{"id":6693,"date":"2018-01-07T15:29:37","date_gmt":"2018-01-07T17:29:37","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=6693"},"modified":"2018-01-06T10:37:50","modified_gmt":"2018-01-06T12:37:50","slug":"agamben-profanar-a-democracia-representativa%ef%bb%bf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/01\/07\/agamben-profanar-a-democracia-representativa%ef%bb%bf\/","title":{"rendered":"Agamben: profanar a Democracia Representativa\ufeff"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fran Alavina &#8211;\u00a0<\/strong>A quem interessa sacralizar um sistema que j\u00e1 n\u00e3o representa ningu\u00e9m, sen\u00e3o o poder financeiro \u2014 ou o Deus convertido em Dinheiro, segundo notou o fil\u00f3sofo?<\/p>\n<p>Este texto dialoga com a s\u00e9rie de v\u00eddeos de\u00a0Outras Palavras, nos quais Antonio Martins prop\u00f5e e instiga que pensemos novos recursos democr\u00e1ticos que rompam com a farsa da representa\u00e7\u00e3o. Aqui, nos integramos a este debate pensando a partir da filosofia de Giorgio Agamben.<\/p>\n<p>\u201cDeus n\u00e3o morreu. Ele tornou-se dinheiro\u201d. Esta j\u00e1 c\u00e9lebre afirma\u00e7\u00e3o de Giorgio Agamben nos d\u00e1 uma amostra expressiva de como seu trabalho de pensamento explicita a fun\u00e7\u00e3o religiosa do capitalismo: a viol\u00eancia do discurso economicista que se apresenta como dogma e a mistifica\u00e7\u00e3o do sacrif\u00edcio subsumido no discurso da meritocracia. Tal aspecto, de descer \u00e0s estruturas do modo de pensar religioso e teol\u00f3gico a fim de se pensar o pol\u00edtico n\u00e3o \u00e9 algo perif\u00e9rico na filosofia de Aganbem.<\/p>\n<p>Por exemplo, na obra\u00a0Profana\u00e7\u00f5es\u00a0(Boitempo, 2007), que re\u00fane preciosos artigos e ensaios, observa-se um movimento comum em suas obras filos\u00f3ficas. O autor centra sua reflex\u00e3o na g\u00eanese de um\u00a0termo-conceitoaparentemente apenas \u201cteol\u00f3gico\u201d, o de\u00a0profana\u00e7\u00e3o, para dele pensar o pol\u00edtico. N\u00e3o se trata tanto de um simples movimento te\u00f3rico de invers\u00e3o, de fazer um termo passar do\u00a0sacro\u00a0ao\u00a0profano\u00a0como \u00e9 comum nas an\u00e1lises t\u00edpicas de uma seculariza\u00e7\u00e3o mal justificada do pensamento. Trata-se de compreender o sentido gen\u00e9tico do termo e as intercess\u00f5es entre o teol\u00f3gico e o pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Agamben nos mostra, com seu procedimento gen\u00e9tico, que o sentido do termo\u00a0profanar\u00a0\u00e9, antes de tudo, jur\u00eddico. Isto nos \u00e9 dito no ensaio que d\u00e1 t\u00edtulo ao livro:\u00a0Elogio da Profana\u00e7\u00e3o. Se o\u00a0consagrar\u00a0\u00e9 o ato de tornar algo sagrado, isto \u00e9, o isolar no c\u00edrculo simb\u00f3lico do religioso, separando do uso ordin\u00e1rio das coisas, o\u00a0profanar\u00a0n\u00e3o equivale tanto tornar impuro, mas a restituir aos homens isto que antes havia sido isolado, retirado do uso comum. Por isso, o sentido original da palavra possui um aspecto positivo, e n\u00e3o negativo; afastado, portanto, daquilo que hoje o termo significa.<\/p>\n<p>Nesse aspecto, profanar \u00e9 a restitui\u00e7\u00e3o de algo que antes fora expropriado, revers\u00e3o da expropria\u00e7\u00e3o que torna poss\u00edvel um uso comum. A profana\u00e7\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio de desmonte da separa\u00e7\u00e3o, do isolamento e de uma suposta singularidade inacess\u00edvel que empresta a aura de sagrado \u00e0s coisas, aos gestos e mesmo aos lugares, pois tudo aquilo que se quer fora do comum da vida hodierna sup\u00f5e um lugar particular que possa preservar a \u201csacralidade\u201d, retirando do f\u00e1cil acesso cotidiano. As coisas n\u00e3o s\u00e3o isoladas por divinas, mas divinas por serem isoladas, apartadas. \u00c9 o gesto de isolamento que as institui como algo diferente, raro e de dif\u00edcil acesso.<\/p>\n<p>Ademais, por se tratar de um gesto pol\u00edtico de restitui\u00e7\u00e3o, de tomada daquilo que sendo comum fora violentado pelo uso restrito de alguns,\u00a0a profana\u00e7\u00e3o n\u00e3o se identifica com a seculariza\u00e7\u00e3o. Secularizar sup\u00f5e que algo antes sagrado, divino, por isso extraordin\u00e1rio, \u00e9 despido de sua imposta\u00e7\u00e3o divina para tornar-se humano. Ou seja, reconhece que aquilo que se seculariza possu\u00eda, antes, um estatuto diferenciado; enquanto na profana\u00e7\u00e3o este estatuto diferenciado \u00e9 negado por princ\u00edpio, pois na g\u00eanese est\u00e1 o comum. Secularizar \u00e9 instituir, profanar \u00e9 restituir.<\/p>\n<p>Aqui, nosso leitor, que nunca tenha lido uma linha de Agamben, pode estar se perguntando: mais qual a rela\u00e7\u00e3o disto com nosso atual quadro pol\u00edtico? Ora, os sistemas de democracia representativa passaram e ainda passam por um processo de diviniza\u00e7\u00e3o e mistifica\u00e7\u00e3o.\u00a0A Representa\u00e7\u00e3o tomou o lugar da Democracia, como a parte que toma o lugar do todo em uma meton\u00edmia desajustada. Um dos meios dos processos democr\u00e1ticos foi isolado, como se a ess\u00eancia da Democracia se resumisse aos pleitos eleitorais, e apenas em fun\u00e7\u00e3o deles existisse.<\/p>\n<p>Assim, a democracia representativa \u201csacralizou\u201d-se, tornou-se intoc\u00e1vel, algo que n\u00e3o pode ser removido, ou sequer modificado. Falar contra ela, apontar seus defeitos, pensar uma forma de Democracia que rompa com a farsa da representa\u00e7\u00e3o seria profan\u00e1-la. Mas \u00e9 disto mesmo que se trata: profanar a representa\u00e7\u00e3o para restituir a democracia, tir\u00e1-la da separa\u00e7\u00e3o entre os pol\u00edticos profissionais e o homem comum, retir\u00e1-la dos espa\u00e7os apartadores das institui\u00e7\u00f5es que funcionam n\u00e3o com base no comum, mas para manuten\u00e7\u00e3o do privil\u00e9gio de alguns. A quem interessa sacralizar este sistema representativo que n\u00e3o representa ningu\u00e9m, sen\u00e3o o poder financeiro \u2014 de fato, o \u00fanico representado? A democracia representativa n\u00e3o \u00e9 mais democracia, mas sim plutocracia. \u00c9 preciso profan\u00e1-la para restitu\u00ed-la ao comum, pois a ess\u00eancia democr\u00e1tica que se assenta na igualdade do comum \u00e9 ferida pelo princ\u00edpio da representa\u00e7\u00e3o que separa aqueles que t\u00eam vozes nas institui\u00e7\u00f5es daqueles que, ainda que falem e gritem, nunca s\u00e3o ouvidos. A Democracia isola eleitores e escolhidos como est\u00e3o isolados no templo religioso o sacerdote no altar e o resto dos fi\u00e9is.<\/p>\n<p>Quem nunca escutou a frase: \u201cA Democracia \u00e9 Sagrada\u00a0(!)\u201d? Pens\u00e1-la desse modo, tendo em mente a preserva\u00e7\u00e3o do sistema representativo atual, \u00e9 pens\u00e1-la de modo m\u00edtico, \u00e9 operar uma revers\u00e3o de sentido que a coloca fora de seu registro natural: aquele das coisas pr\u00f3ximas e nossas. A democracia n\u00e3o \u00e9 sagrada, \u00e9 profana; n\u00e3o \u00e9 pura, feita por escolhidos; ela \u00e9 impura, e se suja com o p\u00f3 do caminho de suas reinven\u00e7\u00f5es. A g\u00eanese da Democracia, como nos mostraram os gregos, n\u00e3o est\u00e1 no \u00e2mbito das coisas extraordin\u00e1rias, pelo contr\u00e1rio, ela deve ocorrer no comum da vida banal. A Democracia \u00e9 gesto inconcluso, que se faz e se refaz, e se reinventa somente quando caminha na via para ser: direta, nossa, comum, sem diferen\u00e7as entre outorgantes e outorgados, entre os que fazem e os que \u201cassistem\u201d.<\/p>\n<p>Todavia, para que isso comece a ser pensado como poss\u00edvel, \u00e9 preciso, antes de tudo, se desfazer do cabedal\u00a0teol\u00f3gico-pol\u00edtico\u00a0que est\u00e1 enraizado na vida nacional. A bancada da B\u00edblia n\u00e3o se resume aos confessos e representantes de igrejas, ela est\u00e1 muito al\u00e9m dos deputados pastores. Nela podem se inserir mesmo aqueles que se dizem laicos, mas que pensam a democracia ao modo teol\u00f3gico-pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, do que se possa pensar \u00e0 esquerda, o esquema teol\u00f3gico-pol\u00edtico n\u00e3o faz acep\u00e7\u00e3o de lado: pode se apresentar tanto \u00e0 direita, quanto \u00e0 esquerda. H\u00e1 um exemplo claro de teol\u00f3gico-pol\u00edtico \u00e0 esquerda proferido cotidianamente nos \u00faltimos dias, e em tons prof\u00e9ticos. Trata-se do messianismo de parte da esquerda em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 candidatura de Lula em 2018. Vaticinada na afirma\u00e7\u00e3o de que apenas a \u201csua volta \u00e0 presid\u00eancia poder\u00e1 restaurar a Democracia\u201d. Pensar dessa maneira \u00e9 incorrerr no pensamento m\u00e1gico e tentar esconder as mazelas de um sistema representativo carcomido que n\u00e3o poder\u00e1 ser refeito pelas a\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas de um, independentemente de suas qualidades. Valendo-se da ca\u00e7ada que \u00e9 feita ao ex-presidente, os que proferem esse discurso, cada vez mais se utilizam da mitifica\u00e7\u00e3o de um passado recente, como se somente sua volta restaurasse um reino de prosperidade. Este retorno n\u00e3o significar\u00e1 nada se tudo voltar a ser como antes: ao contr\u00e1rio, poder\u00e1 tornar o problema ainda maior.<\/p>\n<p>Este pensamento m\u00e1gico \u00e0 esquerda \u00e9 a outra face do pensamento m\u00e1gico cada vez mais assumido pela direita: a de que a restaura\u00e7\u00e3o da legitimidade de um sistema deslegitimado se dar\u00e1 com a assun\u00e7\u00e3o dos ditos \u201cn\u00e3o pol\u00edticos\u201d, aqueles \u201chomens puros\u201d, com aur\u00e9olas midi\u00e1ticas, que nunca se contaminaram com as impurezas da pol\u00edtica: s\u00e3o apresentados e se apresentam como vestais. Trata-se de um curto circuito do pensamento l\u00f3gico: afirmar que os \u201cn\u00e3o pol\u00edticos\u201d podem restaurar a confian\u00e7a na pol\u00edtica \u00e9 o mesmo que crer que um n\u00e3o m\u00e9dico \u00e9 o mais habilitado para come\u00e7ar o tratamento de uma doen\u00e7a grave. A farsa, que \u00e9 tamb\u00e9m a perversidade dos \u201cn\u00e3o pol\u00edticos\u201d, est\u00e1 em usar a rejei\u00e7\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o para descart\u00e1-la, mas para se apropriar desse sentimento e manter tudo como est\u00e1. N\u00e3o \u00e9 por outra raz\u00e3o que uma das mais carcomidas caricaturas do nosso sistema representativo \u2013 FHC \u2013 esteja a incensar os novos, os \u201cn\u00e3o pol\u00edticos\u201d: o apresentador global e o prefeito gestor de imagens.<\/p>\n<p>Este pensamento teol\u00f3gico-pol\u00edtico que sacraliza personifica\u00e7\u00f5es hipostasiadas da representa\u00e7\u00e3o se faz sentir tamb\u00e9m no discurso acerca de seu rito legitimador: as elei\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 por outro motivo que a m\u00eddia hegem\u00f4nica chama as elei\u00e7\u00f5es do sistema representativo de \u201cfesta da democracia\u201d. Tal express\u00e3o d\u00e1 o sentido teol\u00f3gico-pol\u00edtico de como se concebe o gesto de escolha: entre as onerosas ocupa\u00e7\u00f5es da vida normal, h\u00e1 um dia em que se concede, como que por d\u00e1diva divina, ocorrer algo extraordin\u00e1rio: votar. Depois daquele dia \u00fanico e extraordin\u00e1rio, por se tratar de uma festa, tudo volta ao normal, de modo que o \u201cdia da democracia\u201d est\u00e1 separado do restante dos dias, como estar\u00e3o separados os que escolhem e os seus escolhidos.<\/p>\n<p>Em tempos de golpe nunca se repetiu tanto a palavra\u00a0Democracia: seu uso indiscriminado entre reacion\u00e1rios e progressistas \u2013 na boca de golpeadores e golpeados \u2013 mostra o quanto o termo se desgastou. \u00c9 claro que o sentido do termo n\u00e3o \u00e9 o mesmo para os dois lados; mas a possibilidade de que na boca de reacion\u00e1rios e nos ouvidos de seus respectivos seguidores o termo possa fazer algum sentido prova seu esgar\u00e7amento. O termo tornou-se uma simples pe\u00e7a ret\u00f3rica de sentido confuso porque o nome n\u00e3o corresponde mais \u00e0 coisa, nem a coisa ao nome.<\/p>\n<p>O que hoje vemos por baixo do termo Democracia nada mais \u00e9 que seu oposto mais contradit\u00f3rio. Em nome da Democracia se exerce o julgo impiedoso do autoritarismo, a imposi\u00e7\u00e3o, a farsa, em suma: n\u00e3o a liberdade, mas a opress\u00e3o. Tudo que \u00e9 antidemocr\u00e1tico hoje \u00e9 poss\u00edvel de caber nos regimes democr\u00e1ticos, em muitos casos sem maiores problemas, porque a Democracia j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais ela mesma, por\u00e9m a sua encena\u00e7\u00e3o consumada no teatro da representa\u00e7\u00e3o. Em um teatro de enredo \u00fanico, com trama asfixiante onde se encenam trag\u00e9dias reais, t\u00e3o reais que mesmo os momentos c\u00f4micos nada mais s\u00e3o que a face mais perversa da tragicidade.<\/p>\n<p>Se no momento hist\u00f3rico em que se gestavam os regimes democr\u00e1ticos de hoje falou-se que o\u00a0rei estava nu, agora \u00e9 poss\u00edvel afirmar que a\u00a0representa\u00e7\u00e3o est\u00e1 nua: a vemos como ela \u00e9, eivada de contradi\u00e7\u00f5es, paradoxalmente despida por aqueles que com ela se vestem. Por isso, toda tentativa de reforma da Democracia que mantenha a atual vers\u00e3o representativa ser\u00e1 remendo de pano novo em roupa velha. N\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7os para meras reformas, \u00e9 preciso, de fato, reinvent\u00e1-la, recri\u00e1-la: em outros termos, \u00e9 preciso profan\u00e1-la. Somente quando profanado o sistema representativo, os escolhidos deixar\u00e3o de constituir a casta de hoje, e n\u00f3s deixaremos de ser os p\u00e1rias.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"DmQyCAWecf\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/sem-categoria\/dialogo-com-agamben-profanar-a-democracia-representativa\/\">Agamben: profanar a Democracia Representativa<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Agamben: profanar a Democracia Representativa&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/sem-categoria\/dialogo-com-agamben-profanar-a-democracia-representativa\/embed\/#?secret=uXxHLQI4PY#?secret=DmQyCAWecf\" data-secret=\"DmQyCAWecf\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fran Alavina &#8211;\u00a0A quem interessa sacralizar um sistema que j\u00e1 n\u00e3o representa ningu\u00e9m, sen\u00e3o o poder financeiro \u2014 ou o Deus convertido em Dinheiro, segundo notou o fil\u00f3sofo? 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