{"id":6195,"date":"2017-12-06T09:29:34","date_gmt":"2017-12-06T11:29:34","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=6195"},"modified":"2017-12-03T12:31:59","modified_gmt":"2017-12-03T14:31:59","slug":"geracao-enfrenta-perspectiva-de-morte-solitaria-em-apartamentos-no-japao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/12\/06\/geracao-enfrenta-perspectiva-de-morte-solitaria-em-apartamentos-no-japao\/","title":{"rendered":"Gera\u00e7\u00e3o enfrenta perspectiva de morte solit\u00e1ria em apartamentos no Jap\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><b>NORIMITSU ONISHI &#8211;\u00a0<\/b>Como sabem todos os estudantes japoneses, as cigarras vivem embaixo da terra por anos antes de subirem \u00e0 superf\u00edcie no ver\u00e3o.<\/p>\n<p>Galgam a \u00e1rvore mais pr\u00f3xima, onde descartam sua casca e come\u00e7am suas segundas \u2014e curtas\u2014 vidas. Nos poucos dias que passam entre n\u00f3s, acasalam-se, voam e ciciam. Ciciam at\u00e9 que seus corpos s\u00e3o encontrados no ch\u00e3o, se contorcendo em seus momentos finais, ou ca\u00eddos de costas, com as patas apontando para cima.<\/p>\n<p>Chieko Ito odiava o alarido que elas causavam. As cigarras come\u00e7avam a ciciar, como sempre fazem no in\u00edcio do ver\u00e3o, e por semanas o barulho delas era muito alto, invadindo seu apartamento de terceiro andar e tornando todo sil\u00eancio imposs\u00edvel.<\/p>\n<div id=\"hidden-content\">\n<p>Quando uma esp\u00e9cie de cigarra se aquietava, outra come\u00e7ava a emitir seu ru\u00eddo caracter\u00edstico. E quando a presen\u00e7a dos insetos atingia seu pico, chuvas de cigarras moribundas ou mortas se abatiam sobre o grande complexo residencial em que ela vivia, e s\u00f3 paravam quando o ver\u00e3o chegava ao fim.<\/p>\n<p>Era a tarde de seu 91\u00ba anivers\u00e1rio, e um dia incomumente quente, parte de uma onde de calor que causou preocupa\u00e7\u00e3o entre os l\u00edderes da comunidade. Volunt\u00e1rios idosos percorriam o labirinto de trilhas para pedestres, distribuindo folhetos sobre os perigos da insola\u00e7\u00e3o \u00e0s muitas centenas de moradores como Ito, que vivem sozinhos em 171 edif\u00edcios brancos quase id\u00eanticos.<\/p>\n<p>Sem fam\u00edlias ou visitantes a receber, muitos dos moradores idosos passam semanas ou meses sem sair de seus pequenos apartamentos, revelando poucos sinais de sua exist\u00eancia ao mundo do outro lado de suas portas. E cada ano, alguns deles morrem sem que ningu\u00e9m saiba, at\u00e9 que vizinhos percebam o cheiro.<\/p>\n<p>Da primeira vez que isso aconteceu, ou pelo menos da primeira vez que isso atraiu a aten\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, o cad\u00e1ver de um homem de 69 anos que vivia perto de Ito passou tr\u00eas anos ca\u00eddo no ch\u00e3o de seu apartamento sem que ningu\u00e9m percebesse sua aus\u00eancia. Os pagamentos de seu aluguel e condom\u00ednio estavam em d\u00e9bito autom\u00e1tico.<\/p>\n<p>S\u00f3 quando seu saldo chegou a zero, em 2000, as autoridades foram ao apartamento e encontraram um esqueleto perto da cozinha; toda a subst\u00e2ncia do corpo havia sido consumida por vermes e besouros \u2014e isso a apenas alguns metros da porta de entrada do apartamento vizinho.<\/p>\n<p>O imenso complexo p\u00fablico de apartamentos onde Ito vive h\u00e1 quase 60 anos \u2014um dos maiores do\u00a0<a href=\"http:\/\/m.folha.uol.com.br\/mundo\/2017\/12\/1939753-imperador-akihito-ira-abdicar-do-trono-do-japao-em-30-de-abril-de-2019.shtml?mobile\" data-href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2017\/12\/1939753-imperador-akihito-ira-abdicar-do-trono-do-japao-em-30-de-abril-de-2019.shtml\">Jap\u00e3o<\/a>, e testemunha do baby boom acontecido nos anos do p\u00f3s-guerra e das aspira\u00e7\u00f5es japonesas a um estilo de vida moderno, parecido com o americano\u2014 subitamente se tornou not\u00f3rio por algo muito diferente: as &#8220;mortes solit\u00e1rias&#8221;, em uma sociedade que registra o envelhecimento mais r\u00e1pido do planeta.<\/p>\n<p>O ver\u00e3o costuma ser a esta\u00e7\u00e3o mais perigosa para esse tipo de morte, e Ito decidiu n\u00e3o correr riscos. Anivers\u00e1rio ou n\u00e3o, ela sabia que ningu\u00e9m telefonaria, deixaria um bilhete ou a visitaria. Nascida no ano final de reinado do imperador Taisho (1912-1926), Ito jamais imaginou que viveria por tanto tempo.<\/p>\n<p>Um a um, seus parentes e amigos se foram, ou se tornaram inv\u00e1lidos. Fantasmas, dos vivos e dos mortos, passaram a ocupar as dezenas de edif\u00edcios uniformes no complexo para o qual ela e o marido se mudaram em 1960, quando o Jap\u00e3o inteiro parecia jovem.<\/p>\n<p>Ito se sentia sozinha todos os dias, h\u00e1 um quarto de s\u00e9culo, ela disse, desde que sua filha e marido morreram de c\u00e2ncer, em tr\u00eas meses. Ela tamb\u00e9m tinha uma filha adotiva, mas as duas se distanciaram com o passar dos anos, trocando cart\u00f5es de Ano-Novo e ocasionais sauda\u00e7\u00f5es no per\u00edodo de festas.<\/p>\n<p>Por isso, Ito pediu um favor a uma vizinha no pr\u00e9dio da frente: que ela olhasse para as janelas de seu apartamento, do outro lado do gramado que separa os edif\u00edcios, uma vez por dia.<\/p>\n<p>A cada noite, \u00e0s 18h, antes de se recolher, Ito fechava a cortina de papel da janela. E a cada manh\u00e3, quando o despertador a acordava \u00e0s 5h40min, ela voltava a abrir a cortina. &#8220;Se voc\u00ea a vir fechada durante o dia&#8221;, ela disse \u00e0 vizinha, &#8220;vai saber que eu morri&#8221;.<\/p>\n<p>Ito se sentiu reconfortada quanto a vizinha aceitou o pedido, e a cada ver\u00e3o lhe enviava cestas de peras, como agradecimento por ela ficar de olho em suas janelas.<\/p>\n<p>Caso visse as cortinas fechadas durante o dia, deveria alertar as autoridades imediatamente. Tudo o mais havia sido calculado e planejado com anteced\u00eancia. No seu 90\u00ba anivers\u00e1rio, Ito preencheu um &#8220;formul\u00e1rio final&#8221;, colocando seus assuntos em ordem.<\/p>\n<p>Os formul\u00e1rios, que se tornaram populares no Jap\u00e3o, ajudam a garantir uma morte limpa e ordeira. Ito tamb\u00e9m deu de presentes as l\u00e1pides miniaturizadas que conservava no altar budista de sua fam\u00edlia \u2014algo que os japoneses consideram t\u00e3o precioso que \u00e9 a primeira coisa que pensam em salvar se houver um inc\u00eandio na casa.<\/p>\n<p>Coisas demais em seu apartamento a lembravam dos mortos. Havia os livros de bolso, centenas deles lotando as estantes, que o marido de Ito dizia que deveriam ser jogados fora quando ela terminasse de ler.<\/p>\n<p>O elegante gaveteiro entalhado que sua filha levara com ela ao se casar tamb\u00e9m estava l\u00e1, devolvido d\u00e9cadas atr\u00e1s, quando ela morreu ainda jovem. Dentro de um arm\u00e1rio estavam os livros que Ito mesma escreveu, entre os quais um relato seco e completo de sua vida no complexo residencial, em dois volumes, e uma autobiografia de 224 p\u00e1ginas, os dois conclu\u00eddos em um surto final de atividade.<\/p>\n<p>O calor n\u00e3o demorou a fazer suas primeiras v\u00edtimas. Na metade do ver\u00e3o, dois corpos j\u00e1 haviam sido localizados no complexo \u2014aparentemente v\u00edtimas de uma onda de calor prematura. A primeira morte aconteceu na se\u00e7\u00e3o de Ito: uma mulher percebeu o cheiro que emanava do apartamento abaixo. Inicialmente ela pensou que algu\u00e9m havia recebido uma entrega do peixe seco chamado kusaya.<\/p>\n<p>Mas o fedor se intensificou, e ela o sentia especialmente na sacada onde pendurava suas roupas lavadas. Nenhum dos vizinhos do homem, que morreu aos 67 anos, o conhecia, embora ele vivesse no apartamento h\u00e1 anos.<\/p>\n<p>O corpo do segundo homem foi encontrado dois dias depois. Uma vez mais, o cheiro se havia tornado t\u00e3o intenso que por tr\u00eas noites impediu o vizinho do apartamento de dormir. O homem era idoso, vivia ali h\u00e1 anos, e conversava com os vizinhos sobre flores de cerejeira, mas eles n\u00e3o sabiam seu nome.<\/p>\n<p>O interior de seu apartamento, vis\u00edvel por uma pequena janela de ventila\u00e7\u00e3o, estava coberto de lixo. Moscas varejeiras verdes voavam perto da janela.<\/p>\n<p>Os administradores do edif\u00edcio tentaram confinar o mau cheiro, bloqueando todas as frestas \u2014as soleiras das portas, as fendas para entrada de correspond\u00eancia, at\u00e9 mesmo os buracos de fechadura. Mas foi in\u00fatil. O fedor continuava a escapar, tomando escadarias, corredores e apartamentos.<\/p>\n<p>Ito se mantinha ocupada, e tentava n\u00e3o pensar a respeito. Fazia longas caminhadas fora do complexo, que se estende em leque por mais de 1,5 quil\u00f4metro, em um sub\u00farbio de T\u00f3quio. Ela registrava em seu celular o n\u00famero de passos caminhados, escrevia sutras budistas para sua filha por uma hora a cada manh\u00e3, e era parte de um grupo de volunt\u00e1rios que ajudava a manter as florestas locais limpas.<\/p>\n<p>A cada m\u00eas, participava dos almo\u00e7os de moradores, organizados para combater o isolamento e reduzir o risco de mortes solit\u00e1rias. Nesses encontros, ela desenvolveu uma rotina, e sempre se acomodava na mesma mesa, diante de um homem de pernas tr\u00eamulas e grande apetite, Yoshikazu Kinoshita. Os dois n\u00e3o poderiam ser mais diferentes \u2014os dias de Ito eram minuciosamente organizados, e ele s\u00f3 sa\u00eda da cama quando lhe desse na telha. Mas as conversas entre eles, que muita gente talvez descrevesse como papo furado, haviam adquirido significado profundo.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 assim que me aguento&#8221;, disse Ito sobre suas atividades.<\/p>\n<p>Ela falava rapidamente, em senten\u00e7as longas, de modo incomumente direto para uma pessoa de sua gera\u00e7\u00e3o. Mesmo nos momentos desconfort\u00e1veis, jamais buscava ref\u00fagio na opacidade do idioma japon\u00eas. E nas raras ocasi\u00f5es em que lhe faltavam palavras, ela guardava outras provas minuciosas da vida que viveu, catalogadas exaustivamente, por ano e por tema.<\/p>\n<p>Os \u00e1lbuns de fotografia em seu apartamento estavam repletos de imagens em branco e preto de fam\u00edlias jovens, como a dela. E encadernados em capas amarelas, com t\u00edtulos na caligrafia elegante de Ito, estavam os livros que ela escreveu, entre os quais suas recorda\u00e7\u00f5es, em dois volumes, sobre a vida no complexo residencial de Tokiwadaira.<\/p>\n<p>Nos anos 60, o governo japon\u00eas construiu grandes complexos habitacionais, nos sub\u00farbios de T\u00f3quio e de outras cidades, cada qual abrigando milhares dos jovens &#8220;salarymen&#8221; que tinham a miss\u00e3o de reconstruir a economia japonesa depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).<\/p>\n<p>Os complexos \u2014grandes cole\u00e7\u00f5es de edif\u00edcios ocupando \u00e1reas extensas e conhecidos como danchi\u2014 conduziram o Jap\u00e3o a uma estrutura de vida mais ocidental, centrada na fam\u00edlia nuclear, rompendo com a tradi\u00e7\u00e3o de grandes casas que abrigavam m\u00faltiplas gera\u00e7\u00f5es de uma mesma fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Os novos apartamentos eram vistos como cruciais para o renascimento do Jap\u00e3o, e impunham crit\u00e9rios rigorosos. Os sal\u00e1rios dos inquilinos de Tokiwadaira tinham de ser pelo menos 5,5 vezes mais altos que o valor do aluguel, garantindo que apenas as pessoas de sucesso conseguissem apartamentos.<\/p>\n<p>Eizo, o marido de Ito, trabalhava em uma das grandes ag\u00eancias de publicidade japonesa. Mas a disputa por uma vaga em um dos novos danchi era t\u00e3o feroz que o casal desistiu, depois de 13 tentativas. Mas um parente os inscreveu, sem inform\u00e1-los, para um apartamento ainda em constru\u00e7\u00e3o, em uma \u00e1rea rural uma hora a leste de T\u00f3quio.<\/p>\n<p>Os Ito chegaram em dezembro de 1960, no primeiro dia em que inquilinos foram autorizados a se mudar. Era um dia claro, promissor, e o Monte Fuji era vis\u00edvel ao longe, de sua sacada no terceiro andar. A filha adotiva do casal tinha quatro anos e, escreveu Ito, estava &#8220;t\u00e3o feliz que saiu correndo pelo apartamento, o que causou reclama\u00e7\u00e3o do vizinho do segundo andar&#8221;.<\/p>\n<p>Depois que Ito teve uma filha, dois anos mais tarde, uma rotina de fam\u00edlia se estabeleceu. O marido dela tomava um trem lotado para seu trabalho em T\u00f3quio, seis dias por semana.<\/p>\n<p>Ito lecionava na escolinha do complexo residencial, respondendo Grupo Tulipa de alunos de pr\u00e9-prim\u00e1rio. A popula\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as do danchi se expandiu, como a do restante do pa\u00eds. Em poucos anos, o n\u00famero de crian\u00e7as era t\u00e3o grande que aquela se tornou conhecida como a &#8220;segunda gera\u00e7\u00e3o baby boom&#8221;, no Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>A cada Ano-Novo, a fam\u00edlia vestia quimonos formais e tirava fotos. Tamb\u00e9m participavam de competi\u00e7\u00f5es esportivas anuais, um ritual da vida japonesa no qual pais e filhos competem em corridas e outras provas. No ver\u00e3o, Ito levava as filhas a uma das piscinas do danchi. Nas fotos, a piscina est\u00e1 sempre cheia de \u00e1gua, sempre repleta de jovens m\u00e3es em modestos mai\u00f4s, sempre lotada de crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Ito costumava olhar da janela, a janela protegida pelas cortinas de papel, para o parque infantil abaixo. As crian\u00e7as dos pr\u00e9dios em torno brincavam juntas ali, e seus gritos pareciam mais altos no ver\u00e3o. Hoje, ningu\u00e9m mais brinca. As crian\u00e7as desapareceram do complexo, e seus gritos de alegria foram substitu\u00eddos por irritantes sirenes de ambul\u00e2ncia, ouvidas com cada vez mais frequ\u00eancia.<\/p>\n<p>No livro, Ito divide sua vida no danchi em duas partes: a primeira come\u00e7a com seu casamento e termina 32 anos mais tarde, com a morte de seu marido e filha.<\/p>\n<p>Ela dava a impress\u00e3o de que sua vida \u2014sua vida verdadeira\u2014 havia terminado quando os dois morreram, especialmente sua filha, de quem frequentemente falava no presente. \u00c0s vezes, fazia piadas ou mostrava uma ponta de raiva quando a morte da filha era mencionada. Mas em geral, desviava o olhar e seguia em frente.<\/p>\n<p>A segunda parte da narrativa \u2014que leva o subt\u00edtulo &#8220;Minha Segunda Vida&#8221;\u2014 se concentra em amigos, viagens e nos acontecimentos do complexo habitacional. Velhas amizades s\u00e3o renovadas e novas amizades surgem, mas todas pessoas j\u00e1 se foram, e Ito ficou.<\/p>\n<p>Com a passagem das semanas, e com o ru\u00eddo das cigarras servindo de pano de fundo a todas as conversas, Ito chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que havia come\u00e7ado a escrever para romper a solid\u00e3o, para n\u00e3o esquecer. &#8220;Mesmo os acontecimentos infelizes&#8221;, ela disse. &#8220;De outra forma, tudo se perde para sempre&#8221;.<\/p>\n<p>Uma das melhores amigas de Ito se mudou para o complexo depois de enviuvar. Elas se encontraram na se\u00e7\u00e3o de congelados do supermercado, e a alegria do reencontro foi tamanha que nenhuma das duas se queixou do frio. &#8220;Depois disso, nos tornamos insepar\u00e1veis \u2014\u00e9 assim que sou&#8221;, disse Ito.<\/p>\n<p>Os anos se passaram. A amiga dela morreu, como outros amigos, dentro e fora do danchi. Sua irm\u00e3 come\u00e7ou a sofrer de dem\u00eancia senil. Um irm\u00e3o ficou confinado \u00e0 sua casa. Mesmo um irm\u00e3o mais mo\u00e7o tinha dificuldade para caminhar.<\/p>\n<p>&#8220;Estou sozinha h\u00e1 25 anos&#8221;, ela disse. &#8220;A culpa \u00e9 deles por terem morrido. Estou zangada&#8221;.<\/p>\n<p>No almo\u00e7o mensal dos moradores que vivem sozinhos, Ito, que comia pouco, come\u00e7ou a dar ao colega de mesa, Kinoshita, metade de seu prato, antes mesmo de come\u00e7ar a comer. Quando descobriu que ele gostava de ler, lhe emprestou alguns livros. Ele retribuiu emprestando livros a ela, e lhe dava chocolates.<\/p>\n<p>Um dia, ele a convidou para ir apanhar um livro em seu apartamento. &#8220;Foi quando eu descobri que o apartamento dele estava cheio de lixo&#8221;, ela disse.<\/p>\n<p>Kinoshita tinha 83 anos, Suas pernas perderam a for\u00e7a. Ele usava uma &#8220;cadeira de prata&#8221;, que empurrava adiante dele para servir como apoio. Sa\u00eda do apartamento talvez uma vez por semana.<\/p>\n<p>Depois que Ito viu o estado de seu apartamento, alertou os l\u00edderes da comunidade. Os homens enfraquecidos pela idade e doen\u00e7a que vivem sozinhos no danchi s\u00e3o os moradores mais vulner\u00e1veis. Ela descobriu que volunt\u00e1rios j\u00e1 estavam de olho em Kinoshita.<\/p>\n<p>A empresa dele, I Love Industry, que prestava servi\u00e7os em projetos de constru\u00e7\u00e3o subterr\u00e2neos \u2014mas era apenas &#8220;a cauda do camundongo&#8221;, segundo Kinoshita\u2014 havia florescido com o boom na constru\u00e7\u00e3o, dos anos 60 aos anos 90, quando os contratos de obras p\u00fablicas come\u00e7aram a escassear.<\/p>\n<p>Mas ele tamb\u00e9m desfrutou de um momento de gl\u00f3ria, ao qual ele se apegou da mesma forma que Ito se apegou a Tokiwadaira em seus livros. Durante a constru\u00e7\u00e3o do t\u00fanel sob o Canal da Mancha, ele forneceu a uma das construtoras envolvidas, a Kawasaki Heavy Industries, um equipamento \u2014um rolo para mangueira\u2014 usado para ajudar a perfurar o t\u00fanel no Estreito de Dover.<\/p>\n<p>Dessa incurs\u00e3o \u00e0 Europa, ele trouxe h\u00e1bito de usar alguns termos franceses em sua conversa, al\u00e9m do ingl\u00eas prec\u00e1rio que havia aprendido com um colega de universidade d\u00e9cadas antes.<\/p>\n<p>&#8220;Em Paris inteira eu ouvia &#8216;merci, madame'&#8221;, ele disse. &#8220;Mal podia esperar para voltar a T\u00f3quio e dizer merci, madame&#8221;.<\/p>\n<p>A amizade dele com &#8220;madame Ito&#8221; lhe deu energia, ainda que fosse ela que mais falasse. &#8220;Ela \u00e9 muito en\u00e9rgica. Eu mal consigo encaixar uma palavra&#8221;.<\/p>\n<p>O complexo residencial de Tokiwadaira promove h\u00e1 d\u00e9cadas uma festa de Bon (um festival budista em honra dos ancestrais), no \u00faltimo final de semana de agosto. As noites de final de ver\u00e3o j\u00e1 estavam perceptivelmente mais frias.<\/p>\n<p>Dias antes da festa, Ito recebeu um telefonema do amigo Kinoshita. Depois de ficar preso no apartamento por tanto tempo, ele mal podia esperar pela festa, e queria confirmar a presen\u00e7a de Ito. Ela havia deixado de ir \u00e0 festa depois que suas filhas cresceram. Quando o complexo abrigava muitas crian\u00e7as, a festa acontecia em uma grande pra\u00e7a, e n\u00e3o na pracinha onde acontece agora.<\/p>\n<p>As pessoas come\u00e7aram a chegar logo depois do p\u00f4r do sol. Dan\u00e7avam em c\u00edrculos em torno do palco montado no meio da pra\u00e7a, iluminada por lanternas de papel vermelhas e brancas.<\/p>\n<p>Kinoshita empurrou sua cadeira de prata lentamente por entre os convivas, e se acomodou em um banco sob uma \u00e1rvore. Quando apresentado a algu\u00e9m novo, ele disse, simplesmente: &#8220;S\u00f3 me resta o Eurotunnel&#8221;.<\/p>\n<p>Estava escurecendo. As cigarras, que servem como arautos do outono no Jap\u00e3o, estavam cantando. Perto do apartamento de Ito, no danchi, a porta do homem morto continuava isolada, mas o cheiro se recusava a desaparecer. Ainda mais adiante, para l\u00e1 da piscina vazia e do parque onde a filha dela costumava brincar, a janela de Ito era vagamente vis\u00edvel, na noite.<\/p>\n<p>A cortina de papel estava fechada, esperando que ela a abrisse pela manh\u00e3.<\/p>\n<p>http:\/\/m.folha.uol.com.br\/mundo\/2017\/12\/1939978-geracao-enfrenta-perspectiva-de-morte-solitaria-em-apartamentos-no-japao.shtml<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NORIMITSU ONISHI &#8211;\u00a0Como sabem todos os estudantes japoneses, as cigarras vivem embaixo da terra por anos antes de subirem \u00e0 superf\u00edcie no ver\u00e3o. Galgam a \u00e1rvore mais pr\u00f3xima, onde descartam sua casca e come\u00e7am suas segundas \u2014e curtas\u2014 vidas. Nos poucos dias que passam entre n\u00f3s, acasalam-se, voam e ciciam. 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