{"id":6370,"date":"2017-12-19T15:08:06","date_gmt":"2017-12-19T17:08:06","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=6370"},"modified":"2017-12-11T17:10:42","modified_gmt":"2017-12-11T19:10:42","slug":"a-dificil-decolagem-do-pib-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/12\/19\/a-dificil-decolagem-do-pib-brasileiro\/","title":{"rendered":"A dif\u00edcil decolagem do PIB brasileiro"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fernando Grossmann<\/strong> &#8211;\u00a0O crescimento residual de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no 2\u00ba trimestre\/2017 veio mais fraco do que o minguado 1,0% do trimestre anterior. No entanto, os economistas em geral est\u00e3o considerando (e comemorando efusivamente) o residual 0.2% como mais positivo que o minguado 1,0%.<\/p>\n<p>Justificam a euforia pelo fato do \u201cconsumo das fam\u00edlias\u201d ter \u201cexplicado\u201d mais a taxa. Quer dizer, o PIB sendo \u201cpuxado\u201d pelo consumo das fam\u00edlias seria um fato mais virtuoso do que o ocorrido no primeiro trimestre, \u201cpuxado\u201d pelo agroneg\u00f3cio e exporta\u00e7\u00e3o em geral.<\/p>\n<p>Lembrando que isso que os economistas chamam de \u201cconsumo das fam\u00edlias\u201d corresponde grosso modo ao que Marx\/Engels chama de\u00a0<strong>consumo individual<\/strong>. Consiste principalmente de bens de consumo (agr\u00edcolas e industriais). Diferencia-se qualitativamente do\u00a0<strong>consumo do capital<\/strong>\u00a0(insumos, m\u00e1quinas, mat\u00e9rias primas, etc.)<\/p>\n<p>Mas o problema \u00e9 o seguinte: qual o folego do consumo das fam\u00edlias para recuperar e sustentar um novo ciclo de expans\u00e3o? Os economistas voltam a falar fino quando se coloca as coisas nestes termos. Sabem, pelo menos sua parte menos grosseira, que o folego de uma recupera\u00e7\u00e3o puxada unicamente pelo consumo das fam\u00edlias \u00e9 muito curto. Voo de galinha.<\/p>\n<p>Um economista que se preza n\u00e3o se deixa guiar pela ilus\u00e3o meramente cont\u00e1bil da chamada\u00a0<em>Macro Economia<\/em>\u00a0de que \u201co consumo das fam\u00edlias representa 60% do PIB\u201d. Essa desajeitada contabilidade da demanda pelo \u201cproduto\u201d, que n\u00e3o deve ser confundido com produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o quer dizer absolutamente nada para o problema que \u00e9 colocado.<\/p>\n<p>Mesmo at\u00e9 o economista mais tacanho sabe que se n\u00e3o ocorrer uma recupera\u00e7\u00e3o do investimento dos capitalistas da ind\u00fastria, e, portanto, do crescimento da demanda por for\u00e7a de trabalho, o mercado de trabalho continuar\u00e1 sendo a \u00e2ncora da atual estagna\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>A taxa de desemprego da for\u00e7a de trabalho pode at\u00e9 n\u00e3o disparar, porem ela tende a estacionar em um patamar muito alto, em torno de 11 a 13%. Isso coloca outro efeito colateral da estagna\u00e7\u00e3o: a massa salarial que circula na economia vai permanecer relativamente constante, sendo reproduzida meramente pelo crescimento da popula\u00e7\u00e3o ocupada em pari passu com a oferta de trabalhadores.<\/p>\n<p>O elevado desemprego e a baixa massa salarial est\u00e3o na base do folego curto do consumo das fam\u00edlias que estamos a diagnosticar. \u00c9 seu limite real. Se a massa salarial nominal vai permanecer constante, a explica\u00e7\u00e3o de seu crescimento, ou aumento do poder aquisitivo dos trabalhadores, s\u00f3 vir\u00e1 pelo lado do n\u00edvel de pre\u00e7os.<\/p>\n<p>Assim, a hip\u00f3tese a ser considerada \u00e9 que a abrupta queda do n\u00edvel de pre\u00e7os (desinfla\u00e7\u00e3o) nos \u00faltimos trimestres explica boa parte do aumento do poder aquisitivo das fam\u00edlias. Mesmo com elevado desemprego da for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p>Mas isso \u00e9 passageiro. Acontece que s\u00f3 o \u201cefeito pre\u00e7o\u201d tem um limite muito estreito para dinamizar o consumo das fam\u00edlias. O n\u00edvel de pre\u00e7os tende a estabilizar e a infla\u00e7\u00e3o ao consumidor parar de cair. \u00c9 o mais prov\u00e1vel que ocorra nos pr\u00f3ximos trimestres. Um novo patamar de pre\u00e7os se impor\u00e1 na economia e aquele efeito inicial de \u201cganho de renda\u201d dos assalariados se diluir\u00e1.<\/p>\n<p>Mesmo com a defla\u00e7\u00e3o comendo solta (ou exatamente por causa dela) o limite do consumo individual em uma economia capitalista \u00e9, no final das contas, sua estreit\u00edssima rela\u00e7\u00e3o capital x sal\u00e1rio. \u00c9 por isso que, repetimos, no caso brasileiro atual, enquanto a estagna\u00e7\u00e3o da atividade produtiva de capital se refletir do mercado de for\u00e7a de trabalho, o consumo das fam\u00edlias ter\u00e1 folego curto.<\/p>\n<p>Nesse ponto surge o verdadeiro problema do consumo (ou subconsumo) das massas em uma sociedade capitalista. Um verdadeiro problema que \u00e9 mais de m\u00e9dio prazo. Quer dizer, um problema independente da pr\u00f3pria conjuntura c\u00edclica mundial. Uma conjuntura mundial, diga-se de passagem, ainda bastante favor\u00e1vel para os capitalistas brasileiros n\u00e3o verem sua economia afundar de vez.<\/p>\n<p>Para retomar seus investimentos, os capitalistas instalados no Brasil, n\u00e3o importa a nacionalidade ou origem do seu capital, necessitam impor um ajuste estrutural no custo do trabalho. Reformas necess\u00e1rias nas veias e art\u00e9rias do sistema.<\/p>\n<p>Reformas trabalhistas sucessivas para engendrar uma infernal rotatividade da for\u00e7a de trabalho nas linhas de produ\u00e7\u00e3o globalizadas. Garantia que os simulacros de contratos patr\u00e3o x empregado rebaixem os sal\u00e1rios nominais aos menores n\u00edveis imagin\u00e1veis.<\/p>\n<p>Reestrutura\u00e7\u00e3o sanguin\u00e1ria da lei capitalista da reprodu\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, quer dizer, do ex\u00e9rcito industrial de reserva. Sal\u00e1rio indiano (ou mexicano, dependendo do gosto do fregu\u00eas) para todos. J\u00e1 houve avan\u00e7os neste sentido. Esse \u00e9 o \u00fanico projeto pol\u00edtico poss\u00edvel aos capitalistas no Brasil para uma \u201cexpans\u00e3o chinesa\u201d sustent\u00e1vel. N\u00e3o h\u00e1 outra alternativa.<\/p>\n<p>\u00c9 matar ou morrer. Se os capitalistas brasileiros conseguissem essa fa\u00e7anha chinesa, os economistas que agora vibram com a ilus\u00e3o do consumos das fam\u00edlias como motor da expans\u00e3o poderiam realmente estourar suas champanhes. O problema \u00e9 que isso s\u00f3 pode acontecer, como vimos acima, no m\u00e9dio prazo. E, no m\u00e9dio prazo, parafraseando seu guru Keynes, eles j\u00e1 poder\u00e3o estar todos mortos.<\/p>\n<p>http:\/\/criticadaeconomia.com.br\/a-dificil-decolagem-do-pib-brasileiro\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando Grossmann &#8211;\u00a0O crescimento residual de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no 2\u00ba trimestre\/2017 veio mais fraco do que o minguado 1,0% do trimestre anterior. No entanto, os economistas em geral est\u00e3o considerando (e comemorando efusivamente) o residual 0.2% como mais positivo que o minguado 1,0%. 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