{"id":624,"date":"2016-06-17T12:50:18","date_gmt":"2016-06-17T15:50:18","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=624"},"modified":"2016-06-08T14:54:22","modified_gmt":"2016-06-08T17:54:22","slug":"a-escola-tem-um-papel-fundamental-para-romper-com-a-cultura-de-estupro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/06\/17\/a-escola-tem-um-papel-fundamental-para-romper-com-a-cultura-de-estupro\/","title":{"rendered":"A escola tem um papel fundamental para romper com a cultura de estupro"},"content":{"rendered":"<p><strong>MARS\u00cdLEA GOMBATA<\/strong> &#8211; Autores de &#8216;Diferentes, n\u00e3o desiguais \u2013 A quest\u00e3o de g\u00eanero na escola&#8217; defendem que escola inclua quest\u00f5es de g\u00eanero em seus planos pedag\u00f3gicos<\/p>\n<p>Em um <a href=\"http:\/\/www.cartaeducacao.com.br\/aulas\/medio\/o-assedio-e-a-violencia-de-genero\/\" target=\"_blank\">complexo de cren\u00e7as que encoraja a agress\u00e3o sexual masculina contra a mulher<\/a>, nossa sociedade abra\u00e7a \u201cuma cultura que condena e celebra o estupro\u201d, j\u00e1 alertava a feminista negra Bell Hooks, no livro Transforming a rape culture, de 1991. Ou seja, ao mesmo tempo em que condenamos a cultura do estupro, alimentamos-a ao colocar o corpo feminino como desej\u00e1vel e vulner\u00e1vel, como um objeto a ser consumido.<\/p>\n<p>A escola, nesse contexto, \u00e9 um importante papel para romper com esses valores, avaliam Michele Escoura, Beatriz Accioly Lins e Bernardo Fonseca Machado, que acabam de lan\u00e7ar o livro<em>Diferentes, n\u00e3o desiguais \u2013 A quest\u00e3o de g\u00eanero na escola<\/em> (Reviravolta\/ Cia. das Letras).<\/p>\n<p>\u201cUm ponto central da discuss\u00e3o \u00e9 que os <a href=\"http:\/\/www.cartaeducacao.com.br\/reportagens\/feministas-atravessam-cidade-por-aluna-de-escola-publica\/\" target=\"_blank\">meninos precisam ser ensinados a respeitar suas amigas<\/a>, e n\u00e3o as meninas serem proibidas de usar short. Se um garoto fica sem camisa, isso n\u00e3o se transforma em um risco \u00e0 integridade dele. Mas por que \u00e9 um risco para uma menina ela se\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cartaeducacao.com.br\/aulas\/medio\/como-o-abaixo-assinado-vai-ter-shortinho-sim-estimula-o-debate-nas-escolas\/\" target=\"_blank\">vestir com short curto<\/a>?\u201d, observa Michele, doutoranda no Programa de Ci\u00eancias Sociais da Unicamp. \u201cSe a escola \u00e9 o espa\u00e7o socialmente privilegiado para a reflex\u00e3o e os novos aprendizados, ent\u00e3o \u00e9 preciso considerar a inser\u00e7\u00e3o desse tema em seu curr\u00edculo\u201d.<\/p>\n<p>Afinal, observa Beatriz, desde crian\u00e7a somos bombardeados com a ideia de que meninos podem fazer determinadas coisas e meninas n\u00e3o. Que meninos s\u00e3o mais agressivos e corajosos, e meninas mais recatadas e delicadas. \u201c<a href=\"http:\/\/www.cartaeducacao.com.br\/reportagens\/por-que-e-tao-dificil-falar-de-genero-nas-escolas\/\" target=\"_blank\">As quest\u00f5es de g\u00eanero sempre estiveram dentro da escola<\/a>. De uma fila dividida entre meninos e meninas, a um menino ser proibido de chorar na frente dos colegas ou uma menina ser reprimida ou assediada por usar um short\u201d, pontua a doutoranda no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia Social da USP, que montou recentemente a Rede Feminista de Juristas feministas para auxiliar mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia de g\u00eanero. \u201cEstamos falando de regras de g\u00eanero que j\u00e1 est\u00e3o em pr\u00e1tica na escola. E queremos mostrar no livro que formas de dividir garotos e garotas vistas como \u2018naturais\u2019 est\u00e3o, na verdade, baseadas em desigualdades profundas que restringem muito possibilidades de aprendizado e acabam por reproduzir hierarquias\u201d.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m pesquisador no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia Social da USP e autor do livro, Machado afirma que o primeiro passo \u00e9 reconhecer que muitas escolas reproduzem e ensinam regras de g\u00eanero para, a partir da\u00ed, questionar: o que vamos ensinar sobre o que \u00e9 ser mulher ou ser homem? \u201cVamos continuar ensinando que meninos s\u00e3o insens\u00edveis, que os homens t\u00eam uma sexualidade incontrol\u00e1vel e, por isso, podem assediar as meninas?\u201d, contesta. \u201cVamos ensinar que se uma menina for assediada, a culpa \u00e9 do short que usa? Vamos continuar perdendo gera\u00e7\u00f5es de garotas que poderiam ser as novas melhores jogadoras de futebol do mundo?\u201d.<\/p>\n<p>Machado explica ainda que a escola, ao <a href=\"http:\/\/www.cartaeducacao.com.br\/entrevistas\/tirar-a-palavra-genero-nao-vai-suprimir-o-assunto-na-escola\/\" target=\"_blank\">falar de g\u00eanero<\/a>, n\u00e3o busca doutrinar as crian\u00e7as, mas proporcionar que pensem a respeito das diversas formas poss\u00edveis de ser. \u201cPrecisamos ampliar as possibilidades de aprendizagem das crian\u00e7as, apresentando, ent\u00e3o, aquilo que a sociedade n\u00e3o apresenta t\u00e3o automaticamente: outras cores, outros brinquedos, outras brincadeiras e outros pap\u00e9is\u201d, afirma ao lembrar que a escola n\u00e3o \u00e9 um lugar apenas de reafirma\u00e7\u00e3o de tudo o que j\u00e1 est\u00e1 no mundo, mas tamb\u00e9m de descobertas de coisas novas.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.cartaeducacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/capa.jpg?w=640\" \/><\/p>\n<p>No livro, lan\u00e7ado no s\u00e1bado 4, os autores fazem uma pesquisa interessante para o educador, ao trazerem um material sobre como o processo de industrializa\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XX fez com que professores homens fossem retirados das salas de aula e levados para postos de trabalho rec\u00e9m-criados nas f\u00e1bricas. Ou seja, o quadro que temos hoje de mulheres sendo a maioria entre professores \u00e9 resultado de um processo hist\u00f3rico, assim como a ideia de que as mulheres s\u00e3o mais apropriadas para o magist\u00e9rio ser fruto de uma constru\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Os autores lembram, por exemplo, que no in\u00edcio do s\u00e9culo XX mulheres brancas de classe m\u00e9dia e da elite n\u00e3o podiam assumir postos de trabalho fora do ambiente dom\u00e9stico e tinham de dar aten\u00e7\u00e3o apenas a temas como o cuidado da fam\u00edlia, a cria\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e a organiza\u00e7\u00e3o da casa. Com o n\u00famero de trabalhadores migrando das salas de aula para a ind\u00fastria, a associa\u00e7\u00e3o do of\u00edcio de magist\u00e9rio com as ideias de cuidado com as crian\u00e7as teria aberto caminho para as mulheres os substitu\u00edrem em sala de aula.<\/p>\n<p>Por serem mulheres de classes sociais mais elitizadas as que entraram na profiss\u00e3o em um primeiro momento, lembram, seus sal\u00e1rios eram baixos e considerados um dinheiro extra. \u201cA m\u00e3o de obra feminina seria apenas um \u2018refor\u00e7o\u2019 ao rendimento da fam\u00edlia, o que contribui para os baixos sal\u00e1rios de professoras e professores hoje, ao lado de fatores como o sucateamento do ensino p\u00fablico durante o regime militar\u201d, diz Michele.<\/p>\n<p>Na esfera econ\u00f4mica, o Censo do IBGE de 2010 mostra o resultado desse processo: educadoras recebem sal\u00e1rios em m\u00e9dia 28% inferior ao dos homens educadores, ainda que elas sejam respons\u00e1veis por ocupar 83% dos cargos. Na arena cultural, a frase de Paulo Maluf simboliza o pensamento por muito dominante: \u201cProfessora n\u00e3o \u00e9 mal paga, \u00e9 mal casada\u201d, dizia em 1981 o ent\u00e3o governador de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>\u00c9 contra essas heran\u00e7as, concluem os autores, que a escola deve ser encarada com um papel social de formar cidad\u00e3s e cidad\u00e3os reflexivos, cr\u00edticos e aptos a constru\u00edrem uma sociedade mais justa e aberta a novas estrat\u00e9gias poss\u00edveis. \u201cA primeira a\u00e7\u00e3o de grande import\u00e2ncia \u00e9 a inclus\u00e3o de temas como g\u00eanero e diversidade no Projeto Pol\u00edtico Pedag\u00f3gico da escola, que tem autonomia para construir seus princ\u00edpios e desenhar seus planos de a\u00e7\u00e3o\u201d, observa Beatriz, ao ressaltar a import\u00e2ncia da fam\u00edlia nessa constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cUma segunda etapa seria um esfor\u00e7o para forma\u00e7\u00e3o do corpo docente e da equipe t\u00e9cnica escolar com foco nisso. Muitas universidades sequer incluem o tema g\u00eanero e diversidade na grade obrigat\u00f3ria dos cursos de forma\u00e7\u00e3o e licenciatura. Outra frente seria com os pr\u00f3prios estudantes em sala de aula, ao estimular debates, pesquisas e usar qualquer <a href=\"http:\/\/www.cartaeducacao.com.br\/reportagens\/vida-sexual-de-estudantes-e-exposta-em-escolas-da-periferia\/\" target=\"_blank\">caso de discrimina\u00e7\u00e3o que ocorra dentro ou fora da sala<\/a> como oportunidade para retomar o assunto.\u201d<\/p>\n<p>http:\/\/www.cartaeducacao.com.br\/reportagens\/a-escola-tem-um-papel-fundamental-para-romper-com-a-cultura-de-estupro\/<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARS\u00cdLEA GOMBATA &#8211; Autores de &#8216;Diferentes, n\u00e3o desiguais \u2013 A quest\u00e3o de g\u00eanero na escola&#8217; defendem que escola inclua quest\u00f5es de g\u00eanero em seus planos pedag\u00f3gicos Em um complexo de cren\u00e7as que encoraja a agress\u00e3o sexual masculina contra a mulher, nossa sociedade abra\u00e7a \u201cuma cultura que condena e celebra o estupro\u201d, j\u00e1 alertava a feminista [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":625,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-624","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.8 - 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