{"id":6630,"date":"2018-01-04T12:21:37","date_gmt":"2018-01-04T14:21:37","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=6630"},"modified":"2018-01-02T18:25:05","modified_gmt":"2018-01-02T20:25:05","slug":"pureza-e-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/01\/04\/pureza-e-poder\/","title":{"rendered":"PUREZA E PODER"},"content":{"rendered":"<p><strong>ANTONIO ENGELKE<\/strong> &#8211;\u00a0Os paradoxos da pol\u00edtica identit\u00e1ria. Se os argumentos forem avaliados a partir da \u201cpureza\u201d de quem fala, em detrimento da sua validade ou consist\u00eancia interna, ent\u00e3o os pr\u00f3prios discursos subalternos podem perder for\u00e7a<\/p>\n<p>Quem acompanha as redes sociais no Brasil de hoje provavelmente j\u00e1 se deparou com a g\u00edria \u201clacrar\u201d. Dizer que fulano \u201clacrou\u201d \u00e9 expressar admira\u00e7\u00e3o por uma a\u00e7\u00e3o ou fala que \u00e9 percebida como o ponto final, a \u00faltima palavra sobre um determinado assunto ou situa\u00e7\u00e3o. Depois que algu\u00e9m \u201clacrou\u201d, supostamente nada resta a ser dito.<\/p>\n<p>\u00c9 uma imagem que diz muito, em particular sobre o momento pol\u00edtico em que vivemos. Como toda met\u00e1fora, al\u00e9m de iluminar um determinado aspecto da experi\u00eancia, a ideia de \u201clacre\u201d tamb\u00e9m ajuda a refor\u00e7ar certas compreens\u00f5es e comportamentos. Ao acion\u00e1-la, refor\u00e7amos a ideia de que debates, em princ\u00edpio, admitem um fechamento irrevog\u00e1vel, e n\u00e3o s\u00e3o desprez\u00edveis as consequ\u00eancias disso para as discuss\u00f5es concretas de que venhamos a tomar parte.<\/p>\n<p>Mas nada justifica essa cren\u00e7a. Debate algum pode ser encerrado por for\u00e7a de um argumento supostamente \u00faltimo. As constantes mudan\u00e7as pol\u00edticas e comportamentais s\u00e3o prova disso. Tome-se o caso de grupos subalternos \u2013 negros, gays, mulheres \u2013, que historicamente tiveram a voz anulada, deslegitimada, e hoje conseguem se fazer representar na esfera p\u00fablica, ainda que as assimetrias persistam. Por isso mesmo n\u00e3o deixa de ser curioso que a met\u00e1fora do lacre prospere precisamente entre movimentos pol\u00edticos que t\u00eam nas identidades de g\u00eanero, ra\u00e7a e orienta\u00e7\u00e3o sexual sua raz\u00e3o de ser.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata aqui de generalizar, de dizer que todo ativista identit\u00e1rio seja um \u201clacrador\u201d de debates \u2013 ali\u00e1s, n\u00e3o s\u00e3o poucas as vozes dentro dos pr\u00f3prios movimentos identit\u00e1rios a criticar a postura que acompanha a met\u00e1fora. Ademais, \u00e9 fato que o termo conquistou um sentido que ultrapassa o campo da pol\u00edtica (pode-se \u201clacrar\u201d ao usar uma roupa bonita numa festa). Contudo, a frequ\u00eancia com que a met\u00e1fora \u00e9 empregada pode ter algo a nos dizer n\u00e3o apenas acerca do repert\u00f3rio de cren\u00e7as e a\u00e7\u00f5es da pol\u00edtica identit\u00e1ria, mas tamb\u00e9m sobre como esse repert\u00f3rio se coaduna com a paisagem mais ampla da pol\u00edtica contempor\u00e2nea, a despeito da declarada inten\u00e7\u00e3o, por parte desses movimentos, de subverter essa mesma paisagem.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil exagerar a dimens\u00e3o e a import\u00e2ncia das transforma\u00e7\u00f5es que os movimentos sociais baseados em identidades v\u00eam colocando no mundo. Talvez por isso mesmo seja igualmente dif\u00edcil criticar alguns dos alicerces sobre os quais esses movimentos t\u00eam, cada vez mais, se apoiado \u2013 como, por exemplo, as no\u00e7\u00f5es de \u201clugar de fala\u201d e \u201capropria\u00e7\u00e3o cultural\u201d. Tampouco \u00e9 simples examinar a tens\u00e3o existente entre, de um lado, a ado\u00e7\u00e3o de posturas combativas, de enfrentamento, por parte da milit\u00e2ncia identit\u00e1ria, e, de outro, a necessidade de convencer poss\u00edveis interlocutores da raz\u00e3o de seus argumentos \u2013 dialogando, valendo-se de esfor\u00e7os \u201ceducativos\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 essa a tarefa a que me proponho neste texto: observar os paradoxos de uma pr\u00e1tica pol\u00edtica que tem exigido, com raz\u00e3o, a radicaliza\u00e7\u00e3o da ideia de democracia, mas que talvez esteja somando for\u00e7as \u00e0 crescente onda de contesta\u00e7\u00e3o a alguns dos pressupostos dos regimes democr\u00e1ticos \u2013 ataques que v\u00eam tanto da direita quanto da esquerda, de l\u00edderes populistas e de cr\u00edticos das insufici\u00eancias da pol\u00edtica representativa, de representantes da elite e do \u201cmercado\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">V<\/span>ejamos a no\u00e7\u00e3o de \u201clugar de fala\u201d. Grosso modo, seu intuito \u00e9 chamar a aten\u00e7\u00e3o para quem fala, de onde fala, e n\u00e3o somente para o que est\u00e1 sendo dito. Isto \u00e9, a no\u00e7\u00e3o de lugar de fala surgiu para afirmar que o conte\u00fado de um discurso n\u00e3o pode ser avaliado apenas em si mesmo, sem que observemos as condi\u00e7\u00f5es materiais e simb\u00f3licas de sua enuncia\u00e7\u00e3o. Trata-se de tornar vis\u00edveis os mecanismos atrav\u00e9s dos quais certos discursos parecem naturalmente dotados de autoridade, enquanto outros permanecem tacitamente relegados ao descr\u00e9dito. N\u00e3o \u00e9 pouca coisa: a no\u00e7\u00e3o de lugar de fala abre um espa\u00e7o ao pensamento e \u00e0 a\u00e7\u00e3o no sentido de questionar privil\u00e9gios e identificar as formas de reprodu\u00e7\u00e3o de assimetrias de poder e hierarquiza\u00e7\u00e3o de vozes.<\/p>\n<p>No debate contempor\u00e2neo, entretanto, a no\u00e7\u00e3o de lugar de fala ganhou um sentido diverso. Ela agora tem por base a cren\u00e7a de que a viv\u00eancia, a experi\u00eancia pessoal do sujeito, fundamenta\u00a0<em>exclusivamente<\/em>\u00a0a compreens\u00e3o. \u201cN\u00e3o te cabe julgar uma realidade que voc\u00ea n\u00e3o vive\u201d, decreta um meme que viralizou nas redes sociais. O argumento tem um fundo de verdade; pressup\u00f5e, entretanto, uma rela\u00e7\u00e3o inequ\u00edvoca entre experi\u00eancia e compreens\u00e3o. Mas viv\u00eancia n\u00e3o implica automaticamente entendimento, como Freud sabia j\u00e1 no s\u00e9culo XIX, quando examinava a incapacidade de neur\u00f3ticos e hist\u00e9ricos perceberem de maneira esclarecida o pr\u00f3prio sofrimento. A experi\u00eancia \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, mas n\u00e3o suficiente, para o conhecimento. H\u00e1 sempre um hiato entre aquilo que experimentamos e o modo como lhe conferimos inteligibilidade: nenhuma experi\u00eancia constitui por si s\u00f3 uma hist\u00f3ria acabada, apenas oferece elementos a partir dos quais podemos tecer sua significa\u00e7\u00e3o. Paradoxalmente, a experi\u00eancia pode ser ao mesmo tempo uma condi\u00e7\u00e3o para o conhecimento e um obst\u00e1culo \u00e0 sua obten\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 tamb\u00e9m o excesso de proximidade ou familiaridade que introduz problemas \u00e0 nossa capacidade de compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>Submetida a essa tor\u00e7\u00e3o, que transforma viv\u00eancia pessoal em sin\u00f4nimo de conhecimento absoluto, a no\u00e7\u00e3o de lugar de fala vem sendo empregada como lastro da pretens\u00e3o ao monop\u00f3lio da legitimidade do discurso. Evidente deslizamento: o que era antes um instrumento de questionamento do discurso, e que poderia eventualmente dar ensejo a uma reivindica\u00e7\u00e3o de autoridade sobre uma determinada quest\u00e3o, mas sem com isso excluir o reconhecimento da validade de outras perspectivas, transforma-se numa esp\u00e9cie de selo de garantia de um \u00fanico discurso leg\u00edtimo poss\u00edvel, cujo mero questionamento constituiria uma impropriedade. Longe de superar os termos do poder estabelecido, tal expediente apenas os reproduz com sinal invertido: se antes os grupos hegem\u00f4nicos se valiam de uma pretens\u00e3o universalista para afirmar a incapacidade do subalterno de representar a si pr\u00f3prio, pois que lhe faltaria a objetividade ou a neutralidade cient\u00edfica necess\u00e1rias, agora subalternos recorrem ao essencialismo particularista para negar a outrem a legitimidade do que quer que tenham a dizer sobre eles. N\u00e3o estou sugerindo que sejam h\u00e1bitos de pensamento equivalentes; mas s\u00e3o ambos verticais, herdeiros de uma moldura cognitiva hier\u00e1rquica, predisposta \u00e0 ades\u00e3o a respostas imediatas.<\/p>\n<p>O operador dessa transforma\u00e7\u00e3o parece ter sido a articula\u00e7\u00e3o entre o conceito de lugar de fala e uma concep\u00e7\u00e3o bastante particular do modo como o poder lhe estaria imbricado. Trata-se de um argumento formalista que procura estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o direta e inescap\u00e1vel entre as hierarquias sociais e os efeitos de verdade que delas decorrem. \u201cA constata\u00e7\u00e3o desses diferentes efeitos de verdade que variam segundo o lugar de fala\u201d, escreve o professor da USP\u00a0Pablo Ortellado num texto esclarecedor sobre o significado do conceito, \u201cfaz com que um discurso cr\u00edtico sobre a condi\u00e7\u00e3o subalterna da mulher, quando enunciado por um homem, entre numa esp\u00e9cie de contradi\u00e7\u00e3o performativa \u2013 como se ele negasse, na pr\u00e1tica, o seu conte\u00fado. Isso acontece porque o discurso feminista enunciado pelo homem pressup\u00f5e, e implicitamente referenda, a hierarquia dos efeitos de verdade que d\u00e1 mais autoridade ao homem do que \u00e0 mulher.\u201d<sup>[1]<\/sup><\/p>\n<p>A l\u00f3gica do argumento \u00e9 inatac\u00e1vel. Talvez por isso mesmo, por ser t\u00e3o persuasiva, ela contribua inadvertidamente para o apagamento da distin\u00e7\u00e3o entre os diversos tipos de intera\u00e7\u00e3o com o outro. Falar\u00a0<em>pelo<\/em>\u00a0subalterno \u00e9 ato carregado de viol\u00eancia simb\u00f3lica e, a despeito das inten\u00e7\u00f5es do enunciador, exemplifica em toda sua for\u00e7a essa contradi\u00e7\u00e3o performativa mencionada por Ortellado. Falar\u00a0<em>do<\/em>\u00a0subalterno sup\u00f5e um distanciamento anal\u00edtico que pode variar desde uma perspectiva cr\u00edtica esclarecida sobre o outro \u2013 a esquerda materialista argumentando que a pol\u00edtica de identidades dificulta o reestabelecimento da solidariedade de classe, por exemplo \u2013, at\u00e9 uma postura abertamente hostil, como o comentarista de internet que descarta com impaci\u00eancia o debate sobre apropria\u00e7\u00e3o cultural, caracterizando-o como mera frescura. Por fim, falar\u00a0<em>com<\/em>\u00a0o subalterno pressup\u00f5e aquilo que o fil\u00f3sofo Hans-Georg Gadamer chamava de fus\u00e3o de horizontes, uma compreens\u00e3o advinda da amplia\u00e7\u00e3o de nosso horizonte cognitivo em fun\u00e7\u00e3o de uma abertura para o outro, uma disposi\u00e7\u00e3o de se deixar afetar pelo outro, embora ciente de que a qualidade dessa compreens\u00e3o jamais far\u00e1 jus \u00e0 realidade por ele vivida.<\/p>\n<p>Essas distin\u00e7\u00f5es muitas vezes deixam de ser percebidas no uso corrente da no\u00e7\u00e3o de \u201clugar de fala\u201d. A recusa em manter-se perme\u00e1vel \u00e0s trocas desse \u00faltimo tipo de intera\u00e7\u00e3o, seja por incapacidade de distingui-lo dos demais, ou pela convic\u00e7\u00e3o de que o interlocutor est\u00e1 t\u00e3o somente referendando o pr\u00f3prio lugar de fala durante o di\u00e1logo, sinaliza o fechamento autorreferido do indiv\u00edduo ou grupo subalterno em torno de si mesmo.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre dizer que o poder importa (para o discurso), e dizer que o poder \u00e9 tudo o que importa (no discurso). Interrogar as condi\u00e7\u00f5es de possibilidade e efeitos de verdade do discurso \u00e9 uma coisa; outra, totalmente distinta, \u00e9 o descarte autom\u00e1tico de argumentos apenas em fun\u00e7\u00e3o do lugar de fala de quem o enuncia. Tal descarte sup\u00f5e a redu\u00e7\u00e3o do discurso ao elemento de poder que o atravessa e constitui. Quando certas feministas afirmam que homem algum poderia ter qualquer coisa a acrescentar ao feminismo, o substrato dessa afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas que a falta de viv\u00eancia condenaria o discurso masculino ao erro; \u00e9 que o efeito desse discurso s\u00f3 poderia ser o de conservar o poder do lugar de fala dos homens. Mas esvaziar completamente o conte\u00fado substantivo do discurso, de modo a reduzi-lo a uma quest\u00e3o formal de poder de quem o enuncia, \u00e9 um tiro no p\u00e9.<\/p>\n<p>Se o poder \u00e9 o princ\u00edpio e o fim do discurso, se os argumentos devem ser avaliados n\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o de sua validade ou consist\u00eancia interna, mas levando-se em considera\u00e7\u00e3o somente as rela\u00e7\u00f5es de poder que envolvem seus autores, ent\u00e3o os pr\u00f3prios discursos subalternos perdem for\u00e7a, na medida em que podem ser vistos como mera ferramenta pol\u00edtica na luta por poder, e n\u00e3o como um conjunto de reivindica\u00e7\u00f5es cuja validade intr\u00ednseca obrigaria ao reconhecimento por qualquer humanista que se queira digno do nome. Dito de outro modo: as lutas contra o racismo, o machismo e a homofobia correm o risco de perder boa parte de sua for\u00e7a se forem enquadradas e compreendidas n\u00e3o como pressupostos civilizacionais, mas como movimentos estrat\u00e9gicos da batalha pela redistribui\u00e7\u00e3o do poder.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">A<\/span>o fazer da viv\u00eancia pessoal um sin\u00f4nimo autom\u00e1tico de conhecimento de causa e usar esse conhecimento como esteio da reivindica\u00e7\u00e3o do monop\u00f3lio da legitimidade do discurso, a pol\u00edtica identit\u00e1ria assume o ideal de pureza como um dos fundamentos de sua a\u00e7\u00e3o. Postura tautol\u00f3gica: somente os puros podem falar, e sua fala \u00e9 v\u00e1lida justamente porque falada por puros. N\u00e3o \u00e9 trivial, para dizer o m\u00ednimo, estipular o local onde come\u00e7a e termina essa pureza. A linha que separa a \u201cverdadeira\u201d perten\u00e7a a uma identidade sempre poder\u00e1 ser convenientemente movida ao sabor da satisfa\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rios atribu\u00eddos a uma suposta ess\u00eancia, que, como toda ess\u00eancia, nunca pode ser localizada, somente inventada. Assim, a no\u00e7\u00e3o de lugar de fala converte-se num cavalo de batalha, um \u201csupertrunfo\u201d acionado de acordo com a necessidade de uma demarca\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria de fronteiras que separariam um \u201cn\u00f3s\u201d leg\u00edtimo de um \u201celes\u201d desautorizado a falar.<\/p>\n<p>A\u00a0<em>realpolitik<\/em>, entretanto, se encarrega de borrar essas fronteiras, de conspurcar o ideal de pureza que lhes subjazem. Considere o caso do vereador paulistano Fernando Holiday, do Democratas. Negro, homossexual, filho de um gar\u00e7om e uma auxiliar de enfermagem, Holiday \u00e9 um dos coordenadores nacionais do Movimento Brasil Livre, o MBL. Cr\u00edtico do que afirma ser \u201cvitimismo\u201d de grupos subalternos, Holiday \u00e9 contra pol\u00edticas de cotas raciais, por entender que estimulam o racismo. \u00c9 igualmente contr\u00e1rio ao Dia Nacional da Consci\u00eancia Negra, bem como \u00e0 Secretaria Municipal de Promo\u00e7\u00e3o da Igualdade Racial de S\u00e3o Paulo, que, na sua vis\u00e3o, n\u00e3o contribui para combater o racismo ou a homofobia, servindo apenas como cabide de empregos que sustentam discursos preconceituosos e segregacionistas.<\/p>\n<p>J\u00e1 se v\u00ea o curto-circuito: grupos subalternos t\u00eam a expectativa de que determinadas viv\u00eancias engendrem vis\u00f5es do mundo, em geral progressistas, cujos valores lhes sejam aderentes. Ocorre que, na verdade, mais da metade da popula\u00e7\u00e3o brasileira concorda com a afirma\u00e7\u00e3o \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d, segundo uma pesquisa Datafolha divulgada no final do ano passado, e 79% eram contra a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, de acordo com o Ibope, em levantamento de 2014 (a estat\u00edstica n\u00e3o contemplava o corte por g\u00eanero, mas 79% \u00e9 um n\u00famero alto demais para imaginar que apenas homens desaprovam o aborto). N\u00e3o s\u00e3o poucos os exclu\u00eddos que desprezam os direitos humanos, bem como mulheres contr\u00e1rias ao imperativo \u201cmeu corpo, minhas regras\u201d. Se a legitimidade do discurso depende principalmente do lugar de enuncia\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o do conte\u00fado substantivo dos enunciados, ent\u00e3o a pol\u00edtica identit\u00e1ria fica sem ter como justificar a superioridade da pr\u00f3pria perspectiva sobre os advers\u00e1rios conservadores que coabitam o lugar de fala desta ou daquela minoria.<\/p>\n<p>Eis-nos diante de um impasse, bem definido pelo fil\u00f3sofo Ernesto Laclau: se o particularismo for o \u00fanico princ\u00edpio v\u00e1lido, ent\u00e3o ter\u00e1 necessariamente que aceitar particularismos violentos, excludentes ou opressores. As demandas entre os grupos conflitantes entrar\u00e3o em choque, e o \u00fanico jeito de resolver a disputa \u00e9 apelando para princ\u00edpios de validade geral. Reconhecer a exist\u00eancia de princ\u00edpios universais n\u00e3o \u00e9 algo com o qual boa parte da pol\u00edtica identit\u00e1ria parece se sentir confort\u00e1vel, seja porque isso imp\u00f5e limites \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o de particularismos, ou porque aproxima sua pol\u00edtica do campo liberal.<\/p>\n<p>Qual a alternativa? Declarar que subalternos n\u00e3o progressistas, como o vereador Holiday, est\u00e3o imersos em \u201cfalsa consci\u00eancia\u201d? Evocar a no\u00e7\u00e3o de falsa consci\u00eancia, esp\u00e9cie de v\u00e9u ideol\u00f3gico que impediria o sujeito de enxergar a realidade, tornaria o curto-circuito em que a pol\u00edtica identit\u00e1ria se enreda ainda mais evidente. Se subalternos n\u00e3o progressistas s\u00e3o aut\u00f4matos da norma conservadora em que foram socializados, sendo portanto incapazes de pensar com autonomia, \u00e9 porque precisam ser trazidos \u00e0 verdade por um outro esclarecido \u2013 como as feministas radicais (<em>radfems<\/em>) argumentando que sexo pago \u00e9 estupro, lan\u00e7ando-se em campanhas para criminalizar a pr\u00e1tica, a fim de salvarem prostitutas de si pr\u00f3prias. Ent\u00e3o ficamos assim: quem n\u00e3o tem lugar de fala subalterno n\u00e3o tem o que dizer; e quem tem, mas o contradiz, n\u00e3o aprendeu a pensar. Seja como for, reduz-se a possibilidade de a pol\u00edtica identit\u00e1ria tomar consci\u00eancia de suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">U<\/span>ma dessas contradi\u00e7\u00f5es aparece na discuss\u00e3o sobre \u201capropria\u00e7\u00e3o cultural\u201d.<\/p>\n<p>Vale esclarecer desde j\u00e1 que apropria\u00e7\u00e3o cultural n\u00e3o diz respeito ao fluxo de trocas, inerente ao mundo globalizado, de pessoas e artefatos, mas sim a um tipo espec\u00edfico de mecanismo de capturas, simb\u00f3licas e concretas, que contribui para perpetuar rela\u00e7\u00f5es de poder que subjugam grupos minorit\u00e1rios. \u201cA cultura negra \u00e9 popular\u201d, afirma o poeta B. Easy, \u201cmas as pessoas negras, n\u00e3o.\u201d Para ficar no exemplo racial, h\u00e1 uma esp\u00e9cie de descolamento entre os produtores da cultura negra e os seus produtos: estes recebem uma aura fetichista que seduzir\u00e1 p\u00fablicos os mais diversos, enquanto aqueles permanecem relegados a um segundo plano de visibilidade e reconhecimento.<\/p>\n<p>Grupos subalternos seguem lutando para conquistar autoridade discursiva sobre sua pr\u00f3pria realidade, hist\u00f3ria passada ou presente, e aspira\u00e7\u00f5es futuras. Nada mais coerente que se mantenham vigilantes ao modo como s\u00e3o representados, ou \u00e0s maneiras atrav\u00e9s das quais a representa\u00e7\u00e3o sobre si lhes \u00e9 usurpada, a apropria\u00e7\u00e3o cultural sendo uma delas. Mas como pensar essa usurpa\u00e7\u00e3o? A fil\u00f3sofa Djamila Ribeiro afirma, acertadamente a meu ver, que o problema \u00e9 sist\u00eamico, e que portanto o debate sobre a apropria\u00e7\u00e3o cultural n\u00e3o pode girar em torno do indiv\u00edduo. Dizer que um dado problema \u00e9 sist\u00eamico ou estrutural \u00e9 dizer que ele n\u00e3o pode ser compreendido e explicado a partir da a\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo. Racismo, por exemplo. Estando encrustado no funcionamento das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, na escrita das legisla\u00e7\u00f5es, nos sistemas de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o e entretenimento, na est\u00e9tica publicit\u00e1ria, o racismo n\u00e3o pode ser reduzido a eventuais manifesta\u00e7\u00f5es individuais, isto \u00e9, visto apenas como m\u00e1 escolha de pessoas preconceituosas, embora isso tamb\u00e9m seja parte do problema.<\/p>\n<p>Apelar \u00e0 consci\u00eancia do indiv\u00edduo, no sentido de inst\u00e1-lo a compreender as implica\u00e7\u00f5es do uso de artefatos culturais, \u00e9 deslocar o debate sobre apropria\u00e7\u00e3o para o terreno da moralidade. Os marcos anal\u00edticos mais amplos da quest\u00e3o \u2013 a rela\u00e7\u00e3o entre fetiche e consumismo, a l\u00f3gica de mercado que os atravessa \u2013 ficam escanteados, apagados diante do imperativo solit\u00e1rio de fazer a coisa certa. Em termos pol\u00edticos, \u00e9 contraproducente fechar o problema exclusivamente no sujeito que se apropria, quanto mais n\u00e3o seja porque muitas vezes h\u00e1 a tend\u00eancia a se exercer a vigil\u00e2ncia sobre a apropria\u00e7\u00e3o como um fim em si mesmo, n\u00e3o como parte de uma luta mais ampla contra for\u00e7as sist\u00eamicas, institui\u00e7\u00f5es e aparelhos do Estado. Do ponto de vista do\u00a0<em>status quo<\/em>, nada \u00e9 mais conveniente do que uma esquerda empenhada em persuadir o indiv\u00edduo a acreditar que sua corre\u00e7\u00e3o moral ter\u00e1 impacto significativo na forma como a diferen\u00e7a cultural \u00e9 representada.<\/p>\n<p>A ideia de apropria\u00e7\u00e3o cultural parte do princ\u00edpio de que qualquer utiliza\u00e7\u00e3o ex\u00f3gena de artefatos culturais implica algum tipo de deturpa\u00e7\u00e3o ou descaracteriza\u00e7\u00e3o de seu sentido original. Essa alega\u00e7\u00e3o est\u00e1 baseada na premissa de que esses artefatos possuem um significado essencial est\u00e1vel, uma pureza origin\u00e1ria imut\u00e1vel. Sabemos, entretanto, que culturas s\u00e3o imensas colchas de retalhos continuamente feitas e refeitas: mosaicos que se expandem enquanto agregam, n\u00e3o museus que conservam a si pr\u00f3prios ao longo do tempo. E assim como o sentido de uma frase n\u00e3o est\u00e1 embutido nas palavras que a comp\u00f5em, s\u00f3 podendo ser avaliado observando-se o contexto de sua enuncia\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m o sentido do uso de um artefato cultural depende da circunst\u00e2ncia em que ocorre.<\/p>\n<p>No caso do Carnaval, \u00e9 frequente o apelo para que foli\u00f5es n\u00e3o usem turbantes, cocares, quimonos e\u00a0<em>hijabs<\/em>, o que contribuiria para o processo de estereotipagem das culturas das quais tais artefatos s\u00e3o express\u00f5es. O equ\u00edvoco est\u00e1 em supor que o artefato cultural, ao ser utilizado como fantasia carnavalesca, tenha esvaziado o seu significado. Justo o oposto, \u00e9 exatamente porque seu significado j\u00e1 \u00e9 outro que o artefato pode se fazer fantasia. A primeira afirma\u00e7\u00e3o sup\u00f5e a ideia de perda: havia algo de originalmente verdadeiro no artefato, que se perdeu em fun\u00e7\u00e3o de seu uso. A segunda afirma\u00e7\u00e3o sup\u00f5e a ideia de transforma\u00e7\u00e3o, que dissolve de antem\u00e3o a suposta obriga\u00e7\u00e3o de adequa\u00e7\u00e3o a uma verdade tida como original. Sem transforma\u00e7\u00e3o \u2013 tempor\u00e1ria, mais como um travestimento \u2013 n\u00e3o h\u00e1 Carnaval. \u00c9 a possibilidade de transformar-se naquilo de que se est\u00e1 fantasiado que liberta a pessoa da obriga\u00e7\u00e3o de ser quem ela \u00e9. Mas esse travestimento nunca \u00e9 completo; ao contr\u00e1rio de um personagem de cinema ou de novela, casos em que h\u00e1 mais propriedade para a cr\u00edtica ao estere\u00f3tipo, o foli\u00e3o n\u00e3o deve convencer ningu\u00e9m de que ele \u00e9, de fato, \u00e1rabe ou pai de santo.<\/p>\n<p>O estere\u00f3tipo \u00e9 meton\u00edmico, toma uma parte imagin\u00e1ria pelo todo. Nesse caso, a cr\u00edtica acerta o alvo: fantasias como \u201cnega maluca\u201d, por exemplo, s\u00e3o representa\u00e7\u00f5es de uma cultura opressora, n\u00e3o algo oriundo da cultura negra, cuja apropria\u00e7\u00e3o viria ent\u00e3o distorcer. Mas, no geral, fantasias de Carnaval s\u00e3o aleg\u00f3ricas. Tudo o que elas t\u00eam a dizer de verdadeiro \u00e9 sobre o sujeito que a encarna, n\u00e3o sobre a cultura ou grupo a que faz refer\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">N<\/span>ingu\u00e9m que conhe\u00e7a um pouco da hist\u00f3ria dos movimentos sociais deixar\u00e1 de observar a import\u00e2ncia da insubordina\u00e7\u00e3o, do confronto aguerrido, no estabelecimento progressivo do sucesso de suas reivindica\u00e7\u00f5es; os exemplos s\u00e3o muitos e por demais conhecidos para que percamos tempo relembrando-os aqui. A atua\u00e7\u00e3o de movimentos sociais contra-hegem\u00f4nicos oferece uma ilustra\u00e7\u00e3o do que Jacques Ranci\u00e8re qualifica propriamente de\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>: a luta dos exclu\u00eddos (\u201caqueles que n\u00e3o t\u00eam parte\u201d, no jarg\u00e3o do autor), ao se insurgir contra as for\u00e7as do\u00a0<em>status quo<\/em>, leva aos olhos aquilo que permanecia invis\u00edvel, transforma em discurso aquilo que era percebido somente como ru\u00eddo, enfim, altera a pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o das fronteiras que separam o \u201cdentro\u201d e o \u201cfora\u201d de uma determinada comunidade pol\u00edtica. Nesse sentido, tal luta n\u00e3o seria um mero\u00a0<em>complemento<\/em>\u00a0que, partindo das margens ou periferias, vem se somar a um determinado conjunto social j\u00e1 dado, mas sim um\u00a0<em>suplemento<\/em>, cuja a\u00e7\u00e3o modifica a estrutura desse conjunto desde o seu interior.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m desse car\u00e1ter agon\u00edstico, tanto em sua inscri\u00e7\u00e3o institucional, por meio da atua\u00e7\u00e3o de representantes eleitos, quanto atrav\u00e9s dos in\u00fameros atores individuais que avan\u00e7am a luta em seus cotidianos, os movimentos sociais operam tamb\u00e9m sobre um eixo pedag\u00f3gico, com a preocupa\u00e7\u00e3o de conseguir uma transforma\u00e7\u00e3o de sensibilidades, por meio da conscientiza\u00e7\u00e3o e desconstru\u00e7\u00e3o de preconceitos. Essa \u00e9 uma distin\u00e7\u00e3o anal\u00edtica; na pr\u00e1tica, os aspectos \u201cagon\u00edstico\u201d e \u201cpedag\u00f3gico\u201d misturam-se com frequ\u00eancia. A quest\u00e3o \u00e9 que, ao inv\u00e9s de convergirem, de se refor\u00e7arem mutuamente, eles parecem na verdade estar se sabotando, o pedag\u00f3gico sacrificado em fun\u00e7\u00e3o do agon\u00edstico. O trabalho de persuadir quem pensa diferente de voc\u00ea n\u00e3o fica exatamente mais f\u00e1cil quando, em boa parte do tempo, voc\u00ea empenha sua energia na excomunh\u00e3o dos impuros. Como estrat\u00e9gia de convencimento, tem alcance bastante limitado.<\/p>\n<p>A pureza identit\u00e1ria exige um sistema de coer\u00eancias cujos custos pol\u00edticos superam os benef\u00edcios. \u00c9 sintom\u00e1tico que boa parte da energia dos grupos identit\u00e1rios seja direcionada contra a pr\u00f3pria esquerda \u2013 pois \u00e9 apenas a\u00ed, no meio progressista, que a ret\u00f3rica e a moral associadas \u00e0 no\u00e7\u00e3o de lugar de fala t\u00eam efic\u00e1cia\u00a0<sup>[2]<\/sup>. Mais ainda, \u00e9 somente entre uma parcela da esquerda que o imperativo do \u201cCale-se e subscreva\u201d pode ter alguma ader\u00eancia. Afora o fato de que a cobran\u00e7a de submiss\u00e3o incondicional de qualquer potencial aliado trabalha contra a amplia\u00e7\u00e3o da base da luta identit\u00e1ria, h\u00e1 ainda a d\u00favida acerca do pr\u00f3prio car\u00e1ter dessa ader\u00eancia. O sil\u00eancio dos \u201cdesconstru\u00eddos\u201d que se recolhem ao seu \u201clugar de escuta\u201d diante de qualquer discurso subalterno implica em respeito genu\u00edno ou mero paternalismo? Acatar automaticamente argumentos por exig\u00eancia, sem lhes dispensar aten\u00e7\u00e3o interessada e cr\u00edtica, \u00e9 um ato de condescend\u00eancia, portanto desrespeitoso, como observou o fil\u00f3sofo Charles Taylor. Demandar reconhecimento absoluto ao que eu digo, somente por eu ser quem sou, \u00e9 partir do princ\u00edpio de que o conte\u00fado substantivo da minha fala talvez n\u00e3o baste; a singularidade e a pot\u00eancia do que tenho a dizer ficam rebaixados, escondidos atr\u00e1s da minha identidade, essa sim merecedora de aten\u00e7\u00e3o e respeito.<\/p>\n<p>No interior dos c\u00edrculos ativistas, os efeitos desse ideal de pureza tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o exatamente auspiciosos. \u00c9 que a estrutura do debate sobre identidade, a moldura dentro da qual essas discuss\u00f5es se d\u00e3o, fecha-se numa redoma que asfixia inclusive o dissenso produtivo dentro dos pr\u00f3prios movimentos. A capacidade de operar media\u00e7\u00f5es, de construir pontes, anda de m\u00e3os dadas com a habilidade de fazer distin\u00e7\u00f5es, e s\u00e3o justamente essas qualidades, indispens\u00e1veis \u00e0 pol\u00edtica, que as imposi\u00e7\u00f5es da pureza identit\u00e1ria soterram. A fidelidade a esse princ\u00edpio de pureza n\u00e3o cessa de mover as fronteiras que demarcam a constru\u00e7\u00e3o do inimigo, trazendo-as cada vez mais para o interior do pr\u00f3prio campo progressista. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar, por exemplo, feministas que eventualmente concordem com alguns dos argumentos aqui expostos sendo acusadas de \u201cdar biscoito\u201d para um \u201cesquerdomacho\u201d branco e privilegiado.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 na fric\u00e7\u00e3o produzida nas intera\u00e7\u00f5es que ocorrem fora dos c\u00edrculos de esquerda que as limita\u00e7\u00f5es da pol\u00edtica identit\u00e1ria ficam mais n\u00edtidas. H\u00e1 um hiato entre a justeza das reivindica\u00e7\u00f5es mobilizadas por tal pol\u00edtica e a forma atrav\u00e9s da qual essas reivindica\u00e7\u00f5es s\u00e3o atualmente levadas adiante na esfera p\u00fablica. Essa forma \u00e9 parcialmente respons\u00e1vel pelo fato de a agenda identit\u00e1ria ser cada vez mais percebida como autorit\u00e1ria, logo ileg\u00edtima.<\/p>\n<p>Representantes do segmento mais radical do movimento feminista, as chamadas\u00a0<em>radfems\u00a0<\/em>t\u00eam raz\u00e3o quando criticam o feminismo liberal (<em>libfem<\/em>) tanto por sua cegueira quanto \u00e0 quest\u00e3o de classe, quanto por seu individualismo metodol\u00f3gico, que reduz tudo \u2013 adequa\u00e7\u00e3o a ideais de beleza, prefer\u00eancias sexuais, prostitui\u00e7\u00e3o etc. \u2013 a uma mera quest\u00e3o de escolha pessoal da mulher, como se n\u00e3o houvesse constrangimentos sist\u00eamicos condicionando de antem\u00e3o essas escolhas. Mas quando interagem na base do \u201cSe voc\u00ea n\u00e3o tem um \u00fatero, n\u00e3o tem o que opinar sobre feminismo\u201d, as feministas radicais fornecem material para a cria\u00e7\u00e3o do estere\u00f3tipo de que o machismo necessita para inventar o fantasma que passar\u00e1 ent\u00e3o a lhe prover sustenta\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria: n\u00e3o mais a mulher submissa que \u201cpede\u201d para ser dominada, mas a mulher autorit\u00e1ria que \u201cpede\u201d para ser combatida, em nome da liberdade. Eis o salvo-conduto fict\u00edcio de que o machista necessita para justificar, para si pr\u00f3prio, a manuten\u00e7\u00e3o de seu papel na reprodu\u00e7\u00e3o do sistema de opress\u00e3o de que \u00e9 parte: ele, homem, \u201capenas reage \u00e0 feminazi\u201d.<\/p>\n<p>De modo an\u00e1logo, h\u00e1 uma diferen\u00e7a significativa entre a cr\u00edtica aos mecanismos sist\u00eamicos de apropria\u00e7\u00e3o da cultura negra e a vigil\u00e2ncia repressiva sobre a menina branca que usa turbante. S\u00f3 uma desonestidade intelectual quase inimagin\u00e1vel poderia negar a validade de tal cr\u00edtica; j\u00e1 a patrulha de costumes presta-se facilmente ao tipo de apropria\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que acabo de descrever. Haveria de ser mera coincid\u00eancia a crescente popularidade de uma no\u00e7\u00e3o t\u00e3o est\u00fapida e falaciosa quanto a de \u201cracismo invertido\u201d?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">V<\/span>alores n\u00e3o trazem em si a regra de sua aplica\u00e7\u00e3o. Mais ainda, valores s\u00e3o \u201ctrof\u00e9us\u201d pol\u00edticos, pass\u00edveis de serem apropriados por este ou aquele grupo, e n\u00e3o apenas abstra\u00e7\u00f5es independentes de inscri\u00e7\u00f5es mundanas. Se, como observa o te\u00f3rico da literatura Stanley Fish, esse trof\u00e9u tiver sido capturado por uma for\u00e7a pol\u00edtica advers\u00e1ria, n\u00e3o poder\u00e1 ser mobilizado de um modo que ajude a nossa causa; ter\u00e1, ao contr\u00e1rio, se transformado num obst\u00e1culo. Parte expressiva da pol\u00edtica identit\u00e1ria ainda n\u00e3o percebeu que \u00e9 exatamente o que vem acontecendo com o princ\u00edpio da liberdade.<\/p>\n<p>Quanto mais vigia e reprime costumes individuais nas ruas e redes sociais, mais entrega ao advers\u00e1rio a posse desse valor, convertido em arma pol\u00edtica. Quando algu\u00e9m exige que se abandone o uso de turbantes ou de fantasias de Carnaval, parece convicto de que sua reivindica\u00e7\u00e3o deve ter prioridade autom\u00e1tica sobre a liberdade de seu interlocutor, mesmo que a ofensa da\u00ed advinda seja n\u00e3o intencional. O problema n\u00e3o \u00e9 apenas a impossibilidade dessa exig\u00eancia, dado que, em estados democr\u00e1ticos de direito, a reivindica\u00e7\u00e3o de respeito autom\u00e1tico ao ofendido conflita com o princ\u00edpio da liberdade. \u00c9 que a pr\u00f3pria exig\u00eancia talvez tenha o efeito contr\u00e1rio ao esperado.<\/p>\n<p>Est\u00e1 suficientemente claro que racistas, machistas, homof\u00f3bicos e preconceituosos em geral usam a liberdade como \u00e1libi para seu desejo nost\u00e1lgico de voltar ao tempo em que podiam exercer sua opress\u00e3o cotidiana sem serem incomodados. Mas se o \u00e1libi \u00e9 uma desculpa epid\u00e9rmica constru\u00edda a fim de esconder algo de inconfess\u00e1vel, ent\u00e3o o desafio est\u00e1 em expor sua verdade subjacente sem interditar o valor (a liberdade, no caso) do qual se vale para pintar sua fachada. Exibir aquilo que o \u00e1libi pretende ocultar talvez ajude na sua desconstru\u00e7\u00e3o; tentar silenciar o \u00e1libi em si, pelo constrangimento, n\u00e3o faz mais do que prover uma justificativa \u00e0 sua reprodu\u00e7\u00e3o. Facilita o trabalho de quem j\u00e1 est\u00e1 disposto a reduzir o ativismo identit\u00e1rio ao policiamento de liberdades.<\/p>\n<p>Mais que atirar a pedra, \u00e9 preciso se preocupar com onde ela ir\u00e1 cair. Essa preocupa\u00e7\u00e3o, elementar em qualquer estrat\u00e9gia no campo da pol\u00edtica, deveria merecer aten\u00e7\u00e3o redobrada por parte de movimentos contra-hegem\u00f4nicos. Num texto postado em sua p\u00e1gina pessoal no Facebook, o professor da Universidade de Pernambuco Acauam de Oliveira ilustrou bem os riscos a que se exp\u00f5e parte do ativismo identit\u00e1rio, usando como exemplo a constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do racismo na linguagem. \u201cAs palavras com refer\u00eancia a claro e branco e afins t\u00eam conota\u00e7\u00e3o positiva, enquanto as com refer\u00eancia a escuro e negro e afins t\u00eam conota\u00e7\u00e3o negativa\u201d, disse Acauam. Mas essa verdade tem seus limites. \u201cAs pessoas tiram a roupa do varal n\u00e3o porque a nuvem \u00e9 negra, mas porque vai chover; o buraco negro n\u00e3o \u2018rouba\u2019 nada, e \u2018claro\u2019 tem fun\u00e7\u00e3o adverbial na frase \u2018falar mais claro\u2019, e n\u00e3o adjetiva.\u201d O problema \u00e9 que a generaliza\u00e7\u00e3o desse argumento sobre o racismo abre espa\u00e7o para um contra-ataque igualmente generalizante: a verdade da dimens\u00e3o simb\u00f3lica do racismo na linguagem passa a ser considerada falsa porque alardeada como uma manipula\u00e7\u00e3o (que de fato eventualmente ocorre) tosca da esquerda. \u201cDa\u00ed a se escrever outro \u2018Guia politicamente incorreto\u2019 pra desmistificar a farsa esquerdista\u201d, concluiu Acauam, \u201c\u00e9 um pulo.\u201d<\/p>\n<p>A paix\u00e3o que embala a autoimagem de quem se sabe integrante de uma revolu\u00e7\u00e3o em andamento tem seus encantos e armadilhas. Por um lado, \u00e9 fonte de inspira\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel \u00e0 a\u00e7\u00e3o coletiva; por outro, dificulta o reconhecimento das contradi\u00e7\u00f5es e limites dessa a\u00e7\u00e3o. Ao sujeito mergulhado na certeza de legitimidade de suas pr\u00f3prias reivindica\u00e7\u00f5es, \u00e9 f\u00e1cil perder de vista o fato de que a afirma\u00e7\u00e3o \u201co pessoal \u00e9 pol\u00edtico\u201d \u00e9 uma verdade \u00f3bvia somente para o campo progressista. A maioria que efetivamente decide elei\u00e7\u00f5es v\u00ea o mundo desde uma perspectiva em que a repress\u00e3o direta quanto ao que se pode vestir e dizer aparece n\u00e3o como um imperativo \u00e9tico justificado, mas como censura pura e simples, ou frescura sem raz\u00e3o de ser. De nada adianta dizer que a luta \u00e9 contra essa perspectiva: isso deveria ser um motivo a mais, n\u00e3o a menos, para que se reflita sobre a melhor maneira de avan\u00e7ar essa luta. A vigil\u00e2ncia repressiva de costumes, a desqualifica\u00e7\u00e3o do interlocutor (e n\u00e3o de seu argumento), podem at\u00e9 ser moralmente reconfortantes, mas limitam-se a atacar o sintoma, n\u00e3o o problema em si. Infelizmente, investir contra o sintoma s\u00f3 faz adensar o n\u00f3 que o gera.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">P<\/span>odemos agora dar um passo atr\u00e1s, abrir o escopo de observa\u00e7\u00e3o a fim de inscrever o exame da pol\u00edtica identit\u00e1ria dentro da paisagem mais ampla de nosso tempo. O ideal de pureza, como princ\u00edpio e fim da pr\u00e1tica pol\u00edtica, \u00e9 o fio invis\u00edvel que une correntes de direita e esquerda no ataque ao que vem sendo percebido como o fracasso da democracia representativa. Talvez haja algum exagero nessa afirma\u00e7\u00e3o, que certamente mereceria um tratamento melhor do que poderei dar aqui. E \u00e9 quase desnecess\u00e1rio lembrar que esse ideal comparece de formas distintas, e com efeitos diferentes, em cada caso. O apelo \u00e0 pureza \u00e9tnica, por exemplo, difere bastante do elogio a l\u00edderes carism\u00e1ticos que se oferecem como encarna\u00e7\u00e3o do \u201cverdadeiro\u201d povo. De qualquer maneira, \u00e9 expressivo \u2013 e crescente \u2013 o desafio atualmente imposto ao funcionamento da democracia representativa.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o da democracia \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de emblema dominante da pol\u00edtica contempor\u00e2nea caminhou a par do aumento de seu desencanto, o que n\u00e3o surpreende, dadas as respostas insuficientes que regimes democr\u00e1ticos v\u00eam oferecendo aos m\u00faltiplos desafios com os quais precisam lidar.<\/p>\n<p>S\u00e3o diversas as quest\u00f5es que fazem com que, aos olhos da opini\u00e3o p\u00fablica, a democracia apare\u00e7a como incapaz de cumprir suas promessas. A crise de legitima\u00e7\u00e3o do Estado-na\u00e7\u00e3o, sua reduzida capacidade de atendimento \u00e0s expectativas de popula\u00e7\u00f5es cada vez mais longevas; o ataque frontal da racionalidade neoliberal aos fundamentos da soberania democr\u00e1tica, visando substituir seus princ\u00edpios b\u00e1sicos \u2013 constitucionalismo, igualdade legal, liberdade civil e pol\u00edtica, autonomia pol\u00edtica e inclus\u00e3o \u2013 por crit\u00e9rios de mercado, como custo\/benef\u00edcio, efici\u00eancia e lucratividade; a oligarquiza\u00e7\u00e3o dos partidos pol\u00edticos, que, operando num jogo autorreferido, distanciam-se dos interesses que supostamente deveriam representar; a transfer\u00eancia progressiva, ao Poder Judici\u00e1rio, de atribui\u00e7\u00f5es que cabem ao Legislativo; a consolida\u00e7\u00e3o do esc\u00e2ndalo como\u00a0<em>linguagem<\/em>\u00a0da pol\u00edtica, isto \u00e9, a quase incapacidade de pensar a atividade pol\u00edtica fora de um campo sem\u00e2ntico constitu\u00eddo por no\u00e7\u00f5es como revolta, desonra, indec\u00eancia, vergonha, indigna\u00e7\u00e3o; enfim, tudo somado, constatamos, aqui e alhures, a eros\u00e3o da legitimidade da pr\u00f3pria ideia de representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo isso est\u00e1 bem documentado, mas a quest\u00e3o que realmente importa parece ser a altura m\u00ednima para o sarrafo das concess\u00f5es feitas em nome da governabilidade, a linha que separa o aceit\u00e1vel do repulsivo, seja l\u00e1 o que se consiga em troca. A resposta, naturalmente, varia ao gosto do fregu\u00eas. E varia muito em fun\u00e7\u00e3o do grau de pureza a partir do qual se concebe o jogo pol\u00edtico. Se voc\u00ea parte do princ\u00edpio de que a verdadeira democracia s\u00f3 pode advir do protagonismo de um sujeito pol\u00edtico intrinsecamente virtuoso, sua toler\u00e2ncia a concess\u00f5es ser\u00e1 baix\u00edssima. Se, por outro lado, e contra in\u00fameras evid\u00eancias dispon\u00edveis na literatura sobre o tema, voc\u00ea sup\u00f5e verdadeiramente democr\u00e1ticos apenas os sistemas de participa\u00e7\u00e3o direta, ent\u00e3o sua toler\u00e2ncia a concess\u00f5es t\u00edpicas de mecanismos representativos tamb\u00e9m ser\u00e1 baixa. Se, ainda que tendo boa vontade para com um determinado projeto pol\u00edtico, voc\u00ea desconhece as din\u00e2micas estruturais de partidos em geral e do nosso presidencialismo de coaliz\u00e3o em particular, \u00e9 prov\u00e1vel que voc\u00ea acabe repreendendo-o por haver cometido o pecado de agir de acordo com a percep\u00e7\u00e3o de que a classe m\u00e9dia intelectualizada, sozinha, n\u00e3o vence elei\u00e7\u00f5es. Eis algumas ilustra\u00e7\u00f5es de como perspectivas calcadas no princ\u00edpio da pureza precisam desprezar as complexidades do mundo real para se fazerem sedutoras.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que o populismo tem ressurgido como resposta \u00e0s insufici\u00eancias dos sistemas democr\u00e1ticos. Quando a dist\u00e2ncia entre a promessa de \u201ctodo poder emana do povo\u201d e a performance concreta do jogo representativo se esgar\u00e7a a ponto de criar um v\u00e1cuo totalmente preenchido pela percep\u00e7\u00e3o da democracia como processo autorreferido de negociatas intraolig\u00e1rquicas, o populismo vem prometer um ideal renovado de pr\u00e1tica pol\u00edtica, livre de confabula\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias. Contra a rotina burocr\u00e1tica das institui\u00e7\u00f5es, o empoderamento de l\u00edderes carism\u00e1ticos: o populismo, diz a historiadora Margaret Canovan, \u00e9 uma resposta \u00e0 assimetria entre o excesso da dimens\u00e3o pragm\u00e1tica da pol\u00edtica (o \u201ctoma l\u00e1, d\u00e1 c\u00e1\u201d cont\u00ednuo, que resulta da negocia\u00e7\u00e3o de interesses mundanos conflitantes) e o d\u00e9ficit de sua dimens\u00e3o redentora (a promessa de resolu\u00e7\u00e3o desses conflitos, a estabilidade de uma paz pr\u00f3spera).<\/p>\n<p>Essa resposta admite graus de intensidade variados \u2013 desde um governo compat\u00edvel com os marcos legais da democracia, at\u00e9 um regime autorit\u00e1rio, desestabilizador dos processos legislativos \u2013, mas o importante \u00e9 o dado de suspei\u00e7\u00e3o que ela necessariamente introduz acerca de qualquer inst\u00e2ncia de media\u00e7\u00e3o. Enquanto forma de mobiliza\u00e7\u00e3o de paix\u00f5es pol\u00edticas, o populismo tanto pressup\u00f5e quanto refor\u00e7a o fetiche do v\u00ednculo direto. Como observou Jan-Werner M\u00fcller num ensaio publicado aqui na\u00a0<strong>piau\u00ed<\/strong>(\u201cPopulistas\u201d, edi\u00e7\u00e3o 124, janeiro), ao apresentar-se n\u00e3o apenas como porta-voz, mas como a encarna\u00e7\u00e3o mesma do \u201cverdadeiro povo\u201d, o l\u00edder populista reivindica para si um monop\u00f3lio moral que postula automaticamente todos os advers\u00e1rios como ileg\u00edtimos, desonestos ou corruptos. \u201cAos olhos dos populistas e de seus seguidores\u201d, escreve M\u00fcller, \u201ctoda media\u00e7\u00e3o \u00e9 distor\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Para conservar seu apelo imagin\u00e1rio, o princ\u00edpio da pureza n\u00e3o pode admitir qualquer margem de manobra quando aplicado \u00e0s situa\u00e7\u00f5es concretas do mundo, o que por sinal evidencia seu car\u00e1ter antipol\u00edtico. A impaci\u00eancia com rela\u00e7\u00e3o a concess\u00f5es, o desprezo por processos institucionalizados de delibera\u00e7\u00f5es, o rep\u00fadio a qualquer forma de media\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o parecem ser esses, cada vez mais, os tra\u00e7os distintivos da atmosfera pol\u00edtica contempor\u00e2nea? Aos olhos dos segmentos mais fervorosos da milit\u00e2ncia identit\u00e1ria, toda concess\u00e3o n\u00e3o equivaleria \u00e0 capitula\u00e7\u00e3o, logo \u00e0 trai\u00e7\u00e3o? Ao igualar o marcador de identidade \u00e0 posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica espec\u00edfica do sujeito, a pol\u00edtica identit\u00e1ria n\u00e3o apenas alimenta o fetiche do v\u00ednculo direto, como ainda rebaixa em seu horizonte de preocupa\u00e7\u00f5es a quest\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o da luta pol\u00edtica propriamente dita.<\/p>\n<p>O trabalho \u00e1rduo de conectar anseios particulares a um projeto coletivo \u00e9 substitu\u00eddo pela exig\u00eancia de lealdade incondicional a uma suposta ess\u00eancia, o que ali\u00e1s assinala mais um personagem algo imagin\u00e1rio (uma \u201cfic\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica\u201d, no jarg\u00e3o da filosofia) com o qual os cientistas sociais ter\u00e3o que lidar. Ao lado do sujeito liberal, o\u00a0<em>homo oeconomicus<\/em>\u00a0auto-interessado e consciente de suas escolhas, e do sujeito bovino da teoria pol\u00edtica desenvolvida na esteira de Schumpeter, temos agora um sujeito totalmente subsumido em v\u00ednculos de perten\u00e7a identit\u00e1ria. N\u00e3o \u00e9 que tal sujeito n\u00e3o possa existir aqui e ali, empiricamente; \u00e9 que o diagn\u00f3stico que lhe toma por base n\u00e3o nos ajuda a compreender quest\u00f5es relevantes da pol\u00edtica atual, como por exemplo as raz\u00f5es que levaram cerca de 30% dos latinos e mais da metade das mulheres brancas norte-americanas a votarem num racista e predador sexual assumido nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais.<\/p>\n<p>As exig\u00eancias da pureza evocam a utopia de uma pol\u00edtica e um mundo livre de contradi\u00e7\u00f5es. O ideal de sujeito pressuposto pela pol\u00edtica identit\u00e1ria \u00e9 a pessoa que, consciente do imperativo de recolher-se ao seu lugar de escuta diante do outro subalterno, n\u00e3o apenas se abst\u00e9m de emitir ju\u00edzo acerca de qualquer realidade que n\u00e3o seja a sua pr\u00f3pria, como ainda se curva em defer\u00eancia absoluta ao discurso desse outro. N\u00e3o se tratando propriamente de um interlocutor, mas de um ouvinte passivo, resta evidente o car\u00e1ter antidial\u00f3gico que subjaz a uma tal utopia. N\u00e3o \u00e9 precisamente essa a velha imagem do sonho liberal? Uma sociedade composta por indiv\u00edduos que, absortos nos narcisismos de suas pequenas diferen\u00e7as, movimentam-se pela esfera p\u00fablica somente sob a condi\u00e7\u00e3o de causar o m\u00ednimo de atrito poss\u00edvel, se poss\u00edvel nenhum?<sup>[3]<\/sup><\/p>\n<p>Vista mais de perto, essa \u00e9 uma concep\u00e7\u00e3o de pol\u00edtica que j\u00e1 pressup\u00f5e uma capitula\u00e7\u00e3o fundamental: uma vez que o ideal republicano de bem comum teria se provado inating\u00edvel \u2013 ou pior, um engodo \u2013, o melhor que ter\u00edamos a fazer \u00e9 investir na defesa ferrenha do (nosso) particularismo. Essa dicotomia caminha a par com outra, igualmente cara \u00e0 pol\u00edtica identit\u00e1ria: dado que toda afirma\u00e7\u00e3o com pretens\u00e3o \u00e0 validade universal esconde uma vontade de poder imperialista e subjugante, s\u00f3 nos restaria a defesa intransigente de nossos pr\u00f3prios pontos de vista.<\/p>\n<p>Pode-se recusar essas dicotomias sem abrir m\u00e3o do compromisso de lutar por redistribui\u00e7\u00e3o e reconhecimento. N\u00e3o \u00e9 porque um ambiente 100% ass\u00e9ptico seja uma impossibilidade, diz a conhecida met\u00e1fora do antrop\u00f3logo Clifford Geertz, que iremos realizar cirurgias no esgoto. A suspeita quanto ao substrato pol\u00edtico das alega\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter universal n\u00e3o precisa desaguar num relativismo est\u00e9ril. Rejeitar a no\u00e7\u00e3o de que seja poss\u00edvel falar sobre o mundo a partir de um lugar desinteressado n\u00e3o nos obriga a \u201cescolher um lado\u201d e aderir acriticamente a ele. Essa \u00e9 uma perspectiva que exige a disposi\u00e7\u00e3o para ver com bons olhos as contradi\u00e7\u00f5es e os paradoxos, os hibridismos e os interst\u00edcios, tudo o que escapa a qualquer tentativa de ordena\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria da realidade\u00a0<sup>[4]<\/sup>. Tarefa nada f\u00e1cil, sobretudo em um ambiente de informa\u00e7\u00e3o que d\u00e1 ensejo n\u00e3o somente \u00e0 engenharia do consenso \u2013 ou seja, a grande m\u00eddia pautando a agenda de debates na esfera p\u00fablica \u2013, mas \u00e0 fermenta\u00e7\u00e3o autorreferida do dissenso \u2013 as bolhas homog\u00eaneas nas redes sociais, cada vez mais surdas \u00e0 diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">A<\/span>certa altura do romance\u00a0<em>O Nome da Rosa<\/em>, de Umberto Eco, o jovem Adso, aflito com mais uma morte misteriosa no mosteiro em que vivia, vai ao encontro de seu mestre, Guilherme de Baskerville. O corpo de um monge, conhecido pela voracidade do apetite, acabara de ser descoberto; como todos os outros mortos, tinha a l\u00edngua e o dedo indicador manchados em colora\u00e7\u00e3o escura. Guilherme diz que o glut\u00e3o \u201chavia se tornado um puro\u201d, e o rapaz questiona horrorizado: \u201cMas esta \u00e9 a pureza?\u201d \u201cHaver\u00e1 tamb\u00e9m as de uma outra esp\u00e9cie\u201d, afirma Guilherme, \u201cmas, seja qual for, sempre me d\u00e1 medo.\u201d Adso lhe pergunta o que o aterrorizava mais na pureza, ao que o mestre responde: \u201cA pressa.\u201d<\/p>\n<p>Sociedade alguma poder\u00e1 olhar a si pr\u00f3pria no espelho e dizer-se justa enquanto suas estruturas reproduzirem rela\u00e7\u00f5es de poder que violentem pr\u00e1tica e simbolicamente a vida de seus cidad\u00e3os, sobretudo os mais vulner\u00e1veis. Enquanto houver subjuga\u00e7\u00e3o, discrimina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o de mulheres, negros, homossexuais e minorias, haver\u00e1 pressa na luta pelo direito de existir na diferen\u00e7a e de participar da vida p\u00fablica em condi\u00e7\u00f5es de igualdade. Mas, em pol\u00edtica, conv\u00e9m n\u00e3o ignorar as armadilhas que o imperativo da a\u00e7\u00e3o imediata coloca. A pressa dos fins \u00e9 mais do que necess\u00e1ria. A pressa dos meios, o dogmatismo dos que pretendem lacrar o debate pol\u00edtico, arrisca a retrair, no interior do pr\u00f3prio campo progressista, o espa\u00e7o necess\u00e1rio ao pensamento.<\/p>\n<p><sup>[1]<\/sup>\u00a0 O texto pode ser lido em http:\/\/esquerdaonline.com.br\/2017\/01\/08\/sobre-o-lugar-de-fala\/<\/p>\n<p><sup>[2]<\/sup>\u00a0Agrade\u00e7o a S\u00e9rgio Martins por haver chamado a minha aten\u00e7\u00e3o para esse ponto.<\/p>\n<p><sup>[3]<\/sup>\u00a0Devo o argumento a Jos\u00e9 Eisenberg.<\/p>\n<p><sup>[4]<\/sup>\u00a0O que n\u00e3o significa abra\u00e7ar de modo ing\u00eanuo o elogio da mistura: quem quer que tenha lido a hist\u00f3ria que Gilberto Freyre conta sobre a escravid\u00e3o brasileira conhece bem os problemas desse elogio.<\/p>\n<p>http:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/pureza-e-poder\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ANTONIO ENGELKE &#8211;\u00a0Os paradoxos da pol\u00edtica identit\u00e1ria. 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