{"id":6700,"date":"2018-01-06T10:00:35","date_gmt":"2018-01-06T12:00:35","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=6700"},"modified":"2018-01-06T09:58:44","modified_gmt":"2018-01-06T11:58:44","slug":"frente-ampla-assim-o-chile-trama-outra-politica%ef%bb%bf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/01\/06\/frente-ampla-assim-o-chile-trama-outra-politica%ef%bb%bf\/","title":{"rendered":"Frente Ampla: assim o Chile trama outra pol\u00edtica\ufeff"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jo\u00e3o Tel\u00e9sforo &#8211;\u00a0<\/strong>Programa claro e mobiliza\u00e7\u00e3o permanente: em novembro, \u00e0s v\u00e9speras das elei\u00e7\u00f5es, a Frente Ampla participa de manifesta\u00e7\u00e3o gigante \u2014 convocada pelo movimento No+AFP \u2014 por um novo sistema de aposentadorias, solid\u00e1rio, p\u00fablico e distributivo.<\/p>\n<blockquote><p>Nascido das lutas sociais, comprometido com a reinven\u00e7\u00e3o da esquerda e da democracia, movimento sacode a sociedade e j\u00e1 tem 20% dos votos. Fomos conhec\u00ea-lo em detalhes<\/p><\/blockquote>\n<p>Pela primeira vez na hist\u00f3ria de 27 anos do Chile p\u00f3s-ditadura, uma alternativa de enfrentamento ao neoliberalismo irrompeu com for\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do pa\u00eds, nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais e parlamentares realizadas no dia 19 de novembro. A\u00a0<strong><em>Frente Ampla<\/em><\/strong>, agrupamento pol\u00edtico criado em janeiro, superou os 20% dos votos para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, com a candidata\u00a0<strong>Beatriz (Bea) S\u00e1nchez<\/strong>, al\u00e9m de ter elegido seu primeiro senador e uma bancada de vinte deputados (dos 155 da C\u00e2mara). A coaliz\u00e3o multiplicou por sete sua presen\u00e7a no parlamento, pois antes contava com apenas tr\u00eas deputados \u2013 reeleitos, agora, com vota\u00e7\u00f5es estrondosas.<\/p>\n<p>Para que se tenha no\u00e7\u00e3o da magnitude hist\u00f3rica desse resultado eleitoral, \u00e9 preciso ter em conta que desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, em 1990, a pol\u00edtica chilena tem sido dominada pela limitada polariza\u00e7\u00e3o entre duas coaliz\u00f5es partid\u00e1rias \u2013 a de direita e a\u00a0<em>Concertaci\u00f3n<\/em>, que oscila entre o centro e a centro-esquerda \u2013 que n\u00e3o mudaram os pilares do modelo econ\u00f4mico-pol\u00edtico neoliberal, herdados da ditadura. Sintom\u00e1tico, sobre a continuidade estrutural do Estado de Pinochet, \u00e9 o fato de seguir vigente, at\u00e9 hoje, a Constitui\u00e7\u00e3o outorgada pelo ditador em 1980, inspirada nas ideias de Friedrich Hayek.<\/p>\n<p>Mediante o resultado alcan\u00e7ado nas elei\u00e7\u00f5es, a\u00a0<em>Frente Ampla<\/em>\u00a0p\u00f5e o p\u00e9 na porta desse longo pacto de elites, e come\u00e7a a se estabelecer como alternativa potente para superar o regime p\u00f3s-autorit\u00e1rio, jamais constitu\u00eddo como democracia real. Como isso foi poss\u00edvel? O que temos a aprender com essa experi\u00eancia? Analisarei, em dois artigos, sete de seus ingredientes decisivos.<\/p>\n<div id=\"attachment_657564\" class=\"wp-caption alignnone\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/beatriz-1.jpg\" data-slb-active=\"1\" data-slb-asset=\"1135196531\" data-slb-internal=\"0\" data-slb-group=\"657548\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-657564\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/beatriz-1-485x284.jpg?resize=485%2C284\" alt=\"Beatriz S\u00e1nchez, a candidata da Frente A,mpla: a surpresa da elei\u00e7\u00e3o chilena\" width=\"485\" height=\"284\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><em>Beatriz S\u00e1nchez, a candidata da Frente A,mpla: a surpresa da elei\u00e7\u00e3o chilena<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><strong>1. A for\u00e7a politizadora dos movimentos sociais<\/strong><\/p>\n<p>Em 2011-2012, o\u00a0<strong>movimento estudantil<\/strong>\u00a0realizou o mais potente ciclo de mobiliza\u00e7\u00f5es no Chile em d\u00e9cadas, n\u00e3o apenas por seu car\u00e1ter massivo (marchas de centenas de milhares de pessoas, ocupa\u00e7\u00f5es de centenas de escolas e universidades por todo o pa\u00eds, ao longo de meses), mas pela capacidade de galvanizar a sociedade em defesa da\u00a0<em>gratuidade<\/em>\u00a0e do\u00a0<em>fim ao lucro<\/em>\u00a0na educa\u00e7\u00e3o. Essas duas bandeiras impugnavam os dois elementos centrais das pol\u00edticas sociais neoliberais: focaliza\u00e7\u00e3o (a ideia de que o acesso a servi\u00e7os p\u00fablicos deve ser gratuito apenas para \u201cquem n\u00e3o pode pagar\u201d) e mercantiliza\u00e7\u00e3o \u2013 que gerara grande endividamento das fam\u00edlias chilenas, em especial para pagarem a educa\u00e7\u00e3o superior.<\/p>\n<p>Para financiar a gratuidade na educa\u00e7\u00e3o, o movimento defendia uma\u00a0<strong>reforma tribut\u00e1ria<\/strong>\u00a0que aumentasse os baix\u00edssimos impostos pagos pelos mais ricos: sobre sua renda e patrim\u00f4nio, e tamb\u00e9m outros, como aqueles que incidem sobre a superlucrativa explora\u00e7\u00e3o de cobre.<\/p>\n<p>Apesar de ter mobilizado multid\u00f5es e conquistado apoio majorit\u00e1rio do pa\u00eds \u00e0 sua pauta, o movimento de 2011-2012 n\u00e3o obteve as mudan\u00e7as pelas quais lutava: governo e Congresso, sob press\u00e3o, responderam com concess\u00f5es pontuais, mas sem cogitarem qualquer reforma de f\u00f4lego. Diante disso, os(as) estudantes denunciaram a baix\u00edssima porosidade do sistema pol\u00edtico \u00e0s demandas e anseios da sociedade, e conseguiram instalar mais um tema na agenda p\u00fablica, com for\u00e7a, naquele momento: a necessidade de uma Assembleia Constituinte, para enterrar o Estado neoliberal de Pinochet e tra\u00e7ar democraticamente uma nova rota para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>O longo ac\u00famulo de descontentamento social encontrou no discurso estudantil, em torno \u00e0 constru\u00e7\u00e3o articulada dessas tr\u00eas agendas, um canal potente de transbordamento. Gerou-se, assim, uma fissura na hegemonia neoliberal. Aberta a fenda, diversas lutas infiltraram-se por ela, ganhando maior for\u00e7a e visibilidade: ambientalistas, feministas, regionalistas (contra uma estrutura econ\u00f4mica e pol\u00edtica ultracentralizada), e, mais recentemente, pelo fim da AFP, o sistema previdenci\u00e1rio imposto por Pinochet, baseado em capitaliza\u00e7\u00e3o individual e gerido pelo sistema financeiro privado.<\/p>\n<p>A AFP resultou numa trag\u00e9dia social:\u00a0<a href=\"https:\/\/prensa.presidencia.cl\/lfi-content\/otras\/informes-comisiones\/InformePensiones.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">informe do governo<\/a>\u00a0reconheceu que 79% das aposentadorias pagas s\u00e3o menores que o sal\u00e1rio-m\u00ednimo e 44% inferiores \u00e0 linha de pobreza. O apelido sarc\u00e1stico dado pelos que lutam contra esse sistema, conhecido por sua sigla, \u00e9 plenamente justificado: \u201c<strong>A<\/strong>qui se\u00a0<strong>F<\/strong>abricam\u00a0<strong>P<\/strong>obres\u201d.\u00a0 O movimento\u00a0<strong>No+AFP<\/strong>produziu mobiliza\u00e7\u00f5es importantes, em especial em 2016 e neste ano, levando mais de 700 mil pessoas \u00e0s ruas e mais de um milh\u00e3o para o plebiscito popular realizado por todo o pa\u00eds. A alternativa defendida \u00e9 de um modelo previdenci\u00e1rio solid\u00e1rio, tripartite, e administrado pelo Estado.<\/p>\n<p>Costuma-se dizer que um movimento d\u00e1 um \u201csalto \u00e0 pol\u00edtica\u201d quando disputa as elei\u00e7\u00f5es. Esse racioc\u00ednio \u00e9 equivocado, por limitar a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e0quela que se desenvolve em determinadas institui\u00e7\u00f5es do Estado. A rigor, o \u201csalto \u00e0 pol\u00edtica\u201d dos movimentos sociais chilenos foi produzido em 2011, pela sua capacidade de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasiledesenvolvimento.wordpress.com\/2012\/05\/09\/politizar-demandas-corporativas-o-exito-do-movimento-estudantil-chileno\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>politizar demandas concretas<\/em><\/a>, partindo do enfrentamento aos\u00a0<em>efeitos\u00a0<\/em>perversos espec\u00edficos do neoliberalismo (endividamento, desigualdade, exclus\u00e3o pol\u00edtica) para questionar suas\u00a0<em>ra\u00edzes<\/em>, impugnando o modelo a partir de uma vis\u00e3o de totalidade concreta.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de conquistar amplo apoio social para essa agenda, organiza\u00e7\u00f5es importantes do movimento tamb\u00e9m enunciaram expressamente, j\u00e1 em 2011, que n\u00e3o se podia esperar que os atores do \u201cduop\u00f3lio\u201d partid\u00e1rio realizassem essas transforma\u00e7\u00f5es; era necess\u00e1rio articular um novo campo pol\u00edtico, com autonomia frente a esses setores. \u201c<em>Llegamos para quedarnos<\/em>\u201d (\u201cchegamos para ficar\u201d), conforme a frase c\u00e9lebre dita em 2011 por Francisco (Pancho) Figueroa, da\u00a0<em>Izquierda Aut\u00f3noma<\/em>, um dos l\u00edderes estudantis mais importantes daquele per\u00edodo, enfrentando um importante Ministro da\u00a0<em>Concertaci\u00f3n<\/em>, em um programa de TV. Ao fim de um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=IajTRaJlQ04\">\u00e1cido debate<\/a>\u00a0entre ambos \u2013 no qual o Ministro perdera a compostura, enquanto Pancho mantinha a calma \u2013, Figueroa concluiu: \u201c<em>O que \u00e9 mais positivo em tudo isto \u00e9 que essa indec\u00eancia que vem sendo cometida contra os estudantes e suas fam\u00edlias n\u00e3o vai poder continuar, porque nossa gera\u00e7\u00e3o chegou \u00e0 pol\u00edtica para ficar, e \u00e9 isso o que mais irrita o ex-ministro Bitar. Eles tiveram o monop\u00f3lio da pol\u00edtica, e isso vai deixar de acontecer<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>O neoliberalismo n\u00e3o institui apenas um modelo de pol\u00edtica econ\u00f4mica ou de Estado, mas tamb\u00e9m de sociedade civil \u2013 composta pela tecnocracia de ONGs especializadas, ou mesmo por ativistas sociais que atuam em pautas fragmentadas e guiados pelo \u201cmelhorismo\u201d. A primeira grande vit\u00f3ria do movimento estudantil de 2011, de onde partiram todas as demais, foi a de se constituir como campo social que entendia e apresentava sua luta como parte de uma disputa por transforma\u00e7\u00e3o sist\u00eamica. A segunda, assumir que, para estar \u00e0 altura desse desafio, era necess\u00e1rio construir e disputar poder (n\u00e3o apenas institucional). J\u00e1 n\u00e3o se tratava apenas de expressar descontentamento e apresentar demandas para que o sistema pol\u00edtico se encarregasse delas, gerenciando os conflitos nos marcos da ordem existente.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode compreender a Frente Ampla (FA), portanto, sem levar em conta sua origem na capacidade dos movimentos sociais de (i) produzirem uma crise hegem\u00f4nica do neoliberalismo, (ii) expressarem a necessidade de conforma\u00e7\u00e3o de um campo pol\u00edtico aut\u00f4nomo \u00e0queles que d\u00e3o sustenta\u00e7\u00e3o ao modelo, e (iii) iniciarem essa articula\u00e7\u00e3o a quente, coordenando-se nas lutas. A FA e seu resultado eleitoral tampouco devem ser vistos apenas como resultados suficientes de todo esse processo. Como me disse Constanza (\u201cCony\u201d) Schonh\u00e4ut, 28 anos, Secret\u00e1ria-Geral do\u00a0<em>Movimiento Autonomista<\/em>(MA, uma das organiza\u00e7\u00f5es mais importantes da FA), as elei\u00e7\u00f5es e os mandatos n\u00e3o s\u00e3o os objetivos finais, mas novos pontos de partida, para que se prossiga na tarefa de mobiliza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o popular nos territ\u00f3rios (escolas, universidades, lugares de trabalho, bairros).<\/p>\n<div id=\"attachment_657642\" class=\"wp-caption alignnone\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Cony.jpg\" data-slb-active=\"1\" data-slb-asset=\"476572186\" data-slb-internal=\"0\" data-slb-group=\"657548\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-657642\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Cony-485x273.jpg?resize=489%2C275\" alt=\"Constanza (&quot;Cony&quot;), secret\u00e1ria geral do Movimento Autonomistas, um dos componentes da Frente Ampla: &quot;as elei\u00e7\u00f5es e mandatos n\u00e3o s\u00e3o objetivos finais, mas novos pontos de partida para a mobiliza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o popular nos territ\u00f3rios\" width=\"489\" height=\"275\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><em>Constanza Schonh\u00e4ut (\u201cCony\u201d), secret\u00e1ria geral do Movimento Autonomistas, um dos componentes da Frente Ampla: \u201cas elei\u00e7\u00f5es e mandatos n\u00e3o s\u00e3o objetivos finais, mas novos pontos de partida para a mobiliza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o popular nos territ\u00f3rios<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>Pude observar um pouco dessa estrat\u00e9gia em a\u00e7\u00e3o quando estive em Santiago, cerca de duas semanas antes das elei\u00e7\u00f5es. Fui recebido por Cony na\u00a0<em>Casa Morada<\/em>, sede do MA no centro da cidade, vinculada \u00e0 concep\u00e7\u00e3o do movimento de construir inser\u00e7\u00e3o territorial e disputa comunicacional: contam com um pequeno est\u00fadio, para produ\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de v\u00eddeos para seu canal nas redes sociais. Em um dos dois dias em que estive na casa (ampla, mas envelhecida \u2013 tem sido reformada, aos poucos, pela pr\u00f3pria milit\u00e2ncia), acompanhei a grava\u00e7\u00e3o do programa \u201c<em>Cur\u00e1s de Espanto<\/em>\u201d, da Frente Feminista da organiza\u00e7\u00e3o, apresentado por duas de suas candidatas \u00e0 C\u00e2mara dos Deputados, Andrea Salazar e Manuela Veloso. Em outra oportunidade, participei de almo\u00e7o em apoio \u00e0 candidatura de Andrea, 31 anos, em uma associa\u00e7\u00e3o de moradores do bairro de\u00a0<em>La Florida<\/em>: um dos objetivos da campanha era construir v\u00ednculos com as organiza\u00e7\u00f5es da comunidade e consolidar um n\u00facleo local da Frente Ampla, como ferramenta de organiza\u00e7\u00e3o e luta popular.<\/p>\n<p><strong>2. Para um \u201cpoder de muitos\u201d, um \u201cprograma de muitos\u201d: a imbrica\u00e7\u00e3o de forma e conte\u00fado democr\u00e1ticos<\/strong><\/p>\n<p>V\u00e1rias das organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas da Frente Ampla (como\u00a0<em>Revoluci\u00f3n Democratica<\/em>,\u00a0<em>Movimiento Autonomista<\/em>,\u00a0<em>Nueva Democracia<\/em>,\u00a0<em>Izquierda Libertaria<\/em>,\u00a0<em>Izquierda Aut\u00f3ma<\/em>) forjaram-se a partir dos movimentos sociais, em especial do estudantil. Para encontrar um sintoma desse fato, basta olhar uma foto da bancada de 13 deputados e 7 deputadas eleitas pela coaliz\u00e3o: prevalece uma idade de cerca de 30 anos \u2013 a maior parte, jovens ex-dirigentes da gera\u00e7\u00e3o 2011.<\/p>\n<p>N\u00e3o surpreende, ent\u00e3o, que o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.beatrizsanchez.cl\/bsfa\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Programa-Beatriz_Sanchez.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">programa de governo<\/a>, de 351 p\u00e1ginas, apresente como grandes diretrizes as principais bandeiras dos movimentos sociais, organizadas em cinco se\u00e7\u00f5es: (i) democratiza\u00e7\u00e3o do Estado, com destaque para a Assembleia Constituinte; (ii) um novo modelo de desenvolvimento, com novas matrizes produtiva e energ\u00e9tica (rumo \u00e0 supera\u00e7\u00e3o da grande depend\u00eancia do extrativismo, ecologicamente catastr\u00f3fico, economicamente med\u00edocre e com grande vulnerabilidade externa), nova pol\u00edtica ambiental, forte investimento em ci\u00eancia e tecnologia, nacionaliza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua e do l\u00edtio, entre outros pontos; (iii) garantia de direitos sociais \u2013 educa\u00e7\u00e3o, seguridade social, sa\u00fade, transporte, moradia \u2013 mediante servi\u00e7os p\u00fablicos de car\u00e1ter universal e sob administra\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica do Estado, rompendo-se com o modelo neoliberal de negociar direitos no mercado, e garantindo-se o perd\u00e3o da d\u00edvida educacional dos estudantes; (iv) uma reforma tribut\u00e1ria, com medidas como o imposto patrimonial sobre os \u201csuper ricos\u201d (renda superior a 5 milh\u00f5es de d\u00f3lares anuais), como meio para financiar o novo modelo de pol\u00edtica social; (v) uma forte agenda de direitos civis: sexuais e reprodutivos, inclusive o de interrup\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria da gravidez, nos tr\u00eas primeiros meses de gesta\u00e7\u00e3o; diversidade sexual e de g\u00eanero, com garantia do matrim\u00f4nio igualit\u00e1rio, lei de identidade de g\u00eanero, educa\u00e7\u00e3o sexual e afetiva, entre outros pontos; novas pol\u00edticas de drogas e de seguran\u00e7a p\u00fablica; um Estado Plurinacional e intercultural, que garanta os direitos de povos origin\u00e1rios e tribal afrodescendente, al\u00e9m da revoga\u00e7\u00e3o da ileg\u00edtima Lei Antiterrorismo, que tem sido aplicada contra lutas ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Conversei com um dos coordenadores program\u00e1ticos da Frente Ampla: Nicol\u00e1s Grau, 34 anos, professor da Faculdade de Economia da Universidade do Chile \u2013 mesma universidade cuja Federa\u00e7\u00e3o de Estudantes ele presidira, em 2006, como uma das caras p\u00fablicas da \u201crevolu\u00e7\u00e3o dos pinguins\u201d, o levante estudantil liderado pelos secundaristas. Nicol\u00e1s considera que o programa tem car\u00e1ter \u201c97% social-democrata\u201d, porque esse \u00e9, de modo geral, o conte\u00fado das demandas dos movimentos sociais no Chile. \u201cMas isso n\u00e3o significa que seria f\u00e1cil de aplic\u00e1-lo, porque politicamente estamos propondo muitas mudan\u00e7as, e faz\u00ea-lo \u00e9 de uma enorme complexidade\u201d, opina.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-657641\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Nico_Grau-485x487.jpg?resize=445%2C447\" alt=\"Nico Grau, um dos coordenadores do programa da Frente Ampla: constru\u00eddo em m\u00faltiplas assembleias, mas costurado num projeto coerente\" width=\"445\" height=\"447\" \/><\/p>\n<p><em>Nico Grau, um dos coordenadores do programa da Frente Ampla: constru\u00eddo em m\u00faltiplas assembleias, mas costurado num projeto coerente<\/em><\/p>\n<p>O governo de Michelle Bachelet elegeu-se, em 2013, com um discurso de reformas, empunhando as bandeiras dos movimentos sociais: educa\u00e7\u00e3o gratuita, fim ao financiamento estatal do mercado privado de educa\u00e7\u00e3o; reforma tribut\u00e1ria para cobrar mais dos ricos; Assembleia Constituinte; e uma agenda de direitos civis. Foi a primeira vez que a coaliz\u00e3o de centro-esquerda apresentou essa roupagem reformista, e n\u00e3o apenas um horizonte restrito a ajustes pontuais. A repagina\u00e7\u00e3o desse campo, que incluiu tamb\u00e9m uma mudan\u00e7a de nome (de\u00a0<em>Concertaci\u00f3n<\/em>\u00a0para\u00a0<em>Nueva Mayor\u00eda<\/em>) e a amplia\u00e7\u00e3o para agregar o Partido Comunista, respondia \u00e0 nova conjuntura criada pelo movimento estudantil de 2011, que tinha girado o eixo do debate pol\u00edtico do pa\u00eds para a esquerda, aprofundando a crise de legitimidade do modelo econ\u00f4mico-pol\u00edtico neoliberal.<\/p>\n<p>O problema, analisa Constanza Schonh\u00e4ut, \u00e9 que os setores hegem\u00f4nicos no bloco de centro-esquerda continuaram os mesmos que controlavam a antiga\u00a0<em>Concertaci\u00f3n<\/em>. O resultado foi um governo que tentou realizar reformas \u201cem alian\u00e7a com os setores mais poderosos da sociedade, e n\u00e3o com a maioria, que seguiu exclu\u00edda ao longo de todos esses anos. Isso resultou em uma reforma trabalhista aprovada contra os trabalhadores, e que n\u00e3o avan\u00e7a em seu fortalecimento como atores de uma rela\u00e7\u00e3o de poder; uma reforma tribut\u00e1ria que n\u00e3o cumpriu o objetivo anunciado; uma reforma da educa\u00e7\u00e3o que garante gratuidade a um setor maior de estudantes, mas sem mudar o modelo, mantendo a l\u00f3gica das bolsas, e n\u00e3o por meio do fortalecimento da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica. E resulta, finalmente, em um governo que n\u00e3o \u00e9 capaz de defender suas reformas, porque, pelo modo como tentou faz\u00ea-las, n\u00e3o tem for\u00e7a nem respaldo social para isso\u201d.<\/p>\n<p>Nicol\u00e1s Grau faz leitura semelhante. Para ele, o governo Bachelet assentou-se, desde o in\u00edcio, em uma contradi\u00e7\u00e3o fundamental: \u201cprop\u00f4s-se a impulsionar reformas, mas com uma maneira de fazer pol\u00edtica e entender a democracia que \u00e9 a do Chile dos anos 1990. O governo tem conte\u00fado de\u00a0<em>Nueva Mayor\u00eda<\/em>, mas, em sua forma de entender a pol\u00edtica, \u00e9 da\u00a0<em>Concertaci\u00f3n<\/em>. Isso \u00e9 muito grave, porque o car\u00e1ter do governo faz com que ao final a reforma se modere, e que n\u00e3o exista um poder social para defend\u00ea-la. Qualquer reforma no Chile vai enfrentar uma oposi\u00e7\u00e3o muito forte das elites \u2013 como o teve o governo Bachelet. E a pergunta \u00e9: qual poder vai se contrapor a isso? O \u00fanico poder que existe \u00e9 o das organiza\u00e7\u00f5es sociais. Mas o governo Bachelet, em sua maioria, seguia vendo os movimentos como grupos de interesses, de captura do Estado, e n\u00e3o como um contrapoder \u00e0s elites, uma for\u00e7a para uma democracia mais diversa\u201d.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia da\u00a0Frente Ampla consiste em disputar o sentido das reformas, e impulsion\u00e1-las com os movimentos sociais e uma convocat\u00f3ria ampla \u00e0 cidadania: com \u201co poder de muitos\u201d, s\u00edntese pol\u00edtica que consiste no lema central do programa e da campanha de Beatriz S\u00e1nchez \u2013 o que nos faz lembrar do \u201cMuitas\u201d, potente coletivo de Belo Horizonte, e tamb\u00e9m do lema da campanha de Jeremy Corbyn, na Inglaterra, na qual talvez o FA tenha se inspirado: \u201c<em>a country for the many, not the few<\/em>\u201d (um pa\u00eds para muitos, n\u00e3o para poucos).<\/p>\n<p>Entendendo-se como ferramenta de constru\u00e7\u00e3o do \u201cpoder de muitos\u201d, a Frente Ampla realizou pr\u00e9vias abertas a qualquer eleitor(a), para escolher sua candidata presidencial. Simultaneamente, elaborou o \u201cprograma de muitos\u201d, por meio da abertura para a participa\u00e7\u00e3o da cidadania, de baixo para cima. Especialmente importante \u00e9 que esse processo de constru\u00e7\u00e3o program\u00e1tica seria\u00a0<em>vinculante<\/em>: as propostas aprovadas ali formariam o programa de governo do Frente Ampla para as elei\u00e7\u00f5es deste ano. O chamado \u00e0 participa\u00e7\u00e3o social n\u00e3o se resumiu, assim, a uma palavra de ordem vazia, desencarnada de uma pr\u00e1tica concreta \u2013 e, portanto, incapaz de constituir for\u00e7a.<\/p>\n<p>De abril a junho deste ano, foram realizados mais de 500 encontros program\u00e1ticos, entre os territoriais (em 102 comunidades, das cerca de 350 do pa\u00eds), os setoriais (sobre 28 temas) e os autoconvocados, com participa\u00e7\u00e3o de mais de 12 mil pessoas. N\u00e3o se trataram de meros espa\u00e7os de divulga\u00e7\u00e3o, para que uma mesa de convidados palestrasse; em cada encontro, formavam-se grupos de discuss\u00e3o com 5 a 15 pessoas, que deliberavam e produziam uma ata sobre as propostas que lhes parecessem convenientes, e que depois era disponibilizada na internet.<\/p>\n<p>De julho a agosto, o programa entrou em etapa de sistematiza\u00e7\u00e3o, realizada pelos 28 grupos de apoio program\u00e1tico (GAP), dos quais participaram mais de 500 pessoas. Al\u00e9m de dissecar as\u00a0<em>3 mil atas<\/em>produzidas pelos encontros, organizando as propostas em \u00e1reas \u00a0tem\u00e1ticas, os GAP fizeram um trabalho de formular medidas concretas (legislativas ou executivas) mediante as quais as propostas poderiam ser viabilizadas, bem como os meios para financi\u00e1-las. Al\u00e9m disso, distinguiram quais propostas eram consensuais (mais de 90%), com base nos encontros, e em quais as atas tinham revelado dissensos. O fato de as atas dos encontros estarem publicadas na internet conferia ao processo maior transpar\u00eancia e legitimidade, reduzindo os riscos de arbitrariedade no trabalho de sistematiza\u00e7\u00e3o pelos GAP.<\/p>\n<p>A terceira e \u00faltima etapa de constru\u00e7\u00e3o do programa foi a de vota\u00e7\u00e3o, pela internet, em torno aos dissensos observados entre os distintos encontros de base, bem como para decidir a ordem de prioridade das propostas. Participaram 16 mil pessoas desse plebiscito online \u2013 \u201cn\u00fameros pequenos\u201d, avalia Nicol\u00e1s Grau, \u201cse compararmos, por exemplo, com o movimento NO+AFP, que fez um plebiscito com um milh\u00e3o de pessoas. Por\u00e9m, a vota\u00e7\u00e3o do programa era extensa, em s\u00e9rie a um conjunto de temas; durava de 15 a 20 minutos, n\u00e3o consistia em um voto \u2018sim\u2019 ou \u2018n\u00e3o\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Para Constanza Schonh\u00e4ut, esse processo teve a virtude pol\u00edtica de confrontar a ideia de que um programa deve ser elaborado por \u201cum par de t\u00e9cnicos\u201d. \u00c0 raz\u00e3o tecnocr\u00e1tica, a Frente Ampla contrap\u00f4s a intelig\u00eancia coletiva, a racionalidade democr\u00e1tica \u2013 que n\u00e3o dispensa conhecimentos t\u00e9cnicos (os grupos de apoio program\u00e1tico tinham esse perfil), mas os toma como instrumentos de aux\u00edlio \u00e0s escolhas pol\u00edticas tomadas em comum, entre todos e todas. Um dos legados da experi\u00eancia, na vis\u00e3o de \u201cCony\u201d, foi o de fortalecer a capacidade de elabora\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da milit\u00e2ncia da Frente Ampla, e de todos aqueles e aquelas que tomaram parte dos debates.<\/p>\n<p>Nicol\u00e1s \u00e9 autocr\u00edtico com rela\u00e7\u00e3o a alguns aspectos do m\u00e9todo adotado para construir o programa: considera, em especial, que n\u00e3o tiveram grande \u00eaxito em envolver os movimentos sociais nos encontros, apesar das rela\u00e7\u00f5es que t\u00eam com v\u00e1rios deles, e do fato de encamparem suas propostas (alguns setores do FA, como a\u00a0<em>Izquierda Aut\u00f3noma<\/em>, foram mais\u00a0<a href=\"http:\/\/www.izquierdaautonoma.cl\/ante-el-plebiscito-programatico-del-frente-amplio-nuestro-compromiso-es-con-el-movimiento-social\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">contundentes na cr\u00edtica<\/a>\u00a0a esse aspecto e \u00e0 forma como o plebiscito foi realizado, embora tenham valorado positivamente a riqueza do processo de delibera\u00e7\u00e3o nos encontros territoriais e tem\u00e1ticos). Mas seu balan\u00e7o da experi\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 bastante positivo, tanto pela consist\u00eancia pol\u00edtica e robustez do documento elaborado \u2013 que n\u00e3o \u00e9 mera afirma\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios ideol\u00f3gicos nem palavras de ordem, mas um plano de governo para valer \u2013, como porque foi um momento de constru\u00e7\u00e3o de organicidade da Frente Ampla, o que nos conduz ao pr\u00f3ximo t\u00f3pico.<\/p>\n<p><strong>3. Frente Ampla como plataforma social e cidad\u00e3<\/strong><\/p>\n<p>Por tr\u00e1s do m\u00e9todo de constru\u00e7\u00e3o do programa, havia uma tese pol\u00edtica com duas dimens\u00f5es, de acordo com Nicol\u00e1s Grau: ao convocar a cidadania para debater um plano de governo, esperava-se ativ\u00e1-la como estrat\u00e9gia n\u00e3o apenas de mudan\u00e7a do pa\u00eds, mas tamb\u00e9m, simultaneamente, de\u00a0<em>constitui\u00e7\u00e3o da Frente Ampla\u00a0<\/em>(FA), ferramenta para essa transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A FA foi articulada por uma d\u00fazia de organiza\u00e7\u00f5es (entre partidos formalizados e coletivos dos movimentos sociais), mas a concep\u00e7\u00e3o que guiou a constru\u00e7\u00e3o do programa, portanto, \u00e9 de que o instrumento pol\u00edtico deveria ser constru\u00eddo n\u00e3o pela mera somat\u00f3ria desses grupos, mas como uma \u201cplataforma social e cidad\u00e3\u201d que as suplantasse, nas palavras de Constanza Schonh\u00e4ut. \u201cO que n\u00f3s pens\u00e1vamos\u201d, contou-me Nicol\u00e1s, \u201cera que havia que construir a Frente Ampla ao calor da constru\u00e7\u00e3o program\u00e1tica. E que os encontros locais, a discuss\u00e3o program\u00e1tica nos territ\u00f3rios,\u00a0<em>isso<\/em>\u00a0<em>era<\/em>\u00a0a Frente Ampla\u201d.<\/p>\n<p>Essa concep\u00e7\u00e3o est\u00e1 explicitada no texto de introdu\u00e7\u00e3o ao \u201cprograma de muitos\u201d, em que se enfatiza que o documento \u201cn\u00e3o \u00e9 um artefato comunicacional nem de propaganda. \u00c9 resultado de um processo pol\u00edtico real, e \u00e9 parte e continua\u00e7\u00e3o desse processo coletivo, cooperativo, entre as muitas e muitos. \u00c9 mais um convite que uma promessa: \u00e9 um compromisso coletivo de portas abertas, dirigido ao Chile e a quem ainda est\u00e1 esperando para se somar\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria ileg\u00edtimo que os doze ou treze grupos escolhessem a candidatura e definissem o programa mediante um acordo entre si, restrito \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de seus pr\u00f3prios membros. O problema n\u00e3o \u00e9 de legitimidade, mas de m\u00e9todo de ac\u00famulo de for\u00e7a e concep\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica: os grupos reconheceram que a sua mera somat\u00f3ria mec\u00e2nica est\u00e1 muito aqu\u00e9m da tarefa de organizar uma maioria social para transformar o Chile, ou mesmo para agregar todas aquelas pessoas que j\u00e1 se identificam com o discurso pol\u00edtico da Frente Ampla.<\/p>\n<p>A expectativa era de que, a partir dos encontros program\u00e1ticos territoriais, pudessem surgir n\u00facleos locais permanentes do FA. Por isso, tamb\u00e9m, o m\u00e9todo de funcionamento das reuni\u00f5es buscava gerar envolvimento real, com a possibilidade de que aqueles(as) que chegassem tivessem voz e participassem de um di\u00e1logo efetivo (da\u00ed a ideia de debates entre pequenos grupos em cada encontro, e de um processo deliberativo vinculante).<\/p>\n<p>Para Nicol\u00e1s, embora o resultado tenha sido positivo, ficou aqu\u00e9m das ambi\u00e7\u00f5es que alimentavam: dos 102 territ\u00f3rios onde houve encontros program\u00e1ticos, em menos de 30 ocorreram, depois, reuni\u00f5es para dar sequ\u00eancia a n\u00facleos locais da Frente Ampla. Esse esfor\u00e7o j\u00e1 teve novo prosseguimento, por\u00e9m, nas semanas recentes: para deliberar sobre seu posicionamento no segundo turno, a coaliz\u00e3o realizou um processo de consulta \u00e0s estruturas territoriais de base: mais uma vez, mais de 100 n\u00facleos se reuniram para debater o assunto. A posi\u00e7\u00e3o formulada foi a de demarcar que a candidatura da direita \u00e9 um retrocesso, mas cobrar da \u201cNova Maioria\u201d postura mais clara de compromisso com agenda de reformas: Assembleia Constituinte, agenda de direitos sociais universais e fora do mercado com fins lucrativos, justi\u00e7a tribut\u00e1ria e fim do sistema AFP. Os pontos elencados n\u00e3o s\u00e3o parte de uma negocia\u00e7\u00e3o para manifestar ou n\u00e3o apoio da coaliz\u00e3o: a FA afirma que n\u00e3o \u00e9 dono dos votos de ningu\u00e9m, essa concep\u00e7\u00e3o caudilhista da pol\u00edtica deve ser superada. \u00a0A convoca\u00e7\u00e3o \u00e9 para que cada eleitor(a) reflita e vote de acordo com suas an\u00e1lises e convic\u00e7\u00f5es. Ao fazer cobran\u00e7a por compromissos program\u00e1ticos, a FA segue incidindo no debate pol\u00edtico do segundo turno com sua agenda e transmite a mensagem de que o Chile quer mudan\u00e7as, de modo que amplos setores da cidadania j\u00e1 n\u00e3o se motivam mais para votar apenas pelo \u201cmal menor\u201d, ou \u201ctodos contra a direita\u201d.<\/p>\n<p>A Frente Ampla ainda \u00e9 um instrumento pol\u00edtico em vias de amadurecimento (algo normal, para uma coaliz\u00e3o com menos de um ano de idade). Um dos seus grandes desafios, nos pr\u00f3ximos meses e anos, ser\u00e1 o de seguir atuando em unidade aberta nos movimentos sociais, e avan\u00e7ar como alternativa de organiza\u00e7\u00e3o popular nas comunidades \u2013 ainda h\u00e1 muito para avan\u00e7ar, sobretudo nos setores mais perif\u00e9ricos. Tamb\u00e9m resta pendente, al\u00e9m disso, a consolida\u00e7\u00e3o de uma estrutura de coordena\u00e7\u00e3o. \u00c9 auspiciosa a not\u00edcia de que se armar\u00e1 em breve, ademais, um Centro de Estudos da Frente.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-657562 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/frente-amplio-2-485x273.jpg?resize=485%2C273\" alt=\"frente amplio 2\" width=\"485\" height=\"273\" \/><\/p>\n<p><strong>4. Pragmatismo radical e perspectivismo pol\u00edtico<\/strong><\/p>\n<p>A Frente Ampla \u00e9 formada por organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas heterog\u00eaneas, no que diz respeito \u00e0s suas origens e vis\u00e3o ideol\u00f3gica, que se articulam com base em um programa comum, em torno aos eixos j\u00e1 descritos, levantados pelos movimentos sociais.<\/p>\n<p>Nessa diversidade, cabem desde organiza\u00e7\u00f5es de ide\u00e1rio socialista e leitura te\u00f3rica marxista \u2013como Movimento Autonomista, Esquerda Aut\u00f4noma, Nova Democracia, Movimento Democr\u00e1tico Popular\u2013 at\u00e9, na outra ponta do espectro ideol\u00f3gico, o Partido Liberal do Chile, abarcando ainda o Partido Humanista, o Partido Ecologista Verde, o partido Revolu\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica, entre outros. \u201cNa Frente Ampla, h\u00e1 acordos gerais para criar um programa de governo, n\u00e3o uma plataforma ideol\u00f3gica. N\u00f3s, do MA, por exemplo, n\u00e3o poder\u00edamos entrar em acordo com o Partido Liberal sobre nossa vis\u00e3o geral da sociedade, mas, para um programa de governo para o Chile, para os pr\u00f3ximos quatro anos, temos bastante acordo\u201d, explica Nicol\u00e1s Grau.<\/p>\n<p>Vejo, na\u00a0<em>Frente Ampla<\/em>\u00a0chilena, a aplica\u00e7\u00e3o exitosa de dois princ\u00edpios de cogni\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o discursiva que Moyses Pinto Neto sugere para construir uma sa\u00edda de aprofundamento democr\u00e1tico para a crise brasileira: o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/573101-perspectivismo-politico-e-pragmatismo-radical-como-alternativas-a-crise-politica-entrevista-especial-com-moyses-pinto-neto\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">perspectivismo pol\u00edtico e o pragmatismo radical<\/a>. Simplificadamente, esses dois conceitos procuram nomear e fundamentar uma atitude que busca, antes que o choque entre concep\u00e7\u00f5es abstratas de mundo \u2013 por vezes inconcili\u00e1veis, ou de compreens\u00e3o rec\u00edproca mais dif\u00edcil \u2013, a tentativa de construir o discurso pol\u00edtico a partir de problemas concretos da vida social, e do esfor\u00e7o para entender como s\u00e3o percebidos pelo senso comum (ou os sensos comuns, suas distintas camadas, suas variadas perspectivas).<\/p>\n<p>Moyses cita o estadunidense Richard Roty como uma das refer\u00eancias da abordagem te\u00f3rico-pol\u00edtica pragm\u00e1tica, mas n\u00e3o faz refer\u00eancia a um intelectual que h\u00e1 d\u00e9cadas assume o \u201cpragmatismo radical\u201d como categoria central de sua proposta epist\u00eamica e pol\u00edtica: o brasileiro Roberto Mangabeira Unger. Curiosamente, ali\u00e1s, Mangabeira \u00e9 um dos te\u00f3ricos de refer\u00eancia para alguns dos dirigentes mais destacados do partido mais forte da Frente Ampla, a Revolu\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica (para que se tenha uma ideia, oito dos 20 deputados eleitos pela coaliz\u00e3o agora, al\u00e9m do \u00fanico senador, s\u00e3o da RD; era do partido, tamb\u00e9m, o coordenador-geral da campanha de Beatriz S\u00e1nchez, al\u00e9m do deputado Giorgio Jackson, importante lideran\u00e7a estudantil de 2011, que exerceu papel fundamental em todo o processo de montagem da coaliz\u00e3o). O jovem partido bebe na fonte do\u00a0<em>experimentalismo democr\u00e1tico\u00a0<\/em>do nosso baiano-carioca com sotaque de gringo \u2013 o que n\u00e3o necessariamente se confunde com suas posi\u00e7\u00f5es program\u00e1ticas espec\u00edficas, pelas quais costuma ser avaliado no Brasil, ignorando-se aspectos instigantes de seu pensamento.<\/p>\n<p>N\u00e3o cabe aprofundar e discutir, aqui, os componentes mangabeirianos da concep\u00e7\u00e3o e estrat\u00e9gia da Revolu\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica. Ressalta-se, apenas, que a pouco conhecida aproxima\u00e7\u00e3o desse setor chave da FA \u00e0s ideias de Mangabeira refor\u00e7a a leitura de que o\u00a0<em>pragmatismo radical<\/em>\u00e9 um dos pilares da estrat\u00e9gia frenteamplista, com resultados exitosos at\u00e9 aqui \u2013 ainda que com cr\u00edticas internas, na coaliz\u00e3o, \u00e0 t\u00f4nica progressista e \u201ccidad\u00e3\u201d do discurso impresso pela RD \u00e0 campanha de Beatriz S\u00e1nchez, e n\u00e3o tanto \u201cpopular\u201d (assunto para outro texto).<\/p>\n<p>Chama a aten\u00e7\u00e3o, em distintas organiza\u00e7\u00f5es da Frente Ampla, o intenso processo de reelabora\u00e7\u00e3o criativa de matrizes ideol\u00f3gicas, que amadurece como parte da emerg\u00eancia multifacetada e multitudin\u00e1ria de um novo campo sociopol\u00edtico no Chile: \u201ca Frente Ampla n\u00e3o \u00e9 somente um fen\u00f4meno eleitoral, mas uma aposta por mudan\u00e7a cultural\u201d, afirma Gabriel Boric, ex-l\u00edder estudantil e deputado do Movimento Autonomista. Mais que isso: \u00e9 express\u00e3o de uma mudan\u00e7a cultural j\u00e1 em curso, que libera grandes energias de imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, de horizontes e estrat\u00e9gias de emancipa\u00e7\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o se trata de repetir as doutrinas do passado, dogm\u00e1tica e nostalgicamente, mas de gerar novas s\u00ednteses e diferen\u00e7as, para ousar lan\u00e7ar as bases de um pensamento e pr\u00e1tica \u00e0 altura dos desafios do presente. \u201c<em>No seremos sangre nueva para viejas derrotas<\/em>\u201d, afirma um dos lemas da Esquerda Auton\u00f4ma e Movimento Autonomista.<\/p>\n<p><strong>5. Agir contra o sistema<\/strong><\/p>\n<p>A abertura para a diversidade ideol\u00f3gica e a abordagem pragm\u00e1tica n\u00e3o implicam, no caso da Frente Ampla, uma aglomera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica gelatinosa nem de \u201ccentro\u201d, submetida aos limites do sistema vigente: a contraposi\u00e7\u00e3o ao neoliberalismo \u00e9 frontal e a alternativa defendida \u00e9 de ruptura democr\u00e1tica, com uma Assembleia Constituinte que lance novas bases para organiza\u00e7\u00e3o do Estado, a produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a garantia de direitos. A radicalidade est\u00e1 na subst\u00e2ncia do discurso, portanto, e n\u00e3o em embal\u00e1-lo com um r\u00f3tulo de \u201cesquerda radical\u201d, de alcance restrito aos j\u00e1 convencidos.<\/p>\n<p>O car\u00e1ter de contesta\u00e7\u00e3o ao sistema traduz-se tamb\u00e9m em a\u00e7\u00f5es concretas. Veja-se, por exemplo, que o deputado Gabriel Boric enfrentou um pedido de impeachment por parte de entidades do grande empresariado, no ano passado, junto com a deputada comunista Camila Vallejo (destacada ex-l\u00edder estudantil do levante 2011-2012, como ele), por terem apoiado ativamente a greve de oito mil trabalhadores da rede de com\u00e9rcio Homecenter. O art. 60 da autorit\u00e1ria Constitui\u00e7\u00e3o do Chile de 1980 pro\u00edbe, efetivamente, que parlamentares tomem parte em conflitos laborais ou estudantis. Em resposta, Boric escreveu em suas redes sociais: \u201cQue os representantes do grande empresariado continuem a nos amea\u00e7ar, por apoiar as e os trabalhadores, \u00e9 sinal de que estamos fazendo o certo. \u00c9 verdade que a Constitui\u00e7\u00e3o diz que, como parlamentares, n\u00e3o podemos intervir em conflitos nem laborais nem estudantis. \u00c9 certo tamb\u00e9m que n\u00e3o vamos respeit\u00e1-la\u201d -uma defesa aberta, portanto, da desobedi\u00eancia civil, em apoio \u00e0 luta dos trabalhadores e contra um dos entulhos autorit\u00e1rios da Constitui\u00e7\u00e3o de Pinochet. Boric, lastreado nos movimentos sociais, n\u00e3o chegou nem perto de ser cassado. Reelegeu-se deputado, neste ano, com esmagadores 32,8% dos votos, em Magallanes \u2013 o segundo maior percentual no pa\u00eds, abaixo apenas dos 34% obtidos por seu companheiro frenteamplista Vlado Mirosevic, em Arica, o outro extremo (norte) do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Constituir-se como for\u00e7a contestadora do apodrecido sistema vigente, recusar-se a agir dentro das margens do que estabelece como poss\u00edvel, leg\u00edtimo e habitual, \u00e9 uma das chaves do \u00eaxito frenteamplista, e de sua pot\u00eancia transformadora. Isso foi feito de diversas maneiras: por exemplo, o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?time_continue=1&amp;v=W1JTq9OQIdk\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">programa eleitoral dedicado aos direitos dos povos ind\u00edgenas<\/a>\u00a0foi exibido na l\u00edngua mapuche (mapudung\u00fan, legendado em espanhol), com direito a jingle da campanha cantado nesse idioma. A FA n\u00e3o se contentou em anunciar a necessidade de um Estado Plurinacional; procurou mostrar minimamente, assim, na campanha, seu compromisso com essa mudan\u00e7a sist\u00eamica. \u201c<em>Hay que crear para creer<\/em>\u201d, sintetiza um lema da\u00a0<em>Revoluci\u00f3n Democratica<\/em>, tomado do artista Roberto Matta (o que evoca Mangabeira Unger: \u201ca esperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 causa da a\u00e7\u00e3o, mas sim consequ\u00eancia dela\u201d).<\/p>\n<p><strong>6. N\u00e3o adaptar programa e discurso \u00e0s pesquisas de opini\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Os resultados do primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es, realizado no dia 19 de novembro, desmentiram todas as pesquisas: Beatriz S\u00e1nchez teve 20,27% dos votos, enquanto nenhuma sondagem ou analista da imprensa lhe atribu\u00eda potencial maior do que 16% (um tradicional\u00a0<em>think-tank<\/em>\u00a0de direita chegara a lhe mostrar com 8%, a cerca de duas semanas do pleito). Significativo, tamb\u00e9m, foi que, somando-se os votos de Bea com os de distintas for\u00e7as de centro-esquerda, chegava-se a 55,43% de eleitores. N\u00e3o se confirmava automaticamente, portanto, a decantada previs\u00e3o da imprensa nacional e internacional de que o Chile \u201cprepara um giro \u00e0 direita tranquilo\u201d, como dizia a manchete do espanhol\u00a0<em>El Pa\u00eds<\/em>, no dia da elei\u00e7\u00e3o. O candidato da direita, Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era, teve 36% dos votos \u2013 muito abaixo do estimado; cogitara-se at\u00e9 mesmo sua vit\u00f3ria no primeiro turno.<\/p>\n<p>Na Frente Ampla e em outros setores da esquerda muitos denunciaram, diante de tamanha discrep\u00e2ncia, como as pesquisas de opini\u00e3o \u2013 junto ao peso dado pela imprensa a elas \u2013 foram utilizadas como mecanismo de disputa, e n\u00e3o simplesmente de informa\u00e7\u00e3o. Isso se aplica n\u00e3o somente \u00e0s estimativas eleitorais, mas tamb\u00e9m \u00e0s pesquisas que vinham mostrando a suposta rejei\u00e7\u00e3o da maioria dos chilenos a algumas demandas dos movimentos sociais, a exemplo da educa\u00e7\u00e3o gratuita. Ora, se uma pesquisa indaga se \u201cos mais ricos\u201d devem pagar por sua educa\u00e7\u00e3o, induz-se a uma resposta. Mas quem \u00e9 considerado como \u201crico\u201d? E mais: ser\u00e1 que as pessoas que respondem \u201csim\u201d a essa pergunta se oporiam a que a educa\u00e7\u00e3o de todos fosse financiada n\u00e3o por cobran\u00e7a de mensalidades, mas pelo aumento de impostos pagos pelos \u201csuper ricos\u201d? Enfim, as pesquisas projetam e disputam opini\u00f5es, porque estas n\u00e3o existem mecanicamente, transformam-se no debate p\u00fablico.<\/p>\n<p>Uma organiza\u00e7\u00e3o que pauta seu programa e discurso por pesquisas de opini\u00e3o n\u00e3o tem autonomia intelectual nem pol\u00edtica; \u00e9 dirigida pela agenda e m\u00e9todo de conhecimento social dos poderes dominantes, que tomam o cidad\u00e3o como consumidor, em um mercado de opini\u00f5es formatadas de acordo com um card\u00e1pio preestabelecido por alguns interesses (sobre o tema, recomenda-se texto de Alana Moraes, Henrique Parra, Hugo Albuquerque, Jean Tible e Salvador Schavelzon, no\u00a0<a href=\"https:\/\/urucum.milharal.org\/2017\/04\/24\/a-periferia-contra-o-estado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">blog do Urucum<\/a>). A Frente Ampla n\u00e3o cometeu esse erro: a campanha focou-se em defender seu programa de mudan\u00e7as, com a convic\u00e7\u00e3o de que a perda de respaldo social \u00e0s reformas do governo Bachelet (por seu conte\u00fado e implementa\u00e7\u00e3o) n\u00e3o significava satisfa\u00e7\u00e3o com o modelo neoliberal, nem indisposi\u00e7\u00e3o para qualquer agenda transformadora. O foco n\u00e3o esteve tampouco em combater a \u201cofensiva conservadora\u201d \u2013 ajudando-a a pautar o debate pol\u00edtico \u2013, mas em promover uma agenda alternativa para o pa\u00eds. Enquanto isso, o candidato do bloco governista de centro-esquerda, Alejandro Guillier, optou por uma campanha \u201ccom muita tibieza\u201d, nas palavras de Constanza Schonh\u00e4ut. Para Nicol\u00e1s Grau, Guillier apresentou um programa com muitas indefini\u00e7\u00f5es, e \u201cmuito mais moderado que o de Bachelet, de 2013\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que Guillier terminou dois pontos \u00e0 frente, mas \u00e9 preciso considerar que a Frente Ampla tinha estrutura incomparavelmente menor e \u00e9 uma for\u00e7a rec\u00e9m-criada, ainda em vias de consolida\u00e7\u00e3o. Os mais de 20% dos votos de Beatriz S\u00e1nchez, junto \u00e0 bancada de 20 deputados(as) e um senador (resultado que ningu\u00e9m imaginava, nem as melhores proje\u00e7\u00f5es da pr\u00f3pria Frente, que eram de doze deputados), mostraram que a pol\u00edtica de defesa contundente de um programa transformador gerou mais resultados do que a ambiguidade calculada para n\u00e3o assustar eleitores. Beatriz foi uma candidata que defendeu abertamente, por exemplo, al\u00e9m da agenda de desmercantiliza\u00e7\u00e3o, justi\u00e7a tribut\u00e1ria e Assembleia Constituinte, a necessidade de legalizar o aborto; n\u00e3o consultou as pesquisas de opini\u00e3o para assumir essa posi\u00e7\u00e3o, em um pa\u00eds de fortes institui\u00e7\u00f5es conservadoras, e que s\u00f3 neste ano descriminalizou a interrup\u00e7\u00e3o da gravidez em situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, as mesmas h\u00e1 muito previstas na legisla\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de seu grande resultado geral, chamaram a aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m as altas vota\u00e7\u00f5es de Beatriz S\u00e1nchez em lugares como\u00a0<em>Puente Alto<\/em>, o bairro mais populoso de Santiago, com mais de 600 mil pessoas, de distintas fra\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora. Para Nicol\u00e1s Valenzuela Paterakis, um dos militantes que se dedica \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do n\u00facleo territorial da Frente Ampla nesse distrito, o resultado expressa a descren\u00e7a em amplos segmentos populares nas desgastadas promessas da Nova Maioria e a aposta por uma for\u00e7a pol\u00edtica antissistema, sem compromisso com as elites.<\/p>\n<p>O resultado das elei\u00e7\u00f5es apresentou outros dois dados, ali\u00e1s, em refor\u00e7o de uma tese que vem se estabelecendo pelo mundo: a de que, em \u00e9poca de crise global do capitalismo e de sua institucionalidade pol\u00edtica, reduz-se o espa\u00e7o para uma pol\u00edtica morna, e ganham for\u00e7a os antagonismos fortes. O partido centrista, Democracia Crist\u00e3, de longa tradi\u00e7\u00e3o no pa\u00eds (membro hist\u00f3rico da coaliz\u00e3o com a centro-esquerda, \u00e0 qual j\u00e1 se reintegrou, no segundo turno), teve vota\u00e7\u00e3o muito abaixo da esperada, menos de um ter\u00e7o da Frente Ampla (houve quem especulasse disputa parelha entre ambos). J\u00e1 o candidato da extrema-direita, pinochetista, alcan\u00e7ou o significativo e preocupante resultado de quase 8% dos votos.<\/p>\n<p><strong>7. Disputar a indigna\u00e7\u00e3o e o cansa\u00e7o com a pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>A Frente Ampla apresenta-se como uma for\u00e7a de confronta\u00e7\u00e3o ao sistema \u2013 do programa elaborado \u00e0 rebeldia da a\u00e7\u00e3o e \u00e0 irrever\u00eancia dos c\u00f3digos est\u00e9ticos: Gabriel Boric, eleito deputado independente em 2013, come\u00e7ou a gerar pol\u00eamica no Congresso j\u00e1 no dia da posse, quando se apresentou sem palet\u00f3 nem gravata. Repetiu-o ao longo de toda a legislatura, alegando que era preciso combater a cis\u00e3o entre pol\u00edtica e sociedade tamb\u00e9m na dimens\u00e3o simb\u00f3lica. Pela mesma raz\u00e3o, Giorgio Jackson e Gabriel\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=WuRi3YkD4n0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">apresentaram na C\u00e2mara dos Deputados<\/a>, em 2014, um projeto de redu\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio parlamentar em cerca de 50%, fixando-o em 20 sal\u00e1rios m\u00ednimos: argumentaram que \u00e9 necess\u00e1rio aproximar minimamente a renda dos deputados da realidade vivida pela maioria dos chilenos (mesmo com o corte, o sal\u00e1rio ainda permaneceria entre os mais altos do pa\u00eds). Todos os candidatos da Frente Ampla comprometeram-se a reduzir pela metade o sal\u00e1rio dos membros do Congresso, caso eleitos, e a limitar a apenas uma a possibilidade de reelei\u00e7\u00e3o para o mesmo cargo, tamb\u00e9m com o objetivo de gerar menos distanciamento entre pol\u00edtica e sociedade.<\/p>\n<p>O discurso frenteamplista n\u00e3o enfatiza tanto o tema da corrup\u00e7\u00e3o como, por exemplo, o Podemos da Espanha. A t\u00f4nica da campanha era no \u201c<em>poder de muchos<\/em>\u201d e no programa mencionado aqui. Mas o assunto tamb\u00e9m estava presente: Beatriz S\u00e1nchez falava em mudar o pa\u00eds de \u201cm\u00e3os limpas\u201d, e uma propaganda de TV foi dedicada ao assunto. Seu teor explicita uma abordagem que politiza o tema da corrup\u00e7\u00e3o, inserindo o antagonismo entre as m\u00e3os de muitos, de trabalhadores, de quem luta por direitos, com as m\u00e3os armadas que instalaram o golpe de 1973 e as m\u00e3os do poder econ\u00f4mico na pol\u00edtica: \u201cExistem muitas m\u00e3os que marcaram nossa hist\u00f3ria. M\u00e3os que deram tudo por nossa independ\u00eancia. As m\u00e3os que nos devolveram a riqueza do nosso cobre. Muitas m\u00e3os valentes que nos devolveram nossa democracia. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 m\u00e3os que se voltaram contra o Chile [imagens de militares, ao fundo]. M\u00e3os que financiam suas campanhas pedindo dinheiro aos seus inimigos [na tela, aperto de m\u00e3os de engravatados, enquanto se mostra o s\u00edmbolo da SQM, megaempresa da minera\u00e7\u00e3o envolvida com den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o eleitoral]. Enquanto isso as m\u00e3os de muitos seguem esperando as aposentadorias dignas que lhes prometeram, m\u00e3os que t\u00eam que esperar uma eternidade para um atendimento de sa\u00fade. \u00c9 hora das m\u00e3os limpas. Das m\u00e3os trabalhadoras, m\u00e3os sem medo de viver seu amor. Muitas m\u00e3os podem mudar as coisas. E aqui est\u00e3o as nossas, limpas e dispostas para construir o pa\u00eds que sonhamos\u201d.<\/p>\n<p>A mensagem, ent\u00e3o, \u00e9 a de que \u201cmuitas m\u00e3os podem mudar as coisas\u201d (coerente com a consigna principal da campanha, \u201co poder de muitos\u201d), a da radicaliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica como caminho para mudan\u00e7as \u2013 e n\u00e3o o de que a sa\u00edda consista na mera renova\u00e7\u00e3o de representantes corruptos por honestos. Trata-se, ademais, de um discurso que identifica a corrup\u00e7\u00e3o a uma l\u00f3gica sist\u00eamica, e atribui \u00e0s maiorias sociais \u00e0s \u201cm\u00e3os limpas\u201d, sem repetir a cantilena vira-lata, quase racista, de que os pol\u00edticos seriam corruptos porque a sociedade tamb\u00e9m o seria. Disputa-se, assim, o imagin\u00e1rio instalado no senso comum sobre \u201cm\u00e3os limpas\u201d, ao inv\u00e9s de simplesmente aderir a ele, ou, por outro lado, desprezar a import\u00e2ncia, eleitoral, estrat\u00e9gica e de princ\u00edpio, do combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o como mera degenera\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos, mas sistema para que os grandes atores econ\u00f4micos governem.<\/p>\n<p>Por fim, para enfrentar o cansa\u00e7o com a pol\u00edtica, a comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da Frente Ampla procurou envolver, emocionar, empolgar, divertir. Um exemplo primoroso de utiliza\u00e7\u00e3o de humor foram as duas propagandas (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=i-dhsiAfg-M\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">esta<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=y965_IkgNgI\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">esta<\/a>) de incentivo a que os eleitores fossem \u00e0s urnas, num pa\u00eds de voto facultativo. Em outras das pe\u00e7as publicit\u00e1rias, contaram-se hist\u00f3rias que despertavam empatia e sentimentos de indigna\u00e7\u00e3o e solidariedade, projetavam outro futuro poss\u00edvel, ou mesmo evocavam o v\u00ednculo coletivo dos chilenos com sua sele\u00e7\u00e3o de futebol (a partir de 2 mim,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Svy1_6Dhk28\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>, fazendo eco a um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=QnJiLbSu9j8\">v\u00eddeo do movimento estudantil<\/a>\u00a0de chamado \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es, de 2013). A pr\u00f3pria Beatriz S\u00e1nchez tamb\u00e9m encarnou um estilo de comunica\u00e7\u00e3o direto, contundente, capaz de interpelar, mas ao mesmo tempo de transmitir calor humano e sensa\u00e7\u00e3o de proximidade. Chegou a ser criticada por setores da imprensa, durante a campanha, por n\u00e3o ter um perfil tecnocrata; al\u00e9m de seu bom preparo para o debate, entretanto, seu grande trunfo estava na capacidade de transmitir a indigna\u00e7\u00e3o e a esperan\u00e7a transformadora de amplas camadas da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Frente Ampla tem limites e fragilidades, n\u00e3o \u00e9 o caso de idealiz\u00e1-lo \u2013 nem tampouco de supor que sua dimens\u00e3o eleitoral ser\u00e1 suficiente para conduzir o pa\u00eds a mudan\u00e7as de f\u00f4lego. O mais importante, no entanto, \u00e9 reconhecer e aprender com a pot\u00eancia dessa experi\u00eancia, que se insere em um circuito global de novas for\u00e7as de esquerda, a partir do percurso pr\u00f3prio de uma combativa e criativa gera\u00e7\u00e3o chilena.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"Bdu8VLSOJE\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/frente-ampla-assim-o-chile-trama-outra-politica\/\">Frente Ampla: assim o Chile trama outra pol\u00edtica<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Frente Ampla: assim o Chile trama outra pol\u00edtica&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/frente-ampla-assim-o-chile-trama-outra-politica\/embed\/#?secret=YJ1dg5jTDH#?secret=Bdu8VLSOJE\" data-secret=\"Bdu8VLSOJE\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Tel\u00e9sforo &#8211;\u00a0Programa claro e mobiliza\u00e7\u00e3o permanente: em novembro, \u00e0s v\u00e9speras das elei\u00e7\u00f5es, a Frente Ampla participa de manifesta\u00e7\u00e3o gigante \u2014 convocada pelo movimento No+AFP \u2014 por um novo sistema de aposentadorias, solid\u00e1rio, p\u00fablico e distributivo. 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