{"id":674,"date":"2016-06-22T12:54:36","date_gmt":"2016-06-22T15:54:36","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=674"},"modified":"2016-06-10T15:57:25","modified_gmt":"2016-06-10T18:57:25","slug":"como-os-jornais-influenciam-nossas-opinioes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/06\/22\/como-os-jornais-influenciam-nossas-opinioes\/","title":{"rendered":"Como os jornais influenciam nossas opini\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p data-id=\"221737\"><strong>Elstor Hanzen<\/strong> &#8211;\u00a0A imprensa exerce um papel que vai al\u00e9m da simples tarefa de informar. Diariamente, seleciona e produz um limitado n\u00famero de not\u00edcias dentre uma infinitude de assuntos dispon\u00edveis no cotidiano. O reduzido card\u00e1pio \u00e9 constru\u00eddo e exposto pela m\u00eddia como essencial para o interesse e o debate p\u00fablico, e assim se incorpora \u00e0 agenda de discuss\u00f5es das pessoas, mesmo que n\u00e3o seja prioridade, muitas vezes, para quem o consome. Os recursos, os m\u00e9todos e as estrat\u00e9gias utilizados para sensibilizar, estabelecer di\u00e1logos, fixar mensagens, criar consensos e at\u00e9 modismos foram estudados no jornalismo por Maxwell McCombs\u00a0e\u00a0Donald Shaw\u00a0na\u00a0d\u00e9cada de 1970 \u2013 conhecido como Teoria do Agendamento.<\/p>\n<div class=\"theContent\">\n<p>Essa teoria defende que o p\u00fablico tende a dar mais import\u00e2ncia aos assuntos que t\u00eam maior exposi\u00e7\u00e3o nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, sugerindo assim que \u00e9 a m\u00eddia quem diz sobre o que iremos falar. Para chegarem a tal conclus\u00e3o, McCombs e Shaw desenvolveram uma pesquisa na campanha eleitoral dos Estados Unidos de 1968, que comparou os temas mais relevantes pelos eleitores com os mais enfatizados pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Os autores comprovaram que os assuntos mais expostos pela m\u00eddia eram muito semelhantes aos temas que os cidad\u00e3os consideravam como mais importantes, ou seja, as pessoas t\u00eam tend\u00eancia para incluir ou excluir de seus pr\u00f3prios conhecimentos aquilo que os <em>mass media<\/em> incluem ou excluem do seu pr\u00f3prio conte\u00fado.<\/p>\n<p>Quando a m\u00eddia escolhe o assunto o qual merece ganhar visibilidade e com que destaque deve aparecer, por outro lado, implica que muitos fatos s\u00e3o ofuscados e at\u00e9 banidos da agenda, al\u00e9m de tantos outros tratados de forma secund\u00e1ria. E por tr\u00e1s dessa posi\u00e7\u00e3o de favor\u00e1vel\/desfavor\u00e1vel e ades\u00e3o\/rejei\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um grande pano de fundo, definido por Nelson Traquina em dois eixos: o polo econ\u00f4mico (as not\u00edcias como neg\u00f3cio) e polo ideol\u00f3gico (as not\u00edcias como constru\u00e7\u00e3o da realidade e como servi\u00e7o p\u00fablico).<\/p>\n<p>Por conseguinte, a m\u00eddia tende a reproduzir a ideologia do sistema dominante, sendo um \u201ccontra-poder\u201d ou \u201cpoder\u201d a servi\u00e7o dos interesses e perspectivas das elites pol\u00edticas, a fim de sustentar determinada vis\u00e3o de mundo. E no campo econ\u00f4mico, o jornalismo como neg\u00f3cio e a not\u00edcia como mercadoria, busca-se o apelo para seduzir e, em muitos casos, o sensacionalismo para agarrar o consumidor para o produto not\u00edcia.<\/p>\n<p>Todavia, mesmo diante de tantas limita\u00e7\u00f5es na cobertura e a sonega\u00e7\u00e3o de muitos assuntos do conhecimento p\u00fablico, as not\u00edcias apresentadas condicionam e intensificam nossas preocupa\u00e7\u00f5es com corrup\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia, pol\u00edtica, economia, meio ambiente e terrorismo \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que aparecem na imprensa.<\/p>\n<p><strong>Sensa\u00e7\u00e3o de realidade<\/strong><\/p>\n<p>Poder-se-ia pegar qualquer uma das r\u00fabricas citadas no par\u00e1grafo acima como exemplo, mas vamos escolher a corrup\u00e7\u00e3o no Brasil e a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato. O tema tem ocupado de forma t\u00e3o intensa e repetitiva o espa\u00e7o na m\u00eddia que passa a sensa\u00e7\u00e3o de que a corrup\u00e7\u00e3o era algo eventual at\u00e9 ent\u00e3o no pa\u00eds e, agora, sim, tornou-se sistem\u00e1tico e insuport\u00e1vel \u2013 desde que a Opera\u00e7\u00e3o foi desencadeada, em 2014. A impress\u00e3o a qual se tem \u00e9 que o problema se implantou com os atuais agentes pol\u00edticos no poder federal e, se acabarmos com eles, a corrup\u00e7\u00e3o vai embora junto.<\/p>\n<p>N\u00e3o por coincid\u00eancia, pouco ou quase nada, por\u00e9m, t\u00eam se informado sobre o contexto hist\u00f3rico e as causas da corrup\u00e7\u00e3o. A cobertura se limita ao passado recente e com personagens bem determinados, elegendo como vil\u00e3o o governo da \u00faltima d\u00e9cada e polarizando o debate em torno do bem e do mal. Ou seja, a imprensa escolheu protagonistas bem espec\u00edficos para darem conta da narrativa e lhes atribuiu caracter\u00edsticas para se encaixarem nos pap\u00e9is desej\u00e1veis, sem muita abertura para o contexto nem pontos de vista divergentes dos acontecimentos.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, sabe-se que a corrup\u00e7\u00e3o na Petrobras \u00e9 fato e vem ocorrendo desde o s\u00e9culo passado. Em 1989, por exemplo, o jornalista Ricardo Boechat, junto com outros profissionais, j\u00e1 ganhou o pr\u00eamio Esso de jornalismo, por uma reportagem em que denunciava a roubalheira na estatal. Portanto, uma pr\u00e1tica nefasta e conden\u00e1vel que perpassa distintos governos e partidos,\u00a0 jamais teve tanta aten\u00e7\u00e3o e cobertura da m\u00eddia como nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Outro aspecto que n\u00e3o poderia ficar de fora do enredo, a fim de dar mais realismo ao drama, \u00e9 o triunfo da ordem social. Segundo Patrick Charaudeau, ele faz com que aparecem her\u00f3is que, atrav\u00e9s de combates e fa\u00e7anhas, conseguem triunfar dos malef\u00edcios e restabelecer um benef\u00edcio, uma justi\u00e7a, uma esp\u00e9cie de nova ordem na qual os homens poderiam reencontrar-se e comungar. Tal papel foi destinado, claramente, ao juiz S\u00e9rgio Moro.<\/p>\n<p>Por outro lado, no que diz respeito a coisas regulares do cotidiano social, que constituem a maior parte do nosso dia a dia, n\u00e3o entram na agenda midi\u00e1tica. Vide a viol\u00eancia contra a mulher: segundo pesquisa do Senado brasileiro, dados estimam que mais de 13,5 milh\u00f5es de mulheres j\u00e1 tenham sofrido algum tipo de agress\u00e3o. O n\u00famero equivale a 19% da popula\u00e7\u00e3o feminina com 16 anos ou mais. Outro estudo aponta que uma mulher \u00e9 estuprada a cada 11 minutos no Brasil. Por\u00e9m, para o assunto ganhar as manchetes e a agenda p\u00fablica \u2013 a reboque da mobiliza\u00e7\u00e3o e repercuss\u00e3o do caso na Internet \u2013 precisou acontecer um caso extremo de estupro no Rio de Janeiro, infelizmente.<\/p>\n<p>Diante de tal comportamento da m\u00eddia, Charaudeau lembra o seguinte: o que realmente vivemos, o que se passa cada dia, o banal, o evidente, o ordin\u00e1rio, o ru\u00eddo de fundo, o cachorro que morde o homem (este s\u00f3 vira not\u00edcia se o c\u00e3o for Pitbull, ou se o homem morder o cachorro) n\u00e3o sai publicado na imprensa.<\/p>\n<p>Por n\u00e3o ter estrutura nem disposi\u00e7\u00e3o para tratar dessas conting\u00eancias da vida, a m\u00e1quina midi\u00e1tica recorta e repete certos temas \u2013 tidos como formais e pesados \u2013 do contexto di\u00e1rio, procura reduzi-los e simplific\u00e1-los para que gerem o m\u00e1ximo de impacto poss\u00edvel na sociedade. E, em geral, o restante do espa\u00e7o \u00e9 destinado a satisfazer a curiosidade do povo \u2013 coisas amenas, leves, e \u00e0s vezes f\u00fateis \u2013 assim, em resumo, preenchendo nossa agenda de coment\u00e1rios e trazendo a sensa\u00e7\u00e3o que estamos bem informados.<\/p>\n<p><strong>Construindo a realidade<\/strong><\/p>\n<p>Hist\u00f3rias e decis\u00f5es ocorrem o tempo todo e em tudo que \u00e9 lugar, independente de qualquer registro ou divulga\u00e7\u00e3o. Tal aspecto foi bem definido pelo historiador ingl\u00eas Keith Jenkins: a maior parte das informa\u00e7\u00f5es sobre o passado nunca foi registrado, e a que permaneceu \u00e9 fugaz. Ademais, Jenkins lembra que o passado nos chega como hist\u00f3ria, e n\u00e3o \u201crealidade\u201d. O passado que conhecemos \u00e9 sempre condicionado por nossas pr\u00f3prias vis\u00f5es, nosso pr\u00f3prio presente.<\/p>\n<p>Se na hist\u00f3ria \u00e9 assim, no jornalismo a realidade e a verdade s\u00e3o bem mais flex\u00edveis \u00e0 demanda de grupos de press\u00e3o \u2013 tanto pol\u00edtico quanto econ\u00f4mico. Por isso, deve-se estar ciente que muitos acontecimentos s\u00f3 ganham forma e visibilidade no notici\u00e1rio porque s\u00e3o estrat\u00e9gicos para determinados grupos e classes sociais \u2013 gra\u00e7as ao poder de algu\u00e9m para p\u00f4-los e mant\u00ea-los ali \u2013 e usam esses temas para exercerem o controle sobre outras verdades. Na conclus\u00e3o de Jenkins, o que est\u00e1 em pauta nunca s\u00e3o os fatos de si por si, mas o peso, a posi\u00e7\u00e3o, a combina\u00e7\u00e3o e a import\u00e2ncia que eles trazem com refer\u00eancia uns aos outros na elabora\u00e7\u00e3o de explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quem est\u00e1 no poder controla a hist\u00f3ria, apropria-se dos fatos e determina a \u201cverdade\u201d para os demais e, se questionado sobre tal \u201cverdade\u201d, muitas vezes se limita a reponde as indaga\u00e7\u00f5es, nas entrelinhas, soando as palavras de Nietzsche: \u201cAssim quis eu\u201d.<\/p>\n<p>Sendo assim, para n\u00e3o vivermos num v\u00e1cuo informativo ou simplesmente servirmos de instrumento para a reprodu\u00e7\u00e3o das demandas da minoria que det\u00e9m o poder ideol\u00f3gico e econ\u00f4mico, precisamos compreender que as produ\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas v\u00eam revestidas por uma s\u00e9rie de filtros, tais como m\u00e9todo de apura\u00e7\u00e3o, conhecimento, limita\u00e7\u00f5es estruturais, operacionais \u2013 espa\u00e7o e tempo, ideologia e interpreta\u00e7\u00e3o, e esses recursos s\u00e3o mobilizados na constru\u00e7\u00e3o das not\u00edcias em prol das estrat\u00e9gias de comunica\u00e7\u00e3o das empresas jornal\u00edsticas.<\/p>\n<p>Com base nesse panorama, as m\u00eddias suscitam, salientam, rejeitam e menosprezam fatos para comporem a grade informativa di\u00e1ria, com a qual pretendem obter a nossa aten\u00e7\u00e3o e ganhar, em consequ\u00eancia, a repercuss\u00e3o e a agenda p\u00fablica.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"MyQ4z9Mon7\"><p><a href=\"https:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/imprensa-em-questao\/como-os-jornais-influenciam-nossas-opinioes\/\">Como os jornais influenciam nossas opini\u00f5es<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Como os jornais influenciam nossas opini\u00f5es&#8221; &#8212; Observat\u00f3rio da Imprensa\" src=\"https:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/imprensa-em-questao\/como-os-jornais-influenciam-nossas-opinioes\/embed\/#?secret=ek0yjHqUs2#?secret=MyQ4z9Mon7\" data-secret=\"MyQ4z9Mon7\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elstor Hanzen &#8211;\u00a0A imprensa exerce um papel que vai al\u00e9m da simples tarefa de informar. 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