, L. e Fruguli. H. (orgs) Pluralidade urbana em S\u00e3o Paulo. S\u00e3o Paulo: Editora 34. 2016<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u00a0\u00c1reas de Prote\u00e7\u00e3o Permanente, \u00c1reas de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental e \u00c1reas de Prote\u00e7\u00e3o dos Mananciais.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a>\u00a0Fazemos men\u00e7\u00e3o aqui \u00e0 j\u00e1 cl\u00e1ssica express\u00e3o de Roberto Schwarz em\u00a0<em>Ao vencedor as batatas<\/em>. S\u00e3o Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a>\u00a0<em>Melancolia nas cidades<\/em>. Caf\u00e9 Filos\u00f3fico\u00a0\u00a0 https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=85DwL_ZIEew<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a>\u00a0Assumimos aqui uma ideia amplamente difundida na campanha municipal da cidade S\u00e3o Paulo, na qual o atual prefeito se autodefinia n\u00e3o como um pol\u00edtico, mas como um gestor. Conferir, por exemplo,\u00a0<a href=\"http:\/\/jovempan.uol.com.br\/programas\/nao-sou-politico-sou-empresario-diz-candidato-joao-doria-jr.html\">http:\/\/jovempan.uol.com.br\/programas\/nao-sou-politico-sou-empresario-diz-candidato-joao-doria-jr.html<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a>\u00a0Cf.\u00a0<a href=\"https:\/\/vejasp.abril.com.br\/cidades\/numero-de-mortes-transito-sao-paulo\/\">https:\/\/vejasp.abril.com.br\/cidades\/numero-de-mortes-transito-sao-paulo\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/politica\/por-favorecimento-mp-pede-condenacao-de-cupula-da-gestao-doria\">https:\/\/www.cartacapital.com.br\/politica\/por-favorecimento-mp-pede-condenacao-de-cupula-da-gestao-doria<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a>\u00a0http:\/\/www.capital.sp.gov.br\/noticia\/prefeitura-recebe-o-projeto-centro-novo<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a>\u00a0MARICATO, E.\u00a0<em>Para entender a crise urbana<\/em>. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular 2013.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a>\u00a0O epis\u00f3dio est\u00e1 registrado em MEDEIROS, Jonas.\u00a0<em>Escolas de Luta.<\/em>\u00a0Veneta, 2016, p. 102<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/da-cidade-segregada-a-cidade-insurgente\/#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a>\u00a0Boa parte desses eventos foram reconstitu\u00eddos tamb\u00e9m em COLOSSO, Paolo.\u00a0<em>Rem Koolhaas nas metr\u00f3poles delirantes \u2013 entre a Bigness e o big business.\u00a0<\/em>S\u00e3o Paulo: ed. Annablume, 2017.<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p>MARICATO. E.\u00a0<em>Metr\u00f3pole na periferia do capitalismo<\/em>\u00a0S\u00e3o Paulo: Hucitec, 1997.\u00a0\u00a0 http:\/\/fau.usp.br\/depprojeto\/labhab\/biblioteca\/textos\/maricato_metrperif.pdf<\/p>\n<p>MARICATO, E.\u00a0<em>Para entender a crise urbana<\/em>. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular 2013.<\/p>\n<p>MEDEIROS, Jonas.\u00a0<em>Escolas de Luta.<\/em>\u00a0Veneta, 2016, p. 102<\/p>\n<p>COLOSSO, Paolo.\u00a0<em>Rem Koolhaas nas metr\u00f3poles delirantes \u2013 entre a Bigness e o big business.\u00a0<\/em>S\u00e3o Paulo: ed. Annablume, 2017.<\/p>\n<p>PASTERNAK, S.\u00a0<em>Favelas: fatos e boatos<\/em>. In Kowarick, L. e Fruguli. H. (orgs)\u00a0<em>Pluralidade urbana em S\u00e3o Paulo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora 34. 2016<\/p>\n<p>\u201cGoverno D\u00f3ria deve rever plano Diretor para atrair investidores\u201d. Estado de S\u00e3o Paulo, 11 de novembro de 2016. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/sao-paulo.estadao.com.br\/noticias\/geral,governo-doria-deve-rever-plano-diretor-para-atrair-investidores,10000087679\">http:\/\/sao-paulo.estadao.com.br\/noticias\/geral,governo-doria-deve-rever-plano-diretor-para-atrair-investidores,10000087679<\/a><\/p>\n<p>\u201cPrefeitura vai revisar legisla\u00e7\u00f5es urbanas para impulsionar produ\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis\u201d.\u00a0<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/tmp\/mozilla_antonio0\/Secovi,%2022%20de%20fevereiro%20de%202017.%20http:\/www.secovi.com.br\/noticias\/prefeitura-vai-revisar-legislacoes-urbanas-para-impulsionar-producao-de-imoveis\/12814\">Secovi, 22 de fevereiro de 2017. http:\/\/www.secovi.com.br\/noticias\/prefeitura-vai-revisar-legislacoes-urbanas-para-impulsionar-producao-de-imoveis\/12814<\/a><\/p>\n<p>Gest\u00e3o D\u00f3ria orientou AMBEV a inflar proposta para vencer concorr\u00eancia por Carnaval\u201d. R\u00e1dio CBN, 12 de junho de 2017. Dispon\u00edvel em:\u00a0\u00a0<a href=\"http:\/\/cbn.globoradio.globo.com\/editorias\/politica\/2017\/06\/12\/GESTAO-DORIA-ORIENTOU-AMBEV-A-INFLAR-PROPOSTA-PARA-VENCER-CONCORRENCIA-POR-CARNAVAL.htm\">http:\/\/cbn.globoradio.globo.com\/editorias\/politica\/2017\/06\/12\/GESTAO-DORIA-ORIENTOU-AMBEV-A-INFLAR-PROPOSTA-PARA-VENCER-CONCORRENCIA-POR-CARNAVAL.htm<\/a><\/p>\n<p>\u201c \u2018No escuro\u2019 gest\u00e3o D\u00f3ria inicia ajuste nas regras que definir\u00e3o novas obras\u201d. Folha de S. 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