{"id":6247,"date":"2017-12-11T09:48:51","date_gmt":"2017-12-11T11:48:51","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=6247"},"modified":"2017-12-06T12:52:14","modified_gmt":"2017-12-06T14:52:14","slug":"edward-palmer-thompson-uma-vida-extra-muros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/12\/11\/edward-palmer-thompson-uma-vida-extra-muros\/","title":{"rendered":"Edward Palmer Thompson: uma vida extra-muros"},"content":{"rendered":"<p><strong>Marcos Alvito<\/strong><em> &#8211;\u00a0<\/em>Edward Palmer Thompson (1924-1993) parece que veio ao mundo para ser dissidente. J\u00e1 no final da vida, em uma entrevista, diz \u00e0 rep\u00f3rter que gostava de uma pol\u00eamica<\/p>\n<p>Edward Palmer Thompson (1924-1993) parece que veio ao mundo para ser dissidente. J\u00e1 no final da vida, em uma entrevista, diz \u00e0 rep\u00f3rter que gostava de uma pol\u00eamica. Depois refaz a afirma\u00e7\u00e3o: \u201ceu gostava, n\u00e3o gosto mais\u201d. Por fim, j\u00e1 rindo, tem que admitir: \u201cna verdade, continuo gostando\u201d. Com o perd\u00e3o da express\u00e3o, era uma esp\u00e9cie de Che Guevara intelectual.<\/p>\n<p>Nasceu em Oxford mas formou-se em Cambridge. Seus pais eram mission\u00e1rios metodistas e aos dezoito anos ele j\u00e1 era filiado ao Partido Comunista da Gr\u00e3-Bretanha. Ao ingressar na Universidade de Cambridge participa com destaque do movimento estudantil. Interrompe os estudos para pilotar tanques e lutar na It\u00e1lia e na \u00c1frica durante a II Guerra Mundial. Seguia o exemplo do irm\u00e3o mais velho, Frank, que acabou morrendo na Bulg\u00e1ria, para onde tinha ido como volunt\u00e1rio lutar contra o fascimo. Seu pai, embora religioso, era um escritor engajado na luta contra o imperialismo brit\u00e2nico na \u00cdndia. Na verdade era um esp\u00edrito livre capaz de criticar tanto aos ingleses quanto aos indianos, sem falar da pr\u00f3pria religi\u00e3o, que em uma carta chegou a chamar de \u201ca maior peste do mundo\u201d (1). Surpreendente para um pastor\u2026<\/p>\n<p>Thompson admite ter herdado esta postura inconformista do seu ambiente familiar:<\/p>\n<p>\u201cCresci com a convic\u00e7\u00e3o de que todos os governos s\u00e3o esp\u00farios e imperialistas, e acreditando que a postura de um indiv\u00edduo deva ser sempre hostil ao governo\u201d (2)<\/p>\n<p>Assim que termina a guerra alista-se como volunt\u00e1rio (junto com muitos outros jovens ingleses) para participar da constru\u00e7\u00e3o da \u201cFerrovia da Juventude\u201d na Iugosl\u00e1via. Foi ali que conheceu sua futura mulher, a tamb\u00e9m historiadora Dorothy Thompson, em uma atmosfera de trabalho pesado (usavam instrumentos rudimentares), congra\u00e7amento e muita cren\u00e7a na possibilidade de mudar o mundo.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s retornar, vai trabalhar no Departamento de Cursos \u201cextra-muros\u201d da Universidade de Leeds, no norte da Inglaterra, uma regi\u00e3o de forte tradi\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria. \u00c9 interessante analisarmos o nome do departamento: \u201cextra-muros\u201d. Sem d\u00favida deriva da Idade M\u00e9dia, onde as universidades eram enclaves protegidos. Mas transmite muito bem a ideia ainda dominante de uma academia fechada em si mesma, avessa ao \u201cmundo l\u00e1 fora\u201d. Por exemplo, \u00e0 \u00e9poca a Universidade de Warwick havia feito um conv\u00eanio com uma associa\u00e7\u00e3o educacional oper\u00e1ria. Sendo assim, os alunos de Thompson no curso noturno eram gente do povo, donas de casa, funcion\u00e1rios, sindicalistas, professores de segundo grau e sobretudo trabalhadores. Nem todos os professores estavam de acordo com esta pol\u00edtica de abertura dos port\u00f5es da academia. Conta-se que numa das primeiras reuni\u00f5es de departamento frequentada por Thompson ele respondeu ao ser perguntado pelos seus prop\u00f3sitos: \u201cformar revolucion\u00e1rios\u201d. Ganhou dois aliados e a desconfian\u00e7a do restante do departamento, inclusive do diretor, que n\u00e3o via com bons olhos o conv\u00eanio com a Associa\u00e7\u00e3o Educacional dos Trabalhadores.<\/p>\n<p>O interessante \u00e9 que Thompson dava aula de Literatura e Hist\u00f3ria. Seu primeiro livro, na verdade, \u00e9 uma an\u00e1lise do escritor, artista e socialista ut\u00f3pico do s\u00e9culo XIX, William Morris. Este amor \u00e0 literatura era algo comum entre os historiadores marxistas brit\u00e2nicos: al\u00e9m de Thompson, Hobsbawm, Christopher Hill e Raymond Williams entre outros compartilhavam esta paix\u00e3o. Na verdade, Thompson deu enorme valor \u00e0s fontes liter\u00e1rias no seu trabalho, como lembra Christopher Hill (3)<\/p>\n<p>\u201cComo Karl Marx, Thompson caminhou na contracorrente ao usar a literatura como fonte para a hist\u00f3ria social e econ\u00f4mica (\u2026) Quem &#8211; sen\u00e3o Thompson &#8211; citaria Chaucer, Tristam Shandy, Wordsworth, Dickens e os poetas do s\u00e9culo XVIII Stephen Duck e Mary Collier em uma artigo sobre \u2018Tempo, disciplina de trabalho e capitalismo industrial\u2019?\u201d<\/p>\n<p>Thompson leciona durante dezenove anos no curso noturno para trabalhadores em Leeds, dos 22 aos 41 anos. Alto, esguio, bonito e cheio de energia, \u00e9 lembrado por carinho por seus alunos, que elogiavam sua capacidade de faz\u00ea-los sentir que os assuntos dos quais ele tratava tinham rela\u00e7\u00e3o com a vida desses alunos. Thompson, por sua vez, aprendia muito com os alunos, com a experi\u00eancia concreta da classe oper\u00e1ria, algo que seria muito importante para a elabora\u00e7\u00e3o da sua obra-prima The making of the English Working Class. Nas palavras do pr\u00f3prio em um relat\u00f3rio acerca das atividades escolares de 1948-9:<\/p>\n<p>\u201cDe modo geral, o tutor acredita ter aprendido mais o que ele transmitiu \u2026 e apesar de alguns erros iniciais, a classe aprendeu a trabalhar no esp\u00edrito desejado na WEA [Worker\u2019s Educational Association &#8211; Associa\u00e7\u00e3o Educacional dos Trabalhadores] \u2013 n\u00e3o como o tutor e a audi\u00eancia passiva, mas como um grupo combinando diversos talentos e fundindo diferentes conhecimentos e experi\u00eancias para um fim comum.\u201d (4)<\/p>\n<p>Um dos seus alunos na d\u00e9cada de 50, Peter Thorton, explica como eram as aulas:<\/p>\n<p>\u201cAs aulas de Edward Thompson \u2026 tinham esse efeito de fazer com que voc\u00ea percebesse que a hist\u00f3ria n\u00e3o era algo separado e a parte; ela era uma progress\u00e3o da qual voc\u00ea era parte. Eu sempre sentia isso. E quando ele tratava de coisas como os tecel\u00f5es manuais de Yorkshire, os ludistas, o desenvolvimento social da revolu\u00e7\u00e3o industrial nesta parte do mundo, voc\u00ea muito rapidamente percebia o quanto voc\u00ea e a sua gente eram parte daquilo.\u201d (5)<\/p>\n<p>Al\u00e9m de professor dedicado, ao mesmo tempo rigoroso e gentil, Thompson continua no Partido Comunista da Gr\u00e3-Bretanha, inclusive tendo um posto na dire\u00e7\u00e3o da sua regi\u00e3o. Em 1956, todavia, ele acabar\u00e1 se desligando do partido. Quando os crimes de Stalin s\u00e3o denunciados por Nikita Kruschev, Thompson e seu amigo John Saville editam um jornal mimeografado criticando a postura do partido. S\u00e3o convidados a sair. Ele tinha 42 anos. A partir da\u00ed forma juntamente com companheiros a New Left ou Nova Esquerda Brit\u00e2nica, origem da revista New Left Review. Marxista convicto, Thompson definia-se como um \u201csocialista humanista\u201d. Sair do partido n\u00e3o significava abrir m\u00e3o do sonho e da luta pela transforma\u00e7\u00e3o social, muito pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mas o fato que ir\u00e1 mudar definitivamente a vida de Edward Palmer Thompson ser\u00e1 a publica\u00e7\u00e3o, em 1963, de The making of the English Working Class, qualificado por Hobsbawm como um vulc\u00e3o hist\u00f3rico em erup\u00e7\u00e3o de 848 p\u00e1ginas. At\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o deste livro, Thompson s\u00f3 era conhecido nos restritos c\u00edrculos da esquerda brit\u00e2nica. O historiador Sergio Silva nos d\u00e1 uma ideia da import\u00e2ncia e do impacto pol\u00eamico de The Making (6):<\/p>\n<p>\u201c [Thompson] escreve um livro para desmentir nada mais, nada menos que uma das teses mais importantes e conhecidas de O capital. Para Thompson, o proletariado n\u00e3o seria um resultado da industrializa\u00e7\u00e3o\u201d<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que Marx n\u00e3o chegou a concluir O Capital. Ficou faltando, exatamente, um prometido volume sobre as classes sociais. De qualquer forma, para Sergio Silva, em O Capital Marx deriva a exist\u00eancia da classe oper\u00e1ria da l\u00f3gica de funcionamento do capital, ou seja, do modo-de-produ\u00e7\u00e3o capitalista e do pr\u00f3prio nascimento da burguesia. Para Thompson, ainda segundo Sergio Silva (7):<\/p>\n<p>\u201ca l\u00f3gica do capital (mesmo entendido como rela\u00e7\u00e3o social) n\u00e3o pode explicar o processo hist\u00f3rico real. Isso n\u00e3o significa, de maneira alguma, que, para ele, o processo hist\u00f3rico n\u00e3o tenha uma l\u00f3gica. Muito pelo contr\u00e1rio, ele entende justamente que somente a l\u00f3gica do processo pode explicar o desenvolvimento do capitalismo, o movimento do capital, a rela\u00e7\u00e3o capitalista de produ\u00e7\u00e3o\u201d<\/p>\n<p>De forma bem simples, podemos dizer que a classe oper\u00e1ria de Thompson n\u00e3o deriva mecanicamente de um modo-de-produ\u00e7\u00e3o abstrato e sim de um processo concreto, hist\u00f3rico, em que ela se constitui na luta de classes. A sua constitui\u00e7\u00e3o, o seu fazer-se a si pr\u00f3pria, n\u00e3o pode ser explicado somente pelo econ\u00f4mico, mas tem que levar em considera\u00e7\u00e3o as tradi\u00e7\u00f5es, valores, costumes. N\u00e3o h\u00e1 mais fronteira entre infra e super-estrutura, n\u00e3o h\u00e1 determina\u00e7\u00e3o nem em primeira nem em \u00faltima inst\u00e2ncia. Thompson liberta o marxismo da pris\u00e3o do economicismo.<\/p>\n<p>Do ponto de vista pol\u00edtico a tese de Thompson era pura dinamite. Tinha implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas profundas, pois a consci\u00eancia de classe da classe oper\u00e1ria era constru\u00edda pela mesma no decorrer das suas lutas, desautorizando aqueles (sobretudo os intelectuais do partido) que se acreditavam em condi\u00e7\u00f5es de servir de farol a iluminar os caminhos dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio daqueles que buscam em Marx os elementos para contradizer o pr\u00f3prio Marx, Thompson n\u00e3o teve medo de dizer que, em O Capital, Marx havia ca\u00eddo na armadilha do economicismo, cuja origem (esta sim em \u00faltima inst\u00e2ncia), deriva da ades\u00e3o \u00e0 l\u00f3gica do capital como a \u00fanica poss\u00edvel.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 um sucesso imediato, o que surpreende Thompson e Dorothy, acostumados a uma vida pacata de professores de curso noturno: estudar, cuidar da casa e dos filhos de dia e trabalhar \u00e0 noite, al\u00e9m da milit\u00e2ncia, \u00e9 claro. Thompson o escrevera como o resultado de dez anos de magist\u00e9rio, das conclus\u00f5es e quest\u00f5es a que chegara trabalhando com seus alunos. Ele escreve para eles e para os militantes, n\u00e3o pensa no mundo acad\u00eamico e a forma do livro, com seu texto ir\u00f4nico e sarc\u00e1stico, \u00e9 bastante her\u00e9tica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 camisa-de-for\u00e7a dos textos emanados das universidades.<\/p>\n<p>Apesar disso ou talvez exatamente por isso, Thompson ir\u00e1 alcan\u00e7ar renome mundial: na d\u00e9cada de 1980 chegou a ser o historiador brit\u00e2nico mais citado e um dos cem autores mais citados no mundo em todo o s\u00e9culo XX segundo o Arts and Humanities Citations Index (1976-1983).<\/p>\n<p>Em 1965, com 41 anos, recebe o seu primeiro convite para trabalhar \u201cintramuros\u201d na Universidade de Warwick, dirigindo um centro de pesquisa voltado para a Hist\u00f3ria Social. Ali desenvolve pesquisas sobre a Inglaterra no s\u00e9culo XVIII e forma uma gera\u00e7\u00e3o de historiadores como Peter Linebaugh e Douglas Hay, com quem publica Albion\u2019s Fatal Tree: Crime and Society in Eighteenth-Century England. A lua de mel com a academia, entretanto, dura pouco. Em 1971 sai da universidade depois que um grupo de alunos descobre que dire\u00e7\u00e3o pretendia expulsar um aluno por motivos pol\u00edticos. Thompson pede demiss\u00e3o e sai atirando: publica ainda naquele ano o livro Warwick University Limited, criticando a comercializa\u00e7\u00e3o da universidade. Nunca mais ele viria a ter um emprego regular em qualquer universidade. Hobsbawm tem certeza de que isto foi uma retalia\u00e7\u00e3o do establishment universit\u00e1rio \u00e0 rebeldia de Thompson.<\/p>\n<p>Eric Hobsbawm, ali\u00e1s, seu amigo e colega de longa data no grupo dos \u201chistoriadores\u201d Partido Comunista da Gr\u00e3-Bretanha, o define assim apesar das respeitosas pol\u00eamicas que travara com Thompson (9):<\/p>\n<p>\u201cAs fadas que o visitaram em seu ber\u00e7o (\u2026) trouxeram-lhe muitos dons: um poderoso intelecto aliado \u00e0 intui\u00e7\u00e3o de poeta, eloqu\u00eancia, amabilidade, charme, presen\u00e7a de esp\u00edrito, uma voz maravilhosa, uma admir\u00e1vel express\u00e3o dram\u00e1tica, que ficou grisalha e fendida com o passar do tempo, carisma e celebridade em profus\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 70, Thompson trabalhou por breves per\u00edodos em universidades norte-americanas e continuou sua atividade pol\u00edtica, travando ferozes debates no interior do Partido Trabalhista, no qual ingressara a contragosto (por achar necess\u00e1rio \u00e0 luta pol\u00edtica naquele momento). Faz cr\u00edticas sobretudo ao desrespeito \u00e0s liberdades civis. Mas tamb\u00e9m participa das pol\u00eamicas no seio do marxismo: em 1978 escreve A mis\u00e9ria da teoria &#8211; ou um planet\u00e1rio de erros, uma cr\u00edtica contundente ao marxismo estruturalista de Althusser ent\u00e3o na moda. De Althusser e seus seguidores diz o seguinte \u201c\u2026 todos eles s\u00e3o Geschichtenscheissenschlopff, merda a-hist\u00f3rica\u201d. \u00c9 neste contexto de disputa te\u00f3rica que deve ser inserido o texto \u201cFolclore, Antropologia e Hist\u00f3ria Social\u201d, origin\u00e1rio de uma palestra ministrada por Thompson na \u00cdndia em 1977 e que ser\u00e1 objeto de uma postagem. Neste mesmo ano, Thompson toma parte em um semin\u00e1rio onde exp\u00f5e suas diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 posi\u00e7\u00e3o estruturalista, para nossa alegria devidamente filmado e hoje dispon\u00edvel no Youtube.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1980 ele participa e logo torna-se o maior l\u00edder do movimento pacifista e anti-nuclear na Europa. Fazia com\u00edcios inflamados nos parques de Londres, atraindo multid\u00f5es. Ao fim da d\u00e9cada de 80 volta a lecionar em universidades, novamente nos Estados-Unidos mas tamb\u00e9m na Inglaterra (Manchester). Nos \u00faltimos anos de vida, j\u00e1 doente, dedica o pouco tempo que lhe restava a preparar publica\u00e7\u00f5es de textos escritos h\u00e1 muito tempo, o que redunda na publica\u00e7\u00e3o do important\u00edssimo Costumes em comum, entre outros livros. Al\u00e9m de livros de Hist\u00f3ria, ele escreveu livros de car\u00e1ter pol\u00edtico e militante (Writing by Candlelight p.ex.), um<a href=\"http:\/\/www.amazon.com\/The-Sykaos-Papers-E-P-Thompson\/dp\/0747503273\/ref=sr_1_29?s=books&amp;ie=UTF8&amp;qid=1332190257&amp;sr=1-29\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00a0livro<\/a>\u00a0de poemas e at\u00e9 mesmo um livro de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica: The Sykaos Papers<\/p>\n<p>Como diz Hobsbawm, Thompson morre aos 69 anos cuidando do seu jardim em Worcestershire. Dois anos antes ele consegue terminar a prepara\u00e7\u00e3o de Costumes em comum, adiada em duas d\u00e9cadas por conta das lutas pol\u00edticas em que se engajou. Na introdu\u00e7\u00e3o, escrita por um Thompson j\u00e1 debilitado pela doen\u00e7a, a for\u00e7a das suas ideias e do sonho com um outro mundo, todavia, continuam intactos :<\/p>\n<p>\u201cComo o capitalismo (ou seja, \u2018o mercado\u2019) recriou a natureza humana e as necessidades humanas, a economia pol\u00edtica e seu antagonista revolucion\u00e1rio passaram a supor que esse homem econ\u00f4mico fosse eterno. Vivemos o fim de um s\u00e9culo em que essa id\u00e9ia precisa ser posta em d\u00favida. Nunca retornaremos \u00e0 natureza humana pr\u00e9-capitalista; mas lembrar como eram seus c\u00f3digos, expectativas e necessidades alternativas pode renovar nossa percep\u00e7\u00e3o da gama de possibilidades impl\u00edcita no ser humano. Isso n\u00e3o poderia at\u00e9 nos preparar para uma \u00e9poca em que se dissolvessem as necessidades e expectativas do capitalismo e do comunismo estatal, permitindo que a natureza humana fosse reconstru\u00edda sob uma nova forma? \u00c9 poss\u00edvel que eu esteja querendo demais.\u201d<\/p>\n<p>O mais bonito nesta passagem, a meu ver, \u00e9 o uso particular que ele faz da express\u00e3o \u201cnatureza humana\u201d. \u00c9 claro que Thompson n\u00e3o acredita numa natureza humana fixa, eterna, imut\u00e1vel. O que ele est\u00e1 apontando de forma sutilmente ir\u00f4nica \u00e9 que a l\u00f3gica do mercado se enra\u00edza t\u00e3o profundamente na experi\u00eancia e na vis\u00e3o de mundo das pessoas que torna-se natural. Estudar outras \u00e9pocas, outros homens, outras experi\u00eancias, significa relativizar a l\u00f3gica sob a qual vivemos, por perceber que existe uma \u201cgama de possibilidades impl\u00edcita no ser humano\u201d. Para Thompson n\u00f3s poder\u00edamos nos reconstruir, ou melhor, n\u00f3s podemos ainda nos reconstruir \u201csob uma nova forma\u201d.<\/p>\n<p>Um pensamento assim, ao mesmo tempo rigoroso e po\u00e9tico, ut\u00f3pico e combativo, generoso e pol\u00eamico, n\u00e3o cabe dentro de muros.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong>:<\/p>\n<p>(1) PALMER,Bryan D. Edward Palmer Thompson: posi\u00e7\u00f5es e oposi\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 1996. p.35<\/p>\n<p>(2) Idem, ibidem, p.25<\/p>\n<p>(3) HILL,Christopher. In: THOMPSON,E.P. As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Campinas,Editora da Unicamp. p.5.<\/p>\n<p>(4) Peter Searby &amp; John Rule and Robert Malcolmson, \u201cEdward Thompson as a teacher: Yorkshire and Warwick\u201d, in J. Rule &amp; R. Malcolmson (eds.), Protest and survival. Essays for E. P. Thompson, London, The Merlin Press, 1993. p.14. Apud BADAR\u00d3, Marcelo, E. P. THOMPSON e a tradi\u00e7\u00e3o de cr\u00edtica ativa do materialismo hist\u00f3rico. Mimeo. p.24. (no prelo)<\/p>\n<p>(5) Idem, ibidem, p.17 apud BADAR\u00d3, opus cit. p.24.<\/p>\n<p>(6) SILVA,Sergio \u201cThompson, Marx, os marxistas e os outros\u201d In: THOMPSON,E.P. (2001) As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Campinas,Editora da Unicamp,2001.pp.60-61.<\/p>\n<p>(7) Idem, ibidem, p.63<\/p>\n<p>(8) Idem, ibidem, p.68<\/p>\n<p>(9) HOBSBAWM,E. \u201cE.P.Thompson\u201d In: THOMPSON,E.P. (2001) As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Campinas,Editora da Unicamp,2001.p.16<\/p>\n<p>(10) THOMPSON,Edward P. Costumes em comum. S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras, 1988. pp. 23-24.<\/p>\n<p>https:\/\/www.brasildefato.com.br\/content\/edward-palmer-thompson-uma-vida-extra-muros\/?referer=bdf_button_whatsapp<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcos Alvito &#8211;\u00a0Edward Palmer Thompson (1924-1993) parece que veio ao mundo para ser dissidente. 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