{"id":6136,"date":"2017-11-30T15:57:20","date_gmt":"2017-11-30T17:57:20","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=6136"},"modified":"2017-11-29T20:59:57","modified_gmt":"2017-11-29T22:59:57","slug":"maio-de-68-junho-de-2013","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/11\/30\/maio-de-68-junho-de-2013\/","title":{"rendered":"Maio de 68, Junho de 2013"},"content":{"rendered":"<p><strong>Morris Kachani &#8211;<\/strong>\u00a0Trilhando seu caminho entre a dire\u00e7\u00e3o de numerosos document\u00e1rios de respeito e a gest\u00e3o da revista piau\u00ed, Jo\u00e3o Moreira Salles, filho ca\u00e7ula do ex-ministro, embaixador e banqueiro Walther Moreira Salles, enxerga com apreens\u00e3o o futuro da na\u00e7\u00e3o: \u201cN\u00e3o tem ningu\u00e9m que possa oferecer uma solu\u00e7\u00e3o para esse impasse, que \u00e9 o pr\u00f3prio sistema estar em crise. Sem uma reforma pol\u00edtica, sem mudar a maneira como a gente escolhe nossos representantes, isso n\u00e3o se resolve. Hoje em dia o Congresso se tornou uma entidade aut\u00f4noma que legisla, n\u00e3o para o pa\u00eds mas para si pr\u00f3prio, e \u00e9 muito dif\u00edcil que eles mudem alguma coisa. Portanto, a gente continuar\u00e1 a escolher pessoas que passam pelo mesmo filtro, isso \u00e9 terr\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>Acabamos nos encontrando por ocasi\u00e3o do lan\u00e7amento de seu filme, \u201cNo intenso agora\u201d, no caf\u00e9 do Espa\u00e7o Ita\u00fa de Cinema, na rua Augusta. H\u00e1 uma voz em off neste filme, que nos conduz. \u00c9 a voz do pr\u00f3prio Jo\u00e3o. Pessoalmente t\u00e3o introvertido, ele divide sua intimidade \u00e0s esc\u00e2ncaras, por tr\u00e1s das c\u00e2meras.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o mergulhamos em uma medita\u00e7\u00e3o profunda n\u00e3o apenas sobre os ecos de maio de 68 em Paris, que Jo\u00e3o, ainda crian\u00e7a, vivenciou, mas tamb\u00e9m sobre a trajet\u00f3ria de sua m\u00e3e Elisa, que de certa forma divide o protagonismo deste filme com as barricadas.<\/p>\n<p>Eu pelo menos nunca tinha visto uma montagem de imagens sobre maio de 68 t\u00e3o primorosa. Jo\u00e3o se preocupou em cobrir todo o arco narrativo dos acontecimentos. Que iniciam na jornada heroica de estudantes e trabalhadores e terminam na dissipa\u00e7\u00e3o do movimento e na retomada do controle das ruas por parte do general De Gaulle.<\/p>\n<p>Paralelamente, o diretor decide fazer uma investiga\u00e7\u00e3o sobre a pr\u00f3pria m\u00e3e. H\u00e1 uma aura de tristeza e melancolia em torno do assunto, mas as imagens de uma viagem que fez \u00e0 China algum tempo antes de 68, nos primeiros tempos da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural, entre um grupo de amigos, revelam uma outra natureza de Elisa. Uma mulher vivaz, eloquente, que se deixa encantar pelas sedu\u00e7\u00f5es do Oriente.<\/p>\n<p>Foi inescap\u00e1vel durante nossa conversa, a tentativa de se tra\u00e7ar um paralelo entre 68 na Fran\u00e7a e junho de 2013 no Brasil. A escolha do assunto materno como fio narrativo e a pr\u00f3pria raz\u00e3o de ser, da pr\u00e1tica do document\u00e1rio no Brasil, tamb\u00e9m permearam esta entrevista.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>\u201cHoje em dia, a esquerda embarca numa esp\u00e9cie de sonho regressivo. As utopias est\u00e3o no passado. H\u00e1 alguma coisa nost\u00e1lgica a\u00ed, e como tento mostrar no filme, acho que toda nostalgia \u00e9 perigosa porque \u00e9 uma tentativa de recuperar o irrecuper\u00e1vel. Al\u00e9m disso, ela tamb\u00e9m \u00e9 reacion\u00e1ria no sentido em que nega o futuro e prefere o passado. Ent\u00e3o, bonito \u00e9 o pequeno, o local, o comunit\u00e1rio, o mais simples, as comunidades fora do sistema. \u00c9tico s\u00e3o as estruturas horizontais, e n\u00e3o as verticais.<\/p>\n<p>Essas esquerdas mais vis\u00edveis, que promoveram as manifesta\u00e7\u00f5es da Primavera \u00c1rabe, Occupy, 2013 aqui, t\u00eam essas caracter\u00edsticas de valorizar o espont\u00e2neo sobre o institucional, o particular sobre o geral. H\u00e1 uma desconfian\u00e7a muito grande de qualquer media\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ent\u00e3o as decis\u00f5es s\u00e3o tomadas por assembleia, voto de consenso, essa coisa toda que eu acho que funciona muito bem e tem valor para unidades pequenas \u2013 cem, duzentas pessoas. Quando cresce e vira um pa\u00eds, a complexidade tem que ser levada em conta. Acho que Estados nacionais, quando se desfazem, n\u00e3o viram uma comunidade hippie de homens e mulheres solid\u00e1rios que se ajudam e se auto regulam. Eles viram a Iugosl\u00e1via, a Som\u00e1lia, o Iraque, a S\u00edria\u201d.<\/p>\n<p>\u201cHouve uma regress\u00e3o civilizat\u00f3ria aqui. Agora, eu n\u00e3o atribuo simplesmente ao afastamento da presidente. Acho que este projeto de Brasil est\u00e1 embutido no projeto anterior. O Temer era vice da Dilma, o Geddel e o Henrique Eduardo Alves tamb\u00e9m foram ministros dela. O impasse brasileiro n\u00e3o vem do impeachment, vem daquilo que 13 mostrou muito bem, de uma crise profunda na representatividade\u201d.<\/p>\n<p>\u201cV\u00e3o me dizer que o sistema foi vencido? N\u00e3o foi. Agora, seria tamb\u00e9m profundamente incorreto afirmar que 68 n\u00e3o deixou nenhuma marca na sociedade francesa. Deixou, e profund\u00edssima. Movimento das mulheres, dos imigrantes, de liberdade sexual, uma abertura das institui\u00e7\u00f5es que eram muito aristocr\u00e1ticas e fechadas, tudo isso \u00e9 um efeito civilizat\u00f3rio de maio. S\u00e3o coisas importantes, e pol\u00edticas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cTodo mundo a chamava de Elisinha. Ela cai no meio da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural chinesa e, ao inv\u00e9s de se horrorizar, se comove. Eu n\u00e3o conhecia essa m\u00e3e. Eu conhecia uma m\u00e3e mais triste, incapaz desse movimento em dire\u00e7\u00e3o ao mundo, e principalmente em dire\u00e7\u00e3o ao seu contr\u00e1rio absoluto, sem negar mas aceitando, encontrando beleza. Eu comecei a pensar sobre isso, e a\u00ed ca\u00ed em 68, porque a gente vivia em 68, e o maio franc\u00eas foi muito influenciado pela Revolu\u00e7\u00e3o Cultural chinesa; Godard era mao\u00edsta, Sartre flertou com o mao\u00edsmo, essas pessoas eram importantes no ecossistema de maio de 68. Comecei a ler as mem\u00f3rias de quem viveu 68, e encontrei nelas, sem exce\u00e7\u00e3o, essa mesma quest\u00e3o: como dar sentido \u00e0 vida depois daquelas tr\u00eas semanas. O filme nasce dessa tentativa de falar da intensidade, de sua dissipa\u00e7\u00e3o, e de como se consegue sobreviver ao fim dela. O segredo n\u00e3o est\u00e1 no filme, porque eu n\u00e3o tenho que dar li\u00e7\u00e3o, mas o pulo do gato \u00e9 a n\u00e3o-nostalgia. Saudades tudo bem, mas nostalgia, como desejo de recuperar aquilo, n\u00e3o, porque \u00e9 irrecuper\u00e1vel, passou, \u00e9 como a juventude\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEssa quest\u00e3o de voc\u00ea perder a capacidade de ser feliz \u00e9 uma quest\u00e3o minha tamb\u00e9m, um certo medo de me afastar das coisas, de me desengajar do mundo, do trabalho, \u00e9 um fantasma\u201d.<\/p>\n<p>\u201cSe tornou dif\u00edcil pra mim voltar a fazer os filmes tradicionais, do card\u00e1pio, do document\u00e1rio mundial e especialmente brasileiro. Que filmes tradicionais s\u00e3o esses? S\u00e3o aqueles em que voc\u00ea sai do seu apartamento, de um bairro bom, da parte organizada de uma cidade em um pa\u00eds pobre, e voc\u00ea vai filmar as pessoas que moram na periferia, na favela. Provavelmente 80% dos filmes realizados t\u00eam essa caracter\u00edstica\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO document\u00e1rio \u00e9 um pouco o g\u00eanero em que as pessoas que t\u00eam filmam as que n\u00e3o t\u00eam, n\u00e9? E isso se tornou um problema pra mim, porque eu sei que esses filmes s\u00e3o poss\u00edveis de serem feitos pois a gente usa do nosso privil\u00e9gio de ser branco pra ir na Rocinha filmar. \u00c9 muito f\u00e1cil de imaginar um filme feito por jovens cineastas de um condom\u00ednio fechado da Barra da Tijuca sobre o Complexo da Mar\u00e9. \u00c9 imposs\u00edvel imaginar o de um grupo de jovens do Complexo da Mar\u00e9 sobre um condom\u00ednio fechado da Barra da Tijuca, que eles n\u00e3o entrariam. Na verdade, chamariam a pol\u00edcia, e eles seriam presos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cCreio que a garotada que quer ser jornalista hoje em dia n\u00e3o tem como objeto de desejo o New York Times, mas a Vice, porque \u00e9 \u00e1gil, \u00e9 r\u00e1pido, \u00e9 visual, tem uma capacidade imensa de viraliza\u00e7\u00e3o na internet. Do meu ponto de vista, o ideal \u00e9 que essas coisas passassem a conviver juntas. O New York Times tem uma plataforma de produ\u00e7\u00e3o de document\u00e1rios muito rica e interessante, e eles d\u00e3o visibilidade a isso cada vez mais. Claro que eles s\u00e3o essencialmente um ve\u00edculo de imprensa escrita, mas cada vez mais o visual ganha espa\u00e7o. Mesma coisa acontece no Guardian, e no Washington Post. Isso \u00e9 inevit\u00e1vel, e esta fertiliza\u00e7\u00e3o m\u00fatua \u00e9 muito bem-vinda\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO que d\u00e1 pra filmar, voc\u00ea filma. O que s\u00f3 cabe na escrita, voc\u00ea escreve. Mas o procedimento, a maneira de capturar o mundo, \u00e9 fibra do mesmo tecido\u201d.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>Como as pessoas t\u00eam recebido o filme?<\/strong><\/p>\n<p>Os debates s\u00e3o sempre meio que orientados pelo contexto pol\u00edtico em que o filme est\u00e1 sendo visto. Em Paris s\u00f3 se falava de 68, que \u00e9 importante pra eles, uma coisa um pouco narc\u00edsica tamb\u00e9m, o grande momento deles e tal. Ent\u00e3o todo o debate foi em torno da representa\u00e7\u00e3o no filme, daqueles eventos. Tinham todas as fac\u00e7\u00f5es representadas na plateia, trotskistas, anarquistas, mao\u00edstas, stalinistas. Foi o debate mais dif\u00edcil, porque foi muito aguerrido, os franceses det\u00eam a tecnologia de debate.<\/p>\n<p>Em Buenos Aires, a quest\u00e3o era o desencanto. Todos sa\u00edram nas ruas em 2001, quando o pa\u00eds derreteu e a\u00ed produziu-se o fen\u00f4meno Kirchner com seu projeto de pa\u00eds. As plateias de festivais de cinema geralmente s\u00e3o de esquerda, progressistas, jovens, pessoas que embarcam nesse tipo de projeto nacional. Agora est\u00e3o vivendo o rescaldo do fim do sonho Kirchner, a elei\u00e7\u00e3o do Macri, ent\u00e3o eles tentaram extrair do filme uma esp\u00e9cie de manual de \u201ccomo reavivar a chama do engajamento pol\u00edtico\u201d. Houve uma certa decep\u00e7\u00e3o do filme n\u00e3o terminar nas tr\u00eas semanas heroicas de maio mas ir adiante, e falar tamb\u00e9m do desencanto. Acho que eles queriam um filme que chamasse mais \u00e0s armas.<\/p>\n<p>Em Chicago, imediatamente o debate foi na dire\u00e7\u00e3o do movimento Occupy, da desigualdade social, de como o movimento foi importante mas fugaz e se desfez, e voc\u00ea chega ao Trump.<\/p>\n<p>No debate em Tel Aviv, havia a sensa\u00e7\u00e3o de uma derrota completa do projeto de esquerda, uma perplexidade diante de toda a ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o pol\u00edtico pela direita. Tel Aviv \u00e9 um hub de tecnologia, e como vem gente do mundo inteiro pra se instalar l\u00e1, os pre\u00e7os explodiram, e os moradores n\u00e3o conseguem mais viver na cidade. Uma mo\u00e7a jovem que n\u00e3o conseguia mais pagar aluguel colocou uma tenda na pra\u00e7a central de Tel Aviv como um protesto, e dois dias depois, tinham 5 mil tendas.<\/p>\n<p>Foi um movimento importante, em 2014, 2015, e isso galvanizou as energias pol\u00edticas. Durante algum tempo achou-se que aquilo podia ser o in\u00edcio de uma resist\u00eancia maior ao projeto da direita, mas tamb\u00e9m se desmanchou com alguma rapidez. Ent\u00e3o havia tamb\u00e9m essa sensa\u00e7\u00e3o do vazio, que \u00e9 um dos temas do filme.<\/p>\n<p><strong>E no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>No Brasil, as perguntas s\u00e3o sempre relacionadas a 2013.<\/p>\n<p><strong>2013 \u00e9 um assunto.<\/strong><\/p>\n<p>Sim, e como o filme fala de engajamento pol\u00edtico, de intensidade e de dissipa\u00e7\u00e3o, os paralelos s\u00e3o quase que inevit\u00e1veis, embora o filme tenha come\u00e7ado a ser feito bem antes de 2013. No junho de 2013, eu estava no processo de montagem j\u00e1 fazia uns 8 meses. \u00c9 mais rico que o filme saia agora do que em 2011, 2012, quando havia uma certa insatisfa\u00e7\u00e3o sobre o andamento das coisas, mas nada estava ainda articulado. 2013 descamba tudo, d\u00e1 voz a uma por\u00e7\u00e3o de coisas que estavam meio caladas.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acha que houve uma derrocada de vez num projeto pol\u00edtico de esquerda no mundo?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que a esquerda est\u00e1 em contra\u00e7\u00e3o, com a direita vencendo as \u00faltimas batalhas. Veja o que aconteceu com os Estados Unidos, na elei\u00e7\u00e3o francesa, no Leste Europeu, um horror. Eu n\u00e3o tenho nenhum problema com a direita contanto que ela seja democr\u00e1tica. Nada contra os conservadores, tudo contra os reacion\u00e1rios. O que tem acontecido recentemente \u00e9 a perigosa deriva em dire\u00e7\u00e3o ao reacionarismo, de valores n\u00e3o-democr\u00e1ticos, for\u00e7a \u00e0 lei, \u00e0 ordem, ao solo, \u00e0 p\u00e1tria, ao nacionalismo, tudo isso \u00e9 mais vigoroso hoje do que qualquer projeto de esquerda. Li uma entrevista recente da Tatiana Roque, da UFRJ, dizendo que \u00e9 preciso admitir que a direita tem um projeto de futuro, e a esquerda n\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje em dia, a esquerda embarca numa esp\u00e9cie de sonho regressivo, as utopias est\u00e3o no passado. H\u00e1 alguma coisa nost\u00e1lgica a\u00ed, e como tento mostrar no filme, acho que toda nostalgia \u00e9 perigosa porque \u00e9 uma tentativa de recuperar o irrecuper\u00e1vel, porque passou. Al\u00e9m disso, ela tamb\u00e9m \u00e9 reacion\u00e1ria no sentido em que nega o futuro e prefere o passado. Ent\u00e3o, bonito \u00e9 o pequeno, o local, o comunit\u00e1rio, o mais simples, as comunidades fora do sistema. \u00c9tico s\u00e3o as estruturas horizontais, e n\u00e3o as verticais.<\/p>\n<p>Essas esquerdas mais vis\u00edveis, que promoveram as manifesta\u00e7\u00f5es da Primavera \u00c1rabe, Occupy, 2013 aqui, t\u00eam essas caracter\u00edsticas de valorizar o espont\u00e2neo sobre o institucional, o particular sobre o geral. H\u00e1 uma desconfian\u00e7a muito grande de qualquer media\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ent\u00e3o as decis\u00f5es s\u00e3o tomadas por assembleia, voto de consenso, essa coisa toda que eu acho que funciona muito bem e tem valor para unidades pequenas \u2013 cem, duzentas pessoas. Quando cresce e vira um pa\u00eds, a complexidade tem que ser levada em conta. Acho que Estados nacionais, quando se desfazem, n\u00e3o viram uma comunidade hippie de homens e mulheres solid\u00e1rios que se ajudam e se auto regulam. Eles viram a Iugosl\u00e1via, a Som\u00e1lia, o Iraque, a S\u00edria.<\/p>\n<p><strong>O que deveria ser feito, dentro de uma perspectiva das esquerdas?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 preciso encontrar uma resposta pro futuro, pra essa sociedade dif\u00edcil, complicada, cada vez mais automatizada. E a\u00ed vou repetir o que a Tatiana Roque tem falado, o projeto de esquerda tem que levar em conta n\u00e3o mais o trabalho no sentido cl\u00e1ssico do capital de trabalho, porque isso est\u00e1 desaparecendo. As categorias mais cl\u00e1ssicas de esquerda se organizam em torno do mundo do trabalho como se imaginava, as f\u00e1bricas, etc. Isso n\u00e3o \u00e9 mais uma realidade do s\u00e9culo 21, e passar\u00e1 a ser cada vez menos. \u00c9 toda uma discuss\u00e3o que precisa ser conceitualizada, e n\u00e3o sei se isso est\u00e1 na pauta das esquerdas nesse momento.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea est\u00e1 chocado como eu, com o que anda acontecendo no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, houve uma regress\u00e3o civilizat\u00f3ria aqui. Agora, eu n\u00e3o atribuo simplesmente ao afastamento da presidente. Acho que este projeto de Brasil est\u00e1 embutido no projeto anterior. O Temer era vice da Dilma, o Geddel e o Henrique Eduardo Alves tamb\u00e9m foram ministros dela. O impasse brasileiro n\u00e3o vem do impeachment, vem daquilo que 13 mostrou muito bem, de uma crise profunda na representatividade. Essa pol\u00edtica, do jeito que funciona, deixou de apresentar respostas, \u00e9 um fracasso. Eu acho que Fernando Henrique e Lula tentaram encontrar uma maneira e conseguiram. Acho que eles s\u00e3o melhores do que o que estava por baixo deles, mas o sistema estruturalmente os obrigou a fazer alian\u00e7as impuras, que deu no que deu. Compreendo as pessoas relacionarem o meu filme e, em especial, maio de 68 na Fran\u00e7a com 13, porque maio tamb\u00e9m surgiu de uma imensa insatisfa\u00e7\u00e3o, primeiramente dos estudantes, depois dos oper\u00e1rios, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s inst\u00e2ncias que os representava. O governo n\u00e3o representava mais as demandas dos estudantes, e as inst\u00e2ncias cl\u00e1ssicas da esquerda, como os sindicatos e o Partido Comunista franc\u00eas, tamb\u00e9m n\u00e3o. Tinham se burocratizado, se afastado das demandas reais. O Partido Comunista recebia suas ordens de Moscou, e o maior sindicato, a CGT, recebia suas ordens do Partido Comunista. Portanto, era tudo orientado por Moscou, que naquela altura, oferecia um modelo em que a esquerda europeia j\u00e1 tinha deixado de acreditar h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p>Isso lembra 2013 mesmo, \u201cVai ter Copa sim\u201d, os sindicatos estavam alinhados ao governo, e este era o grande legitimador da Copa, e das Olimp\u00edadas tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Maio de 68 foi um desencantamento?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que o desencantamento \u00e9 inerente \u00e0 intensidade de uma coisa vivida. Voc\u00ea vive uma paix\u00e3o, e o que vem depois, necessariamente \u00e9 sempre menos do que o que voc\u00ea viveu. A quest\u00e3o \u00e9, \u201cser\u00e1 que nada daquilo permanece?\u201d. Eu acho que muita coisa permanece. Insisto que se voc\u00ea quiser entender 2013 a partir de 68, basta ler a entrevista do Sartre com o Cohn-Bendit (Daniel Cohn-Bendit, l\u00edder estudantil do movimento). O Sartre disse pra ele, \u201cIsso tudo \u00e9 extraordin\u00e1rio, tem uma situa\u00e7\u00e3o potencialmente revolucion\u00e1ria aqui. Agora, onde voc\u00eas querem chegar?\u201d. E o Cohn-Bendit responde que n\u00e3o tem projeto, que o que vale \u00e9 a espontaneidade. Ou seja, toda agenda j\u00e1 implica em demandas que restringem a for\u00e7a desse movimento, que tem que ser ca\u00f3tico, que tem que dar um choque el\u00e9trico no sistema, e isso em si j\u00e1 \u00e9 o valor. E o Sartre responde, \u201cOk, entendo. Mas voc\u00eas n\u00e3o v\u00e3o conseguir manter essa energia. Se n\u00e3o canalizar, isso se dissipa. As f\u00e9rias v\u00eam a\u00ed, as pessoas v\u00e3o pra praia, vai haver uma dissipa\u00e7\u00e3o da for\u00e7a\u201d. E foi exatamente o que aconteceu.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o do ponto de vista das demandas espec\u00edficas das pessoas que sa\u00edram \u00e0s ruas em maio de 68, quando chega junho, elas perdem, porque De Gaulle reafirma seu poder, ainda que um ano depois ele deixe o mandato.<\/p>\n<p>Eu voltei a Paris e fui ver o ponto de vista da c\u00fapula da Sorbonne pelo boulevard Saint-Michel, onde todos os protestos aconteciam. Hoje em dia, aquilo \u00e9 uma pra\u00e7a. Em uma das esquinas, tem uma loja da GAP, e na outra, uma da Nike. V\u00e3o me dizer que o sistema foi vencido? N\u00e3o foi. Agora, seria tamb\u00e9m profundamente incorreto afirmar que 68 n\u00e3o deixou nenhuma marca na sociedade francesa. Deixou, e profund\u00edssima. Movimento das mulheres, dos imigrantes, de liberdade sexual, uma abertura das institui\u00e7\u00f5es que eram muito aristocr\u00e1ticas e fechadas, tudo isso \u00e9 um efeito civilizat\u00f3rio de maio. S\u00e3o coisas importantes, e pol\u00edticas.<\/p>\n<p>N\u00e3o era isso que eles queriam. Eles queriam coisas mais cl\u00e1ssicas, como derrubar o regime, uma nova maneira de produzir, queriam novas rela\u00e7\u00f5es. Isso tem um valor imenso. Quem viveu aquilo, se transformou pra sempre, nas suas rela\u00e7\u00f5es em casa, afetivas. Eu acho que 13 tem coisas muito semelhantes.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o 2013 conseguiu deixar marcas?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que sim, pra todos os lados. Acho que 13 anunciou que havia uma crise profunda de representatividade pol\u00edtica no Brasil. N\u00e3o era um objetivo claro, ou de boa parte das pessoas que sa\u00edram. O espectro ideol\u00f3gico era muito amplo, tinha gente da direita e da esquerda. Acho que elas n\u00e3o esperavam o impeachment, mas ele seria imposs\u00edvel sem 13. Percebeu-se que havia uma demanda na sociedade por mais\u00a0<em>accountability<\/em>, como dizem os americanos, mais transpar\u00eancia, e que a pol\u00edtica institucional estava contaminada pelo que havia de pior, e era preciso acabar com esse neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o vai ter Copa\u201d foi entendido como \u201cent\u00e3o vamos ver que Copa \u00e9 essa que est\u00e3o fazendo, que est\u00e1dios s\u00e3o esses que a Odebrecht est\u00e1 construindo\u201d. Isso chega na Dilma, e acaba dando em impeachment. N\u00e3o acho que fosse esse o prop\u00f3sito de 13, mas uma caracter\u00edstica desses movimentos sociais muito abertos e horizontais, que n\u00e3o querem definir agenda porque acham que as demandas t\u00eam que ser fluidas, \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o sabe o que vai ser entendido, nem como, por aqueles que agir\u00e3o depois em fun\u00e7\u00e3o do recado que recebem das ruas.<\/p>\n<p>Acho que esse foi o recado entendido por quem estava no Paran\u00e1, em Curitiba, e foram adiante, com a Lava Jato. Acredito que n\u00e3o teria uma assertividade t\u00e3o grande dos movimentos negros, do feminismo, como temos hoje no Brasil se n\u00e3o fosse 13 tamb\u00e9m. As pessoas se sentiram com o poder de fala, foi uma consequ\u00eancia muito positiva.<\/p>\n<p>Tem o outro lado dessa moeda tamb\u00e9m, que \u00e9 o de que quem sempre foi reacion\u00e1rio tamb\u00e9m se sentir no direito de dizer de maneira clara e sem nenhum tipo de encabulamento, \u201ceu sou a favor do golpe militar\u201d, \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d, \u201ceu vou votar no Bolsonaro\u201d. Isso era indiz\u00edvel por boa parte das pessoas antes, mas hoje tudo se tornou poss\u00edvel dizer. Eu acho que isso \u00e9 rico (risos), vai em todas as dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Em termos de perspectivas sobre o futuro, o que voc\u00ea acha?<\/strong><\/p>\n<p>Ah, estou muito inquieto em rela\u00e7\u00e3o a 2018, porque do que est\u00e1 a\u00ed, n\u00e3o tem ningu\u00e9m que possa oferecer uma solu\u00e7\u00e3o pra esse impasse, que \u00e9 o pr\u00f3prio sistema estar em crise. Sem uma reforma pol\u00edtica, sem mudar a maneira como a gente escolhe nossos representantes, isso n\u00e3o se resolve. Hoje em dia o Congresso se tornou uma entidade aut\u00f4noma que legisla, n\u00e3o pro pa\u00eds mas pra si pr\u00f3prio, e \u00e9 muito dif\u00edcil que eles mudem alguma coisa. Portanto, a gente continuar\u00e1 a escolher pessoas que passam pelo mesmo filtro, isso \u00e9 terr\u00edvel.<\/p>\n<p>Das pessoas que est\u00e3o a\u00ed pra 2018, \u00e9 realmente dif\u00edcil algu\u00e9m que tenha habilidade pol\u00edtica, n\u00e9? Nomes bons a gente sabe que existem, s\u00f3 que n\u00e3o com reais possibilidades.<\/p>\n<p><strong>Por que que voc\u00ea fez esse filme?<\/strong><\/p>\n<p>Come\u00e7ou com minha m\u00e3e, muito antes de maio de 68. E com essa quest\u00e3o, como \u00e9 que algu\u00e9m que teve curiosidade pelas coisas, teve prazer, alegria, pode perder isso? Claro que h\u00e1 quest\u00f5es m\u00e9dicas e tal, mas para al\u00e9m disso. Eu acho que a depress\u00e3o veio a reboque de uma incapacidade de dar sentido \u00e0 vida depois de ter passado por coisas que ela amou muito. Essa quest\u00e3o de voc\u00ea perder a capacidade de ser feliz \u00e9 uma quest\u00e3o minha tamb\u00e9m, um certo medo de me afastar das coisas, de me desengajar do mundo, do trabalho, \u00e9 um fantasma.<\/p>\n<p>A\u00ed eu comecei a pensar sobre isso e tive a experi\u00eancia de acompanhar a minha m\u00e3e, com quem eu tinha uma rela\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, at\u00e9 o final, quando ela decidiu que n\u00e3o valia a pena continuar a viver. Eu encontrei aquelas imagens da China, e em seguida, o relato que ela escreveu sobre essa viagem. O que me impressionou naquele momento era ver o quanto ela estava feliz, como ela se deslumbrou com aquilo que, a princ\u00edpio, tenderia a chatear, a horrorizaria, porque ela era uma mulher da alta sociedade, muito cat\u00f3lica, burguesa, conservadora.<\/p>\n<p><strong>Qual o nome dela?<\/strong><\/p>\n<p>Elisa.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea n\u00e3o fala no filme.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o falo, \u00e9 verdade (risos). Elisa Gon\u00e7alves. Todo mundo a chamava de Elisinha. Ela cai no meio da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural chinesa e, ao inv\u00e9s de se horrorizar, se comove. Eu n\u00e3o conhecia essa m\u00e3e. Eu conhecia uma m\u00e3e mais triste, incapaz desse movimento em dire\u00e7\u00e3o ao mundo, e principalmente em dire\u00e7\u00e3o ao seu contr\u00e1rio absoluto, sem negar mas aceitando, encontrando beleza. Eu comecei a pensar sobre isso, e a\u00ed ca\u00ed em 68, porque a gente vivia em 68, e o maio franc\u00eas foi muito influenciado pela Revolu\u00e7\u00e3o Cultural chinesa; Godard era mao\u00edsta, Sartre flertou com o mao\u00edsmo, essas pessoas eram importantes no ecossistema de maio de 68. Comecei a ler as mem\u00f3rias de quem viveu 68, e encontrei nelas, sem exce\u00e7\u00e3o, essa mesma quest\u00e3o, como dar sentido \u00e0 vida depois daquelas tr\u00eas semanas. O filme nasce dessa tentativa de falar da intensidade, de sua dissipa\u00e7\u00e3o, e de como se consegue sobreviver ao fim dela. O segredo n\u00e3o est\u00e1 no filme, porque eu n\u00e3o tenho que dar li\u00e7\u00e3o, mas o pulo do gato \u00e9 a n\u00e3o-nostalgia. Saudades tudo bem, mas nostalgia, como desejo de recuperar aquilo, n\u00e3o, porque \u00e9 irrecuper\u00e1vel, passou, \u00e9 como a juventude.<\/p>\n<p><strong>Quando voc\u00eas sa\u00edram do Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>A gente saiu do Brasil em 64 por causa do golpe. Meu pai tinha sido ministro do Jango, e ele achou que podia ter algum tipo de retalia\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o fomos pra Paris. E a gente voltou em 68, porque ficaram assustados de que os bolcheviques estavam chegando. Eu tinha 6 anos, n\u00e3o me lembro de nada. Mas eu sei que esse movimento de retorno ao Brasil foi causado pelo maio. Acho que a gente vem durante as semanas de tumulto, ficamos aqui duas ou tr\u00eas semanas, retornamos \u00e0 Fran\u00e7a pra cumprir o ano letivo, e a\u00ed no final do ano voltamos pro Brasil. Em 69 j\u00e1 estava aqui.<\/p>\n<p><strong>O filme mudou alguma coisa em rela\u00e7\u00e3o a sua m\u00e3e?<\/strong><\/p>\n<p>Agora em Lisboa, algu\u00e9m da plateia disse, \u201ceu reparei que no final do filme, nos tr\u00eas \u00faltimos minutos, voc\u00ea se refere a ela como \u2018mam\u00e3e\u2019. Antes era \u2018minha m\u00e3e&#8217;\u201d. Foi a primeira pessoa que reparou nisso. Esse \u201cmam\u00e3e\u201d apareceu na \u00faltima escrita, na \u00faltima grava\u00e7\u00e3o, e eu me senti \u00e0 vontade pra dizer aquilo naquele momento, n\u00e3o sentiria no in\u00edcio do filme. A\u00ed eu pensei que talvez esses 4 anos de trabalho, e o pr\u00f3prio arco do filme, fez com que eu me aproximasse um pouco mais dela. A dist\u00e2ncia que existia, que era muito grande nos \u00faltimos anos de vida dela, talvez tivesse diminu\u00eddo no fim, e a linguagem de certa maneira manifestou isso.<\/p>\n<p>Acho que \u201cSantiago\u201d \u00e9 um filme sobre o pai, enquanto que esse \u00e9 sobre a m\u00e3e. N\u00e3o \u00e9 uma coisa que eu tenha pensado antes de come\u00e7ar a fazer, nem um nem o outro, acabou sendo isso, mas eles estabelecem um di\u00e1logo desta maneira.<\/p>\n<p><strong>Alguma raz\u00e3o afetiva por incluir imagens da Primavera de Praga no filme?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, nenhuma, mas \u00e9 quando cai o pano das utopias de 68. Pra todo mundo que viveu o per\u00edodo, o \u00fanico experimento da Cortina de Ferro que parecia apontar na dire\u00e7\u00e3o de um socialismo mais humano, democr\u00e1tico, aberto, era a Tchecoslov\u00e1quia durante aqueles sete meses da Primavera de Praga. E aquilo \u00e9 ceifado pela invas\u00e3o dos tanques do Pacto de Vars\u00f3via, liberado pelos sovi\u00e9ticos.<\/p>\n<p>A\u00ed o Chris Marker, muito envolvido nos movimentos de 68, escreve no livro dele que todo mundo ficou \u00e0 espera da resposta de Fidel Castro, porque Cuba era a possibilidade de um socialismo moreno, dan\u00e7ante, alegre, feliz, o contr\u00e1rio da burocratiza\u00e7\u00e3o e do horror do Gulag sovi\u00e9tico. Ficaram esperando o que Fidel ia dizer porque estavam convencidos de que ele iria romper com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Dois dias depois, Fidel vai \u00e0 televis\u00e3o e d\u00e1 uma declara\u00e7\u00e3o impressionante, na qual ele diz essencialmente o seguinte: \u00e9 uma invas\u00e3o absolutamente imoral, porque s\u00e3o pa\u00edses estrangeiros ocupando uma na\u00e7\u00e3o soberana, mas politicamente \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio, porque n\u00e3o podemos deixar um pa\u00eds socialista derivar pro campo do Ocidente. E a\u00ed o Marker diz, \u201ccaiu o pano\u201d. N\u00e3o havia mais pra onde olhar, n\u00e3o havia mais para\u00edso.<\/p>\n<p><strong>Tempos atr\u00e1s eu entrevistei o Fernando Morais, e ele tamb\u00e9m fez um coment\u00e1rio nesse sentido, sobre uma esp\u00e9cie de \u201cmal necess\u00e1rio\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>O contr\u00e1rio disso \u00e9 o Cohn-Bendit, por quem tenho grande simpatia, at\u00e9 porque ele \u00e9 muito humano, os pecados dele me enternecem, acho \u00f3timo o fato dele ter ido pra Berlim \u00e0s custas de uma revista de fofocas. Em 98, no anivers\u00e1rio de 30 anos de maio de 68, ele declara pro jornal, \u201cMaio de 68, n\u00f3s vencemos no front da cultura, e gra\u00e7as a Deus, n\u00e3o tomamos o poder. Perdemos no front pol\u00edtico\u201d. E ele \u00e9 massacrado at\u00e9 hoje por ter dito isso, mas o que ele quer dizer \u00e9 isso que voc\u00ea identificou no Fernando Morais. Os modelos que estavam na cabe\u00e7a deles eram modelos autorit\u00e1rios. Se eles chegassem ao poder, eles iam instituir uma curva, eles iam substituir com as consequ\u00eancias que a gente sabe, \u201cah, d\u00e1 pra fuzilar alguns\u201d. Como o Cohn-Bendit \u00e9 essencialmente um democrata e um humanista, ele d\u00e1 gra\u00e7as a Deus por n\u00e3o ter assumido o poder e ter estado em condi\u00e7\u00e3o de ter tomado esse tipo de decis\u00e3o. Eu acho que o Gabeira concordaria tamb\u00e9m, \u00e9 um pouco a mesma cabe\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea vem numa toada de se expor, n\u00e9? Logo voc\u00ea que \u00e9 um cara mais introvertido, de repente se escancara.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma coisa que eu fa\u00e7a com facilidade. Por outro lado, se tornou dif\u00edcil pra mim voltar a fazer os filmes tradicionais, do card\u00e1pio, do document\u00e1rio mundial e especialmente brasileiro. Que filmes tradicionais s\u00e3o esses? S\u00e3o aqueles em que voc\u00ea sai do seu apartamento, de um bairro bom, da parte organizada de uma cidade em um pa\u00eds pobre, e voc\u00ea vai filmar as pessoas que moram na periferia, na favela. Provavelmente 80% dos filmes realizados t\u00eam essa caracter\u00edstica.<\/p>\n<p><strong>No Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>No mundo tamb\u00e9m. O document\u00e1rio \u00e9 um pouco o g\u00eanero em que as pessoas que t\u00eam filmam as que n\u00e3o t\u00eam, n\u00e9? E isso se tornou um problema pra mim, porque eu sei que esses filmes s\u00e3o poss\u00edveis de serem feitos pois a gente usa do nosso privil\u00e9gio de ser branco pra ir na Rocinha filmar. \u00c9 muito f\u00e1cil de imaginar um filme feito por jovens cineastas de um condom\u00ednio fechado da Barra da Tijuca sobre o Complexo da Mar\u00e9. \u00c9 imposs\u00edvel imaginar o de um grupo de jovens do Complexo da Mar\u00e9 sobre um condom\u00ednio fechado da Barra da Tijuca, que eles n\u00e3o entrariam. Na verdade, chamariam a pol\u00edcia, e eles seriam presos.<\/p>\n<p><strong>Seria um \u00f3timo filme, rs.<\/strong><\/p>\n<p>Esse seria um filme deslumbrante, \u00e9 o filme que revoluciona o document\u00e1rio brasileiro. Mas por enquanto, ele ainda n\u00e3o foi feito. E isso passou a ser uma reflex\u00e3o minha.<\/p>\n<p>Por volta de \u201cSantiago\u201d, eu me dei conta que o que eu podia falar com legitimidade era de mim mesmo, e do meu mundo. Como meu mundo \u00e9 um que aparece no cinema, porque a gente se fecha, se defende, talvez essa pudesse ser a minha contribui\u00e7\u00e3o no cinema, abrir uma janela pro mundo do qual eu venho. Me pareceu politicamente importante fazer esse tipo de cinema, com todas as dificuldades pruma pessoa que de fato nunca se exp\u00f4s.<\/p>\n<p><strong>Creio que isso seja amadurecimento. Mas \u201cNot\u00edcias de Uma Guerra Particular\u201d e \u201cNelson Freire\u201d s\u00e3o grandes filmes.<\/strong><\/p>\n<p>O \u201cNelson\u201d \u00e9 um filme no qual saio um pouco dessa equa\u00e7\u00e3o, de filmar a trag\u00e9dia social brasileira. E o \u201cNot\u00edcias\u201d \u00e9 um filme meu e da Katia Lund, de duas pessoas querendo produzir um documento sobre o que estava acontecendo na minha cidade naquele momento. Infelizmente, \u00e9 um filme que se tornou atual de novo, achei que aquilo j\u00e1 tivesse ficado pra tr\u00e1s. Mas hoje em dia eu teria dificuldade de fazer esse tipo de filme. N\u00e3o quer dizer que eu n\u00e3o volte a fazer, mas preciso encontrar maneiras de resolver essa quest\u00e3o do poder, porque ela existe. Do meu privil\u00e9gio permitir filmar pessoas que est\u00e3o do lado de l\u00e1 da desigualdade brasileira. Foi quando eu passei a usar a primeira pessoa.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea come\u00e7ou com o audiovisual e ensaiou um v\u00f4o pro jornalismo. E eu sou o contr\u00e1rio, comecei no jornalismo e hoje trabalho numa produtora. Como \u00e9 que as duas coisas dialogam pra voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>O Steve Coll, que \u00e9 o diretor do departamento de jornalismo da Universidade de Columbia, e que j\u00e1 ganhou dois Pulitzers, esteve aqui no Festival da piaui, dizendo que se tivesse que recome\u00e7ar hoje, recome\u00e7aria como documentarista, pois acha que o jornalismo hoje em dia migra pro audiovisual, e que h\u00e1 coisas extraordin\u00e1rias a serem feitas com imagens no campo do jornalismo. Acho que isso \u00e9 um pouco ing\u00eanuo, mas entendo porque ele diz isso.<\/p>\n<p>Creio que a garotada que quer ser jornalista hoje em dia n\u00e3o tem como objeto de desejo o New York Times, mas a Vice, porque \u00e9 \u00e1gil, \u00e9 r\u00e1pido, \u00e9 visual, tem uma capacidade imensa de viraliza\u00e7\u00e3o na internet. Do meu ponto de vista, o ideal \u00e9 que essas coisas passassem a conviver juntas. O New York Times tem uma plataforma de produ\u00e7\u00e3o de document\u00e1rios muito rica e interessante, e eles d\u00e3o visibilidade a isso cada vez mais. Claro que eles s\u00e3o essencialmente um ve\u00edculo de imprensa escrita, mas cada vez mais o visual ganha espa\u00e7o. Mesma coisa acontece no Guardian, e no Washington Post. Isso \u00e9 inevit\u00e1vel, e esta fertiliza\u00e7\u00e3o m\u00fatua \u00e9 muito bem-vinda.<\/p>\n<p>Particularmente, quando eu criei a piaui e passei a escrever pra revista, n\u00e3o fiz nada de diferente daquilo que fazia como documentarista. Meu procedimento de apura\u00e7\u00e3o, a maneira como estruturava as hist\u00f3rias escritas, como eu descrevia as cenas, era essencialmente a mesma que eu empregava com uma c\u00e2mera. O modo de narrar n\u00e3o mudava, mudava a ferramenta que estava usando.<\/p>\n<p><strong>Uma ferramenta bem mais barata.<\/strong><\/p>\n<p>Sem d\u00favida, mas mais do que isso. A quest\u00e3o no fundo \u00e9 se a hist\u00f3ria cabe mais no texto escrito ou no document\u00e1rio filmado. Acho que o \u201cEntreatos\u201d seria mais pobre se eu tivesse escrito, porque tem o corpo que fala, o gesto, a express\u00e3o, tem um abra\u00e7o que o Lula d\u00e1 no Dirceu, outro no Palocci, tudo isso faz parte da informa\u00e7\u00e3o. Seria muito dif\u00edcil materializar escrito.<\/p>\n<p>Por outro lado, o perfil que eu fiz do Artur Avila, o matem\u00e1tico que viria a ganhar anos depois o Fields Medal, seria imposs\u00edvel filmar, porque tudo o que o Artur faz \u00e9 abstrato; \u00e9 deitar numa cama e pensar. Como \u00e9 que se filma algu\u00e9m na cama pensando? Qual \u00e9 a diferen\u00e7a de um grande matem\u00e1tico na cama pensando, e de um sujeito med\u00edocre na cama pensando? O que d\u00e1 pra filmar, voc\u00ea filma. O que s\u00f3 cabe na escrita, voc\u00ea escreve. Mas o procedimento, a maneira de capturar o mundo, \u00e9 fibra do mesmo tecido.<\/p>\n<p><strong>Existe machismo no audiovisual?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que essa pergunta pode ser ampliada, acho que existe patriarcado na imprensa. As reda\u00e7\u00f5es s\u00e3o majoritariamente lideradas por homens, s\u00e3o poucas mulheres que comandam as a\u00e7\u00f5es. O cinema \u00e9 mais um aspecto de uma sociedade que \u00e9 patriarcal, pra n\u00e3o falar da ra\u00e7a. A\u00ed realmente as reda\u00e7\u00f5es t\u00eam um trabalho a fazer. Elas s\u00e3o brancas, \u00e9 um 2017 criminoso!<\/p>\n<p>Tenho a impress\u00e3o que sim, se voc\u00ea pegar na fun\u00e7\u00e3o, na hierarquia, os diretores s\u00e3o bem mais homens do que mulheres, embora voc\u00ea tenha uma crescente presen\u00e7a de mulheres dirigindo filmes, muito mais hoje do que dez anos atr\u00e1s, do que dez anos antes. O Cinema Novo \u00e9 essencialmente de homens. O cinema contempor\u00e2neo brasileiro n\u00e3o \u00e9 essencialmente de homens, \u00e9 um cinema de mulheres, que escrevem, que dirigem, mas ainda s\u00e3o minoria.<\/p>\n<p>http:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/inconsciente-coletivo\/maio-de-68-junho-de-2013\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Morris Kachani &#8211;\u00a0Trilhando seu caminho entre a dire\u00e7\u00e3o de numerosos document\u00e1rios de respeito e a gest\u00e3o da revista piau\u00ed, Jo\u00e3o Moreira Salles, filho ca\u00e7ula do ex-ministro, embaixador e banqueiro Walther Moreira Salles, enxerga com apreens\u00e3o o futuro da na\u00e7\u00e3o: \u201cN\u00e3o tem ningu\u00e9m que possa oferecer uma solu\u00e7\u00e3o para esse impasse, que \u00e9 o pr\u00f3prio sistema [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6137,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[2,8],"tags":[49,50],"class_list":["post-6136","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-politica","category-sociedade","tag-conjuntura","tag-esquerda"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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