{"id":6191,"date":"2017-12-05T15:23:09","date_gmt":"2017-12-05T17:23:09","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=6191"},"modified":"2017-12-03T12:26:31","modified_gmt":"2017-12-03T14:26:31","slug":"um-vizinho-do-barulho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/12\/05\/um-vizinho-do-barulho\/","title":{"rendered":"Um vizinho do barulho"},"content":{"rendered":"<p><strong>Vicente Vilardaga<\/strong> &#8211; Era fim de tarde e chovia no acampamento do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) no bairro Assun\u00e7\u00e3o, nas imedia\u00e7\u00f5es da Via Anchieta, em S\u00e3o Bernardo do Campo. Guilherme Boulos, de 35 anos, coordenador nacional e um dos l\u00edderes da ocupa\u00e7\u00e3o, estava \u00e0s voltas com a filmagem de um document\u00e1rio sobre a hist\u00f3ria do MTST, que est\u00e1 completando 20 anos de exist\u00eancia. Dava uma entrevista sobre o movimento para a atriz S\u00f4nia Braga no palanque coberto instalado no ponto mais alto do terreno, diante do olhar atento da diretora Paula Lavigne. Falava de sua trajet\u00f3ria um tanto at\u00edpica, de menino de classe m\u00e9dia de S\u00e3o Paulo, filho de m\u00e9dicos, ex-aluno do col\u00e9gio Equipe, formado em filosofia pela USP, e de sua ades\u00e3o irrestrita e abnegada \u00e0 causa dos sem teto desde a juventude.<\/p>\n<p>Maestro de uma orquestra bem afinada, o MTST, que sustenta, h\u00e1 90 dias, uma ocupa\u00e7\u00e3o impressionante em S\u00e3o Bernardo, com oito mil pessoas, distribu\u00eddas em uma \u00e1rea de 70 mil quadrados, Boulos est\u00e1 sob os holofotes. N\u00e3o s\u00f3 pelo vigor e abrang\u00eancia de sua a\u00e7\u00e3o \u2013 h\u00e1 outras nove ocupa\u00e7\u00f5es bem sucedidas em andamento na regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo e dezenas em outros 14 estados \u2013, mas tamb\u00e9m pelo protagonismo que ele vem adquirindo nas discuss\u00f5es sobre a nova esquerda brasileira por meio da plataforma Vamos, da Frente Povo sem Medo, criada em 2015, que re\u00fane partidos pol\u00edticos, movimentos sociais e centrais sindicais. Desde agosto, Boulos participa de debates regularmente com ativistas de todo o pa\u00eds em busca de rumos para a esquerda, alternativas ao PT e vem se destacando pela qualidade do discurso e consist\u00eancia da pr\u00e1tica pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u201cO abismo social brasileiro \u00e9 indignante! O n\u00edvel de injusti\u00e7a que existe no pa\u00eds \u00e9 um neg\u00f3cio flagrante e entra na sua vida todos os dias das mais distintas formas\u201d, afirma. \u201cAs pessoas tentam se blindar com muros de condom\u00ednio, com carros blindados, com vidros fum\u00ea, as pessoas tentam fugir dessa realidade. Mas essa realidade se imp\u00f5e, insiste, se apresenta a todo momento e \u00e9 flagrante.\u201d<\/p>\n<p>Por meio da plataforma Vamos, que tem seus debates transmitidos ao vivo pela M\u00eddia Ninja, Boulos se aproximou de outra plataforma, a 342, liderada por Paula Lavigne, que re\u00fane artistas e uma parte significativa da classe intelectual. Da\u00ed vem o document\u00e1rio sobre o MTST que est\u00e1 sendo filmado, o show de Caetano Veloso na ocupa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Bernardo que foi cancelado no in\u00edcio do m\u00eas por ordem judicial e tamb\u00e9m um novo show que Caetano far\u00e1 dia 10 de dezembro no Largo da Batata, em Pinheiros, em comemora\u00e7\u00e3o ao anivers\u00e1rio do movimento.<\/p>\n<p>Boulos \u00e9 hoje um potencial candidato \u00e0 presid\u00eancia. Lula, que sempre contou com sua parceria, tenta demov\u00ea-lo da ideia. Ele pr\u00f3prio n\u00e3o descarta e nem confirma. Curiosamente, Boulos se nutre de for\u00e7as para novas jornadas eleitorais justamente nas terras de S\u00e3o Bernardo, campo santo de Lula e dos velhos movimentos sociais. J\u00e1 percebeu que surge como uma op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica jovem, que inspira uma imagem de lideran\u00e7a sem m\u00e1culas e com credibilidade para essa nova esquerda que est\u00e1 ajudando a construir.<\/p>\n<p>Boulos foi convidado pelo PSOL para ser candidato a presid\u00eancia pelo partido, mas acha cedo para tratar do assunto. \u201cEu tenho, isso \u00e9 verdade, uma excelente rela\u00e7\u00e3o com o PSOL, com muita gente do PSOL, melhor dizendo. De fato, houve um convite p\u00fablico de uma candidatura para a presid\u00eancia, isso repercutiu de algum modo na m\u00eddia, mas agora n\u00f3s n\u00e3o temos qualquer defini\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a isso\u201d, afirmou. \u201cN\u00e3o d\u00e1 para botar os carros na frente do boi. O foco agora \u00e9 nos processos de resist\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>S\u00edmbolo dessa resist\u00eancia, no caso, \u00e9 a ocupa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Bernardo, que tem um significado especial por ser em um maiores centros industriais do pa\u00eds, expondo os efeitos da crise econ\u00f4mica em suas entranhas. \u201cQueremos que essa ocupa\u00e7\u00e3o tenha um desfecho de conquista\u201d, disse. \u201cN\u00e3o \u00e9 apenas a disputa por um peda\u00e7o de terra. \u00c9 tamb\u00e9m isso. Mas se essa ocupa\u00e7\u00e3o for derrotada ser\u00e1 uma derrota para a luta social do Brasil\u201d. Tive, afinal, essa entrevista com Boulos na cozinha do barrac\u00e3o principal da ocupa\u00e7\u00e3o, comendo um prato cheio de arroz e feij\u00e3o com macarr\u00e3o e frango, uma hora depois dele conversar com S\u00f4nia Braga.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>\u201cAs pessoas est\u00e3o desempregadas, n\u00e3o conseguem mais pagar aluguel. A conta j\u00e1 n\u00e3o fecha no fim do m\u00eas. Todo fim do m\u00eas \u00e9 a escolha de pagar aluguel ou comprar o leite das crian\u00e7as.\u201d<\/p>\n<p>\u201cTem um ciclo que se encerrou na esquerda brasileira e \u00e9 preciso abrir um debate amplo, diverso, profundo, cr\u00edtico, sobre rumos. Nos \u00faltimos 30, 35 anos, o PT foi a for\u00e7a hegem\u00f4nica na esquerda, que construiu seu caminho com acertos e tamb\u00e9m com erros. No governo consagrou uma posi\u00e7\u00e3o, em especial nos governos do Lula, que foi de uma esp\u00e9cie de pactua\u00e7\u00e3o na sociedade brasileira que se traduziu num ganha-ganha. A parte de cima continuou a ganhar, houve lucros recordes de v\u00e1rios setores econ\u00f4micos. O problema \u00e9 que os privil\u00e9gios hist\u00f3ricos e as estruturas antidemocr\u00e1ticas do Estado Brasileiro n\u00e3o foram enfrentados como se deveria.\u201d<\/p>\n<p>\u201cAcho que o Lula tem direito de ser candidato. \u00c9 um absurdo querer resolver o processo eleitoral no tapet\u00e3o do judici\u00e1rio. Mas defender a candidatura do Lula n\u00e3o \u00e9 defender as posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do Lula\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEsse terreno aqui est\u00e1 h\u00e1 40 anos abandonado e deve 500 mil reais de IPTU. \u00c9 de uma construtora que n\u00e3o exercia a posse. Esse ponto a gente tem que notar.(\u2026) Propriedade abandonada s\u00f3 sendo usada para especula\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o cumpre fun\u00e7\u00e3o social, \u00e9 nosso alvo. O movimento vai mapear esses terrenos em situa\u00e7\u00e3o de abandono, sem fun\u00e7\u00e3o social e eles v\u00e3o ser escolhidos para ocupar.\u201d<\/p>\n<p>\u201cOs barracos s\u00e3o todos numerados. Cada um tem um endere\u00e7o dentro da ocupa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 divis\u00e3o de subgrupos. Cada subgrupo tem 400 barracos. Depois voc\u00ea faz um projeto de cadastramento. Ah, tem oportunista que quer levar vantagem? Todo lugar tem. Aqui n\u00e3o \u00e9 diferente. Tenho certeza de que aqui tem menos oportunista por metro quadrado do que no Congresso Nacional.\u201d<\/p>\n<p>\u201cQuanto \u00e0 vizinhan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 toda ela que se posiciona contra a ocupa\u00e7\u00e3o. Mas uma parte aqui agiu de maneira extremamente intolerante com o movimento, preconceituosa. Chegou a haver um epis\u00f3dio de um tiro. Um dos moradores do pr\u00e9dio pegou uma arma de press\u00e3o e atingiu o bra\u00e7o de uma pessoa, que teve que ir para o hospital, passou por uma cirurgia.\u201d<\/p>\n<p>\u201cA gente n\u00e3o vai sair daqui voluntariamente, tranquilamente, sem nada. As pessoas vieram aqui para lutar por um direito. Um direito que \u00e9 delas e que o Estado n\u00e3o assegura. N\u00e3o acho que v\u00e3o ter a inconsequ\u00eancia de realizar uma reintegra\u00e7\u00e3o de posse com essa propor\u00e7\u00e3o apostando em pol\u00edcia e porrada.\u201d<\/p>\n<p>\u201cCedo, na adolesc\u00eancia, eu fui come\u00e7ando a me dar conta talvez de que existia mais coisa no mundo do que a vida de algu\u00e9m de classe m\u00e9dia de S\u00e3o Paulo. Era uma coisa que n\u00e3o fechava para mim. Sentia inquietude, indigna\u00e7\u00e3o ao ver o abismo social brasileiro. O abismo social brasileiro \u00e9 indignante! Ele se apresenta no metr\u00f4, no \u00f4nibus na rua, no farol, em qualquer espa\u00e7o que voc\u00ea v\u00e1. E fugir dessa realidade n\u00e3o adianta.\u201d<\/p>\n<p>\u201cA maioria das pessoas se acostumou com uma forma de ver o mundo que invisibiliza os mais pobres \u2013 n\u00e3o entra no registro mental das pessoas. Ela olha mas n\u00e3o v\u00ea.\u201d<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 um abismo entre Bras\u00edlia e o Brasil. O que eles est\u00e3o armando, no subterr\u00e2neo, \u00e9 um barril de p\u00f3lvora. Isso est\u00e1 se traduzindo em \u00f3dio, em insatisfa\u00e7\u00e3o profunda, em mal estar, em indigna\u00e7\u00e3o que ainda n\u00e3o virou mobiliza\u00e7\u00e3o social. As pessoas cada vez menos enxergam a possibilidade de ter seus problemas resolvidos pela pol\u00edtica. Isso se traduz em antipol\u00edtica.\u201d<\/p>\n<p>\u201cA onda na qual surfa o Bolsonaro, que \u00e9 a onda da insatisfa\u00e7\u00e3o com a pol\u00edtica, \u00e9 tamb\u00e9m uma express\u00e3o da dificuldade da esquerda de construir novas alternativas.\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s fizemos a maior greve geral da hist\u00f3ria do pa\u00eds em abril. Um m\u00eas depois, em maio, n\u00f3s botamos 200 mil pessoas em Bras\u00edlia. Foi uma guerra na Esplanada dos Minist\u00e9rios. O Temer chamou as For\u00e7as Armadas para intervir. Houve lutas importantes no \u00faltimo per\u00edodo.\u201d<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>Parece haver uma atmosfera de satisfa\u00e7\u00e3o por aqui.<\/strong><\/p>\n<p>Movimento social se faz com alegria. \u00c9 um ingrediente fundamental. Movimento social sem alegria n\u00e3o dura muito. Vai um vinagrete?<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Aceito, obrigado. Essa ocupa\u00e7\u00e3o j\u00e1 tem 90 dias. O que ela representa? Fazia tempo que n\u00e3o tinha um deslocamento com tanta repercuss\u00e3o, caminhada de mais de 20 quil\u00f4metros at\u00e9 o Pal\u00e1cio do Governo, show do Caetano proibido\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Essa ocupa\u00e7\u00e3o ganhou mais visibilidade pelo local -estamos em um dos maiores centros industriais do pa\u00eds-, pelo tamanho -olha o tanto de gente-, e pela rapidez com que cresceu, que \u00e9 uma express\u00e3o direta da crise social do pa\u00eds . As pessoas est\u00e3o desempregadas, n\u00e3o conseguem mais pagar aluguel. A conta j\u00e1 n\u00e3o fecha no fim do m\u00eas. Todo fim do m\u00eas \u00e9 a escolha de pagar aluguel ou comprar o leite das crian\u00e7as. Mas esta ocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi a \u00fanica, s\u00f3 ganhou mais visibilidade. H\u00e1 poucos meses fizemos uma ocupa\u00e7\u00e3o em Guarulhos enorme, quase do tamanho dessa. Existem v\u00e1rias ocupa\u00e7\u00f5es acontecendo pelo pa\u00eds, que \u00e0s vezes n\u00e3o s\u00e3o percebidas pela m\u00eddia. \u00c9 um fen\u00f4meno que est\u00e1 se ampliando. Voc\u00ea tem hoje um crescimento progressivo das ocupa\u00e7\u00f5es urbanas no Brasil como agravamento da crise social e do corte brutal das pol\u00edticas p\u00fablicas. Minha Casa Minha Vida e as pol\u00edticas de habita\u00e7\u00e3o no pa\u00eds est\u00e3o secas. O governo praticamente esganou a faixa 1 de Minha Casa Minha Vida, que \u00e9 a faixa em que ela \u00e9 efetivamente programa social. O resto, as faixas 2 e 3 s\u00e3o linhas de cr\u00e9dito, s\u00e3o linhas de financiamento imobili\u00e1rio com uma condi\u00e7\u00e3o mais favor\u00e1vel. Para ter programa social tem que ter subs\u00eddio e o subs\u00eddio est\u00e1 efetivamente na faixa 1. E \u00e9 essa que foi mais prejudicada pelos cortes do governo Temer.<\/p>\n<p><strong>A crise est\u00e1 fortalecendo o MTST?<\/strong><\/p>\n<p>As pessoas est\u00e3o com menos alternativas. A crise est\u00e1 esgoelando o or\u00e7amento familiar de milh\u00f5es de pessoas no Brasil. E o aluguel \u00e9 um componente decisivo do or\u00e7amento familiar. Hoje, segundo dados do pr\u00f3prio IBGE, mais de 50% do d\u00e9ficit habitacional brasileiro \u00e9 o que eles chamam de \u00f4nus excessivo com aluguel. S\u00e3o fam\u00edlias que n\u00e3o t\u00eam como pagar aluguel a partir da renda que recebem. Ganham 900 reais por m\u00eas e pagam 600 ou 700 de aluguel. Isso \u00e9 imposs\u00edvel, invi\u00e1vel. N\u00e3o fecha a conta. E essa situa\u00e7\u00e3o, evidentemente, faz com que as ocupa\u00e7\u00f5es cres\u00e7am e o n\u00famero de ocupa\u00e7\u00f5es aumentem.<\/p>\n<p><strong>Como acontece uma ocupa\u00e7\u00e3o dessas? Como se decide ocupar uma determinada \u00e1rea?<\/strong><\/p>\n<p>O movimento tem n\u00facleos organizados em v\u00e1rias regi\u00f5es perif\u00e9ricas do pa\u00eds. A partir desses n\u00facleos o movimento identifica demandas de moradia em comunidades e regi\u00f5es. Olha, nessa regi\u00e3o tem muita gente precisando fazer ocupa\u00e7\u00e3o. Est\u00e3o sem teto. A partir da\u00ed, o MTST mapeia terrenos na regi\u00e3o. Esse terreno aqui, por exemplo, est\u00e1 h\u00e1 40 anos abandonado e deve 500 mil reais de IPTU. \u00c9 de uma construtora (MZM) que n\u00e3o exercia a posse. Propriedade abandonada s\u00f3 sendo usada para especula\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o cumpre fun\u00e7\u00e3o social, \u00e9 nosso alvo. O movimento vai mapear esses terrenos em situa\u00e7\u00e3o de abandono, sem fun\u00e7\u00e3o social e eles v\u00e3o ser escolhidos para ocupar. N\u00e3o sa\u00edmos ocupando qualquer coisa. Ningu\u00e9m vai entrar na sua casa, dividir um quarto. Esse tipo de mistifica\u00e7\u00e3o que se faz para gerar terrorismo em torno do movimento \u00e9 uma mentira.<\/p>\n<p><strong>Foram 500 pessoas que participaram da primeira fase da ocupa\u00e7\u00e3o, mas esse n\u00famero cresceu r\u00e1pido.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 para entrar com 2 mil, 3 mil pessoas num s\u00f3 dia porque \u00e9 muita gente. Fazemos uma ocupa\u00e7\u00e3o com um grupo de pessoas que j\u00e1 est\u00e1 mais pr\u00f3ximo do movimento. E depois, onde fomos fazer trabalho de base, dialogar com a pessoas, a gente passa naqueles lugares novamente e chega com o endere\u00e7o da ocupa\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 feito. E as pessoas chegam montando seus barracos. E depois tem um processo organizativo na ocupa\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea deve ter visto a\u00ed. Os barracos s\u00e3o todos numerados. Cada um tem um endere\u00e7o dentro da ocupa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 divis\u00e3o de subgrupos. Cada subgrupo tem 400 barracos. Depois voc\u00ea faz um projeto de cadastramento. Ah, tem oportunista que quer levar vantagem? Todo lugar tem. Aqui n\u00e3o \u00e9 diferente. Tenho certeza de que aqui tem menos oportunista por metro quadrado do que no Congresso Nacional.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-288\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/inconsciente-coletivo\/wp-content\/uploads\/sites\/646\/2017\/11\/2017-11-28-PHOTO-00000270.jpg?resize=640%2C640\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px\" srcset=\"http:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/inconsciente-coletivo\/wp-content\/uploads\/sites\/646\/2017\/11\/2017-11-28-PHOTO-00000270.jpg 1024w, http:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/inconsciente-coletivo\/wp-content\/uploads\/sites\/646\/2017\/11\/2017-11-28-PHOTO-00000270-150x150.jpg 150w, http:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/inconsciente-coletivo\/wp-content\/uploads\/sites\/646\/2017\/11\/2017-11-28-PHOTO-00000270-300x300.jpg 300w, http:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/inconsciente-coletivo\/wp-content\/uploads\/sites\/646\/2017\/11\/2017-11-28-PHOTO-00000270-768x768.jpg 768w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"640\" \/><\/p>\n<p><strong>O que seria oportunismo?<\/strong><\/p>\n<p>Oportunista que as pessoas dizem \u00e9 o cara que j\u00e1 tem casa e quer pegar outra para vender. Isso pode acontecer no come\u00e7o. Sim. Mas depois voc\u00ea vai fazer o cadastro, vai mapear, vai para o governo, o governo vai bater no banco de dados, o erro n\u00e3o dura muito tempo. O MTST tem um procedimento de seriedade na sua organiza\u00e7\u00e3o exatamente para que fiquem no movimento aqueles que efetivamente precisam.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 a infra-estrutura de esgoto, etc? Tudo parece limpo e organizado.\u00a0<\/strong><strong>Como voc\u00eas lidam com a vizinhan\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 precar\u00edssimo. Tem dois pontos de \u00e1gua para a ocupa\u00e7\u00e3o inteira. Tem fossas s\u00e9pticas onde as pessoas fazem suas necessidades. Mas \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o com infra-estrutura urbana muito prec\u00e1ria. Lixo a gente coloca na entrada na ocupa\u00e7\u00e3o e o caminh\u00e3o faz a coleta. A ocupa\u00e7\u00e3o como um todo n\u00e3o tem eletricidade, apenas os espa\u00e7os coletivos. Quanto \u00e0 vizinhan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 toda ela que se posiciona contra a ocupa\u00e7\u00e3o. Mas uma parte aqui agiu de maneira extremamente intolerante com a ocupa\u00e7\u00e3o, preconceituosa. Chegou a haver um epis\u00f3dio de um tiro. Um dos moradores do pr\u00e9dio pegou uma arma de press\u00e3o e atingiu o bra\u00e7o de uma pessoa, que teve que ir para o hospital, passou por uma cirurgia. Isso \u00e9 uma express\u00e3o de intoler\u00e2ncia. S\u00e3o os pitbulls que gente como o Bolsonaro, que gente como Malafaia solta por a\u00ed e que d\u00e1 nesse tipo de resultado.<\/p>\n<p><strong>E quantas pessoas trabalham, prestam servi\u00e7os volunt\u00e1rios aqui dentro?<\/strong><\/p>\n<p>Essa ocupa\u00e7\u00e3o tem oito mil pessoas ao todo. E centenas delas trabalham nas cozinhas coletivas, no apoio, na trilha, na infra-estrutura ajudando pessoas que tem mais dificuldade de construir barracos, construindo barrac\u00f5es coletivos. H\u00e1 os coordenadores que atuam no dia-a-dia organizando as coisas, fazendo listas de presen\u00e7a para saber quem est\u00e1 na ocupa\u00e7\u00e3o e quem n\u00e3o est\u00e1, resolvendo problemas o dia todo. S\u00e3o centenas de pessoas que doam seu tempo e sua energia para que essa ocupa\u00e7\u00e3o funcione bem. Aqui voc\u00ea tem coordenadores que vieram de outras ocupa\u00e7\u00f5es para dar apoio. Se tornaram militantes do movimento e ajudam a organizar aqui. E voc\u00ea tamb\u00e9m tem pessoas que vieram aqui querendo suas casas, continuam querendo suas casas, mas tamb\u00e9m contribuem na organiza\u00e7\u00e3o interna.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a sua atua\u00e7\u00e3o nessa ocupa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Sou um dos coordenadores nacionais do MTST e por isso atuo nessa ocupa\u00e7\u00e3o e em v\u00e1rias outras pelo pa\u00eds. Aqui tem um grupo de coordena\u00e7\u00e3o que resolve as quest\u00f5es mais cotidianas. Venho duas ou tr\u00eas vezes por semana. Tem muitas outras ocupa\u00e7\u00f5es. Na regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo, s\u00f3 ocupa\u00e7\u00f5es que est\u00e3o em terreno s\u00e3o oito ou nove. No pa\u00eds todo s\u00e3o dezenas. Existem ocupa\u00e7\u00f5es em que houve reintegra\u00e7\u00e3o de posse, os ocupantes j\u00e1 tomaram despejo, mas, em um processo de negocia\u00e7\u00e3o, ganharam um outro terreno onde est\u00e3o construindo suas casas. E a\u00ed s\u00e3o mais de 30 ocupa\u00e7\u00f5es que est\u00e3o nessa situa\u00e7\u00e3o, s\u00f3 em S\u00e3o Paulo. Ent\u00e3o \u00e9 um trabalho bem realizado. O MTST est\u00e1 em 14 Estados do Brasil hoje.<\/p>\n<p><strong>E voc\u00eas v\u00e3o ficar aqui at\u00e9 quando?<\/strong><\/p>\n<p>Essa pergunta n\u00e3o tem resposta. Depende de uma decis\u00e3o judicial e do processo de negocia\u00e7\u00e3o que est\u00e1 em curso. Nos n\u00e3o vamos sair daqui sem ter alguma conquista de moradia para as fam\u00edlias. A gente n\u00e3o vai sair daqui voluntariamente, tranquilamente, sem nada. As pessoas vieram aqui para lutar por um direito. Um direito que \u00e9 delas e que o Estado n\u00e3o assegura. Elas querem esse direito. N\u00e3o acho que v\u00e3o ter a inconsequ\u00eancia de realizar uma reintegra\u00e7\u00e3o de posse com essa propor\u00e7\u00e3o apostando em pol\u00edcia e porrada. A gente conhece a pol\u00edtica brasileira, viu o que aconteceu no Pinheirinho, mas seria uma inconsequ\u00eancia muito grande. Eu n\u00e3o creio que seja a atitude mais prov\u00e1vel hoje.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea \u00e9 um homem que veio da classe m\u00e9dia, estudante da faculdade de Filosofia da USP. Como voc\u00ea se integrou t\u00e3o bem nesse mundo que parece distante da sua realidade?<\/strong><\/p>\n<p>Cedo, na adolesc\u00eancia, eu fui come\u00e7ando a me dar conta talvez de que existia mais coisa no mundo do que a vida de algu\u00e9m de classe m\u00e9dia de S\u00e3o Paulo. Era uma coisa que n\u00e3o fechava para mim. Sentia inquietude e indigna\u00e7\u00e3o ao ver o abismo social brasileiro. O abismo social brasileiro \u00e9 indignante!. O n\u00edvel de injusti\u00e7a que existe no pais \u00e9 um neg\u00f3cio flagrante e entra na sua vida todos os dias das mais distintas formas. As pessoas tentam se blindar com muros de condom\u00ednio, com carros blindados, com vidros fum\u00ea, as pessoas tentam fugir dessa realidade. Mas essa realidade se imp\u00f5e, insiste, se apresenta a todo momento e \u00e9 flagrante. Ela se apresenta no metr\u00f4, no \u00f4nibus na rua, no farol, em qualquer espa\u00e7o que voc\u00ea v\u00e1. E fugir dessa realidade n\u00e3o adianta.<\/p>\n<p><strong>Mas a maioria das pessoas percebe isso, mas n\u00e3o parte para uma a\u00e7\u00e3o efetiva.<\/strong><\/p>\n<p>Acho que a maioria das pessoas n\u00e3o se d\u00e1 conta disso. N\u00e3o se d\u00e1 conta n\u00e3o no sentido de n\u00e3o saber que existe. \u00c9 que se acostumaram com uma forma de ver o mundo que invisibiliza os mais pobres \u2013 n\u00e3o entra no registro mental das pessoas. Elas olham mas n\u00e3o v\u00eaem. N\u00e3o entra na leitura de mundo das pessoas. Ent\u00e3o n\u00f3s temos que dar uma virada na chave. Houve uma forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica no nosso pa\u00eds e uma reprodu\u00e7\u00e3o de discurso, continuamente, de invisibiliza\u00e7\u00e3o dos mais pobres. E se indignar diante de uma situa\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a fica mais esquisito do que passar por cima.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea entrou nessa luta exatamente quando?<\/strong><\/p>\n<p>Com essa inquietude da adolesc\u00eancia fui buscar o que estava ao meu alcance. Era estudante secundarista , fui construir gr\u00eamio na escola, fui brigar por melhores condi\u00e7\u00f5es de ensino. Ainda era moleque, tinha 15 anos de idade, estudava no col\u00e9gio Equipe. Depois eu fui estudar no col\u00e9gio Fern\u00e3o Dias, uma escola estadual, inclusive, uma das que foram ocupadas no ano passado. Estudei l\u00e1 e a gente atuou para montar o gr\u00eamio, fizemos um grupinho do movimento estudantil, em 1998, e a partir disso fui me integrando e buscando conhecer melhor a esquerda no Brasil, o que eram as organiza\u00e7\u00f5es. Militei um tempo na Juventude Comunista. Mas, naquele momento, tive um entendimento de que n\u00e3o era por a\u00ed. O que eu percebi nos partidos foi uma coisa autoproclamat\u00f3ria. Falar em nome do povo, listar as verdades sobre o mundo, sobre a vida e sobre tudo e n\u00e3o estar junto com as pessoas, n\u00e3o estar nas suas lutas concretas, estar absolutamente distante disso. Depois eu tentei uma aproxima\u00e7\u00e3o aos movimentos sociais. E calhou de ser o per\u00edodo em que o MTST estava na regi\u00e3o metropolitana de SP. E a\u00ed eu fui, vim e fiquei.<\/p>\n<p>Tinha uma ocupa\u00e7\u00e3o em Guarulhos e comecei a frequentar essa ocupa\u00e7\u00e3o. Ainda distante, n\u00e3o era militante do movimento, comecei a me aproximar dos seus integrantes, comecei a entender melhor como era. Queria militar, queria estar junto. E nesses primeiros contatos vi que era ali mesmo, vi que era por aqui. A primeira ocupa\u00e7\u00e3o que fui visitar foi a Anita Garibaldi, em 2001. A primeira em que fiquei de verdade para morar foi em 2002, a Carlos Lamarca. Morei l\u00e1 durante os nove meses que a ocupa\u00e7\u00e3o durou. Nessa \u00e9poca eu j\u00e1 tinha entrado na USP, estava na faculdade e estudava \u00e0 noite. Dormia na ocupa\u00e7\u00e3o, dedicava boa parte do meu tempo para construir as coisas na ocupa\u00e7\u00e3o, e depois ia para a faculdade.<\/p>\n<p><strong>A viol\u00eancia n\u00e3o te preocupava?<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 vivenciei muitas situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia contra o movimento. A criminaliza\u00e7\u00e3o e o ataque aos movimentos sociais n\u00e3o \u00e9 de hoje. \u00c9 um processo de longa data no Brasil. Isso tem se intensificado agora. E ela vem junto com um ingrediente perigoso: a tentativa de desmoraliza\u00e7\u00e3o do movimento social. Para al\u00e9m de criminalizar, voc\u00ea tem um discurso que se consolida a partir da m\u00eddia de que o movimento social \u00e9 bandido, quer mamar na teta do Estado, essa turma est\u00e1 querendo uma graninha, est\u00e1 querendo cargo. Esse tipo de discurso \u00e9 absurdo porque todas as conquistas democr\u00e1ticas e de direito na nossa historia foram produtos de movimentos sociais. Mas esse discurso ganha eco. E na medida em que voc\u00ea desmoraliza voc\u00ea tem a carta branca para poder dar porrada. Voc\u00ea est\u00e1 batendo nos que n\u00e3o prestam mesmo. \u00c9 um aval para a repress\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea j\u00e1 foi detido algumas vezes.<\/strong><\/p>\n<p>Quatro ou cinco vezes. E minha experi\u00eancia \u00e9 muito menos dolorosa do que uma parte importante da popula\u00e7\u00e3o brasileira passa. Eu n\u00e3o sou negro \u2013 a juventude negra sofre encarceramento em massa, sofre exterm\u00ednio no dia a dia da periferia. A experi\u00eancia de viol\u00eancia contra o povo pobre desse pa\u00eds \u00e9 uma coisa impressionante. Sofri muito menos do que o povo da periferia sofre.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Voc\u00ea acha que o Brasil est\u00e1 regredindo?<\/strong><\/p>\n<p>O pa\u00eds regrediu profundamente. Nos \u00faltimos dois anos o n\u00edvel de regress\u00e3o social de direitos, de regress\u00e3o democr\u00e1tica que n\u00f3s tivemos no Brasil \u00e9 uma coisa sem precedentes na hist\u00f3ria recente.<\/p>\n<p><strong>E que exemplos s\u00e3o gritantes?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o tantos. Mas vou citar alguns que me chamam a aten\u00e7\u00e3o. A emenda constitucional 95, que congela o investimento p\u00fablico por 20 anos ano no Brasil. Isso n\u00e3o tem paralelo no mundo, em nenhum lugar do mundo. Voc\u00ea pega os reis e rainhas do neoliberalismo, voc\u00ea pega Thatcher, Reagan, Pinochet, Menem, Fujimori. Nenhum deles chegou perto disso. Isso \u00e9 criminoso. Isso \u00e9 destruir qualquer capacidade de investimento do Estado brasileiro.<\/p>\n<p>Voc\u00ea tem a reforma trabalhista. Simplesmente numa canetada fez o Brasil andar 75 anos para tr\u00e1s. Voltamos para tr\u00e1s da legisla\u00e7\u00e3o de 1942, do governo Get\u00falio Vargas, em que se estabeleceu o m\u00ednimo de prote\u00e7\u00e3o ao trabalhador. Essa prote\u00e7\u00e3o foi destru\u00edda. Est\u00e3o num n\u00edvel de espolia\u00e7\u00e3o, de selvageria completa contra a maioria trabalhadora do pa\u00eds, desregulamentando o mercado de trabalho.<\/p>\n<p>Voc\u00ea tem a tentativa da reforma da previd\u00eancia, que ainda querem colocar goela abaixo, mesmo rejeitada por mais de 80% na popula\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea tem todas as portarias normativas do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, ainda na \u00e9poca do Alexandre de Moraes, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s terras ind\u00edgenas. Os ind\u00edgenas est\u00e3o sofrendo um ataque brutal. A viol\u00eancia no campo, as mortes no campo atingiram o maior n\u00famero das \u00faltimas d\u00e9cadas. Voc\u00ea tem a entrega, a abertura do pr\u00e9-sal ao capital estrangeiro. Enfim, poder\u00edamos seguir nessa toada. \u00c9 um retrocesso por dia.<\/p>\n<p><strong>E como o retrocesso est\u00e1 sendo enfrentado? A for\u00e7a de quem poderia se opor \u00e0s reformas se mostra limitada?<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 um ponto para tratar de maneira s\u00e9ria e com cuidado. Dizer que n\u00e3o teve luta social no Brasil de resist\u00eancia ao golpe e \u00e0s pol\u00edticas do Temer n\u00e3o \u00e9 verdade. N\u00f3s fizemos a maior greve geral da hist\u00f3ria do pa\u00eds em abril. Um m\u00eas depois, em maio, n\u00f3s botamos 200 mil pessoas em Bras\u00edlia. Foi uma guerra na Esplanada dos Minist\u00e9rios. O Temer chamou as For\u00e7as Armadas para intervir. Houve lutas importantes no \u00faltimo per\u00edodo. O problema \u00e9 que esse governo \u00e9 em tal grau antidemocr\u00e1tico, ele est\u00e1 a tal ponto de costas para a sociedade, que s\u00f3 vai em uma dire\u00e7\u00e3o. O povo se colocava e dava recados mais do que evidentes. E a rea\u00e7\u00e3o era virar de costas e pisar no acelerador em sentido contr\u00e1rio. N\u00f3s fizemos uma greve geral no final de abril e, na semana seguinte, os caras aprovaram a reforma da previd\u00eancia, que era pauta da greve, na Comiss\u00e3o Especial.<\/p>\n<p><strong>Tem uma dissocia\u00e7\u00e3o entre o anseio popular e o governo?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 um abismo entre Bras\u00edlia e o Brasil. Em maio, a gente foi para Bras\u00edlia e fez aquilo e, no m\u00eas seguinte, eles aprovaram a reforma trabalhista. Isso gera nas pessoas uma id\u00e9ia de que n\u00e3o adianta. Eu estou indo para as ruas e n\u00e3o est\u00e1 adiantando. Isso produz uma desesperan\u00e7a e uma apatia que, num primeiro momento, pode parecer que as pessoas n\u00e3o est\u00e3o nem a\u00ed. N\u00e3o \u00e9 isso. O que eles est\u00e3o armando, no subterr\u00e2neo, \u00e9 um barril de p\u00f3lvora. Isso est\u00e1 se traduzindo em \u00f3dio, em insatisfa\u00e7\u00e3o profunda, em mal estar, em indigna\u00e7\u00e3o que ainda n\u00e3o virou mobiliza\u00e7\u00e3o social. As pessoas cada vez menos enxergam a possibilidade de ter seus problemas resolvidos pela pol\u00edtica. Isso se traduz em antipol\u00edtica.<\/p>\n<p>Isso traduz uma profunda insatisfa\u00e7\u00e3o na base da sociedade que tem tido alguns sintomas. N\u00f3s estamos aqui, por exemplo, como um desses sintomas. Isso n\u00e3o est\u00e1 se manifestando na luta contra o golpe ou contra o Temer, est\u00e1 se manifestando no bolso, numa luta concreta das pessoas pela sobreviv\u00eancia. Olha essa ocupa\u00e7\u00e3o, oito mil fam\u00edlias. Olha outras ocupa\u00e7\u00f5es que est\u00e3o pipocando pelo pa\u00eds. As pessoas come\u00e7am a reagir de uma forma ou de outra.<\/p>\n<p><strong>Mas d\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de que a direita est\u00e1 se organizando mais do que a esquerda.<\/strong><\/p>\n<p>A direita tem muito mais instrumentos do que a esquerda. A direita est\u00e1 no governo, tem m\u00eddia, tem o grande empresariado, os bancos financiando. A esquerda, uma esquerda com mai\u00fascula, digna do nome, sempre foi contracorrente, sempre foi contra-hegem\u00f4nica. Ela tem que ser contra-hegem\u00f4nica. Mesmo que, eventualmente, esteja no governo, ela tem que ser antisist\u00eamica. Que a direita hoje tenha mais mecanismo para canalizar essas for\u00e7as pol\u00edticas \u00e9 compreens\u00edvel. E tamb\u00e9m \u00e9 compreens\u00edvel pelos erros cometidos pela esquerda brasileira. Isso precisa ser colocado na mesa tamb\u00e9m. De algum modo alguns setores da esquerda pagam um pre\u00e7o pela li\u00e7\u00e3o de casa que deixou de ser feita no \u00faltimo per\u00edodo. O trabalho de base \u00e9 um tema chave. Parte da esquerda se distanciou da realidade do povo, se distanciou do trabalho popular, da escuta e da rela\u00e7\u00e3o direta com o povo das periferias.<\/p>\n<p><strong>E a corrup\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m afetou a esquerda.<\/strong><\/p>\n<p>Acho que sim, quando a esquerda se confunde com o sistema pol\u00edtico, com todas as mazelas do sistema pol\u00edtico, \u00e9 \u00f3bvio que isso desmoraliza tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Havia uma cren\u00e7a de uma certa probidade.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o era nem s\u00f3 uma quest\u00e3o de probidade. Acreditava-se que a esquerda faria diferente, que a esquerda n\u00e3o entraria no mesmo jogo, como se joga a pol\u00edtica no Brasil desde sempre. E a op\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ter enfrentado, n\u00e3o ter rompido com esse sistema pol\u00edtico \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m trouxe preju\u00edzos importantes.<\/p>\n<p><strong>Desde agosto, voc\u00ea tem se destacado nos debates da plataforma Vamos, da frente Povo Sem Medo. Esse pode ser o novo caminho da esquerda?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s temos uma avalia\u00e7\u00e3o no movimento, na milit\u00e2ncia do movimento, de que tem um ciclo que se encerrou na esquerda brasileira e que \u00e9 preciso abrir um debate amplo, diverso, profundo, cr\u00edtico, sobre rumos. Nos \u00faltimos 30, 35 anos, o PT foi a for\u00e7a hegem\u00f4nica na esquerda, que construiu seu caminho com acertos e tamb\u00e9m com erros. No governo consagrou uma posi\u00e7\u00e3o, em especial nos governos do Lula, que foi de uma esp\u00e9cie de pactua\u00e7\u00e3o na sociedade brasileira que se traduziu num ganha-ganha. A parte de cima continuou a ganhar, houve lucros recordes de v\u00e1rios setores econ\u00f4micos. O problema \u00e9 que os privil\u00e9gios hist\u00f3ricos e as estruturas antidemocr\u00e1ticas do Estado Brasileiro n\u00e3o foram enfrentados como deveriam. Mas, ao mesmo tempo, os mais pobres ganharam programas sociais e houve uma pol\u00edtica de valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo. Ganharam com facilita\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito e o acesso ao consumo. Esse ganha-ganha foi poss\u00edvel porque havia sobretudo um crescimento econ\u00f4mico relevante naquele momento. Motivado pelas pol\u00edticas do governo em rela\u00e7\u00e3o ao mercado interno, mas motivado tamb\u00e9m pela situa\u00e7\u00e3o internacional, com a China crescendo a dois d\u00edgitos e o pre\u00e7o das commodities em alta. S\u00f3 que isso estoura. Depois da crise de 2008, a realidade come\u00e7a a mudar. Com a pol\u00edtica antic\u00edclica adotada em 2009, o governo consegue levar isso adiante at\u00e9 2014, mas depois houve o decl\u00ednio. Com a crise econ\u00f4mica esse cen\u00e1rio muda. N\u00f3s estamos num cen\u00e1rio atual em que n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel ter avan\u00e7os de direitos sociais, avan\u00e7os para os mais pobres sem enfrentar esses privil\u00e9gios e isso coloca novos desafios para a esquerda.<\/p>\n<p><strong>E qual \u00e9 o balan\u00e7o do Vamos?<\/strong><\/p>\n<p>O Vamos surgiu diante da compreens\u00e3o de que \u00e9 preciso pensar uma agenda de esquerda para o pr\u00f3ximo per\u00edodo. \u00c9 preciso que isso seja arejado, que isso seja cr\u00edtico, que contemple diversas representa\u00e7\u00f5es de todos os campos pol\u00edticos. Foi a partir disso que a frente Povo Sem Medo concebeu o Vamos, como um conjunto de debates em pra\u00e7a p\u00fablica, de baixo para cima. Foram mais de 70 debates no Brasil inteiro em todas as regi\u00f5es do pais, em doze Estados, nos \u00faltimos quatro meses. Isso complementado por uma plataforma virtual com mais de 130 mil acessos, onde as pessoas apresentaram tamb\u00e9m propostas, divididas em v\u00e1rios eixos program\u00e1ticos. O Vamos acendeu o debate, trouxe gente para a discuss\u00e3o: sem teto, ind\u00edgenas, movimentos do campo, sindicatos, movimento feminista, negros e negras, movimento LGBT, gente que \u00e9 de partido, intelectuais, gente que n\u00e3o \u00e9 de partido nenhum, M\u00eddia Ninja, que transmitiu os debates ao vivo. Voc\u00ea teve uma s\u00e9rie de grupos e de setores que participaram e que enriqueceram o debate, como mostram os resultados dessa primeira etapa. Isso \u00e9 algo novo na esquerda. H\u00e1 muito tempo, a esquerda brasileira n\u00e3o se dispunha a fazer um debate s\u00e9rio com as pessoas, junto com as pessoas, no meio na rua. Debatendo sem medo. Aqui todo mundo pode falar, levantar a m\u00e3o, falar o que quiser. N\u00e3o \u00e9 fechadinho, um bunker. E o resultado tem sido extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 uma forma de reaproximar a esquerda das demandas populares?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 o que n\u00f3s tentamos, \u00e9 claro que \u00e9 um in\u00edcio de processo, n\u00e3o foram grandes massas, grandes multid\u00f5es que vieram para os debates. A gente nunca imaginou que seria dessa maneira. Juntamos mais ativistas, pessoas interessadas em debater pol\u00edtica, mas mesmo assim j\u00e1 foi muito proveitoso. A gente quer aumentar isso ainda mais. \u00c9 o que n\u00f3s pensamos. Faremos isso no ano que vem, na segunda etapa do Vamos.<\/p>\n<p><strong>E esse alinhamento do MTST com a plataforma 342?<\/strong><\/p>\n<p>Os retrocessos est\u00e3o chegando nos artistas. S\u00e3o retrocessos tamb\u00e9m de ordem cultural. Vimos a turma fechando exposi\u00e7\u00f5es por conta de cenas de nudez, vimos os ataques absurdos que a ultradireita fez contra o Caetano Veloso e a pr\u00f3pria Paula Lavigne. Num momento como esse voc\u00ea ter uma articula\u00e7\u00e3o de artistas que se juntem em torno de causas democr\u00e1ticas, de causas progressistas, \u00e9 muito importante. E a 342 tem conseguido fazer isso. L\u00e1 tem muita gente que n\u00e3o necessariamente se identifica com a esquerda, mas est\u00e1 levantando pautas de enfrentamento ao conservadorismo, que s\u00e3o importantes num momento como esse. S\u00e3o artistas se posicionando publicamente, dizendo: para! Est\u00e3o contra o Temer e contra medidas antipopulares. O tema da Amaz\u00f4nia tamb\u00e9m \u00e9 urgente.<\/p>\n<p>N\u00f3s temos uma rela\u00e7\u00e3o muito boa com a M\u00eddia Ninja, que sempre acompanhou o MTST, fez cobertura de a\u00e7\u00f5es nossas. E a M\u00eddia Ninja se integrou \u00e0 plataforma 342, construiu isso e , partir da\u00ed, construiu pontes para que o MTST se aproximasse tamb\u00e9m. Estamos produzindo um document\u00e1rio que vai tratar dessa ocupa\u00e7\u00e3o e da hist\u00f3ria do movimento, que est\u00e1 completando 20 anos. A proposta \u00e9 desmistificar uma ideia muito preconceituosa sobre o MTST em particular, de que \u00e9 gente querendo ganhar a vida f\u00e1cil. Esse preconceito leva a atos de intoler\u00e2ncia e de \u00f3dio em rela\u00e7\u00e3o ao movimento social. A proposta \u00e9 mostrar que por tr\u00e1s da lona tem pessoas.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea est\u00e1 vendo 2018? Voc\u00ea pode ser candidato \u00e0 presid\u00eancia pelo PSOL?<\/strong><\/p>\n<p>O cen\u00e1rio para 2018 ainda est\u00e1 muito indefinido. N\u00f3s n\u00e3o achamos que seja o caso de antecipar o debate eleitoral de 2018 agora. Os caras querem aprovar a Reforma da Previd\u00eancia. \u00c9 um momento de resist\u00eancia de rua. N\u00f3s estamos apostando nossas fichas no Vamos para fazer um debate program\u00e1tico para al\u00e9m do processo eleitoral. Eu tenho, isso \u00e9 verdade, uma excelente rela\u00e7\u00e3o com o PSOL, com muita gente do PSOL, melhor dizendo. De fato, houve um convite p\u00fablico de uma candidatura para a presid\u00eancia, isso repercutiu de algum modo na m\u00eddia, mas agora mas n\u00f3s n\u00e3o temos quaquer defini\u00e7\u00e3o ainda em rela\u00e7\u00e3o a isso. N\u00e3o d\u00e1 para botar os carros na frente do boi. O foco \u00e9 nos processos de resist\u00eancia. Essa ocupa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Bernardo para n\u00f3s \u00e9 um fato importante e queremos que tenha um desfecho de conquista. Ela se tornou um s\u00edmbolo. N\u00e3o \u00e9 apenas a disputa por um peda\u00e7o de terra. \u00c9 tamb\u00e9m isso. Mas se essa ocupa\u00e7\u00e3o for derrotada ser\u00e1 uma derrota para a luta social do Brasil. Teremos uma nova etapa do Vamos no ano que vem. N\u00e3o d\u00e1 para ficar discutindo nomes sem antes ter um programa.<\/p>\n<p><strong>O que voc\u00ea acha da candidatura do Lula?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que o Lula tem direito de ser candidato. \u00c9 um absurdo querer resolver o processo eleitoral no tapet\u00e3o do judici\u00e1rio. \u00c9 uma condena\u00e7\u00e3o visivelmente casu\u00edstica, sem provas. Mas defender a candidatura do Lula n\u00e3o \u00e9 defender as posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do Lula. Defender a candidatura do Lula \u00e9 uma quest\u00e3o democr\u00e1tica. Isso deve ser defendido por todos. Ele tem o direito de ser candidato, direito da sua candidatura.<\/p>\n<p><strong>E o fortalecimento do Bolsonaro?<\/strong><\/p>\n<p>O Bolsonaro \u00e9 uma farsa, \u00e9 uma piada de mau gosto, \u00e9 uma farsa perigosa. Porque ele se vende com algu\u00e9m de fora da pol\u00edtica que vai acabar com a roubalheira, que vai mudar o que est\u00e1 a\u00ed. Mas ele est\u00e1 h\u00e1 30 anos como deputado, como deputado do baixo clero. Empregou parente no gabinete dele. Um cara que foi expulso do ex\u00e9rcito. Tem uma ficha corrida consider\u00e1vel. O que preocupa n\u00e3o \u00e9 uma figura rid\u00edcula como Bolsonaro. O que preocupa \u00e9 uma figura como essa ter audi\u00eancia no pa\u00eds. \u00c9 o que torna as coisas perigosas, torna o pat\u00e9tico preocupante. Isso \u00e9 resultado direto da crise de representa\u00e7\u00e3o e do sentimento de antipol\u00edtica.<\/p>\n<p>Se o Bolsonaro \u00e9 quem vai mudar tudo que est\u00e1 a\u00ed ent\u00e3o n\u00f3s estamos mal. Se o projeto de esquerda chega nas pessoas como mais do mesmo, como parte do establishment, isso abre espa\u00e7o para aventureiros, oportunistas no estilo do Bolsonaro. A esquerda tamb\u00e9m tem uma responsabilidade nisso. Se a gente se limita \u00e0 pol\u00edtica pragm\u00e1tica rasteira das negociatas, dos pequenos ganhos e perde o horizonte de projeto, perde o horizonte de esperan\u00e7a, depois n\u00e3o vamos poder se lamentar que o povo est\u00e1 indo votar no Bolsonaro. O que eu quero dizer com isso: a onda na qual surfa o Bolsonaro, que \u00e9 a onda da insatisfa\u00e7\u00e3o com a pol\u00edtica, \u00e9 tamb\u00e9m uma express\u00e3o da dificuldade da esquerda de construir novas alternativa.<\/p>\n<p>http:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/inconsciente-coletivo\/um-vizinho-do-barulho\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vicente Vilardaga &#8211; Era fim de tarde e chovia no acampamento do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) no bairro Assun\u00e7\u00e3o, nas imedia\u00e7\u00f5es da Via Anchieta, em S\u00e3o Bernardo do Campo. 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