{"id":6454,"date":"2017-12-27T21:55:25","date_gmt":"2017-12-27T23:55:25","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=6454"},"modified":"2017-12-27T21:52:48","modified_gmt":"2017-12-27T23:52:48","slug":"os-economistas-do-sistema-tambem-tremem%ef%bb%bf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/12\/27\/os-economistas-do-sistema-tambem-tremem%ef%bb%bf\/","title":{"rendered":"Os economistas do sistema tamb\u00e9m tremem\ufeff"},"content":{"rendered":"<p><strong>Eleut\u00e9rio F. S. Prado &#8211;<\/strong>\u00a0Num curioso artigo, dois deles admitem \u2014 oh! \u2014 que o dom\u00ednio do capital financeiro provoca instabilidades e crises. Mas logo prop\u00f5em uma \u201csa\u00edda\u201d. Mudan\u00e7as? Nunca: que as sociedades salvem os bancos!<\/p>\n<p>Dois macroeconomistas consagrados na academia norte-americana, Olivier Blanchard e Lawrence Summers<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/destaques\/os-economistas-do-sistema-tambem-tremem\/#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, juntaram-se para escrever uma proposta de reformula\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas de pol\u00edtica e de regula\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e, talvez (isto n\u00e3o est\u00e1 claro), de mudan\u00e7a da macroeconomia atualmente ensinada nos cursos ditos\u00a0<em>mainstream<\/em>\u00a0de\u00a0<em>Economics<\/em>.<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/destaques\/os-economistas-do-sistema-tambem-tremem\/#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>\u00a0Eis o seu t\u00edtulo algo inesperado para os ac\u00f3litos:\u00a0<em>Repensando a pol\u00edtica de estabiliza\u00e7\u00e3o. De volta para o futuro<\/em>. Ao l\u00ea-la honestamente, um economista s\u00e9rio, mas n\u00e3o competente de acordo com os padr\u00f5es vigentes, n\u00e3o pode deixar de pensar que a macroeconomia neocl\u00e1ssica est\u00e1 completamente aturdida, inteiramente atarantada. Eis aqui um dos par\u00e1grafos que abrem o escrito:<\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 obvio, a crise for\u00e7ou os macroeconomistas a (re)descobrirem o papel e a complexidade do setor financeiro, assim como o perigo das crises financeiras. Mas o aprendizado tem de ir bem al\u00e9m; eis que os obriga a questionar uma s\u00e9rie de cren\u00e7as muito queridas. Os eventos dos \u00faltimos dez anos colocaram em quest\u00e3o, entre outras f\u00e9s, a presun\u00e7\u00e3o de que o sistema econ\u00f4mico estabiliza-se por si mesmo, e trouxeram de novo a quest\u00e3o de saber se choques tempor\u00e1rios podem ter efeitos permanentes, mostrando inclusive a import\u00e2ncia das n\u00e3o-linearidades. (Blanchard e Summers, 2017, p. 2).<\/p><\/blockquote>\n<p>Diante dessa declara\u00e7\u00e3o, algo parece bem certo: nada como a cr\u00edtica da pr\u00f3pria hist\u00f3ria para rebaixar a pretens\u00e3o de sabedoria dos economistas do sistema cuja arrog\u00e2ncia extrapola usualmente aquele m\u00ednimo de senso cr\u00edtico que \u00e9 inerente ao esfor\u00e7o cient\u00edfico, mesmo vulgar. Mas, ainda assim, essa cr\u00edtica n\u00e3o parece ter sido capaz de fazer com que eles aprendessem a raciocinar de modo rigoroso<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/destaques\/os-economistas-do-sistema-tambem-tremem\/#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>Veja-se: falar em n\u00e3o-linearidade recomenda que se pense o sistema econ\u00f4mico como um sistema din\u00e2mico que cont\u00e9m n\u00e3o apenas realimenta\u00e7\u00e3o negativa (ou seja, rendimentos decrescentes) tal como reza o consenso neocl\u00e1ssico, mas tamb\u00e9m realimenta\u00e7\u00e3o positiva (ou seja, rendimentos crescentes em escala). Ora, isto requer que se entenda o sistema econ\u00f4mico como um processo apenas descrit\u00edvel, em primeiro lugar, por meio de sistemas din\u00e2micos que operam fora e longe do equil\u00edbrio \u2013 e n\u00e3o basicamente por meio de modelos est\u00e1ticos, os quais pressup\u00f5em (sem prova, \u00e9 claro) que este equil\u00edbrio seja est\u00e1vel e fortemente atraente. A virada que querem dar deveria implicar, portanto, que n\u00e3o se deveria mais pensar o sistema econ\u00f4mico real como um sistema teoricamente est\u00e1vel, que flutua apenas moderadamente porque recebe choques ex\u00f3genos.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 por essa senda que querem caminhar. Como se sabe, a tradi\u00e7\u00e3o \u00e0 qual pertencem abandonou totalmente no curso do \u00faltimo s\u00e9culo, na verdade antes ainda que o s\u00e9culo XX tivesse come\u00e7ado, a possibilidade de pensar o sistema econ\u00f4mico como um processo temporal que se move por impulsos end\u00f3genos. \u00c9 bem sabido que o medo p\u00e2nico de pensar o devir do sistema econ\u00f4mico a partir de suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es estruturais, as quais afloram fenomenalmente por meio de desequil\u00edbrios constantes, levou toda uma tradi\u00e7\u00e3o de economistas, a negar a verdadeira natureza desse sistema no plano do pensamento. Alarmados com as revela\u00e7\u00f5es incomodas da teoria cl\u00e1ssica, eles trabalharam duro na constru\u00e7\u00e3o de uma idealiza\u00e7\u00e3o que v\u00ea nesse sistema a harmonia, o funcionamento equilibrado, a realiza\u00e7\u00e3o do bem-estar. A partir da\u00ed passaram, ent\u00e3o, a se abrigar sob o teto de v\u00e1rias vers\u00f5es da teoria neocl\u00e1ssica e mesmo da teoria keynesiana \u2013 neste \u00faltimo caso, sob a cobertura de uma s\u00edntese devidamente despida, obviamente, de qualquer elemento cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio sistema econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Entretanto, o baque da crise de 2008, assim como a defla\u00e7\u00e3o das perspectivas de crescimento no futuro, deixou os macroeconomistas desse sistema bem atordoados. Eis como Blanchard e Summers explicam porque empregaram a express\u00e3o\u00a0<em>back to the future<\/em>:<\/p>\n<blockquote><p>Por que escolhemos adicionar \u201c<em>de volta para o futuro<\/em>\u201d no t\u00edtulo do artigo? Porque achamos que as li\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas a tirar da\u00a0<em>Grande crise financeira<\/em>\u00a0s\u00e3o similares \u00e0quelas alcan\u00e7adas pela revolu\u00e7\u00e3o keynesiana como resposta \u00e0\u00a0<em>Grande depress\u00e3o<\/em>. As economias podem ser afetadas por choques fortes e, por isso, n\u00e3o \u00e9 de se esperar que elas se estabilizem a si mesmas, automaticamente. N\u00e3o temos d\u00favida, na aus\u00eancia de respostas de pol\u00edtica fiscal e de pol\u00edtica monet\u00e1ria, a crise financeira teria produzido um resultado t\u00e3o ruim ou pior do que aquele observado na\u00a0<em>Grande depress\u00e3o<\/em>. Eis que as pol\u00edticas fortes de estabiliza\u00e7\u00e3o se afiguram, por isso, como essenciais. (Blanchard e Summers, 2017, p. 20).<\/p><\/blockquote>\n<p>Na verdade, n\u00e3o apenas passaram a se recordar de Keynes, mas tamb\u00e9m, junto com o pr\u00f3prio mercado financeiro, foram pragmaticamente despertados para as an\u00e1lises de Hyman Minsky. \u00a0Este economista p\u00f3s-keynesiano havia avisado \u201cpor d\u00e9cadas sobre as consequ\u00eancias do crescimento do risco financeiro\u201d; esse risco sempre existira, mas \u201co paradigma macroecon\u00f4mico prevalecente ignorava a possibilidade de crises financeiras\u201d (Blanchard e Summers, 2017, p. 5). Trata-se, sem d\u00favida, de uma confiss\u00e3o e tanto\u2026<\/p>\n<p>No artigo em que ventilam essas ideias, entretanto, n\u00e3o h\u00e1 qualquer an\u00e1lise do que produziu essa grande crise financeira. A raz\u00e3o prov\u00e1vel \u00e9 que eles a consideram como produto de um choque adverso e n\u00e3o como uma decorr\u00eancia de um processo de desequil\u00edbrio interno ao pr\u00f3prio movimento do sistema econ\u00f4mico. E sendo um choque, a culpa do evento s\u00f3 pode ser atribu\u00edda a falhas de governo, a erros de pol\u00edtica econ\u00f4mica\u2026 ou, talvez mesmo, \u00e0s manchas solares\u2026<\/p>\n<p>Ora, como se sabe, a macroeconomia convencional n\u00e3o apenas ignora o sistema financeiro, eis que ela ignora tamb\u00e9m o dinheiro enquanto tal. Eis que o considera apenas como meio de troca, algo neutro que n\u00e3o afeta essencialmente o funcionamento do sistema econ\u00f4mico. Ela o substitui por um instrumento idealizado que apenas facilita as trocas e que n\u00e3o tem jamais a fun\u00e7\u00e3o de meio de entesouramento e de meio de pagamento -e esta \u00faltima fun\u00e7\u00e3o, como se sabe, pressup\u00f5e o cr\u00e9dito; portanto, o sistema de cr\u00e9dito, que \u00e9 essencial para o funcionamento daquilo que chamam de\u00a0<em>market economy<\/em>. E \u00e9 essencial porque nele se move o capital de financiamento, o capital portador de juros, sem o qual o capital industrial \u2013 o capital que comanda a produ\u00e7\u00e3o de mercadorias reais \u2013 estaria severamente limitado em sua ambi\u00e7\u00e3o de obter lucros e mais lucros, insaciavelmente.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica da hist\u00f3ria e do pr\u00f3prio mal funcionamento do sistema da rela\u00e7\u00e3o de capital abriu os olhos dos macroeconomistas do sistema para aquilo que p\u00f3s-keynesianos e marxistas (alguns<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/destaques\/os-economistas-do-sistema-tambem-tremem\/#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>) chamam de financeiriza\u00e7\u00e3o do capitalismo. Agora, por isso, os seus olhos est\u00e3o bem arregalados, mas eles ainda n\u00e3o sabem bem o que fazer com essa impertinente intromiss\u00e3o da realidade na teoria econ\u00f4mica que, evidentemente, apesar de tudo, eles consideram como muito, muito, muito competente.<\/p>\n<p>Eles pressentiram, mas se mostram incapazes de compreender a muta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do capitalismo no correr dos anos ap\u00f3s a II Guerra Mundial. Eis que a \u201cera de ouro\u201d se transformou pouco a pouco na \u201cera da tina\u201d. Pois, o pr\u00f3prio desenvolvimento do capital industrial altamente concentrado e centralizado requereu o desenvolvimento do capital de financiamento e, assim, a enorme amplia\u00e7\u00e3o do setor financeiro. Eis que nesse processo ocorreu algo que fora previsto por Marx, qual seja, a emerg\u00eancia hist\u00f3rica de uma ampla socializa\u00e7\u00e3o do capital, do descolamento da propriedade do capital do capital em funcionamento. E isto se manifesta no fato inilud\u00edvel de que o poder de comando se encontra hoje concentrada nos agentes financeiros (bancos, seguradoras, etc.) \u2013 que manipulam os fundos de a\u00e7\u00f5es e de t\u00edtulos de v\u00e1rias esp\u00e9cies, assim como a emiss\u00e3o dinheiro de cr\u00e9dito e o financiamento em escala nacional e mundial \u2013 e n\u00e3o com os capitalistas industriais enquanto tais.\u00a0 Eis que, assim, deixou de predominar a l\u00f3gica do capital industrial na orienta\u00e7\u00e3o do sistema (D \u2013 M \u2013 D\u2019), passando a vigorar a l\u00f3gica do capital portador de juros (D \u2013 D\u2019).<\/p>\n<p>Ora, \u00e9 preciso ver que o pr\u00f3prio Minsky nunca deixou de considerar que a teoria tinha um papel crucial na compreens\u00e3o do sistema econ\u00f4mico, deste sistema que a\u00ed est\u00e1 e que ele chamava tamb\u00e9m pelo seu nome: capitalismo. Eis que a teoria \u2013 disse \u2013 pode funcionar \u201ccomo uma lente e como um tapa-olhos\u201d. Veja-se, pois, o que escreveu sobre o papel da teoria que domina entre os economistas:<\/p>\n<blockquote><p>No interior da teoria econ\u00f4mica padr\u00e3o atual, que \u00e9 usualmente chamada de s\u00edntese neocl\u00e1ssica, a quest\u00e3o \u201cpor que nossa economia \u00e9 t\u00e3o inst\u00e1vel\u201d \u00e9 simplesmente sem sentido. A teoria econ\u00f4mica padr\u00e3o n\u00e3o apenas impede a explana\u00e7\u00e3o da instabilidade como atributo do sistema, mas ela realmente n\u00e3o reconhece que ela \u00e9 end\u00f3gena e que consiste num problema que uma teoria satisfat\u00f3ria teria necessariamente de explanar. (Minsky, 2008, p. 109).<\/p><\/blockquote>\n<p>Mesmo se Blanchard e Summers n\u00e3o d\u00e3o indica\u00e7\u00e3o de que querem reformular radicalmente a teoria padr\u00e3o recebida, eles t\u00eam sugest\u00f5es pragm\u00e1ticas e amplamente triviais de como enfrentar os problemas trazidos pelas crises financeiras. Procuram apenas \u2013 e isto mostra bem o n\u00edvel da dupla \u2013 evitar as suas consequ\u00eancias que consideram como perversas. Para salvar os bancos, o sistema financeiro e, assim, o capitalismo, preveem que se faz necess\u00e1rio:<\/p>\n<blockquote><p>Um uso combinado de ferramentas de pol\u00edtica macroecon\u00f4mica tendo em vista reduzir os riscos e reagir mais agressivamente aos choques adversos. Uma pol\u00edtica monet\u00e1ria mais en\u00e9rgica que crie o espa\u00e7o necess\u00e1rio para arrostar os choques adversos (\u2026) prover liquidez generosa se e quando for necess\u00e1rio. Um uso pesado da pol\u00edtica fiscal como ferramenta de estabiliza\u00e7\u00e3o e uma atitude mais relaxada frente \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas. Uma regula\u00e7\u00e3o financeira mais ativa, sabendo que (\u2026) as pol\u00edticas macro prudenciais n\u00e3o eliminar\u00e3o os riscos financeiros. (Blanchard e Summers, 2017).<\/p><\/blockquote>\n<p>Para fazer melhor e para voltar de fato para o futuro, seja no plano da teoria seja no plano da pol\u00edtica econ\u00f4mica, eles teriam de retornar n\u00e3o apenas de modo estritamente superficial \u00e0\u00a0<em>Teoria Geral<\/em>\u00a0de Keynes e \u00e0 teoria da instabilidade financeira de Minsky, mas ao ano de 1776, bem distante agora, quando foi publicada pela primeira vez\u00a0<em>A riqueza das na\u00e7\u00f5es<\/em>. A\u00ed, sim, eles estariam sendo revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Quando Adam Smith, ainda no s\u00e9culo XVIII, escreveu que \u201co pre\u00e7o natural \u00e9 como que o pre\u00e7o central ao redor do qual continuamente est\u00e3o gravitando os pre\u00e7os de todas as mercadorias\u201d (Smith, 1983, p. 85), ele admitiu de modo expl\u00edcito a natureza intrinsecamente an\u00e1rquica e turbulenta do capitalismo. Quando ele disp\u00f4s em sua obra magna todo um cap\u00edtulo sobre o dinheiro como um setor espec\u00edfico do capital geral da sociedade, ele mostrou que j\u00e1 se preocupava com o seu papel na estabilidade do sistema econ\u00f4mico. A\u00ed, por exemplo, ele ponderou: \u201cimporta reconhecer, por\u00e9m, que o com\u00e9rcio e a ind\u00fastria do pa\u00eds, embora possam ser de certo modo ampliados por essas opera\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias, no global n\u00e3o desfrutam de tanta seguran\u00e7a, j\u00e1 que est\u00e3o, por assim dizer, suspensas nas asas de D\u00e9dalo<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/destaques\/os-economistas-do-sistema-tambem-tremem\/#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>\u00a0do papel-moeda\u201d (Smith, 1983, p. 277). \u00c9 claro, muita \u00e1gua j\u00e1 correu na correnteza da teoria econ\u00f4mica burguesa e do pr\u00f3prio capitalismo\u2026<\/p>\n<p>Para Minsky, que observa o sistema depois da II Guerra Mundial, \u201ca instabilidade \u00e9 um resultado do processo interno da economia capitalista\u201d (Minsky, 2008, p. 114). Entretanto, segundo ele, tal tend\u00eancia ao desbalanceamento n\u00e3o \u00e9 inerente ao sistema como um todo, mas apenas ao seu subsistema financeiro. Assim, primeiro ele diz que \u201co mecanismo de pre\u00e7o de uma economia capitalista descentralizada pode levar a resultados coerentes desde que esteja regrado por institui\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas adequadas. Para depois, completar: \u201ca interven\u00e7\u00e3o pode ser necess\u00e1ria embora se possa confiar no mecanismo de mercado para que tome conta dos detalhes\u201d (Minsky, 2008, p. 117). Donde prov\u00e9m, ent\u00e3o, a instabilidade end\u00f3gena do sistema? Adv\u00e9m daqueles mercados que supostamente n\u00e3o operam segundo o que denomina de princ\u00edpio de substitui\u00e7\u00e3o<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/destaques\/os-economistas-do-sistema-tambem-tremem\/#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>:<\/p>\n<blockquote><p>Se o princ\u00edpio de substitui\u00e7\u00e3o \u00e9 suficientemente forte, ent\u00e3o os mercados descentralizados s\u00e3o instrumentos confi\u00e1veis na aloca\u00e7\u00e3o de produtos para as fam\u00edlias e insumo para as empresas. Por\u00e9m, nos mercados de capitais e financeiros, nos quais os elementos conjecturais e especulativos s\u00e3o poderosos, o princ\u00edpio de substitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o funciona. Um aumento do pre\u00e7o relativo de algum conjunto de instrumentos financeiros ou de ativos de capital pode elevar a quantidade demandada desses mesmos instrumentos e ativos. Um aumento de pre\u00e7o pode alimentar as condi\u00e7\u00f5es que conduzem a um aumento subsequente. (Minsky, 2008, p. 117).<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 assim, pois, que esse autor p\u00f3s-keynesiano descreve a gera\u00e7\u00e3o de instabilidade no capitalismo. Ora, se ele a descreve, faz isso de um modo restritivo e, mesmo assim, sem explic\u00e1-la adequadamente. Para compreender melhor o problema \u00e9 preciso observar uma diferen\u00e7a crucial entre o circuito do capital industrial e o circuito do capital portador de juros, anotando desde logo que o pr\u00f3prio processo de acumula\u00e7\u00e3o do capital industrial gera, sim, tamb\u00e9m, instabilidade \u2013 e que isto j\u00e1 era perfeitamente conhecido nos albores do s\u00e9culo XIX. H\u00e1 muito tempo os epis\u00f3dios de superprodu\u00e7\u00e3o v\u00eam mostrando que h\u00e1 tamb\u00e9m n\u00e3o linearidade e realimenta\u00e7\u00e3o positiva na din\u00e2mica de acumula\u00e7\u00e3o do capital industrial \u2013 ainda que, talvez, n\u00e3o t\u00e3o intensos quanto aqueles que ocorrem na esfera da finan\u00e7a, do capital portador de juros.<\/p>\n<p>De qualquer modo, Minsky estabelece uma dicotomia: de um lado, tem-se o \u201csetor real\u201d que seria quase-est\u00e1vel \u2013 mas que se torna bem est\u00e1vel quando vem a ser bem gerenciado, isto \u00e9, quando passa a ser administrado pelos pr\u00f3prios economistas keynesianos \u2013 e, de outro, tem-se o \u201csetor financeiro\u201d que \u00e9 intrinsecamente inst\u00e1vel e que precisa ser constrangido fortemente por meio de regula\u00e7\u00e3o estatal. As conex\u00f5es entre o capital industrial e o capital portador de juros, assim, n\u00e3o s\u00e3o apreendidas corretamente nem no plano te\u00f3rico nem no plano da compreens\u00e3o hist\u00f3rica. \u00a0E isto permite manter a cren\u00e7a na perenidade do capitalismo.<\/p>\n<p>Quando o circuito do capital assume a forma D \u2013 M \u2013 D\u2019, o fetiche do capital industrial diz que ele pr\u00f3prio produz ou que ajuda a produzir o mais-valor, isto \u00e9, D\u2019 menos D; entretanto, nesse caso, a mem\u00f3ria de que essa produ\u00e7\u00e3o requer trabalho n\u00e3o pode ser suprimida. O capitalista industrial sabe perfeitamente que \u00e9 apenas por meio de um duro processo de produ\u00e7\u00e3o, o qual envolve sempre muito suor, alguma l\u00e1grima e mesmo sangue, que ele obt\u00e9m lucro.<\/p>\n<p>Ocorre algo diferente quando o circuito do capital assume a forma D \u2013 D\u2019. Agora, o fetiche do capital portador de juros parece dizer que o pr\u00f3prio dinheiro \u00e9 capaz de produzir mais dinheiro. Ora, se isto \u00e9 o que parece do ponto de vista do capitalista financeiro em particular \u2013 eis que agora n\u00e3o h\u00e1 mais qualquer mem\u00f3ria do trabalho \u2013, n\u00e3o \u00e9 verdade do ponto de vista do sistema capitalista como um todo. As a\u00e7\u00f5es, os t\u00edtulos privados e p\u00fablicos s\u00e3o apenas formas de capital fict\u00edcio, demandam remunera\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o comandam a produ\u00e7\u00e3o de valor. Por isso mesmo \u00e9 que o capital ganha certa autonomia formal de valoriza\u00e7\u00e3o na esfera financeira \u2013 ele \u201cpensa\u201d que n\u00e3o depende do trabalho, mas apenas de si mesmo para se valorizar<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/destaques\/os-economistas-do-sistema-tambem-tremem\/#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. \u00c9 esse fetiche, portanto \u2013 um absurdo real segundo Marx \u2013, que se encontra na base da especula\u00e7\u00e3o e da irracionalidade sempre observada nos mercados financeiros.<\/p>\n<p>Blanchard e Summers suspeitam que um certo desvairio \u00e9 inerente aos mercados financeiros; por isso, quase no final do artigo, n\u00e3o deixam de confessar: \u201cnenhuma regula\u00e7\u00e3o financeira ou pol\u00edtica macroprudencial eliminar\u00e1 os riscos financeiros\u201d (Blanchard e Summers, 2017, p. 21). Ora, eles deveriam concluir tamb\u00e9m, contra toda a tradi\u00e7\u00e3o que abra\u00e7am, que nenhuma combina\u00e7\u00e3o de pol\u00edtica econ\u00f4mica pode eliminar as crises do capitalismo.<\/p>\n<p>______________<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/destaques\/os-economistas-do-sistema-tambem-tremem\/#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0<em>\u00a0<\/em>Olivier Blanchard, entre outras posi\u00e7\u00f5es, atuou como economista-chefe do FMI; Larry Summers foi Secret\u00e1rio do Tesouro no governo Bill Clinton.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/destaques\/os-economistas-do-sistema-tambem-tremem\/#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>\u00a0Trata-se de um texto preparado para ser apresentado na abertura de um semin\u00e1rio sobre o tema \u201c<em>rethinking macro policy<\/em>\u201d, promovido pelo\u00a0<em>Peterson Institute for International Economics<\/em>\u00a0e realizado em outubro de 2017.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/destaques\/os-economistas-do-sistema-tambem-tremem\/#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u00a0N\u00e3o se deve confundir \u201crigoroso\u201d com \u201cexato\u201d. Pois, os economistas do sistema sabem, sim, construir modelos matem\u00e1ticos exatos, os quais eles pretendem que sejam \u2013 em geral n\u00e3o s\u00e3o \u2013 conceitualmente rigorosos. Ao contr\u00e1rio, a teoria econ\u00f4mica vulgar \u2013 aquela que apreende apenas os nexos externos entre os fen\u00f4menos \u2013 \u00e9 em geral conceitualmente frouxa.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/destaques\/os-economistas-do-sistema-tambem-tremem\/#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a>\u00a0Se o termo \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 usado para indicar o surgimento de uma anomalia na economia capitalista, ent\u00e3o, ele \u00e9 um equ\u00edvoco do ponto de vista marxista.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/destaques\/os-economistas-do-sistema-tambem-tremem\/#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a>\u00a0Como se sabe, na mitologia grega, D\u00e9dalo \u00e9 um arquiteto capaz de construir maravilhas (asas que permitem ao homem voar bem alto, por exemplo) e enormes desastres (uma queda fatal no ch\u00e3o, na terra ou no mar, para continuar o exemplo).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/destaques\/os-economistas-do-sistema-tambem-tremem\/#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a>\u00a0Segundo Minsky, \u201ceste princ\u00edpio estabelece que pre\u00e7os relativos altos tendem a desencorajar e pre\u00e7os relativos baixos tendem a encorajar o emprego da mercadoria ou servi\u00e7o apre\u00e7ado\u201d (2008, p. 117). Note-se que ele enxerga o desequil\u00edbrio pela demanda, mas deveria v\u00ea-lo pela oferta. Quando um capitalista ganha dinheiro com a venda de uma determinada mercadoria, ganancioso, ele pode sim, episodicamente, produzir um excesso crescente dessa mercadoria.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/destaques\/os-economistas-do-sistema-tambem-tremem\/#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a>\u00a0Na verdade, como se sabe, s\u00e3o os seus suportes \u201chumanos\u201d \u00e9 que pensam por ele; eis que eles internalizam na pr\u00f3pria subjetividade, com um certo esp\u00edrito de sacrif\u00edcio e n\u00e3o sem um certo tanto de alegria, a meta objetiva do pr\u00f3prio capital.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>Blanchard, Olivier; Summers, Lawrence \u2013\u00a0<strong>Rethinking stabilization policy. Back to the future.<\/strong>\u00a0Peterson Institute for International Economics, out. 2017.<\/p>\n<p>Minsky, Hyman P. \u2013\u00a0<strong>Stabilizing an unstable economy<\/strong>. New York: McGraw Hill, 2008.<\/p>\n<p>Smith, Adam \u2013\u00a0<strong>A riqueza das na\u00e7\u00f5es \u2013 Investiga\u00e7\u00e3o sobre sua natureza e suas causas<\/strong><em>.<\/em>\u00a0Volume I. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1983.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"srlYpP515h\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/os-economistas-do-sistema-tambem-tremem\/\">Os economistas do sistema tamb\u00e9m tremem<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Os economistas do sistema tamb\u00e9m tremem&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/os-economistas-do-sistema-tambem-tremem\/embed\/#?secret=EGYFXmcmdL#?secret=srlYpP515h\" data-secret=\"srlYpP515h\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eleut\u00e9rio F. S. Prado &#8211;\u00a0Num curioso artigo, dois deles admitem \u2014 oh! \u2014 que o dom\u00ednio do capital financeiro provoca instabilidades e crises. Mas logo prop\u00f5em uma \u201csa\u00edda\u201d. Mudan\u00e7as? Nunca: que as sociedades salvem os bancos! 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S. Prado &#8211;\u00a0Num curioso artigo, dois deles admitem \u2014 oh! \u2014 que o dom\u00ednio do capital financeiro provoca instabilidades e crises. Mas logo prop\u00f5em uma \u201csa\u00edda\u201d. Mudan\u00e7as? Nunca: que as sociedades salvem os bancos! 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